quarta-feira, 11 de abril de 2007

Registro 38: O Ponto de Fuga de Jorge Coli


O crime de todos nós

JORGE COLI

A força das crenças confere realidade ao que não existe. Houve um tempo em que se acreditava no "brasileiro cordial". Fazia parte da ficção que se denomina "identidade nacional".Maria Sylvia Carvalho Franco desmontou esse mito em sua tese "Homens Livres na Ordem Escravocrata", de 1969 [ed. Unesp]. Desmontagem no campo reflexivo e teórico: foi preciso que a violência cotidiana ameaçasse a segurança de cada um para que a tal cordialidade "inata" dos brasileiros ruísse plenamente no âmbito dos sentimentos coletivos. O livro "Cangaceiros", de Élise Jasmin (ed. Terceiro Nome, 2006), demonstra até que ponto, no Brasil, a violência se transformou, de maneira oficial, em crueldade. Ele reúne quase 90 fotos retratando Lampião e seu bando. Algumas, que formam o epílogo, são terríveis.Duas exibem cadáveres amarrados a uma prancha, em poses arranjadas, cercados por civis e militares, como se fossem troféus de caça.Outra mostra soldados diante de um corpo acéfalo, sobre o qual, por piada, colocaram uma garrafa de cachaça. As imagens se sucedem. Um grupo militar, com seu oficial, se organiza à volta de três cabeças decepadas. Um cangaceiro se perfila ao lado de uma outra cabeça que, atada pelos cabelos longos, pende com a boca aberta. Nesse caso, o vivo e o morto eram amigos, explica a legenda.Há naturezas-mortas macabras, em que composição se ordena com um senso artístico da simetria. Às cabeças cortadas se acrescentam coisas que pertenceram aos defuntos: chapéus, embornais, cartucheiras. Com Zepelim, cangaceiro mulato, num requinte de "mise-en-scène", alguém teve a idéia de manter sua pálpebra esquerda aberta graças ao auxílio de um palitinho.
Psicose. Essas fotos, dos anos de 1930, foram publicadas na imprensa. Décadas antes, Euclides da Cunha descrevia, no final de "Os Sertões", as frias atrocidades cometidas sobre os resistentes de Canudos. O autor conta: quando descobrem a cova de Antônio Conselheiro, morto antes do término dos combates, desenterram o corpo que já apodrecia. Fotografam-no, lavram uma ata e o devolvem à cova. Antes de cobri-lo novamente com terra, alguém, usando "uma faca jeitosamente brandida", decepa o cadáver. Euclides da Cunha prossegue: "Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio".
Cutelo.Pedro Americo pintou, em 1893, seu quadro "Tiradentes Esquartejado", que se tornaria célebre.Nunca outro herói nacional, em nenhum lugar do mundo, foi representado assim, retalhado como num açougue. Pedro Americo expõe, com clareza, a crueldade oficial. Seu Tiradentes é irmão dos jagunços de Canudos e dos cangaceiros de Lampião.
Pesadelo. Os três casos, de Tiradentes, dos jagunços e dos cangaceiros, pressupõem uma ação justiceira. Justiça que contém um álibi de vingança saboreada. Sabor de sangue. A crueldade investiu contra cadáveres; ela não nos fala dos punidos: revela a alma dos punidores. Hoje, não se cortam mais cabeças, pelo menos não de modo oficial e público. Porém entulham-se presos nas cadeias, em condições abomináveis. A justiça continua a ser sentida como punição e vingança. Diante de um crime, é fácil reagir instintivamente, desumanamente. No impulso, "pagar a pena", punir, vingar brotam primeiro. Só lá para trás, bem depois, é que se arrasta, quase irrisória, a idéia de compreender, de sanar, de educar, de recuperar.
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O texto foi publicado originalmente em Mais, Folha de S. Paulo, 8 de abril de 2007.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Registro 37: Ações afirmativas???

