
domingo, 8 de abril de 2007
sábado, 7 de abril de 2007
sexta-feira, 6 de abril de 2007
Registro 34: Olhai...Dizei...Heverá dor igual a minha dor?

Lá Pietà
Michelangelo
Para as mães que perderam seus filhos
e filhas
na violência do tráfico e das drogas
ou então, vitimados nas malhas do preconceito e da discriminação.
Para todas elas que viram seus filhos estuprados,
violados,
emasculados,
subjugados
ou arrastados pelas ruas como um Judas em Sábado de Aleluia.
Para as mães que tiveram seus filhos seqüestrados e torturados
moral e fisicamente
Para aquelas que choraram e gemeram
nas delegacias, necrotérios, cemitérios, ruas.
Para as que viram seus rebentos podados
nos hospitais
nos campos e estradas
nas fábricas
nas repartições.
Para as mães que viram seus filhos e filhas mendigos.
Humilhados e ofendidos.
Para as mães que perderam suas crias...
iludidas,
expostas,
ridicularizadas,
na violência do tráfico e das drogas
ou então, vitimados nas malhas do preconceito e da discriminação.
Para todas elas que viram seus filhos estuprados,
violados,
emasculados,
subjugados
ou arrastados pelas ruas como um Judas em Sábado de Aleluia.
Para as mães que tiveram seus filhos seqüestrados e torturados
moral e fisicamente
Para aquelas que choraram e gemeram
nas delegacias, necrotérios, cemitérios, ruas.
Para as que viram seus rebentos podados
nos hospitais
nos campos e estradas
nas fábricas
nas repartições.
Para as mães que viram seus filhos e filhas mendigos.
Humilhados e ofendidos.
Para as mães que perderam suas crias...
iludidas,
expostas,
ridicularizadas,
fantasmáticas criaturas do mesmo sempre-igual.
Para as mães que guardaram a sua dolorosa dor
diante da arrogância,
cinismo
descaso
autoritarismo.
Para as mães...
Para as mães que guardaram a sua dolorosa dor
diante da arrogância,
cinismo
descaso
autoritarismo.
Para as mães...
quinta-feira, 5 de abril de 2007
Registro 34:

Meditação é principalmente um meio para se atingir a liberação espiritual. Seus vários métodos são designados para afrouxar os laços físicos, permitindo que o individual ascenda ao transcendental, ao reino espiritual. Diz-se que quem realiza isto com sucesso atinge o Rúach Hacodesh, a “Inspiração Divina”, que é o termo hebraico genérico para “Iluminação”.
O mais conhecido método contemporâneo de meditação é o que envolve um mantra, uma palavra ou frase que é repetida continuamente durante um certo período de tempo A pessoa concentra-se no mantra à exclusão de tudo mais, limpando a mente de todos os pensamentos estranhos e separando-o do fluxo normal da consciência. Neste método, o mantra pode ser repetido verbalmente ou a repetição pode ser completamente mental. Este tipo de meditação é encontrado na Cabalá, especialmente entre as escolas mais antigas. Nos Hechalot, por exemplo, a pessoa começa sua ascensão espiritual repetindo 112 vezes vários Nomes Divinos.
Meditação com mantra é um exemplo de meditação estruturada dirigida externamente, na medida em que a pessoa se concentra em uma palavra ou frase definida, no lugar dos pensamentos espontâneos da mente (vagar mental). Como envolve uma prática específica, repetida por um período fixo de tempo, ela é considerada uma meditação estruturada.
