segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Registro 293: Texto de Fernando de Barros e Silva

O texto de autoria de Fernando de Barros e Silva é exemplar, porque expõe de forma direta e clara o obscurantismo da universidade que expulsa a aluna e avaliza, em nome de princípios pedagógicos, a barbárie. A que ponto nós chegamos?! As justificativas atestam a perversidade de uma instituição que deveria cuidar da formação de estudantes, futuros profissionais e quiçá dirigentes da nação. No entanto, o que ela faz contradiz os princípios que regem o universo da educação. Fascistas! É o que se pode dizer deles. Fosse eu pai de uma filha pediria sua transferência imediata.

Os linchadores da Unib
A notícia da expulsão de Geisy Arruda pela Uniban é estarrecedora. O informe divulgado ontem pela direção da universidade, por meio do qual a aluna ficou sabendo da decisão, é um panfleto obscurantista que requer análise. Ele transforma a incitação ao estupro de uma jovem acossada na universidade por algumas centenas de marmanjos em "reação coletiva de defesa do ambiente escolar".

Eis o que conclui a "sindicância" da Uniban: "Foi constatado que a atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Geisy, diz a nota, ensejou "de forma explícita os apelos dos alunos" e foi expulsa por "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade". O título do informe agrega ao conteúdo um toque de humor negro: "A educação se faz com atitude e não com complacência".
De que educação falam esses farsantes? Devemos chamar essa fábrica de açougueiros de instituição de ensino? Que princípio ético ou dignidade acadêmica podem sobreviver a uma escola que pune a vítima humilhada para respaldar a brutalidade e a covardia de uma turba excitada com a própria fúria?
Como se sentirão agora as garotas que estudam na Uniban? Estarão os rapazes liberados pela direção a agir sempre assim em defesa do "ambiente escolar"?
As cenas são conhecidas: "Pu-ta!, pu-ta!", "vamos estuprar!", "solta ela, professor!". Um aluno chutou a maçaneta da porta da sala em que a moça estava encurralada; outros tentaram colocar o celular entre suas pernas para fotografá-la.
A Uniban invoca um zelo pedagógico que não tem para satisfazer a vontade fascista da maioria e preservar os negócios. Com sua decisão, ela deu chancela institucional aos atos de barbárie praticados em suas dependências. Mais do que isso: ao linchar Geisy, a universidade consuma o serviço que os alunos haviam deixado pela metade.
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Folha de São Paulo, edição de 9 de novembro de 2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Regsitro 292: Lá se foi Anselmo Duarte

Lembro-me bem quando vi o filme de Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas, exibido no Cine Madrid em Feira de Santana, Bahia. Conhecia o ator dos filmes da Atlântida, exibidos no Cine Teatro Cliper, de propriedade de meu pai, na cidade de Ipirá.
Ver O Pagador de Promessas foi (é) uma experiência marcante. A atmosfera do filme, as interpretações, a forma como o cineasta capta Salvador e seu arredores, o desenvolvimento do roteiro e a estrutura narrativa clássica prenderam a atenção do garoto que aos 12 anos tinha o cinema como a sua maior diversão. Era o meu brinquedo preferido, capturado que fui desde os seis anos, quando era levado às matinês no cinema onde passei parte de minha infância.
Anos mais tarde, me dei conta da polêmica desencadeada pelos cineastas ligados ao ciclo que ficou conhecido como Cinema Novo, críticos contundentes do filme. Consideravam a obra esquemática, acadêmica, conservadora nas suas constituintes. Não aceitavam o fato do filme ter recebido a Palma de Ouro no Festival de Cannes (1962). Por falar em premiação, a lista de láureas concedidas ao filme O Pagador de Promessas, aos seus atores e técnicos é imensa. Para quem se interessar em conferir, indico o ótimo Dicionário de Filmes Brasileiros de autoria de Antônio Leão da Silva Neto (não é meu parente).
No tempo da minha adolescência, eu não me interessava por essa querela, ainda hoje não sei se isso me interessa. O que importava é que o mesmo impacto causado em mim pelo filme de Anselmo Duarte, foi o mesmo causado por Barravento (1961), Porto das Caixas (1962), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Vidas Secas (1963), entre outros expoentes da cinematografia tupinquim. É certo que ao longo daquele tempo, fui percebendo as diferenças que regiam a gramática dos diretores que se opunham ao filme de Anselmo Duarte, mas isso não mudou em nenhum momento a força de comunicação do seu filme em mim.
Revi O Pagador de Promessas inúmeras vezes. Em todas elas, constatei a presença dessa qualidade que torna alguns filmes memoráveis. Mesmo com outros olhos, os já cansados de tantas imagens e tantas estéticas, pude retirar da obra um leitura renovada, um aspecto não percebido, um detalhe perdido. Em meio a tudo isso, a força da primeira impressão a pulsar diante das cenas revisitadas.
O adolescente ensimesmado que residia na mesma rua do Cine Madrid, não imaginava que um dia estaria em um set de filmagem juntamente com Anselmo Duarte e fazendo um personagem que era marido da personagem de Ilka Soares. Tal acontecimento, devo a Djalma Limongi Batista, que me escolheu para o pequeno papel em seu longa Brasa Adormecida (1986). Filmado em uma belíssima fazenda no interior de São Paulo, o longa reunia um elenco numeroso e Anselmo Duarte marcava com sua experiência e passado o filme e, com histórias, os longos e às vezes entediantes intervalos das filmagens. Enquanto eu ouvia seus casos, lembrava-me do Cine Teatro Cliper onde vi Tico-Tico no Fubá, Absolutamente Certo e outros filmes que a memória não dá conta.
Fui espectador de Vereda da Salvação, o belo filme que fez depois do sucesso de O Pagador de Promessas. Rejeitado pelo público, raramente é exibido. Quem sabe agora, depois de sua morte, façam uma retrospectiva dos seus trabalhos como ator e diretor. Vê-lo em O Caso dos Irmãos Naves de Luiz Sérgio Person, é tomar conhecimento de uma ator com possibilidades interpretativas que não se restrigem ao trabalho do galã que foi.
Aplausos para Anselmo Duarte.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Registro:291: Não deixe de ler

O texto de João Pereira Coutinho foi publicado em A Folha de S. Paulo, edição de 3 de novembro de 2009. Leia. Vale a pena.

Temor e tremor

JOÃO PEREIRA COUTINHO

ALMOÇO COM um colega de trabalho no centro de Lisboa. Subitamente, o celular dele dá sinais de vida. Ele atende. Reparo que fica pálido. Levanta-se, grita pelo celular um "já-estou-a-caminho" que me faz levantar também e sai do restaurante. Pago a conta, entro no carro com ele. Temo o pior: um familiar atropelado, sequestrado, assassinado.
Falso alarme: o filho, uma criança com sete anos, apresentou sintomas de febre no colégio. E dores de cabeça. E alguns vômitos. As salas de aula foram imediatamente evacuadas, e a criança, aterrorizada com os procedimentos, foi isolada em compartimento à parte, onde só se entra com máscaras e, imagino, uma daquelas vestimentas que os astronautas usam na superfície lunar. "A professora suspeita de gripe A", diz-me ele, com a voz rouca, a ameaçar pranto.
Chegamos ao colégio, ele sai do carro, corre para a sala em que está o filho. Antes de entrar no leprosário, entregam-lhe uma máscara. Ele põe a máscara, agarra a criança -que, entretanto, adormeceu de tanto chorar- e a leva para o carro. Mas pergunta primeiro: "João, preferes ir de táxi para não haver perigo de contágio?".
É nesses momentos que uma pessoa relembra os pensamentos estoicos de Marco Aurélio e responde: "Não é preciso. Eu vou sobreviver".
A criança dorme. O pai, ainda de máscara, ameaça não dormir nas próximas noites. E eu, sem máscara (mas com a úlcera dilatada), medito em silêncio respeitoso. Por que motivo o mundo enlouqueceu à minha volta?
A resposta é mais sinistra do que imaginam. Todos os anos, a gripe sazonal ataca com ferocidade. O vírus, que potencia outras complicações de saúde, mata meio milhão de pessoas no mundo inteiro. Um verdadeiro massacre que, estranhamente, não faz manchetes nos jornais como a gripe A. Motivos?
A resposta mais evidente seria dizer que a gripe A é incomparavelmente mais mortífera do que a gripe sazonal que nos visita todos os anos.
Infelizmente, a resposta estaria errada: a julgar pelo número de vítimas no hemisfério Sul, onde o inverno já veio e já foi, as vítimas da gripe A foram bastante inferiores às vítimas anuais da gripe sazonal.
Só na Austrália, informa a edição corrente da revista "The Atlantic", morreram mil pessoas. Todos os anos, morrem na Austrália 3.000 com a gripe normal.
Se assim é, repito, como explicar a histeria?
Com uma única palavra: juventude. Afirmei que a gripe sazonal mata meio milhão de pessoas todos os anos. Mas essas 500 mil almas são, na esmagadora maioria dos casos, velhos e, é claro, doentes crônicos, tudo gente que não entra na contabilidade midiática. Velhos e doentes são, por assim dizer, "dispensáveis".
A gripe A altera o cenário ao atacar e, por vezes, matar gente saudável e jovem. As preocupações médicas são compreensíveis e respeitáveis: uma pandemia de gripe A seria dramática. Mas a histeria global é sobretudo ideológica, não médica: ela explica-se pelo simples fato de a gripe A não respeitar a "saúde" e a "juventude", os dois únicos deuses que o mundo moderno respeita e louva com verdadeiro fervor pagão.
Se a gripe A se limitasse ao seu trabalho habitual, ceifando apenas velhos e doentes, não haveria um espirro nos jornais. E a criança? A criança sobreviveu.
Desde logo porque não era gripe, muito menos a temível A. "Provavelmente foi uma virose", disse-me o pai, dias depois, aliviado. Sorri. "Virose" é a palavra favorita dos médicos para explicarem o que não conseguem explicar. Mas depois acrescentou: "Seja como for, vou vacinar a família inteira contra a gripe A. Nunca se sabe".
Precisamente: nunca se sabe. A frase, aliás, resume o estado da arte sobre o assunto. No referido número da revista "The Atlantic", alguns especialistas mundiais levantaram dúvidas sobre a eficácia da vacinação. Um exemplo: em 2004, houve uma quebra de 40% na produção da vacina. Paradoxalmente, o índice de mortalidade desse ano ficou rigorosamente na mesma.
Pior: em 1989, apenas 15% da população americana e canadense acima dos 65 anos optava pela vacina; hoje, a percentagem subiu para os 65%. Paradoxalmente, o número de mortos também subiu.
Preferi não falar mais sobre o assunto. Ainda a recuperar do primeiro susto, talvez o meu colega não se recuperasse de um segundo. E para quê? Se a vacina traz segurança, ou uma ilusão de segurança, a verdade será sempre um luxo a que não nos podemos permitir.

sábado, 31 de outubro de 2009

Registro 290: Biblioteca Osmar Rodrigues Cruz

O Instituto Osmar Rodrigues Cruz, uma iniciativa de sua filha, a professora Maria Eugênia Rodrigues Cruz, companheira de elenco na montagem de A Falecida dirigida por Osmar para o Teatro Popular do Sesi, coloca na rede a Biblioteca Virtual Osmar Rodrigues Cruz, com o objetivo de divulgar o acervo de milhares de livros sobre teatro que o diretor organizou ao longo de sua vida.
Através do portal, em fase de testes, os interessado terão acesso aos livros e revistas que serão digitalizados. Tal iniciativa deve ser apoiada por todos, pois significa um passo no sentido de tornar público uma biblioteca particular contendo obras raras, de grande importância para os pesquisadores e estudiosos do teatro. Somente os amigos mais íntimos de Osmar Rodrigues Cruz tiveram contato com a biblioteca, agora aos cuidados de Maria Eugênia. Mas iniciativa abre essa possibilidade para muitos. O gesto de Maria Eugênia mostra a compreensão que ela tem desse acervo e da necessidade de socializá-lo, visto que o meio encontrado para sua divulgação tende a se expandir permitindo o acesso a todos.
Ao registrar esse acontecimento, sinto-me honrado pelo convite feito por Maria Eugênia, para que eu participasse da diretoria do Instituto.
Para quem quiser visitar o portal é só acessar o endereço abaixo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Registro 289: Noite de Reis


sábado, 17 de outubro de 2009

Registro 288: Importante texto de Antonio Cícero

ANTONIO CÍCERO

O islã e os direitos humanos


Quanto mais uma ideologia se pretender superior à crítica, tanto mais merece crítica



