sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Registro 197: "Tanto négocio, tanto negociante" e muita estupidez

Nem tudo que Caetano Veloso faz e diz eu aprecio. Mas gosto sempre de Caetano Veloso. Desde que ouvi Domingo, o disco com Maria das Graças, ele se tornou uma referência pra mim. O seu jeito de ver o mundo, a sensibilidade para expressar sentimentos sobre as pessoas e as coisas ecoa em mim de uma maneira acolhedora. Meu coração vagabundo quer guardar o mundo em mim. O jeito como lida com a língua portuguesa me encanta. Invejável! Acompanhei seu trabalho desde o disco referido e de suas aparições na televisão, quando se mostrava conhecedor do cancioneiro popular brasileiro. Daí para cá me mantenho atento aos seus passos, caminhos e descaminhos. Uma relação de amor, sempre. De desamor às vezes.

Essa resumida introdução deve-se à carta que ele enviou ao jornal A Tarde, da Cidade da Bahia, e publicada em 15 de agosto de 2008. Vou transcrevê-la porque gosto da sua lúcida argumentação. Ele sai em defesa do calçadão da Barra, aquele de pedras portuguesas, que o imediatismo, a burrice, a simplificação, a desinformação sepultaram. Não digo para sempre, porque, quem sabe um dia, alguém resolve que o calçadão deve retornar ao que era, até que a sanha modernizadora de uma gestão incompetente botasse abaixo. Não é a primeira vez que isso acontece em Salvador. Os registros da estupidez dos políticos (muitos), péssimos administradores, são inúmeros. Eles decidem tudo nos bastidores. O pior de tudo é que encontram apoio. Apoio de gente desinformada que se encanta com a novidade, a comodidade. Não me alinho a essa maioria inculta.

O monstrengo que virou o Campo Grande depois da reforma (gestão anterior) que retirou a calçada desenhada lindamente com pedras portuguesas está aí para quem quiser conferir. Aquelas estátuas de resina são ridículas. Isso numa cidade que teve lindas estátuas de mármore em seus jardins públicos. Par onde levaram as da Praça da Piedade? Onde se encontra a que havia no centro da Praça Tomé de Souza?

A propósito, espero que a reforma do Passeio Público seja feita com inteligência, sensibilidade e informação sobre o logradouro. Não faço aqui a defesa do imobilismo, mas um pouco de história não faz mal a ninguém. Um dos elementos que singulariza a Cidade da Bahia é sua história. Isso faz a diferença. Quando ela virar uma cidade qualquer, lamentaremos.

A questão do piso de pedras portuguesas na Bahia não funcionar é porque, atualmente, eles são mal feitos. Propositadamente mal feitos.

Mas deixo ao leitor as palavras do santamarense.

“Cheguei da Europa e soube, aqui, do crime que o prefeito de Salvador está cometendo no Porto da Barra. Não posso ficar calado. É uma indecência manter as pessoas desinformadas a ponto de entrarem na guerra suicida à calçada portuguesa. O calçamento português é marca importante da nossa vida física e espiritual. Os incômodos que porventura venham de sua má conservação não são motivo para destruí-lo. Em São Luís (atualmente a cidade mais bonita do Brasil), as antigas calçadas portuguesas foram restauradas com o esmero técnico adequado e não provocam trepidação em carrinhos de bebê nem engolem saltos de madames. E são vastas e extensas áreas da cidade que as ostentam. As praças de Lisboa apresentam a mesma firmeza e a mesma elegância. Por que há tantos baianos votando a favor desse descalabro? Será que voltamos ao mau gosto vulgar que dominava antes de Jaime Lerner recuperar o Largo da Ordem em Curitiba? Regredimos para a visão grosseira que teria deixado o Pelourinho, em Salvador, o Largo da Lapa, no Rio, virarem pó e serem substituídos pelo caos dos restos da arquitetura moderna que enfeiam o Brasil? São restos culturais de baixa qualidade que se oferece aos grupos emergentes da sociedade, em nome da democracia. É caso para ouvirem especialista, respeitarem-se os locais históricos e míticos, esboçar-se uma reestruturação inteligente da cidade. Se isso não agrada de imediato a uma (suposta) maioria desavisada, não importa. O essencial está num texto escrito por Ordep Serra: um texto excelente sob todos os pontos de vista. Então, um lugar como o Porto da Barra pode ser violado assim? Não. Protesto veementemente. Não se pode adotar piso de concreto e granito polido na curva do Porto e tampouco a retirada das árvores. O que é que há com Salvador que o prefeito começou a construção de uma favela nas areias da orla e esse esboço continua lá, enquanto uma horda de desinformados apoia a destruição do porto da Barra?”

Caetano Veloso

Assino embaixo,
Raimundo Matos de Leão
Escritor e professor

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Registro 196: Hoje tem palhaçada? Tem sim senhor!


Picolino II

O Circo Nerino volta à Bahia. Retorna em uma exposição de fotografias organizada por Roger Avanzi (Picolino III) e Veronica Tamaoki. Ele, filho dos fundadores do Nerino, circo criado em Curitiba (1932) e que se aventurou pelo Brasil levando a magia, a alegria, o deslumbramento dos seus espetáculos no picadeiro e no palco. Ela pesquisadora e também fundadora do Circo Escola Picolino.

Inesquecível Circo Nerino...

Em junho de 1955, Ipirá – Bahia, encostado na porta do posto-restaurante O Rodoviário, cujo proprietário era meu pai, eu vi o comboio chegar; caminhões e ônibus, numa fila que para mim era interminável. A longa fila entrou lentamente na cidade que se alvoroçava diante da imponência do cortejo. Nunca se vira tantos caminhões e ônibus juntos por ali. Só quando passavam os romeiros para a festa das Candeias é que eu via um movimento igual ao que presenciei naquele dia.

As crianças, principalmente os meninos, mas as meninas também, todos corriam para ver o Circo Nerino que chegava. Vinha de longe prometendo maravilhamento. A cidade se rendeu diante do número de viaturas, diante do grande elenco. Em pouco tempo os artistas montaram a estrutura circular na praça principal. Dela sairiam os alumbramentos dos espetáculos.

Atraído, fascinado e curioso acompanhei o trabalho daquela gente sem me aproximar. Por contas das histórias de que ouvia: - Gente de circo leva criança para ser treinada, eu temia que isso acontecesse comigo. Mas, se o apavoramento me detinha, a vontade de ser artista de circo me levava para perto daquele reboliço rompendo o marasmo da pequena cidade. A vontade de ser artista diminuía os receios de ser levado para longe. Eu era muito pequeno e não podia sair sem a companhia de um adulto. Portanto, a minha imaginação tratava de criar essa realidade paralela tecida pelo fascínio e por algo que não conseguia tomar forma, como tomou a medida que fui crescendo e os circos foram chegando e partindo.

Na enorme praça da igreja, mais precisamente atrás do imponente templo, armou-se o Nerino, delícia daqueles dias de inverno sertanejo de céu azul e noites frias. Enorme, sólido, se é que um circo pode ser definido por essa qualidade. A imponência de sua estrutura, a grandiosidade de sua forma, inspirava segurança e acolhimento. A maleabilidade da lona, esticada até o limite do permitido, desenhava-se no espaço da praça. Outra paisagem surgia aos meus olhos encantados com o primeiro circo que viam. Era grande o Circo Nerino. Grande aos meus olhos de criança, grande também aos olhos dos adultos, impressionados com a monumental empanada. Era um circo e tanto o Nerino! E a cidade empolgada aguardou o momento da estréia.

