quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Registro 215: Impressões sobre ENSAIO. HAMLET




“Pra que serve a Arte? Para nos dar a breve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a Arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, apõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos”.

A citação é do livro A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery (2008). Leio e me delicio com os personagens e situações. A fala é de uma zeladora de um prédio, residência de ricos em Paris. Na opinião de uma adolescente – outro personagem fascinante – decidida a cometer suicídio, a zeladora é o ouriço. Mas o que a citação tem com o Ensaio. Hamlet, montagem da Cia. Dos Atores, grupo carioca que apresentou sua criação no palco do Teatro Castro Alves na noite de 27 de outubro? Para mim, tem tudo a ver. A encenação “dá forma e torna visíveis nossas emoções”. Ela nos dá a certeza do sentido de beleza, potencializando-o.

No palco do TCA, concentrou-se em arena a platéia distribuída em três arquibancadas desconfortáveis e a área da representação. Por vezes, o incômodo do assento interferia no meu estado apreciativo, intrometendo-se de maneira traiçoeira. Mas nem isso me afastou da “breve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal”.

É redundante falar em ritual quando se trata de teatro. A representação teatral desde suas raízes até o presente é sempre um ritual. Mas na encenação de Ensaio. Hamlet, o ritual é reforçado e não banalizado; a cerimônia não é convenção, mas elemento textual significativo. Desde a entrada do público instaura-se o clima solene, mas não enfatuado; a platéia vai sendo contaminada por essa atmosfera que se adensa até que as luzes diminuem e as velas iluminam o espaço. Os atores que estão em cena desde a entrada dos espectadores dão continuidade ao ato litúrgico-profano; vestido sobriamente de preto, o elenco prepara a primeira cena introduzindo-nos na trama do texto.

Percebe-se desde o início um mundo fragmentado, universo em desmoronamento. Essa percepção intensifica-se com o avançar da ação. Um mundo em destroços, confirmação da podridão existente no reino da Dinamarca. O espetáculo é concebido como um ensaio. Nele, o texto shakespeareano é desconstruído sem que se perca a sua essência, sua dimensão, poesia, invento, sua monstruosa monumentalidade. Embora fatiada, a tragédia está inteira. Desmonta-se a máquina desse mundo e ele se sustenta, inquietando-nos. A cena desdobra-se em metáforas e os conceitos desaparecem para dar lugar a obra em si, sua leitura versátil

Toda a encenação é pautada na desconstrução-construção.

A cada cena nos embebedamos de beleza. Cada imagem cheia de significados amplia os conflitos, clarifica os subtextos. Os personagens-monumentos criados pelo dramaturgo revelam-se no corpo de Bel Garcia, César Augusto, Emílio de Mello, Felipe Rocha. Marcelo Olinto e Susana Ribeiro. Esse elenco, parceiro do encenador Henrique Diaz, proporciona uma leitura particular e inventiva da tragédia do príncipe dinamarquês. Por eles, penetramos na consciência desse ser lucidamente louco, o atormentado que se rebela contra o estabelecido e morre proferindo: O resto é silêncio.

Os achados cênicos são surpreendentes e mesmo aqueles difíceis de serem decodificados não criam empecilho para o ato fruidor. Absorvemos cada instante do espetáculo. A encenação cai implacavelmente sobre a platéia e ela se vê presa na armadilha das idéias transformadas em imagens precisas, como na sequência da loucura e morte de Ofélia.

Como fugir a tanta beleza? Como fugir dos riscos enfrentados pela Cia dos Atores? Rendemos-nos ao fascínio da invenção, da versatilidade, da coragem de enfrentar a experiência através de procedimentos cênicos inusitados, como o de fazer a cena do duelo final se transformar numa conversar entre os personagens. A imagem de Hamlet envelhecido e fumando é inesquecível; faz lembrar o que diz Harold Bloom (2000): “Quando o vimos pela primeira vez, Hamlet é um estudante universitário que se vê impedido de retomar seus estudos. Não aparenta ter mais do que vinte anos; porém no quinto ato, constatamos que ele tem, no mínimo, a idade de trinta anos (...). Foi a consciência que o envelheceu, a consciência catastrófica da mazela espiritual que assola o mundo (...).