ATÉ POUCO tempo, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDH), criado há três anos, encontrava-se inteiramente controlado por Estados membros da Organização da Conferência Islâmica. Infinitamente mais preocupados em blindar sua religião contra qualquer crítica do que em proteger os direitos humanos dos seus cidadãos, esses Estados conseguiam, ano após ano, passar resoluções de condenação à "difamação de religiões".
Na prática isso significava endossar os atentados constantes de diversos Estados contra o direito humano fundamental da liberdade de expressão. Assim, a crítica a determinadas práticas de fundo religioso -como a execução de apóstatas e homossexuais, a clitorectomia, a lapidação de adúlteras ou a amputação das mãos de ladrões, por exemplo- podia ser enquadrada como "difamação de religiões". Também a perseguição de hereges, de membros de religiões minoritárias ou de ateus pode ser justificada através dessa noção. Em suma, ao condenar a "difamação de religiões", o CDH, por um lado, racionalizava exatamente o desrespeito aos direitos humanos e, por outro lado, inibia qualquer crítica a esse desrespeito: violando, desse modo, o direito humano fundamental à liberdade de opinião e expressão.
Na verdade, os direitos humanos são direitos de seres humanos individuais, face ao Estado, às igrejas e, de maneira geral, a todas as instituições e coletividades. Por isso, à medida que qualquer sistema de crenças e comportamentos tradicionais seja secular, seja religioso sirva para racionalizar o desrespeito aos direitos dos indivíduos, ele deve ser criticado por violar os direitos humanos. Quanto mais uma ideologia secular ou religiosa se pretender superior à crítica, tanto mais, por isso mesmo, merece crítica. Nada mais absurdo do que tentar converter os direitos humanos no seu oposto, tomando-os como os direitos das religiões face aos -ou melhor, contra os- seres humanos.
Na era Bush, os Estados Unidos, desprezando tanto as Nações Unidas quanto os direitos humanos -pisoteados, por exemplo, em Guatánamo- desdenhavam participar do CDH. Com isso, abandonavam-no, na prática, à Organização da Conferência Islâmica. Neste ano, porém, a secretária de Estado Hillary Clinton anunciou que os Estados Unidos, coerentes com a rejeição da política arrogantemente unilateral de Bush, haviam decidido participar do Conselho, com a esperança de torná-lo melhor. De fato, deve-se dizer que eles conseguiram isso, em certa medida.
Ainda em 27 de março, antes da entrada dos Estados Unidos no Conselho, este passou mais uma resolução de condenação à "difamação de religiões". No dia 2 do corrente mês porém, após intensas negociações em Genebra, os Estados Unidos conseguiram chegar a um compromisso com o Egito, por meio do qual foi tomada uma nova resolução da qual já não consta essa noção.
Isso nos lembra, aliás, de que foi no Egito que, em junho, ante os estudantes e professores da Universidade do Cairo, Barack Obama teve a coragem de declarar que o negacionismo do Holocausto é algo "infundado, ignorante e odioso". Embora a nova resolução represente um progresso considerável -que foi devidamente saudado como tal pelas mais importantes organizações internacionais que defendem a livre expressão, tais como a "Artigo 19"- a verdade é que ainda há um longo caminho a percorrer.
É que, embora já não se refira à "difamação de religiões", a nova resolução ainda condena tanto o uso de "estereótipos negativos raciais e religiosos" quanto qualquer defesa de "ódio religioso que constitua incitação à discriminação, hostilidade ou violência". Isso deu margem, por exemplo, a que o paquistanês Zamir Akram, falando em nome da Organização da Conferência Islâmica, condenasse o uso de "estereótipos negativos" não somente em relação a indivíduos mas a sistemas de crenças.
Falando pela União Europeia, o francês Jean-Baptiste Mattei afirmou então que "a lei de direitos humanos não protege nem deve proteger sistemas de crenças. Logo, o que foi dito sobre estereótipos só se aplica a estereótipos de indivíduos, não de ideologias, religiões ou valores abstratos.
A União Europeia rejeita e continuará a rejeitar o conceito de difamação de religiões e também rejeita o abuso de religiões ou crenças para a incitação ao ódio. [...] Os Estados não devem tentar interferir no trabalho de jornalistas e devem permitir a independência editorial da mídia".
Não deixa de ser bom que algo se mova até mesmo lá, onde nada parecia acontecer.
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Faço o registro do texto publicado na edição do jornal Folha de S. Paulo (17.10.2009) por concordar com ele. Não tenho nenhuma dúvida com relação a seus argumentos e eles podem ser estendidos ao nosso país, tendo em vista os absurdos cometidos em nome das religiões e de Deus. Os abusos cometidos em nome de uma crença seja ela religiosa ou política não se justificam. Acima desses postulados ditatoriais ou ignorantes estão os direitos da pessoa. Precisamos ficar alertas...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Registro 287: Parabéns, Fernanda Montenegro

O texto que transcrevo (Folha de S. Paulo, 16.10.2009), de autoria de Sábato Magaldi é exemplar. Expoente entre os melhores crítico do teatro brasileiro, Magaldi sabe expor com sensibilidade os passos de Fernanda Montenegro sobre o palco. Junto-me ao crítico para homenagear a grande atriz, que tem brindado o público com sensíveis interpretações. Infelizmente, não vi todas as criações de Fernanda Montenegro, mas tive o prazer de vê-la em Seria cômico se não fosse trágico, sob a direção de Celso Nunes; ri muito ao apreciar seu trabalho em É... de Millôr Fernandes. Em Da Gaivota, uma leitura de Daniela Thomas para o clássico de Tchecov, na sessão que vi, a atriz não estava nos seus melhores dias, mesmo assim deixava uma forte impressão ao fazer Arkádina. Nos filmes, A Falecida, Tudo Bem e Central do Brasil, a atriz mostra o que sabe e explora as personagens de forma densa, compreendendo-as por dentro. Na televisão, fez personagens maravilhosos porque soube emprestar o seu talento sem deixar se abater pela mediocridade que às vezes acompanha a produção televisiva.

Vida longa à atriz!

Montenegro é valor absoluto do teatro

Atriz, que completa 80 anos hoje, une talento espontâneo à capacidade de vivenciar plenamente a personagem

SÁBATO MAGALDI

O moderno teatro brasileiro é pródigo em grandes atrizes. Mencioná-las corre o risco de levar a um esquecimento, por certo imperdoável. Razão suficiente para citar apenas Fernanda Montenegro, cujo aniversário se está comemorando. Já há muitas temporadas ela é considerada grande atriz.
Sustenta esse conceito a soma de numerosos atributos: a capacidade de vivenciar plenamente a personagem, o domínio dos meios para alcançar os desejados efeitos, a inteligência a fim de manter a adesão do público, o talento espontâneo para transmitir drama e comédia. Mérito especial vem de que ela não precisou cursar uma escola, a não ser a de aproveitar a companhia da grande atriz Henriette Morineau, outro monstro sagrado que tanto enobreceu o teatro brasileiro.
Certamente, Fernanda soube inspirar-se na talentosa atriz francesa, de técnica admirável, que valorizava o uso da palavra. Cabe lembrar que Fernanda, vinda a São Paulo do Rio de Janeiro, participou do elenco do Teatro Popular de Arte (Companhia Maria Della Costa), de proposta semelhante à do Teatro Brasileiro de Comédia. No palco da rua Paim, ela foi, em 1955, protagonista de "A Moratória", que lançou Jorge Andrade como um dos importantes dramaturgos brasileiros. E, no TBC, ela viveu a personagem principal de "Vestir os Nus", texto de Pirandello.
Fase brilhante da carreira de Fernanda Montenegro foi também quando atuou no Teatro dos Sete. O conjunto encenou em 1959, no Municipal do Rio de Janeiro, "O Mambembe", obra-prima do nosso clássico Artur Azevedo. E, no Ginástico daquela cidade, Fernanda viveu Selminha, da peça "Beijo no Asfalto", escrita por Nelson Rodrigues a pedido dela. Os espectadores se impressionavam, entre outros momentos, com o vigor da cena em que a atriz defendia a virilidade do marido.
Fernanda Montenegro, depois de extinto o Teatro dos Sete, se fez empresária dos próprios espetáculos, realizados por Fernando Torres. Como era natural num sistema de produção do gênero, alternaram-se peças exigentes e textos comerciais. O que acontecia na tradição dos palcos britânico, francês e norte-americano. A qualidade literária pouco importa: o teatro é criação definida pela presença física do ator, e grande ator pode realizar melhor um espetáculo com uma obra medíocre do que um grande texto desempenhado por um ator fraco. Sem o sopro de Fernanda Montenegro, várias peças pouco significariam.
Atriz exemplar de teatro, monstro sagrado, no pleno sentido que tem a expressão, Fernanda Montenegro faz o efêmero do desempenho se igualar à perenidade de qualquer outra arte. Fernanda Montenegro é um dos valores absolutos do nosso palco.


SÁBATO MAGALDI é teórico, crítico e professor de teatro; escreveu "Panorama do Teatro Brasileiro" (1962) e "Moderna Dramaturgia Brasileira" (1998), entre outros

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Registro 286: Depoimento IX

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

Lelo Filho, ator, um dos responsáveis pelo grande sucesso do teatro baiano A Bofetada, espetáculo que completou 21 anos em cartaz (2009) e cativa o público por onde passa.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Admiro muita gente daqui e pelo Brasil afora. O elenco que divide cena comigo em A Bofetada é muito talentoso. Não poderia deixar de citar ainda, Rita Assemany, Yumara Rodrigues, Nanini, Wagner Moura, Chico Anísio, Fernandona, Fernandinha, Marieta e recentemente passei a admirar muito o trabalho e a versatilidade de Andréa Beltrão em cena. E o maior ator de todos os tempos: Paulo Gracindo. É sempre muito bom assisti-lo em imagens.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Jack Lemon é pra sempre. Grande Otelo em Macunaíma e nas comédias da Atlântida é inesquecível. Marília em “Pixote”, Fernandona em “Eles não usam black tie”, Beth Midler em “A Rosa”. Meryl Streep e Daiane Wiest em vários...

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Luiz Marfuz e João Falcão.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
É estranho ver o interesse que a mídia e o jornalismo local passaram a ter pelo trabalho de atores baianos que hoje brilham na telinha e na telona. Não me lembro deles terem sido tão festejados quando atuavam, e já eram bons em nossos palcos.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Assisti Regina Casé em “Nardja Zulpério” e achei que, no máximo, iria ser bacana. Mas me surpreendi e gostei tanto, que acabei voltando pra rever. Era muiiito bom!

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Entre o final dos anos 70 e início dos 80, assisti a algumas montagens que muito me ajudaram a decidir pela minha profissão: “Língua de Fogo”, dirigida por Luiz Marfuz, “Macbeth” dirigida por Márcio Meirelles, “Dias felizes” com Yumara e Harildo na Escola de Teatro, dentre muitos outros.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
As interpretações de Fernanda Montenegro em “Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Matheus Nachtergaele em “O livro de Jó” , Jessica Lange no palco como Blanche em “Um bonde chamado desejo”, Walderez de Barros em “Max” e Marília Pêra em “Brincando em cima daquilo” foram arrebatadoras. Montagens e atuações marcantes na minha vida pessoal e artística.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
“O Livro de Jó”, pelas interpretações e pela temática.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Ninguém vive sem humor. Até quem torce o nariz pra comédia. O riso é fundamental, assim como a comédia, em todas as suas vertentes.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
A obra de Nelson Rodrigues é maravilhosa, mas também é complexa. Fui Edmundo em “Album de Família” e acho um dos textos mais difíceis que já li.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
Quis muito ter visto “Os sete afluentes do Rio Ota”. Ouvi maravilhas sobre o espetáculo.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
“O Pai”, de Strindberg e dirigida por Márcio Meirelles.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Espero que “Siricotico”, ainda inédito, venha a merecer! Será a nova montagem da Cia Baiana de Patifaria.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Não assisti, mas tenho a trilha sonora de “Gota D’Água”, com Bibi Ferreira cantando e interpretando alguns textos do espetáculo. Queria muito que fosse remontado.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Vinnicius Morais, co-autor de “Siricotico” e autor de textos divertidíssimos e que são a cara do nosso povo. Com certeza será reconhecido pelo público como um jovem e talentoso autor.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Assistir a mais de uma montagem de Denise Stoklos e Gerald Thomas me deu a sensação de déjà vu. A primeira você não esquece, as outras você sai com a sensação de que já assistiu. As encenações parecem reprise.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Não me recordo.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode citar três.
Um dos personagens de Beckett, especialmente de “Fim de Jogo” e “Esperando Godot”. Gostaria de voltar a fazer um texto de Nelson Rodrigues.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A comunicação. Seja no drama, na comédia ou na tragédia. Não imagino teatro que não se comunique, que dialogue com a platéia, que diga alguma coisa.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Não gosto da pretensão. Principalmente se for de um teatro mal realizado.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Registro 285: Monólogos

Na dramaturgia, seja ela nacional ou internacional, encontram-se belas e inesquecíveis peças, tanto por suas qualidade formais quanto por seu conteúdo que demonstram para nós mesmos o que somos. Penso que conteúdo e forma se completam. Mas esse registro não tem como objetivo entrar em tal discussão. O que pretendo ressaltar aqui são alguns monólogos que me tocam, aqueles que não consigo esquecer. Vez em quando retorno às peças esperando o momento em que o monólogo se apresenta. Outras vezes leio somente o trecho e me dou por satisfeito. Essa leituras desencadeiam em mim uma série de sentimentos e reflexões.

Alguns desses monólogos que passo a transcrever já ouvi na voz de de intérpretes em encenações ótimas, boas e ruins. Mas isso não vem ao caso. Ou melhor, as ruins eu esqueci. No entanto o texto permanece, o texto escrito. Outros monólogos, tomei conhecimento pela leitura da peça. Eles serão publicados sem a preocupação didática. Portanto, não haverá coerência como relação aos genêros nem ao tempo histórico nem a estética que a peça se filia. A escolha é subjetiva; surge pelo avivamento da memória ou porque, repentinamente, o texto se avulta na confusão das estantes e o olho é chamado a vê-lo.

Os monólogos que abrem o registro fazem parte da peça Tio Vania de Anton Tchecov (Editora Veredas, 1994), escrita em 1897. Um é de Astrov, no primeiro ato. O outro é de Sonia no quatro e último ato da peça .

  • VOINITSKII (rindo) Bravo, bravo! Tudo isso é encantador, mas nada convincente, portanto (a Astrov) nos permita, amigo, que continuemos usando madeira para aquecer nossas estufas e construir nossos celeiros.
  • ASTROV Você poderia aquecer a estufa com turfa e construir o celeiro com pedras. Está bem, que seja, você pode cortar a árvore quando precisar... mas para que destruir as florestas? As florestas russas rangem sob os golpes de machado, milhões de árvores são derrubadas, os lares dos animais selvagens e dos pássaros são revirados, os rios se esgotam e secam, desaparecem para sempre as paisagens maravilhosas... somente porque não passa pela cabeça do homem preguiçoso dobrar as pernas e catar a lenha no chão. (A Ielena Andréievna.) Não tenho razão minha senhora? É um bárbaro insensato aquele que queima na estufa a beleza, destrói aquilo que somos incapazes de criar. O homem foi dotado de juízo e força criadora para que multiplicasse aquilo que lhe foi entregue, mas até agora nada criou, apenas destruiu. A cada dia as florestas minguam mais e mais, os rios se esgotam, a vida selvagem se extingue, o clima fica mais adverso e a terra cada vez mais se torna pobre e feia. (A Voinitskii.) Seu olhar é irônico e acha que eu estou falando besteiras... Talvez haja, de fato, algo de excêntrico nisso tudo, mas quando passo pelos bosques dos camponeses que salvei da destruição, ou quando ouço o sussurrar do bosque jovem que plantei com as próprias mãos, então sei que o clima depende um pouco de mim também, e se dentro de mil anos o homem for feliz, então eu também contribuí com uma pequena parcela para isso. Quando planto uma muda de bétula e mais tarde a vejo verdejante, agitando-se ao vento, minha alma se enche de orgulho e eu... (Percebe o criado, que lhe traz um copinho de vodca numa bandeja.) Mas... (Bebe.) Tenho de ir. Afinal de contas, tudo isso não passa de excentricidade. Meus respeitos! (Parte em direção à casa.)
    *******************
  • VOINITSKII (Sonia, afagando-lhe os cabelos com uma das mãos.) Que peso sinto no peito, criança querida! Oh, se soubesse que peso!
  • SONIA O que se pode fazer? Viver é preciso! (Pausa.) E nós viveremos, tio Vania, viveremos a longa, longa sequência de dias e de noites. Suportaremos com paciência os golpes do destino; trabalharemos sem descanso pelos outros, agora e na velhice, e quando chegar a nossa hora morreremos em paz, e lá, além do túmulo, diremos que sofremos, choramos, tivemos muitas tristezas, e Deus então se apiedará de nós, e ambos - você e eu, querido titio - conheceremos uma vida maravilhosa, cheia de luz, a alegria nos invadirá, e olharemos com um sorriso emocionado nossa infelicidade de agora - e descansaremos. Tenho fé nisso, titio, creio ardentemente, apaixonadamente... (Ajoelha-se diante dele e apóia a cabeça em seu braço; com a voz cansada.) Descansaremos. (Teleguin toca o violão suavemente.) Descansaremos! Ouviremos os anjos e contemplaremos o céu cravejado de diamantes e veremos que toda a maldade terrestre, todos os sofrimentos, mergulharão na misericórdia que encherá o universo, e nossa vida será tão tranquila, terna e doce quanto uma carícia. Eu creio nisso, eu creio... (Com o lenço enxuga as lágrimas do tio.) Pobre, pobre tio Vania, você está chorando... (Entre lágrimas.) Você não conheceu a alegria em sua vida, mas espere, tio Vania, espere... Descansaremos... (Abraça-o.) Descansaremos! (O guarda-noturno matraqueia. Teleguin toca suavemente. Maria Vasilievana faz uma anotação na margem do folheto; Marina tricota a meia.) Descansaremos! (A cortina desce lentamente.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Regsitro 284: O Canto de La Negra

