sábado, 31 de outubro de 2009

Registro 290: Biblioteca Osmar Rodrigues Cruz

O Instituto Osmar Rodrigues Cruz, uma iniciativa de sua filha, a professora Maria Eugênia Rodrigues Cruz, companheira de elenco na montagem de A Falecida dirigida por Osmar para o Teatro Popular do Sesi, coloca na rede a Biblioteca Virtual Osmar Rodrigues Cruz, com o objetivo de divulgar o acervo de milhares de livros sobre teatro que o diretor organizou ao longo de sua vida.
Através do portal, em fase de testes, os interessado terão acesso aos livros e revistas que serão digitalizados. Tal iniciativa deve ser apoiada por todos, pois significa um passo no sentido de tornar público uma biblioteca particular contendo obras raras, de grande importância para os pesquisadores e estudiosos do teatro. Somente os amigos mais íntimos de Osmar Rodrigues Cruz tiveram contato com a biblioteca, agora aos cuidados de Maria Eugênia. Mas iniciativa abre essa possibilidade para muitos. O gesto de Maria Eugênia mostra a compreensão que ela tem desse acervo e da necessidade de socializá-lo, visto que o meio encontrado para sua divulgação tende a se expandir permitindo o acesso a todos.
Ao registrar esse acontecimento, sinto-me honrado pelo convite feito por Maria Eugênia, para que eu participasse da diretoria do Instituto.
Para quem quiser visitar o portal é só acessar o endereço abaixo.

sábado, 17 de outubro de 2009

Registro 288: Importante texto de Antonio Cícero

ANTONIO CÍCERO

O islã e os direitos humanos


Quanto mais uma ideologia se pretender superior à crítica, tanto mais merece crítica



