Mostrando postagens com marcador Criança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Criança. Mostrar todas as postagens

domingo, 3 de agosto de 2008

Registro 190: Lembrança da infância em...

“Tal como a mãe que aconchega no peito o recém-nascido sem acordá-lo, assim também a vida trata, durante muito tempo, as ternas recordações da infância” - sem discordar de Walter Benjamin (Infância em Berlim por volta de 1900), vejo que em mim as recordações de infância despertam involuntariamente. Esse acordar motivado pelo inesperado que irrompe no caminho do dia e nas veredas das horas torna o cotidiano um pouco mais rico. A estridência dos barulhos ou a suavidade de uma música provocam recordações como as de agora. Sinto no ar o odor dos bolinhos de tia Mirinha. Lembro a textura saborosa da massa fofinha e amarela dissolvendo-se na boca, depois que os olhos admiravam-lhes as formas intumescidas saídas de forminhas que as aprisionavam, mas determinavam seu crescimento para cima, abrindo-as convidativas para o apetite de menino. Apetite que devorava forma, textura e sabor por etapas, até que tudo se transformasse em pasta. Assados em forno de lenha, os bolinhos brilhavam aos meus olhos gulosos, já que vinham vitrificados com uma camada de manteiga derretida, aumentando a intensidade do amarelo vibrante das gemas dos ovos de galinhas criadas nos quintais e nas roças. Essa camada translúcida fazia com que as cores do assado, com suas tonalidades de marrom, combinassem com o amarelo do interior do bolinho, que aparecia pelas rachaduras provocadas pelo calor.

Vendidos nos bares da cidade, ou comercializados de porta em porta pela velha Davina, os bolinhos de tia Mirinha foram as delícias de minha infância, da mesma forma que os bolos grandes e os doces que ela fazia para completar o orçamento familiar, ajudando o marido a criar os muitos filhos. Ele atrás do balcão da venda de secos e molhados, ela na cozinha a bater imensas vasilhas de massa, a untar forminhas, acender o forno de lenha mantendo-o na temperatura exata para fazer sair da fornalha as preciosidades do fim de tarde, hora em que a guloseima ficava pronta abarrotando bandejas e tabuleiros. Pura alquimia a tarefa de tia Mirinha.

Conhecida por todos como Mirinha, seu nome Altamira ficava para as certidões guardadas em caixas no interior de algum armário ou guarda-roupa. Era assim que se guardavam as certidões de nascimento, batismo e casamento no tempo da minha criancice. Para os sobrinhos, era a tia Mirinha, gorda, do rosto redondo, sorriso acolhedor, voz firme e adocicada por um tom maternal de quem criou cinco filhos, todos adultos quando eu era menino. Alguns em São Paulo, outros perto dela. Sua casa exalava os aromas doces e a limpeza. A brisa corria das janelas sempre abertas pelo longo corredor, até os fundos onde se concentrava a cozinha. Tudo no lugar: quadros com paisagens, bibelôs, jarros, vasos com plantas, mesa sempre forrada com tolha bordada ou com pano de crochê, feitos certamente por minha avó. Na cozinha, chamava a atenção o brilho das panelas de alumínio, o tacho de cobre sem azinhavre e os apetrechos para as misturas que só ela sabia fazer.

Bolos do cotidiano transformavam-se em preciosidades nos dias festivos. Não os renegava, embora fosse fiel aos bolinhos que Davina entrega em casa. Fiel a eles. Saboreava os das festas, mas voltava aos pequeninos, certo de que eles eram os melhores bolinhos do mundo; e eram. Ainda hoje, ao ver as guloseimas nas doçarias, padarias e confeitarias, não encontro nada comparável aos bolinhos de tia Mirinha. Eles estão associados aos momentos mais felizes entre os tantos que tive em minha infância. Tanto os bolinhos quanto os instantes de felicidade amenizaram os dias tristes e as tensões de um menino que sabia ser constituído de outra matéria: a dos sonhos, da fantasia, da solta imaginação que me faziam vagar para bem longe, quando os medos se faziam presentes. Ah, os bolinhos de tia Mirinha só encontram rivais nos bolinhos de Tia Nastácia.

sábado, 2 de junho de 2007

Registro 94: Fragmento de um conto para criança

DONA ROSITA E SEU GATO MIAU

Raimundo Matos de Leão.

Era uma vez...

Na cidade do Esquecimento, vivia dona Rosita bordando lenços, laços, lençóis e vendo o tempo passar. Nada mais fazia além de fiar e bordar.

Rosita não tinha alegria e tristemente vivia a suspirar. Passava os dias num suspiro de dar dó. E no eterno suspirar deixava o tempo passar

- Ai...ui...ai! Uf! Uf! Uf! Ai, que estas horas não passam! Parece que o relógio não anda!
E assim passava o tempo, amanhecendo, anoitecendo e Rosita a reclamar. Olhava sempre o relógio e querendo brigar com ele, como se o tic-tac da máquina fosse o culpado de tudo.

Rosita tinha um gato que se chamava Miau. O gato, acostumado, seguia a sua dona naquele ritmo de vida, parado, sem novidades.

- Miau, miiiiaaauuuu! - o gato bocejava: - Anda tudo tão parado!

- Não acontece nada hoje em dia! Completava Rosita.

E os dois voltavam a suspirar.Uns suspiros tão fininhos de cortar o coração.

Todo mundo que pela casa passava, via pela janela, Rosita no seu fiar e o gato no ronronar.

Às vezes, o gato e sua dona amanheciam reclamando um do outro, e com isso a casa ficava entregue às pulgas, baratas e ratos.

Havia um rato que fazia a festa. Roía o queijo, o papel que embrulhava o queijo e tudo que cheirasse a queijo. Não contente com isso, metia o dente nas linhas e novelos na cesta de costura.

Rosita vivia implorando ao gato pra ele pegasse o rato, mas de tanta preguiça, acomodado que estava, o gato não saía do lugar. E pela sua cabeça passava: - “Deixa o bichinho comer, ele não pode morrer de fome!”

Assim passava o tempo. A praia se enchia de gente, depois os quintais e jardins cobriam-se de folhas amareladas. Mais um pouco, tudo que era de lã saía das gavetas e, por fim, as flores pintavam o mundo com suas cores. E daí tudo recomeçava e o calor inundava as cidades. Mas não pense que tudo era assim tão arrumadinho. Às vezes o tempo se encarregava de embaralhar tudo. Chovia e fazia sol ao mesmo tempo e as crianças brincavam, cantando:

- É sol e chuva, casamento de viúva!
É chuva e sol, casamento de espanhol!

Mas pra Rosita e Miau, o tempo não parecia passar, nem se atrapalhar!

Um dia, Rosita estava bordando e o gato veio se enroscar nos seus pés. Distraída, ela jogava fiapos de linha em cima do bichano. Os fiapos, no começo faziam até uma cosquinha gostosa, mas depois caíram tantos que Miau se irritou. Rosita, não se dava conta do que fazia com seu bichano de estimação. Quando estava que era só fiapo colorido, o gato deu um pulo, espreguiçou-se, miou bem forte e foi dizendo:

- Miaaauuuuu... Sabe de uma coisa? Quem fica parado é poste, eu quero é rebolar. Por isso vou me mandar. Vou pular a janela, vou ver o mundo do lado de lá!
Pegou uma trouxinha, juntou as suas coisas, enfiou a trouxinha num velho guarda-chuva e se mandou.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Registro 53: Desenho de criança















Menina
Sônia Szmid, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)



















João Minhoca
Dora Zinger, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)








Jacaré
José Guilherne G. Guerra, 4 anos
Jardim de Infância do C. A. Paulistano (SP)




Os postais com desenhos de crianças são presentes que recebi de Fanny Abramovich e foram feitos pela Giroflé, uma editora voltada somente para literatura infantil em São Paulo nos idos de 1964 / 1965.

Os donos, conforme Fanny eram três portugueses incríveis: Fernando Santos Costa que mora em Portugal e é responsável pelo site Vidas Lusófonas, Fernando Lemos, artista plástico e gráfico e o falecido poeta Sidonio Muralha.

Fanny Abramovich foi assessora pedagógica da Giroflé, editora responsável pelo lançamento de apenas cinco títulos, entre eles Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles. Coube a Fernando Lemos inventar e organizar três séries de cartões com desenhos de crianças.

Não lembro mais como chegaram ou como pegamos, mas ajudei a selecionar centenas de milhares... Os envelopes, o projeto gráfico era todo dele [Fernando]... Quem envelopou, pasme, foi o Luís Carlos Lamego, que virou boy da Editora... (!!! as coisas que consigo...). Se mostrar pra ele, acho que vai orgasmar,

informa Fanny na mensagem que me enviou em 20 de abril de 2007. Generosamente, a presenteadora se manifesta da seguinte maneira: “Só tinha esta última coleção guardada, mas como você coleciona e eu não, te presenteio com prova do meu passado... viu o que é querer bem???”



Sei bem o que é ser querido! Ainda mais pela Fanny, admirável!

Os postais estão guardados carinhosamente. Da série que ganhei, reproduzo quatro imagens, embora esteja grafado no verso dos postais: "reprodução proibida". Penso que os ex-donos da Giroflé e os autores dos desenhos não vão questionar a lembrança-homenagem. Publicá-las na Cenadiária é divulgar um trabalho importante e reafirmar a necessidade do desenho no espaço educativo. As imagens foram produzidas por crianças de diversas escolas paulistanas na década de sessenta. Elas são iluminações de um tempo tão sombrio...

Para completar esse registro, transcrevo um trecho do livro O espaço do desenho: a educação do educador, de Ana Angélica Albano Moreira (2002, p. 15):

Toda criança desenha.

Tendo um instrumento que deixe uma marca: a varinha na areia, a pedra na terra, o caco de tijolo no cimento, o carvão nos muros e calçadas, o lápis, o pincel com tinta no papel, a criança brincando vai deixando sua marca, criando jogos, contando histórias.

Desenhando, cria em torno de si um espaço de jogo, silencioso e concentrado ou ruidoso seguido de comentários e canções, mas sempre um espaço de criação. Lúdico. A criança desenha para brincar.

Desenhar é bom para tirar as idéias da cabeça. Porque sempre que a gente tem uma idéia, a gente quer ter ela, brincar com ela, aí a gente desenha ela”. Observou Eduardo (8 anos).

O desenho como possibilidade de lançar-se para frente, projetar-se.



___________________________________________________________________
MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyola, 2002.