
A quem interessar, recomendo a leitura do livro de Perec que nos tinha dado A vida, modo de usar, publicado pela Companhia das Letras (1991). Encontrei W ou a memória da infância, esquecido no meio de uma porção de livros em oferta. Apostei no nome do autor, já conhecido, e mais ainda no título. Para quem acabou de ver os jogos Olímpicos em Pequim, mergulhar no universo opressor narrado por Perec terá uma medida do que é a imposição, o autoritarismo, o pensamento único em um país de nome W onde tudo e todos cultuam de forma impositiva o triunfalismo esportivo. E, coitado daqueles que não conseguem a vitória. Mesmo aqueles que se tornam vencedores, um dia serão retirados do pódio para sofre as terríveis humilhações impostas aos derrotados. Uma metáfora do nazismo, a narrativa nos remete ao questionamento de Adorno: "Como escrever poesia depois de Auschwitz?" Perec, filho de pais mortos pela repressão nazista, consegue romper com a interdição que a pergunta de Adorno coloca e resgata a si e aos pais. Arthur Nestrrovski escreve na orelha do livro e afirma que o autor responde à pergunta, "mesmo em face da impossibilidade de dar conta do que se passou; autores para quem escrever é uma das maneiras - talvez a única - de sobreviver à experiência e às memórias da guerra. Primo Levy e Louis Begley são nomes que vêm à mente, aos quais se junta o de Georges Perec