Eu vi Picolino, o palhaço. Um deles, visto que são três. Talvez o Picolino I ou II, que seja! Ele era maravilhoso e isso é o que importa. Não me esqueci de suas palhaçadas e do grande colarinho que ele movia habilmente engolindo sua cabeça. Ainda hoje me lembro da roupa e da maquiagem bem definida. Era a imagem mais fiel de um palhaço. Para mim ficou sendo o palhaço dos palhaços.

Havia teatro no Nerino. Não lembro o que vi no palco, mas ainda guardo a imagem de uma cena, principalmente do cenário. Um mar de ondas revoltas que brilhavam à luz dos refletores.

Por fim, recordo-me da moça vestida de branco sobre uma bola azul pontilhada de estrelas prateadas. Ela fazia a bola girar pelo picadeiro enquanto fazia acrobacias, quase uma dança etérea naquele globo-planeta que girava sob seus pés. A orquestra tocava uma valsa e eu, sentado na cadeira forrada de vermelhode não desgrudava os olhos. Eles apreendiam tudo... Na minha quietude de menino, os sentidos aguçados sorviam imagens e sons e cheiros de um mundo que se mistura ao dos outros circos que eu vi, não tão maravilhosos quanto o Nerino, mas queridos da mesma forma: O Pavilhão Zé Bezerra, sem picadeiro, uma construção retangular culminando com o palco onde se dava a função: atrações variadas, como a do mágico que fazia levitar uma moça, e comédias e dramas no final da sessão; o Circo São Raimundo, com suas duas atrações principais, a angelical Maria de Jesus e a loira fatal Ducicleide; e o circo de nome perdido na memória, mas que marcou a minha infância pelo fato de ter desabado na noite em que estreava uma ipiraense cativada pela vida debaixo da lona e pelo amor do palhaço Jatobinha.
Quando o Nerino partiu, fiquei na porta do posto-restaurante O Rodoviário, até que os ônibus e caminhões desaparecessem sob o pó da estrada. Eles levavam as minhas muitas saudades e a certeza de que o circo viveria em mim de muitas maneiras.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Registro 194: Registros Fotográficos e...

Mexericas
Raimundo
2008

Azul para Morandi
Raimundo
2008
Descubro o prazer de fotografar. Gosto de compor os objetos como num desenho ou pintura. Brinco sem muitos artifícios. As frutas tinham acabado de chegar do supermercado e me atraíram. Forma, cor, textura. Luminosidade no branco. A garrafa azul veio em seguida. Morandi é uma referência. Pela casa se espalham garrafas. Sou fascinado por azuis. Os azuis de Yvens Klein são memoráveis na sua compacta limpidez. Eles são zen. Dizem que Malevitch tinha desprezo pela natureza. Seus quadros mostram isso. Não os desprezo. Gosto do branco no branco. Construtivismo. Os construtivista e futuristas, aquela gente vanguardista iluminada e iluminadora. Eles polemizaram e deu no que deu. Pesquisaram e deu no que deu. Para eles o realismo não bastava, era uma camisa de força. Afrontavam. Os campos gelados são seus sudários.
Bachelard incentiva criar poética no espaço. Descobrir poética nos espaços.
Descansei pós-almoço. Esse clima de fim de inverno é convite para a moleza, bem diversa daquela provocada pelo verão. Dei conta dos trabalhos para os alunos.
O trabalho e os dias. Belo texto.
Um céu azul de nuvens rarefeitas é o que vejo da janela do escritório, cela monástica. Os pássaros cantam na janela da sala. Digo que estão satisfeitos. As plantas crescem...
Constato a rugosidade da pele, não tão elástica quanto a pele das mexericas.
Li, não sei aonde, que os evangélicos, certos evangélicos, fazem campanha contra a reeleição da prefeita de Fortaleza. Não tenho informações sobre o trabalho, o caráter, as posturas da cearense. Não me interesso por sua campanha, mas diante do reacionarismo fundamentalista, um voto pra ela. Ah, dizem que ela é marxista e atéia.
No meu tempo de criança diziam que comunistas comiam crianças e freiras. A assustadora ameaça inverteu-se, mudou de rumo...
Gostaria muito de falar sobre um filme que está em cartaz. Chama-se Do Outro Lado. Tocante, profundamente humano! Conta uma história e tanto. Reconstrução de almas arruinadas. O filme é imenso nos desencontros e encontros. A cena final é monumental na simplicidade, mas a força que emana de sua construção é tocante. Nunca senti uma sensação tão forte, real, vividamente real. Parecia que era eu que sentava na areia da praia para esperar...
Esperar...
DO OUTRO LADO ( Auf der anderen Seite )Dir: Fatih Akin. Prod: Alemanha-Turquia, 2006. Dur: 2:05. Classif: 14. Elenco: Nurgul Yesilcay, Baki Davrak. Sinopse: História de um jovem alemão e de seu pai viúvo que escolhe uma prostituta para casar. Ao descobrir que a mulher tem uma filha na Turquia, seu país de origem, o rapaz decide viajar para encontrá-la, sem imaginar as surpresas que viriam durante a jornada. Melhor Roteiro – Festival de Cannes 2007 l "Do outro lado" ganha prêmio do júri ecumênico em Cannes l Fatih Akin concorre ao Oscar com um filme alemão e outro turco l Filme de Fatih Akin premiado com quatro 'Lolas'

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Registro 193: Abertura dos Jogos Olímpicos

Grandiosa a abertura dos Jogos Olímpicos na China. Um show ilimitado de progresso e tecnologia. Penso que os crentes nas benesses do progresso ficaram fascinados. Confesso que fiquei também! Mas, ao longo do monumental show, pensei: os poderosos de plantão escrevem a história de forma a empurrar para baixo do tapete o que é incomodo. Essa prática não é de agora. Na União Soviética, quando do tacão stalinista, apagaram-se das fotografias todos aqueles que discordaram dos (des) caminhos que a revolução tomou a partir da entronização do grande ditador no poder. Os grandes ditadores agem da mesma forma.

Apagar das fotografias os indesejáveis é um ato terrível, mas se comparado ao extermínio moral e físico parece bobagem. Com isso não minimizo o ato de apagamento. Fotos são documentos necessários para se contar a história. A pesquisa social necessita delas também; “considera-se a fotografia como índice, marca de uma materialidade passada, na qual objetos, pessoas, lugares, nos informam sobre determinados aspectos desse passado” (MAUAD, 2004, p. 22). A fotografia também é um símbolo; nela está fixado o passado, aquilo que os antecessores escolheram para registra e legar ao futuro.

Mas voltemos ao assunto inicial. A digressão tem o efeito de ampliar o que segue:

As gerações vindouras verão as fotos da festa olímpica, festividade política estetizada. Nelas estarão registrados momentos de intensa beleza. Espertamente, as autoridades chinesas contaram a história que no momento lhes interessa: o momentoso passado da civilização milenar. Passado que foi soterrado, posto na sombra e destruído pela Revolução Cultural desencadeada por Mao Tsé-Tung. O filme Adeus Minha Concubina, de Chen Kaige, diz muito bem o que aconteceu no período. O Grande Timoneiro pôs por terra a vida cultural chinesa, sua rica história, sua filosofia e sua arte, considerando-as desvios nos caminhos do novo homem que surgiria livre da tradição e de uma sociedade assentada na rígida divisão de classes a ser superada pela igualdade comunista. O pensamento único deu no que deu. Destruição em massa de pessoas e do passado.

