terça-feira, 5 de junho de 2012

Registro 396: Dois espetáculos, Salmo 91 e Olorum



SALMO 91
Salmo 91, texto de Dib Carneiro Neto é mais um trabalho derivado do livro Estação Carandiru de Drauzio Varella, transposto também para o cinema por Hector Babenco. Um assunto como o da vida na penitenciária paulista, e o massacre que dizimou mais de cem mortos nela trancafiada foi abordado por três das linguagens da arte: a literatura, o cinema e o teatro. Daí a sua importância, pois o tema, visto por ângulos diversos e submetido aos elementos de cada uma dos meios, forma um painel sobre a des-esperança
.
Além disso, o massacre do Carandiru, como ficou conhecida a chacina, inspirou o intenso trabalho de Nuno Ramos: a instalação denominada 111, exposta na Bienal Brasil Século XX (1994), um conjunto de meteoritos negros com inscrições, manifestação no campo das artes visuais ou plásticas. Portanto, o tema despertou o interesse de vários artistas.

É notável um traço comum entre os trabalhos, a densidade presente em todos eles, sem nenhum ranço da arte panfletária, muita acostumada ao tematizar tais acontecimentos. Os discursos citados acima seguem outra proposta e despertam sentimentos e pensamentos mais profundo que um panfleto.

Salmo 91 esteve em cartaz na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, em Salvador, depois de uma temporada no Teatro Molière. Dirigido por Djalma Thürler, Salmo 91 é composto por dez monólogos correspondendo aos personagens interpretados por cinco atores, Lucio Tranchesi Rubio, Fábio Vidal, Duda Woyda, Rafael Medrado e Lucas Lacerda.

Originalmente, o texto não determina um cruzamento entre os monólogos, já que se mostram independentes, mas o diretor faz com que eles se cruzem, com os atores interagindo na dramaturgia cênica, opção que dinamiza o espetáculo de maneira intensa, com belas cenas retiradas de um material não tão belo: a vida passada, as condições de vida na prisão, os relacionamentos entre os presos. Colabora para a plasticidade da encenação, o espaço trabalhado pelo cenógrafo carioca José Dias e pela iluminação que recorta a cena, dando-lhe contornos para cada momento específico deste bom trabalho diretivo.

Djalma Thürler conduz seu elenco com precisão, retirando de cada intérprete bons momentos, marcando a cena de maneira orgânica, ainda que alguns intérpretes se destaquem pela entrega emocional e pela técnica que sustenta a criação. Mantendo a atmosfera e delineando cada personagem, os atores não resvalam em nenhum momento para a caricatura. A intensidade de algumas interpretações não beira o exagero.

Espetáculo bem acabado, Salmo 91 precisa ser visto e discutido. Para tanto, espera-se que retorne ao palco não somente para o amadurecimento de suas constituintes, mas para apreciação por parte do público interessado em bom teatro. Seu tema pode afastar espectadores, mas não aqueles atraídos pela humanidade que emana do tema e que podem se deixar tocar por suas contradições, sua violência e jogos de poder. Dib Carnerio Neto, ao adaptar o livro para o palco, não trata seus personagens sob a tinta do maniqueísmo. Ao expor cada um na sua inteireza, adentra por um universo rico de nuances reveladoras de uma vida no crime. O autor, o diretor e, sobretudo, os intérpretes reviram as almas atormentadas destes homens encarcerados, expondo para o espectador os personagens, mas sem tomar partido e sem julgamento prévio. O que se passa no palco é uma fatia tragicômica da realidade revestida de poesia, mas sem mascaramento. Os personagens são o que são e buscam sobreviver diante das circunstâncias. O espetáculo vive pela sua intensa poesia, pois o real se metamoforseia em objeto estético.

OLORUM
Em cartaz no Espaço Xisto Bahia, temos Olorum, texto de Gildon Oliveira sob a direção de Elisa Mendes, espetáculo do Grupo NITA. O autor reconta no palco o mito da criação do mundo e do homem, a partir da matriz africana. Ao recontar a aventura de Oxalá e Odudua, sua irmã (na versão adaptada), Gildon trabalha com a estrutura do épico, opção que facilita, de maneira criativa, a compreensão do mito por parte do espectador.

Transitando por universo aparentemente conhecido, o autor conduz a criança, espectador para o qual se destina o espetáculo, para o interior da narrativa fecunda, pois constrói seu desenrolar intercalando a ação dramática com intervenções de narradores que fazem avançar o que se conta. Por veze, esta escolha rompe com a representação de situações ricas que a poesia dramática possibilita quebrando-lhe a atmosfera e interrompendo o fluxo emocional, ponto central do drama, para ressaltar a objetividade do gênero épico., um traço determinante da encenação concebida por Elisa Mendes.

A diretora arma o espetáculo em um espaço neutro, tendo ao fundo um painel formado por pequenos recortes brancos que lembram bandeirinhas, mas que nada contribui para o todo da encenação. E não funciona nem como elemento decorativo. Mas a solução encontrada para caracterizar o Orum (céu), uma árvore em miniatura à beira do proscênio, é teatral e plena de significados.

O figurino esclarece enquanto elemento da linguagem. Em alguns casos, como o de Oxalá e Odudua, tornam-se peças expressivas caracterizadoras dos personagens, pois são criativas bem adequadas ao contexto da peça. Coube a Hamilton Lima a responsabilidade pelo cenário e figurinos.

Com excessivas cenas de dança que não contribuem para o desenrolar da ação, o espetáculo se sustenta na qualidade do texto, nos bons desempenhos dos atores (Mariana Freire, Jussara Matias, Marinho Gonçalves, Leandro Villa), dos bailarinos (Denys Silva, Claudionor Neto, Beatriz Costa), na sensível iluminação de Marcelo Marfuz e sobretudo nas canções de autoria de Gildon Oliveira e Ângelo Castro.

Por fim, a escolha do tema é exitosa, pois coloca de maneira apropriada um tema pertencente ao contexto cultural baiano, coim suas raízes na matriz africana, marco também da brasilidade. Vale conferir Olorum, demonstração de que o teatro para criança em Salvador atinge uma qualidade visível como neste espetáculo. Espera-se que a cena destinada a um público numeroso saiba manter-se em um nível estético sem concessões ao comercialismo que por vezes ronda os produtos culturais oferecidos aos espectadores em formação. Assim, os responsáveis por levar as crianças ao teatro podem escolher de maneira criteriosa aquilo que elas apreciariam sem diminuir-lhes a inteligência e a sensibilidade

Èpa Bàbà!

sábado, 12 de maio de 2012

Registro 395:Festejando 13 de maio, ainda que alguns não queiram



José do Patrocínio


Princesa Isabel

13 de Maio

Caetano Veloso

Dia 13 de maio em Santo Amaro
Na Praça do Mercado
Os pretos celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão
Da escravidão
O fim da escravidão

Tanta pindoba!
Lembro o aluá
Lembro a Maniçoba
Foguetes no ar

Pra Saudar Isabel ô Isabel
Pra saudar Isabé

Dia 13 de maio comemora-se a abolição da escravatura. Mas há uma tendência, um pensamento em voga que tenta reescrever a história apagando o gesto da Princesa Isabel e com isso a luta dos abolicionistas, homens e mulheres que combateram para que se acabasse o trabalho escravo no Brasil. A letra cantada por Caetano Veloso, em seu disco Noite dos Norte, refere-se às comemorações pelo fim da escravidão. É a festa do Bembé. Como disse anteriormente, um ideário vem sendo propagado de maneira intensa, procura-se desfazer a importância do 13 de maio. Tal pensamento foi importado, via Universidade, dos Estados Unidos da América do Norte, por intelectuais brasileiros emprenhados por norte-americanos. É certo que vivemos em um país extremadamente preconceituoso, mas não apartado. Não praticamos nem defendemos a separação. Esta política racialista nos levará para um caminho nem sempre construtivo. A afirmação do brasileiro não passa por tal retórica, muito menos a afirmação dos negros e negras que povoam o país de Norte a Sul e marcam com sua cultura, seus trabalhos, suas religiões e sua arte a nossa história, ontem e hoje. Apagar o 13 de maio é ignorar a luta de muitos: negros, brancos, mulatos, intelectuais, artistas, estudantes e populares, cidadãos brasileiros que se empenharam para por um fim na ação desgraçada que nos manchou com a escravidão. 

