domingo, 7 de dezembro de 2008

Registro 222: Uma coisa leva a outra..

  • Dei de ouvir Beatles constantemente. Música para ouvir, pra dançar, pra sonhar com céu lantejoulado de diamantes e campos de morangos. Acredite; esses momentos prazerosamente curtidos não estão carregados de nostalgia paralizadora, embora plenos de passado rememorado são revitalizadores. Sinto-me recarregado para me transformar. "Metamorfose ambulante". Penso então no que diz Claudio Magris, autor de O Senhor Vai Entender, ainda não lido nem adquirido. Diz ele: "A memória olha pra frente; carrega consigo o passado, mas para salvá-lo, assim como são recolhidos os feridos e os mortos que ficaram para trás, pra levá-lo de volta à pátria, à casa natal que cada um, afirma Bloch, acredita em sua nostalgia ver na infância e que, entretanto, se encontra no futuro, em um futuro livre e liberto" (O ESTADO DE S. PAULO, 30 de novembro de 2008). Ecos benjaminianos.
  • Citei Magris na abertura do Primeiro Encontro Latino-Americano de Teatro - Trânsitos na Cena Latino-Americana Contemporânea organizado por Hector Briones e Cacilda Póvoas. Durante o evento (3 a 5 de dezembro) no Teatro Vila Velha um grupo de pesquisadores da Argentina, Brasil Chile, Costa Rica, Cuba, Equador, Peru e Venezuela ligados ao Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas - UFBA apresentaram comunicações a respeito do fazer teatral em seus respectivos países. Essas comunicações fazem parte da publicação lançada pela Edufba no encerramento do Encontro. Utilizei do tempo concedido para falar desse diálogo entre próximos-distantes e da importância de ouvirmos o Outro para alargar as fronteiras, não somente as teatrais, mas a de convívio e aprendizado. Magris me ajudou na referência que fiz à memória, visto que as falas estavam impregnadas de memória positiva, aquela que nos lança pra frente, ainda que estejamos tratando do passado, para muitos aterrador. Se pensarmos que o fazer teatral na América Latina esteve sob o jugo de governos ditatoriais (um aspecto recorrente em todos as comunicações) que nem sempre compreendem o significado da arte, mais especificamente da arte teatral, o valor positivo que salta das memórias é que elas não estão impregnadas da obsessão que leva ao ódio vingativo. Talvez pelo fato dos participantes serem jovens, não há traço de rancor quando relatam as lutas dos seus conterrâneos para manter a atividade teatral viva e atuante durante os regimes de exceção que aterrorizaram a região na vigência da Guerra Fria fator que resultou na quebra democrática e no endurecimento dos regimes.
  • A iniciativa do Encontro é salutar. Pôde-se tomar conhecimento de realidades semelhantes e diferentes sobre o teatro que se fez e faz além das fronteiras, limites que podem ser alargados no momento em que passamos a dividir experiências, procedimentos e encaminhamentos para a cena.
  • Recebi de Fanny Abramovich, juntamente com a revista Continuum editada pelo Itaú Cutural alguns cartões para a minha coleção e um marcador de livros; nele, uma frase de Oscar Wilde: "Não sou jovem suficiente para saber tudo". Fina ironia!
  • Veio também um guia com indicações de lançamento de livro, discos e DVD's. Cinco filmes de Ingmar Bergman acabam de ser lançados: Da Vida das Marionetes, O Rito, O Olho do Diabo, Depois do Ensaio e Uma Lição de Amor. Ah, dois de Sokúrov, cineasta russo, também estão na praça, Arca Russa e Pai e Filho. Vi o último; um filme estranho. Sokúrov descreve a relação entre pai e filho de uma maneira estranhamente bela, ambígua, desconcertante. Saí do cinema com uma sensação de não ter captado algo dessa história encenada vagarosamente, quase sempre em primeiro plano e closes de atores inquietantemente belos. Vale a pena conferir.
  • Danuza Leão em entrevista ao no Caderno 2 (A Tarde, 4.12.2008) deve ter mexido com os brios baianos. Lá pras tanta ela diz: "Agora tudo tem promoter na Bahia" e vai alfinetando a vida social/cultural da soterópolis. O gozado é que Danuza veio desse ramo, mas ela tem lá suas razões. Pasteurizaram tudo! E dá-lhe mesmice nos acontecimentos!
  • As festas de fim de ano se aproximam. Sempre gostei delas, principalmente quando criança e também na adolescência. Na minha família, o Natal era festa de porta aberta, sempre pra fora, receptiva. Meu pai, festeiro de marca maior, gostava de fazer festas natalinas para a cidade. Armava presépio grandioso no salão da principal escola da cidade (ou na rua) e aí recepcionava as crianças e idosos que recebiam brinquedos os primeiros e cobertores os segundos. Semanas antes, quantas vezes acompanhei meu pai percorrendo a periferia da cidade para distribuir uma senha, garantia do ingresso no recinto do presente. Depois que fazia esse evento, abria o salaão para quem quisesse apreciar o presépio que muitas vezes ajudei a montar.
  • Na infância, eu costumava visitar as casas em que tinham presépios, encantando-me sempre com as soluções de cada um. Fascinava-me ver a cenografia e a mistura inusitada de objetos e imagens contemporâneas que se juntavam àquelas tradicionais remissivas ao nascimento do Menino. Geralmente montados nos cantos da sala, ofereciam-se ao olhar do espectador como um palco italiano. Muitas vezes fui surpreendido com presépios montados no centro da sala, levando-me a uma visibilidade circular, como se o espetáculo fosse em arena. A geografia desses presépios, às vezes grandiosa, era construída com caixas, panelas, tábuas, tijolos e outros objetos cobertos de musgos catados na caatinga, musgos vermelhos, alaranjados e verdes que impregnavam o ar com um cheiro característico do campo do sertão. Os mais requintados, achavam seus proprietários, eram feitos com papel pintado de cinza imitando rochedos e gruta onde a cena do nascimento era recolhida. Alguns eram feitos de pedra salpicadas de tinta azul escuro, vinho e branca, resultando num efeito interessante e rompendo com a realidade dos objetos, mas sem escondê-los, num efeito mimético de recriação. Areia fina e de brancura imaculada marcava algumas regiões dessa paisagem, enfeitadas com conchas e búzios.
  • Na adolescência, eu e meus amigos, ficávamos na praça fazendo o footing até a hora da Missa do Galo, que geralmente não íamos. Reminiscências. Os Natais da minha infância não eram regidos por esse consumo desenfreado. Tanto eu quanto meus irmãos ganhávamos roupa nova, um presente muito simples... No jantar havia peru. Ah, havia sempre queijo do Reino na sua tradicional embalagem. Para nós, Natal sem queijo do Reino não era Natal. Não precisava nem de presente!

Um comentário:

Aldema disse...

Raimundo, meu querido amigo. Gostei tanto do teu texto sobre Natal.Senti o gosto do queijo do reino...e me lembrei, com saudades, da embalagem. Tão baiano tudo!Que o teu Natal de 2008 tenha gosto de infância.