É certo que as ideias contidas no Livro Vermelho mexeram com a cabeça de grande parte da juventude durante a década de sessenta. O curioso é que o show na quadra de atletismo do Ninho do Pássaro, o estádio de formas inventivas, não mostrou o que a Revolução Cultural propunha e fez. Mostrou-se a tradição, aquilo que foi renegado como um mal a ser exterminado da face do “planeta” China. Não creio que os ensinamentos de Mao estão renegados pelos chineses, principalmente por aqueles que estão no poder. Talvez por ser um momento de grandes contradições e de violência exacerbada, rememorar a Revolução Cultural pode destoar do espetáculo na era da globalização.
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MAUD, Ana Maria. Fotografia e história, possibilidade de análise. In: CIAVATTA, Maria e ALVES, Nilda (orgs.). A leitura de Imagens na Pesquisa Social. São Paulo: Cortez, 2004.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Registro 193 A: Impressões sobre um espetáculo-sarau

FRATERNAL COMPANHIA

Angela Reis e Daniel Marques

Ontem, 6 de agosto, fui assistir Uma por Outra: histórias de Arthur Azevedo, espetáculo da Fraternal Companhia. Participam do elenco Angela Reis, Daniel Marques, Gláucio Machado, Jacyan Castilho e os músicos Maurício Azevedo (violão) e Vanessa Melo (flauta). O espetáculo consiste da teatralização de contos do popularíssimo dramaturgo que marcou a vida teatral brasileira entre 1873 e 1908 com sua ação.

Os textos escolhidos tratam das relações amorosas. Azevedo tece as tramas saborosamente nos contos escolhidos – Confidências, Uma Aposta, Uma por Outra, A Melhor Amiga e A Filha do Patrão, os mal-entendidos e encontros que envolvem homens e mulheres. Os contos chegam para a platéia do século XXI sem o ranço do tempo. No entanto, preservam-se as suas qualidades literárias fortalecedoras das situações que muitos poderão considerar datadas, visto as mudanças nos hábitos e costumes atuais, em que casos parecidos não são tratados com as sutilezas que permeiam as relações descritas pelo autor maranhense. Arthur Azevedo não falseia nem esconde os conteúdos; o conto A Filha do Patrão é um bom exemplo de certa crueza pragmática com que o pai (patrão) resolve a situação da filha. Revelando com traços bem definidos os personagens que transitam pelas situações dos cinco contos escolhidos, vemos como o autor cuida carinhosamente de cada um dos tipos, delineando-os muito bem. Sem julgá-los, deixa a cada um dos espectadores as conclusões sobre atitudes que cada personagem toma com relação a si e ao outro.

Conforme o texto do programa, a proposta de “usar a cena para contar o conto” visa “preservar o humor e a inteligência do texto, utilizando-os para provocar no público o encantamento que todos nós sentimos ao ouvir uma boa história”. É isso que o pocket espetáculo oferece. Aliada a essa qualidade – contar uma boa história – juntam-se a mestria do elenco, o despojamento da encenação, sua coloquialidade aproximando a cena do espectador, o jogo inventivo entre os intérpretes e uma dose das propostas brechtianas; tudo isso torna a cena encantadora. O clima de sarau se estabelece desde o momento em que elenco recebe o público fazendo-o ingressar na sala, em cujo palco encontram-se os músicos. É visível a reação da platéia; ela se rende aos poucos à magia do teatro e à sua capacidade de fazer com que o “clima de alegre nostalgia” dos saraus de antigamente prevaleça. Assim, instaura-se a comunicação maravilhosa entre os atores, músicos e espectadores.

A cena, em seu despojamento cenográfico, uma cortina branca adornada com fitas e flores vermelhas, completa-se com quatro cadeiras brancas de assentos forrados na mesma tonalidade, servindo de moldura para os atores. Neles está a graça da encenação. Dominando o seu ofício, os intérpretes se encarregam dos personagens e das canções; e fazem isso bem. Passam dos gestos sutis para os largos, habilidosamente. Da mesma maneira, mostram, pelo jogo facial, as expressões que completam e enriquecem as palavras.


Vestidos pela figurinista Renata Cardoso, que escolheu trabalhar com tecidos pretos e brancos habilmente combinados, os intérpretes, quando não estão no centro da cena, esperam sentados o momento de assumirem a ação que lhes cabe no roteiro bem construído. A opção da figurinista pelo preto e branco, combinando tecidos lisos e estampados, quebra a possível monotonia que essa escolha poderia acarretar. Os figurinos obedecem ao traço de época e são complementados por adereços vermelhos: lenços, leque, envelopes, cartões com fotografias e um revólver, pequenos pontos quentes que surgem para dinamizar a mescla do preto e do branco em cada roupa.

Registre-se a escolha do repertório, belas músicas do cancioneiro popular brasileiro. A ação é pontuada pelas seguintes canções: Isto é Bom (Xisto Bahia), Ai, Ioiô (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto, Marques Porto), A Mulher Quando Não Qué (Sátiro de Melo), Flor Amorosa (Joaquim Callado e Catulo da Paixão Cearense) e Jura (Sinhô), músicas cantadas sem o auxílio de meios mecânicos e inseridas no contexto do espetáculo.

O espetáculo-sarau Uma por Outra: histórias de Arthur Azevedo está em cartaz às quartas-feiras durante o mês de agosto, às 20:00 horas. Vale à pena ir ao Teatro Gamboa para apreciar o trabalho dos intérpretes, também professores da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, e o que eles fizeram com material escolhido para trabalhar sob a direção de Daniel Marques. O diretor soube imprimir leveza e agilidade, equilibrando os momentos de exacerbada comicidade com a delicadeza de certos momentos provocadores de sorrisos e não de gargalhadas.

A iniciativa da Fraternal Companhia de trazer para a cena os contos de Artur Azevedo é louvável, não só pelas qualidades da realização, mas pelo significado: mostrar para os espectadores a força de comunicação de Arthur Azevedo. Se os contos, que não foram feitos para o teatro, na forma como foram tratados, funcionam na ribalta, pode-se imaginar suas comédias, suas revistas, peças curtas e grandes textos, como O Mambembe e A Capital Federal, necessários de serem revisitados. Se as pesquisas atuais reavaliam a produção teatral do final do século 19 e início do século 20, o teatro popular, considerado por muitos como responsável pela decadência do teatro nacional, urge que se coloque em cena a produção de qualidade legada por essa gente, como Arthur Azevedo, que animou a cena brasileira no momento em que ela busca fortalecer a sua identidade.

Os aplausos no final mostram a satisfação de quem se deslocou até o pequeno Teatro Gamboa, espaço adequado para se ver Uma por Outra: histórias de Arthur Azevedo. No final da récita, o elenco dedicou o espetáculo a Derci Gonçalves, uma justa homenagem.

Elenco: Angela Reis, Daniel Marques, Gláucio Machado, Jacyan Castilho. Músicos: Maurício Azevedo e Vanessa Melo. Equipe Técnica: Daniel Marques (direção), Maurício Azevedo (direção musical), Renata Cardoso e Daniel Marques (cenário), Renata Cardoso (figurinos e maquiagem), Samanta Olm (assistência de figurinos e maquiagem), Irá Moutinho e Carlos Nunes (costura), Pedro Rodrigues (programação visual), João Meirelles (fotos), Angela Reis (produção executiva). Teatro Gamboa, agosto de 2008.


segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Registro 192: Comentário sobre uma lista de peças de teatro

Recebi a lista 150 Textos Drámaticos Fundamentais Para a Formação de Um Aluno de Artes Cênicas e acolhi. Listas são subjetivas, mas a lista do artista-professor Celso Jr segue alguns princípios. Ele não faria uma indicação seguindo apenas o seu gosto pessoal. É certo que a sua indicação leva em conta também o gosto, mas como esse gostar vem tecido de conhecimento sobre o teatro sua história, idéias, sujeitos, ela ganha uma outra dimensão, equilibrando-se entre subjetividade e objetividade. A leitura dessas obras contribuirá para a formação dos alunos de Artes Cênicas. É importante que eles leiam esse legado, não como uma obrigação. Ler por obrigação é o fim da picada. Nada é absorvido e logo se esquece a beleza do texto, os significados, a dimensão humana contida em cada personagem, em cada situação armada por esses “monstros do teatro”. Ao longo do tempo, seguindo os princípios do seu tempo ou rompendo com eles, os dramaturgos em tela construíram monumentos, às vezes levados à cena pelas leituras inovadoras ou não dos encenadores. O certo é que eles ainda comunicam pronfudidades da alma aos espectadores da (pós) modernidade. Alguns desses textos não conseguem mais o merecido lugar no palco da contemporaneidade. Muitas são as razões para que eles fiquem esquecidos nas estantes o último lugar para um texto de teatro. O lugar de uma peça é o palco.