ATÉ POUCO tempo, o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (CDH), criado há três anos, encontrava-se inteiramente controlado por Estados membros da Organização da Conferência Islâmica. Infinitamente mais preocupados em blindar sua religião contra qualquer crítica do que em proteger os direitos humanos dos seus cidadãos, esses Estados conseguiam, ano após ano, passar resoluções de condenação à "difamação de religiões".
Na prática isso significava endossar os atentados constantes de diversos Estados contra o direito humano fundamental da liberdade de expressão. Assim, a crítica a determinadas práticas de fundo religioso -como a execução de apóstatas e homossexuais, a clitorectomia, a lapidação de adúlteras ou a amputação das mãos de ladrões, por exemplo- podia ser enquadrada como "difamação de religiões". Também a perseguição de hereges, de membros de religiões minoritárias ou de ateus pode ser justificada através dessa noção. Em suma, ao condenar a "difamação de religiões", o CDH, por um lado, racionalizava exatamente o desrespeito aos direitos humanos e, por outro lado, inibia qualquer crítica a esse desrespeito: violando, desse modo, o direito humano fundamental à liberdade de opinião e expressão.
Na verdade, os direitos humanos são direitos de seres humanos individuais, face ao Estado, às igrejas e, de maneira geral, a todas as instituições e coletividades. Por isso, à medida que qualquer sistema de crenças e comportamentos tradicionais seja secular, seja religioso sirva para racionalizar o desrespeito aos direitos dos indivíduos, ele deve ser criticado por violar os direitos humanos. Quanto mais uma ideologia secular ou religiosa se pretender superior à crítica, tanto mais, por isso mesmo, merece crítica. Nada mais absurdo do que tentar converter os direitos humanos no seu oposto, tomando-os como os direitos das religiões face aos -ou melhor, contra os- seres humanos.
Na era Bush, os Estados Unidos, desprezando tanto as Nações Unidas quanto os direitos humanos -pisoteados, por exemplo, em Guatánamo- desdenhavam participar do CDH. Com isso, abandonavam-no, na prática, à Organização da Conferência Islâmica. Neste ano, porém, a secretária de Estado Hillary Clinton anunciou que os Estados Unidos, coerentes com a rejeição da política arrogantemente unilateral de Bush, haviam decidido participar do Conselho, com a esperança de torná-lo melhor. De fato, deve-se dizer que eles conseguiram isso, em certa medida.
Ainda em 27 de março, antes da entrada dos Estados Unidos no Conselho, este passou mais uma resolução de condenação à "difamação de religiões". No dia 2 do corrente mês porém, após intensas negociações em Genebra, os Estados Unidos conseguiram chegar a um compromisso com o Egito, por meio do qual foi tomada uma nova resolução da qual já não consta essa noção.
Isso nos lembra, aliás, de que foi no Egito que, em junho, ante os estudantes e professores da Universidade do Cairo, Barack Obama teve a coragem de declarar que o negacionismo do Holocausto é algo "infundado, ignorante e odioso". Embora a nova resolução represente um progresso considerável -que foi devidamente saudado como tal pelas mais importantes organizações internacionais que defendem a livre expressão, tais como a "Artigo 19"- a verdade é que ainda há um longo caminho a percorrer.
É que, embora já não se refira à "difamação de religiões", a nova resolução ainda condena tanto o uso de "estereótipos negativos raciais e religiosos" quanto qualquer defesa de "ódio religioso que constitua incitação à discriminação, hostilidade ou violência". Isso deu margem, por exemplo, a que o paquistanês Zamir Akram, falando em nome da Organização da Conferência Islâmica, condenasse o uso de "estereótipos negativos" não somente em relação a indivíduos mas a sistemas de crenças.
Falando pela União Europeia, o francês Jean-Baptiste Mattei afirmou então que "a lei de direitos humanos não protege nem deve proteger sistemas de crenças. Logo, o que foi dito sobre estereótipos só se aplica a estereótipos de indivíduos, não de ideologias, religiões ou valores abstratos.
A União Europeia rejeita e continuará a rejeitar o conceito de difamação de religiões e também rejeita o abuso de religiões ou crenças para a incitação ao ódio. [...] Os Estados não devem tentar interferir no trabalho de jornalistas e devem permitir a independência editorial da mídia".
Não deixa de ser bom que algo se mova até mesmo lá, onde nada parecia acontecer.
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Faço o registro do texto publicado na edição do jornal Folha de S. Paulo (17.10.2009) por concordar com ele. Não tenho nenhuma dúvida com relação a seus argumentos e eles podem ser estendidos ao nosso país, tendo em vista os absurdos cometidos em nome das religiões e de Deus. Os abusos cometidos em nome de uma crença seja ela religiosa ou política não se justificam. Acima desses postulados ditatoriais ou ignorantes estão os direitos da pessoa. Precisamos ficar alertas...

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Registro 287: Parabéns, Fernanda Montenegro

O texto que transcrevo (Folha de S. Paulo, 16.10.2009), de autoria de Sábato Magaldi é exemplar. Expoente entre os melhores crítico do teatro brasileiro, Magaldi sabe expor com sensibilidade os passos de Fernanda Montenegro sobre o palco. Junto-me ao crítico para homenagear a grande atriz, que tem brindado o público com sensíveis interpretações. Infelizmente, não vi todas as criações de Fernanda Montenegro, mas tive o prazer de vê-la em Seria cômico se não fosse trágico, sob a direção de Celso Nunes; ri muito ao apreciar seu trabalho em É... de Millôr Fernandes. Em Da Gaivota, uma leitura de Daniela Thomas para o clássico de Tchecov, na sessão que vi, a atriz não estava nos seus melhores dias, mesmo assim deixava uma forte impressão ao fazer Arkádina. Nos filmes, A Falecida, Tudo Bem e Central do Brasil, a atriz mostra o que sabe e explora as personagens de forma densa, compreendendo-as por dentro. Na televisão, fez personagens maravilhosos porque soube emprestar o seu talento sem deixar se abater pela mediocridade que às vezes acompanha a produção televisiva.

Vida longa à atriz!