Embora tenha ouvido e muito Mercedes Sosa, da qual tenho um único e deslumbrante disco, Mujeres Argentinas, ouvido pela primeira vez em casa de amigos, lá pelos idos de 70 em São Paulo, não me entusiasmava muito por sua performance. Hoje, depois de sua morte, ouvindo e muito o tal disco, agora CD, antes um bolachão preto de vinil, descubro onde se localizava a minha implicância com suas canções de protesto. Na verdade, o que me irritava não era a cantora e o canto, mas o culto praticado por uma esquerda hipócrita, mas fundamentalista no discurso, que colocava no altar os dogmas entoando as canções de La Negra.
Para essa gente beata, Mercedes Sosa era o máximo, acima do bem e do mal. Não se podia discordar. Devia-se gostar e aplaudir seu canto, ainda que cantasse coisas chatas de se ouvir. Criticá-la era quase um ato reacionário, ofensivo. E embotados, íamos ver os shows, aceitando o que se passava no palco sem questioná-lo. Era assim também com outros artistas, os da MPB. Aconteceia o mesmo com os espetáculos teatrais engajados. Bastava um discurso inflamado avalizava-se a cena como sendo de qualidade...
Repentinamente, tudo se fez claro e só posso dizer que Mercedes Sosa embalou meus dias cantando Gracias a la vida também gravada também por Elis Regina em Falso Brilhante disco derivado do show de mesmo nome. como não conheço a versão da canção por Isabel Parra, que faz arrepiar Luiz Carlos Merten - ver seu blog -, fico com as duas versões das finadas. tanto uma como a outra conseguem tocar fundo as cordas ainda sensíveis de uma coração não tão brejeiro.
Quem ouviu Alfonsina y el mar (Ariel Ramirez e Felix Luna - autores) , faixa número 5 do CD Mujeres Argentinas não esquecerá da voz imensa que ecoou pela América Latina no momento em que o continente era arrasado pelas ditaduras de direita. Espero que esse fantasma desapareça do nosso destino e fique como registro na história e na memória . E espero que o continente não se inflame com as promessas e ensaios de ditaduras de esquerda, cuja versão mais próxima é ânsia bolivarina-populista de se espalhar, como se fosse a solução para as nossa mazelas.
No horizonte descortinado pela voz poderosa da cantora, dando voz aos anseios de liberdade e contribuindo para a construção de uma identidade latino americana, penso que estão inscritos nos seus cantos a afirmação dos direitos do homem acima de qualquer ideologia. Pois que a ideologia, na forma como grande parte da direita e da esquerda pensa, vem carregada de tintas fundamentalistas, tal qual a ação dos religiosos na pós-modernidade. De certos religiosos, para não colocar no mesmo saco aqueles que não fazem da religião uma prisão nem da ideologia um álibi para justificar os meios.
Mercedes Sosa, dizíamos, era a cantora da geração "poncho e conga", canta oito mulheres - Griga Chaquena, Juana Azuardy, Rosarita Vera, Dorotea Bazan, Alfonsina Storni, Manuela Pedraz, Guadalupe Cuenca e Mariquita Sánchez de Thompson - e seu canto emociona porque a voz expressa sentimentos que não se perdem com o tempo nem com a mudança dos ventos. É como ouvir ainda Nara Leão cantando Opinião. Ao escrever esse registro e relembrar o show Falso Brilhante bateu saudades de Miriam Muniz, grande atriz e diretora que virou Elis Regina do avesso e fez surgir uma outra personalidade artística.
A lembrança de uma mulher puxa a lembrança de outras que brilham agora nas minhas recordações, nas fotos, nos vídeos, nos discos e nos livros que registraram a passagem de cada uma sobre a terra. Elas que nos deram tanto, continuam a doar a cada momento que retornamos ao legado deixado de herança.
Aplausos para Mercedes Sosa!

sábado, 12 de setembro de 2009

Registro 283: Lembrança do tempo em que eu era ator

SEU QUEQUÉ

Teleromance dirigido por Edson Braga

TV Cultura - São Paulo - 1982

Raimundo Matos (Seu Quimquim)

e

Regina Dourado (Dona Santinha)


As imagens foram enviadas pelo colega Henrique Lisboa (Taubaté)
que fazia parte do elenco.

sábado, 5 de setembro de 2009

Registro 282: Coisa séria

Gosto da forma como pensa e escreve Clóviss Rossi. Por esse motivo copiei e colei sem pedir autorização.

MAUS COMPANHEIROS

Clóvis Rossi

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que gosta tanto de ditados tidos como populares, bem que poderia prestar atenção ao "diga-me com quem andas e te direi quem és". Se prestasse, teria dito à sua candidata Dilma Rousseff quais ilações podem surgir do fato de ela rezar ao lado do apóstolo Estevam Hernandes e da mulher dele, a bispa Sônia Hernandes, da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, que foram presos nos EUA.
Não levavam dólares na cueca, mas escondidos em bolsa, em porta-CD e até numa Bíblia. Se prestasse ainda mais atenção, tomaria cuidado ao receber em dezembro o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Primeiro, porque, ao contrário do que disse Lula logo após a vitória eleitoral de Ahmadinejad, o que houve em seguida não foi uma batalha entre torcidas de futebol, mas a velha repressão pura e dura à oposição.
Até uma agência semioficial de notícias anunciou que um jovem, filho de um clérigo respeitado, morreu na prisão devido a maus tratos (leia-se: tortura). Autoridades não podem ser levianas em comentários sobre questões internacionais.
Ainda mais que o Parlamento iraniano ratificou a indicação de Ahmad Vahidi para ministro da Defesa. Ele é acusado de ser o cérebro por trás do atentado que matou 85 pessoas em uma entidade beneficente judaica de Buenos Aires, em 1994. Vahidi declarou, após a aprovação: "Minha nomeação é uma bofetada decisiva em Israel". Bofetada também na Argentina, cuja presidente, Cristina Fernández de Kirchner, já disse sobre a indicação de Vahidi: "É uma afronta às vítimas". Se é tão grave a Colômbia bombardear um acampamento das Farc em território do Equador -e é muito grave-, por que é menos grave bombardear um centro beneficente em território argentino?

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Clóvissi Rossi escreveu de Londres, publicado em Folha de S. Paulo, 05 de setembro de 2009.

domingo, 23 de agosto de 2009

Registro 281: Impressões

A semana foi de ver arte, a do cinema (Tempos de Paz, direção de Daniel Filho e o delicado Horas de Verão de Olivier Assays) e a do teatro (A Canoa, direção Jacyan Castilho, com o ator Claudio Machado, Uma Vez, Nada Mais, direção Hebe Alves, com as atrizes Maria Menezes e Aicha Marques e Pluft, Fantasminha, direção Susan Kalik, no elenco: Anderson Dy Souza, Angela Reis, Caio Muniz, Francisco Xavier, Hayaldo Copque, Luiz Guimarães, Sérgio Telle, Sunny Mello).
Como faz bem ver objetos de arte tão significativos! Não quero dizer sem defeitos. Todas eles tem os seus problemas, mas no resultado final são belos objetos, obras de arte. O leitor pode fazer objeções: dizer que obra de arte é aquela que em sua totalidade não apresenta nenhuma fissura nem no tema e nem na forma. Os elementos semânticos e sintáticos se organizam, sem que se dê a sobreposição de um sobre o outro. Não discordo. Mas diante do que vi, e tomado pela força que emana desses objetos, deixo de lado os conceitos para me deixar levar por aquilo que cada uma delas fez em mim.

O fato é a arte anima a gente, nos conforta, às vezes nos tira o equilíbrio desassossegando-nos. Falo por mim; a generalização fica por conta do desejo de que todos, homens e mulheres, fossem tocados pelo universo da arte.
Diante da sujeira que rola noutras áreas, o que vai pela arte desse meu Brasil brasileiro diz muito do que esse país poderia ser e não é. Com essa afirmação, não quero dizer que a arte nos redime, purifica, salva. Coitado de quem acredita nisso. No entanto, penso que ela é um forte antídoto contra a barbárie. Nesse sentido, ela produz efeitos. Não faço aqui a defesa acrítica dos artistas. Alguns agem também como os políticos. Alguns são até políticos...
Penso na carta que recebi por e-mail assinada pelo ator Marcelo Prado. De tudo que li e ouvi sobre a política cultural do governo Jacques Wagner foi a que mais me tocou. Some-se a ela, os textos do ator e jornalista Gideon Rosa. Solidarizo-me com os artistas meus companheiros...
Não tenho a mínima vontade de usar o vocábulo, mas ele diz muito e independentemente do jargão que identifica partidários. Eu não sou um homem de partido, mas de um tempo partido, como disse o poeta.
Não me deterei em analisar o que vi. O certo é que saí das sessões carregando uma onda de sentimentos e pensamentos. Mas cabe um pequeno registro sobre cada trabalho que vi:
Tempos de Paz: o cinema quer ser teatro, mas é cinema e dos bons. Dois atores em momento luminoso. Para quem um dia deixou o palco como eu, o filme me coloca diante de dilemas. Alguns resolvidos, outros empurrados para debaixo do tapete.
Horas de Verão: a vida passada a limpo sem melodrama. As emoções pulsam na medida certa.
A Canoa: inventivo exercício de direção, um ator com bastante recursos expressivos necessitando mergulhar mais fundo nas sutilezas das emoções que a partitura corporal lhe exige e que o tema reclama.
Uma Vez, Nada Mais: duas atrizes em plena forma, exercendo o jogo fascinante do teatro e encantando. Uma direção segura e a serviço das intérpretes.
Pluf, Fantasminha: no programa da peça tem uma frase do ator Harildo Déda que diz assim: "O que me impressiona em Maria Clara, é o poder que ela tem de transformar poesia em dramaturgia". A frase diz tanto de maneira tão sintética. O espetáculo tem seus excessos, mas não apela para as facilidades que muitas vezes rondam o teatro para criança.
Se a arte não salva, quem nos salvará de Brasília?

sábado, 8 de agosto de 2009

Registro 280: Uma manhã com os estudantes do Colégio Salesiano

Quando sou convidado para conversar sobre meus livros nas escolas, não me faço de rogado. Peço apenas que os alunos tenham lido um dos meus livros e que alguém venha buscar-me em casa. Vou com prazer e muita das vezes retorno do encontro meio decepcionado. Principalmente quando noto que os estudantes leram por obrigação, ouvem você desinteressadamente e no final pedem um autógrafo, mais em caderno que no livro. Mesmo assim não deixo de aceitar o convite.
Além de escrever literatura para crianças e jovens sou professor. Mas não é só isso que me mobiliza, ainda que os dois fatores sejam muito fortes. O que me estimula a conversar é querer contar a minha experiência com a leitura. Desejo encantar o outro como fui encantado desde a infância pelas histórias ouvidas e lidas. Espero sempre tocar os outros naquele lugar sensível, que tenho certeza todos têm, e daí fazer aquele que comigo dialoga desperte em si o gosto pela leitura.
Confesso ser um leitor compulsivo. E ler para mim é como comer. No meu restrito universo, o ato de ler tem o mesmo peso que o ato de comer. Como os momentos das refeições são considerados profanamente sagrados, os momentos de leitura se constituem instante de elevação. Entrego-me ao livro em comunhão e daí retiro o necessário para me manter vivo. Dito assim parece que tenho uma relação utilitarista com o livro e com a leitura. Mas não é isso. O ato de comer e ler é, sobretudo, um momento de prazer.
Compro livro como compro comida.
Toda essa explicação é para contar sobre a minha ida ao Colégio Salesiano do Salvador, no dia 7 de agosto, para participar do Café Literário do Ensino Fundamental II. Fui levado por Zé Maria da FTD e ao chegar naquela imensa e antiga construção fui recebido afetuosamente pela Supervisora Pedagógica, pelo Coordenador Geral, pelo Diretor e por professoras e todos os envolvidas com o evento. Gente calorosa.
A minha percepção deu sinais inequívocos de que a manhã não seria como imaginara: eu sentado diante de um auditório a deitar falação sobre o livro, leitura e outros assuntos derivados do tema central. Risível engano.
Conduziram-me para um pátio coberto com várias mesas preparadas para um lauto café. Em torno das mesas alunos e pais esperavam-me e passei por todas elas ouvindo os estudantes sobre o meu livro Sob o Signo das Luzes, ficção histórica que tem como assunto a Revolta dos Alfaiates, um acontecimento de grande importância para história da Bahia e do Brasil. Surpreso e embevecido tomei conhecimento de um processo trabalhado com muita propriedade pelos educadores do Colégio Salesiano. Garotos e garotas falavam sobre a história e seus personagens com tal propriedade que rendi-me a eles, os narradores do meu livro. A atidude da garotada era uma demonstração de que a atividade derivava de um planejamento pedagógico, mas não caía na rotina desgastante da obrigatoriedade da leitura. Projeto interdisciplinar desenvolvido nas disciplinas Língua Portuguesa e História, penso ter sido conduzido com muita clareza por parte dos professores.
Havia envolvimento, percepção do todo e das partes, entendimento das ideias discutidas, clareza com relação aos personagens e a situação histórica. Chamava a minha atenção a forma com que eles fizeram a leitura do que era ficcional e do que era resultado da pesquisa que tratava do aconteciemnto histórico. Esse cruzamento entre Literatura e História, muitas vezes depreciado, foi apontado pelos leitores como um atrativo.
Ouvi muito; para quem estava preparado para monologar falei pouco ou na medida. Não deixei de responder às perguntas que me fizeram. Procurei não ser chato, visto que os estudantes estavam interagindo comigo de maneira curiosamente viva, como Eleutério, o adolescente personagem do livro. Uma integração prazerosa, demonstrativa de que estávamos sintonizados uns nos outros. Estávamos de fato interessados, pois tínhamos como centro do nosso interesse o outro.
Passei uma manhã das mais gratificantes. Retornei preenchido para o meu recanto trazendo comigo as palavras que ouvi e que ecoarão por muito tempo em mim. Sou grato aos educandos e aos seus educadores pelo evento, já que o Café Literário foi organizado em minha homenagem pela obra Sob o signo das Luzes. Mais agradecido ainda pela onda de carinho que me banhou na manhã azulada de uma sexta-feira de agosto. Manhã em que os jornais traziam as maracutaias no Senado Federal, os crimes estúpidos e a violência contra mulheres, a iminência de uma greve de policiais e muitas páginas destinadas a assunto que não interessam a maioria dos mortais...Bobas escolhas que só interessam a editores e jornalistas que gravitam em torno do seu próprio umbigo.
Cansado pelo sempre igual, sinto-me revigorado pela manhã que educandos e educadores proporcionaram-me. Há sempre um substrato de humanidade que ultrapassa a violência, a bossalidade, a falta de ética, o jeitinho, a falta de educação em qualquer lugar e principalmente no trânsito, a arrogância de quem se acha superior...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Registro 279: Depoimento VIII

