domingo, 18 de março de 2007

Registro 8: Alguma coisa está fora de ordem...

(...) A morte de João Hélio acendeu um movimento reacionário no País e o que não tem faltado na TV são telespectadores excitados pedindo, em programas policialescos, a pena de morte, a tortura e atitudes na linha lei de talião. Na mesma semana em que isso ocorre, o mundo da política e o da Igreja Católica iniciaram um outro debate que também caiu no fosso reacionário: a defesa do uso da camisinha pelo presidente Lula e a reação imediata da Igreja Católica.

Não bastasse a reação da Igreja por aqui, em escala mundial, outra pérola reacionária surpreendeu muitos: o papa Bento XVI, num retrocesso, atacou sem meios-termos os divorciados. Classificou os segundos casamentos com a singela adjetivação de “praga social”. E aos católicos mais carolas que se debrucem sobre o latim, língua defendida pelo papa para a celebração da missa. E depois há quem não consiga entender porque as catedrais da fé e seus teleevangélicos madrugadores são sucesso de público.

Mas como vivemos numa miscelânea de discursos non sense, o melhor de tudo é assistir a essas normas papais contra os divorciados nos telejornais e no intervalo comercial vermos um show de capacidade do catolicismo de se adaptar à lógica moderninha e nada reacionária: o anúncio do espetáculo Paixão de Cristo, em Nova Jerusalém (PE), é impagável.

Ao mesmo tempo em que anuncia Francisco Cuoco como Herodes improvável e Graziela Massafera como uma Maria Madalena louraça-gostosona, exibe um boneco de uma marca de palha de aço (a mesma que patrocina o BBB&) dançando desengonçado no papel de patrocinador, nos convidando a rir do mercadinho da fé que, com uma variação aqui e outra ali, é tudo muito parecido: tudo é business e performance em nome do divino.

Para coroar o anúncio, uma marca de peixe congelado, com nome de deus grego e ilustrado por desenho medonho, brada: o pescado da paixão. Mais risível impossível.

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FONTES, Malu. O mundo é um inferno. In: Revista da TV. A Tarde, Salvador, 18.03.2007, p. 9.
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Folha de S. Paulo, terça-feira, 20 de março de 2007
RUBEM ALVES A praga

É BOM atentar para o que o papa diz. Porta-voz de Deus na Terra, ele só pensa pensamentos divinos. Nós, homens tolos, gastamos o tempo pensando sobre coisas sem importância tais como o efeito estufa e a possibilidade do fim do mundo. O papa vai direto ao que é essencial: "O segundo casamento é uma praga!"Está certo. O casamento não pertence à ordem abençoada do paraíso. No paraíso não havia casamento. Na Bíblia não há indicação de que as relações amorosas entre Adão e Eva tenham sido precedidas pelo cerimonial a que hoje se dá o nome de casamento: o Criador, celebrante, Adão e Eva nus, de pé, diante de uma assembléia de animais, tudo terminando com as palavras sacramentais: "E eu, Jeová, vos declaro marido e mulher. Aquilo que eu ajuntei os homens não podem separar..."

Os casamentos, o primeiro, o segundo, o terceiro, pertencem à ordem maldita, caída, praguejada, pós-paraíso. Nessa ordem não se pode confiar no amor. Por isso se inventou o casamento, esse contrato de prestação de serviços entre marido e mulher, testemunhado por padrinhos, cuja função é, no caso de algum dos cônjuges não cumprir o contrato, obrigá-lo a cumpri-lo.

Foi um padre que me ensinou isso. Ele celebrava o casamento. E foi isso que ele disse aos noivos: "O que vos une não é o amor. O que vos une é o contrato". Aprendi então que o casamento não é uma celebração do amor. É o estabelecimento de direitos e deveres. Até as relações sexuais são obrigações a ser cumpridas.

Agora imaginem um homem e uma mulher que muito se amam: são ternos, amigos, fazem amor, geram filhos. Mas, segundo a igreja, estão em estado de pecado: falta ao relacionamento o selo eclesiástico legitimador. Ele, divorciado da antiga esposa, não pode se casar de novo porque a igreja proíbe a praga
do segundo casamento. Aí os dois, já no fim da vida, são obrigados a se separar para participar da eucaristia: cada um para um lado, adeus aos gestos de ternura... Agora está tudo nos conformes. Porque Deus não enxerga o amor. Ele só vê o selo eclesial.

O papa está certo. O segundo casamento é uma praga. Eu, como já disse, acho que todos são uma praga, por não ser da ordem paradisíaca, mas da maldição. O símbolo dessa maldição está na palavra "conjugal": do latim, "com"= junto e "jugus"= canga. Canga, aquela peça pesada de madeira que une dois bois. Eles não querem estar juntos. Mas a canga os obriga, sob pena do ferrão...Por que o segundo casamento é uma praga? Porque, para havê-lo, é preciso que o primeiro seja anulado pelo divórcio. Mas, se a igreja admitir a anulação do primeiro casamento, terá de admitir também que o sacramento que o realizou não é aquilo que ela afirma ser: um ato realizado pelo próprio Deus. Permitir o divórcio equivale a dizer: o sacramento é uma balela. Donde, a igreja é uma balela... Com o divórcio ela seria rebaixada do seu lugar infalível e passaria a ser apenas uma instituição falível entre outras. A igreja não admite o divórcio não é por amor à família. É para manter-se divina...

A igreja, sábia, tratou de livrar seus funcionários da maldição do amor. Proibiu-os de se casarem. Livres da maldição do casamento, os sacerdotes têm a suprema felicidade de noites de solidão, sem conversas, sem abraços e nem beijos. Estão livres da praga...

Um comentário:

Gaspari disse...

Som contar que o tal Bento quer restaurar a missa em latim. De "inovação" em "inovação", chegaremos logo à Idade Média.
Gostaria de ir ao evento pernambucano só prá ver e ouvir Cuoco gaguejando o texto e a Graziela no bate cabelo, look Madalena fashion.