Em Boca de Matilde

Gilson Jorge

A declaração feita pela ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção Social da Igualdade Racial (Seppir) à BBC, de que considera natural que um negro não queira conviver com brancos quase “passou em branco” nos jornais diários e na TV, mas mereceu uma análise mais profunda em publicações semanais. Houve quem defendesse a idéia de que o assunto já foi suficientemente explorado e que não valeria a pena se estender em um debate sobre o que pode ter sido apenas a má interpretação por parte da jornalista. Mas as palavras estavam ali.

Entretanto, mas preocupante do que a frase da ministra, que pode até ser vista como um mero tropeço verbal, é a constatação de que há um discurso e algumas ações dentro e fora do movimento negro que se encaixam perfeitamente em uma tendência de acirramento das tensões “raciais”. Ou, como declarou ao caderno Mais da Folha de S. Paulo a antropóloga Yvonne Maggie, a incitação ao ódio “racial”. O racial vai entre aspas porque cientistas sociais abandonaram a noção de que existem raças branca, negra e indígena. Ninguém é obrigado a concordar com a igualdade, mas quem agir de forma racista deve encarar a lei.

Em fevereiro passado, durante um encontro com jornalista em Salvador, um artista branco (para os padrões locais) narrou um episódio em que foi cercado por homens negros que o espancaram sem que ele tivesse feito nada para provocar a violência. Isso foi mais de duas décadas, mas o artista continua acreditando, ou dizendo que acredita, que o ato foi justificável pelo fato de ele ser branco e de os brancos terem subjugados historicamente os negros.

(...)

A noção de que quem foi açoitado pode também açoitar resvala para um perigoso campo em que cada um pode decidir, com base na sua experiência pessoal, a quem pode atacar física ou psicologicamente. Mulheres que apanharam dos maridos podem reivindicar o direito a odiar todos os homens. Pessoas que sofreram abusos sexuais de padres na infância podem clamar que toda batina esconde um pedófilo.

Qualquer pessoa, independentemente da cor que carregue na pele, tem o direito de levar uma vida digna e respeitável. A ela não devem ser imputados os crimes e pecados cometidos por outras pessoas, apenas os que ela mesma eventualmente realize. Como ministra de Estado, Matilde Ribeiro deveria refletir sobre o impacto que a sua fala pode ter em jovens ávidos por achar em quem atirar a primeira pedra.

Gilson Jorge, jornalista, é repórter de Brasil. O texto foi publicado em Opinião, A Tarde, 5 de abril de 2007.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Registro 36: Roda de Ibejis


Enviaram-me a foto por e-mail e sem referência. Espero que o autor
se manifeste para que eu possa fazer o registro.
A imagem é deslumbrante na sua simplicidade e diz tantas
coisas para os nosso olhos por vezes nublados.
Apesar das cisrcuntâncias, amargas, as crianças brincam e
em suas brincadeiras revelam tantas coisas miúdas,
mas que fazem a diferença.
Roda-mundo

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Registro 34: Olhai...Dizei...Heverá dor igual a minha dor?





















Lá Pietà
Michelangelo

Para as mães que perderam seus filhos
e filhas
na violência do tráfico e das drogas
ou então, vitimados nas malhas do preconceito e da
discriminação.
Para todas elas que viram seus filhos estuprados,
violados,
emasculados,
subjugados
ou arrastados pelas ruas como um Judas em Sábado de Aleluia.
Para as mães que tiveram seus filhos seqüestrados e
torturados
moral e fisicamente
Para aquelas que choraram e gemeram
nas delegacias, necrotérios, cemitérios, ruas.
Para as que viram seus rebentos
podados
nos hospitais
nos campos e estradas
nas fábricas
nas repartições.
Para as mães que viram seus filhos e filhas mendigos.
Humilhados e ofendidos.
Para as mães que perderam suas crias...
iludidas,
expostas,
ridicularizadas,
fantasmáticas criaturas do mesmo sempre-igual.
Para as mães que guardaram a sua dolorosa dor
diante da arrogância,
cinismo
descaso
autoritarismo.
Para as mães...