Na lista em questão, sinto falta de alguns textos, mas eu que faça a minha. No entanto, gostaria de sugerir a inclusão de Longa Jornada Noite Adentro (Long Day’s Journey Into Night), de Eugene O’Neill e Leonor de Mendonça, de Gonçalves Dias.

150 TEXTOS DRAMÁTICOS FUNDAMENTAIS PARA A FORMAÇÃO DE UM ALUNO DE ARTES CÊNICAS


por Celso Jr

1. Orestéia: Hagamêmnon, Coéforas e Eumênides – Ésquilo
2. Prometeu acorrentado – Ésquilo
3. Édipo Rei – Sófocles
4. Antígona – Sófocles
5. Medéia – Eurípides
6. Hipólito – Eurípides
7. As troianas – Eurípides
8. As aves – Aristófanes
9. Lisístrata – Aristófanes
10. Os dois Menecmos – Plauto
11. Aulularia (A comédia da panela) – Plauto
12. Hécira (A sogra) – Terêncio
13. Fedra – Sêneca
14. Auto da barca do inferno – Gil Vicente
15. A vida é sonho – Calderón de La Barca
16. Fuenteovejuna – Lope de Vega
17. Dr. Fausto – Christopher Marlowe
18. Volpone – Ben Jonson
19. Hamlet – Shakespeare
20. Otelo – Shakespeare
21. Macbeth – Shakespeare
22. Rei Lear – Shakespeare
23. Romeu e Julieta – Shakespeare
24. Ricardo III – Shakespeare
25. Henrique V – Shakespeare
26. Comédia dos erros – Shakespeare
27. Sonho de uma noite de verão – Shakespeare
28. Noite de reis – Shakespeare
29. Alegres comadres de Windsor – Shakespeare
30. A mandrágora – Maquiavel
31. Escola de mulheres – Molière
32. Médico à força – Molière
33. As preciosas ridículas – Molière
34. O avarento – Molière
35. O doente imaginário – Molière
36. Dom Juan – Molière
37. Fedra – Racine
38. O Cid – Corneille
39. O triunfo do amor – Pierre Marivaux
40. Arlequim – servidor de dois amos – Carlo Goldoni
41. As bodas de Fígaro – Beaumarchais
42. Escola de maledicência – Richard Sheridan
43. Mary Stuart – Schiller
44. Fausto – Goethe
45. A dama das camélias – Alexandre Dumas
46. Juiz de paz na roça – Martins Pena
47. Quem casa quer casa – Martins Pena
48. As desgraças de uma criança – Martins Pena
49. Lição de botânica – Machado de Assis
50. O inspetor geral – Nikolai Gogol
51. Casa de bonecas – Ibsen
52. Espectros – Ibsen
53. Peer Gynt – Ibsen
54. Senhorita Julia – Strindberg
55. O pai – Strindberg
56. Dança da morte – Strindberg
57. O sonho – Strindberg
58. Os pequenos burgueses – Gorki
59. A gaivota – Tchekhov
60. As três irmãs – Tchekhov
61. Tio Vânia – Tchekhov
62. O jardim das cerejeiras – Tchekhov
63. O pedido de casamento – Tchekhov
64. O males provocados pelo tabaco – Tchekhov
65. O pássaro azul – Maeterlinck
66. O despertar da primavera – Frank Wedekind
67. Lulu – Frank Wedekind
68. Ubu-Rei – Alfred Jarry
69. A importância de ser prudente – Oscar Wilde
70. Cyrano de Bergerac – Ronstand
71. Baal – Bertolt Brecht
72. Galileu Galilei – Bertolt Brecht
73. O mendigo ou O cachorro morto – Bertolt Brecht
74. A alma boa de Setsuan – Bertolt Brecht
75. Aquele que diz sim – Aquele que diz não – Bertolt Brecht
76. Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello
77. Desejo – Eugene O’Neill
78. Calígula – Albert Camus
79. O zoológico de vidro – Tennessee Williams
80. Um bonde chamado desejo – Tennessee Williams
81. A morte do caixeiro viajante – Arthur Miller
82. As bruxas de Salém – Arthur Miller
83. Nossa cidade – Thornton Wilder
84. A cantora careca –Eugène Ionesco
85. O rinoceronte – Eugène Ionesco
86. A lição – Eugène Ionesco
87. Esperando Godot ­– Samuel Beckett
88. Fim de partida – Samuel Beckett
89. Ato sem palavras – Samuel Beckett
90. Vai e vem – Samuel Beckett
91. A visita da velha senhora – Dürrenmatt
92. O balcão – Jean Genet
93. O arquiteto e o imperador da Assíria – Fernando Arrabal
94. Fando e Lis – Fernando Arrabal
95. Guernica – Fernando Arrabal
96. O rei da vela – Oswald de Andrade
97. A moratória – Jorge Andrade
98. Auto da Compadecida – Ariano Suassuna
99. Eles não usam black-tie – Gianfrancesco Guarnieri
100. Morte e vida severina – João Cabral de Mello Neto
101. Dois perdidos numa noite suja – Plínio Marcos
102. Rasga coração – Oduvaldo Viana Filho (Vianinha)
103. Pluft – o fantasminha – Maria Clara Machado
104. Vestido de noiva – Nélson Rodrigues
105. Álbum de família – Nélson Rodrigues
106. Senhora dos afogados – Nélson Rodrigues
107. O beijo no asfalto – Nélson Rodrigues
108. Toda nudez será castigada – Nélson Rodrigues
109. Os sete gatinhos – Nélson Rodrigues
110. A falecida – Nélson Rodrigues
111. Boca de Ouro – Nélson Rodrigues
112. Viúva, porém honesta – Nélson Rodrigues
113. Look back in anger (Geração em revolta) – John Osborne
114. A volta ao lar – Harold Pinter
115. Traição – Harold Pinter
116. A história do zoológico – Edward Albee
117. Três mulheres altas – Edward Albee
118. Saved – Edward Bond
119. Insulto ao público – Peter Handke
120. O menor quer ser tutor – Peter Handke
121. Marat/Sade – Peter Weiss
122. O marinheiro que perdeu as graças do mar – Yukio Mishima
123. O templo do pavilhão dourado – Yukio Mishima
124. Roberto Zucco – B. M. Koltés
125. Tango – Slawomir Mrozéck
126. Os alpinistas – Osvaldo Dragún
127. Medeamaterial – Heiner Müller
128. Hamletmáquina – Heiner Müller
129. Descrição de uma imagem – Heiner Müller
130. Longe demais – Caryl Churchill
131. Cara de fogo – Marius Von Mayenburg
132. Shopping and fucking – Mark Ravenhill
133. Um amor de Fedra – Sarah Kane
134. Psicose 4.48 – Sarah Kane
135. Rosenkrantz e Guildenstern estão mortos – Tom Stoppard
136. Simplesmente complicado – Thomas Bernhardt
137. Memória da água – Shelagh Stephenson
138. A prova – David Auburn
139. Suburbia – Eric Bogosian
140. Atentados – Martim Crimp
141. Budro – Bosco Brasil
142. Novas diretrizes em tempos de paz – Bosco Brasil
143. Intensa magia – Maria Adelaide Amaral
144. Fulaninha e D. Coisa – Noemi Marinho
145. Nada será como antes – Claudio Simões
146. O cego e o louco – Cláudia Barral
147. Bolero – Paulo Henrique Alcântara
148. Entropia – Rodrigo Nogueira
149. A dona da história – João Falcão
150. A estrela do lar – Mauro Rasi

domingo, 3 de agosto de 2008

Registro 191: Arte -Postal - Endereços

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Aproveito para divulgar e convocar interessados em participar da exposição de arte-postal As Peças de Tchecov. Para tanto, visite:
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Registro 190: Lembrança da infância em...