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

Andréa Elia
Atriz, diretora tetral e professora do Curso ATO de Teatro. Atuante há vinte anos na cena cultural baiana, foi dirigida por grande parte dos diretores teatrais baianos e entre as atuações de destaque estão: Boca de Ouro, Um Bonde Chamado Desejo, O Beijo no Asfalto e Carne Fraca – Fernando Guerreiro, A Prostituta Respeitosa – Márcio Meirelles, Divinas Palavras – Nehle Franke (com apresentações nos Festivais de Curitiba, Londrina, SESC São Paulo, Recife. Kaô – Paulo Atto (com apresentações em Moscou, Espanha e Portugal), Não Vamos Falar Nisso Agora – Celso Jr. e A Morte de Quincas Berro d'Água – Paulo Dourado. Foi vencedora do Concurso Melhor de 3 do Faustão, valendo um contrato com a Rede Globo em 1995. Como diretora teatral do Grupo Os Bumburistas, foi vencedora do Prêmio Braskem , na categoria melhor espetáculo pelo júri popular nos anos de 2006 e 2007. No dia 16 de agosto (2009) estréia o espetáculo com o mesmo grupo, o infanto juvenil Alice no Sertão das Maravilhas, em temporada no Teatro Módulo e em novembro estréia como atriz o espetáculo Um Caso Sério com texto e direção de Cláudio Simões, dividindo a cena com o ator Celso Jr. Andréa Elia a frente do Curso ATO tem contribuído para formação de novos atores e para inserção da linguagem teatral em empresas e instituições.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Frank Menezes, Wagner Moura e João Miguel

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Julianne Moore, Al Pacino, Marília Pera.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Fernando Guerreiro, Antunes Filho, Antônio Araújo (Teatro da Vertigem)

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Plínio Marcos.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Abafabanca

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
1. A estréia de R$ 1,99 no Teatro XVIII. 2. Boca de Ouro – Um Nelson Rodrigues em pleno vagão de trem no subúrbio baiano. A meninada saindo de casa para falar com meu personagem durante a peça e o público achando que fazia parte do texto. Um espectador disse ao diretor da peça Fernando Guerreiro: “Nossa! A cena das crianças está muito bem marcada, parece que tá acontecendo na hora!” E realmente estava! 3. A montagem de Hamlet de José Celso Martinez Correa, quando durante uma cena o teto do teatro Oficina se abria e víamos o céu de São Paulo.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Apocalipse de Antônio Araújo do Teatro da Vertigem. A peça acontecia num presídio abandonado em São Paulo, durante uma cena o público ficava num corredor escuro e os atores corriam pelados gritando. Senti um certo pânico, mesmo sabendo que era teatro, tive uma sensação real de início de claustrofobia e pensei em sair.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Divinas Palavras, de Ramón Del Valle Inclan com direção de Nehle Franke.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Gosto de considerar “Gênero de primeira”, o espetáculo de qualidade. Comédia mal feita é gênero de segunda assim como o drama mal feito.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
A Comédia do Fim de Becket com direção de Luís Marfuz.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
Paraíso, Zona Norte – Antunes Filho

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
Dias Felizes com Fernanda Montenegro, vi no Teatro Castro Alves e não era o teatro apropriado para um monólogo de Beckett.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
A adaptação atual de Hamlet de Wagner Moura, Apocalipse e O Livro de Jó do Teatro da Vertigem.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Nelson Rodrigues – toda a sua obra desde peças, crônicas e contos.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Na verdade penso na atriz Denise Stoklos, pois seus textos são muito bons, mas por desenvolver um teatro autoral, seus textos não são muito lembrados. Tenho todos e leio sempre que posso.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Geral Thomas, não as suas primeiras montagens, mas a fórmula depois que ficou um pouco engessada.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Teve uma montagem de Um Fax de Denise Stoklos para Cristovão Colombo no Rio de Janeiro que sofreu uma crítica de Macksen Luís no Jornal do Brasil, dizendo que o discurso de Denise estava ultrapassado. Era a primeira vez que eu via aquela atriz em cena. Eu e Ana Paula Bouzas, atriz e amiga, vimos a peça juntas, e nos marcou muito. Quando lemos a crítica, ficamos indignadas e enviamos uma carta ao jornal e a carta foi publicada na coluna Opinião do Leitor. Anos depois conheci pessoalmente a atriz e ela havia guardado a nossa carta e lembrava bem do fato.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Blanche Dubois – Um Bonde Chamado Desejo, Geni – Toda Nudez Será Castigada e Marta – Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?

21 – Você é um intérprete, autor, cenógrafo, iluminador, diretor, dramático ou pós-dramático?
Uma diretora pós-dramática e uma ATRIZ DRAMÁTICA AO EXTREMO!!!!!!!!!!!

22 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Comunicação com o público.

23 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Subestimar a capacidade do público.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Registro 278: Iniciando a semana

O texto em destaque é de autoria de Marina da Silva, a combativa ambientalista que foi defenestrada do Ministério do Meio Ambiente pelo governo sindicalista-populista do qual ela faz parte. Publicado na edição de hoje (3.08.2009) no jornal Folha de S. Paulo, serviu de estímulo para que eu deixasse a preguiça de lado e retomasse meus registros em Cenadiária. A preguiça é uma desculpa que arranjei para o meu estupor diante do que vejo, leio e ouço. E confuso diante das ocorrências do cotidiano, mergulho em mim, tranco-me, cultivando um defeito de personalidade que é a total incapacidade para os excessos da vida social, ou melhor da vida em sociedade, essa obrigação que me cansa. Opto então pelo silêncio, pelo recolhimento, mas não pela alienação.
Não vou repisar os assuntos para não cansar o leitor que por aqui passar. Estamos todos (?) informados do que acontece no Brasil brasileiro. A imprensa, fonte comprometida é certo, não deixa de apontar os absurdos que por aí pululam. Para não ficar apenas com um ponto de vista, procuro sempre ler dois jornais de tendências diferentes para daí, com meus botões, formar aquilo que é minha opinião. Opinião que fica comigo, já que não me interessa sair por aí espalhando-a, embora alguns amigos íntimos não sejam poupados. Coitados dos que me ouvem quando dos meus destemperados vomitórios. Peço-lhes desculpas.
O texto de Marina da Silva é sobre o Rei Lear e vale a pena conferir. Objetivo e sintético, ele nos dá a dimensão da tragédia.
Aproveito o momento para indicar dois filmes que vi e me senti gratificado e feliz por isso. De Christophé Honoré, A Bela Junie (La Belle Personne) e de Heitor Dhalia, À Deriva. Tanto o francês quanto o brasileiro transitam pelo universo da adolescência e sensíveis ao tema nos dão ótimos filmes. Sem firulas, mas não de forma rasteira, apresentam suas personagens em situação peculiar, marcando o ritmo da existência de quem sabe já não ser mais criança, mas ainda não se estruturou como adulto.
Depois da sesta, li a entrevista de Edgard Morin concedida ao jornalista Antonio Gonçalves Filho (Estado de S. Paulo, 2.08.2009). Antes de comentar rapidamente as palavras do encantador filósofo de 88 anos, declaro que gosto muito das coisas que o jornalista do Estado de S. Paulo escreve e da forma como conduz suas entrevistas. Conheço Gonçalves Filho como frequentador esporádico do Lótus, restaurante natural que tive em São Paulo em meados do anos 90, empreendimento que me levou à falência. A labuta não permitia que a conversa entre nós se alongasse, mas era sempre um prazer tê-lo como cliente. Sobre Morin, chamo a atenção para o seu otimismo. Cito um pequeno trecho da entrevista: "Não acredito em religiões de revelação, como o cristianismo e o islamismo, mas, além delas e das arcaicas, existe ainda uma terceira religião, que eu classificaria de laica, ou a religião da fraternidade humana. estamos perdidos num pequeno planeta dentro de uma sistema e, justamente por estarmos perdidos, precisamos ajudar uns aos outros." (Grifo meu).
Com a palavras do filósofo, encerro esse registro. No mais, poesia é axial.
DURANTE CURSO de especialização na Universidade de Brasília, estudei a obra "Rei Lear", de Shakespeare. Talvez a tragédia possa nos ajudar a entender um pouco a política brasileira.Ao sentir-se velho, Lear decide abdicar da sua condição de rei, do enfadonho encargo de governar.

Chama as filhas - Goneril, Regana e Cordélia- para dividir seus bens e poder, anunciando que seria mais agraciada aquela que lhe fizesse a maior declaração de amor. E impõe outra condição: enquanto vivesse, o rei deveria ter assegurado respeito, prestígio, cuidado e, quem sabe, até mesmo o amor de suas filhas e súditos. Quer deixar de ser rei sem perder a majestade.

Cordélia, a mais jovem, com quem o rei mais se identificava, e que muito o amava, não soube dizer o que sentia. As outras não sentiam amor pelo pai, mas eram hábeis na verve.O que torna sua jornada trágica e dolorosa é que Lear se recusa a retornar ao que um dia foi, um simples homem, rei de si mesmo. Não quer morrer, tornar-se passado. Quer ser sucessivo como é a vida, reviver a fase do prazer de poder. Quer ter séquito e até mesmo um bobo para ninar seu desamparo.

Mas ninguém pode impunemente regredir sem ser atormentado pelo fantasma da repetição. No seu obsessivo desejo de ser amado, Lear agarra-se às palavras de Goneril e Regana. E rejeita amargamente a rebeldia de Cordélia, que só sabia sentir e não se sujeita a ter que fazer uma declaração de amor ao pai, obrigando-o a perceber esse amor no único lugar onde deveria estar: no resultado afetivo de suas relações pessoais.Não por acaso desmorona o mundo de Lear. O que antes era tão bem definido, passa a ser ambivalente. Certeza e dúvida, coragem e medo, segurança e desamparo. A loucura de não mais saber quem é.

O alto preço por ter almejado e transformado em "ato" o desejo de retornar ao lugar onde um dia esteve e querer assumir a forma do que um dia foi. Ele só existe no mundo daqueles que o aceitam e o amam tal como é. E mesmo estes, incluindo Cordélia, não têm mais como aceitar seu governo senil. Até porque foi ele próprio quem decidiu abdicar de ser quem era para tornar-se quem não mais podia ser. Tornou-se merecedor da reprimenda feita por meio das palavras do bobo: "Tu não deverias ter ficado velho antes de ter ficado sábio".

Genial Shakespeare, trágico rei, frágil humanidade de sempre, que não quer passar. Que infringe a ordem dos acontecimentos, sem o árduo trabalho de elaborá-los. Que desiste de ressignificar-se, e quer tão somente repetir o prazer da sensação vivida nas ilusões de majestade.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Registro 277: Resenha