Outro exemplo de meditação estruturada dirigida externamente é a contemplação, onde a pessoa olha fixamente para um objeto, colocando toda sua concentração nele. Em práticas ocultas, o tipo mais conhecido de contemplação envolve a concentração visual em uma bola de cristal. Outros tipos de contemplação envolvem mandalas, quadros ou letras, onde a pessoa se fixa nelas, enquanto esvazia a mente de todos os outros pensamentos. Na meditação cabalística, o mais simples instrumento contemplativo é o Tetragramaton (ou Tetagrama, o Nome Inefável de Deus), e isto é discutido até mesmo em trabalhos não cabalísticos. Formas mais complexas também são usadas, e este método parece haver alcançado seu ponto mais alto sob a influência do rabino Shalom Sharabi (1702-1777).
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O mais conhecido método contemporâneo de meditação é o que envolve um mantra, uma palavra ou frase que é repetida continuamente durante um certo período de tempo A pessoa concentra-se no mantra à exclusão de tudo mais, limpando a mente de todos os pensamentos estranhos e separando-o do fluxo normal da consciência. Neste método, o mantra pode ser repetido verbalmente ou a repetição pode ser completamente mental. Este tipo de meditação é encontrado na Cabalá, especialmente entre as escolas mais antigas. Nos Hechalot, por exemplo, a pessoa começa sua ascensão espiritual repetindo 112 vezes vários Nomes Divinos.
Meditação com mantra é um exemplo de meditação estruturada dirigida externamente, na medida em que a pessoa se concentra em uma palavra ou frase definida, no lugar dos pensamentos espontâneos da mente (vagar mental). Como envolve uma prática específica, repetida por um período fixo de tempo, ela é considerada uma meditação estruturada.
Outro exemplo de meditação estruturada dirigida externamente é a contemplação, onde a pessoa olha fixamente para um objeto, colocando toda sua concentração nele. Em práticas ocultas, o tipo mais conhecido de contemplação envolve a concentração visual em uma bola de cristal. Outros tipos de contemplação envolvem mandalas, quadros ou letras, onde a pessoa se fixa nelas, enquanto esvazia a mente de todos os outros pensamentos. Na meditação cabalística, o mais simples instrumento contemplativo é o Tetragramaton (ou Tetagrama, o Nome Inefável de Deus), e isto é discutido até mesmo em trabalhos não cabalísticos. Formas mais complexas também são usadas, e este método parece haver alcançado seu ponto mais alto sob a influência do rabino Shalom Sharabi (1702-1777).
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KAPLAN,Aryeh. Meditação e Cabalá: teoria e prática. São Paulo: Editora Sêfer, 2005, p. 23
quarta-feira, 4 de abril de 2007
Registro 31: Na matinê do Cine Teatro Cliper
TeoremaFilme da redenção
Filme perturbador
Tragédia grega moderna
Filme tenso em sua carnalidade
Filme tristíssimo
Em meados dos anos 50, meu pai construiu o Cine Teatro Cliper em Ipirá- Bahia. Meus olhos de menino acompanharam cada etapa desse projeto. Eu passei a ser o filho do dono do cinema, mas isso não representava muito. O que eu gostava mesmo era de mergulhar no escurinho da sala com seus cheiros característicos. Gostava de ver o baleiroTiago, arrumar o cesto com as balas, drops, chicletes, confeitos, caramelos e bombons, ajudado por minha mãe. Gostava de receber de Pedro, o projecionista, os fotogramas que sobravam. Durante o dia, quando Margarida fazia a limpeza, era uma prazer subir ao palco com sua ribalta de luzes coloridas que se acendiam anunciando o início da sessão, quando a cortina de tecido transparente abria-se para revelar imagens, imagens, imagens. Torcia para meu pai abrir as latas com filmes e ver as fotografias dos próximos cartazes. As latas em caixas de couro eram entregues em minha casa. O cheiro de acetato penetrava no meu nariz e eu, viciado, perdia-me nos enredos aventurosos, dramáticos, cômicos.