A cena final rivaliza em beleza com a cena da morte de Ofélia. Nela, a atriz ergue um garrafão azul derramando sobre sua cabeça a água contida no recipiente. O barulho do líquido e a reação da atriz proporcionam a sensação do afogamento. Afogamo-nos com a infeliz Ofélia. Outro momento exemplar: na cena do encontro (devolução dos presentes), quando Polônio e o Rei Cláudio escutam o diálogo entre Hamlet e Ofélia. Através de um gravador que transmite em tempo real a voz dos atores, os dois bisbilhotam numa tentativa de controlar o incontrolável. Nesses tempos de grampos e escutas furtivas, a cena além de terrível e engraçada, outro elemento presente na encenação. Diaz não exclui o cômico presente nas tragédias de Shakespeare, mas traz o risível para momentos tradicionalmente tidos como “sérios”.

No livro A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca (1999), Vigotski fala do círculo do tempo, aquela hora “em que a manhã já chegou mas ainda é noite”, vendo nesse momento algo “misterioso e incompreensível”. Para Vigotski, é “a hora mais aflitiva e mística; é a hora em que o tempo desmorona, em que se rasga o seu inseguro manto; é a hora em que se desvela o abismo da noite sobre o qual ascende o mundo diurno; a hora da noite e do dia. Essa é a hora que a alma experimenta ao ler ou assistir à tragédia de Hamlet, o príncipe da Dinamarca. É nessa hora que está submersa a alma do espectador ou do leitor, pois é aí que a própria tragédia tem sua significação e faz-se semelhante a ela: ambas têm uma única alma."

Ensaio. Hamlet, com sua borbulhante criatividade, coloca-nos diante do teatro, teatro de qualidade.

Senti comichões de estar no palco novamente.

O resto é silêncio.

Não comentarei God Exists, The Mother Is Present, But They No Longer Care. A minha irritação pode ferir suscetibilidades. E elegância é fudamental, embora não tenha sido elegante ao sair no meio do espetáculo.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Registro 214: Impressões sobre espetáculos - FIAC Bahia


Desde 24 de outubro realiza-se em Salvador o Festival Internacional de Artes Cênicas – FIAC. A iniciativa é das melhores. E se pensarmos no Festival Latino Americano de Teatro da Bahia levado a efeito em setembro, não temos do que nos queixar. O público interessado e a classe teatral foi e está sendo brindada com inúmeros espetáculos. Uma diversidade cênica enriquecedora. A programação do Festival Latino Americano incluía espetáculos nacionais e de países do continente. Agora, com o FIAC, a pauta se amplia, com a vinda de encenações da França, Noruega, Congo, Portugal, Argentina, Brasil – Rio de Janeiro, Ceará, Minas Gerais, Paraná, Brasília, São Paulo, Santa Catarina, Bahia.

Haja tempo para organizar horários, conciliar atividades. Além disso, há que se ter disposição para correr de um lado para o outro. Mas pra quem gosta de teatro tudo isso se torna irrelevante, principalmente quando o vento que vem da cena nos toca e nos anima.

Não vou falar de todos os espetáculos. As escolhas foram determinadas por critérios de ordem prática, por interesse estético ou simples curiosidade. Deixei de ver Sizwe Banzi Está Morto, texto dos sul-africanos Athol Fugard, John Kani e Wiston Ntshona direção de Peter Brook. De Athol Fugard conhecia Laços de Sangue e Mestre Haroldo. O fato de não ter ido ver uma encenação de Peter Brook é inexplicável, mas não tive vontade.

Corri pra assistir O Cantil, uma adaptação do texto A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht realizada pelo Teatro Máquina do Ceará. Direção, dramaturgia e produção de Fran Teixeira. Concisão, poesia e domínio da linguagem cênica marcam o espetáculo cearense. Quatro atores em cena. Dois como bonecos, o Patrão e o Empregado; dois como manipuladores desses homens-bonecos. Perfeição! Por certo exagero meu. A perfeição indica um ponto morto, já que dele não sai mais nada. Não é o que se vê na cena de O Cantil. O domínio técnico está a serviço de uma idéia teatral muito bem resolvida. Certamente, Brecht não cansaria de aplaudir, porque a sua história sobre explorador e explorado explicita-se em cena de tal forma que nem a falta da palavra é sentida, embora no fim do espetáculo eu tenha manifestado a vontade de ouvi-la. Mas depois de refletir sobre o espetáculo, cheguei à certeza de que a palavra transformada em ação bastava. Compreendia-se todo o entrecho da peça adaptada e a relação entre os personagens sem a intromissão do verbo.