CORDEL DA VIDA
O TEATRO E A PALAVRA DE ARMINDO BIÃO
Raimundo Matos de Leão
Em seu texto Experiência e Pobreza (1933), Walter Benjamin fala-nos do rebaixamento da ação da experiência e toma como referência os soldados que retornavam das trincheiras de 1914-1918, “mais pobres em experiência comunicáveis, e não mais ricos”. Na pós-modernidade, os assombros nos deixam perplexos, quase mudos. Diante dos acontecimentos que se avolumam ao nosso redor, tendemos a interromper a narrativa. Mas a situação paralisante que por vezes nos acomete não impede a transmissão da experiência. Ainda que concordemos com o pensador judeu-alemão, vislumbramos na opacidade do tempo a capacidade do indivíduo em deixar seus rastros, legando-nos relatos sobre si, sobre o outro e sobre o mundo. “Entre os grandes criadores sempre existiram homens implacáveis que operaram a partir da uma tábula rasa. Queriam uma prancheta: foram construtores. A essa estirpe de construtores pertenceu Descartes, que baseou sua filosofia numa única certeza – penso, logo existo – e dela partiu”, conforme Benjamin. Dessa maneira podemos ventilar a possibilidade de salvação quando o legado da vida do espírito é posto em circulação pela ação dos que não se deixam tomar pela nostalgia paralisadora e com isso afirmam a força da experiência. Nesse sentido, podemos dizer que salvar a experiência é transmiti-la.
Nesse sentido, entra em pauta o trabalho que Armindo Jorge de Carvalho Bião acaba de nos legar, com o lançamento dos livros Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos e Teatro de cordel para a cena: textos reunidos, ambos sob a chancela da P&A Gráfica e Editora. As obras se complementam, visto que os assuntos tratados pelo ator-professor cruzam-se nas páginas dos dois livros. Entretanto, podem ser abordados separadamente pelos alunos, o que é, na verdade, desejo manifesto do autor, ao afirmar sua preocupação com a “escassez e dificuldade” com o texto didático. Por outro lado, o leitor que não se situa no âmbito universitário pode encontrar prazer ao garimpar entre os textos que compõem os dois títulos aqueles que mais lhe interessar por afinidade.
Em Etnocenologia e a cena baiana, Armindo Bião divide seu livro em quatro seções, cujo foco central é a leitura da teatralidade e da espetacularidade pelo viés etnocenológico, uma disciplina nova, datada de 1995, tempo relativamente curto para que se estabeleça como uma área do conhecimento. No entanto, o que se pode aquilatar do rico acervo de textos é que a disciplina vem abrindo portas para compreendermos fenômenos espetaculares, não só afeitos ao universo da linguagem do teatro e suas diversas matrizes estéticas, mas que se expandem pelo societal (Maffessoli) e aparecem como manifestações marcadas pela diversidade. Assim são as brincadeiras, o jogo, a festa, a função espetacular “conforme quem vive e faz, denomina aquilo o que faz e vive”, no dizer de Bião, ou seja, os comportamentos humanos espetaculares organizados. Esse universo de temas e os instrumentos que a nova disciplina oferece para as suas análises conferem um lugar preciso para a etnocenologia no âmbito das pesquisas.
Precedidos pelo prefácio do professor Michel Maffessoli, os textos se organizam coerentemente em quatro blocos: Da Etnocenologia, Da teatralidade, Da cena baiana e, por fim, Miscelânea do mesmo. Seguindo esse percurso, o leitor situa-se no interior do trabalho de forma que, num primeiro momento, tome contato com a nova disciplina. São dez textos onde o autor explicita com clareza e força argumentativa os pressupostos da etnocenologia. Aborda também de que maneira o pesquisador maneja os aspectos epistemológicos e metodológicos para compreender o que se dá no contexto cultural para qual dirige o seu olhar, ou para qual é chamado, visto que a força dos acontecimentos atrai o curioso-desejante de ouvir sereias e desvendar os seus mistérios. Em seguida, encontra-se a reunião de escritos para dar conta da teatralidade, quatro deles em francês. Aqui, destaco o domínio do idioma pelo autor; como baiano da gema, Bião domina o francês, tornando-a sua segunda língua. Tal fato remete-nos ao tempo em que o francês era ensinado nos bancos do antigo ginásio, levando os estudantes ao cultivo da língua, como um traço característico dos nossos intelectuais.
Retornando ao foco de interesse, é na terceira seção, que o autor se debruça sobre temas que pinça da “encruzilhada chamada Bahia” para refletir sobre a cultura, o seu patrimônio imaterial: o teatro que se faz por essas plagas e as matrizes estéticas que marcam o espetáculo da baianidade, baianidade que Bião busca compreender e definir. Acompanhando o enfático elogio que a obra publicada requer, segue o aviso ao autor que Álvaro Guimarães há de lhe puxar o pé numa noite qualquer cobrando-lhe por creditar a Orlando Sena a estréia de Maria Bethânia como cantora na montagem de O Boca de Ouro. É certo e sabido que a intérprete estreou sob a direção de Álvaro Guimarães na referida encenação do texto de Nelson Rodrigues.
Feita a observação, volto-me para a reunião de textos enfeixados sob o título de Miscelânea. Entre um e outro escrito percebe-se o interesse do pesquisador sobre assuntos variados, mas todos eles voltados para suas áreas de atuação. Digo no plural porque Armindo Bião transita de forma interdisciplinar por diversas áreas. Por elas constrói um pensar que se afirma pelo saber distribuído nos diversos artigos, comunicações e ensaios que dão corpo a esse documento que é Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos. Em suas páginas, constata-se erudição, mas não aquela empolada e dura. Armindo Bião sabe-se educador, e por essa via faz o seu discurso chegar ao outro. Configura-se então o diálogo, esse intercâmbio necessário para a troca da experiência. Recheado de referências, os textos são a prova de que Bião soube, ao longo de sua carreira, esmiuçar, esmiuçando-se. Subjetividade e objetividade se entrecruzam, “o curto-circuito”, uma postura necessária para que os objetos apareçam luzindo aos olhos do leitor, sem que tirem a graça, a perspicácia e a leveza que por vezes desaparecem de certas produções acadêmicas. Não é o caso dos trabalhos aqui resenhados. O rigor das análises e as citações que sustentam a argumentação nos levam a percorrer as páginas prazerosamente, apreendendo o conteúdo exposto claramente. As maneiras como Bião aborda os temas que elege trazem a marca da compreensão e, ao vê-los por essa lupa, afasta-se da visão única; olha os objetos por diversos ângulos, “para mostrar o miolo de sombra” (Drummond de Andrade).
No segundo livro, Teatro de cordel e formação para cena: textos reunidos, prefaciado por Jean-Marie Pradier, professor da Universidade de Paris, estão coligidos, tal qual no anterior, textos esparsos produzidos entre 1982 e 2008. A coletânea divide-se em três partes. Na primeira, Armindo Bião apresenta alentado material sobre a pesquisa em andamento em torno do cordel, tema que remete à sua infância, quando demonstra interesse por essa manifestação literária que o palco da Bahia acolheu com bastante eficácia estética. O saber resultante desse interesse impregna os textos e confere um sabor especial ao material resultante dos estudos em torno da figura de Doña Maria de Padilla, a espanhola amante de um rei de Castela, que nos giros do mundo veio dar com os costados na terra dos batuques, aparentada do mito de Maria Padilha. Sem afirmar tal coisa, o pesquisador deixa em aberto essa possibilidade, tomando como referência os estudos de Marlyse Meyer, a quem homenageia em Itinerário de Maria Padilla, um dos escritos que nos coloca diante dessa mulher, sob todos os aspectos fascinantes. Suponho que o fascínio enfeitiçou o pesquisador, mas que, enleado, não se perde, visto que os aspectos metodológicos são cordas seguras para que ele abra o pano de boca e mostre a persona e o personagem.
Além da aludida persona histórica, a seleta abraça personagens como o Diabo, a Mulher e Lampião, vistos nos folhetos de cordel sob os diversos ângulos e encenados com os alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, lugar de docência e de expansão de Armindo Bião. A importância dada ao cordel é prova inconteste de suas possibilidades, haja vista a contribuição que o “livreto” tem dado a dramaturgos como Ariano Suassuna e Francisco Pereira da Silva e a encenadores como Martim Gonçalves e João Augusto; e isso para ficar nos reduzidos, mas expressivos, exemplos. Armindo Bião insere-se nessa linhagem não como um especialista em literatura de cordel, como esclarece na introdução de “Mulher é o Diabo!”, mas como um conhecedor-fazedor da arte (manhas) do palco, assunto do todo dessa “vida na obra, a obra na vida”, título do prefácio de Pradier.
Nas seções Da formação para a cena e Miscelânea do mesmo, chama a atenção uma série de documentos sobre a Escola de Teatro, seu Programa de Pós-Graduação, os grupos de pesquisa e também sobre a Associação Brasileira de Artes Cênicas – ABRACE. As informações contidas cobrem aspectos qualitativos e quantitativos de uma produção que, por vezes, não se conhece. Além de apresentar para seus pares o que se faz no espaço acadêmico, o autor informa para o conjunto da sociedade o resultado de um trabalho significativo no campo das artes cênicas.
Transitando pelo teatro, literatura, antropologia, história, invadindo e aproximando fronteiras, Armindo Jorge de Carvalho Bião, ator-professor-pesquisador, tece seu pensamento e sua ação correlatamente, rompendo com a imobilidade do “conhecimento no pensamento particular de cada ciência”, como nos lembra Tereza de Castro Callado em Walter Benjamin: a experiência da origem (2006). A reunião de textos esparsos forma um mosaico onde figuram subjetividade e objetividade, particular e universal, pluralidade e singularidade, numa reveladora cumplicidade orgiástica para a contemplação do mundo, daí a pertinência do trabalho. Conclamo o leitor a partilhar dessa experiência.
Se por ventura a discordância se instalar, e ela torna-se salutar quando é propícia ao diálogo, ainda assim sairá menos pobre ao concluir a leitura desses livros gêmeos, mas não idênticos. Bião sabe que palavras o vento leva, mas quando escritas, permanecem motivando outras palavras para se pensar o mundo contemporâneo para além dos seus limites.
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Publicado originalmente no suplemento Cultural, jornal A Tarde (Salvador - Bahia), edição de 11 de julho de 2009.

domingo, 5 de julho de 2009

Registro 276: Barroco Popular

A exposição virtual Barroco Popular é resultado das minhas vivências e inquietações diante da cultura, fonte de onde retiro o material necessário para poetizar o que sinto. Os quadros apresentados traduzem ideias e sentimentos, retomando um trabalho interrompido desde a mostra coletiva Similitudes, no Centro Cultural Maria Antônia – São Paulo, em 1997, quando expôs trabalhos juntamente com Cláudio Barros, Mônica Colucci e Stela Maris Sanmartin. Os quadros da exposição Barroco Popular estiveram expostos no portal Diário, desativado recentemente, sem que recebesse aviso da Geocities.
Ao revisitar o barroco, evocando-o através da conjugação dos elementos que remetem a esse estilo tão presente no cotidiano brasileiro, busco expressar a capacidade de olhar e decompor em formas as mínimas porções que retenho dessa exuberância extravagante que povoa tetos e paredes de igrejas, solares e palácios em nossas mais antigas cidades, numa leitura sumamente particular.
Essas informações visuais aparecem conjugadas aos elementos florais do chitão, tecido popular no Brasil, utilizado com parcimônia na indumentária, mas de grande emprego na decoração. A opulência de formas e cores contidas nos tecidos remete também ao profuso das formas do barroco português, que aqui chegou para se tornar um traço da nossa identidade artístico-cultural.
Nos trabalhos apresentados, faço a releitura desse momento, instante em que se dá o encontro da criatividade européia com a inventividade dos primeiros artesãos encarregados de decorar as construções públicas e privados da colônia. Ao inserir os elementos da natureza tropical – flora e fauna – esses artistas imprimem uma marca nacional ao barroco. Sobre esse acontecimento carregado de intencionalidade, Ana Mae Barbosa esclarece ter sido o barroco o “primeiro produto cultural do país”, e que, embora fortemente marcado pelo modelo estrangeiro, foi “transformado pela força popular e pela criatividade nativa, conquistando características próprias”. Barroco Popular procura retomar esse instante, não como ele de fato se deu, mas como construção no presente.
Ao organizar, conjugar e sobrepor os elementos visuais para compor a escritura pictórica, utilizo-me da técnica mista sobre tela e mostro trabalhos, via Internet. Ao escolher a net. para veicular trabalho, vou ao encontro dos que pensam as relações entre arte e tecnologia, experimentando as possibilidades. Sobre a inserção na rede e o uso da tecnologia digital no trabalho artístico, Dulcimira Capisani enfatiza a necessidade do artista não se tornar “um mero fornecedor de conteúdos no universo altamente especializado das novas tecnologias”, mas fazer dessa ferramenta um lugar de experimentação como no domínio da prática artística. Quando a exposição no portal Diário, eu apresentava os originais com interferência produzida a partir de ferramentas do computador. Por esse motivo a exposição intitulava-se Barroco Popular - Verso e Reverso, visto que as interferências alteravam as cores originais. Deixei de lado essa opção para concentrar-me nos quadros como eles foram concebidos.
Na perspectiva benjaminiana, a disseminação pela rede impulsiona a reprodutibilidade e a circulação do trabalho, criando um elo "comunicacional" em grande escala.

Azulejos e flores I, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60. Acervo do artista

Fragmento, 2006, Mista sobre tela. 70 x 70. Acervo do artista

Celeste, 2006. Mista sobre tela, 60 x 60. Acervo do artista

Altar floral I, 205. Mista sobre tela, 60 x 70cm. Acervo particular

Azul, 2005. Mista sobre tela 70x70cm. Acervo particular

Êxtase, 2007. Mista sobre tela, 80 x 80 cm. Acervo do artista

Sem título III, Mista sobre tela, 2005, 60 x 60. Acervo particular

Azulejos e flores, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60 cm. Acervo particular

Altar floral, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60cm. Acervo do artista

Sem título I, 2005. Mista sobre tela, 50 x 80. Acervo particular

Jardim II, 2004, díptico. Mista sobre tela, 50 x 110cm. Acervo particular

Jardim I, 2006. Mista sobre tela, 40 x 88cm. Acervo particular

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Registro 275: Revista MIMUS

Para ter acesso ao primeiro e futuros números da Mimus, revista on-line de mímica corporal dramática, de acesso gratuito, basta clicar no endereço abaixo:



Registro 274; Entrevista

Em 6 de maio fui entrevistado por Oscar D'Ambrósio; caso tenha interesse em ouvir o bate-papo, basta clicar no endereço abaixo. A minha entrevista é a de número 106. Na conversa, conto um pouco sobre o meu envolvimento com a literatura, com o teatro e com a vida. Outros entrevistados constam da expressiva relação, certamente você encontrará alguns de sua preferência.

domingo, 14 de junho de 2009

Registro 273: Cacilda, * 1921 + 1969


Cacilda Becker em Maria Stuart

Quando da morte de Cacilda Becker em 14 de junho de 1969, distante de nós quarenta anos, o poeta primeiro escreveu o belo poema transcrito aqui, uma homenagem que presto a esse mito do teatro brasileiro. Não vi Cacilda Becker em cena, conheço apenas Floradas na Serra o filme que vez com Jardel Filho, mas convivi com espectadores de seu trabalho. A opinião de todos era unânime: Cacilda iluminava a cena em qualquer peça, em qualquer personagem e mesmo quando não se saía bem era inesquecível. Recomendo a leitura de dois livros fundamentais para compreender esse "monstro de teatro", Uma Atriz: Cacilda Becker, de Nanci Fernandes e Maria Thereza Vargas (São Paulo: Perspectiva, 1984) e Cacilda Becker: fúria santa, de Luís André do Prado (São Paulo: Geração Editorial, 2002)


ATRIZ
A morte emendou a gramática.