terça-feira, 3 de abril de 2007
Registro 30: Um pensamento sempre moderno

Colóquio Walter Benjamin
Formas de Percepção Estética na Modernidade
PROMOÇÃO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA DA UFBA
em parceria com o Goethe-Institut Salvador-Bahia
O Colóquio reúne professores-pesquisadores de várias universidades brasileiras que se dedicam ao estudo da filosofia de Walter Benjamin. O principal objetivo é ampliar debates e estudos no Brasil, especialmente na Bahia, sobre a obra do filósofo, principalmente relacionados as formas de percepção estética da modernidade, com ênfase em questões como arte, cidade, mídia e memória. O Colóquio conta com a presença do professor Bernd Witte (Universidade Heinrich-Heine, Düsseldorf), presidente da IWBG – Internationale Walter Benjamin Gesellschaft e biógrafo de Walter Benjamin.
Local: Goethe-Institut Salvador-Bahia Data: 09 a 11 de abril de 2007Inscrições e informações: De 23 de março a 04 de abril, de 8:00 às 11:30 e de 13:30 às 16:30 horas, na FAPEX, à Rua Caetano Moura, 140, Federação, Salvador, Bahia. Tels. (71) 3183.8460 ou 3183.8459.
Programação:
Dia 09 de abril – Segunda-Feira
08:30 – Abertura
09:00 – Bernd Witte – A crise da tradição: cidade, escrita, memória
10:20 – Bernd Witte: Sobre a Sociedade Internacional Walter Benjamin
14:30 – Willi Bolle (USP) - “Um painel com milhares de lâmpadas” - As “Passagens” de Walter Benjamin como dispositivo de pesquisa
15:10– Márcio Selligmann-Silva (UNICAMP) – Mídia, tradução e judaísmo em Walter Benjamin e Vilém Flusser
Dia 10 de abril – Terça-Feira
08:30 – Jeanne Marie Gagnebin (UNICAMP/PUC-SP) – De uma estética da visibilidade a uma estética da tatibilidade em Walter Benjamin
09:10 – Carla Milani Damião (UESC) – Distração, tatibilidade e hábito: percepção e recepção no cinema segundo Walter Benjamin
10:20 – Ernani Chaves (UFPA) – Inconsciente ótico e função terapêutica do cinema: deslocamento do olhar em Walter Benjamin
14:30 – Olgária Mattos (USP) : A Aufklärung urbana: a via-láctea secularizada
15:10 – Suzana Kampff-Lages (UFF) – Tradução como rememoração: Benjamin e Baudelaire
Dia 11 de abril – Quarta-feira
08:30 – Taísa Palhares (USP)– Aura e a crise da arte em Walter Benjamin?
09:10 – Edvaldo Souza Couto (UFBA) – Walter Benjamin: ruas, objetos e passantes
10:10 _ Gunter Pressler (UFPA) – Walter Benjamin e a poesia concreta brasileira
14:30 – Emiliano Aquino (UECE) – Walter Benjamin e o problema da aparência social do capitalismo
15:10 – Romero Freitas (UFOP) – Da ironia romântica ao estranhamento brechtiano
20:00 – Mesa “Botando Banco” - Walter Benjamin: Mídia e Cultura. Moderador: João Carlos Salles(UFBA)
20:05 _ Antonia Torreão Herrera (UFBA) – Questões contemporâneas sobre o narrador: conversando com Walter Benjamin
20: 35_ André Lemos (UFBA) – Benjamin e o ciber-flâneur
21:05 – Bernd Witte - Titulo a confirmar
Apoio: Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA, Capes, Goethe-Institut Salvador-Bahia.
segunda-feira, 2 de abril de 2007
Registro 29: Diga daí, amizade...
Eu tenho um amigo que, entre as atividades que faz, escreve poesia. Conheci-o no palco dando cambalhotas - vestido numa sunga ridícula - em A Morta, de Oswald de Andrade, espetáculo dirigido pelo amigo comum, Emílio di Biasi. Trinta anos já se vão desde que dividimos o palco da Sala Gil Vicente – Teatro Ruth Escobar. Hoje, meu amigo dá cambalhotas mentais e eu desisti do palco. Ele é muito inteligente, cheio de normas, mas vive fora delas. É delicado, mas quando tromba com alguém, saia da frente: ele pode lhe chamar de “fubá da Vila Nhocunhé”. Mas não dê tanta importância, já que o coração é grande e a alma não é pequena.