“Tal como a mãe que aconchega no peito o recém-nascido sem acordá-lo, assim também a vida trata, durante muito tempo, as ternas recordações da infância” - sem discordar de Walter Benjamin (Infância em Berlim por volta de 1900), vejo que em mim as recordações de infância despertam involuntariamente. Esse acordar motivado pelo inesperado que irrompe no caminho do dia e nas veredas das horas torna o cotidiano um pouco mais rico. A estridência dos barulhos ou a suavidade de uma música provocam recordações como as de agora. Sinto no ar o odor dos bolinhos de tia Mirinha. Lembro a textura saborosa da massa fofinha e amarela dissolvendo-se na boca, depois que os olhos admiravam-lhes as formas intumescidas saídas de forminhas que as aprisionavam, mas determinavam seu crescimento para cima, abrindo-as convidativas para o apetite de menino. Apetite que devorava forma, textura e sabor por etapas, até que tudo se transformasse em pasta. Assados em forno de lenha, os bolinhos brilhavam aos meus olhos gulosos, já que vinham vitrificados com uma camada de manteiga derretida, aumentando a intensidade do amarelo vibrante das gemas dos ovos de galinhas criadas nos quintais e nas roças. Essa camada translúcida fazia com que as cores do assado, com suas tonalidades de marrom, combinassem com o amarelo do interior do bolinho, que aparecia pelas rachaduras provocadas pelo calor.

Vendidos nos bares da cidade, ou comercializados de porta em porta pela velha Davina, os bolinhos de tia Mirinha foram as delícias de minha infância, da mesma forma que os bolos grandes e os doces que ela fazia para completar o orçamento familiar, ajudando o marido a criar os muitos filhos. Ele atrás do balcão da venda de secos e molhados, ela na cozinha a bater imensas vasilhas de massa, a untar forminhas, acender o forno de lenha mantendo-o na temperatura exata para fazer sair da fornalha as preciosidades do fim de tarde, hora em que a guloseima ficava pronta abarrotando bandejas e tabuleiros. Pura alquimia a tarefa de tia Mirinha.

Conhecida por todos como Mirinha, seu nome Altamira ficava para as certidões guardadas em caixas no interior de algum armário ou guarda-roupa. Era assim que se guardavam as certidões de nascimento, batismo e casamento no tempo da minha criancice. Para os sobrinhos, era a tia Mirinha, gorda, do rosto redondo, sorriso acolhedor, voz firme e adocicada por um tom maternal de quem criou cinco filhos, todos adultos quando eu era menino. Alguns em São Paulo, outros perto dela. Sua casa exalava os aromas doces e a limpeza. A brisa corria das janelas sempre abertas pelo longo corredor, até os fundos onde se concentrava a cozinha. Tudo no lugar: quadros com paisagens, bibelôs, jarros, vasos com plantas, mesa sempre forrada com tolha bordada ou com pano de crochê, feitos certamente por minha avó. Na cozinha, chamava a atenção o brilho das panelas de alumínio, o tacho de cobre sem azinhavre e os apetrechos para as misturas que só ela sabia fazer.

Bolos do cotidiano transformavam-se em preciosidades nos dias festivos. Não os renegava, embora fosse fiel aos bolinhos que Davina entrega em casa. Fiel a eles. Saboreava os das festas, mas voltava aos pequeninos, certo de que eles eram os melhores bolinhos do mundo; e eram. Ainda hoje, ao ver as guloseimas nas doçarias, padarias e confeitarias, não encontro nada comparável aos bolinhos de tia Mirinha. Eles estão associados aos momentos mais felizes entre os tantos que tive em minha infância. Tanto os bolinhos quanto os instantes de felicidade amenizaram os dias tristes e as tensões de um menino que sabia ser constituído de outra matéria: a dos sonhos, da fantasia, da solta imaginação que me faziam vagar para bem longe, quando os medos se faziam presentes. Ah, os bolinhos de tia Mirinha só encontram rivais nos bolinhos de Tia Nastácia.

sábado, 2 de agosto de 2008

Registro 189: Cotidiana

A propósito do Registro 188, recebi um comentário assinado por Anônimo. Ele diz que se não existe um Deus, existem homens que acreditam na paz, na igualdade, na justiça e que a História reserva páginas para esse homens. Concordo. Mas diante do fato de que essas páginas estão sendo relegadas em favor daquelas que pregam o contrário ou que não pregam absolutamente nada, fico perplexo, incomodado mesmo. Ainda assim, guardo o que restou na caixa de Pandora, mesmo quando amanheço emocionalmente niilista. Leiamos pois, as páginas que relatam o que pensam e fazem esse homens e mulheres para quem a História reservou páginas. A lista é enorme e nela, eu registro artistas, filósofos, místicos, poetas. Faço essa relação sabedor de sua incompletude, mas ela é sinaliza possibilidades... Ou minhas idiossincarsias.
Giornado Bruno
Galileu
Adriano, o imperdor
Tereza de Ávila
Fernando Pessoa
Machado de Assis,
Antonin Artaud
Anton Tchecov
Califa Ali Ben Ali
Sócrates
Sófocles
Eurípedes
Ésquilo
Shakespeare
Fauzi Arap
Nelson Rodrigues
Miguel de Cervantes e Dom Quixote
Lao-tsé
Cristo
João XXIII
Martin Luter King
Chaplin
Walter Benjamin
Constantin Stanislawki
Nietzsche
Luchino Visconti
Ozu
Kurosawa
Milton Santos
Agostinho da Silva
Lina Bardi
Martim Gonçalves
Jezy Grotowski
Carlos Drumonnd de Andrade
Murilo Mendes
Manoel Bandeira
Cecília Meireles
Hannah Arendt
Joaquim Nabuco
Manuel Querino
Manuel Faustino
Torquato neto
José Vicente
Janis Joplin
....
Amanheci com o espírito pra cima, contente comigo mesmo, com o mundo com aqueles que me acompanham. Uma esperança pousou na janela do meu quarto. Fiz a habitual caminhada matinal. Aproveitei para conversar com meus botões e olhar a cidade que amanhece aparentemente tranquila. Ah que saudade do trema!
Antes de sair alimentei com a doçura do mel os passarinhos "amarelinhos" e os colibris que se acostumaram com o néctar produzido pela abelhas. Tenho uma amiga no Barbalho que também alimenta pássaros. Livres de gaiolas, eles voam pela minha sala e cantam festivamente quando o bebedouro está cheio. É certo que reclamam quando deixo de abastecê-lo. Percebo a cobrança pelo tipo do canto, eles mudam a forma de cantar. O som cortante e incisivo é sinal de que falta água com mel.
Ontem à noite dei as três primeira aulas do semestre que se inicia. Aulas de História do Teatro Brasileiro. Apresentei o plano de curso e comecei lentamente a falar sobre dois conceitos, o da história de Walter Benjamin e o de transculturação de Ocatvio Ianni, para daí estudar acontecimentos, sujeitos e idéias construtoras do pensar-fazer teatro entre nós. Antes da aulas conversei com um aluno que deseja tornar-me seu orientador no trabalho de conclusão de curso. Trocamos algumas palavras sobre o tema que lhe interessa: Artaud.
São dez horas e vinte minutos. O registro se encerra. Tenho outras coisas para fazer: reponder a carta que veio da Itália da Psyche Out Fanzine de Silvano Pertone, escrever algumas linhas do livro que se arrasta sem que eu dê conta dele. Na verdade, o tema vem exigindo cuidados e por esse motivo opero vagarosamente. Por falar em livro, preparo-me para o lançamento de Sob o Signo das Luzes pela FTD. O livro está pronto e a editora prometeu lançá-lo na Bienal do Livro de São Paulo.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Registro188: Constatação