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Registro 34:


Meditação é principalmente um meio para se atingir a liberação espiritual. Seus vários métodos são designados para afrouxar os laços físicos, permitindo que o individual ascenda ao transcendental, ao reino espiritual. Diz-se que quem realiza isto com sucesso atinge o Rúach Hacodesh, a “Inspiração Divina”, que é o termo hebraico genérico para “Iluminação”.

O mais conhecido método contemporâneo de meditação é o que envolve um mantra, uma palavra ou frase que é repetida continuamente durante um certo período de tempo A pessoa concentra-se no mantra à exclusão de tudo mais, limpando a mente de todos os pensamentos estranhos e separando-o do fluxo normal da consciência. Neste método, o mantra pode ser repetido verbalmente ou a repetição pode ser completamente mental. Este tipo de meditação é encontrado na Cabalá, especialmente entre as escolas mais antigas. Nos Hechalot, por exemplo, a pessoa começa sua ascensão espiritual repetindo 112 vezes vários Nomes Divinos.

Meditação com mantra é um exemplo de meditação estruturada dirigida externamente, na medida em que a pessoa se concentra em uma palavra ou frase definida, no lugar dos pensamentos espontâneos da mente (vagar mental). Como envolve uma prática específica, repetida por um período fixo de tempo, ela é considerada uma meditação estruturada.

Outro exemplo de meditação estruturada dirigida externamente é a contemplação, onde a pessoa olha fixamente para um objeto, colocando toda sua concentração nele. Em práticas ocultas, o tipo mais conhecido de contemplação envolve a concentração visual em uma bola de cristal. Outros tipos de contemplação envolvem mandalas, quadros ou letras, onde a pessoa se fixa nelas, enquanto esvazia a mente de todos os outros pensamentos. Na meditação cabalística, o mais simples instrumento contemplativo é o Tetragramaton (ou Tetagrama, o Nome Inefável de Deus), e isto é discutido até mesmo em trabalhos não cabalísticos. Formas mais complexas também são usadas, e este método parece haver alcançado seu ponto mais alto sob a influência do rabino Shalom Sharabi (1702-1777).

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KAPLAN,Aryeh. Meditação e Cabalá: teoria e prática. São Paulo: Editora Sêfer, 2005, p. 23

Registro 33: Sobreviventes


Registro 32: Estudos, década de 90

Peixe

Cuia Grão

Lua

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Registro 31: Na matinê do Cine Teatro Cliper

Teorema
Filme da redenção

O Sol por Testemunha
Filme perturbador

Rocco e Seus Irmãos
Tragédia grega moderna


Um Bonde Chamado Desejo
Filme tenso em sua carnalidade



O Segredo de Brokbeack Mountain
Filme tristíssimo


Em meados dos anos 50, meu pai construiu o Cine Teatro Cliper em Ipirá- Bahia. Meus olhos de menino acompanharam cada etapa desse projeto. Eu passei a ser o filho do dono do cinema, mas isso não representava muito. O que eu gostava mesmo era de mergulhar no escurinho da sala com seus cheiros característicos. Gostava de ver o baleiroTiago, arrumar o cesto com as balas, drops, chicletes, confeitos, caramelos e bombons, ajudado por minha mãe. Gostava de receber de Pedro, o projecionista, os fotogramas que sobravam. Durante o dia, quando Margarida fazia a limpeza, era uma prazer subir ao palco com sua ribalta de luzes coloridas que se acendiam anunciando o início da sessão, quando a cortina de tecido transparente abria-se para revelar imagens, imagens, imagens. Torcia para meu pai abrir as latas com filmes e ver as fotografias dos próximos cartazes. As latas em caixas de couro eram entregues em minha casa. O cheiro de acetato penetrava no meu nariz e eu, viciado, perdia-me nos enredos aventurosos, dramáticos, cômicos.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Registro 30: Um pensamento sempre moderno


Colóquio Walter Benjamin


Formas de Percepção Estética na Modernidade


PROMOÇÃO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA DA UFBA
em parceria com o Goethe-Institut Salvador-Bahia