Solicitei o envio de alguns dos seus escritos para registrar na Cenadiária. Como ele não mandou, capturei um deles em Umazona, seu blog cheio de novidades, textos incríveis, coisa de gente que pesquisa, que tem alfarrábios, que guarda segredos e partilha com o mundo. Ele é exagerado, generoso, gosta dos prazeres do mundo, mas não descuida das coisas do espírito, embora militante das fileiras marxistas.
Solicitei o envio de alguns dos seus escritos para registrar na Cenadiária. Como ele não mandou, capturei um deles em Umazona, seu blog cheio de novidades, textos incríveis, coisa de gente que pesquisa, que tem alfarrábios, que guarda segredos e partilha com o mundo. Ele é exagerado, generoso, gosta dos prazeres do mundo, mas não descuida das coisas do espírito, embora militante das fileiras marxistas.
Guardo esse amigo, e outros, em um “cofre que não se pode fechar de cheio”. A nossa convivência foi sempre respeitosa, mas nem sempre tranqüila. Mas é viva, surpreendente, cativante e cheia de humor, mesmo quando nossos achaques interferem pondo em risco o equilíbrio delicado, sensível e cuidadoso da amizade.
Quando cantava uma partida próxima
Ou em aflito esperar pelo dia, ou
Como fazem ifigênias iguais em todo porto
Repetindo o balé já sabido por ambos,
Assim ou assado, tanto se lhe dá (ou come),
Principalmente agora, outros rituais, talvez.
Cem por cento, ou cem por uma?
Na seleção dos gestos, roupas e atavios,
Lã do encostar doce-molente em cada corpo,
Corpos lavados, lisos, penteados,
Um pouco de dinheiro novo é bom.
Talvez o grito, o gozo, seja falso hoje,
Talvez não hoje, mas amanhã, quem sabe?
Existe mesmo o toque do sagrado, é certo.
Existe mesmo o toque do sagrado.
Não fora assim, porém, fácil seria o erro,
O mesmo antigo, eterno e sempre branco alvo
Vestido lógico, comum de dois somente:
A Noiva,
O Marinheiro.
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PIMENTEL, Cid. Os originais, São Paulo: Hucitec, 1986.
domingo, 1 de abril de 2007
Registro 27: Para não esquecer


(...)
quem me pariu foi o ventre de uma navio
quem me ouviu foi o vento no vazio
do ventre de um porão
vou baixar no seu terreiro
epa raio machado trovão
epa justiça de guerreiro
ê samba ê ê samba á
o batuque das ondas na noites mais longas
me ensinou a cantar
Ê samba ê ê samba á
dor é o lugar mais fundo
é o umbigo do mundo
é o fundo do mar
(...)
ê samba ê ê samba á
eu faço a lua brilhar
o esplendor e clarão
luar de luanda em meu coração
Vou aprender a ler
pra ensinar meu camarada
Capinam
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CAPINAM, José Carlos. Yáyá Massemba. Intérprete: Maria Bethânia. In: Maria Bethânia, Brasileirinho. Biscoito Fino, 2003. 1 CD. Faixa 2.
CAPINAM, José Carlos. Yáyá Massemba. Intérprete: Maria Bethânia. In: Maria Bethânia, Brasileirinho. Biscoito Fino, 2003. 1 CD. Faixa 2.
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Foto 1, Lindemann, ed. Creoula, c. 1900.
Foto 1, Lindemann, ed. Creoula, c. 1900.
Foto 2, José Christiano de Freitas Henriques Jr. Retrado de escravo (?) não identificado, c. 1865.
