Resumo:
A questão do outro é uma questão de época. Mas esta questão é muitas vezes mal colocada, permanecendo hierárquica e naturalista. Este é o motivo pelo qual, sem dúvida, Simone de Beauvoir não compreendeu que o outro sexo podia significar um sexo diferente e não um segundo sexo, no sentido de sexo inferior. A meu ver, é afirmando a diferença que a mulher pode libertar-se da dominação sobre ela de uma cultura no masculino. Para cultivar esta diferença, deve definir as mediações próprias a seu gênero: em nível da linguagem, do direito, da religião, da genealogia, etc. Após haver conquistado uma subjetividade livre e autônoma, a mulher deve aprender a entrar em relação com o homem como outro, um outro diferente, mas não hierarquicamente superior ou inferior.
Palavras-chave: diferença, outro, gênero, linguagem
A filosofia ocidental, e talvez toda a filosofia, constituiu-se em torno de um sujeito único. Durante séculos, não se imaginou que poderia haver sujeitos diferentes e que o homem e a mulher, em particular, poderiam ser sujeitos diferentes.
Desde o fim do século XIX, certamente, a atenção voltou-se principalmente sobre a questão do outro. O sujeito filosófico, sujeito agora mais sociológico, tornou-se um pouco menos imperialista. Admitiu que existiam identidades diferentes da sua: crianças, loucos, os "selvagens", operários, por exemplo.
Havia, portanto, diferenças empíricas a serem respeitadas: todo o mundo não era igual e importava debruçar-se um pouco mais sobre aos outros e suas às diversidades. Mas o modelo fundamental do ser humano permanecia imutável: uno, único, solitário, e historicamente masculino, o do homem ocidental adulto, racional, competente. As diversidades observadas eram assim pensadas e vividas de maneira hierárquica, o múltiplo sendo sempre submetido ao único. Os outros não eram senão cópias da idéia do homem, idéia potencialmente perfeita, cujo modelo, todas as cópias, mais ou menos imperfeitas, deveriam esforçar-se para igualar. Estas cópias imperfeitas não eram, aliás, definidas a partir delas mesmas, logo, de uma subjetividade diferente, mas a partir da subjetividade ideal e em função de suas carências em relação àquela: idade, sexo, raça, cultura, etc. O modelo do sujeito permanecia único e os "outros" representavam exemplos inferiores, hierarquizados em relação ao sujeito único.
Este modelo filosófico corresponde, aliás, ao modelo político de um chefe considerado o melhor, como o único capaz de governar cidadãos mais ou menos à altura de sua identidade humana, mais ou menos burilada.
Esta posição relativa à noção do outro explica, sem dúvida, a recusa de Simone de Beauvoir de identificar a mulher ao outro. Não querendo ser "segunda" em relação ao sujeito masculino, pretende alcançar um status subjetivo igual ao do homem, o mesmo ou semelhante ao dele.
No plano filosófico, isto supõe um retorno ao sujeito único, historicamente masculino, e uma anulação da possibilidade de uma outra subjetividade que não fosse a do homem. Se o trabalho crítico de Simone de Beauvoir sobre a desvalorização da mulher como "segunda" na cultura é, de certa forma, exato, a recusa de considerar a questão da mulher como outra representa filosoficamente, e mesmo politicamente, uma regressão importante. Com efeito, sua reflexão é historicamente menos avançada que a de certos filósofos que se interrogaram sobre a questão das relações possíveis entre dois ou mais sujeitos: filósofos existencialistas, personalistas ou mais políticos; ela se situa na retaguarda, também, em relação às lutas das mulheres pelo reconhecimento de uma identidade própria.