No palco aberto e preto, destacam-se os dois personagens vestidos de branco e os dois manipuladores. Dos manipuladores vemos o rosto. Estes são ajudados por dois contra-regras que entram esporadicamente para compor o jogo de cena, retirando alguns objetos ou fazendo aparecer as duas barracas para cena de acampamento. Um carro conduzido pelo Empregado leva sacos também brancos e cestos de vime. A luz é precisa e recorta os personagens em sua viagem. As cenas noturnas são marcadas por um belo e simples céu estrelado. Estabelecida a moldura mergulha-se nessa viagem cujo final já presumimos.

Com esse espetáculo o Teatro Máquina coloca em cena os dados de sua pesquisa artística e revela que a magia do teatro não se dá por truques ilusionistas, visto que constrói a sua cena utilizando-se de conceitos do teatro brechtiano, relendo-os de maneira muito particular, sem a submissão que muitas vezes ocorre quando a leitura das teses do dramaturgo alemão é feita ao pé da letra e de maneira mecânica.

O segundo espetáculo apreciado veio de Portugal, sob a responsabilidade da Companhia do Chapatô. Com a Sala do Coro lotada e barulhenta até começar a função, prenúncio de que o espetáculo prometia descontração e muitas gargalhadas, assistimos O Grande Criador, criação coletiva dirigida por John Mowat. O espetáculo, uma brincadeira com passagens do Antigo e do Novo Testamento, humaniza os personagens da história sagrada e retira das situações uma comicidade direta e comunicativa, fato que agarra a platéia desde os primeiros minutos. Não há novidade na proposta. O gênero aproxima-se muito do brasileiro Teatro Besteirol, difundido a partir da cena carioca e paulistana desde a década de 80.

Durante a encenação, cujo ponto forte é a interpretação de Jorge Cruz, José Carlos Garcia e Rui Rebelo, lembrei-me de Folias Bíblicas espetáculo do grupo paulista Pod Minoga, dirigido por Naum Alves de Souza, em 1977. Na montagem com forte acento lúdico, encenava-se as passagens da Bíblia como números de um espetáculo realizado por um grêmio de bairro.

O grupo português concentra no jogo dos atores e na qualidade de suas interpretações o foco do espetáculo. Aí está o atrativo e sua força, demonstrada ao longo de 80 minutos e impagáveis cenas, como a do dilúvio ou a cena em que Cristo joga futebol com uma vassoura, entre outras.

Para mim, o que fica do espetáculo é isso: três atores utilizando-se de seus recursos corporais e vocais de forma extremada, interagindo com a platéia de maneira segura e hábil. Pergunto-me: não teria o teatro português outro trabalho para ser escolhido pelos organizadores do FIAC? Quero ver mais da cena portuguesa.

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domingo, 12 de outubro de 2008

Registro 213: De Mário Quintana


A vida são deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas.
Quando se vê, já é sexta feira.
Quando se vê, já terminou o ano.
Quando se vê, já se passaram 50 anos!
E agora é tarde demais para ser aprovado.
Se me fosse dada, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Dessa forma eu digo: não deixe de fazer algo que gosta devido a falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.
Mário Quintana

Registro 212: Para Nilda Spencer

Nilda Spencer

PAREM OS RELÓGIOS, MAS NÃO CESSEM OS APLAUSOS


Raimundo Matos de Leão


No Jardim da Saudade (10.10.2008), em meio à relva, árvores e canto de pássaros, os amigos artistas e não artistas levaram Nilda Spencer para outra morada. Quem sou eu para dizer que essa é a sua última morada? A nossa vã razão diz que sim, mas os mistérios são insondáveis. E do mistério se fez a arte que Nilda Spencer praticou durante cinqüenta e dois anos, a arte do intérprete. Como atriz, deixou nos palcos, nas telas do cinema e da televisão a marca do seu ofício, iniciado de maneira sistematizada quando da criação da Escola de Teatro, mas exercido antes em apresentações amadoras. Também foi pianista, atividade que sucumbiu aos encantos da arte teatral.

