sábado, 21 de fevereiro de 2009

Registro 239: Depoimento II

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

NELITO REIS


Bacharel em Artes Cênicas pele Universidade Federal da Bahia, atualmente está em cartaz com o espetáculo Dona Flor e Seus Dois Maridos em turnê pela região sudeste. Entre seus trabalhos recentes, destaque para o musical Raul Seixas, A Metamorfose Ambulante, onde interpretou o falecido músico baiano, trabalho pelo qual foi indicado ao Prêmio Braskem de Teatro como melhor ator em 2005. No cinema fez os filmes de longa-metragem Revoada, de José Umberto Dias; Estranhos, de Paulo Alcântara e Strovengah, de André Sampaio, ainda não lançados.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Me chama atenção o ator criativo que dá à personagem traços que talvez surpreendam até mesmo seu autor. Gosto muito do trabalho de Wagner Moura, como ele constrói as personagens, dando-lhes traços peculiares que os tornam diferentes entre si, falo isso, por entender o quão difícil é se despir totalmente inclusive de si mesmo e conseguir dar à personagem essa imagem nova, quando o público já está habituado a ver o ator em tantos outros papéis. Admiro a força da interpretação de Gideon Rosa e a verdade que ele imprime em suas construções, assim também Luiz Melo, Othon Bastos, Harildo Déda. Estes atores ganham tamanha dimensão no palco muito por conta da simplicidade como interpretam, econômicos em suas partituras, muito precisos, mas que acima de tudo nos situa na verdade daquela personagem que estão dando vida, por vezes até nos mostram novas facetas de personagens clássicos.


2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Maryl Streep, Fernanda Montenegro, Kate Winslet e Irene Papas, esta última há muito sumida das telas, hoje, octogenária, dedica-se apenas ao teatro, e Ruth Gordon, que embora tenha visto em dois ou três outros filmes, admiro pela Maud do Ensina-me a Viver, de 1971. Sean Penn, De Niro, Dustin Hoffman, José Wilker, Matheus Nachtergaele.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Ewald Hackler

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Injustiçado... não sei. Não sei.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Não exatamente que eu não desse nada, não sou tão severo em minhas expectativas, mas sem citar exemplos me recordo da Escola de Teatro, onde vi muitos experimentos de colegas, com resultados muito bons, com resoluções maravilhosas, sobretudo diante da grande dificuldade que era montar trabalhos ali por falta de estrutura às vezes, até mesmo falta de espaço e a criatividade tinha que correr solta e muitas vezes traziam diferenciais inusitados às encenações. Tive a oportunidade de acompanhar isso como público em alguns e como ator em outros, destes processos. Vi peças montadas nos escombros do velho Martim Gonçalves, outras no canteiro de obras de reconstrução do novo, vi encenações nas escadarias do sobrado, do prédio anexo, nos jardins, até mesmo nos banheiros.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Nada Será Como Antes tem para mim a importância de ter sido o momento em que eu compreendi que queria fazer teatro; Ensina-me a Viver por ser minha única oportunidade de ver Nilda Spencer no palco, vi Nilda muitas vezes em televisão e cinema; Galileu, por ser um texto que me emociona muito (isso com certeza contrariaria Brecht) e pela atuação de Harildo; Recentemente O Que Eu Gostaria de Dizer, com Luiz Melo, quando curiosamente meus acompanhantes saíram comentando que a peça não dizia muito, quando estava eu com a voz embargada, emocionado, com tudo que sentia que a peça me falara diretamente.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Me fez mal? Acho uma colocação muito pesada, acredito que não passei por essa experiência ainda. Ou talvez possa citar uma experiência de palco e não de platéia. Vejamos, durante quatro anos participei da Paixão de Cristo em Lauro de Freitas (Bahia). Trata-se de espetáculo ao ar livre, apresentado na praça central daquela cidade, com público anual estimado em cerca de cinco mil pessoas. No primeiro ano interpretei o Rei Herodes e nos três seguintes representei Jesus Cristo, quando então era comum ser abordado por pessoas me pedindo que as tocasse, ou tocasse em seus filhos, parentes doentes. Eram três dias de apresentações e, ao fim do primeiro, eu já apresentava sinais de febre e muito cansaço. Ao fim do terceiro dia, amiúde eu baixava hospital. Isso aconteceu somente nos três anos em que fiz Jesus. Todavia, trata-se de um trabalho que me orgulha ter feito, tamanho o envolvimento da comunidade para a realização do evento.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Graças a Deus foram vários, mas para responder a questão cito Material Fatzer, de Márcio Meireles, montada a partir da obra de Bertolt Brecht. Vale observar a curiosidade de que a cidade de Salvador passara naquele período por uma situação de insegurança sem precedentes por conta de uma greve dos policiais militares.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
De forma alguma. Historicamente observamos na Grécia antiga a primazia da tragédia, sobretudo por sua relação com as Dionisíacas, que eram eventos de adoração divina e das quais só muito mais tarde as comédias passaram a fazer parte. Não há gênero de segunda, há trabalhos de segunda, terceira, quinta categoria, infelizmente, e por esse ponto de vista ha também dramas de segunda categoria. Acho que o público hoje em dia tem menos paciência com o drama (será?), mas mesmo esta preferência pela comédia, pelo besteirol muitas vezes fácil nos serve para reflexão, até porque dizem que a impaciência com o drama é pela pouca disposição à reflexão e que nas comédias essa reflexão fica mais diluída, facilmente digerível, não sei se é isso. Curto poder ir a um teatro e rir, loucamente, ver um besteirol bem comercial. Mas me sinto extremamente feliz quando vejo um bom espetáculo, drama ou comédia, que me faz refletir, questionar, discutir depois com alguém ou apenas pensar com meus botões.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Acho que a dificuldade sugerida seria para fins de montagem, é isso? Acredito que O Menor Quer Ser Tutor, de Peter Handke, me parece um texto delicado, justamente por não ser uma peça falada, embora muito eloqüente (vai com trema mesmo). Nos anos 90 foi montada por Ewald Hackler na Escola de Teatro e recentemente ganhou uma adaptação maravilhosa que foi O Sapato do Meu Tio, com direção de João Lima.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
A Casa de Eros, espetáculo dirigido por José Possi Neto, em 1996, por ocasião dos 40 anos da Escola de Teatro da UFBA. A encenação, que ocupou todo o espaço do velho solar Santo Antônio, sede da escola, bem como o teatro Martim Gonçalves, apresentou um esboço histórico e mítico da relação entre aquela instituição e seu fundador, Eros Martim Gonçalves.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
O Sapato do Meu Tio. Lúcio Tranchesi e Alexandre Casali me emocionaram muito. Uma das maravilhas dessa montagem era sua simplicidade.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Cito, antes dos textos, três jovens dramaturgos, que pela força das imagens e profundidade de conteúdo que propõem em seus trabalhos já marcaram com certeza a história de nosso teatro: Cláudia Barral, autora de O Cego e o Louco, Cordel do Amor Sem Fim, O Que de Longe Parece Ser um Verso em Branco; Marcos Barbosa, autor de Auto de Angicos, Braseiro e Minha Irmã; Gil Vicente Tavares, autor de Os Javalis, Os Amantes II e Canto Seco.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Vereda da Salvação, de Jorge Andrade.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Não saberia dizer, não costumo observar tais cânones.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Não me recordo de nenhuma. Certamente não gostei de algumas coisas, mas não me lembro de haver críticas em contrário.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Li uma crítica negativa à montagem de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de André Paes Leme, em cartaz no Teatro SESC Ginástico, Rio de Janeiro em 2007, condenando a opção do diretor em transportar para o universo nordestino a linguagem e o universo mineiro, próprio de Guimarães Rosa, autor da obra. Ora, ainda que não fossem regiões tão semelhantes e até geograficamente próximas, não vejo gravidade em desconstruir textos, mesmo clássicos, aliás, quão interessante é justamente desconstruir principalmente o clássico, não é? Adaptá-las em outras culturas, dar-lhe frescor. A encenação em questão era irretocável em qualidade cênica, as contracenas, cenário e iluminação primorosos, números musicais emocionantes.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Jamie Tyrone, de Longa Jornada de Uma Noite Adentro, de Eugene O’Neill
Robespierre, de A Morte de Danton, de Georg Büchner
Joaquim, de Vereda da Salvação, de Jorge Andrade

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A verdade cênica.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
A superficialidade da contracena, muitas vezes fruto de indisciplina do(s) ator(es) ou ausência de direção
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2 comentários:

Anônimo disse...

MARCELO FLORES : " Nelito,fico muito feliz e honrado ao ver um ator talentoso e de excelente formação na Escola de Teatro de Ufba como você, incluir em suas respostas alguns espetáculos que atuei e, principalmente, a primeira peça dos ARGONAUTAS, meu grupo. Hoje, com 15 anos de carreira, sei que além de prêmios e críticas na imprensa, o que mais recompensa um profissional é o respeito de seus pares. Obrigado. Raimundo, parabéns pelo cenadiária."

Dijalma Galvão Oliveira disse...

O artista é aquela pessoa que possui sensibilidade bastante para encantar e emocionar e, através da sua arte, melhorar o mundo. Nelito é uma dessas pessoas raras que são escolhidas pelo divino, para essa missão tão importante.