sexta-feira, 20 de abril de 2007

Registro 47: "Sentir tudo de todas as maneiras"

ANIVERSÁRIO

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos

No Tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há século,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião
qualquer.

No Tempo em que festejavam o dia do meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui e suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através
das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica a carnal,
Como uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos
dentes!

Vejo tudo outra vez com a nitidez que me cega para o que há
aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra
Debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...


O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


PESSOA, Fernando. Aniversário. In: Obra completa: ficções do interlúdio, poesia de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003, p.379-380.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Registro 46: Belo cartaz

Registro 45: Pinturas, 1999

Nanã

É Fogo

Bananbandeira

Retalhos


As imagens foram produzidas por mim, Raimundo Matos de Leão e podem ser reproduzidas, desde que se faça o registro da autoria. Nanã e Retalhos são desenhos digitais. É Fogo e Bananbandeira são trabalhos produzidos com caneta hidrocor. Eles fazem parte de uma série destinada a estamparia de camisetas, mas o projeto não se realizou. Os trabalhos pertecem ao acervo pessoal do autor, agora disponíveis na Internet, com registro reconhecido.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Registro 44: Pintura digital

Pra Oxum
Raimundo Matos de Leão
Digital, 1999

terça-feira, 17 de abril de 2007

Registro 43: Em cena...


Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão
Peça de Naum Alves de Souza
Versão masculina
Estréia em 1984 no Teatro Maria Della Costa, São Paulo.
Elenco:
J.C Violla: Moço
Hugo Della Santa: Irmão
Raimundo Matos: Pai, Coveiro
Maria Luísa Jorge: Cunhada, Morte
Teresa Freitas: Mãe, Aluna/Esposa
Cristina Mutarelli: Irmã morta, Tia velha
Volnei Bukvar: Namorado da irmã
Equipe Técnica
Direção e Cenografia: Naum Alves de Souza
Figurinos: Leda Senise
Trilha sonora e Preparação vocal: Samuel Kerr
Iluminação: Abel Kopanski
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Para conhecimento do texto, conferir: SOUZA, Naum Alves de. Um beijo, um abraço, um aperto de mão. In: Naum Alves de Souza: teatro. Coimbra, Portugal: Cena Lusófona, 2005.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Registro 42: Livros...

Mas a melhor prova da especificidade do livro é que ele constitui ao mesmo tempo uma realidade do virtual e uma virtualidade do real. Somos colocados, quando lemos um romance, numa outra vida que nos faz sofrer, esperar, compadecer-nos, mas ao mesmo tempo com a impressão complexa de que nossa angústia permanece sob o domínio da nossa liberdade, de que nossa angústia não é radical. Todo livro angustiante pode não então proporcionar uma técnica de redução da angústia. Um livro angustiante oferece aos angustiados uma homeopatia da angústia. Mas essa homeopatia age sobretudo numa leitura meditada, na leitura valorizada pelo interesse literário. Então dois planos do psiquismo se cindem, o leitor participa desses dois planos e, quando se torna bastante consciente da estética da angústia, está bem perto de descobrir-lhe a facticidade. Porque a angústia é factícia: somos feitos para respirar livremente.

É nisso que a poesia – ápice de toda alegria estética – é benéfica.

Sem a ajuda dos poetas, que poderia fazer um filósofo já entrado em anos, que se obstina a falar da imaginação? Não tem ninguém para testar. Ele se perderia imediatamente no labirinto dos testes e contratestes em que se debate o sujeito examinado pelo psicólogo. Aliás, existirão mesmo, no arsenal do psicólogo, teste de imaginação? Haverá psicólogo suficientemente exaltado para renovar permanentemente os meios objetivos de um estado da imaginação exaltada? Os poetas sempre imaginarão mais rápido que aqueles que os observam imaginar.

Como penetrar na esfera poética do nosso tempo? Uma erra de imaginação livre acaba de abrir-se. Em toda parte as imagens invadem os ares, vão de um mundo a outro, chamam ouvidos e olhos para sonhos engrandecidos. Os poetas abundam, os grandes e os pequenos, os célebres e os obscuros, os que amamos e os que nos fascinam. Quem vive para a poesia deve ler tudo. Quantas vezes de uma simples brochura, jorrou para mim a luz de uma imagem nova! Quando aceitamos ser animados por imagens novas, descobrimos irisações nas imagens dos velhos livros. As idades poéticas unem-se numa memória viva. A nova idade desperta a antiga. A antiga vem reviver na nova. Nunca a poesia é tão uma como quando se diversifica.

Que benefícios nos proporcionam os novos livros! Gostaria que cada dia me caíssem do céu, a cântaros, os livros que exprimem a juventude das imagens. Esse desejo é natural. Esse prodígio, fácil. Pois lá em cima, no céu, não será o paraíso uma imensa biblioteca?

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 25-26.
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LIVROS

Caetano Veloso
Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São os livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou – o que é muito pior – por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrela.

VELOSO, Caetano. Livro. Intérprete: Caetano Veloso. In: Caetano Veloso. PolyGram, p. 1997. 1 CD. Faixa 2

domingo, 15 de abril de 2007

Registro 41: Documento

O DÍARIO DE JUDITH MALINA NA PRISÃO

Belo Horizonte (MG) - No xadrez do DOPS, nesta capital, onde está presa há quase um mês – Judith Malina – a mulher de Julian Beck – é muito mais que uma simples prisioneira. Quase indiferente às acusações da polícia, ele prefere continuar escrevendo suas peças de teatro, acreditando que muita coisa deve ser mudada no mundo, com a imediata substituição dos velhos padrões de violência e ódio e a reabilitação do sexo, cuja repressão é a causa de todos os males.
- “O sexo é puro, o corpo é santo. Nada existe neles para se sentir vergonha e repulsa”.

Magra, cabelos grandes, gestos nervosos e apressados, Judith Malina não admite que a prisão possa interromper seu longo trabalho em busca de novas maneiras e comunicação teatral. Mesmo porque a prisão é também parte da vida, o que ela só agora veio a conhecer mais demoradamente.

- É uma oportunidade. Ninguém pode negar. Nosso trabalho é feito através de estudos, pesquisas e observações. Lá fora, nos coquetéis, nas reuniões sociais, nas boates, nós nunca poderíamos imaginar a realidade deste outro lado do mundo limitado pelas grades”.

- “Cada dia na prisão é um novo dia. Tempo para olhar o mundo e redescobrir que o fuzil não é a única maneira de opressão, talvez a menor de todas”.
- “Pior que ele, os sistemas econômicos, a ampliação do mapa da fome e do medo, quando tudo poderia ser resolvido sem grandes sacrifícios. É só comparara os gastos da corrida espacial com os esforços contra a fome”.
Judith Malina depois de levar seu teatro, o “Living Theatre” a muitos países do mundo e a diferentes culturas, acha que hoje já se pode pensar numa vida futura melhor e mais humana. “E esta esperança está no protesto dos jovens na sua rebeldia em recusar a herança de violência e de guerra”.