Morreram Cacilda Becker.
Não era uma só. Era tantas.
professorinha pobre de Piraçununga
Cleópatra e Antígona
Maria Stuart
Mary Tyrone
Marta de Albee
Margarida Gautiher e Alma Winemiller
Hannah Jelkes a solteirona
a velha senhora Clara Zahanassian
adorável Júlia
outras muitas, modernas e futuras
irreveladas.
Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
e um mendigo esperando infinitamente Godot.
Era principalmente a voz de martelo sensível
martelando e doendo e descascando
a casca podre da vida
para mostrar o miolo de sombra
a verdade de cada um nos mitos cênicos.
Era uma pessoa e era um teatro.
Morreram mil Cacildas em Cacilda.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Registro 272: Divulgação


terça-feira, 9 de junho de 2009

Registro 271: Teatro do Absurdo? Veja

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Registro 270: Arrabal

domingo, 31 de maio de 2009

Registro 269: Relato de uma semana que se finda

A semana que se finda foi movimentada. Fazer um relato sobre ela é dar conta de coisas que acontecem e que me põe em movimento ou não. Depende do que rola ou do meu jeito de encarar cada situação. Mas vamos num giro sobre a semana soteroplitana.
O clima em Salvador continua ameno e isso, pra mim, é uma benção. Pena que as chuvas desabriguem tantos com tão pouco. Não suporto o calor, uma coisa nada civilizada. Caso me pergunte por que eu estou em Salvador, terra de tanto calor, digo que tem coisas por aqui de que gosto muito. Mas não gosto dessa tal de "baianidade", tema de uma mesa coordenada pelo professor e ator e diretor Celso Júnior. A tal mesa aconteceu no V ENECULT, evento que discute a cultura. No seu blog Cadernos Grampeados, Celso faz um reflexão sobre cultura ou falta dela, baianidade e arte. Vale uma olhada. Você pode não gostar, mas tem humor por lá e muita seriedade no que ele pensa.
Também participei de uma mesa coordenada pela professora Antônia Pereira (PPGAC - UFBA), juntamente com as professoras Cássia Lopes e Cleise Mendes também do referido programa. Fui bendito entre as mulheres. Nosso tema era corpo e teatralidade na contracultura. Foi uma boa mostra e sinaliza para o tema - contracultura - que a meu ver é sempre olhado de esgueira, como aquela onda desbundada. Diante do que vejo por aí, fecho com o desbunde. A sala estava cheia, pena que não pudemos debater entre nós nem com os participantes. E olha que cumprimos o tempo destinado a cada comunicação. Ás vezes me ocorre que tais encontros, importantíssimos, são pensados para a ser assim mesmo: sem tempo.
Conheci a diretora Fran Teixeira, cearense de boa cepa, artista talentosa. Quem viu O Cantil que ela trouxe para o FIAC - Bahia (2008), sabe do que falo. A dramaturgia, direção e produção do espetáculo sob sua responsabilidade anima o espectador que anda reticente com o teatro. Eu ando assim. Por isso não saio de casa pra ver qualquer coisa. O Cantil uma leitura muito precisa de A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht é inesquecível. Por falar em teatro bom, gostei de ver Alegria de Viver de Déborah Moreira e George Mascarenhas. Transitando pelo mito de Pigmalião, cruzando-o com o universo de Matisse, os dois artistas tocam nossos corações. Digo por mim que saí do teatro com vontade de fazer teatro. A vontade passou, mas não o desejo de voltar e ver novamente a criação desse dois sensíveis intérpretes. Eles lidam muito bem com a Mímica Corporal Dramática.
Na quinta-feira, 28, ainda como parte do ENECULT, houve lançamento de livros editados pela Edufba, entre eles, Transas na Cena em Transe: teatro e contracultura na Bahia, de minha autoria. O evento foi no belíssimo Palacete das Artes, um dos exemplares que restou da arquitetura do início do século XX em Salvador, datada de 1912. Poucos amigos estivarem por lá, mas os que compareceram animaram a minha noite e aqueceram meu coração. Ah, tinha uma gente metida, fazendo pose. Nariz em pé não faltava. Nessa ocasiões medito sobre a vaidade. Por vezes me sinto que nem aquele Poema em Linha Reta - Fernando Pessoa-Álvaro de Campos. Quando deu certa hora e achei que tinha cumprido o meu papel de autor, saí à francesa. Tenho dois livros publicado pela Edufba: Abertura Para Outra Cena: o moderno teatro na Bahia (2006), é anterior a Transas na Cena em Transe. O primeiro, trata sobre a criação da Escola de Teatro em 1956 e analisa o projeto de Martim Gonçalves. O segundo livro retoma outro momento da história do teatro na Bahia. Outro dia um aluno me chamou de "referência". Rimos muito. É, parece que virei referência sobre o assunto. Ah, ia me esquecendo, fui entrevistado por uma aluna da Escola de Teatro sobre o XVI Curso Livre de Teatro, quando dei aulas e dirigi Píramo e Tísbe, de Vladimir Capella, um autor de teatro para criaças que a Bahia precisa descobrir. Ele é dos ótimos.
A semana foi também de muitas reuniões e expectativas: a Faculdade Social, onde sou docente e cooordenador do curso de Artes Cênicas, recebeu a comissão do MEC que veio para avaliar a instituição, em função do seu recredenciamento. Acho que nos saímos bem. Vamos aguardar o resultado. Por falar no curso de Artes Cênicas, preparamos o Seminário Interdisciplinar 2009.1, um momento muito interessante no processo artístico-pedagógico.
Recebi uma mensagem de Marcos Barbosa, dramaturgo e professor de mão cheia. O motivo da mensagem foi a leitura que ele fez de meu livro Sob o Signo das Luzes. Ah, os livros, os temas, os interesses nos ligam.
Ah, comprei livros. Compro livro na mesma medida que compro comida. Meu corpo também se alimenta de palavras. A minha mesa de cabeceira tem uma pequena pilha de coisas para ler. Devorei O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho. Gostei imensamente. Ao terminá-lo, recomecei a leitura, de tão bom que é o livro.
Assombrei-me com a ameaça da explosão nuclear da Coreia do Norte. Ditadores são sempre insanos. Eles são guiados pela razão louca. Durma-se com uma ameaça dessa!
Na República Sindicalista - o Brasil - um acontecimento me deixa sem entender a jogada, embora as "otoridades" tenham explicado. Falo sobre o apoio dado pelo governo brasileiro ao ministro da cultura do Egito, candidato ao maior cargo da UNESCO. Não desceu, estou entalado. Acho bacana a aproximação com os países árabes, mas apoiar o tal ministro... Ah, e tem um brasileiro credenciado para tal função, já atuando na UNESCO. Ele é preterido pelo seu próprio país e dizem que o homem é competente. Dá saudade de Stanislau Ponte Preta.
Pra encerrar, fui ver o coral da Igreja de Santana do Rio Vermelho regido por Giancarlo Salvagani. Eles cantaram uma Ave Maria em russo, muita linda e bem executada. Encerraram a missa com o Magnificat. Era uma cerimônia para coroar Maria. Meninas vestidas de anjo, meninos com velas formando uma corredor até o altar, mas tudo sem ritmo, sem noção de ritual muito menos de espetáculo. Deu vontade de meter o dedo e dizer como é que se faz uma cerimônia de coroação. Mania de gente de teatro, assumo. "A gente nasce para o que é". Êta sabedoria!
Ufa!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Registro 268: Depoimento VII

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

Sergipano de nascimento, desde jovem Harido Déda "sentou praça" na Cidade da Bahia. Ator, diretor teatral, mestre em Arte Cênicas, professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. Participante do Centro Popular de Cultura - CPC, fundador do Teatro de Arena na Bahia, Harildo Déda tem em seu vasto currículo uma série de espetáculos, filmes e participações em novelas e mini-séries. Nos anos setenta ingressa no Teatro Livre da Bahia trabalhando sob a direção de João Augusto.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?

Yumara Rodrigues

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?

Marlon Brando, Paul Newman, Pacino, Meryl Streep, Bette Davis.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?

Marfuz, Paulo Dourado, Guerreiro e, é claro, Hackler.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.

Todos que eu conheço são muito bons e injustiçados

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Eu, Brecht, de Deolindo Checcucci

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
O Bonde Chamado Desejo, direção de Charles Mac Gaw, Morte e Vida Severina, direção de Luiz Carlos Maciel, Stopem, Stopem e Os Cordéis, de João Augusto

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Roda Viva, de Zé Celso

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
As Três Irmãs, direção de Enrique Diaz, Hamlet (W. Moura - Aderbal)

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Não!!! Mas muita gente que faz acha!

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Heda Gabler

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
As Três Irmãs, direção de Gianni Ratto, Calígula, direção de Martim Gonçalves, com Sérgio Cardoso

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
A Casa de Bernarda Alba, direção de Possi

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
E tem? Me lembre pelo amor de Deus!

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Rasga Coração, Eles Não Usam Bleque-Tai, O Noviço, Álbum de Família, Vestido de Noiva

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
...

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Não sei.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
As que eu vi na Bahia? Todas!...

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Qualquer Shakespeare, Em Família de Oduvaldo Vianna Filho, Gata em Teto de Zinco Quente.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A síntese.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
A empáfia; o pretexto.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Registro 257: Flávio Império

Arquiteto, professor, artista plástico, diretor, produtor e cenógrafo, Flávio Império dedicou sua vida ao fazer teatral, participando de experiências consagradas e inovadoras do teatro brasileiro, como as do Arena e do Oficina, além de contribuir com seu talento para inúmeros espetáculos fora dos dois grupos magistrais.
Pelo seu trabalho recebeu quase vinte prêmios, como o Governador do Estado, Saci, Molière, Associação Paulista de Críticos de Arte, Medalha de Ouro na Bienal de Teatro e Prêmio de Cenografia na Quadrienal de Praga.
Flávio Império amadureceu como artista que entende a estrutura da linguagem teatral como totalidade. Para ele, cenografia não é fundo e roupa. É muito mais. É o momento do acontecimento teatral, incluindo a ação dramática, texto, luz, som, movimento e o público.
Conheci Flávio em 1976 depois que ele retornou de um verão na Bahia. Hóspede de José Possi Neto na Boca do Rio, Flávio soube por Possi da minha pessoa: uma jovem ator residindo em São Paulo, em começo de carreira. Certo dia, o porteiro do edifício anunciou a sua chegada para uma visita. E eu que admirava seus trabalhos, mas não o conhecia pessoalmente, tratei de recebê-lo ainda sob o impacto da surpresa.
Ao abrir a porta percebi de cara a força da presença. Sem muitos rodeios ele entrou sorrindo abertamente e com uma certa ironia disse estar ali para conhecer um ator baiano de quem tinha ouvido falar muito. Encabulei.
Ele relatou a estada em Salvador. Contou sobre a praia da Boca do Rio, sobre o Carnaval e sobre a perda da carteira surrupiada em meio a folia. De cara, me deu uma de suas gravuras impressa em acetato. No centro da gravura a imagem de um homem, que depois vim a saber quem era. Um homem nu em meio as formas orgânicas, destacando-se uma frase escrita numa espiral. Não lembro do texto; a gravura se perdeu entre as arribações. Mas a frase inicial dizia: "Tens algo das plantas, tens algo dos animais..." A partir daí tornei-me amigo e admirador desse artista, para quem Gianni Ratto dedicou o seu livro Antitratado de Cenografia. Em um país de significativos cenógrafos, Ratto também um importante artista da cenografia escolheu Flávio e Tomás Santa Rosa para homenageá-los. Transcrevo um trecho do livro:
É inevitável, observando panoramicamente a obra de Flávio, pensar nos grandes artífices da Renascença: homens-artistas-artesãos que dominavam um leque de atividades complexas cuja dimensão era a resultante de um esplêndido instinto criador aliado a uma intuitiva postura crítica (RATTO, 2001, p. 17).
Muito se escreveu sobre Flávio e ele deixou muitos escritos ainda sem publicação, mas um livro fundamental foi publicado pela Edusp: Flávio Império, organizado por Renina Kataz e Amélia Hamburguer.
Os textos e as reproduções dos quadros que se seguem são de autoria do cenógrafo inventor.
O teatro me ensinou a vida;
A arquitetura o espaço.
O ensino sinceridade.
A pintura a solidão.
O teatro me fez amigo da multidão.

Auto-retrato/detalhe.Técnica mista. Coleção particular. 1976

adoro
irmã/mente
noel e shakespeare, boal, zé celso, ruth, sábato; gente que faz acontecer o teatro no Brasil. caetano, bethania, célia, célia helena, cacilda, walmor, andré - sei lá
gente que sempre gostou de atuar na cena. mesmo que não soubessem exatamente o que estavam fazendo
GOSTAM e GOSTAVAM
quem se enche o saco se afasta e é sempre pouco, o que consegue nos afastar.
o comodismo, o dinheiro, a idade, a preguiça, - outras bossas.
uma certa "bohemia", cada geração no seu botequim - bar - restaurante, ou própria casa - vendo televisão.
e todo mundo hoje em dia claro que prefere receber em dollares, como a Carmem Miranda!
o "artista" precisa de muita conversa tanto quanto de muito silêncio e recolhimento interior pra conseguir criar.
só na correria, não dá!
e sossego é dólar, ou relativa pobreza.
agradeço a todos os que até hoje me aplaudiram.
porque GOSTARAM.
e se gostam eu também fico contente de conseguir "fazer" o próprio "ato" de agradar.
"gostar da gente" é o nosso IBOPE pessoal
não tenho unanimidade. (mas isso, nem Cristo) mas uma deliciosa platéia,
quando é Bethania, Gal, Artigas, Caetano, Walmor, Célia, Edmar, Gláucia, Vina, Azzis, Guarnieri, Paulo José, Tozzi, Carmela, Djalma, Dina, Myriam, Flávio Motta, Renina, Parreiras, e quantos foram os aplausos.
tive de "agradecer" na estréia de Andorra. fui levado pelo próprio chamado
foi incrível
e, basta uma vez na vida.
é uma enorme prova de amor alegre e cheio de lágrimas foi tão grande o sentimento, que até hoje agradeço.
se me perguntassem algum desses dias com quem mais gostaria de trabalhar
eu reponderia ARRIGO e CASÉ
há sempre com quem, imagine ter feito a "cenografia" de algum show da Ângela Maria, Procópio, Dulcina, e do próprio Noel ao vivo.
seria um total barato!
ter feito Doces Bárbaros, pra mim foi "diploma PHD". tive uma semana pra bolar, fazer, levar, pendurar e ficar olhando, PASMO! tinha conseguido.
em particular, agradeço à Sonia minha "fada madrinha" .
e ao Iácov que, pela 1a. vez, "iluminou" um espetáculo em que a cenografia nasceu junto: OTHELLO.
e ao Arquimedes, por ter me ensinado tudo sobre "o palco", e ainda me ensinar, e aos meus "alunos" que me obrigam a "sambar", e manter o ritmo de cintura.
necessário ao "passar do tempo"
assim, enfim, agradeço a Deus por existir.


maio 1983

Gerais/detalhe. Técnica mista, 1977

Sinto sempre o impulso que eu pinto
sintonizo e pinto
esse impulso me livra
me liberta me diverte me alerta
que amanhã haverá sol
mesmo que hoje eu morra
o outro dia é renascer do seu ser do sol
da chave maior que é a libertação da dor,
o amor
Refazendo.Técnica mista, coleção particular,1975


Bananeiras

sábado, 16 de maio de 2009

Registro 256: O teatro abriu caminhos...