Viva Castro Alves.

Mas como diz Joaquim Nabuco, "a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela se espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ele povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte.... É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.

Assim, lembro o dia 13 de maio. E comemoro o ato libertador que marca a nossa história. Sei que a população negra no Brasil sofre e se vê em condições desfavoráveis, mas não será a política racialista que nos salvará. Somos uma país mestiço, somos um país agregador. Acredito e luto por isso.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Registro 394: A Deus o que é de Deus: religião fora do espaço educativo


O texto logo abaixo é um dos editoriais de hoje (06.04.2012) de a Folha de S. Paulo. Mesmo sem consultar o jornal para pedir permissão, resolvo publicá-lo, tendo em vista a seriedade com que trata o assunto. Além do mais, concordo com o texto. Acredito que a liberdade de um termina onde começa a do outro. Obrigar alunos à prática religiosa, seja ela qual for, não cabe nos espaços do Estado. Religião é uma escolha individual e deve ser praticada nos lugares reservados aos cultos. Embora cada um possa manifestar seu credo, deve antes de tudo saber do Outro. Não podemos ficar omissos diante de atitudes que não correspondem com a laicidade do Estado. A omissão pode nos levar ao caos, pois na disputa pelos espaços públicos e mais fiéis, religiosos de diversas religiões podem ultrapassar os limites, como tem feito professoras católicas, evangélicas e espíritas e não somente elas. A bancada de deputados e senadores religiosos prestam o desserviço ao Brasil.  Cito as três vertentes porque as notícias que me chegam tratam delas. Não me consta que um budista, um adepto do candomblé tenha feito proselitismo em sala de aula. E espero que não o façam, assim como os islâmicos, já que não devemos abrir espaço para nenhuma religião no espaço educativo. Ou teremos que abrir para todas, dando ao aluno a opção de seguir a que quer, ou mesmo nenhuma. A opção é aluno, mesmo assim não acho que a escola pública seja o lugar para o ensino da religião, visto que cada uma tem a sua verdade. Não sou ateu, e nada tenho contra que o é. Como disse o representante da CNBB, não podemos obrigar nem proibir ninguém de rezar. Portanto,  que se reze em casa ou na igreja. Da mesma forma, penso que convicção política não deve interferir na transmissão do conhecimento. Às vezes, o ensino é tão ideologizado, seguindo um ponto de vista unívoco que termina por comprometer o processo de aprendizagem.


Religião na escola

Estado deve impedir práticas confessionais em sala de aula na rede pública, não para reprimir a fé, mas para garantir liberdade religiosa

Há quase cem anos, um adolescente mineiro foi expulso do colégio de jesuítas onde estudava. Seu nome: Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

O motivo da expulsão também ganhou notoriedade: a "insubordinação mental" de que o acusavam tornou-se, com o passar dos anos, uma das muitas distinções da biografia do poeta.

Também mineiro, e com a mesma idade (17 anos) que tinha o escritor naquele episódio, o estudante Ciel Vieira "insubordinou-se", por assim dizer, diante de uma professora de geografia do seu colégio, na cidade de Miraí, a 355 km de Belo Horizonte.

A professora tinha por hábito iniciar as aulas rezando o Padre Nosso. Ateu, o estudante não acompanhou a classe na oração. A professora reagiu, dizendo ao jovem que ele não tinha Deus no coração e nunca seria nada na vida.

O caso ganhou repercussão, dando respaldo à atitude do estudante -que, com razão, não vê motivo para ser obrigado a rezar numa escola da rede pública.

Seria mais confortável, é claro, fingir uma adesão superficial ao rito. A atitude de independência do estudante se inscreve, todavia, num clima ideológico e cultural que se diferencia dos padrões de indiferença e acomodação típicos do Brasil de algumas décadas atrás.

Dos protestos contra a presença de crucifixos em repartições públicas ao questionamento judicial, por parte da União, dos critérios que devem reger o ensino religioso nas escolas, avolumam-se iniciativas para afirmar com mais nitidez o princípio da laicidade do Estado.

Ao mesmo tempo, vê-se em toda parte uma tendência, se não para o fundamentalismo religioso, pelo menos no rumo de um proselitismo militante. É uma manifestação legítima, desde que não resvale para a imposição ao público de valores e práticas cuja adoção constitui matéria de foro íntimo.

Denominações cristãs diversas fazem valer seu poder como mecanismos eleitorais. Bancadas parlamentares religiosas se organizaram em todos os níveis da Federação. A TV aberta promove intensamente este ou aquele credo.

Por demagogia ou convicção, surgem mesmo casos em que políticos quebram explicitamente o princípio da neutralidade do Estado em questões religiosas. Foi o que aconteceu em Ilhéus, onde vereadores e prefeito tornaram obrigatória a oração do Pai Nosso nas escolas municipais.

Casos assim podem parecer localizados e desimportantes. Todavia, a ideia de que o Estado não deve se imiscuir nas questões de fé tem uma relevância cada vez maior.

Não se trata de uma questão de militância ateísta -o que está em jogo é a liberdade de todas as religiões, indistintamente, para conviverem de forma pacífica, sem favor nem perseguição do poder público.

domingo, 1 de abril de 2012

Registro 393: Que susto!


IDOS DE MARÇO


Lá se foi março. Ao mesmo tempo em que sinto saudade quero esquecê-lo. Tive minha casa arrombada na madrugada do dia em que ia para Aracaju lançar Harildo Déda, matéria dos sonhos. Felizmente o sujeito não conseguiu entrar, acordei assustado e gritei por quem mora comigo e divide as alegrias e as tristezas que a vida traz ou que criamos. O assaltante não penetrou o recinto sagrado do meu lar, pois é assim que o vejo. Finalzinho do mês, o meu coração deu sinais de cansaço e abateu-se. Um susto! Mas agora, diante do acontecido, a calma toma conta de mim, invade-me.

Sempre pensei na vida, na vida dos outros, algumas vezes bisbilhoteiramente, mas quase sempre por desinteresse, movido apenas pela troca advinda dos encontros e das belezas que as vidas contêm. Sempre respeitei a vida, a vida do outro, um valor supremo. Quanto a minha, penso que vivia esquecido de mim. Algum poeta já formulou tal questão. Bons poetas, invejo-os, conseguem sintetizar pela linguagem o que se passa no interior e o que captam do mundo. Mas lá ia eu sem dar conta de que a vida pode se interromper num átimo. Repentinamente ela nos põe diante do impermanente e somos forçados a aceitar o que nos é dado ou que fabricamos nesta usina que é o mundo.

Março passou. Abril chega com a promessa de nova ou novas maneiras de viver. Mesmo sendo outono, há um sol que adentra pela janela que foi arrebentada. Uma promessa de vida, embora o inverno se aproxime. Mas como aqui, onde vivo, o clima é rebelde e não segue as demarcações da temporalidade de maneira regular e alterando a paisagem e nossos humores, eu sigo como se fosse primavera, promessa de verão. Ainda que eu não goste de calor, redobro o ânimo.

Fui e estou cercado de atenções e de carinhos. É bom saber-se querido.

Enquanto me recuperava hospitalizado, lá se foram Chicos Anísios; imito Carlos Drummond de Andrade ao escrever sobre a atriz Cacilda Becker: “morreram Cacilda Becker”. Lá se foi Ademilde Fonseca ao mesmo tempo em que Millôr Fernandes. Para muitos, talvez não signifique nada. Para mim, são sentidas perdas. Consolo-me por saber que eles deixaram rastos, legando aos que ficam uma produção, aquilo que para eles era capital cultural, para nós capital simbólico.

Enquanto descansava em um quarto impessoal, descobri um poeta, Daniel Lima, pernambucano que manteve reclusa a sua poesia por muitos e muitos anos. Aos 91 anos, por surrupio de uma amiga, tem sua produção publicada em Poemas (Cepe Editora, 2011). Com sua poesia misturando-se às visitas e aos que cuidavam de mim, tornei o quarto menos frio, menos impessoal. Ele passou a ser meu, pois nele eu estava com meus cheiros, sonhos, demônios e anjos. Abre o livro, dois textos apresentativos: um de Lourival Holanda, outro de Zeferino Rocha. Os dois conduzem o leitor com segurança e abrem portas para as muitas portas que a poesia de Lima descerram. Uma bela descoberta.

Mas nem tudo é uma maravilha reconfortando o nosso espírito atribulado. Ao dar umas espiadas na televisão constatei que as novelas são cada vez mais um horror. As vilãs são risíveis. Parecem mais bruxas de contos para assustar crianças. Um telejornal local pautou no seu horário nobre uma reportagem sobre um cão que pula para pegar pedras atiradas na água por seu dono. Falta de assunto, ou estupidez do editor? Não tenho nada contra cães, ao contrário. Mas façam-me o favor... As reportagens sobre o aniversário da Cidade do Salvador eram de uma obviedade rasteira, a repetição da repetição. A publicidade cada vez mais calhorda faz de tudo para vender produtos. Uma marca francesa de automóvel tem um comercial onde a ética, a solidariedade, o repeito pelo outro são jogados no chão. Se eles, os publicitários e os executivos da Peugeot pretendiam o engraçado, não conseguiram tirar um riso, somente indignação. Um estagiário é mandado por dois boçais para abrir a porta da loja. Ele cumpre a ordem, é ridicularizado pelos dois e massacrado pela horda de consumidores que avançam em busca dos carros. Corte. Vemos então o estagiário jogando no chão, pois pisoteado. Segue-se o seguinte diálogo entre os dois vendedores que se acham: - “Vamos fazer o que?” Resposta: "Ah, vamos almoçar".

Recebi a visita de uma aluna na UTI. Fiquei deveras emocionado. Ela chegou, pegou a minha mão, trocamos algumas palavras e ainda sinto o seu toque solidário e confortante. Dois dias depois estava ela juntamente com outras colegas em meu quarto dando-me apoio com seus sorrisos. Saíram deixando no ar a graça de quem tem um mundo pela frente. Mais alunos, agora os rapazes. Perguntei se queriam aula, riram.

Gosto de ser professor.


Por recomendação, ouço Vivaldi e Mozart.

sábado, 24 de março de 2012

Registro 392: Bons arguemntos



RUMO À PERFEIÇÃO 
OU 
JOGUEM FLORES NA GENI (1)

Cleise Mendes

Projeto de lei denominado Antibaixaria, apresentado pela deputada estadual Luiza Maia, que visa proibir a contratação, com dinheiro público, de artistas cujas canções ofendam a imagem feminina ou incentivem a violência contra a mulher, será votado na Assembléia Legislativa da Bahia no próximo dia 20. Como mérito do projeto, pode-se computar a discussão que vem ocorrendo em sites e blogs, pois nestes tempos de inanição intelectual qualquer movimento que leve à expressão de ideias e ao debate pode ser visto como algo em princípio saudável.

Dos argumentos que percorri, pró e contra, um dos mais razoáveis e que corresponde à minha experiência pessoal é que os projetos artísticos, ao reivindicar apoio dos cofres públicos, são examinados por comissões de artistas e intelectuais de reconhecida competência, plenamente capazes de avaliar a relevância cultural de tais propostas. Mas o que se quer, quase sempre, com uma “lei” no domínio da cultura, é justamente invalidar ou no mínimo tornar dispensável o processo de apreciação, discussão e interpretação, o choque de visões, o salutar dissenso. Pretende-se resolver “de cima”, rotulando-se a priori o que pode ou não pode ser oferecido ao público. Alguém já pensou quantas leis seriam necessárias para prever todos os supostos “malefícios” que uma obra de arte pode causar à sensibilidade dos incautos cidadãos? Consta que o romance Lágrimas do Jovem Werther, de Goethe, levou em seu tempo inúmeros jovens leitores ao suicídio. Ah! Se houvesse, então, uma lei contra contar histórias de amor infeliz! Quantas vidas teriam sido poupadas!

Quanto ao projeto Antibaixaria, o que me espanta nessa ideia de lei é a exclusividade do seu alvo. Por que apenas músicas que ofendam a mulher? Se o objetivo é impedir que o dinheiro público seja gasto em produtos artísticos nocivos à sociedade, por que então não incluir, num amplo gesto de defesa, toda a sociedade? Devem portanto ser evitadas músicas que tratem pejorativamente as crianças, os jovens, os idosos; as pessoas muito magras ou as muito gordas; as muito pobres ou as muito ricas; as adeptas de um bom copo, e as abstêmias; as gulosas e as anoréxicas; as viciadas em trabalho e as preguiçosas; as devotas e as sem fé. Não se deve também admitir canções cujas letras desonrem os torcedores do Bahia, do Vitória, ou de qualquer outra associação futebolística, o mesmo devendo ser aplicado aos demais esportes, por questão de isonomia. E para que o alcance da lei seja realmente amplo e irrestrito, por que não incluir nossos irmãos animais, tantas vezes vitimados por musiquinhas cruéis? Nada de “atirei o pau no gato” ou “pisa na barata, oi, mata essa barata, oi”, portanto.

Mas uma dúvida ainda paira, no esforço de defender a coisa pública de todo tipo de arte deletéria: por que apenas a música? (Ou será que devíamos dizer: por que apenas a música baiana?) Pois não existem tantos romances, filmes, peças teatrais, pinturas, quadrinhos, blogs, e tudo o mais que nossa imaginação venha a criar, capazes de veicular palavras e imagens ofensivas a qualquer transeunte do espaço social? Logo, uma lei que se queira verdadeiramente ampla e democrática deve contemplar a prevenção contra toda e qualquer expressão artística que possa vir a se tornar nociva aos consumidores. E seria necessário começar pela Ilíada, de Homero, com suas aterradoras descrições de guerra. Quando criança, tive pesadelos com o guerreiro que teve o olho vazado por uma lança…

Depois que tivermos criado leis em número suficiente para higienizar todas as formas de arte, deixando-as isentas de violência, sarcasmo, deboche, preconceito, hediondez, morbidez, grotesco, nonsense, bobagem, erotismo, sacanagem e o que mais fira as almas sensíveis, poderemos todos, numa República ideal, apenas ouvir as canções que tenham como assunto o cotidiano dos anjos e as sonoridades que tecem em suas harpas, reclinados em brancas nuvens.  E então estaremos livres também de outra praga do nosso tempo: a pirataria. Pois as músicas angelicais serão distribuídas gratuitamente por um governo bom e justo, para todos os cidadãos, já que ninguém sentirá o menor desejo de copiá-las ilegalmente.

 (1) Publicado originalmente em Caramurê.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Registro 391: Dá o que pensar

O texto é apócrifo, recebi de uma amiga via e-mail. Mas gostei. Taí o texto para o doce deleite, ou não, de quem se dispor a perder um tempo para ler.

Na fila do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa:

- A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis com o ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse: - Não havia essa onda verde no meu tempo.

O empregado respondeu: - Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora.

Sua geração não se preocupou o suficiente com o nosso ambiente.

- Você está certo - responde a velha senhora - nossa geração não se preocupou adequadamente com o ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes. Realmente não nos preocupamos com o ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisamos ir a dois quarteirões.

Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. Roupas secas: a secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.

Mas é verdade: não havia preocupação com o ambiente, naqueles dias. Naquela época só tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado como?

Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama, era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e usar esteiras que também funcionam a eletricidade.

Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o ambiente. Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos.

Canetas: recarregávamos com tinta tantas vezes ao invés de comprar outra. Abandonamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos 'descartáveis' e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte.

Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

Então, não é risível que a atual geração fale tanto em "meio ambiente", mas não quer abrir mão de nada e não pensa em viver um pouco como na minha época?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Registro 390: A pergunta que não quer calar

Um país que importa peixe do Alasca, da China e do Uruguai precisa de um Ministério da Pesca? Caso alguém possa me esclarecer, eu agradeço de coração.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Registro 388: "Roda Viva" proibida pela segunda vez




Cena de Roda Viva. O ator Rodrigo Santiago, caracterizado como Menino Jesus de Praga.

A polêmica em torno da proibição do texto teatral Roda Viva, por seu autor, tem gerado muito disse que disse. É certo que proibir um texto, principalmente sendo quem é o autor, Chico Buarque, é bem estranho. Primeiro, porque ele foi vítima da censura em várias ocasiões, quando vivíamos sob o tacão da ditadura civil-militar. Segundo, por ser ou ter sido um ícone da esquerda, a séria e a festiva, e ter defendido posições libertárias. Portanto, causa estranheza a proibição de encenação e reedição do texto.

O compositor-escritor alega que o tempo tornou mais evidente as deficiências do texto. Compreendemos, mas não aceitamos a proibição, da mesma forma como não aceitamos as proibições recentes de biografias, de reedições de livros, de exposições, de gravações de músicas e por aí vai. Mas estamos no Brasil, onde tudo pode. Parafraseando Otávio Mangabeira, pense numa coisa absurda, ela acontece no Brasil. A frase original referia-se ao Estado da Bahia, dita pelo seu governador.

Chico Buarque erra em proibir, mas acerta em dizer que seu texto apresenta deficiências. Quando da encenação de Roda Viva (1968), pela dupla José Celso Martinez Corrêa-Flávio Império, a crítica mais atenta já apontava as deficiências do texto. A potência do acontecimento, e que potência, estava na qualidade da dramaturgia cênica. A encenação transgressora, violenta e abusada, colocava no palco do Teatro Ruth Escobar - São Paulo,  a rebeldia espetacular já vista na montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, quando Zé Celso marcou o início de uma das muitas guinadas do Grupo Oficina. Em Roda Viva, Zé Celso extrapola e amplia a irreverência. 

Zé Celso parece não estar convencido das deficiências da peça, talvez tocado ainda pela força de sua concepção, que contou com a cabeça criativa e instigante de Flávio Império. Ou esteja ainda impregnado pelos acontecimentos que se desdobraram em torno do espetáculo: a polêmica, as acusações de imoralidade vindas de deputados paulistas, a invasão do Teatro Ruth Escobar pelo Comando de Caça aos Comunistas, a repetida agressão em Porto Alegre e, por fim, a proibição da peça em todo território nacional, dois meses antes da decretação do Ato Institucional Número 5,  o famigerado AI-5, em 13 de dezembro de 1968, sexta-feira.

Se desagradou a direita e os conservadores, gerando críticas e atos violentos, como o espancamento dos atores Rodrigo Santiago, Marília Pera, Zezé Mota, entre outros, deixou escandalizada a esquerda ortodoxa, visto que o espetáculo em cartaz não se coadunava com a gramática do teatro de protesto. A encenação de Zé Celso e Flávio Império rompia com a cartilha do bom mocismo, instigando a plateia a sair do comodismo e partir para a ação. Um dos meios utilizados pelo encenador para fazer os espectadores participativos era o panfleto jogado para a platéia, com o seguinte texto:

 "TODOS AO PALCO!!! Abaixo o conformismo e a burrice - PEQUENOS BURGUESES! Tire a bunda da cadeira e faça uma guerrilha teatral, já que você não tem peito de fazer uma real, PÔRRA!!!" 

A famosa cena do fígado ensanguentado arremessado sobre a platéia, mais a referência iconoclasta aos símbolos da Igreja Católica aumentava o poder subversivo do espetáculo e agia de forma a colocar em primeiro plano o que o texto dizia de uma forma muito menos selvagem e transgressora. A crítica ao sistema, ao show-business e à massificação decorrente da sociedade do espetáculo e da cultura de massas feita pelo autor não tinha a força vinda do palco. As suas imagens superavam o que a "pecinha ginasiana" (1) - no dizer do diretor e do cenógrafo - expunha comedidamente em seu engajamento.

A atualidade do texto Roda Viva não pode ser pensada de maneira pragmática. Ao ser encenado, o texto de Chico Buarque tomou uma dimensão que não tinha, embora tocasse num assunto muito pertinente, a construção de um ídolo da música popular, sua devoração pelos fãs e substituição por outro. A gramática do espetáculo fez com que o teatro brasileiro fosse arejado por um sopro violento, denominado negativamente por Anatol Rosenfeld com a "estética da agressão". Ainda que as avaliações tenham sido extremadas, tanto do ponto de vista negativo quanto do positivo, é certo que as ideias do encenador e do cenógrafo-figurinista tinham a capacidade de se encontrar com o seu presente. No momento, para que se tenha uma medida do seu poder é preciso que o texto volte a circular por dois meios, o livro e o palco. Atualizada, a peça Roda Viva terá sentido se as suas ideias figurarem no agora a possibilidade de mudança. Para tanto é preciso que esteja liberada.

Esperamos que a proibição seja revista e que possamos contar com uma reedição do texto. Li a primeira e única edição pela Editora Sabiá. Já não lembro muito bem do texto em suas particularidades, mas ainda registro na memória um certo desencanto quando da leitura. Não vi Roda Viva em cena. Dez anos depois de sua estreia, estive próximo de Flávio Império e ouvi-lo contar sobre o processo de feitura e sobre o resultado cênico aumentou a minha curiosidade pela encenação e também o meu desencanto pelo texto. 

Roda Viva é parte da história do teatro brasileiro e tal fato não pode ser negado. Roda Viva é parte da minha história de vida... Em dezembro de 1968, ganhei de Rubem Rocha Filho o LP de Chico Buarque no qual ele canta Sem Fantasia com sua irmã Cristina. A canção fazia parte do espetáculo. 


Liberdade para Roda Viva


(1) Cf. o texto de Mariângela Alves de Lima Flávio Império e a Cenografia do Teatro Brasileiro publicado em Flávio Império (EDUSP, 1999), organizado por Renina Katz e Amélia Hamburguer.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Registro 387: Lembrar para não esquecer


Confesso minha ignorância. Não sei quem é Rogério Gentile. Sei que escreve no jornal Folha de S. Paulo. Do jornal retirei o seu texto (publicado em 26 de janeiro de 2012) que reproduzo aqui. Leia. Posso afirmar que conheço Daniela Toledo do Prado, pois desde que foi acusada de maneira estúpida por uma médica despreparada para o exercício da função, ou equivocadamente zelosa, acompanho o calvário de Daniela. Nada pode reparar o que fizeram com esta mãe, cujo destino trágico remonta ao das tragédias gregas. Nem a minha solidariedade, nem a de ninguém poderá refazer o estrago que fizeram em sua vida e de seu filho. Mesmo assim sou solidário. Extremamente solidário. O texto de Gentile me assombra a cada parágrafo e somente os insensíveis da pós-modernidade podem se dar ao luxo de dormir tranquilos sabendo de uma existência torturada como a de Daniela. O último parágrafo me deixa quase mudo, tal a estupidez do Estado, mais uma, não querendo reconhecer o que infligiram a Daniela Toledo do Prado. O Estado é responsável. O que faço aqui é lembrar, lembrar para não esquecer. O texto de Gentile é preciso.