É esta a principal mensagem de seu teatro, considerado um dos mais avançaos do mundo. Teatro para ser mostrado nas ruas, nas oficinas, nas escolas, onde houver gente a quem transmitir o apelo de “paz e amor”. Teatro que nasceu há mais de vinte anos quando Julian Beck e Judith se conheceram e passaram a realizar peças dentro do seu próprio apartamento, sem a preocupação de comércio e de crítica.
A prisão em Ouro Preto, a acusação da polícia e a presença nos Tribunais, nada modificou o desejo de continuar procurando maneiras novas e diferentes de dialogar com o povo. É a resposta do casal para quem pensa que o “Living Theatre” está em declínio quase acabando.

Ainda resta muita coisa a fazer, dizem os dois. Por isso a permanência física no xadrez não justifica a interrupção do trabalho, mas representa uma experiência nova, que deve ser aproveitada. A farda de presidiário não impede o espírito de criar e descobrir. É assim que pensa Judith.
Enquanto a Justiça decide se os atores do “Living Theatre” são ou não culpados, ela passa seu tempo escrevendo e pesquisando. E seus momentos de maior inspiração são para o velho diário que desde 1947 acompanha a discutida, elogiada e combatida trajetória do “Living Theatre”.

9 de julho de 1971. Aqui estou na minha cela. Não sinto desconforto. Se sentisse iria queixar-me. Mas não sinto e posso ser franca. O rádio toca Tchaikovsky. Larguei a edição, em português da Ilíada, que estou lendo com o auxílio de um dicionário e tento lembrar o que aconteceu, o que está acontecendo: e tento não pensar no que acontecerá.

A meu lado está Julliet, abrasada de amor. Ela acaba de ver, de relance, o seu amado, que mora na cela do outro lado do corredor, ele partilhava a cela com Julian, mas Julian foi transferido para a Cela I, que, segundo dizem é mais confortável. Como na “Ilíada”, o assunto é amor. Como na “Ilíada”.

Era o dia 10 de julho. Tínhamos sido avisados de que esse era o dia de abertura do Festival de Inverno de Ouro Preto e que haveria vigilância especial, mas sentíamos que nada tínhamos a temer.

Estávamos ocupados com nossos livros, como sempre estivemos por várias semanas e desejando ficar livres de trabalhos literários, livres para nos dedicarmos inteiramente a nova peça; lamentávamos o tempo gasto com os livros quando o que queríamos era consagrar cada momento à “Herança de Caim”.
Chegou alguém e disse: “O DOPS está em sua casa”.

“Por que?”

“Está procurando maconha”.

“Maconha? Pensei que o DOPS era polícia política. Por que está em nossa casa?”

Ninguém sabia. Fomos para a rua. Todo mundo olhava para nós de modo estranho. Tinha-se a impressão de que as pessoas nos evitavam. Caminhávamos na rua como leprosos. Eu disse a Julian: “Talvez seja sério”.

Tínhamos imaginado que a polícia, de passagem, tivesse parado, talvez a fim de fazer algumas perguntas. Somente mais tarde viríamos a saber da cena que tinha ocorrido.

Íamos andando pelas ruas aladeiradas e empedradas. Um carro da polícia deteve-se ao pé de uma das ladeiras e três policiais se aproximaram. Pelo que vi nos seus rostos eu disse a Julian: “Isto é uma prisão”.

Um dos policiais agarrou-me pelo braço, um outro agarrou o braço de Julian: “Está preso”.

Descemos a ladeira rumo ao carro. Eu estava com medo, mas calma. Não tínhamos idéia do que havia acontecido. Não fazíamos a menor idéia sobre o motivo por que nos detinham. Olhavam-nos, um para o outro, com amor. Os policiais estavam sérios, tinham até mesmo uma expressão severa, quando abriram a traseira do carro. Havia dois compartimentos, que se assemelhavam com uma caixa, achava-se um pneu. Assentei-me nele. Depois de fechada a porta o compartimento ficou escuro como breu e abafado. Tive forças para falar a Julian: “Estou com medo”.
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Nas pesquisas que fiz para o doutoramento com o projeto Transas na Cena em Transe: teatro e contracultura na Bahia, em fase de finalização no Programa de Pós-Garduação em Artes Cênicas da UFBA, tomei contato com o longo diário de Judith Malina, objeto sobre o qual me detive com interesse, visto que seu escrito é um documento revelador da personalidade da autora, da vida carcerária sob a ditadura, do tratamento dado aos estrangeiros e aos brasileiros presos e também sobre o Living Thetre.
Como todos sabem, o Living esteve na Brasil no auge do governo civil-militar para desenvolver um trabalho junto com o Grupo Oficina e Grupo Lobo, da Argentina. A proposta não se realiza, mas o Living Thetre permance no país.

sábado, 14 de abril de 2007

Registro 40: Fragmento roseano

Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água. E de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, avia saído dali, pela primeira vez: o Tio Têrez levou-o a cavalo, à frente da sela, para ser crismado no Sucuriju, por onde o bispo passava. Da viagem, que durou dias, ele guardara aturdidas lembranças, embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutum, tinha dito: – ‘É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre...”

Mas sua mãe, que era linda e com os cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quando carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era mais escuro; ou mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar. – Oê, ah, o triste recanto...” – ela reclamava.



ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 13.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Registro 39 A: Hansen Bahia


Fundação Hansen Bahia

Cachoeira

Exposição permanente em homenagem ao xilógrafo, pintor e escultor alemão radicado na bahia, com destaque para as obras Noé e Seus Filhos (coleção) e Via Sacra do Pelourinho, formada por 14 xilogravuras que remetem ao calvário bíblico e que estão, pela primeira vez, expostas no município.

Fundação Hansen Bahia, Rua Treza de maio, 13. Cachoeira. Terça a sexta das 9h às 17h; sábado, domingos e feriados, das 9h às 14h.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Registro 39: A Rocha



Querida Edith Stein

Foste proclamada santa. Feminista, és uma ponte entre judeus e cristãos, místicos e filósofos, perseguidos e mártires.

FREI BETTO

Há anos medito sobre as surpreendentes veredas de tua vida. Sou apaixonado por ti. Na tua infância em Breslau, na Alemanha, teus pais, judeus devotos, te levavam aos sábados à sinagoga. Teu pai, comerciante de madeira, infundiu-te a inquietação diante do mistério da fé e te ensinou que as obras de Javé não cabem na razão humana.Porém, se já é difícil para um adulto apreender os desígnios de Deus quando passam pela dor, o que não dizer de uma criança que, como tu, viu o pai dar o último suspiro? Essa morte ressoou em teu espírito como silêncio de Javé. A fé apagou-se em teu horizonte. A ira divina, por uma razão que ultrapassava teus conhecimentos, fulminara como um raio tua família. Tua mãe assumiu, qual a "mulher perfeita" de que fala o epílogo do livro dos Provérbios, a educação dos sete filhos. Tua atenção centrou-se nos estudos. Em Göttingen, querias entender a razão das coisas. Malgrado os preconceitos machistas, alcançaste o doutorado em filosofia com uma brilhante tese sobre a empatia. De tal modo resplandecia teu talento que, aos 26 anos, mereceste o convite para, em Freiburg, te tornares assistente de Edmund Husserl, criador do método fenomenológico e inspirador de Jaspers, Scheler, Heidegger, Sartre e Levinas.

Aos 31 anos, o anjo de Deus cortejou-te e quebrou a película que impedia tua inteligência de transcender da razão à fé. Para escândalo de teus familiares, recebeste o batismo e, no mês seguinte, a crisma na Igreja Católica. Teu coração oscilava entre tantos pretendentes e a radicalidade da entrega ao Amado. Como professora no colégio das irmãs dominicanas, releste com outros olhos Tomás de Aquino.Em 1933, os alemães foram às urnas e alçaram Hitler ao poder. Logo, o nazismo iniciou a caça aos judeus. Foste destituída do Instituto Pedagógico de Münster. Prosseguiste, todavia, tuas pesquisas filosóficas. Não te conformavas ao ver a filosofia tomista, que renascia nos ambientes cristãos, tão apartada de outras correntes filosóficas modernas. Sabias que todo o pensamento filosófico aspirava à mesma fidelidade à experiência e ao ser. Assim, tu te esforçavas por estabelecer conexões entre razão analítica e intuição contemplativa, especulação e experiência, imanente e transcendente. Deixaste oito preciosas obras que aproximam o pensamento tomista e a fenomenologia, a antropologia e a teologia.

Outra mulher, também religiosa, cativou-te para a noite que une "amado com amada, amada já no amado transformada": Teresa de Ávila. Essa espanhola de coração fogoso, que viveu cerca de 350 anos antes, tomou-te pela mão, como uma menina a outra, e te conduziu ao que todo ser humano aspira: viver na fruição do amor.Sob a perplexidade de teus colegas de academia, aos 41 anos ingressaste no carmelo de Colônia. O único bem que levaste para o claustro foram seis grandes baús de livros. Em homenagem à tua inspiradora, tomaste o nome de irmã Teresa, Teresa Benedita da Cruz nome aliás bem brasileiro, de uma dessas mulheres que participam de nossas comunidades eclesiais de base.

No mesmo ano em que te consagraste ao Absoluto, os nazistas avançaram na campanha pela "purificação da raça". Eras judia de nascimento, semita de espírito e seguidora de um judeu, Jesus. Tua prioresa considerou prudente afastar-te da Alemanha. Em 1938, foste para o carmelo de Echt, na Holanda. Porque tinhas muita fé, não conhecias o medo. Mas evitavas a temeridade. Por isso, teu coração apertou-se quando Hitler ocupou a Holanda, em 1941. Oravas pelo fim da guerra e pelas vítimas que, como Anne Frank e sua família, experimentavam, a pouca distância de ti, os mesmos temores.

Em 1942, a Gestapo invadiu teu carmelo, arrebentou as portas, profanou o claustro e te arrancou da tua cela. O terror esquadrinhava cada recanto do mundo para aplacar essa sede de sangue, que faz da onipotência monstro insaciável. Num vagão de gado, foste levada, primeiro, ao campo de concentração de Westerbork, na Holanda; depois, para Auschwitz, na Polônia.

Certa manhã, despiram-te e, em companhia de muitas mulheres, ordenaram-te entrar no salão de banhos encimado por pequenos tubos que desciam do teto. Abertas as torneiras, não era água o que saía, era fumaça. Tuas orações acalmavam-te, enquanto tuas narinas ardiam entupidas pelo gás. Teus pulmões pareciam murchar dentro do peito, inusitada contração de um parto que te fazia nascer para o mais profundo de ti mesma. No mais íntimo de ti, quando todo o oxigênio se esvaíra, encontraste Aquele que inundara a tua vida de amor. O que era terno arrebatou-te, enfim, para o eterno.

João Paulo 2º beatificou-te em maio de 1987. No domingo, foste proclamada santa Edith Stein. Não eras perfeita nem deixaste de ser pecadora. Eras, sim, uma "rocha" ("stein", em alemão). Lembras-te daquele mestre que te deixava ruborizada ao dizer, em classe, "batam nesta 'pedra' e dela irradiarão faíscas de sabedoria"?

Feminista, és agora uma ponte entre judeus e cristãos, místicos e filósofos, perseguidos e mártires. Lamenta-se apenas que sejas reconhecida pela hierarquia eclesiástica por ter abraçado a fé católica. Haverá o dia em que a igreja reconhecerá também o valor das mulheres judias que foram profundamente fiéis à tradição da Torá.

A comunidade dos fiéis proclama-te modelo para todos nós, especialmente para as vítimas da intolerância política ou racial. Soubeste adorar o Pai "em espírito e verdade", como recomenda Jesus; viraste um paradigma para tantas jovens que buscam, pelos labirintos de um mundo marcado pelo consumismo e pela falta de sentido, uma razão para viver e morrer de amor.

Carlos Alberto Libânio Christo (frei Betto), 53, frade dominicano e escritor. O texto foi bublicado em 15 de novembro de 1998, na Folha de S. Paulo.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Registro 38: O Ponto de Fuga de Jorge Coli


O crime de todos nós

JORGE COLI

A força das crenças confere realidade ao que não existe. Houve um tempo em que se acreditava no "brasileiro cordial". Fazia parte da ficção que se denomina "identidade nacional".Maria Sylvia Carvalho Franco desmontou esse mito em sua tese "Homens Livres na Ordem Escravocrata", de 1969 [ed. Unesp]. Desmontagem no campo reflexivo e teórico: foi preciso que a violência cotidiana ameaçasse a segurança de cada um para que a tal cordialidade "inata" dos brasileiros ruísse plenamente no âmbito dos sentimentos coletivos. O livro "Cangaceiros", de Élise Jasmin (ed. Terceiro Nome, 2006), demonstra até que ponto, no Brasil, a violência se transformou, de maneira oficial, em crueldade. Ele reúne quase 90 fotos retratando Lampião e seu bando. Algumas, que formam o epílogo, são terríveis.Duas exibem cadáveres amarrados a uma prancha, em poses arranjadas, cercados por civis e militares, como se fossem troféus de caça.Outra mostra soldados diante de um corpo acéfalo, sobre o qual, por piada, colocaram uma garrafa de cachaça. As imagens se sucedem. Um grupo militar, com seu oficial, se organiza à volta de três cabeças decepadas. Um cangaceiro se perfila ao lado de uma outra cabeça que, atada pelos cabelos longos, pende com a boca aberta. Nesse caso, o vivo e o morto eram amigos, explica a legenda.Há naturezas-mortas macabras, em que composição se ordena com um senso artístico da simetria. Às cabeças cortadas se acrescentam coisas que pertenceram aos defuntos: chapéus, embornais, cartucheiras. Com Zepelim, cangaceiro mulato, num requinte de "mise-en-scène", alguém teve a idéia de manter sua pálpebra esquerda aberta graças ao auxílio de um palitinho.
Psicose. Essas fotos, dos anos de 1930, foram publicadas na imprensa. Décadas antes, Euclides da Cunha descrevia, no final de "Os Sertões", as frias atrocidades cometidas sobre os resistentes de Canudos. O autor conta: quando descobrem a cova de Antônio Conselheiro, morto antes do término dos combates, desenterram o corpo que já apodrecia. Fotografam-no, lavram uma ata e o devolvem à cova. Antes de cobri-lo novamente com terra, alguém, usando "uma faca jeitosamente brandida", decepa o cadáver. Euclides da Cunha prossegue: "Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio".
Cutelo.Pedro Americo pintou, em 1893, seu quadro "Tiradentes Esquartejado", que se tornaria célebre.Nunca outro herói nacional, em nenhum lugar do mundo, foi representado assim, retalhado como num açougue. Pedro Americo expõe, com clareza, a crueldade oficial. Seu Tiradentes é irmão dos jagunços de Canudos e dos cangaceiros de Lampião.
Pesadelo. Os três casos, de Tiradentes, dos jagunços e dos cangaceiros, pressupõem uma ação justiceira. Justiça que contém um álibi de vingança saboreada. Sabor de sangue. A crueldade investiu contra cadáveres; ela não nos fala dos punidos: revela a alma dos punidores. Hoje, não se cortam mais cabeças, pelo menos não de modo oficial e público. Porém entulham-se presos nas cadeias, em condições abomináveis. A justiça continua a ser sentida como punição e vingança. Diante de um crime, é fácil reagir instintivamente, desumanamente. No impulso, "pagar a pena", punir, vingar brotam primeiro. Só lá para trás, bem depois, é que se arrasta, quase irrisória, a idéia de compreender, de sanar, de educar, de recuperar.
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O texto foi publicado originalmente em Mais, Folha de S. Paulo, 8 de abril de 2007.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Registro 37: Ações afirmativas???

Em Boca de Matilde

Gilson Jorge

A declaração feita pela ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção Social da Igualdade Racial (Seppir) à BBC, de que considera natural que um negro não queira conviver com brancos quase “passou em branco” nos jornais diários e na TV, mas mereceu uma análise mais profunda em publicações semanais. Houve quem defendesse a idéia de que o assunto já foi suficientemente explorado e que não valeria a pena se estender em um debate sobre o que pode ter sido apenas a má interpretação por parte da jornalista. Mas as palavras estavam ali.

Entretanto, mas preocupante do que a frase da ministra, que pode até ser vista como um mero tropeço verbal, é a constatação de que há um discurso e algumas ações dentro e fora do movimento negro que se encaixam perfeitamente em uma tendência de acirramento das tensões “raciais”. Ou, como declarou ao caderno Mais da Folha de S. Paulo a antropóloga Yvonne Maggie, a incitação ao ódio “racial”. O racial vai entre aspas porque cientistas sociais abandonaram a noção de que existem raças branca, negra e indígena. Ninguém é obrigado a concordar com a igualdade, mas quem agir de forma racista deve encarar a lei.

Em fevereiro passado, durante um encontro com jornalista em Salvador, um artista branco (para os padrões locais) narrou um episódio em que foi cercado por homens negros que o espancaram sem que ele tivesse feito nada para provocar a violência. Isso foi mais de duas décadas, mas o artista continua acreditando, ou dizendo que acredita, que o ato foi justificável pelo fato de ele ser branco e de os brancos terem subjugados historicamente os negros.

(...)

A noção de que quem foi açoitado pode também açoitar resvala para um perigoso campo em que cada um pode decidir, com base na sua experiência pessoal, a quem pode atacar física ou psicologicamente. Mulheres que apanharam dos maridos podem reivindicar o direito a odiar todos os homens. Pessoas que sofreram abusos sexuais de padres na infância podem clamar que toda batina esconde um pedófilo.

Qualquer pessoa, independentemente da cor que carregue na pele, tem o direito de levar uma vida digna e respeitável. A ela não devem ser imputados os crimes e pecados cometidos por outras pessoas, apenas os que ela mesma eventualmente realize. Como ministra de Estado, Matilde Ribeiro deveria refletir sobre o impacto que a sua fala pode ter em jovens ávidos por achar em quem atirar a primeira pedra.

Gilson Jorge, jornalista, é repórter de Brasil. O texto foi publicado em Opinião, A Tarde, 5 de abril de 2007.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Registro 36: Roda de Ibejis


Enviaram-me a foto por e-mail e sem referência. Espero que o autor
se manifeste para que eu possa fazer o registro.
A imagem é deslumbrante na sua simplicidade e diz tantas
coisas para os nosso olhos por vezes nublados.
Apesar das cisrcuntâncias, amargas, as crianças brincam e
em suas brincadeiras revelam tantas coisas miúdas,
mas que fazem a diferença.
Roda-mundo

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Registro 34: Olhai...Dizei...Heverá dor igual a minha dor?





















Lá Pietà
Michelangelo

Para as mães que perderam seus filhos
e filhas
na violência do tráfico e das drogas
ou então, vitimados nas malhas do preconceito e da
discriminação.
Para todas elas que viram seus filhos estuprados,
violados,
emasculados,
subjugados
ou arrastados pelas ruas como um Judas em Sábado de Aleluia.
Para as mães que tiveram seus filhos seqüestrados e
torturados
moral e fisicamente
Para aquelas que choraram e gemeram
nas delegacias, necrotérios, cemitérios, ruas.
Para as que viram seus rebentos
podados
nos hospitais
nos campos e estradas
nas fábricas
nas repartições.
Para as mães que viram seus filhos e filhas mendigos.
Humilhados e ofendidos.
Para as mães que perderam suas crias...
iludidas,
expostas,
ridicularizadas,
fantasmáticas criaturas do mesmo sempre-igual.
Para as mães que guardaram a sua dolorosa dor
diante da arrogância,
cinismo
descaso
autoritarismo.
Para as mães...

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Registro 34:


Meditação é principalmente um meio para se atingir a liberação espiritual. Seus vários métodos são designados para afrouxar os laços físicos, permitindo que o individual ascenda ao transcendental, ao reino espiritual. Diz-se que quem realiza isto com sucesso atinge o Rúach Hacodesh, a “Inspiração Divina”, que é o termo hebraico genérico para “Iluminação”.

O mais conhecido método contemporâneo de meditação é o que envolve um mantra, uma palavra ou frase que é repetida continuamente durante um certo período de tempo A pessoa concentra-se no mantra à exclusão de tudo mais, limpando a mente de todos os pensamentos estranhos e separando-o do fluxo normal da consciência. Neste método, o mantra pode ser repetido verbalmente ou a repetição pode ser completamente mental. Este tipo de meditação é encontrado na Cabalá, especialmente entre as escolas mais antigas. Nos Hechalot, por exemplo, a pessoa começa sua ascensão espiritual repetindo 112 vezes vários Nomes Divinos.

Meditação com mantra é um exemplo de meditação estruturada dirigida externamente, na medida em que a pessoa se concentra em uma palavra ou frase definida, no lugar dos pensamentos espontâneos da mente (vagar mental). Como envolve uma prática específica, repetida por um período fixo de tempo, ela é considerada uma meditação estruturada.

Outro exemplo de meditação estruturada dirigida externamente é a contemplação, onde a pessoa olha fixamente para um objeto, colocando toda sua concentração nele. Em práticas ocultas, o tipo mais conhecido de contemplação envolve a concentração visual em uma bola de cristal. Outros tipos de contemplação envolvem mandalas, quadros ou letras, onde a pessoa se fixa nelas, enquanto esvazia a mente de todos os outros pensamentos. Na meditação cabalística, o mais simples instrumento contemplativo é o Tetragramaton (ou Tetagrama, o Nome Inefável de Deus), e isto é discutido até mesmo em trabalhos não cabalísticos. Formas mais complexas também são usadas, e este método parece haver alcançado seu ponto mais alto sob a influência do rabino Shalom Sharabi (1702-1777).

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KAPLAN,Aryeh. Meditação e Cabalá: teoria e prática. São Paulo: Editora Sêfer, 2005, p. 23

Registro 33: Sobreviventes


Registro 32: Estudos, década de 90

Peixe

Cuia Grão

Lua

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Registro 31: Na matinê do Cine Teatro Cliper

Teorema
Filme da redenção

O Sol por Testemunha
Filme perturbador

Rocco e Seus Irmãos
Tragédia grega moderna


Um Bonde Chamado Desejo
Filme tenso em sua carnalidade



O Segredo de Brokbeack Mountain
Filme tristíssimo


Em meados dos anos 50, meu pai construiu o Cine Teatro Cliper em Ipirá- Bahia. Meus olhos de menino acompanharam cada etapa desse projeto. Eu passei a ser o filho do dono do cinema, mas isso não representava muito. O que eu gostava mesmo era de mergulhar no escurinho da sala com seus cheiros característicos. Gostava de ver o baleiroTiago, arrumar o cesto com as balas, drops, chicletes, confeitos, caramelos e bombons, ajudado por minha mãe. Gostava de receber de Pedro, o projecionista, os fotogramas que sobravam. Durante o dia, quando Margarida fazia a limpeza, era uma prazer subir ao palco com sua ribalta de luzes coloridas que se acendiam anunciando o início da sessão, quando a cortina de tecido transparente abria-se para revelar imagens, imagens, imagens. Torcia para meu pai abrir as latas com filmes e ver as fotografias dos próximos cartazes. As latas em caixas de couro eram entregues em minha casa. O cheiro de acetato penetrava no meu nariz e eu, viciado, perdia-me nos enredos aventurosos, dramáticos, cômicos.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Registro 30: Um pensamento sempre moderno


Colóquio Walter Benjamin


Formas de Percepção Estética na Modernidade


PROMOÇÃO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA DA UFBA
em parceria com o Goethe-Institut Salvador-Bahia




O Colóquio reúne professores-pesquisadores de várias universidades brasileiras que se dedicam ao estudo da filosofia de Walter Benjamin. O principal objetivo é ampliar debates e estudos no Brasil, especialmente na Bahia, sobre a obra do filósofo, principalmente relacionados as formas de percepção estética da modernidade, com ênfase em questões como arte, cidade, mídia e memória. O Colóquio conta com a presença do professor Bernd Witte (Universidade Heinrich-Heine, Düsseldorf), presidente da IWBG – Internationale Walter Benjamin Gesellschaft e biógrafo de Walter Benjamin.
Local: Goethe-Institut Salvador-Bahia Data: 09 a 11 de abril de 2007Inscrições e informações: De 23 de março a 04 de abril, de 8:00 às 11:30 e de 13:30 às 16:30 horas, na FAPEX, à Rua Caetano Moura, 140, Federação, Salvador, Bahia. Tels. (71) 3183.8460 ou 3183.8459.
Programação:

Dia 09 de abril – Segunda-Feira

08:30 – Abertura
09:00 – Bernd Witte – A crise da tradição: cidade, escrita, memória
10:20 – Bernd Witte: Sobre a Sociedade Internacional Walter Benjamin
14:30 – Willi Bolle (USP) - “Um painel com milhares de lâmpadas” - As “Passagens” de Walter Benjamin como dispositivo de pesquisa
15:10– Márcio Selligmann-Silva (UNICAMP) – Mídia, tradução e judaísmo em Walter Benjamin e Vilém Flusser

Dia 10 de abril – Terça-Feira

08:30 – Jeanne Marie Gagnebin (UNICAMP/PUC-SP) – De uma estética da visibilidade a uma estética da tatibilidade em Walter Benjamin
09:10 – Carla Milani Damião (UESC) – Distração, tatibilidade e hábito: percepção e recepção no cinema segundo Walter Benjamin
10:20 – Ernani Chaves (UFPA) – Inconsciente ótico e função terapêutica do cinema: deslocamento do olhar em Walter Benjamin
14:30 – Olgária Mattos (USP) : A Aufklärung urbana: a via-láctea secularizada
15:10 – Suzana Kampff-Lages (UFF) – Tradução como rememoração: Benjamin e Baudelaire

Dia 11 de abril – Quarta-feira

08:30 – Taísa Palhares (USP)– Aura e a crise da arte em Walter Benjamin?
09:10 – Edvaldo Souza Couto (UFBA) – Walter Benjamin: ruas, objetos e passantes
10:10 _ Gunter Pressler (UFPA) – Walter Benjamin e a poesia concreta brasileira
14:30 – Emiliano Aquino (UECE) – Walter Benjamin e o problema da aparência social do capitalismo
15:10 – Romero Freitas (UFOP) – Da ironia romântica ao estranhamento brechtiano
20:00 – Mesa “Botando Banco” - Walter Benjamin: Mídia e Cultura. Moderador: João Carlos Salles(UFBA)
20:05 _ Antonia Torreão Herrera (UFBA) – Questões contemporâneas sobre o narrador: conversando com Walter Benjamin
20: 35_ André Lemos (UFBA) – Benjamin e o ciber-flâneur
21:05 – Bernd Witte - Titulo a confirmar

Apoio: Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA, Capes, Goethe-Institut Salvador-Bahia.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Registro 29: Diga daí, amizade...

Eu tenho um amigo que, entre as atividades que faz, escreve poesia. Conheci-o no palco dando cambalhotas - vestido numa sunga ridícula - em A Morta, de Oswald de Andrade, espetáculo dirigido pelo amigo comum, Emílio di Biasi. Trinta anos já se vão desde que dividimos o palco da Sala Gil Vicente – Teatro Ruth Escobar. Hoje, meu amigo dá cambalhotas mentais e eu desisti do palco. Ele é muito inteligente, cheio de normas, mas vive fora delas. É delicado, mas quando tromba com alguém, saia da frente: ele pode lhe chamar de “fubá da Vila Nhocunhé”. Mas não dê tanta importância, já que o coração é grande e a alma não é pequena.

Solicitei o envio de alguns dos seus escritos para registrar na Cenadiária. Como ele não mandou, capturei um deles em Umazona, seu blog cheio de novidades, textos incríveis, coisa de gente que pesquisa, que tem alfarrábios, que guarda segredos e partilha com o mundo. Ele é exagerado, generoso, gosta dos prazeres do mundo, mas não descuida das coisas do espírito, embora militante das fileiras marxistas.
Guardo esse amigo, e outros, em um “cofre que não se pode fechar de cheio”. A nossa convivência foi sempre respeitosa, mas nem sempre tranqüila. Mas é viva, surpreendente, cativante e cheia de humor, mesmo quando nossos achaques interferem pondo em risco o equilíbrio delicado, sensível e cuidadoso da amizade.

Quando cantava uma partida próxima
Ou em aflito esperar pelo dia, ou
Como fazem ifigênias iguais em todo porto
Repetindo o balé já sabido por ambos,
Assim ou assado, tanto se lhe dá (ou come),
Principalmente agora, outros rituais, talvez.
Cem por cento, ou cem por uma?
Na seleção dos gestos, roupas e atavios,
Lã do encostar doce-molente em cada corpo,
Corpos lavados, lisos, penteados,
Um pouco de dinheiro novo é bom.
Talvez o grito, o gozo, seja falso hoje,
Talvez não hoje, mas amanhã, quem sabe?
Existe mesmo o toque do sagrado, é certo.
Existe mesmo o toque do sagrado.
Não fora assim, porém, fácil seria o erro,
O mesmo antigo, eterno e sempre branco alvo
Vestido lógico, comum de dois somente:
A Noiva,
O Marinheiro.
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PIMENTEL, Cid. Os originais, São Paulo: Hucitec, 1986.

domingo, 1 de abril de 2007

Registro 28: Deslumbramento


Ascension
Anish Kapoor

Registro 27: Para não esquecer



(...)

quem me pariu foi o ventre de uma navio
quem me ouviu foi o vento no vazio
do ventre de um porão

vou baixar no seu terreiro
epa raio machado trovão
epa justiça de guerreiro

ê samba ê ê samba á
o batuque das ondas na noites mais longas
me ensinou a cantar
Ê samba ê ê samba á
dor é o lugar mais fundo
é o umbigo do mundo
é o fundo do mar

(...)

ê samba ê ê samba á
eu faço a lua brilhar
o esplendor e clarão
luar de luanda em meu coração

Vou aprender a ler
pra ensinar meu camarada

Capinam
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CAPINAM, José Carlos. Yáyá Massemba. Intérprete: Maria Bethânia. In: Maria Bethânia, Brasileirinho. Biscoito Fino, 2003. 1 CD. Faixa 2.
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Foto 1, Lindemann, ed. Creoula, c. 1900.
Foto 2, José Christiano de Freitas Henriques Jr. Retrado de escravo (?) não identificado, c. 1865.
Foto 3, João Ferreira Villela. Ama escrava e menino Augusto Gomes Leal (segundo identificação da Fundaj), c. 1860.
KOSSOY, Boris e CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O olhar europeu: O negro na iconografia brasileira do século XIX. São Paulo: Edusp, 1994

sábado, 31 de março de 2007

Registro 26: Êxtase

Êxtase de Santa Tereza
Bernini

Oh, meu Bem Amado, por teu amor aceito não ver nesta terra a doçura do teu olhar, não sentir o inexprimível beijo de tua boca, mas suplico-te que me abraces com teu amor. Um dia, tenho a esperança, cairás impetuosamente sobre mim, transportando-me para o lume do amor; tu me mergulharás nesse ardente abismo a fim de fazer de mim – e para sempre – a feliz vítima dele.
Tereza D´Ávila

Êxtase: estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Registro 25: Sassaricando!!!!

Vírginia Lane
Vedetes em Revista
Exposição em homenagem
à atriz Virgínia Lane.
Aconteceu em São Paulo na
Caixa Cultural
09.02.2007

quinta-feira, 29 de março de 2007

Registro 24: Mito-poema

Narciso, Caravaggio
NARCISO

Raimundo Matos de Leão

Narciso,
de tanto olhar
espelho se tornou.
Congelado em si,
a ninguém mais olhou.

Narciso,
de tanto namorar
namorado se tornou
do espelho.

Narciso, cego,
ensurdecido e mudo
para o mundo
ficou.

Narciso ensimesmado
tornou-se um chato.
Trancou-se em casa,
murchado

São Paulo/1988

Eco e Narciso, John William

quarta-feira, 28 de março de 2007

Registro 23: Henri Matisse escreve

É PRECISO OLHAR A VIDA INTEIRA COM OLHOS DE CRIANÇA

Henri Matisse

Criar é próprio do artista; onde não há criação, não existe arte. Enganar-se-ia quem atribuísse este poder criador a um dom inato. Em matéria de arte, o criador autêntico não é somente um ser dotado, é um homem que soube ordenar, visando um determinado fim, todo um conjunto de atividades do qual resulta a obra de arte. Assim, para o artista, a criação começa com a visão. Ver, já é um ato criador e que exige certo esforço. Tudo o que vemos na vida cotidiana, sofre, mais ou menos, a deformação engendrada pelos hábitos adquiridos, e o fato é talvez mais sensível numa época como a nossa, onde cinema, publicidade, periódicos, impõem diariamente um fluxo de imagens preconcebidas, que são um pouco na ordem da visão, o que é preconceito na ordem da inteligência.

O esforço necessário para libertar-nos exige uma espécie de coragem; e essa coragem é indispensável ao artista que deve ver todas as coisas como se as visse pela primeira vez; é preciso ver a vida inteira como no tempo em que se era criança, pois a perda desta condição nos priva da possibilidade de uma maneira de expressão original, isto é, pessoal.

Tomando um exemplo, creio que nada é mais difícil para um verdadeiro pintor do que pintar uma rosa, porque para o fazer é preciso antes de mais nada esquecer todas as rosas que já foram pintadas. Aos que vinham me ver, em Vence, eu costumava fazer esta pergunta: “Vocês viram os acantos sobre a orla que margeia a estrada?“. Ninguém os havia visto; todos teriam reconhecido a folha de acanto sobre um capitel coríntio, porém a lembrança do capitel não permitia que se visse o acanto no estado natural.

É um primeiro passo para a criação ver-se cada coisa em sua verdade e isto pressupõe um esforço contínuo.

Criar é expressar o que se tem dentro de si. Todo esforço autêntico de criação é interior. Ainda assim é preciso cultivar essa sensação, com o auxílio dos elementos extraídos do mundo exterior. Aqui intervém o trabalho pelo qual o artista incorpora e assimila gradativamente o mundo exterior, até que e objeto desejado se torne parte dele mesmo, até que o tenha dentro de si e possa projetá-lo na tela como sua própria criação.

Quando pinto um retrato, tomo e retomo o meu assunto a cada vez é novo o retrato que faço; não o mesmo corrigido, mas outro retrato que recomeço; e cada vez é um ser diferente que eu extraio da mesma personalidade. Aconteceu-me muitas vezes, afim de esgotar de maneira mais completa meu estudo, inspirar-me em fotografias da mesma pessoa em idades diferentes; o retrato definitivo poderá representá-lo mais jovem, ou com aspecto diferente do que tinha quando pousava, porque este assunto me pareceu mais verdadeiro, mais revelador da sua personalidade real. A obra de arte é assim o coroamento de um longo trabalho de elaboração. O artista absorve tudo o que à sua volta for capaz de alimentar-lhe a visão interior, diretamente, quando o objeto que desenha deve figurar na sua composição, ou então, por analogia. Coloca-se assim em estado de criar. Enriquece-se interiormente de todas as formas de que possa tornar-se senhor e que ordenará algum dia conforme um ritmo novo. No expressar esse ritmo, a atividade do artista será realmente criadora. Para conseguí-lo, preferirá a seleção ao acúmulo de detalhes. Deverá escolher, por exemplo, no desenho, dentre todas as combinações possíveis, o traço que se revelar plenamente expressivo, como que portador de vida, procurar as equivalências pelas quais a natureza se transpõe para o âmbito próprio da arte. Na “Nature morte au magnólia”, representei em vermelho uma mesa de mármore verde; em outra ocasião precisei de uma mancha escura para evocar a cintilação do sol sobre o mar; essas transposições não foram absolutamente o efeito do acaso ou da fantasia, mas sim o coroamento de uma série de pesquisas, em conseqüência das quais esses matizes me pareceram necessários, tendo em vista suas relações com o resto da composição, a fim de comunicar a impressão desejada.

As cores, os traços, são forças, e no jogo destas forças, no seu equilíbrio, reside o segredo da criação. Na capela de Vence , que é o coroamento das minhas pesquisas anteriores, tentei realizar esse equilíbrio de forças; o azul, o verde, o amarelo dos vitrais, compõem no interior uma luz que não é propriamente nenhuma das cores empregadas, mas sim o produto vivo de sua harmonia, de suas relações recíprocas; essa cor-luminosidade deveria projetar-se sobre o campo branco, cercado de preto, do muro que fica fronteiro aos vitrais e no qual há linhas propositadamente muito espaçadas. O contraste permite-me dar à luminosidade todo o seu valor vitral, fazendo dela o elemento essencial, aquele que dê o colorido, aqueça, anime, no sentido próprio, este conjunto qual importa conferir uma impressão de espaço ilimitado a despeito de suas dimensões reduzidas.

Em toda a capela não há uma só linha, um pormenor, que não concorra para essa impressão. Parece-me que, nesse sentido é que se pode dizer que a arte imita a natureza: pelo caráter de vida que um trabalho criador confere à obra de arte. Então, a obra aparecerá igualmente fecunda e dotada desse mesmo frêmito interior, dessa mesma beleza resplandecente que as obras da natureza possuem. É preciso um amor muito grande, capaz de inspirar e de sustentar esse esforço contínuo em direção à verdade, essa generosidade conjunta e esse despojamento profundo que envolve a gênese de toda obra de arte.

Mas o amor não está na origem de toda criação?
___________________________________________________
Texto coligido por Régine Pernoud. Art et Education. Unesco,1954.
Tradução de Regina Helena Tavares. Escolinha de Arte do Brasil,setembro, 1973.

terça-feira, 27 de março de 2007

Registro 22: Projeto Quartas Cênicas


Registro 21: Hoje é o Dia do Teatro e do Circo.

Teatro grego


Dionísio

MAGRA: (...). Enquanto se está vivo não se consegue escapar ao teatro. Teatro é a engrenagem viva que interliga as pessoas. Não é mentira, não é fingimento, é vida!!! Por fatalidade dependemos todos, uns dos outros. Mesmo errando e mesmo sem saber direito como fazer. Ele ensina a paciência necessária pra que o milagre se processe. Se você se cala, você recusa e interrompe o milagre. Por precipitação, por avidez.. Por querer chegar depressa demais, porque o milagre só pode ser coletivo, ele é por direito de todos e quem tenta chegar sozinho, fracassa. Eu não estou falando mais por você, Pedro. Eu estou falando por mim mesma. (Magra começa a se afastar lentamente de Pedro) A porta é estreita, Pedro, é isso. Mas eu quero acertar com ela. Eu não quero permanecer no mesmo erro por mais tempo. Existe alguma coisa que nos inclui a todos... Eu não sei que nome dar a ela, mas nós estamos irremediavelmente comprometidos, todos, uns com os outros, e é impossível escapar sozinho. A porta é muito estreita, mas só passamos carregando os outros conosco. (Pausa) Eu quero que você me perdoe, mesmo se não entender. Se eu não disser não agora, Pedro, eu não sei onde iremos parar. (Pedro se levanta) Até... até... um dia. (Fim. Some o pano ou sobe, ou baixa ou não existe.)
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ARAP, Fauzi. Pano de Boca: um conserto de theatro. Reprografado, s.d.

segunda-feira, 26 de março de 2007

Registro 20: Ele foi,é, um grande artista: Flávio Império

Ponta de Bananeira
Flávio Império

Depoimento

O Oficina tinha que pegar fogo. É necessário, acho, que todos os teatros se incendeiem de tempos em tempos. Um espaço arquitetônico que se anima em espaço teatral com a violência que o Oficina se animou, só queimando para apagar todas as impressões dramáticas e trágicas que se acumulam, reverberam e se registram em seu corpo magnético. Aí, destruído, se reconstrói outro espaço como um corpo novo e vigoroso para novas transformações. Uma coisa assim: depois de muito tempo de tensão dramática levada à exasperação, ao desespero, um corpo registra tantas impressões e fica tão impregnado de significados que ele, em si, começa a ter vida própria sobre seus usuários e a determinar ou a influir sobre a conduta, seu inconsciente, sua fantasia, sua capacidade de imaginar.
(...)

Considerado muito “psicanalisado” pelas galhofas do Oficina e indisciplinado e contraditório pelos remanescentes do Arena, brinquei com todos os jogos e me encontrei realmente quando fazia, outra vez sozinho, os meus espetáculos: Os Fuzis da Senhora Carrar – que chamamos de Os Fuzis de Dona Tereza – no Teatro dos Universitários de São Paulo (TUSP) e Labirinto: Balanço da Vida, com Walmor Chagas dizendo textos e poemas.
(...)

Tenho consciência de não ter inovado nada no plano internacional. Fui cenógrafo atento ao que ocorria aqui e fora. Nem melhor, nem pior do que muitos. Atualizei vários conceitos aqui na província. Consegui, com produções paupérrimas, um nível de realização extremamente sofisticado.

Não me considero “autor” de nenhum método ou sistema estruturado da linguagem nova. Para falar a verdade, eu servi o meu tempo com o meu mais empenhado entusiasmo. Acho que por isso não me ponho a ditar regras. Fiz tudo o que já tinha e existia com a inocência de quem inventava o novo. Fui um alegre Robinson Crusoé que, em terra fértil e com um canivete reconstruiu um arremedo de civilização. Ando hoje à procura do Sexta-feira, não para ensinar nada a ele, mas para aprender.
(...)

Os Fuzis de Dona Tereza foi também um espetáculo feito em cima de um outro que eu já havia feito. Fiz Os Fuzis ainda no Teatro de Arena, em 1962, sob a direção de José Renato. A coisa de que mais gostava é que a peça tinha poucas páginas. Detesto peça comprida. Peça curta você lê e entende tudo, e é aquilo mesmo que você leu, sem muitas divagações de segundos, terceiros, quartos atos. Ser curtinha permite a você ficar mais entretido com o tema básico. Dava pra fazer como uma composição orquestral curta, concentrada, condensada, principalmente porque essa segunda montagem que eu diria era feita por estudantes que conseguiam, no máximo, uma voraz e rápida passeata.

Não agüentariam nunca o percurso que o Prestes fez com a “coluna” pelo Brasil inteiro e muito menos a longa jornada da China e, no caso da “muralha”, que fosse uma bem pequenininha. O resto já se sabe que é daquele jeito... Qualquer estudante ou pequeno-burguês se cansa logo de qualquer assunto e quer mudar. Então a peça curta é o melhor remédio para males curtos mais curtos. Focalizamos um determinado assunto, tratamos dele o melhor possível, mexendo no tema das mais variadas maneiras, desde o “bater da massa do pão” até a alegoria do grande bispo que traduz o discurso do generalíssimo Franco. As matracas substituíram as falas das mães e das mulheres porque em meio à guerra todo mundo matraqueia e a fala da mãe é sempre um terror, um lamento de mater dolorosa. E foi em cima desse lamento que fiz o material ficar passeando.

O Cristo na cruz estava garantido porque tinha sido escrito assim. E o lamento dela estava já escrito também como um grande oratório intercalado com o discurso de um padre compreensivo, do irmão exasperado, da namorada desesperada. Discurso doloroso de uma mãe que não quer ter nos braços o filho morto e mesmo assim isso vai acontecer. Na verdade, é um tema que mais ou menos trabalha em cima do inexorável do destino humano e onde o social engole a vontade particular. Por melhores que sejam as suas intenções, a vida ou a morte não dependem de você. A discussão do fato é mais além.

KATZ, Renina e HAMBURGUER, Amélia (org.). Flávio Império. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p. 39-140.


domingo, 25 de março de 2007

Registro 19: Sobre crianças


CRIANÇA LAMBISCANDO. Pela fresta do guarda-comida entreaberto sua mão avança como um amante pela noite. Uma vez familiarizada com a escuridão, tateia em busca de açúcar ou amêndoas, uvas passas ou compotas. E assim como o amante abraça a sua amada antes de beijá-la, da mesma forma o tato tem um encontro preliminar com as guloseimas antes que a boca as saboreie. Como o mel, punhados de passas e mesmo o arroz, como todos entregam-se lisonjeiramente à mão! Quão apaixonante esse encontro de dois que finalmente se subtraíram à colher. Agradecida e selvagem, como uma moça que se rouba da casa dos pais, assim a geléia de morangos se oferece aqui à degustação, sem o pãozinho e como que sob o livre céu de Deus, e mesmo a manteiga retribui com ternura a ousadia de um pretendente que tomou de assalto o seu quarto de menina. A mão, o jovem Don Juan, penetrou logo em todas as celas e aposentos, deixando atrás de si camadas que escorrem e quantidades que fluem: virgindade que se renova sem queixas.

BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: extratos. In: Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002, p. 105-106.

sábado, 24 de março de 2007

Registro 18: Sobre a história do teatro na Bahia


Muitas são as razões para a escolha de um tema de pesquisa e estudo. Uma delas é a paixão pelo conhecimento. E essa paixão norteou todo o trabalho desenvolvido em torno do objeto escolhido. Junte-se a ela o querer saber um pouco mais sobre a história do teatro na Bahia, seus caminhos e descaminhos – tema vasto que requer vários estudos e estudiosos que queiram se debruçar sobre o fazer teatral na Cidade do Salvador. Algumas obras foram escritas abordando diversos ângulos dessa história. Outras deverão ser feitas. Espera-se que este trabalho, ao se somar ao existente, contribua para aqueles que venham a se debruçar sobre a temática, observando-a sob novos ângulos e, sobretudo, preenchendo os aspectos lacunares aqui existentes. Esse livro é derivado da dissertação de mestrado apresentada publicamente em 2003, no Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas – UFBA. Por sugestão da banca examinadora, fizemos alterações no texto original.

Uma outra razão norteia a escolha temática e remete-nos ao deslumbrante, incrível e pesado 1968, “ano que não acabou”, no dizer de Zuenir Ventura. Nesse ano ingressamos na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia como aluno do Curso de Formação do Ator, concluído em 1971. Desse processo de aprendizagem muita coisa positiva encontra-se sedimentada na nossa formação e crescimento como ser humano, como profissional. Quanto a esses aspectos, não cabe aqui discorrer sobre eles. Mas, em virtude da escolha do tema aqui desenvolvido, é importante que se registre o fascínio exercido pela Escola de Teatro do tempo em que Martim Gonçalves era seu diretor.

Na época em que ingressamos na Escola, havia um sentimento de nostalgia, uma saudade pelo tempo vivido. Cultuava-se aquele tempo como sendo um momento ímpar e grandioso do teatro na Bahia, algo que se perdera, não havendo possibilidade de ser retomado. A nostalgia parecia-nos um sentimento paralisante, que não acrescentava muito às demandas da própria Escola e principalmente do momento histórico que se vivia. Ao lado dos nostálgicos, viviam aqueles que destilavam suas críticas ao que se fizera, aos resquícios daquela momentosa criação de Edgard Santos e Martim Gonçalves. Ponderemos, no entanto, que havia mais ressentimento destrutivo do que uma crítica objetiva ao trabalho feito na Escola de Teatro.

Da mesma forma que a atitude nostálgica, a ressentida era também paralisadora. Assim, aquele espaço de ensino e encenação mostrava-se aquém da efervescência criativa e modernizadora que o caracterizara nos seus primórdios. E tudo isso num momento em que o país parecia explodir em radicalizações estéticas, políticas, sociais que teriam como resposta o Ato Institucional n° 5, na malfadada noite de 13 de dezembro de 1968.

Vivendo entre as duas atitudes, terminamos por seguir os contestadores sem nos preocuparmos em avaliar o que realmente significara aquela época, marco renovador da encenação na Bahia, embora no íntimo existisse o fascínio por aquela ação desencadeada nos anos de 1950. Passados mais de trinta anos, diante do imperativo de darmos continuidade aos estudos universitários, eis que “somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes”, como nos indica Walter Benjamin em sua Tese número 3, Sobre o conceito da história. O passado da Escola de Teatro se nos apresenta “como uma imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecida”, metáfora benjaminiana aqui agregada para esclarecer uma escolha que se tornou necessária e vital para compreendê-lo.

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LEÃO, Raimundo Matos de. Abertura para outra cena: o moderno teatro na Bahia. Salvador: Fundação Gregório de Matos; Edufba, 2006, p. 13-14.

Registro 17: Edna, Ester e Joselita


Musas

Raimundo Matos de Leão


Três irmãs e suas esperanças tchecovianas.
A primeira ensina anjos curumins;
professora cumpre assim sua sina.
A segunda esperou as filhas,
e com elas tece na eternidade colchas de crochê.
Nas horas de folgas, que são muitas, açucaram papos-de-anjo.
A terceira vive a sorrir entre as plantas do quintal;
carregada de lembranças, reza e espera...

A primeira me fez só letrar.
A segunda me gerou.
A terceira com seus afagos,
sem ser madrinha, virou dindinha.

A mais velha, seriedade.
A do meio, melancolia.
A caçula, faceirice
Musas!

2007