A primeira vez que vi a atriz em cena foi no inesquecível espetáculo Essa Noite se Improvisa, de Pirandello, sob a direção envolvente de Alberto D´Aversa, italiano de boa cepa, aportado no Brasil via Escola de Arte Dramática de São Paulo e Teatro Brasileiro de Comédia – TBC. Findava o ano de 1967 e a montagem encerrava o ano letivo da Escola de Teatro. Em cena, alunos e professores desvendavam para o público o meta-teatro pirandeliano. Nilda Spencer não era o destaque do elenco, primazia que cabia a Sônia dos Humildes, Dulce Schwabacher, João Gama, professores e ao aluno Harildo Déda, visto que seus personagens proporcionavam-lhes memoráveis interpretações. Ainda sim, Nilda Spencer obtinha seu quinhão em meio ao numeroso elenco. Com a dignidade de quem sabia que não há pequenos papéis no teatro, desempenhava uma das filhas da família retratada pelo dramaturgo italiano. Nilda no papel de Totina apresentava-se com empenho e dedicação.



Ela já fora protagonista feminina em Calígula de Albert Camus – direção de Martim Gonçalves – e em A Falecida, de Nelson Rodrigues, encenada por Carlos Murtinho. Destacara-se em Major Bárbara de Bernard Shaw, sob a direção de Luiz Carlos Maciel, entre outras realizações.


Esse sistema de rodízio de papéis importantes entre os alunos da Escola de Teatro foi uma prática instituída por Martim Gonçalves e fazia parte do seu projeto artístico-pedagógico. Mesmo que algumas injustiças tenham sido cometidas nas escolhas dos elencos das peças do repertório de A Barca, companhia criada no interior da Escola de Teatro da então Universidade da Bahia, os programas atestam tal prática. Foi no interior desse sistema que Nilda Spencer e seus colegas da primeira turma de formandos, em 1959, aprenderam e vivenciaram as diversas funções inerentes ao espetáculo. Os alunos, como ela, estiveram no palco e nas coxias revezando-se nas funções de intérprete, contra-regra, recepcionista, assistente de direção, entre outras. Foram protagonistas e coadjuvantes.


Ao ingressar na Escola de Teatro em 1968 estive próximo da professora e atriz, sempre elegante, calçando sempre sapatos de saltos altíssimos, uma compensação para sua baixa estatura. Tal artifício que a vaidade feminina não dispensava, era posto em segundo plano, visto que a esfuziante vitalidade de Nilda Spencer aumentava-lhe o porte. Anos mais tarde, ao reecontrá-la no camarim da Sala do Coro – TCA, onde fazia a protagonista de Ensina-me a Viver, ao abraçá-la vi o quanto era pequena e frágil, fruto da idade. A exuberância da mulher madura transmutara-se em graça e calma de quem sabe ter aproveitado a vida. Ao abraçá-la, não imaginávamos que se despedia do palco fazendo Maude, comemorando quarenta e cinco anos de carreira.


Estive uma única vez em cena com Nilda Spencer; foi na montagem de A Companhia das Índias, texto de Nelson Araújo, com direção de Orlando Sena. A atriz interpretava Rosélio Villarotas um ex-ministro de Eldorado, republiqueta sul-americana saída da imaginação do dramaturgo. Nilda Spencer compunha com muita habilidade o personagem; sem fazer dele uma caricatura do masculino, aproveitava-se dos recursos farsescos que a montagem de Sena possibilitava em sua moldura tropicalista, ganhando a cena de maneira hilariante. Ostentando grosso bigode, ela incorporava ao seu corpo o gestual masculinizado sabendo lidar com os estereótipos para criticar a macheza latino-americana e definir a personalidade de Vilarotas. Impagável!



Quando da escolha do elenco para a encenação de A Casa de Bernarda Alba, Possi Neto convidou Nilda Spencer para interpretar Maria Josefa. Ela não aceitou e o papel coube a Carmem Bittencourt, que retornou como atriz ao palco da Escola de Teatro depois tê-lo deixado com a turma que se desligou da instituição para criar a Sociedade Teatro dos Novos. Por esse motivo, não tive o prazer, como assistente de direção, de acompanhar o processo de criação da atriz. Presenciei o de Carmem Bittencourt, claridade em cena. E penso: com teria Nilda Spencer criado a louca-lúcida mãe de Bernada? Ele realizaria um belo feito, tenho certeza.