O Colóquio reúne professores-pesquisadores de várias universidades brasileiras que se dedicam ao estudo da filosofia de Walter Benjamin. O principal objetivo é ampliar debates e estudos no Brasil, especialmente na Bahia, sobre a obra do filósofo, principalmente relacionados as formas de percepção estética da modernidade, com ênfase em questões como arte, cidade, mídia e memória. O Colóquio conta com a presença do professor Bernd Witte (Universidade Heinrich-Heine, Düsseldorf), presidente da IWBG – Internationale Walter Benjamin Gesellschaft e biógrafo de Walter Benjamin.
Local: Goethe-Institut Salvador-Bahia Data: 09 a 11 de abril de 2007Inscrições e informações: De 23 de março a 04 de abril, de 8:00 às 11:30 e de 13:30 às 16:30 horas, na FAPEX, à Rua Caetano Moura, 140, Federação, Salvador, Bahia. Tels. (71) 3183.8460 ou 3183.8459.
Programação:

Dia 09 de abril – Segunda-Feira

08:30 – Abertura
09:00 – Bernd Witte – A crise da tradição: cidade, escrita, memória
10:20 – Bernd Witte: Sobre a Sociedade Internacional Walter Benjamin
14:30 – Willi Bolle (USP) - “Um painel com milhares de lâmpadas” - As “Passagens” de Walter Benjamin como dispositivo de pesquisa
15:10– Márcio Selligmann-Silva (UNICAMP) – Mídia, tradução e judaísmo em Walter Benjamin e Vilém Flusser

Dia 10 de abril – Terça-Feira

08:30 – Jeanne Marie Gagnebin (UNICAMP/PUC-SP) – De uma estética da visibilidade a uma estética da tatibilidade em Walter Benjamin
09:10 – Carla Milani Damião (UESC) – Distração, tatibilidade e hábito: percepção e recepção no cinema segundo Walter Benjamin
10:20 – Ernani Chaves (UFPA) – Inconsciente ótico e função terapêutica do cinema: deslocamento do olhar em Walter Benjamin
14:30 – Olgária Mattos (USP) : A Aufklärung urbana: a via-láctea secularizada
15:10 – Suzana Kampff-Lages (UFF) – Tradução como rememoração: Benjamin e Baudelaire

Dia 11 de abril – Quarta-feira

08:30 – Taísa Palhares (USP)– Aura e a crise da arte em Walter Benjamin?
09:10 – Edvaldo Souza Couto (UFBA) – Walter Benjamin: ruas, objetos e passantes
10:10 _ Gunter Pressler (UFPA) – Walter Benjamin e a poesia concreta brasileira
14:30 – Emiliano Aquino (UECE) – Walter Benjamin e o problema da aparência social do capitalismo
15:10 – Romero Freitas (UFOP) – Da ironia romântica ao estranhamento brechtiano
20:00 – Mesa “Botando Banco” - Walter Benjamin: Mídia e Cultura. Moderador: João Carlos Salles(UFBA)
20:05 _ Antonia Torreão Herrera (UFBA) – Questões contemporâneas sobre o narrador: conversando com Walter Benjamin
20: 35_ André Lemos (UFBA) – Benjamin e o ciber-flâneur
21:05 – Bernd Witte - Titulo a confirmar

Apoio: Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA, Capes, Goethe-Institut Salvador-Bahia.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Registro 29: Diga daí, amizade...

Eu tenho um amigo que, entre as atividades que faz, escreve poesia. Conheci-o no palco dando cambalhotas - vestido numa sunga ridícula - em A Morta, de Oswald de Andrade, espetáculo dirigido pelo amigo comum, Emílio di Biasi. Trinta anos já se vão desde que dividimos o palco da Sala Gil Vicente – Teatro Ruth Escobar. Hoje, meu amigo dá cambalhotas mentais e eu desisti do palco. Ele é muito inteligente, cheio de normas, mas vive fora delas. É delicado, mas quando tromba com alguém, saia da frente: ele pode lhe chamar de “fubá da Vila Nhocunhé”. Mas não dê tanta importância, já que o coração é grande e a alma não é pequena.