INJUSTIÇA BRASILEIRA

 Rogério Gentile

 Daniela Toledo do Prado tinha 21 anos quando foi acusada por uma médica, em uma sala de emergência, de cometer um crime pavoroso: matar a própria filha, uma criança de um ano e três meses, com uma overdose de cocaína.

Em estado de choque, sem conseguir dizer quase nada em sua defesa, foi presa e levada pelos policiais, sob gritos de "vagabunda", para a cadeia, onde foi espancada.

Seu rosto ficou desfigurado. Teve a clavícula e a mandíbula quebradas. Perdeu a audição do lado direito -uma das detentas enfiou e quebrou uma caneta em seu ouvido. Apesar dos gritos, ninguém a socorreu e, somente após duas horas, foi levada, em coma, para o hospital.

Trinta e sete dias depois, porém, foi solta quando um laudo provou que não era cocaína o pó branco achado na mamadeira e na boca da menina. Mesmo assim, a Justiça só a absolveu em 2008, dois anos após perder a filha e, como ela costuma dizer, a sua própria vida.

Desempregada, evita até hoje sair de casa sozinha por medo de apanhar em razão da repercussão do caso -era chamada de "monstro da mamadeira". Toma antidepressivos, assim como seu filho de oito anos; diz sofrer dores fortes na cabeça e convulsões. "Não me esqueço do delegado. Dizia ter aberto o corpo de minha filha, que estava cheio de cocaína."

Embora terrível, o caso de Daniela não é uma exceção no Brasil. Cerca de 205,5 mil pessoas, ou 40% do total, estão encarceradas, muitas há anos, sem julgamento. São os chamados "presos provisórios", confinados frequentemente nas mesmas celas de criminosos condenados.

Quantos, de fato, são culpados e deveriam mesmo estar presos? Impossível saber. Os que um dia conseguirem provar sua inocência poderão recorrer à própria Justiça em busca de indenização. Daniela, após tanto sofrimento, conseguiu. Ganhará módicos R$ 25 mil e uma pensão mensal vitalícia de R$ 414. Isso, claro, se o governo Alckmin, que nega culpa do Estado no episódio, não conseguir reverter a decisão.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Registro 386: Se publico é porque concordo


PRIMAVERA BAIANA
 Antonio Risério

Embora o meu sentimento seja de urgência, quero conversar com calma, que o assunto é sério: Salvador. Numa de suas peças de teatro, Shakespeare faz a pergunta fundamental: “O que é a cidade, a não ser as pessoas?”. E me lembro disso porque nesta semana um amigo me disse, em tom de quase desencanto: “Nosso maior problema, em Salvador, é que não sabemos nos ver como cidadãos”. Está certo. E, neste sentido, o maior problema atual de Salvador somos nós mesmos.

A cara de Salvador não pode ser a da “grand vendeuse”, a da balconista-mor Ivete Sangalo, em pose autoritária, dizendo a frase imbecil: “Quem tem força, tem preço”. Em Salvador, hoje, devemos dizer coisa bem diferente: precisamos levantar a cabeça, recuperar a disposição, buscar o entusiasmo, nos mobilizar para dizer, alto e bom som, que não aceitamos o que estão fazendo com a nossa cidade. Chega de passividade. Se o que está acontecendo com Salvador (avacalhação e destruição da cidade) estivesse acontecendo em Porto Alegre, Curitiba ou São Paulo, não tenham dúvida: gaúchos, curitibanos e paulistanos teriam subido nas tamancas e saltado na goela da prefeitura.

E nós, não vamos fazer nada? Felizmente, parece que sim, que é possível. As pessoas começam a protestar aqui e ali. Exemplo disso, entre outros, foi o artigo que Fredie Didier Jr. publicou neste jornal, no domingo passado. “Salvador não passa por um bom momento histórico”, escreveu Didier. “Não falo da crise em sua monumentalidade: Pelourinho abandonado, metrô inacabado, ruas sujas. Embora grave, este tipo de problema é de solução mais fácil. Não me refiro, igualmente, à violência que nos assola. A violência impressiona, mas não destoa do que acontece em outras metrópoles. Falo de outra espécie de crise, mais profunda e de efeitos mais deletérios.Salvador está em crise existencial”.

A cidade apequenou-se, conclui Didier. Para, então, incitar: “Temos de retomar a nossa caminhada e refundar a cidade. Dar início a uma espécie de Renascença baiana”. Mais: “Salvador merece que façamos tudo isso por ela e a gente merece voltar a sentir orgulho da nossa cidade”. Perfeito. Já um outro amigo meu, apropriando-se da expressão hoje em voga para falar das grandes transformações que rolam no mundo árabe, me apareceu com uma frase ótima: “Precisamos promover alguma espécie de primavera baiana”. Sim, acho que está mais do que na hora de começar isso. É claro que não se trata de nenhuma comparação com o Oriente Médio.

O que queremos é dar um jeito na cidade. Salvador sofre, hoje, com uma coincidência infeliz: uma desprefeitura que mescla estupidez e incompetência e um governo estadual omisso diante dos problemas da cidade (e, como me diz ainda um outro amigo: “Menos com menos só dá mais na abstração matemática; na vida real, menos com menos dá menos ainda”). Mas não estamos condenados a assistir a isso sem dizer ou fazer nada. Em nome de nossas melhores tradições contestadoras, estamos na obrigação de nos mobilizar. Podemos, sim, promover uma primavera baiana.

Basta querer. Somar as nossas vozes nessa direção. Na mídia tradicional e na internet. Em blogs, no facebook, no twitter. Vamos bater na mesa e dizer que cidade nós queremos.Salvador, hoje, não é somente uma cidade abandonada, que está sendo progressivamente destruída. Mais que isso: é uma cidade humilhada. E não temos razão alguma – existencial, cultural, política ou histórica – para engolir esta humilhação. A hora é de aglutinar protestos isolados, manifestações soltas, vozes pontuais. Ou nos aproximamos e batemos na mesa, para reverter a situação atual e escorraçar a estupidez e a inércia, ou a cidade vai naufragar de vez. É hora de Salvador voltar a ser ativa, altiva e criativa – como já foi em outros momentos.

Em nossa história, temos diversos exemplos de enfrentamento e superação de reveses e crises. Não é agora que vamos nos comportar frouxamente, como se esta cidade fosse uma cadela trêmula, com o rabo entre as pernas – e não o lugar onde teve início a aventura civilizacional brasileira.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Registro 385: Entre Nós, um espetáculo imperdível


Dois motivos me levaram ao Teatro Gamboa para ver Entre Nós, texto e direção de João Sanches, os atores Igor Epifânio e Anderson Dy Souza e a crítica de Celso Jr. em seu Cadernos Grampeados. 

Digo de cara: o que se vê no palco do Gamboa é um exercíco teatral da melhor qualidade. 

Um texto inteligente sem a pretensão de obra prima, toca num assunto dos mais atuais: diversidade sexual, homossexualidade e por tabela homofobia. Sem levantar bandeira, mas cheio de toques para a platéia pensar, Entre Nós logo prende atenção do público que se torna cúmplice da cena. Cena aberta, direta, comunicativa, brechtiana, mas sem nota explicativa, pois não se trata de teorização sobre os postulados de Brecht, mas da utilização de recursos de comunicação que o bruxo alemão propunha para o teatro, ou pelo menos para o seu teatro. 

Daí que Entre Nós ensina divertindo, cumprindo uma promessa nem sempre posta em prática pelo teatro. Tal premissa, que não deve ser esquecida pelas linguagens da arte, se inflitra na cena, tanto no texto quanto na direção e no trabalho dos dois intérpretes acompanhados por um músico e sua guitarra, um pouco estridente em alguns momentos. O músico pontua a cena, mais um personagem em cena. 

E são muitos os personagens vividos pelos dois atores. E eles ganham a platéia pois sabem jogar como camaleões que mudam de cor no jogo de se mostrar e se esconder. Para contar a história de uma garoto que se descobre apaixonado por um colega de sala, Igor e Anderson interpretam uma dúzia de personagens sem nenhum recurso exterior de caracterização, somente o corpo talentosamente trabalhado e exposto para a apreciação. Calma, não pense que você verá corpos nús ou semi-nús. Estou falando de outra coisa. 

Interagindo entre si e com o público, os intérpretes atigem um nível muito bom, comprovando a já demostrada habilidade para a cena como vi em outros espetáculos.

Além de atuarem, operam a luz. Mesmo este achado da direção, repetindo-se exaustivamente não incomoda e torna-se parte da gramática do espetáculo. Penso que a luz podia ser explorada com mais efeitos de cor, como na cena do prostíbulo. Por que não assumir o clichê, tão discutido no espetáculo e preencher a cena final de luz cor-de-rosa, rapazes? Assumam o clichê!

Não há cenário e nem precisa. A cena é preenchida pelos atores, mas nem sempre pela música, embora presente o tempo todo, mas carecendo de meios tons, de mais ironia nos seus comentários. Os figurinos concebidos de maneira adequada cumprem a função dentro do espetáculo.

Sem medo da adjetivação, o espetáculo é divertido, leve, consequente, debochado, didático, divertido, romântico, crítico, ambíguo. Os diferentes sentidos tornam a peça mais interessante ainda. Mas não há indefinição. O jogo entre simulacro e realidade se explicita como um dado do que é proposto. Tanto a história que vai se construindo quanto a relação entre os dois atores é permeada de muitos sentidos o que torna a sequência final muito engraçada, pois surge a dúvida sobre quem quer beijar, os personagens ou os atores.  

Vá conferir. Os rapazes ficam até 29 de janeiro. Desejo que eles voltem a cartaz pelo seguinte motivo: teatro bom deve permanecer em cartaz e atrair um público diverso, não somente o entendido...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Registro 384: Sobre um pincel de barba


Não imaginei o quanto seria difícil adquirir um bom pincel para barba, um que durasse pelo menos um ano, pois o que eu tinha era bem velhinho. E ao contrário do que se pensa, o velhinho era bem macio. Mas de tão gasto, já não servia para nada. Assim, dispensei-o e corri a comprar outro, pois faço a barba diariamente. Adquiri um, e para minha decepção, ele logo se partiu. Lá se foi para a lata do lixo. Necessitando repor o dito cujo, exclui a rede de farmácias onde havia adquirido o frágil pincel e parti para outra alternativa.

Bem metido, fui ao shopping e busquei uma loja que comercia produtos importados. Contente e me achando, voltei para o recesso do lar com o vistoso pincel. Bastou uma semana, comecei a perceber uns fios enormes e esbranquiçados em meio à espuma e pensei: estou com a barba cheia de fios brancos, mas estes não podem ser meus. E não eram. O pincel importado soltava seus pelos. Mesmo assim fui usando-o, até que numa manhã o chumaço de pelos desprendeu-se do suporte, ficando eu a ver navios. Irritado joguei fora o que restou do pincel.

Aí começou a aventura, ou melhor, desventura para encontrar um novo pincel.  Retornei à rede de farmácias, nada encontrei. Nem pincel de primeira nem de segunda. Sem alternativa, lá fui eu para a loja de importados e dei de cara com os pincéis importados, irmãos do que soltou o chumaço de pelos. Ao conferir a procedência, matei a charada. Os pincéis são vagabundos porque são fabricados na China.

Não querendo fazer espuma com a mão, resignei-me a comprar o produto chinês. Triste um país que precisa importar pincel de barba que se acaba com duas semanas de uso. Eu gostaria de saber por que os produtos fabricados na China são péssimos. Tudo o que vem de lá, fora a sua cultura milenar,  não presta. E as nossas lojas estão atulhadas de produtos da China. Produtos que a indústria nacional não consegue fabricar. Até peixe importamos da China! 

Decerto tudo lá é mais barato porque o trabalhador deve ser explorado e vigiado. Êta sisteminha bom!!!!! E tem gente que acha mesmo e defende. Não meu caso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Registro 383: Lágrimas

O teatro brasileiro perde o ator e diretor Fernando Peixoto. Gaúcho, Peixoto participou do Grupo Oficina e contribuiu imensamente para a construção do moderno teatro brasileiro. Pensador rigoroso e contundente seguiu de forma muito especial as teorias de Brecht, difundindo seu pensamento e sua estética.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Registro 382: Bahia, minha preta!



         Somente um poeta com a consciência e a sensibilidade aguçadas consegue perceber que a "Bahia está viva ainda." Bahia é, no caso, a Cidade do Salvador. Assim se refere a ela Caetano Veloso, em artigo escrito na edição de 8 de janeiro de 2012, de A Tarde. Mas o poeta não deixa de ver as mazelas que atingem a urbe. Como não sou poeta, embora tenda a concordar com o texto, não consigo ver com tanta nitidez o que há de vivo em meio a tanta ruína. No entanto, vejo muitas possibilidades para que Salvador se mostre como a jóia que foi, integrado-se ao século XX sem a continuada e firme destruição e apagamento das camadas de tempo impressas em sua vida, sua cultura, seu jeito.
        Caetano Veloso enumera as belezas que ele vê e desfruta: o muro azul líquido do mar cercando a cidade; a missa assistida na igreja do Carmo, mas originalmente rezada na igreja do Rosário dos Pretos, belo e significativo título para este lugar, e que se mantém assim. Espero que não a transformem na igreja do Rosário dos Negros ou dos Afro-decendentes, como quer o equivocado pensar politicamente correto. Até porque, para mim, a designação "preto" não é pejorativa nem diminutiva, visto que ao me referir ao local como sendo dos Pretos, sei bem o que quero dizer: digo da grandeza de gente que se empenhou para construir e legar à cidade um dos monumento mais belos, que se harmoniza com tudo que o largo-ladeira tem de imponente no seu traçado, na sua arquitetura e na triste e ao mesmo tempo grandiosa história. O cantor-compositor menciona também o acarajé da Cira (para mim o melhor do local), degustado ao sabor da brisa da Mariquita.
          Mas somente um poeta vê o que há de belo na Cidade da Bahia. Eu, que aqui vivo e não sou dotado da sensibilidade afinada do artista, vejo somente degradação. A degradação que o poeta também vê, mas ameniza, aquela que transformou o Porto da Barra, o lugar mais lindo, no local mais horrível, tal a devastação. Aliás, do Porto até o Morro do Cristo, a paisagem natural sucumbe à feiúra que os homens construíram nas últimas décadas. Poder público inoperante e cidadãos desmazelados juntam-se para criar um lugar completamente "armengado", termo tipicamente baiano e que cai bem para caracterizar o que se vê na Barra. E não somente. Ao flanar pela cidade, a velha e boa cidade, o que salta aos olhos é a quantidade de lugares que poderiam ser belos não fosse a descaracterização, a sujeira, a falta de imaginação, a intervenção medíocre, burra mesmo. E quem procura viver cultivando a beleza, se espanta com a feiúra. Mas sei que a opção pela beleza termina desencadeando em nós aflição e desolação, e não felicidade, como afirma Tzvetan Todorov em A Beleza Salvará o Mundo (Difel, 2011).
         Outro dia, acompanhando um amigo que foi ao SEBRAE na Av. Sete, cuidei de apreciar duas grandes fotos na parede da sala de atendimento. São fotos do mesmo trecho onde se localiza o prédio, que por muito tempo abrigou o Instituto Mauá, ali no local conhecido como Mercês. Uma foto deve ser do início do século XX e a outra atual. A diferença entre uma e outra é gritante. Na primeira tudo se ordena de maneira agradável ao olhar, o que não acontece com a segunda.
      Caetano Veloso encerra Ainda Cá, título do seu artigo, mencionando Edgard Santos, Martim Gonçalves, Glauber Rocha, gente de uma Bahia que parecia ou era de fato mais bela. De lá pra cá, certa compreensão de progresso desencadeou transformações que me levam a dizer a "Bahia está viva ainda", mas é uma triste Bahia, ainda que soem alaridos muito mais que harmonias. 
         No texto, há menção ao filme Trampolim do Forte, de João Rodrigo Matos, não por acaso neto de Agostinho da Silva. Veloso nos diz que o filme “é poderoso em sua revelação do quanto pode a Cidade do Salvador (grifo meu). Concordo. A Cidade é plena de possibilidades e os artistas conseguem retirar do seu cotidiano aquilo que os administradores não conseguem ou não querem ver. Não vou repisar o mote do capitalismo desenfreado, perverso e ganancioso, ainda que não tenha vivido sob outro regime, como causa do desmazelo que toma conta da Cidade do Salvador.
         Mesmo considerando o que se produz hoje culturalmente e artisticamente, o que Edgard Santos, Martim Gonçalves, Lina Bardi, Agostinho da Silva, os cineastas do ciclo do cinema baiano, o pessoal da geração Mapa, os criadores da Jogralescas e outros mais fizeram, resiste em sua potência? As respostas podem ser de variados calibres. Arrisco dizer: talvez, uma parcela dos cidadãos baianos, entre eles alguns artistas, consegue dar conta do legado. O poder público tergiversa e, tanto quanto grande parcela da população não consegue enxergar mesmo “com muito sol”. Mas seguimos em frente acreditando que podemos contribuir para “civilizar o infinito.” 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Registro 381: Lágrimas

Uma lágrima para Daniel Piza. Em sua última postagem, 28 de dezembro, ele desejava a todos uma feliz ano novo e prometia retornar seus registros assim que retornasse da festa no dia 11. Um jovem talento se vai. Lamento.

Registro 380: Estamos em 2012

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, 
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. 
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. 
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, 
com outro número e outra vontade de acreditar 
que daqui para diante vai ser diferente."
.
Carlos Drummond de Andrade

UM BELO ANO NOVO PARA TODOS.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Registro 379: Final de ano

No tempo em que as casas comerciais faziam e distribuíam Folhinhas - para os mais novos, calendário -, havia uma com a seguinte estampa: um velho alquebrado despedia-se, enquanto uma criança com sorriso maroto entrava em uma sala preparada para recebê-la. Uma mensagem desejando votos de Feliz Ano Novo completava a cena. Foi-se o tempo... Mas um quadrinho da Mafalda pode abrir o registro 379.



O ano de 2011 vai chegando ao final do seu ciclo, apontando para 2012, o ano que vai acabar segundo uma porção de gente equivocada, gente crédula, sem postura crítica. O calendário Maia é a referência para mais um absurdo dentre muitos a nos atropelar diuturnamente. Durante o ano, inúmeras mensagens alertando para o fim infestaram a caixa do correio eletrônico. Foram todas apagadas, tendo em visto a dimensão da insensatez. Só me resta fazer coro com Assis Valente e com a Pequena Notável: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar / Por causa disso minha gente lá em casa começou a rezar... E o mundo não se acabou.” 

Apesar dos pesares, não tenho do que me queixar. Se o mundo anda fora dos eixos, como diz o bardo pela boca de Hamlet, tentei de todas as maneiras equilibra-me diante dos desequilíbrios. Um exercício diário. Viver é perigoso, já dizia o Rosa. Algumas notícias embrulharam meu estômago, outras fizeram meu coração se fechar um pouco. Uma grande parte me fez duvidar da capacidade do humano seguir a razão sábia. Aqui, no nosso quintal, só sendo muito Poliana para aguentar a mediocridade, a estupidez, a falta de civilidade. Tudo junto é a regra, não é exceção. Entre a miséria do quotidiano e a desmedida dos pequenos gestos, acreditar que a beleza poderá nos salvar pode ser um antídoto. 

Ao manifestar pesar pela morte do ditador da Coréia do Norte, o P C do B ficou com o mico do ano. Se essa gente chega ao poder, estamos fritos. Para um partido que defendia o regime que se instalou por muito e muitos anos na Albânia, só não causa espanto em quem acredita nos bons propósitos do Partido. A Folha de S. Paulo, edição de hoje (28.12.2011) traz um interessante editorial sobre o tema.

Outro mico: o Poder Judiciário posando de vestal! Só rindo.

A reforma da Praça de Ondina, aquela que beira o mar, durou mais de noves meses. Ao ser inaugurada demonstrou-se um “belo” desastre. Obra mal feita, logo apresentou seus problemas. Ainda assim, melhor que o monumental camarote que lá estão montando desde meados de dezembro. Assim, passaremos boa parte do verão com o mastodonte impedindo a visão do mar e dificultando o acesso de quem gosta de ir à praia. Sobrou para os banhistas um corredor estreito entre tapumes e um trecho todo arrebentado, já que não foi incluído no pacote. Nunca vi um leilão da via pública feito tão desrespeitosamente. E tudo continua como dantes no castelo de Abrantes. Uns “gatos pingados” ocuparam por um tempo a praça, num arremedo das ocupações norte-americanas. Penso que não deu em nada.   

O fato é uma gota no oceano de descalabros em Salvador. A cada dia a cidade se transforma no pior monstrengo. Suja, descaracterizada, confusa e barulhenta. Enquanto isso, o alcaide e sua ex-consorte mostram cenas de suas vidas íntimas para o público soteropolitano. O BBB vai se espalhando sem nenhuma decência. Falta-nos um  Gregório de Mattos, o Boca do Inferno.

Neste ano, deixei de ver televisão. O aparelho continua em casa para que eu possa ver filmes escolhidos a dedo, no conforto do sofá, sem as conversas e os celulares inoportunos A tv aberta é um lixo, reino da hipocrisia. Seus apresentadores primam pela “canastronice”. Cortei os canais por assinatura, já que a sua programação é repetitiva e cara. Além do mais, enquanto se assiste a um filme são inseridos anúncios na tela, um absurdo. 

Por falar em filmes, registro aqueles que apreciei: Melancolia, Em Nome de Deus, O Palhaço, A Árvore Da Vida, Bravura Indômita, Um Conto Chinês e muitos outros que não me lembro. Mas como não faço lista dos melhores do ano, não preciso completar o registro. Ah, faltou ver Meia Noite em Paris. Medianeiras, fui cheio de expectativas. A Pele Que Habito, passei uma semana pensando no filme. Ainda hoje ele me inquieta. Bem melhor que Má Educação (que não gosto) e Volver. Falta ver As Canções. No teatro, a agenda foi bem falha. Do Festival Latino Americano, vi meia hora de Gatomaquia do Grupo La Cuarta do Uruguai. Do Festival Internacional de Artes Cênicas, mas nacional que inter, nada vi. Mas confiando nos registro feitos no blog Cadernos Grampeados por Celso Júnior alguma coisa devo ter perdido de uma programação que não despertou meu interesse. Assisti Fim de Jogo. Escrevi sobre a encenação aqui no blog. Gostei de ver Remendo Remendó que a moçada de A Outra Companhia de Teatro mostrou no Teatro Vila Velha.

Fiquei feliz com o resultado apresentado pelos estudantes do Módulo II – Interpretação da Escola de Teatro. Fiquei com eles durante dois semestres e a moçada cresceu sensivelmente. O avanço foi visível em Cenas de Família e Um Incômodo. A turma de concluintes mostrou garra e empenho em Tudo é Mentira, longo, mas exuberante. Vi também Grito do Coração, texto em um ato,  homenagem que Harildo Déda, Gideon Rosa, Patrícia Oliveira e Vinícius Martins prestaram ao autor Tennessee Williams (1911-1983), em comemoração aos 100 anos do dramaturgo. Ganhei de presente Mister Paradise edição com peças de um ato de Williams.

 As leituras foram muitas. A quem interessar, recomendo: Nêmesis de Philip Roth, Ilusões Pesadas, de Sacha Sperling,  Borges Oral & Sete Noites, de Jorge Luis Borges. De Jonathan Frazen, Liberdade e As Correções; Avec Grotowski, Peter Brook, A Preparação do Diretor, Anne Bogart. O deslumbrante A Lebre com Olhos de Âmbar de Edmundo de Waal. Agora leio A Beleza Salvará o Mundo, de Tzvetan Todorov, espero concluir antes da virada, aproveitando as férias merecidas. Não consegui terminar a leitura de Odisséia, de Homero, na tradução de Trajano Vieira. A edição bilíngue continua pousada sobre a mesa de cabeceira. A Ausência que Seremos de Héctor Abad, imperdível, tocante. muito outros livros não constam do registro, paciência... Ah, quase esqueço de A Folha Dobrada, de William Maxwell, uma bela história sobre a amizade

O livro Harildo Déda, a Matéria dos Sonhos, escrito por Luiz Marfuz e por mim, foi lançado em novembro. Uma justa homenagem ao ator. Outros merecem. Vejamos: Sônia dos Humildes, João Augusto, Nilda Spencer, os que partiram. Mário Gusmão tem o seu escrito por Jeferson Bacelar

Meu primeiro livro Um Muro no Meio do Caminho? ganhou uma nova e caprichada edição pela Saraiva

Depois de muitos anos, muitos mesmo, reencontro dois amigos, um deles companheiro de infância e que não vejo desde 1974. Trocamos mensagens. O outro conheci em São Paulo por volta de 1975. Diz o poeta, “a vida é a arte do encontro...” ainda que complete: “embora haja tanto desencontro” 

Vi finalmente As Canções, o filme de Coutinho. Tocante como Edifício Master e Jogo de Cena. Árido como Moscou. Todos são belos momentos de cinema. Cinema pra poucos, uma pena. Os filmes não são difíceis, mas não é pra todo mundo. Na sessão das 17:00h do dia 26 seis gatos pingados na sala. Lembrei-me de quando vi Electra de Cacoyannis. Eu devia ter 14 anos quando assisti ao filme no Cine Íris (Feira de Santana). Na sala só havia o professor Divaldo Pitombo e eu. O filme acabou de ser lançado em DVD, revi. Continua poderoso. Adquiri vários dos filmes da Coleção Folha. Alguns são favoritos.

Desde que adquiri Recanto, o novo trabalho de Gal Costa, a minha cantora favorita entre muitas que admiro, faço um esforço para absorver, não a voz nem as letras, mas os arranjos. Eles não me entram confortavelmente pelo ouvido. Não acho que sejam inovadores, pelo contrário, ao pretender novidade revelam certa mesmice. Mas como gosto da intérprete, continuarei ouvindo o CD. Espero mudar de opinião. De qualquer maneira, é louvável a atitude de Gal Costa, prova que ainda há inquietação, os anos de carreira e a fama não mataram certa ebulição que leva o artista a correr riscos. Aplausos! É um disco triste, muito triste. Eu queria um disco menos Caetano e mais Gal. Será que você me entende?

Caso eu me lembre de mais alguma coisa, compartilho com os leitores do blog. Agora é me preparar para fugir da muvuca.

Acrescento mais um mico: o ditador da Venezuela, num momento paranoico, atribuiu à CIA, leia-se governo norteamericano, a onda de câncer que se abateu sobre os governantes da América Latina. Tenho profundo pesar pelos doentes, mas o delírio venezuelano é risível.  É estranho que tantos governantes, ou ex, sejam acometidos da mesma doença, quase ao mesmo tempo, mas daí fazer tal acusação é querer desviar a atenção dos problemas que acometem os países Latinos com com sua "veias aberta.s" A postura anti-imperialista é velha e não leva a nada. Já vimos este filme.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Registro 378: É Natal




Quando criança, eu sempre gostei de ver presépios. Gostava por dois motivos: pelo significado do tema ali retratado e pela forma como cada família se encarregava de organizar a cena. A cada Natal, era sempre uma surpresa. Eu apreciava o jeito como os materiais eram utilizados na construção cenográfica e como as figuras eram dispostas.


Geralmente armados em um dos cantos da sala de visitas, os presépios refletiam a compreensão que cada um tinha da cena, misturando-se as figuras da tradição com objetos do cotidiano, como brinquedos, recortes de revistas, bibelôs e tudo mais que a imaginação do autor desejasse. Os mais tradicionais mantinham-se fiéis aos elementos básicos e terminavam por remeter seus presépios às inúmeras pinturas legadas pelos artistas ao longo do tempo. Confeccionados com papéis pintados imitando pedras tinham sempre na base uma faixa de areia que chamávamos de praia onde se dispunha um espelho como se fosse um lago onde patos nadavam tranquilamente. 

Em casa, ainda que se comemorasse a festa com muito ânimo e rigor, não lembro de presépio armado com frequência, pelo menos durante a minha infância. Mas não posso me esquecer da surpresa proporcionada por meu pai. Eu já beirava os 18 anos, quando nas proximidades do Natal grandes caixa de madeira foram deixadas em casa sem que ele revelasse o seu conteúdo. Logo em seguida me pediu que eu recortasse em papelão algumas montes indicando-me como modelo os morros que víamos do quintal. O morro chamado de Monte Alto, cujo o cimo abrigava uma capela visitada pelos fiéis na Sexta da Paixão, serviria como fonte para a minha empreitada. Intrigado e descontente por não saber o destino de tais recortes pus-me a pintar os recortes, mesmo sem dominar as técnicas do claro-escuro para dar volume ao intento. Em seguida, fui intimado a ajudá-lo a montar em um pequeno palco armado no salão da Grupo Escola Góes Calmon a cenografia para o presépio que ele queria, não para a família e convidados, mas para toda a cidade. Fazendo suspense, só abriu as caixas no dia 23 de dezembro, retirando dela as figuras para dispô-las na cena.

Misturando montes artificiais, pintados toscamente, com plantas e musgos retirados da caatinga, tendo ao fundo um céu azul estrelado o presépio materializou-se no salão sem carteiras e tornou-se uma atração.

Guardo ainda na memória o presépio de dona Elisa, ele tinha como atração uma bela imagem do Deus Menino no Monte, peça antiga, hoje encontrada somente em museus e antiquários. Na casa de um tio armava-se a lapinha no meio da sala, proporcionando ao visitante uma movimentação para apreciar as cenas distribuídas nos diversos planos. Vi outros presépios e cada um deles aguçou a minha percepção para a religiosidade popular, para a arte e, principalmente para o teatro. Aquelas variadas cenas revelavam teatralidade, algo que só compreendi muito mais tarde. Mas não tenho dúvida, as lapinhas educaram a minha sensibilidade e o meu olhar.