Foto 3, João Ferreira Villela. Ama escrava e menino Augusto Gomes Leal (segundo identificação da Fundaj), c. 1860.
Foto 3, João Ferreira Villela. Ama escrava e menino Augusto Gomes Leal (segundo identificação da Fundaj), c. 1860.
KOSSOY, Boris e CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O olhar europeu: O negro na iconografia brasileira do século XIX. São Paulo: Edusp, 1994
sábado, 31 de março de 2007
Registro 26: Êxtase
Bernini
Oh, meu Bem Amado, por teu amor aceito não ver nesta terra a doçura do teu olhar, não sentir o inexprimível beijo de tua boca, mas suplico-te que me abraces com teu amor. Um dia, tenho a esperança, cairás impetuosamente sobre mim, transportando-me para o lume do amor; tu me mergulharás nesse ardente abismo a fim de fazer de mim – e para sempre – a feliz vítima dele.
Tereza D´Ávila
Êxtase: estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente...
sexta-feira, 30 de março de 2007
Registro 25: Sassaricando!!!!
Vedetes em Revista
Exposição em homenagem
à atriz Virgínia Lane.
Aconteceu em São Paulo na
Caixa Cultural
09.02.2007
quinta-feira, 29 de março de 2007
Registro 24: Mito-poema
NARCISO
Raimundo Matos de Leão
Narciso,
de tanto olhar
espelho se tornou.
Congelado em si,
a ninguém mais olhou.
Narciso,
de tanto namorar
namorado se tornou
do espelho.
Narciso, cego,
ensurdecido e mudo
para o mundo
ficou.
Narciso ensimesmado
tornou-se um chato.
Trancou-se em casa,
murchado
São Paulo/1988
Raimundo Matos de Leão
Narciso,
de tanto olhar
espelho se tornou.
Congelado em si,
a ninguém mais olhou.
Narciso,
de tanto namorar
namorado se tornou
do espelho.
Narciso, cego,
ensurdecido e mudo
para o mundo
ficou.
Narciso ensimesmado
tornou-se um chato.
Trancou-se em casa,
murchado
São Paulo/1988
quarta-feira, 28 de março de 2007
Registro 23: Henri Matisse escreve
É PRECISO OLHAR A VIDA INTEIRA COM OLHOS DE CRIANÇA
Henri Matisse
Criar é próprio do artista; onde não há criação, não existe arte. Enganar-se-ia quem atribuísse este poder criador a um dom inato. Em matéria de arte, o criador autêntico não é somente um ser dotado, é um homem que soube ordenar, visando um determinado fim, todo um conjunto de atividades do qual resulta a obra de arte. Assim, para o artista, a criação começa com a visão. Ver, já é um ato criador e que exige certo esforço. Tudo o que vemos na vida cotidiana, sofre, mais ou menos, a deformação engendrada pelos hábitos adquiridos, e o fato é talvez mais sensível numa época como a nossa, onde cinema, publicidade, periódicos, impõem diariamente um fluxo de imagens preconcebidas, que são um pouco na ordem da visão, o que é preconceito na ordem da inteligência.
O esforço necessário para libertar-nos exige uma espécie de coragem; e essa coragem é indispensável ao artista que deve ver todas as coisas como se as visse pela primeira vez; é preciso ver a vida inteira como no tempo em que se era criança, pois a perda desta condição nos priva da possibilidade de uma maneira de expressão original, isto é, pessoal.
Tomando um exemplo, creio que nada é mais difícil para um verdadeiro pintor do que pintar uma rosa, porque para o fazer é preciso antes de mais nada esquecer todas as rosas que já foram pintadas. Aos que vinham me ver, em Vence, eu costumava fazer esta pergunta: “Vocês viram os acantos sobre a orla que margeia a estrada?“. Ninguém os havia visto; todos teriam reconhecido a folha de acanto sobre um capitel coríntio, porém a lembrança do capitel não permitia que se visse o acanto no estado natural.