Solicitei o envio de alguns dos seus escritos para registrar na Cenadiária. Como ele não mandou, capturei um deles em Umazona, seu blog cheio de novidades, textos incríveis, coisa de gente que pesquisa, que tem alfarrábios, que guarda segredos e partilha com o mundo. Ele é exagerado, generoso, gosta dos prazeres do mundo, mas não descuida das coisas do espírito, embora militante das fileiras marxistas.
Guardo esse amigo, e outros, em um “cofre que não se pode fechar de cheio”. A nossa convivência foi sempre respeitosa, mas nem sempre tranqüila. Mas é viva, surpreendente, cativante e cheia de humor, mesmo quando nossos achaques interferem pondo em risco o equilíbrio delicado, sensível e cuidadoso da amizade.

Quando cantava uma partida próxima
Ou em aflito esperar pelo dia, ou
Como fazem ifigênias iguais em todo porto
Repetindo o balé já sabido por ambos,
Assim ou assado, tanto se lhe dá (ou come),
Principalmente agora, outros rituais, talvez.
Cem por cento, ou cem por uma?
Na seleção dos gestos, roupas e atavios,
Lã do encostar doce-molente em cada corpo,
Corpos lavados, lisos, penteados,
Um pouco de dinheiro novo é bom.
Talvez o grito, o gozo, seja falso hoje,
Talvez não hoje, mas amanhã, quem sabe?
Existe mesmo o toque do sagrado, é certo.
Existe mesmo o toque do sagrado.
Não fora assim, porém, fácil seria o erro,
O mesmo antigo, eterno e sempre branco alvo
Vestido lógico, comum de dois somente:
A Noiva,
O Marinheiro.
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PIMENTEL, Cid. Os originais, São Paulo: Hucitec, 1986.

domingo, 1 de abril de 2007

Registro 28: Deslumbramento


Ascension
Anish Kapoor

Registro 27: Para não esquecer



(...)

quem me pariu foi o ventre de uma navio
quem me ouviu foi o vento no vazio
do ventre de um porão

vou baixar no seu terreiro
epa raio machado trovão
epa justiça de guerreiro

ê samba ê ê samba á
o batuque das ondas na noites mais longas
me ensinou a cantar
Ê samba ê ê samba á
dor é o lugar mais fundo
é o umbigo do mundo
é o fundo do mar

(...)

ê samba ê ê samba á
eu faço a lua brilhar
o esplendor e clarão
luar de luanda em meu coração

Vou aprender a ler
pra ensinar meu camarada

Capinam
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CAPINAM, José Carlos. Yáyá Massemba. Intérprete: Maria Bethânia. In: Maria Bethânia, Brasileirinho. Biscoito Fino, 2003. 1 CD. Faixa 2.
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Foto 1, Lindemann, ed. Creoula, c. 1900.
Foto 2, José Christiano de Freitas Henriques Jr. Retrado de escravo (?) não identificado, c. 1865.
Foto 3, João Ferreira Villela. Ama escrava e menino Augusto Gomes Leal (segundo identificação da Fundaj), c. 1860.
KOSSOY, Boris e CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O olhar europeu: O negro na iconografia brasileira do século XIX. São Paulo: Edusp, 1994

sábado, 31 de março de 2007

Registro 26: Êxtase

Êxtase de Santa Tereza
Bernini

Oh, meu Bem Amado, por teu amor aceito não ver nesta terra a doçura do teu olhar, não sentir o inexprimível beijo de tua boca, mas suplico-te que me abraces com teu amor. Um dia, tenho a esperança, cairás impetuosamente sobre mim, transportando-me para o lume do amor; tu me mergulharás nesse ardente abismo a fim de fazer de mim – e para sempre – a feliz vítima dele.
Tereza D´Ávila

Êxtase: estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Registro 25: Sassaricando!!!!

Vírginia Lane
Vedetes em Revista
Exposição em homenagem
à atriz Virgínia Lane.
Aconteceu em São Paulo na
Caixa Cultural
09.02.2007

quinta-feira, 29 de março de 2007

Registro 24: Mito-poema

Narciso, Caravaggio
NARCISO

Raimundo Matos de Leão

Narciso,
de tanto olhar
espelho se tornou.
Congelado em si,
a ninguém mais olhou.

