quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Registro 215: Impressões sobre ENSAIO. HAMLET




“Pra que serve a Arte? Para nos dar a breve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal. Como nasce a Arte? Nasce da capacidade que tem o espírito de esculpir o campo sensorial. Que faz a Arte por nós? Ela dá forma e torna visíveis nossas emoções, e, ao fazê-lo, apõe o selo de eternidade presente em todas as obras que, por uma forma particular, sabem encarnar a universalidade dos afetos humanos”.

A citação é do livro A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery (2008). Leio e me delicio com os personagens e situações. A fala é de uma zeladora de um prédio, residência de ricos em Paris. Na opinião de uma adolescente – outro personagem fascinante – decidida a cometer suicídio, a zeladora é o ouriço. Mas o que a citação tem com o Ensaio. Hamlet, montagem da Cia. Dos Atores, grupo carioca que apresentou sua criação no palco do Teatro Castro Alves na noite de 27 de outubro? Para mim, tem tudo a ver. A encenação “dá forma e torna visíveis nossas emoções”. Ela nos dá a certeza do sentido de beleza, potencializando-o.

No palco do TCA, concentrou-se em arena a platéia distribuída em três arquibancadas desconfortáveis e a área da representação. Por vezes, o incômodo do assento interferia no meu estado apreciativo, intrometendo-se de maneira traiçoeira. Mas nem isso me afastou da “breve mas fulgurante ilusão da camélia, abrindo no tempo uma brecha emocional que parece irredutível à lógica animal”.

É redundante falar em ritual quando se trata de teatro. A representação teatral desde suas raízes até o presente é sempre um ritual. Mas na encenação de Ensaio. Hamlet, o ritual é reforçado e não banalizado; a cerimônia não é convenção, mas elemento textual significativo. Desde a entrada do público instaura-se o clima solene, mas não enfatuado; a platéia vai sendo contaminada por essa atmosfera que se adensa até que as luzes diminuem e as velas iluminam o espaço. Os atores que estão em cena desde a entrada dos espectadores dão continuidade ao ato litúrgico-profano; vestido sobriamente de preto, o elenco prepara a primeira cena introduzindo-nos na trama do texto.

Percebe-se desde o início um mundo fragmentado, universo em desmoronamento. Essa percepção intensifica-se com o avançar da ação. Um mundo em destroços, confirmação da podridão existente no reino da Dinamarca. O espetáculo é concebido como um ensaio. Nele, o texto shakespeareano é desconstruído sem que se perca a sua essência, sua dimensão, poesia, invento, sua monstruosa monumentalidade. Embora fatiada, a tragédia está inteira. Desmonta-se a máquina desse mundo e ele se sustenta, inquietando-nos. A cena desdobra-se em metáforas e os conceitos desaparecem para dar lugar a obra em si, sua leitura versátil

Toda a encenação é pautada na desconstrução-construção.

A cada cena nos embebedamos de beleza. Cada imagem cheia de significados amplia os conflitos, clarifica os subtextos. Os personagens-monumentos criados pelo dramaturgo revelam-se no corpo de Bel Garcia, César Augusto, Emílio de Mello, Felipe Rocha. Marcelo Olinto e Susana Ribeiro. Esse elenco, parceiro do encenador Henrique Diaz, proporciona uma leitura particular e inventiva da tragédia do príncipe dinamarquês. Por eles, penetramos na consciência desse ser lucidamente louco, o atormentado que se rebela contra o estabelecido e morre proferindo: O resto é silêncio.

Os achados cênicos são surpreendentes e mesmo aqueles difíceis de serem decodificados não criam empecilho para o ato fruidor. Absorvemos cada instante do espetáculo. A encenação cai implacavelmente sobre a platéia e ela se vê presa na armadilha das idéias transformadas em imagens precisas, como na sequência da loucura e morte de Ofélia.

Como fugir a tanta beleza? Como fugir dos riscos enfrentados pela Cia dos Atores? Rendemos-nos ao fascínio da invenção, da versatilidade, da coragem de enfrentar a experiência através de procedimentos cênicos inusitados, como o de fazer a cena do duelo final se transformar numa conversar entre os personagens. A imagem de Hamlet envelhecido e fumando é inesquecível; faz lembrar o que diz Harold Bloom (2000): “Quando o vimos pela primeira vez, Hamlet é um estudante universitário que se vê impedido de retomar seus estudos. Não aparenta ter mais do que vinte anos; porém no quinto ato, constatamos que ele tem, no mínimo, a idade de trinta anos (...). Foi a consciência que o envelheceu, a consciência catastrófica da mazela espiritual que assola o mundo (...).

A cena final rivaliza em beleza com a cena da morte de Ofélia. Nela, a atriz ergue um garrafão azul derramando sobre sua cabeça a água contida no recipiente. O barulho do líquido e a reação da atriz proporcionam a sensação do afogamento. Afogamo-nos com a infeliz Ofélia. Outro momento exemplar: na cena do encontro (devolução dos presentes), quando Polônio e o Rei Cláudio escutam o diálogo entre Hamlet e Ofélia. Através de um gravador que transmite em tempo real a voz dos atores, os dois bisbilhotam numa tentativa de controlar o incontrolável. Nesses tempos de grampos e escutas furtivas, a cena além de terrível e engraçada, outro elemento presente na encenação. Diaz não exclui o cômico presente nas tragédias de Shakespeare, mas traz o risível para momentos tradicionalmente tidos como “sérios”.

No livro A Tragédia de Hamlet, Príncipe da Dinamarca (1999), Vigotski fala do círculo do tempo, aquela hora “em que a manhã já chegou mas ainda é noite”, vendo nesse momento algo “misterioso e incompreensível”. Para Vigotski, é “a hora mais aflitiva e mística; é a hora em que o tempo desmorona, em que se rasga o seu inseguro manto; é a hora em que se desvela o abismo da noite sobre o qual ascende o mundo diurno; a hora da noite e do dia. Essa é a hora que a alma experimenta ao ler ou assistir à tragédia de Hamlet, o príncipe da Dinamarca. É nessa hora que está submersa a alma do espectador ou do leitor, pois é aí que a própria tragédia tem sua significação e faz-se semelhante a ela: ambas têm uma única alma."

Ensaio. Hamlet, com sua borbulhante criatividade, coloca-nos diante do teatro, teatro de qualidade.

Senti comichões de estar no palco novamente.

O resto é silêncio.

Não comentarei God Exists, The Mother Is Present, But They No Longer Care. A minha irritação pode ferir suscetibilidades. E elegância é fudamental, embora não tenha sido elegante ao sair no meio do espetáculo.

3 comentários:

Teatro Máquina disse...

olá, raimundo!
está lá no nosso blog o seu texto.
um abraço!
Levy.

Raimundo Matos de Leão disse...

Levy, não tenho o endereço do blog. Tentei teatromaquina.blogspot e nada. Por favor, mande o endereço. Agradeço a gentileza de publicar o texto, muito curto para dar conta de uma trabalho de pesquisa elaborado como o de vocês. Revendo o programa do espetáculo constatei a qualidade do material gráfico. Muito bem feito!

Raimundo Matos de Leão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.