É um primeiro passo para a criação ver-se cada coisa em sua verdade e isto pressupõe um esforço contínuo.
Criar é expressar o que se tem dentro de si. Todo esforço autêntico de criação é interior. Ainda assim é preciso cultivar essa sensação, com o auxílio dos elementos extraídos do mundo exterior. Aqui intervém o trabalho pelo qual o artista incorpora e assimila gradativamente o mundo exterior, até que e objeto desejado se torne parte dele mesmo, até que o tenha dentro de si e possa projetá-lo na tela como sua própria criação.
Quando pinto um retrato, tomo e retomo o meu assunto a cada vez é novo o retrato que faço; não o mesmo corrigido, mas outro retrato que recomeço; e cada vez é um ser diferente que eu extraio da mesma personalidade. Aconteceu-me muitas vezes, afim de esgotar de maneira mais completa meu estudo, inspirar-me em fotografias da mesma pessoa em idades diferentes; o retrato definitivo poderá representá-lo mais jovem, ou com aspecto diferente do que tinha quando pousava, porque este assunto me pareceu mais verdadeiro, mais revelador da sua personalidade real. A obra de arte é assim o coroamento de um longo trabalho de elaboração. O artista absorve tudo o que à sua volta for capaz de alimentar-lhe a visão interior, diretamente, quando o objeto que desenha deve figurar na sua composição, ou então, por analogia. Coloca-se assim em estado de criar. Enriquece-se interiormente de todas as formas de que possa tornar-se senhor e que ordenará algum dia conforme um ritmo novo. No expressar esse ritmo, a atividade do artista será realmente criadora. Para conseguí-lo, preferirá a seleção ao acúmulo de detalhes. Deverá escolher, por exemplo, no desenho, dentre todas as combinações possíveis, o traço que se revelar plenamente expressivo, como que portador de vida, procurar as equivalências pelas quais a natureza se transpõe para o âmbito próprio da arte. Na “Nature morte au magnólia”, representei em vermelho uma mesa de mármore verde; em outra ocasião precisei de uma mancha escura para evocar a cintilação do sol sobre o mar; essas transposições não foram absolutamente o efeito do acaso ou da fantasia, mas sim o coroamento de uma série de pesquisas, em conseqüência das quais esses matizes me pareceram necessários, tendo em vista suas relações com o resto da composição, a fim de comunicar a impressão desejada.
As cores, os traços, são forças, e no jogo destas forças, no seu equilíbrio, reside o segredo da criação. Na capela de Vence , que é o coroamento das minhas pesquisas anteriores, tentei realizar esse equilíbrio de forças; o azul, o verde, o amarelo dos vitrais, compõem no interior uma luz que não é propriamente nenhuma das cores empregadas, mas sim o produto vivo de sua harmonia, de suas relações recíprocas; essa cor-luminosidade deveria projetar-se sobre o campo branco, cercado de preto, do muro que fica fronteiro aos vitrais e no qual há linhas propositadamente muito espaçadas. O contraste permite-me dar à luminosidade todo o seu valor vitral, fazendo dela o elemento essencial, aquele que dê o colorido, aqueça, anime, no sentido próprio, este conjunto qual importa conferir uma impressão de espaço ilimitado a despeito de suas dimensões reduzidas.
Em toda a capela não há uma só linha, um pormenor, que não concorra para essa impressão. Parece-me que, nesse sentido é que se pode dizer que a arte imita a natureza: pelo caráter de vida que um trabalho criador confere à obra de arte. Então, a obra aparecerá igualmente fecunda e dotada desse mesmo frêmito interior, dessa mesma beleza resplandecente que as obras da natureza possuem. É preciso um amor muito grande, capaz de inspirar e de sustentar esse esforço contínuo em direção à verdade, essa generosidade conjunta e esse despojamento profundo que envolve a gênese de toda obra de arte.