Narciso,
de tanto namorar
namorado se tornou
do espelho.

Narciso, cego,
ensurdecido e mudo
para o mundo
ficou.

Narciso ensimesmado
tornou-se um chato.
Trancou-se em casa,
murchado

São Paulo/1988

Eco e Narciso, John William

quarta-feira, 28 de março de 2007

Registro 23: Henri Matisse escreve

É PRECISO OLHAR A VIDA INTEIRA COM OLHOS DE CRIANÇA

Henri Matisse

Criar é próprio do artista; onde não há criação, não existe arte. Enganar-se-ia quem atribuísse este poder criador a um dom inato. Em matéria de arte, o criador autêntico não é somente um ser dotado, é um homem que soube ordenar, visando um determinado fim, todo um conjunto de atividades do qual resulta a obra de arte. Assim, para o artista, a criação começa com a visão. Ver, já é um ato criador e que exige certo esforço. Tudo o que vemos na vida cotidiana, sofre, mais ou menos, a deformação engendrada pelos hábitos adquiridos, e o fato é talvez mais sensível numa época como a nossa, onde cinema, publicidade, periódicos, impõem diariamente um fluxo de imagens preconcebidas, que são um pouco na ordem da visão, o que é preconceito na ordem da inteligência.

O esforço necessário para libertar-nos exige uma espécie de coragem; e essa coragem é indispensável ao artista que deve ver todas as coisas como se as visse pela primeira vez; é preciso ver a vida inteira como no tempo em que se era criança, pois a perda desta condição nos priva da possibilidade de uma maneira de expressão original, isto é, pessoal.

Tomando um exemplo, creio que nada é mais difícil para um verdadeiro pintor do que pintar uma rosa, porque para o fazer é preciso antes de mais nada esquecer todas as rosas que já foram pintadas. Aos que vinham me ver, em Vence, eu costumava fazer esta pergunta: “Vocês viram os acantos sobre a orla que margeia a estrada?“. Ninguém os havia visto; todos teriam reconhecido a folha de acanto sobre um capitel coríntio, porém a lembrança do capitel não permitia que se visse o acanto no estado natural.

É um primeiro passo para a criação ver-se cada coisa em sua verdade e isto pressupõe um esforço contínuo.

Criar é expressar o que se tem dentro de si. Todo esforço autêntico de criação é interior. Ainda assim é preciso cultivar essa sensação, com o auxílio dos elementos extraídos do mundo exterior. Aqui intervém o trabalho pelo qual o artista incorpora e assimila gradativamente o mundo exterior, até que e objeto desejado se torne parte dele mesmo, até que o tenha dentro de si e possa projetá-lo na tela como sua própria criação.

Quando pinto um retrato, tomo e retomo o meu assunto a cada vez é novo o retrato que faço; não o mesmo corrigido, mas outro retrato que recomeço; e cada vez é um ser diferente que eu extraio da mesma personalidade. Aconteceu-me muitas vezes, afim de esgotar de maneira mais completa meu estudo, inspirar-me em fotografias da mesma pessoa em idades diferentes; o retrato definitivo poderá representá-lo mais jovem, ou com aspecto diferente do que tinha quando pousava, porque este assunto me pareceu mais verdadeiro, mais revelador da sua personalidade real. A obra de arte é assim o coroamento de um longo trabalho de elaboração. O artista absorve tudo o que à sua volta for capaz de alimentar-lhe a visão interior, diretamente, quando o objeto que desenha deve figurar na sua composição, ou então, por analogia. Coloca-se assim em estado de criar. Enriquece-se interiormente de todas as formas de que possa tornar-se senhor e que ordenará algum dia conforme um ritmo novo. No expressar esse ritmo, a atividade do artista será realmente criadora. Para conseguí-lo, preferirá a seleção ao acúmulo de detalhes. Deverá escolher, por exemplo, no desenho, dentre todas as combinações possíveis, o traço que se revelar plenamente expressivo, como que portador de vida, procurar as equivalências pelas quais a natureza se transpõe para o âmbito próprio da arte. Na “Nature morte au magnólia”, representei em vermelho uma mesa de mármore verde; em outra ocasião precisei de uma mancha escura para evocar a cintilação do sol sobre o mar; essas transposições não foram absolutamente o efeito do acaso ou da fantasia, mas sim o coroamento de uma série de pesquisas, em conseqüência das quais esses matizes me pareceram necessários, tendo em vista suas relações com o resto da composição, a fim de comunicar a impressão desejada.