Hoje, a sensação de ser estrangeiro em minha própria terra tornou-se fortemente presente. A constatação não é de agora. Desde que parti e retornei para breves estadias, o sentimento de não pertecimento era vivido sem que isso provocasse dor.
Desde o passado até agora, lidar com essa emoção sempre foi de certa maneira facilitado pelas ocorrências, algumas boas outras nem tanto. Ocorrências na vida de quem se sente cidadão do mundo, cujo vento torna-se a cidade, versos que ouvi em uma canção popular na voz de Fernando Lona.
Céu de fim de tarde. Horizonte sem fim. Descrever a paisagem que se descortina da orla da cidade é querer o infinito. Descortinar o que há para além. O olhar traça uma grande panorâmica deslocando o ponto de vista do mar aberto para a a muralha de pedra e cal. Mas o que se lê da cidade são apenas fragmentos. A dinâmica vertiginosa não deixa o olhar captar além das aparências. Tudo se move rapidamente. O que se vê é a fisonomia sem que se possa captar o verdadeiro eu da cidade, sua gente move-se como figuras que se esvaem entre luz e sombra.
A foto foi feita em 28 de julho de 2008. Postado na mureta que circula a Avenida Oceânica para os lados do Farol da Barra, o olhar não quer ver a cidade, mas ela vai se construíndo pela imaginação e o que ela cria não diz muito da cidade. Ela constrói outra cidade. Uma cidade que combine mais com a paisagem descortinada ao por do sol. Outro rosto se forma e anda-se atrás dessa máscara imposta pelo céu de luzes cambiante e mar... e mar... Amar cada cidade que te é dada. Aprender com elas.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Registro 187: A vida é sagrada

Tem dias que o Mais, suplemento do jornal Folha de S. Paulo, está demais. Demais de bom, como no último domingo, 27 de julho. Nem sempre é assim, às vezes o Mais é de uma "chatura" sem fim, pedante que nem ele só.
Acabo de ler o número que traz na capa o poeta fuzilado pelos franquista, Federico Garcia Lorca, ou Lorca para aqueles que gostam e amam o poeta e portanto tratam-no com intimidade. Sobre Lorca, fala o cubano Urbano Martínez Caramante, contando-nos sobre a pesquisa realizada em torno da visita do poeta espanhol a Cuba, nos anos 30.
"Liberdade, liberdade abre as asas sobre nós"
Leia, a entrevista é reveladora.
Mais adiante, Luiz Costa Lima e João Cezar de Castro Rocha escrevem sobre a imensidão que é Antonio Candido, cuja Formação da Literatura Brasileira é referência.
Na folha seguinte Franklin de Matos (que não é meu parente nem aderente) resenha o livro de Tzvetan Todorov, O Espírito das Luzes. Bela resenha, faz a gente correr para a livraria e sair com o livro para sentar e ler e aprender. Nesses tempos bicudos, de caretice travestida de transgressão, de fundamentalismo (religioso, político, racial, para ficar só por aqui), gotas dos princípios definidos pelas Luzes caem bem. Melhor ainda quando lidos e vividos criticamente. O que não dá é pra ficar achando que os tempos pós-modernos superaram os preconceitos, os dogmas, as instituições e por aí vai.
Cito: "Autonomia do indivíduo e da sociedade, finalidade humana de nossos atos, universalismo, laicização, vontade geral, equilíbrio e independência dos poderes, invenção da história como relato dotado de sentido imanente, invenção da arte, do artista e da história da arte: alguém duvida que as Luzes sejam responsáveis por boa parte de nossa identidade atual?
Diante das teocracias islâmicas de hoje, da base norte americana de Guatánamo e das ameaças à pesquisa sobre células-tronco, alguém duvida de que precisem ser defendidas?"
Assim Franklin Matos encerra sua resenha sobre o livro em questão.
Por fim, na última página a lúcida porrada em nossos corações e mentes. Ela nos vem do filósofo esloveno Slavoj Zizek Em o Mutante, o esloveno apresenta uma ridografia de Radovan Karadzic, o líder-poeta que aterrorizou com sua guerra de limpeza étnica a região dos Balcãs. Gostaria de citar o texto na íntegra, mas o trecho final vale ser transcrito:
"O predomínio da violência religiosa (ou etnicamente) justificada pode ser explicado pelo próprio fato de vivermos numa era que se vê como sendo pós-ideológica.
Como já não é possível mobilizar grandes causas públicas com base na violência em massa - ou seja, a guerra - na medida em que nossa ideologia hegemônica nos chama para desfrutar nossas vidas e realizar nossos eus, é difícil para a maioria das pessoas superar sua repugnância diante da idéia de torturar e matar outro ser humano.
A grande maioria das pessoas é espontaneamente "moral": matar outro ser humano é profundamente traumático. Assim, para convencê-las a fazê-lo, é preciso uma causa "sagrada", maior, que faça os melindres individuias em relação ao assassinato parecerem triviais.
A religião ou o pertencimento étnico se enquadram perfeitamente nesse papel. É claro que existem casos de ateus patológicos que são capazes de cometer assassinatos em massa apenas por prazer, matar simplesmente por matar, mas eles constituem exceções raras.
A maioria de nós precisa ser "anestesiada" contra nossa sensibilidade elementar ao sofrimento do outro. E para isso é preciso uma causa sagrada.
Mais de uma século atrás, em "Os Irmãos Karamázov", Dostoiévski lançou um aviso contra os perigos do niilismo moral ateu: "Se Deus não existe, então tudo é permitido". A lição que nos ensina o terrorismo de hoje é que, pelo contrário, se existe um Deus, então tudo - até mesmo explodir centenas de espectadores inocentes - é permitido àqueles que afirmam agir diretamente em nome desse Deus, como instrumento de Sua vontade."
Dá o que pensar, não?
Por hoje é só. Se alguém concorda ou discorda, o diálogo está aberto. Alguns podem considerar que palavras ao vento dispersam. Mas é isso mesmo. Elas podem cair em bons olhos-ouvidos-mentes.
Agora, eu quero é comer com coentro, porque, como dizia Sílvio Lamenha, "Poesia é axial."