Montenegro é valor absoluto do teatro

Atriz, que completa 80 anos hoje, une talento espontâneo à capacidade de vivenciar plenamente a personagem

SÁBATO MAGALDI

O moderno teatro brasileiro é pródigo em grandes atrizes. Mencioná-las corre o risco de levar a um esquecimento, por certo imperdoável. Razão suficiente para citar apenas Fernanda Montenegro, cujo aniversário se está comemorando. Já há muitas temporadas ela é considerada grande atriz.
Sustenta esse conceito a soma de numerosos atributos: a capacidade de vivenciar plenamente a personagem, o domínio dos meios para alcançar os desejados efeitos, a inteligência a fim de manter a adesão do público, o talento espontâneo para transmitir drama e comédia. Mérito especial vem de que ela não precisou cursar uma escola, a não ser a de aproveitar a companhia da grande atriz Henriette Morineau, outro monstro sagrado que tanto enobreceu o teatro brasileiro.
Certamente, Fernanda soube inspirar-se na talentosa atriz francesa, de técnica admirável, que valorizava o uso da palavra. Cabe lembrar que Fernanda, vinda a São Paulo do Rio de Janeiro, participou do elenco do Teatro Popular de Arte (Companhia Maria Della Costa), de proposta semelhante à do Teatro Brasileiro de Comédia. No palco da rua Paim, ela foi, em 1955, protagonista de "A Moratória", que lançou Jorge Andrade como um dos importantes dramaturgos brasileiros. E, no TBC, ela viveu a personagem principal de "Vestir os Nus", texto de Pirandello.
Fase brilhante da carreira de Fernanda Montenegro foi também quando atuou no Teatro dos Sete. O conjunto encenou em 1959, no Municipal do Rio de Janeiro, "O Mambembe", obra-prima do nosso clássico Artur Azevedo. E, no Ginástico daquela cidade, Fernanda viveu Selminha, da peça "Beijo no Asfalto", escrita por Nelson Rodrigues a pedido dela. Os espectadores se impressionavam, entre outros momentos, com o vigor da cena em que a atriz defendia a virilidade do marido.
Fernanda Montenegro, depois de extinto o Teatro dos Sete, se fez empresária dos próprios espetáculos, realizados por Fernando Torres. Como era natural num sistema de produção do gênero, alternaram-se peças exigentes e textos comerciais. O que acontecia na tradição dos palcos britânico, francês e norte-americano. A qualidade literária pouco importa: o teatro é criação definida pela presença física do ator, e grande ator pode realizar melhor um espetáculo com uma obra medíocre do que um grande texto desempenhado por um ator fraco. Sem o sopro de Fernanda Montenegro, várias peças pouco significariam.
Atriz exemplar de teatro, monstro sagrado, no pleno sentido que tem a expressão, Fernanda Montenegro faz o efêmero do desempenho se igualar à perenidade de qualquer outra arte. Fernanda Montenegro é um dos valores absolutos do nosso palco.


SÁBATO MAGALDI é teórico, crítico e professor de teatro; escreveu "Panorama do Teatro Brasileiro" (1962) e "Moderna Dramaturgia Brasileira" (1998), entre outros

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Registro 286: Depoimento IX

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

Lelo Filho, ator, um dos responsáveis pelo grande sucesso do teatro baiano A Bofetada, espetáculo que completou 21 anos em cartaz (2009) e cativa o público por onde passa.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Admiro muita gente daqui e pelo Brasil afora. O elenco que divide cena comigo em A Bofetada é muito talentoso. Não poderia deixar de citar ainda, Rita Assemany, Yumara Rodrigues, Nanini, Wagner Moura, Chico Anísio, Fernandona, Fernandinha, Marieta e recentemente passei a admirar muito o trabalho e a versatilidade de Andréa Beltrão em cena. E o maior ator de todos os tempos: Paulo Gracindo. É sempre muito bom assisti-lo em imagens.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Jack Lemon é pra sempre. Grande Otelo em Macunaíma e nas comédias da Atlântida é inesquecível. Marília em “Pixote”, Fernandona em “Eles não usam black tie”, Beth Midler em “A Rosa”. Meryl Streep e Daiane Wiest em vários...