As cores, os traços, são forças, e no jogo destas forças, no seu equilíbrio, reside o segredo da criação. Na capela de Vence , que é o coroamento das minhas pesquisas anteriores, tentei realizar esse equilíbrio de forças; o azul, o verde, o amarelo dos vitrais, compõem no interior uma luz que não é propriamente nenhuma das cores empregadas, mas sim o produto vivo de sua harmonia, de suas relações recíprocas; essa cor-luminosidade deveria projetar-se sobre o campo branco, cercado de preto, do muro que fica fronteiro aos vitrais e no qual há linhas propositadamente muito espaçadas. O contraste permite-me dar à luminosidade todo o seu valor vitral, fazendo dela o elemento essencial, aquele que dê o colorido, aqueça, anime, no sentido próprio, este conjunto qual importa conferir uma impressão de espaço ilimitado a despeito de suas dimensões reduzidas.

Em toda a capela não há uma só linha, um pormenor, que não concorra para essa impressão. Parece-me que, nesse sentido é que se pode dizer que a arte imita a natureza: pelo caráter de vida que um trabalho criador confere à obra de arte. Então, a obra aparecerá igualmente fecunda e dotada desse mesmo frêmito interior, dessa mesma beleza resplandecente que as obras da natureza possuem. É preciso um amor muito grande, capaz de inspirar e de sustentar esse esforço contínuo em direção à verdade, essa generosidade conjunta e esse despojamento profundo que envolve a gênese de toda obra de arte.

Mas o amor não está na origem de toda criação?
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Texto coligido por Régine Pernoud. Art et Education. Unesco,1954.
Tradução de Regina Helena Tavares. Escolinha de Arte do Brasil,setembro, 1973.

terça-feira, 27 de março de 2007

Registro 22: Projeto Quartas Cênicas


Registro 21: Hoje é o Dia do Teatro e do Circo.

Teatro grego


Dionísio

MAGRA: (...). Enquanto se está vivo não se consegue escapar ao teatro. Teatro é a engrenagem viva que interliga as pessoas. Não é mentira, não é fingimento, é vida!!! Por fatalidade dependemos todos, uns dos outros. Mesmo errando e mesmo sem saber direito como fazer. Ele ensina a paciência necessária pra que o milagre se processe. Se você se cala, você recusa e interrompe o milagre. Por precipitação, por avidez.. Por querer chegar depressa demais, porque o milagre só pode ser coletivo, ele é por direito de todos e quem tenta chegar sozinho, fracassa. Eu não estou falando mais por você, Pedro. Eu estou falando por mim mesma. (Magra começa a se afastar lentamente de Pedro) A porta é estreita, Pedro, é isso. Mas eu quero acertar com ela. Eu não quero permanecer no mesmo erro por mais tempo. Existe alguma coisa que nos inclui a todos... Eu não sei que nome dar a ela, mas nós estamos irremediavelmente comprometidos, todos, uns com os outros, e é impossível escapar sozinho. A porta é muito estreita, mas só passamos carregando os outros conosco. (Pausa) Eu quero que você me perdoe, mesmo se não entender. Se eu não disser não agora, Pedro, eu não sei onde iremos parar. (Pedro se levanta) Até... até... um dia. (Fim. Some o pano ou sobe, ou baixa ou não existe.)
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ARAP, Fauzi. Pano de Boca: um conserto de theatro. Reprografado, s.d.