terça-feira, 29 de julho de 2008

Registro 186: Eleição e igrejas

Em pleno século XXI, o retrocesso O jogo político eleitoral atrela-se as igrejas. Com isso, não se leva em conta o passado do candidato, sua postura ética diante do mundo e do outro, nem seu programa político e sua vinculação com o pensamento moderno. Basta que ele seja fiel a sua igreja que passa a ser um cidadão acima de qualquer suspeita. É como se a religião servisse de blindagem para os candidatos que correm por aí a divulgar o seu credo em detrimento do outro como se ele fosse eleito para gerir os interesses do seu grupo religioso.
Tal fato acirra cada vez mais a intolerância e as divisões em um mundo que se quer plural e diverso.
Esse registro deve-se ao fato de ter lido o comentário assinado pelo jornalista Josias Pires, enviado por e-mail. Transcrevo a nota tal qual recebi. Concordo em parte com ela. Os dois primeiros parágrafos vão ao encontro do que penso a respeito dos acontecimentos que envolvem políticos que colocam em primeiro plano o seu credo religioso, induzindo o eleitor a escolhê-lo. Manipulação. Quanto ao restante da nota não tenho muito o que dizer, mas acho que ela é tendenciosa, da mesma maneira que a reportagem citada.
Um pouco menos de "igrejice" faria bem aos políticos e aos eleitores. E quando falo isso, não nego a grandeza da religiosidade. O que se postula é que cada um cuide do sua crença e não faça dela bandeira para ganhar eleição. Tal postura vai ampliar cada vez mais o fosso entre os indivíduos, já que cada igreja se acha detentora da verdade, caminho aberto para o pensamento único.
Estou fora!
"A "contaminação" do processo eleitoral em Salvador pela dimensão religiosa pode ser considerada uma das novidades deste início da campanha. De fato, as atitudes tomadas pela administração do atual prefeito que levaram à demolição de um templo religioso e a má vontade com a regularização fundiária das casas-de-santo – numa cidade negra em que o candomblé sempre foi um fator de resistência étnica, religiosa e cultural – ajudaram a botar mais lenha na fogueira da intolerância religiosa, uma praga que ninguém de bom senso pode querer para Salvador, cidade que já tem problemas em demasia para resolver.

O poeta Caetano Veloso já cantou o seu desejo de que um prefeito desse um jeito na Cidade da Bahia. Certamente precisaremos de gerações de bons prefeitos para que a nossa cidade saia do caos econômico e social em que se encontra. Acredito que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa em benefício da cidade, na medida em que cumpramos o nosso papel, transmitindo informações de qualidade, bem apuradas e bem escritas. Sabemos que nem sempre isto acontece e precisamos estar vigilantes para corrigir erros e continuar perseguindo os acertos.
O que me parece inaceitável na reportagem do jornal A Tarde sobre a visita de Pinheiro ao terreiro Maraió Lage é que o repórter "informa" que a yalorixá teria autorizado fotografias no interior do templo e que o candidato é que teria se recusado a ser fotografado. Conversei hoje pela manhã com Mãe Jojó que assegurou ser "mentira" – ela jamais teria autorizado isto, inclusive porque nunca procedeu desta forma e não seria agora, em plena campanha eleitoral, que iria mudar o seu comportamento. É proibido, sim, fazer fotografias no interior do terreiro – é uma regra básica daquela Casa. A postura de Pinheiro foi respeitar o desejo da mãe-de-santo.
Outro aspecto que pode ser apontado como desmedido foi o tamanho da foto. É a primeira vez que o jornal publica uma foto daquela dimensão de um candidato na atual campanha. Uma foto do candidato saindo do terreiro depois de ter conversado com Mãe Jojó. O significado da foto foi construído pelo texto – este é um caso em que as palavras falam mais do que uma imagem. Por fim, acredito que este tipo de jornalismo é uma contribuição para atiçar o clima de intolerância religiosa que grassa em alguns setores da nossa cidade. Quem ganha com isto?"

domingo, 27 de julho de 2008

Registro 185: Sobre a cidade

É A CIDADE QUE HABITA OS HOMENS OU SÃO ELES QUE MORAM NELAS?

Nelson Brissac

As cidades habitam os homens ou são eles que moram nelas? Hoje nem a cidade sem rastros e sem história nos habita, nem os homens que não sabem mais ver habitam a cidade. A alma dos lugares parece ter-se perdido para sempre. Reduzidos a locais moldados pelo hábito, com seus habitantes conformados com traçados preestabelecidos. É o aparente paradoxo da obra de Benjamin: o encontro da cidade com os homens se dá quando estes percorrem terras desconhecidas ou quando se fazem estranhos em sua própria cidade.

Porque só assim conseguem descobrir onde na cidade ainda vibram sinais de vida, por onde passa o lençol freático que a inunda de rumores ou de onde vem a luz que por vezes a faz resplandecer. É preciso redescobrir a paisagem das cidades.
__________________________________________________________
BRISSAC, Nelson. É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nelas? In: Revista da USP. Disponível em htttp://wwww.usp.br/revistausp/n15/fjeantexto.html Acesso em 21 de julho de 2004

sábado, 26 de julho de 2008

Registro 184: Passeio pela cidade

Ontem, aproveitando o último fim de semana de férias, sem ter muito o que fazer, resolvi andar sem rumo pelo centro da cidade. Gosto de fazer essas excursões, nem sempre prazerosas, mas estimulantes. A temperatura amena, muito mais outonal que invernal, torna a tarde agradável e a caminhada menos suarenta. Munido de paciência e de máquina fotográfica observo a sujeira das ruas, tão diferente da avenida próxima aos hotéis. Tomo o ônibus. Marcas da diferença.
Enquanto escrevo essas notas eu ouço Gal Costa. As canções do CD "O Sorriso do Gato de Alice" embalam o que me vem na cabeça. Tento reconstruir o passeio de ontem.
No ônibus, ouço a conversa de dois passageiros atrás do meu banco. A conversa me interessa. Controlo-me para não olhar e conferir quem são. Espero até eles descerem para conferir. A mulher comenta o que vê como se o outro passageiro não enxergasse a paisagem através da janela. Ou como se ele estivesse fazendo essa travessia depois de muitos anos. O casal desce nas proximidades do Campo Grande. Ele é bem idoso, muito bem vestido e de chapéu. Ela é mais jovem, deduzo ser sua filha. Veste-se como todas as mulheres que vejo pela cidade, calça apertada, blusa mais ainda, deixando entrever as dobras do corpo que tenta se acomodar ao modelo escolhido.
Resolvo descer na Piedade. Gosto da praça e mais de sua fonte. Ela me traz recordações da infância, quando estive pela primeira vez em Salvador. Lembro-me que a praça era mais bonita. Havia menos árvores, mas os arbustos floridos eram abundantes. Estátuas decoravam os canteiros e no meio do jardim a fonte, ainda existente. Hoje ela destoa do planejamento modernoso submetido ao jardim, mas continua charmosa, talvez o objeto mais belo na praça. Há também os bustos, um deles recentemente roubado, mas reposto, dos líderes da Conjuração Baiana, também chamada de Revolta dos Alfaiates. Justa homenagem, já que na praça foram enforcados.
Nos bancos que circundam o jardim muitos homens conversam. São idosos. Disseram-me ser aposentados que ali se reunem. Moradores de rua, mendigos e desocupados completam o cenário. Passantes se arrastam pra lá e prá cá num ritmo que às vezes me exaspera, principalmente quando apressado. Não é o caso nesse passeio sem compromisso. Mas noto sempre uma lentidão nas pessoas e pergunto-me sempre o motivo de elas pararem para conversar no meio do passeio público sem se importatr com o outro que às vezes tem que se espremer para passar rente a parede ou caminhar pela rua, visto que os dialogantes não conseguem perceber quem passa. Costumes, hábitos, questões culturais, dizem...
Passo pelo Convento da Lapa e me pergunto o que nele se abriga. Somente a igreja está aberta. Noto na entrada uma faixa com a seguinte frase: "Jesus te espera". De repente me ocorre que as igrejas disputam fiéis entre si usando os mecanismos da que condenam ou perseguem.
Passo pelo Central, o colégio onde fiz o curso clássico. Portanto sou antigo. A avenida Joana Angélica no meu tempo de calça azul-marinho e camisa de tricoline branco era mais bonita., o colégio também. Mas como disse o compositor popular, aqui, o que é construção já é ruína. Os casarões que sobraram ao longo da avenida estão descaracterizados. Viraram monstrengos arquitetônicos se é que se pode chamar de arquitetônico algo que não é nada. A feiúra impera.
As ruas estão cheias de caras de políticos com seus sorrisos, congeladas falsidades, tentando mostrar o que não são. Mas a fotografia revela e diz o que lhes vai na alma. Coitado de quem acredita em políticos. A paisagem está suja.
Dou com os costados nas imediações da Igreja de Santana, resolvo entrar para ver as imagens restauradas. A de São Benedito destruída por uma fanático fundamentalista e a de Santana. Constato que o templo está fechado, mas insisto. Por fim encontro uma porta lateral aberta.
Quase desisto de fotografar a imagem de Santana. Um ventilador preso na parede da secular igreja, como uma idéia fora do lugar, permanecia em todos os ângulos que me posicionei. Eu queria apenas a imagem e detalhes dos elementos decorativos, mas o ventilador intrometia-se e a objetiva capatava-o. De todos os lados que me posicionei estava ele lá, dizendo-se tecnologicamente moderno. Não deu para fotografar a outra imagem. Ela estva na sacristia e a luz não favorecia. Não quis usar o artifício de flash.
Os pássaros que cantam na minha janela atraídos pelo bebedouro com água e mel, cantam mais ainda quando ouvem as canções na voz de Maria das Graças. São dez horas de uma manhã de sábado. Há sol. O dia avanço com poucas promessas...
Descendo a ladeira em direção a Baixa dos Sapateiros, chegam-me aos ouvidos os acordes da canção de Ari Barroso. Ela toca somente em mim. Meu coração balança. E eu flâneur vou embalado no embalo da canção. Como não sei assobiar, cantarolo baixinhos as primeiras frases e ando por entre lojas de roupas populares até a Ladeira da Praça. Antes de subi-la, entro numa loja de coisas antigas numa daquelas ruas próxima a Casa de Angola na Bahia. Ruínas.
Retorno para casa, meu casúlo. Já é noite. Ao me aproximar sinto o cheiro de um bom incenso que vem do seu interior. A luz coada através das cortinas dão uma sensação de segurança.
Sinto o esplendor nas coisas.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Registro 183: Tem endereço certo

ALGEMAS

Raimundo Matos de Leão


Para te ter livre e teu,
para te amar sem medidas,
aprisionei o teu retrato
no meu álbum de recordações.

Rompi as cordas do egoísmo.
Algemei o teu retrato na memória.

Prisioneiro do meu álbum,
trancado na memória,
tatuado no meu corpo,
tenho-te livre para te amar.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Registro 182: Sobre gente e livros

Com fé em Deus

Cléo Martins
Membro da União Brasileira de Escritores


Há sete dias sobrevivo à virose patropi; aos costumes, entre nós cidadãos brasileiros. Agora, estou viva, penso em Avicena, o “príncipe dos médicos persas”, no combate à peste bubônica, na alta Idade Média. O professor mulçumano é personagem de Noah Gordon, romancista de quem sou fã de carteirinha. Vale a pena a deliciosa leitura de The physician, cuja tradução em português – O físico, deixa a desejar e dói.

Neste meio século sob o sol e à sombra, jamais padecera de calafrios encharcados. A virose me pegou feito neblina, última sexta. De repente, não mais que de repente. Dirigia lamentando a morte de Dinha do Acarajé, a simpática baiana que levou sua terra para mais adiante. Que Deus a tenha em Si. A memória da famosa quituteira foi reverenciada dia 20, na Câmara dos Vereadores; iniciativa de Olívia Santana, a Negona. Esta virose maledeta me impediu de comparecer a tudo que não fosse imperiosamente necessidade profissional. Deixei de participar do Encontro de Corais na Reitoria da Ufba e festividades dedicadas a Oxóssi, no Corpus Christi, em venerandos terreiros de Salvador.

Somente a chegada de meu novo livro Nanã, a senhora dos primórdios – uma realização da editora Pallas do Rio de Janeiro – conseguiu trazer-me um pouquinho de energia e o esboço de sorriso, Em breve, nas livrarias.

Fazendo-me mais forte do que sou, aproveitei o recesso para ler as novidades e reler livros de outras épocas. Adoro ler. O falecimento de Zélia Gattai – que perda lamentável para a cultura brasileira – fez com que lese, novamente, o superclássico Anarquistas graças a Deus: viagem à velha São Paulo dos bravos paisá. A literatura nacional cresceu muito a partir dessa obra da escritora, que tive o prazer de conhecer em 1992, no Axé Opô Afonjá, apresentada por Antonio Olinto, o magnífico autor de A Casa da Água, membro da Academia Brasileira de Letras, então colega de Jorge Amado. A escritora Zora Seljan, esposa de Olinto, falecida há pouco mais de três anos, esbanjava saúde e simpatia. Haveríamos de nos encontrar em Londres, em 1994.

Outro livro supimpa me caiu às mãos, Da Costa do Ouro – publicação da Editora Saraiva (2001) -, do escritor baiano Raimundo Matos de Leão. Recebeu, em 2002, o prêmio literário Adolfo Aizen, de literatura infantil e juvenil, na categoria romance histórico da união Brasileira de Escritores.

O tema gira sobre questões raramente exploradas da literatura do País: a problemática da cultura africana; os preconceitos, diferenças e semelhanças entre as religiões, buscando enfatizar a pluralidade cultural, a ética e o respeito à diversidade.

A trama se desenvolve aqui na cidade da Bahia, ao tempo da Revolta dos Malês, em 1835. Os jovens precisam ler esta obra sensível deste Brasil que haverá de se livrar da dengue e inominadas viroses. Com fé em Deus, minha gente
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Publicado em A Tarde, edição de 23 de maio de 2008

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Registro 142: Para o dia dos namorados

Hoje é dia dos namorados. Que ele seja leve para todos nós que gostamos de uma aconchego., de olho no olho, de carícias e intensas ternuras.

Que os namorados, e namoradas de ontem e de hojem mandem lembranças, abraços, beijos e queijos. Smak! Hoje, é bom lembrar: qualquer forma de amor vale a pena, como disse o poeta da canção popular Milton Nascimento. E se amor rima com dor, que não sofreu dores de amores. E não pense que Dolores que sofre de amores.

Registro 141: Divulgação


A Escola de Teatro da Ufba comemora 52 anos em 13 de junho. por conta de sua instalação no antigo Solar Santo Antônio, seu primeiro Teatro, atual Martim Gonçalves, recebeu o nome do santo. Para celebrar o aniversário, a instituição lança, às 18 horas, em sua sede, no Canela, três publicações do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC/ET/Ufba).

A primeira é a revista Repertório, que chega à nona edição e tem a poética e a política da diferença como tema. De acordo com os organizadores do evento, a publicação é uma tentativa de focalizar as artes cênicas afinadas com o debate político sobre processos sociais excludentes. A edição apresenta dois ensaios que discutem a história e a memória da escola da Ufba, primeiro curso de Artes Cênicas ligado a uma instituição de nível superior no País. Os ensaios são de autoria de Raimundo Matos de Leão e Jussilene Santana, que pesquisam sobre a história do teatro na Bahia.
Raimundo Matos de Leão é autor do livro Abertura Para Outra Cena: o moderno teatro na Bahia, editado pela Edufba em 2006. O livro narra a criação da Escola de Teatro e discute os problemas derivados da significativa iniciativa do reito Edgard Santos.

O Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade (Gipe-CIT) lança dois cadernos chamados Estudos em Movimento..

Os Anais de Etnocenologia trazem textos de pesquisadroes brasileiros e franceses. “A etnocenologia é o estudo das artes do espetáculo e não se restringe ao teatro. Analisa a dança, o circo e outras coisas que tem a ver com a perspectiva do espetáculo”, diz Armindo Bião, organizador dos anais.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Registro 140: Um quadro de minha autoria

Êxtase
Raimundo Matos de Leão
2008
Mista sobre tela
80 x 80 cm