Mais tarde, estando em São Paulo, e excursionando pelo Brasil (1981) com a peça Escuta, Zé Ninguém, criação memorável de Marilena Ansaldi e Celso Nunes, fui abraçado por Nilda Spencer no camarim do Teatro Castro Alves. Não esqueço esse abraço. Era o abraço de quem se reconhecia em mim, pois sabia que contribuira para a minha formação como ator, que passara um tanto do seu saber e me vira engatinhar no palco. Senti o caloroso e generoso abraço e agradeci, afetuosamente, tudo aquilo que aprendera com ela.


Que a nossa memória dê conta dessa vida no palco e que não esqueçamos a forma com que Nilda Spencer desdobrou-se em tantas máscaras para revelar o seu ser de atriz, de mulher. Ela agora “dança no sétimo céu”, rindo maliciosamente da nossa transitoriedade.

domingo, 5 de outubro de 2008

Registro 211: Sobre anjos


Queridos anjos de Deus

Iya Agbeni Xangô (Cléo Martins)

Vocês, meus leitores e leitoras, acreditam em anjos?
Eu, sim. Creio com toda a força do pensamento, palavras e coração. Acredito nestes luminosos seres angelicais e também em alguns outros tantos vivíssimos pelas ruas, estradas e avenidas.
Podemos ser anjos, para nosso próximo, ou, a depender da escolha, diabinhos bem ruinzinhos... Se a opção for involuntária, que Deus tenha misericórdia. Caso consciente, ai, ai...
Sempre nos cabe o desejo de seguimento da Verdadeira Luz.
Os iorubás acreditam na escolha do ori (a cabeça espiritual).
Mais do que nos traçados do destino (predeterminação), a escolha é sempre de nós outros e outras viventes.

Quinta passada, dois de outubro, dia do aniversário de minha amiga Lourdes Massa, foi a festa dos Santos Anjos. Dois de Outubro. Dia dos famosíssimos guardiães desde o abandono do útero materno.


Os anjos se encontram presentes no judaísmo, islamismo e cristianismo.

No Catolicismo festejam-se os Anjos fiéis ao Senhor: mensageiros do Amor de Deus e combatentes do Mal.


São os nossos protetores desde a chegada ao mundão até a morte.
De muitos e dentre todos se destacam os magníficos Miguel, Rafael e Gabriel.

Miguel Arcanjo é o guerreiro combatente dos Caídos - os anjos rebeldes das profundezas do desamor onde Deus não habita. Conhecida a imagem do Arcanjo festejado no final de setembro a pisar no líder das legiões infernais.


São Miguel é referido tanto no Velho Testamento (livro de Daniel) quanto na Nova Aliança: Epístola de Judas e Apocalipse de São João: "Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu".(Ap, 12:7).

Rafael quer dizer "Deus cura" na língua hebraica, na qual médico é rophe.
É o Arcanjo do Senhor contra as dores e mazelas humanas.
Não há referência expressa a Rafael no Novo Testamento.
É citado no Livro de Tobias. (Livro de Tobit, na tradução ecumênica da TEB)
Somente no capítulo 12 do referido texto o Arcanjo igualmente festejado aos 29 de setembro (com Miguel e Gabriel) se dá a conhecer: "Eu sou Rafael, um dos sete santos anjos que assistem e têm acesso à majestade do Senhor".(Tb 12,15)
Apesar de não expresso nos escritos néo-testementários a tradição tende a identificá-lo com o anjo da ovelha. (João 5,2).

Gabriel (Força de Deus, em hebraico) é o Anjo da Anunciação.
É tido como o Arcanjo da Esperança; da Revelação, sendo comumente associado a uma trombeta: a Voz de Deus transmissora das Boas Novas.
Foi quem também anunciou ao profeta Daniel a vinda do Mashiah - Messias. O Ungido: Cristo, em grego.
"Apareceu Gabriel da parte de Deus e me falou: dentro de setenta semanas [de anos] (70 anos x 7, ou seja, 490 anos) aparecerá o Santo dos Santos." (Daniel 9:24-26).
A ele foi confiada a missão dentre as missões: anunciar o nascimento do Filho de Deus.
Por isso, é muito admirado desde a antigüidade.
Foi quem apareceu a Zacarias para lhe comunicar a paternidade em idade proveta.
Há mais de uma referência no Evangelho de Lucas: meu predileto dentre os sinóticos.
"Eu sou Gabriel, o que está na presença de Deus" (Lucas 1:19). "Foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, a uma virgem chamada Maria, e chegando junto a ela, disse-lhe: Salve Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo". (Ela ficou confusa, mas disse-lhe o anjo:) "Não tenhas medo, Maria, porque estais na graça do Senhor. Conceberás um filho a quem porás o nome de Jesus. Ele será filho do Altíssimo e seu Reino não terá fim".

Também existem anjos encarnados, minha gente.
Há doze anos fui de Salvador até São Paulo em meu carro, com alguns amigos. O automóvel quebrou no meio do nada. Distante duas horas de Itabuna.
Comecei a sentir pânico. Impossível a comunicação por telefone celular.
De repente, não mais que de repente, surgiram Renato e seu sobrinho Renatinho no precário caminhão cheio de frutas.
Vendo nosso desespero providenciaram rudimentaríssimo "cambão". Renatinho assumiu o escort.
O guincho partiu - sem exagero - sete vezes sob sol causticante de rachar asfalto.
Todas as sete vezes Renatinho e Renato consertaram o cambão com sorriso nos olhos límpidos e nos lábios a mesma frase dirigida a mim (aos prantos) – "Cléo; que mulher sem fé é esta; não percebe que a gente está aqui pra consertar quantas vezes for preciso?!?"

Não aceitaram dinheiro.
Já em Itabuna, bem mais pacificada, tirei os óculos de sol e dei-os a Renatinho.
Tio e sobrinho desapareceram com a sutileza da chegada.
Nunca mais soube deles...
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Publicado originalmente na edição de 3 de outubro de 2008, no jornal A Tarde - Salvador - Bahia.

Registro 210: Leituras...

Ainda tocado pela intensidade amorosa de Carta a D. - História de um amor, de André Gorz (Annablume /Cosacnaif), deixo-me levar pelo livro de Doris Lessing, O sonho mais doce (Companhia das Letras). Não consigo desgrudar de páginas tão intensamente amorosas, compreensivas, mas de uma ironia e criticidade feroz. No final da década de 70 tentei ler a autora, Prêmio Nobel 2007, mas não consegui entrar no seu universo. Rendo-me agora. Transcrevo o resumo da quarta capa: " Jovens de origens e filosofias diversas se refugiam num casarão confortável de Hampstead, bairro chique londrino, para usufrir da comida farta e do ambiente liberal que Frances Lennox, espécie de mãe substituta, propicia. Sentados em torno da grande mesa da cozinha [que mesa, que cozinha!], os adolescentes sorvem também cada gota da retórica do camarada Jonny, ex-marido de Frances, membro do Partido Comunista, pai ausente e eterno revolucionário [repleto de frases feitas e discursos edificantes]. Eles escutam os discurso de Jonny e devaneiam. Querem a utopia. A Revolução.
(...) Num contraponto doloroso, ela nos dá, de um lado, uma Londres que tem tudo, e de outro, uma África que tem fome de tudo."
Lessing é demolidora e sem mascarar enfia o dedo em nossas feridas abertas, aquelas provocadas pelos sonhos não realizados. Os sonhos que se perderam na fumaça da peroração e algaravia dos que se colocam na vanguarda em prol das transformações sociais, políticas e econômicas, mas ficam apenas no nível da idéias. E essas idéias um tanto repisadas não causam nada, esvaziam-se. Por outro lado, ela nos mostra possibilidades no interior de um mundo em ruínas.
Leitura cativante, ela nos prende avassaladoramente, seja pela linguagem, seja pelos persoangens que nos apresenta em suas trajetórias por aquelas décadas que o século XX se viu sacudido e esperou colher mudanças advindas da decantação. O painel que se afigura ao leitor é triste, mas há sempre a possibilidade do encontro, encontro que vai se dar no nível individual, mas que rejeita o individualismo. Doris Lessing traz para as páginas de O sonho mais doce seres humanos destroçados, alguns desprezíveis, mas a maioria aceitáveis com suas idiossincrasias próximas das nossas.

sábado, 4 de outubro de 2008

Registro 209: Onde eu nasci...

Baixa Grande - Bahia
A casa de meu avô. Quando me dei conta do mundo,
a árvora já não existia em à casa