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Luiz Marfuz e João Falcão.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
É estranho ver o interesse que a mídia e o jornalismo local passaram a ter pelo trabalho de atores baianos que hoje brilham na telinha e na telona. Não me lembro deles terem sido tão festejados quando atuavam, e já eram bons em nossos palcos.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Assisti Regina Casé em “Nardja Zulpério” e achei que, no máximo, iria ser bacana. Mas me surpreendi e gostei tanto, que acabei voltando pra rever. Era muiiito bom!

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Entre o final dos anos 70 e início dos 80, assisti a algumas montagens que muito me ajudaram a decidir pela minha profissão: “Língua de Fogo”, dirigida por Luiz Marfuz, “Macbeth” dirigida por Márcio Meirelles, “Dias felizes” com Yumara e Harildo na Escola de Teatro, dentre muitos outros.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
As interpretações de Fernanda Montenegro em “Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Matheus Nachtergaele em “O livro de Jó” , Jessica Lange no palco como Blanche em “Um bonde chamado desejo”, Walderez de Barros em “Max” e Marília Pêra em “Brincando em cima daquilo” foram arrebatadoras. Montagens e atuações marcantes na minha vida pessoal e artística.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
“O Livro de Jó”, pelas interpretações e pela temática.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Ninguém vive sem humor. Até quem torce o nariz pra comédia. O riso é fundamental, assim como a comédia, em todas as suas vertentes.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
A obra de Nelson Rodrigues é maravilhosa, mas também é complexa. Fui Edmundo em “Album de Família” e acho um dos textos mais difíceis que já li.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
Quis muito ter visto “Os sete afluentes do Rio Ota”. Ouvi maravilhas sobre o espetáculo.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
“O Pai”, de Strindberg e dirigida por Márcio Meirelles.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Espero que “Siricotico”, ainda inédito, venha a merecer! Será a nova montagem da Cia Baiana de Patifaria.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Não assisti, mas tenho a trilha sonora de “Gota D’Água”, com Bibi Ferreira cantando e interpretando alguns textos do espetáculo. Queria muito que fosse remontado.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Vinnicius Morais, co-autor de “Siricotico” e autor de textos divertidíssimos e que são a cara do nosso povo. Com certeza será reconhecido pelo público como um jovem e talentoso autor.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Assistir a mais de uma montagem de Denise Stoklos e Gerald Thomas me deu a sensação de déjà vu. A primeira você não esquece, as outras você sai com a sensação de que já assistiu. As encenações parecem reprise.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Não me recordo.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode citar três.
Um dos personagens de Beckett, especialmente de “Fim de Jogo” e “Esperando Godot”. Gostaria de voltar a fazer um texto de Nelson Rodrigues.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A comunicação. Seja no drama, na comédia ou na tragédia. Não imagino teatro que não se comunique, que dialogue com a platéia, que diga alguma coisa.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Não gosto da pretensão. Principalmente se for de um teatro mal realizado.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Registro 285: Monólogos

Na dramaturgia, seja ela nacional ou internacional, encontram-se belas e inesquecíveis peças, tanto por suas qualidade formais quanto por seu conteúdo que demonstram para nós mesmos o que somos. Penso que conteúdo e forma se completam. Mas esse registro não tem como objetivo entrar em tal discussão. O que pretendo ressaltar aqui são alguns monólogos que me tocam, aqueles que não consigo esquecer. Vez em quando retorno às peças esperando o momento em que o monólogo se apresenta. Outras vezes leio somente o trecho e me dou por satisfeito. Essa leituras desencadeiam em mim uma série de sentimentos e reflexões.

Alguns desses monólogos que passo a transcrever já ouvi na voz de de intérpretes em encenações ótimas, boas e ruins. Mas isso não vem ao caso. Ou melhor, as ruins eu esqueci. No entanto o texto permanece, o texto escrito. Outros monólogos, tomei conhecimento pela leitura da peça. Eles serão publicados sem a preocupação didática. Portanto, não haverá coerência como relação aos genêros nem ao tempo histórico nem a estética que a peça se filia. A escolha é subjetiva; surge pelo avivamento da memória ou porque, repentinamente, o texto se avulta na confusão das estantes e o olho é chamado a vê-lo.

Os monólogos que abrem o registro fazem parte da peça Tio Vania de Anton Tchecov (Editora Veredas, 1994), escrita em 1897. Um é de Astrov, no primeiro ato. O outro é de Sonia no quatro e último ato da peça .

  • VOINITSKII (rindo) Bravo, bravo! Tudo isso é encantador, mas nada convincente, portanto (a Astrov) nos permita, amigo, que continuemos usando madeira para aquecer nossas estufas e construir nossos celeiros.
  • ASTROV Você poderia aquecer a estufa com turfa e construir o celeiro com pedras. Está bem, que seja, você pode cortar a árvore quando precisar... mas para que destruir as florestas? As florestas russas rangem sob os golpes de machado, milhões de árvores são derrubadas, os lares dos animais selvagens e dos pássaros são revirados, os rios se esgotam e secam, desaparecem para sempre as paisagens maravilhosas... somente porque não passa pela cabeça do homem preguiçoso dobrar as pernas e catar a lenha no chão. (A Ielena Andréievna.) Não tenho razão minha senhora? É um bárbaro insensato aquele que queima na estufa a beleza, destrói aquilo que somos incapazes de criar. O homem foi dotado de juízo e força criadora para que multiplicasse aquilo que lhe foi entregue, mas até agora nada criou, apenas destruiu. A cada dia as florestas minguam mais e mais, os rios se esgotam, a vida selvagem se extingue, o clima fica mais adverso e a terra cada vez mais se torna pobre e feia. (A Voinitskii.) Seu olhar é irônico e acha que eu estou falando besteiras... Talvez haja, de fato, algo de excêntrico nisso tudo, mas quando passo pelos bosques dos camponeses que salvei da destruição, ou quando ouço o sussurrar do bosque jovem que plantei com as próprias mãos, então sei que o clima depende um pouco de mim também, e se dentro de mil anos o homem for feliz, então eu também contribuí com uma pequena parcela para isso. Quando planto uma muda de bétula e mais tarde a vejo verdejante, agitando-se ao vento, minha alma se enche de orgulho e eu... (Percebe o criado, que lhe traz um copinho de vodca numa bandeja.) Mas... (Bebe.) Tenho de ir. Afinal de contas, tudo isso não passa de excentricidade. Meus respeitos! (Parte em direção à casa.)
    *******************
  • VOINITSKII (Sonia, afagando-lhe os cabelos com uma das mãos.) Que peso sinto no peito, criança querida! Oh, se soubesse que peso!
  • SONIA O que se pode fazer? Viver é preciso! (Pausa.) E nós viveremos, tio Vania, viveremos a longa, longa sequência de dias e de noites. Suportaremos com paciência os golpes do destino; trabalharemos sem descanso pelos outros, agora e na velhice, e quando chegar a nossa hora morreremos em paz, e lá, além do túmulo, diremos que sofremos, choramos, tivemos muitas tristezas, e Deus então se apiedará de nós, e ambos - você e eu, querido titio - conheceremos uma vida maravilhosa, cheia de luz, a alegria nos invadirá, e olharemos com um sorriso emocionado nossa infelicidade de agora - e descansaremos. Tenho fé nisso, titio, creio ardentemente, apaixonadamente... (Ajoelha-se diante dele e apóia a cabeça em seu braço; com a voz cansada.) Descansaremos. (Teleguin toca o violão suavemente.) Descansaremos! Ouviremos os anjos e contemplaremos o céu cravejado de diamantes e veremos que toda a maldade terrestre, todos os sofrimentos, mergulharão na misericórdia que encherá o universo, e nossa vida será tão tranquila, terna e doce quanto uma carícia. Eu creio nisso, eu creio... (Com o lenço enxuga as lágrimas do tio.) Pobre, pobre tio Vania, você está chorando... (Entre lágrimas.) Você não conheceu a alegria em sua vida, mas espere, tio Vania, espere... Descansaremos... (Abraça-o.) Descansaremos! (O guarda-noturno matraqueia. Teleguin toca suavemente. Maria Vasilievana faz uma anotação na margem do folheto; Marina tricota a meia.) Descansaremos! (A cortina desce lentamente.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Regsitro 284: O Canto de La Negra

Embora tenha ouvido e muito Mercedes Sosa, da qual tenho um único e deslumbrante disco, Mujeres Argentinas, ouvido pela primeira vez em casa de amigos, lá pelos idos de 70 em São Paulo, não me entusiasmava muito por sua performance. Hoje, depois de sua morte, ouvindo e muito o tal disco, agora CD, antes um bolachão preto de vinil, descubro onde se localizava a minha implicância com suas canções de protesto. Na verdade, o que me irritava não era a cantora e o canto, mas o culto praticado por uma esquerda hipócrita, mas fundamentalista no discurso, que colocava no altar os dogmas entoando as canções de La Negra.
Para essa gente beata, Mercedes Sosa era o máximo, acima do bem e do mal. Não se podia discordar. Devia-se gostar e aplaudir seu canto, ainda que cantasse coisas chatas de se ouvir. Criticá-la era quase um ato reacionário, ofensivo. E embotados, íamos ver os shows, aceitando o que se passava no palco sem questioná-lo. Era assim também com outros artistas, os da MPB. Aconteceia o mesmo com os espetáculos teatrais engajados. Bastava um discurso inflamado avalizava-se a cena como sendo de qualidade...
Repentinamente, tudo se fez claro e só posso dizer que Mercedes Sosa embalou meus dias cantando Gracias a la vida também gravada também por Elis Regina em Falso Brilhante disco derivado do show de mesmo nome. como não conheço a versão da canção por Isabel Parra, que faz arrepiar Luiz Carlos Merten - ver seu blog -, fico com as duas versões das finadas. tanto uma como a outra conseguem tocar fundo as cordas ainda sensíveis de uma coração não tão brejeiro.
Quem ouviu Alfonsina y el mar (Ariel Ramirez e Felix Luna - autores) , faixa número 5 do CD Mujeres Argentinas não esquecerá da voz imensa que ecoou pela América Latina no momento em que o continente era arrasado pelas ditaduras de direita. Espero que esse fantasma desapareça do nosso destino e fique como registro na história e na memória . E espero que o continente não se inflame com as promessas e ensaios de ditaduras de esquerda, cuja versão mais próxima é ânsia bolivarina-populista de se espalhar, como se fosse a solução para as nossa mazelas.
No horizonte descortinado pela voz poderosa da cantora, dando voz aos anseios de liberdade e contribuindo para a construção de uma identidade latino americana, penso que estão inscritos nos seus cantos a afirmação dos direitos do homem acima de qualquer ideologia. Pois que a ideologia, na forma como grande parte da direita e da esquerda pensa, vem carregada de tintas fundamentalistas, tal qual a ação dos religiosos na pós-modernidade. De certos religiosos, para não colocar no mesmo saco aqueles que não fazem da religião uma prisão nem da ideologia um álibi para justificar os meios.
Mercedes Sosa, dizíamos, era a cantora da geração "poncho e conga", canta oito mulheres - Griga Chaquena, Juana Azuardy, Rosarita Vera, Dorotea Bazan, Alfonsina Storni, Manuela Pedraz, Guadalupe Cuenca e Mariquita Sánchez de Thompson - e seu canto emociona porque a voz expressa sentimentos que não se perdem com o tempo nem com a mudança dos ventos. É como ouvir ainda Nara Leão cantando Opinião. Ao escrever esse registro e relembrar o show Falso Brilhante bateu saudades de Miriam Muniz, grande atriz e diretora que virou Elis Regina do avesso e fez surgir uma outra personalidade artística.
A lembrança de uma mulher puxa a lembrança de outras que brilham agora nas minhas recordações, nas fotos, nos vídeos, nos discos e nos livros que registraram a passagem de cada uma sobre a terra. Elas que nos deram tanto, continuam a doar a cada momento que retornamos ao legado deixado de herança.
Aplausos para Mercedes Sosa!