Comecei a fazer teatro em Feira de Santana, no Teatro Experimental de Feira - TEF, mas não participei de montagens. O grupo estava em crise e durante o período não realizou nenhum espetáculo, mas a experiência serviu para solidificar um desejo: me tornar um homem de teatro.
Ingressei na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia em 1968, o ano que começou bem, mas "não terminou". Ou melhor, terminou sob o AI-5. Fiz o Curso de Formação do Ator. Naquela época, um curso de nível médio. Por esse motivo fiz Licenciatura em História para ter o nível universitário, mas o teatro sempre esteve no centro das minhas atenções. Pelo teatro construi a minha identidade, que ao longo dos anos vem se modificando, já que a identidade não é algo fixo, imutável, como querem alguns.
Fiz espetáculos na Escola e fora dela. Alguns desses espetáculos estão registrados aqui.
Um momento importante de minha vida como aluno-ator foi o contato com professores significativos para a minha formação. Não vou nomeá-los para não ser indelicado com aqueles que passaram por mim sem deixar nenhuma marca positiva. Embora a culpa não seja deles, mas minha que não fui suficientemente interessado em descobrir o que poderiam trocar comigo.
Conclui o curso em quatro anos, pois a instituição não cumpria com a oferta de disciplinas no tempo regulamentar. Em 1973, por sugestão de José Possi Neto, solicitei uma disciplina optativa no curso de Direção e fui seu assistente em A Casa de Bernarda Alba, memorável espetáculo ainda hoje lembrado por muitos, como uma realização das mais significativas na história do teatro na Bahia. Em seguida fiz, como ator, Tito Andronico.
Em 1974 fui para São Paulo com o intuito de continuar a minha carreira e, durante 17 anos, estive ligado ao teatro como intérprete e em seguida como dramaturgo. Durante esse período e depois, quando me afastei do palco, vi muitas encenações e com elas refinei a minha sensibilidade, o meu olhar, a percepção com relação ao espetáculo. Aprendi com encenadores, atore, atries, cenógrafos, figurinistas, iluminadores, dramaturgos.
Entre a Escola de Teatro e a vida profissional em Salvador e São Paulo, participei de diversos espetáculos e leituras dramáticas, com destacados diretores e atores da cena brasileira. Por diversas vezes recebi críticas favoráveis ao meu trabalho como intérprete, principalmente aquelas vinda do companheiros de ofício. Em 1986 deixei de atuar e fui realizar outras atividades. Distanciei-me do teatro, mas ele continuou sendo um norte para minha vida. Mesmo distante permaneci grato aos deuses do teatro e também ao meu terapeuta que me ajudou a resolver uma porrada de dúvidas, inseguranças e por que não amar(guras).
Atualmente me dedico ao ensino e a pesquisa. Sou professor de teatro, isso me leva para muitos campos. Os registros fotográficos não estão completos, as imagens se perderam ao longo do tempo ou então foram doadas para o acervo da Funarte.
Parafraseando Walter Benjamin, em mim, o teatro abriu avenidas.
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1968
Os Incendiários, de Max Frish - Direção: Alberto D'Aversa. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio
Bidermann, e os Incendiários
Raimundo Matos, Harildo Déda, Raimundo Blumetti, Gildásio Leite

O Fidalgo Aprendiz, de Francisco Manoel de Melo - Direção: Álvaro Guimarães - 10 Festival do Barroco na Bahia - Teatro Castro Alves.
A Companhia das Índias, de Nelson Araújo - Direção: Orlando Sena. Teatro Santo Antônio.
A Companhia das Índias

A Bela Adormecida, de Raimundo Blumetti - Direção: Deolindo Checcucci. Teatro Castro Alves.

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1969
Onde Há Uma Cruz, de Eugene O'Neill - Direção: Raimundo Melo. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

Onde Há Uma Cruz
Raimundo Matos, Harildo Déda, Normalice Souza
A Bicicleta do Condenado, de Fernando Arrabal - Direção: Jesus Chediak. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

O Circo de Bonecos, de Oscar Von Pfhul - Direção: Teresa Lopes. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

Branca de Neve e os Sete Anões, adaptação de Chico Ribeiro e Maria Idalina – Direção: Maria Idalina. Teatro Castro Alves.

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1970
O Painel da Peste, de Igmar Bergman - Direção: Anatólio Oliveira - Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

Um Elefantinho Incomoda Muita Gente, de Oscar Von Pfhul – Direção: Maria Idalina. Teatro Castro Alves.

Macbeth, de William Shakespeare - Direção: Henrique Ariman - Teatro Castro Alves – Salvador.
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1971
Oficina de Papai Noel, de Maria Idalina – Direção Maria Idalina. Teatro Castro Alves.

O Embarque de Noé, de Maria Clara Machado – Direção: Roberto Assis Departamento de Música e Artes Cênicas – Teatro Santo Antônio.

O Consertador de Brinquedos, de Stela Leonardos - Direção: Maria Idalina. Teatro Castro Alves.
O Consertado de Brinquedos
Cilene Guedes, Raimundo Matos, Waldemar Nobre

Ensaio de O Consertador de Brinquedos
Haidil Linhares, Nei Galvão, Cilene Guedes, Raimundo Matos
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1972
A Bela Adormecida, adaptação de Raimundo Blumetti – Direção: Deolindo Checcucci. Teatro Castro Alves.
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1973
Tito Andronico, de William Shakesperare - Direção: José Possi Neto. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes - Teatro Santo Antônio.
Tito Andronico
Eduardo Esteves, Eduardo Calazans, Raimundo Matos, Gildásio Leite


Eduardo Esteves, Eduardo Tudella, Raimundo Matos, Gildásio Leite Jacques Beauvoir

As Feras, de Vinicius de Moraes - Direção: Álvaro Guimarães. Barração da Rua dos Ingleses.


Foto para divulgação de As Feras
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1974
A Perseguição, de Timochenco Webbi - Direção: Márcio Aurélio - Teatro Aliança Francesa do Butantã , Teatro de Arena - Porto Alegre.


A Morta, de Oswald de Andrade - Direção: Emílio Di Biasi. Sala Gil Vicente - Teatro: Ruth Escobar.


A Morta
Walter Marins, Raimundo Matos, Walquíria Lobo, Márcio De Luca
Bri Fiocca, Wilma de Souza
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1975
Tio Vânia, de Anton Tchecov - Direção: Emílio Di Biasi. Sala do Meio - Teatro Ruth Escobar.

Lição de Anatomia, de Carlos Mathus - Direção: Carlos Mathus. Auditório Augusta.
Cacilda Lanuza, Kadu Moliterno, Geraldo Del Rey
Beth Caruso, Herson Capri, Imara Reis, Raimundo Matos

Raimundo Matos, Geraldo Del Rey
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1977
Pedreira das Almas, de Jorge Andrade - Direção: Thereza Theriot. Teatro Alfredo Mesquita - São Paulo

Souzalândia, de Augusto Francisco - Direção: Roberto Lage. Teatro Oficina - São Paulo

Domingo, Zeppellin, de Marcos Vinincius - Direção: Silnei Siqueira.Teatro Aliança Francesa, Teatro Municipal de São Paulo.
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1978
Último Carro, de João das Neves - Direção: João das Neves. Pavilhão da Bienal.

Os Saltimbancos, adaptação de Chico Buarque - Direção: Silnei Siqueira. Tuca.

Lição de Anatomia, de Carlos Mathus - Direção: Carlos Mathus. Viagem pelo Brasil.
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1979
A Falecida, de Nelson Rodrigues - Direção: Osmar Rodrigues Cruz.Teatro Popular do Sesi.
A Falecida
Reinaldo Rezende, Paulo Prado, Ismael Rosan
Raimundo Matos, Luiz Parreiras
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1980
Quem Conta Um Conto Aumenta Um Ponto, de Raimundo Matos - Direção: Roberto Lage. Teatro Anchieta.

Quem Conta Um Conto Aumenta Um Ponto
Raimundo Matos, Cleide Queiros
Geni, de Chico Buarque e Marilena Ansaldi - Direção: José Possi Neto. Teatro Franco Zampari.

Geni
Marilena Ansaldi, Raimundo Matos, Ivan Lima

Raimundo Matos, Yeta Hansen, Armando Tirabosqui
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1981
Escuta, Zé, de William Reich e Marilena Ansaldi - Direção: Celso Nunes. Teatro Franco Zampari e viagem pelo Brasil.

Raimundo Matos

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1982
Coitado do Isidoro, de Sebastião de Almeida - Direção: Osmar Rodrigues Cruz - Teatro Popular do Sesi - Santo André.

Elenco e equipe técnica com o diretor Osmar Rodrigues Cruz
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1983
Casa de Brinquedos, de Toquinho e Elifas Andreatto - Direção: Mário Mazetti. Tuca.

Édipo Rei, de Sófocles - Direção: Marcio Aurélio – Galpão -Teatro Ruth Escobar - São Paulo e viagem pelo Brasil.

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1984
Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão, de Naum Alves de Souza - Direção: Naum Alves de Souza.Teatro Maria Della Costa.
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1985
Madame Blavatski, de Plínio Marcos - Direção: Jorge Takla - Teatro Aliança Francesa.

Madame Blavatski
Raimundo Matos, George Otto, Thaia Perez,
Tony Brandão, Wladerez de Barros

Walderez de Barros, Raimundo Matos
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2000
Exercícios Cênicos, diversos autores. Mostra do XVI Curso Livre de Teatro, atividade de extensão da Escola de Teatro da UFBA - Direção: Raimundo Matos de Leão - Teatro Martins Gonçalves.
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2001
Píramo e Tisbe, de Vladimir Capella - XVI Curso Livre de Teatro - Direção: Raimundo Matos de Leão - Espaço Xisto.


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2005
Brincadeiras, de Raimundo Matos de Leão - Direção: Raimundo Matos de Leão. Teatro Isba.
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2006

Os da Mesa 10, de Oswaldo Dragun - Direção: Raimundo Matos de Leão. Teatro Isba.


Os da Mesa 10
Antonio Alcântara, Ricardo Faria
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2007
Yerma, de Federico Garcia Lorca - Direção: Raimundo Matos de Leão. Teatro Isba.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Registro 265: Pra Fanny Abramovich

A PROPÓSITO DA COMEMORAÇÃO
Escrever é uma extensão do hábito prazeroso de ler e é, sobretudo, uma maneira de dividir com o leitor uma parte desse prazer.

Tomei gosto pelos livros descobrindo-os na estante de tia Edna, professora em Baixa-Grande, Bahia. Pinóquio foi o primeiro livro a me fascinar. Depois, veio a descoberta de Lobato e seu universo, seus personagens inesquecíveis. Tanto me impressionaram que, aos dezoitos anos, fiz meu pai comprar toda a coleção de um vendedor que bateu a nossa porta. Anos mais tarde, já em São Paulo conheci apaixonados por Monteiro Lobato, entre eles Tatiana Belinki e Fanny Abramovich. Quando Fanny entrou na minha vida eu tinha escrito o meu primeiro texto de teatro para crianças, Brincadeiras. Por essa época, eu não imaginava que pudesse escrever outras peças e contos e romances curtos, mas ao mexer comigo, Fanny provocou. E dessa provocação descobri em mim possibilidades insuspeitadas.

Voltando a Lobato e aos meus dezoito anos: com outros olhos, reli cada livro do escritor, constatando a permanência do encanto original dos tempos de criança, quando eu ouvia histórias contadas por minha avó Rosinha, que de quebra, sempre narrava uma história de santo. Mais tarde fique sabendo chamar-se hagiografia.

À descoberta da leitura, juntou-se a gostosura de ouvir histórias; depois, vieram os livretos de cordel e, por fim, os livros ditos para adultos. Aí foi paixão desmesurada, sem critério, lendo tudo que caía nas mãos. Levei muito tempo para separar o joio do trigo. Isso não quer dizer que hoje em dia eu mantenha um rigor nas escolhas.

Entre a descoberta da leitura e a descoberta das possibilidades de me tornar um escrevinhador, decorreu muito tempo. E afirmo: quem me levou para a literatura foi o teatro. Como disse acima, escrevi Brincadeiras, com ela ganhei um prêmio que, depois vim saber, foi defendido com unhas e dentes por um dos membros da comissão julgadora: Fanny Abramovich. Ela me disse um dia que viu no texto inventividade.

No livro de Fanny, O estranho mundo que se mostra às crianças (Summus), há um capítulo destinado ao teatro infantil. No texto, publicado anteriormente no Jornal da Tarde, em 2 de setembro de 1978, Fanny discorre sobre o teatro para a infância e a juventude e completa seu texto com depoimento dos autores premiados no IV Concurso de Dramaturgia Infantil do Serviço Nacional de Teatro (1977). A partir desta matéria/entrevista, Fanny Abramovich entrou na minha vida de uma maneira provocadoramente lúdico-lúcida

Em 1987, quando dirigia a Coleção Estrela para a Editora Salesianas, Fanny me pediu que retrabalhasse uma história perdida no fundo de uma gaveta. Essa história se tornou o meu primeiro conto publicado: Um muro no meio do caminho. Foi um processo vivenciado com raro prazer. A história de um garoto que deseja um muro no meio do caminho para a escola parecia um despropósito, mas se tornou um exercício de imaginação e rebeldia, tanto para o personagem quanto para mim. Pena que a Editora interrompeu a coleção! Gosto de estar na coleção tendo como companheiros Vivina de Assis Viana (O rei dos cacos), Sylvia Ortoff (A mesa do botequim e seu amigo Joaquim e Dita-cuja, a coruja), João das Neves (A árvore cheia de estrelas) Flávio de Souza (Uma menina e um menino, Papel de carta, papel de embrulho e Filho de artista), Roseana Murray (Um avô e seu neto) e Fanny Abramovich (Deixa isso prá lá, vamos brincar).

Uma coisa puxa a outra e fui parar no Bambalalão, reprisado hoje na TV Rá-Tim-Bum. Escrever para o Bambalalão, programa para crianças produzido pela TV Cultura de São Paulo, me familiarizou com a linguagem do texto para a televisão. Semanalmente, escrevia histórias dramatizadas e pequenos contos para o elenco do programa. Divertia-me depois, vendo os atores improvisando e brincando em cima dos textos.

A entrada no universo da literatura juvenil se deu com o livro Primavera pop! publicado pela Editora Saraiva. Mais uma vez, o dedo de Fanny! Por sua indicação, encaminhei o trabalho para Cláudia Abeling-Szabo, responsável na época pela Coleção Jabuti. Primavera pop conta a história de Ana Maria e da sua amizade com tio Miguel, de quem ela descobre um caderno onde ele narra fatos da sua infância e adolescência. Conta também a relação da garota com a família, os colegas e sobretudo com seu primeiro namorado. As histórias de tio Miguel permeiam a história de Ana Maria com emoção e fantasia. O livro está nas livrarias.

Um segundo livro para jovens, Braçoabraço, é mais um título que tenho na Coleção Jabuti. O personagem central, Tuim, vive aventuras e desventuras quando é abandonado na cidade grande. Ao ser flagrado por um fotógrafo dormindo nos braços de uma estátua, vira primeira página de jornal. A partir daí, sua vida toma novos caminhos.

Outros trabalhos foram sendo produzidos e publicados: Da Costa do Ouro e Quem conta um conto aumenta um ponto (Saraiva), De cara para o futuro (SM), Bacanas e famosos no caderno de autógrafos, Um grilo no pedaço (Paulinas), Sob o signo das Luzes (FTD) Outros estão prontos a espera de editores. Novos projetos tomam corpo, outros são deixados de lado. Continuo o meu exercício diário, criando, recriando, destruindo e construindo, através de uma prática que implica em leitura, observação e exercícios imaginativos para dar vida aos personagens e suas ações num mundo do qual sou criador.

Procuro falar ao imaginário do leitor, acreditando na sua capacidade de desejar uma integração com o texto de tal forma que, ao acabar a leitura, ele possa se sentir motivado a dar continuidade ao exercício de ler e ter prazer, de ler e ser crítico, de ler e estabelecer um diálogo com as idéias... Aposto sempre na possibilidade de que este jogo se torne uma necessidade para sua vida, um contraponto para a mesmice que empobrece nosso cotidiano.

A obra literária torna-se um objeto social, que proporciona ao leitor uma vivência que de outra forma não poderia experienciar no cotidiano. Isso nos torna abertos para compreender a vivência de outras pessoas e de outras culturas. Acreditando nisso, vou tecendo as minhas histórias, como o galo de João Cabral de Melo Neto tece a manhã.

Ao escrever esse texto, aproveito a oportunidade para homenagear a minha amiga e incentivadora, Fanny Abramovich. Ela já vendeu mais de um milhão de livros, e escreve lindamente. No dia 16 de maio a escritora lança três livros, De surpresa em surpresa, Espelho, espelho meu e Três desejos tão desejados, todos pela Saraiva – Atual. Na ocasião Fanny comemora 20 anos de carreira. E que bela carreira: escritora, pedagoga, jornalista, consultora e descobridora de pessoas que iniciam seus caminhos pelas vias da escrevinhação, conduzidos pelos seus risos vibrantes e por sua torcida. Os ilustradores dos livros, Marcio Levman, Vivian Altman e Marcelo Cipis foram alunos de Fanny no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleicham, espaço educativo onde aprendi de fato a ser professor. Coincidentemente, os ilustres e talentosos ilustradores, já crescidos foram também meus alunos. A vida tece esses encontros, borda a afetividade, nos recheia de lembranças.

Existem pessoas que passam pelo mundo espalhando belezura e Fanny é uma delas. Ela espalha tudo isso nos seus livros, nos postais que me envia e nas conversas por telefone, sempre tarde da noite. Notívaga, a escritora está sempre pronta a prosear enquanto grilos cantam, estrelas piscam e alguns dormem.

Caso você encontre um dos livros – são muitos – de Fanny Abramovich, não deixe de abrir e se deliciar com uma prosa criativa, crítica, brincalhona, cheia de sentimentos, permeada de humanidade. Tenho todos eles autografados carinhosamente. Não posso estar na festa dos 20 anos como estive na festa comemorativa de um milhão de títulos vendidos. Mas estou na torcida, catando parabéns e esperando novos livros, porque Fanny não dorme no ponto. Ela escreve...
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Esse texto, anteriormente publicado em http://www.geocities.com.rmleao/ , endereço desativado, foi reescrito em função da comemoração dos 20 anos de carreira de Fanny Abarmovich.

domingo, 10 de maio de 2009

Registro 264: Depoimento VI

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.
Antônio Marques, nascido em Conceição do Jacuípe, interior da Bahia, Antônio Marques é formado em Direção Teatral pela Universidade Federal da Bahia, em Artes Plásticas pela Universidade Católica do Salvador e Especialista em Fundamentos do Ensino da Arte pela Faculdade de Artes do Paraná. Diretor Artístico da Arte Sintonia Companhia de Teatro desde a sua formação, em 2000, onde dirigiu os espetáculos “Um Cravo na Lapela”, “A Serpente”, “Pedaço de Mim”, “A Lei e o Rei”, “Supernordestinos Contra o Monstro da Mandioca” e “Zona Contaminada”. Em 2008, dirigiu “O Submarino”, comédia de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, com Diogo Lopes Filho e Márcia Andrade. Fez curso de Direção Teatral com Fernando Guerreiro e de Dramaturgia com Aninha Franco. Em julho, sob sua direção, estréia o infanto-juvenil “H2Ópera”, de Luís Sérgio Ramos.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Sou um grande apreciador do teatro baiano, acredito muito no teatro que fazemos aqui, não só pela qualidade que imprimimos em nossos trabalhos, mas também pela garra que temos, onde fazemos espetáculo com ou sem dinheiro, com a mesma entrega. Mas voltando a pergunta, além dos atores da Arte Sintonia – Cia que dirijo – Denise Correia, Lívia França, Leonardo Freitas e Gilson Garcia, muitos atores baianos me impressionam em cena, principalmente as mulheres, dentre elas: Cristiane Mendonça, Andréa Elia e Rita Assemany. Da nova geração, acompanho e gosto muito do trabalho de Simone Brault (com quem já tive o prazer de trabalhar) e Mariana Freire.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Meryl Streep, sem dúvida! Toda as vezes que a vi interpretando fiquei fascinado. Nicole Kidman também faz parte da minha galeria, só acho que ela poderia escolher melhor os roteiros, mas é uma excelente atriz.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Sou fruto da Escola de Teatro da UFBA, então, os meus mestres serão sempre minhas referências, por isso, acompanho de perto o trabalho de Luiz Marfuz, Deolindo Checcucci, Paulo Cunha, entre outros. No entanto, toda vez que assisto a um espetáculo de Fernando Guerreiro, saio maravilhado do teatro, porque por mais que já tenhamos visto suas encenações, ele sempre nos traz frescor, nos faz sair maravilhados, seja nas comédias rasgadas, com uma assinatura que só ele tem, ou em espetáculos densos, como “Calígula” e “Eqqus”.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Pode ser eu? (risos)

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
“Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou!”, com a Mônica Martelli. Não dava nada pela peça, mesmo sabendo de todo o sucesso que já havia feito no eixo Rio/SP. Sai do teatro ligando para os amigos irem assistir.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Nossa, já assisti a tanta coisa boa! “Senhora dos Afogados”, resultado do Curso Livre da UFBA com direção de Paulo Cunha, “Abismo de Rosas” foi um espetáculo fascinante, “Lábaro Estrelado”, a primeira versão de “Cabaré da Raça”, hoje se perdeu, mas quando estreou era maravilhoso.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
“O Sapato do meu Tio”, com direção de João Lima. Saí do teatro com minha vocação reafirmada.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
“Mestre Haroldo e os Meninos”, dirigido por Ewald Hackler. A peça fala de respeito, igualdade, mexe com questões raciais e, sem dúvida, me fez refletir sobre estes assuntos.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Comédia é um gênero de primeira, sem dúvida, quem não gosta de rir? Mas é necessário que tenhamos outros gêneros com casa cheia também.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
“Seu Bonfim”, com Fábio Vidal.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
“A Casa de Eros”, de Possi Neto, em comemoração aos 40 anos da Escola de Teatro da UFBA.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
O ciclo de “Os Sertões”, encenado pela Oficina Uzyna Uzona, no Museu do Ritmo.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
“Abismo de Rosas” de Cláudio Simões e “Alta Noite”, de Elísio Lopes Jr.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
“Eles não usam black-tie”, de Gianfrancesco Guarnieri. Mais do que nunca, é preciso entender que o coletivo vale mais do que o individual.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Flávio Marinho, pela ausência de encenações de seus textos na Bahia.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Caramba, já assisti tanto mau teatro, (risos) vindo do Sul. Recentemente, assisti “O Manifesto”, protagonizado por Eva Wilma, mas lembro também que assisti, há alguns anos, “Gata em teto de zinco quente”, com Vera Fischer. Eu e meus amigos saímos constrangidos do teatro.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Não temos críticos em Salvador.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
“As Primícias” de Dias Gomes; “Coração Brasileiro” de Flávio Marinho e “Gota D’ água” de Chico Buarque.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Disciplina, comprometimento.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Salvador tem uma coisa que me incomoda: aqui, todo mundo pode ser autor, pode ser diretor, pode ser ator. Concordo, acho que todos podem, desde quando estude para isso. O que me irrita é que muita gente diz que não gosta de teatro e, por acaso, vai assistir a uma peça que um amigo fez de um curso qualquer, com um resultado qualquer, e vai sair de lá achando que assistiu a uma peça de teatro e convicto de que teatro é uma merda.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Registro 263: Livro sobre teatro na Bahia

Lançamento
Transas da cena em transe: teatro e contracultura na Bahia
(Edufba, 2009, 400 p., R$ 30,00)
Raimundo Matos de Leão
Dia 06 de maio de 2009, quarta-feira, a partir das 18h30m, na Galeria do Livro
(Espaço Unibanco Glauber Rocha).

Transas na Cena Transe, Teatro e Contracultura na Bahia, uma publicação da Edufba é derivado da tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas – UFBA, em 2007. O livro aborda questões relativas ao teatro em meio ao idearia contracultural, investindo sua argumentação contra a afirmação de que a produção teatral que se dá de 1968 a 1974 é destituída de criticidade. Propondo outro ponto de vista, o livro apresenta e analisa a produção teatral para afirmar que não houve um “vazio cultural” durante o período em que o governo civil-militar esteve no poder e utilizou a censura e a repressão para calar os artistas. Tomando como fonte de sua pesquisa os jornais da época, o depoimento dos envolvidos com a produção teatral em Salvador e fontes secundárias, o professor Raimundo Matos de Leão dá continuidade à pesquisa sobre a história do teatro na Bahia a partir dos meados dos anos 1950, tema do seu livro anterior Abertura Para Outra Cena, O Moderno Teatro na Bahia, lançado em 2006, uma publicação da Edufba em conjunto com a Fundação Gregório de Mattos. Nessa obra, o autor cobre o período anterior à criação da Escola de Teatro para afirmar que a vida teatral em Salvador sofreu um impulso modernizador a partir da existência da instituição universitária dirigida por Martim Gonçalves. Transas na Cena em Transe avança pela década de setenta, para mostrar um momento significativo do teatro na Bahia, tema de pesquisa a quem vem se dedicando o autor.

Transas na Cena em Transe concentra-se no período que vai de 1967 a 1974, historicamente reconhecido como o auge da contracultura, do desbunde, da festa, da militância guerrilheira. As ações culturais desse período, conceituadas como imbuídas de romantismo revolucionário, inscrevem0-se como reação ao crescente autoritarismo do regime civil-militar. O teatro obriga-se a encontrar formas para manter-se vivo e nos palco de Salvador surgem encenações que traduzem de modo explícito as transformações por que passa a cena mundial. No livro, o autor apresenta os espetáculos, Uma Obra do Governo, Stopem, Stopem, Macbeth, O Futuro Está nos Ovos, Rito do Amor Amargo, Electra, O Diário de um Louco, A Casa de Bernarda Alba, Titus Andrônicus, revelando para o leitor de que maneira os encenadores conceberam seus trabalhos.

Mais informações no endereço on-line:
http://edufba.blogspot.com/
EDUFBA (71) 32836160
http://www.blogger.com/

Registro 262: Luiz Fernando ramos escreve sobre Boal

MAIS DO QUE PEÇAS, REFLEXÕES E IDEIAS IMORTALIZAM BOAL
Luiz Fernando Ramos
Crítico da Folha
(Folha de S. Paulo, 05.05.2009)

Há um consenso em torno de Augusto Boal. É a personalidade do teatro brasileiro mais conhecida internacionalmente, com livros traduzidos para vários idiomas e seu nome inserido nas principais enciclopédias teatrais. Se esse reconhecimento abrange a sua condição de dramaturgo e encenador, foi principalmente pelas suas ideias e reflexões teóricas que Boal se fez famoso.Sua primeira contribuição teórica relevante foi o "sistema coringa", surgido nos anos 60 no Teatro de Arena. Boal partiu das ideias de Bertolt Brecht, particularmente do efeito de estranhamento, em que se propõe ao ator uma distância de seu personagem, para que possa ver criticamente suas ações e permita ao público partilhar esse olhar crítico.Boal distanciou atores dos personagens por meio do uso coletivo dos papéis, com os atuantes compartilhando a mesma "máscara", ou característica social e psicológica.Essa técnica foi utilizada pela primeira vez em 1965, na encenação de "Arena Conta Zumbi", e aprimorou-se no espetáculo seguinte, "Arena Conta Tiradentes".
A "Poética" de Augusto Boal, como a chamou Anatol Rosenfeld, foi publicada sob o título "Elogio Fúnebre do Teatro Brasileiro Visto da Perspectiva do Arena". Rosenfeld apontou, no ensaio crítico "Heróis e Coringas", a incompreensão por Boal das teses de Brecht ao conceder aos protagonistas a empatia diante do público que recusava ao coro. Segundo Rosenfeld, mesmo reconhecendo a importância "singular" do ensaio de Boal "no pensamento estético brasileiro", essa opção favorecia uma identificação festiva do público com o herói, no caso Tiradentes, e traía as ideias de Brecht.
Com o livro "O Teatro do Oprimido e Outras Políticas Poéticas", de 1975, escrito no exílio na Argentina, Boal produziu sua obra teórica mais influente. Ali, combinou técnicas teatrais por ele criadas, como o teatro invisível, o teatro jornal e o teatro fórum, para mesclar a ação teatral e a ação política contra todas as formas de opressão -econômica, familiar, racial ou religiosa.Boal continuaria produzindo livros que aprofundavam aquela ideia fundamental, de que qualquer ser humano pode atuar em favor da transformação de si e do mundo. Em um de seus últimos ensaios, de 2006, discutiu o teatro do oprimido na perspectiva da sensibilidade dos bebês.O legado de Boal como pensador pode ser avaliado pelos inúmeros grupos, no mundo todo, que partem de seus exercícios e estratégias teatrais na militância política e nas práticas de ensino e de ação cultural. Muito menos que por suas peças e encenações, imortalizou-se pelos seus escritos.