Mas o amor não está na origem de toda criação?
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Texto coligido por Régine Pernoud. Art et Education. Unesco,1954.
Tradução de Regina Helena Tavares. Escolinha de Arte do Brasil,setembro, 1973.
Texto coligido por Régine Pernoud. Art et Education. Unesco,1954.
Tradução de Regina Helena Tavares. Escolinha de Arte do Brasil,setembro, 1973.
terça-feira, 27 de março de 2007
Registro 21: Hoje é o Dia do Teatro e do Circo.
DionísioMAGRA: (...). Enquanto se está vivo não se consegue escapar ao teatro. Teatro é a engrenagem viva que interliga as pessoas. Não é mentira, não é fingimento, é vida!!! Por fatalidade dependemos todos, uns dos outros. Mesmo errando e mesmo sem saber direito como fazer. Ele ensina a paciência necessária pra que o milagre se processe. Se você se cala, você recusa e interrompe o milagre. Por precipitação, por avidez.. Por querer chegar depressa demais, porque o milagre só pode ser coletivo, ele é por direito de todos e quem tenta chegar sozinho, fracassa. Eu não estou falando mais por você, Pedro. Eu estou falando por mim mesma. (Magra começa a se afastar lentamente de Pedro) A porta é estreita, Pedro, é isso. Mas eu quero acertar com ela. Eu não quero permanecer no mesmo erro por mais tempo. Existe alguma coisa que nos inclui a todos... Eu não sei que nome dar a ela, mas nós estamos irremediavelmente comprometidos, todos, uns com os outros, e é impossível escapar sozinho. A porta é muito estreita, mas só passamos carregando os outros conosco. (Pausa) Eu quero que você me perdoe, mesmo se não entender. Se eu não disser não agora, Pedro, eu não sei onde iremos parar. (Pedro se levanta) Até... até... um dia. (Fim. Some o pano ou sobe, ou baixa ou não existe.)
ARAP, Fauzi. Pano de Boca: um conserto de theatro. Reprografado, s.d.
segunda-feira, 26 de março de 2007
Registro 20: Ele foi,é, um grande artista: Flávio Império
Ponta de Bananeira
Flávio Império
Depoimento
O Oficina tinha que pegar fogo. É necessário, acho, que todos os teatros se incendeiem de tempos em tempos. Um espaço arquitetônico que se anima em espaço teatral com a violência que o Oficina se animou, só queimando para apagar todas as impressões dramáticas e trágicas que se acumulam, reverberam e se registram em seu corpo magnético. Aí, destruído, se reconstrói outro espaço como um corpo novo e vigoroso para novas transformações. Uma coisa assim: depois de muito tempo de tensão dramática levada à exasperação, ao desespero, um corpo registra tantas impressões e fica tão impregnado de significados que ele, em si, começa a ter vida própria sobre seus usuários e a determinar ou a influir sobre a conduta, seu inconsciente, sua fantasia, sua capacidade de imaginar.
(...)
Considerado muito “psicanalisado” pelas galhofas do Oficina e indisciplinado e contraditório pelos remanescentes do Arena, brinquei com todos os jogos e me encontrei realmente quando fazia, outra vez sozinho, os meus espetáculos: Os Fuzis da Senhora Carrar – que chamamos de Os Fuzis de Dona Tereza – no Teatro dos Universitários de São Paulo (TUSP) e Labirinto: Balanço da Vida, com Walmor Chagas dizendo textos e poemas.
(...)
Tenho consciência de não ter inovado nada no plano internacional. Fui cenógrafo atento ao que ocorria aqui e fora. Nem melhor, nem pior do que muitos. Atualizei vários conceitos aqui na província. Consegui, com produções paupérrimas, um nível de realização extremamente sofisticado.
Não me considero “autor” de nenhum método ou sistema estruturado da linguagem nova. Para falar a verdade, eu servi o meu tempo com o meu mais empenhado entusiasmo. Acho que por isso não me ponho a ditar regras. Fiz tudo o que já tinha e existia com a inocência de quem inventava o novo. Fui um alegre Robinson Crusoé que, em terra fértil e com um canivete reconstruiu um arremedo de civilização. Ando hoje à procura do Sexta-feira, não para ensinar nada a ele, mas para aprender.
(...)
Os Fuzis de Dona Tereza foi também um espetáculo feito em cima de um outro que eu já havia feito. Fiz Os Fuzis ainda no Teatro de Arena, em 1962, sob a direção de José Renato. A coisa de que mais gostava é que a peça tinha poucas páginas. Detesto peça comprida. Peça curta você lê e entende tudo, e é aquilo mesmo que você leu, sem muitas divagações de segundos, terceiros, quartos atos. Ser curtinha permite a você ficar mais entretido com o tema básico. Dava pra fazer como uma composição orquestral curta, concentrada, condensada, principalmente porque essa segunda montagem que eu diria era feita por estudantes que conseguiam, no máximo, uma voraz e rápida passeata.
Não agüentariam nunca o percurso que o Prestes fez com a “coluna” pelo Brasil inteiro e muito menos a longa jornada da China e, no caso da “muralha”, que fosse uma bem pequenininha. O resto já se sabe que é daquele jeito... Qualquer estudante ou pequeno-burguês se cansa logo de qualquer assunto e quer mudar. Então a peça curta é o melhor remédio para males curtos mais curtos. Focalizamos um determinado assunto, tratamos dele o melhor possível, mexendo no tema das mais variadas maneiras, desde o “bater da massa do pão” até a alegoria do grande bispo que traduz o discurso do generalíssimo Franco. As matracas substituíram as falas das mães e das mulheres porque em meio à guerra todo mundo matraqueia e a fala da mãe é sempre um terror, um lamento de mater dolorosa. E foi em cima desse lamento que fiz o material ficar passeando.
O Cristo na cruz estava garantido porque tinha sido escrito assim. E o lamento dela estava já escrito também como um grande oratório intercalado com o discurso de um padre compreensivo, do irmão exasperado, da namorada desesperada. Discurso doloroso de uma mãe que não quer ter nos braços o filho morto e mesmo assim isso vai acontecer. Na verdade, é um tema que mais ou menos trabalha em cima do inexorável do destino humano e onde o social engole a vontade particular. Por melhores que sejam as suas intenções, a vida ou a morte não dependem de você. A discussão do fato é mais além.
KATZ, Renina e HAMBURGUER, Amélia (org.). Flávio Império. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1999, p. 39-140.
domingo, 25 de março de 2007
Registro 19: Sobre crianças
CRIANÇA LAMBISCANDO. Pela fresta do guarda-comida entreaberto sua mão avança como um amante pela noite. Uma vez familiarizada com a escuridão, tateia em busca de açúcar ou amêndoas, uvas passas ou compotas. E assim como o amante abraça a sua amada antes de beijá-la, da mesma forma o tato tem um encontro preliminar com as guloseimas antes que a boca as saboreie. Como o mel, punhados de passas e mesmo o arroz, como todos entregam-se lisonjeiramente à mão! Quão apaixonante esse encontro de dois que finalmente se subtraíram à colher. Agradecida e selvagem, como uma moça que se rouba da casa dos pais, assim a geléia de morangos se oferece aqui à degustação, sem o pãozinho e como que sob o livre céu de Deus, e mesmo a manteiga retribui com ternura a ousadia de um pretendente que tomou de assalto o seu quarto de menina. A mão, o jovem Don Juan, penetrou logo em todas as celas e aposentos, deixando atrás de si camadas que escorrem e quantidades que fluem: virgindade que se renova sem queixas.
BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: extratos. In: Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002, p. 105-106.
BENJAMIN, Walter. