sexta-feira, 28 de maio de 2010

Registro 308: Celebração

A presença da escritora Fanny Abramovich em Salvador, a convite da Escola Arco-Íris, foi uma verdadeira festa para os amigos, ex-alunos e principalmente para as crianças, professores e pais do espaço educativo situado em Brotas, mais precisamente na Ladeira do Acupe. Inaugurou-se aí a Biblioteca Fanny Abramovich, uma simpática sala  com prateleiras muito práticas deixando à mostra a capa dos livros e não a lombada. Essa disposição torna visível para a criança o objeto-livro, já que as capas não se escondem uma atrás da outra como na maioria das bibliotecas. Gostei! No centro da sala um tapete e almofadões de chitão. Quem me conhece sabe a predileção que tenho por esse tecido tão popular de origem chinêsa e no Brasil ganhou uma padronagem especial, revelando a criatividde dos nossos criadores que adaptaram os desenhos florais ao gosto do nosso povo. Os antigos tecidos eram mais bonitos, mais elegantes, mas ainda encontramos belos padrões por aí. A sala é um encanto. No pátio da escola muitos trabalhos realizados pelos estudantes em torno dos livros que eles leram, uma demonstração do envolvimento da crianças com a proposta, o que resultou em conversas animadas entre a escritora e a garotada. Segundo me falou, ela ouviu perguntas saborosas, gargalhantes e surpreendentes.

As ligações de Fanny com a Bahia não são de hoje. Desde a década de 60, ela por aqui veio e travou conhecimento com o pessoal do Centro Popular de Cultura. Tanto que, após o golpe civil-militar de 1964, a escritora acolheu muitos dos baianos foragidos das perseguições policiais. Muitos desses rapazes e moças ocupam cargos importantes em vários setores públicos e privados não somente da Bahia, mas em outras regiões do país. Na década de 70, a educadora por aqui passou ministrando cursos e oficinas de pedagogia da arte. As turmas eram repletas de participantes interessados. Ainda hoje, ao ouvi-los percebe-se o quanto as brincadeiras, provocações e ensinamentos de Fanny mexeram com certezas e desencadearam processos de descobertas e inovações no campo da arte-educação. Distante da academia, Fanny é pioneira do trabalho com arte na escola e foi criadora do Centro de Educação e Arte, além de ter sido professora de teatro e artes plásticas no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem-Aleichem- GBISA, onde também fui professor e aprendi de fato o que é ser um educador.

Lodo depois, Fanny esteve no programa de televisão comandado por Marília Gabriela, TV Mulher. Sua participação trazia um sabor especial ao programa , todo ele produzido de forma inovadora, causando polêmica e irritando setores conservadores da sociedade. O programa saiu do ar.

Conheci Fanny quando ela escrevia para o Jornal da Tarde, em Sampa. No jornal, ela mantinha uma coluna das mais instigantes, tratando de literatura, teatro e de tudo que se produzia culturalmente para crianças. Humorados, ácidos, irônicos e demolidores, os textos apontavam para questões artísticas e educativas sem o ranço do bom mocismo, nem beiravam a crítica superficial sobre o que se produzia. Muitas deles foram reunidos no livro fora de catálogo, O estranho mundo que se mostra às crianças. Nele, existe um capítulo destinado ao teatro para crianças, com um texto intitulado Projeto Herodes. Por esse título dá para imaginar o teor do que ela analisa humoradamente, saborosamente e sem a arrogância, mas sem deixar de apontar a banaliade e os equívocos cometidos por gente que faz teatro para criança. Para Fanny, é como tudo  fosse "emiliano", ou seja, deriva da sabedoria de Emília, a magnífica criação de Monteiro Lobato.

Foi por essa época que a escritora e educadora entrou na minha vida, ao me entrevistar sobre premiação do texto Brincadeiras, no Concurso de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro- 1977, do qual ela foi júri. Lembro-me que a conversa prolongou-se por muitas e muitas horas. Anos depois, Fanny me pediu para escrever um conto para uma coleção que organizava e que não foi para frente. O conto ficou na gaveta e logo depois foi publicado noutra coleção organizada por ela. Daí pra cá, a relação profissional se transformou em pura e doce amizade, que a distância só faz aumentar. Como boa ouvinte, qualidade que ela cultiva verdadeiramente, Fanny envolve o outro e estabelece uma troca sempre enriquecedora.

Fanny é adorável. Autora de INÚMEROS livros, tenho todos autografados, é uma escritora de imaginação fértil, criadora de situações das mais verdadeiras e envolventes. Seus leitores sabem disso. Ela atinge em cheio o universo de crianças, jovens e adultos. Brinca com a língua, inventa jogos de palavras e resolve seus enredos de maneira sensível, sem maniqueísmo, sem lições de nenhuma maneira, principalmente aquelas de dedo em riste. Sua literatura não é moralizadora no sentido repressivo, faz pensar e, sobretudo, diverte. Nas teias que traça,  mexe com o sensível, toca nos problemas e avança sobre eles sem medo. Seus livros são libertários, mas fogem das cartilhas que engessam o mundo do leitor.

Tenho certeza de que a semana foi divertidissima para todos que estiveram perto de Fanny. Foi um verdadeiro puxa-estica, pois todos queriam minutos de seu tempo. Recebê-la em casa foi uma celebração. A noite de inauguração da biblioteca foi uma arraso, com uma divertida e emocionante conversa, cujo tema eram as suas lembranças de quando menina, sua vida no Bom Retiro, sua vida de escolar e a descoberta das narrativas contadas por sua mãe e depois por aquelas que os livros trazem para encantamento e deleite de quem deles se aproxima. A fila de autógrafos durou quase quatro horas, com pais e crianças esperando para ter a assinatura no livro e uma palavra com a escritora. Como ela gosta de conversar, cada um teve seu dedo de prosa.

9 comentários:

Adriana Rossetto disse...

Raimundo, você escreveu com sensibilidade e me trouxe um novo olhar sobre a biblioteca Fanny Abramovich. Pensamos e repensamos num espaço que aconchegasse as crianças...onde elas pudessem ver os livros, elas mesmas pudessem procurá-los e achá-los neste espaço...sentadas ou deitadas no chão...brincar com a boneca Fanny...ler, pensar, etc...

Vou sugerir seu blog no site da escola, posso?

E enviar também este texto para pais e professores.
Obrigada,
Um abraço,
Adriana.

Patricia Esteves disse...

Raimundo amei ler seu texto realemnete a escola Arco-Iris está de parabéns por trazer a Fanny Abramovich até nossos filhos e a nós pais que tivemos um delicioso momento com ela proporcionando um verdadeiro conto ao vivo e a cores de uma mulher que viveu e vive a literatura lindamente e diáriamente que ensina a gostar de ler de forma prazerosa e criativa!Patricia Esteves

Patricia Esteves disse...

correção:realmente!rs

Milena disse...

É com esses e outros acontecimentos que tenho a CERTEZA que a escolha da Escola Arco Íris para minha filha (Malu)foi definitivamente PERFEITA!!! Ela ama a escola e nós( Eu-Milena e Mateus) tb!!!!
Malu amou!!! Fanny!!! E nós tb que pessoa especial!! Aliás, como poucas nesse mundo!!!

AMAUTA DE COTAHUASI disse...

Raimundo,alegria grande com a notícia da biblioteca Fanny Abramovich. Minha amiga Fanny tem cara de biblioteca generosa com livro aberto.Meus primeiros textos de escritora aprendiz sabem disso... que olhos de lanterna! Em meu nome e em nome da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura infanto-juvenil no Paraná (AEI-LIJ/PR)segue meu parabéns enorme para a escola Arco-Íris (só podia ser..)para você, pelo texto que me acordou antigas lembranças e para a Fanny toda a poética que a palavra biblioteca é capaz de significar.
Viva nosso tempo de mundo.Anunciarei o link deste blog nas minhas listas.
Gloria Kirinus (AEI-LIJ/PR)

Raimundo Matos de Leão disse...

Para todos que deixaram comentários, manifesto o meu contetamento. Lembro que tudo isso se deve a Fanny, fada madrinha de muitos. Abraço para todos.

Cecilia disse...

Raimundo e Fanny, meus professores do Scholem e da minha grande escola livre de artes, que alegria ler sobre o reencontro da nossa escritora com as crianças e educadores em terras baianas. Uma biblioteca Fanny Abramovich é mesmo uma honra. Os baianos são mesmo mais inteligentes e criativos. Que maravilha uma biblioteca que abraça as crianças e que gostosura o verdadeiro encontro com nossa escritora. Parabéns à escola Arco Íris e às crianças que ganharam uma verdadeira fada madrinha. Estarão iluminados com ideias para lá de imaginosas, muito além do Sitio do Picapau Amarelo...
Obrigada, mestre Raimundo, por esse relato tão lindo.
Obrigada, educadores do Arco Íris baiano pela inteligência. Aguardamos histórias felizes de suas crianças.
E, finalmente, obrigada, Fanny, minha fada madrinha,por simplesmente existir e fazer este mundo mais vivível... ou mais: por nos fazer acreditar que temos o poder de fazer um mundo melhor desde a infância.
Beijos
Cecília Luedemann

alexandre disse...

Oi Raimundo,

Sou professor de música da Arco Íris e tive o privilégio de conhecer a Fanny este ano. Ela me falou de você enquanto mostrava alguns trabalhos que faço com as crianças. Gostaria de conhecê-lo.
Como faço para entrar em contato?
Atenciosamente,
Alexandre.

Raimundo Matos de Leão disse...

Alexandre, pegue com Adriana da Arco-Íris meu telefone.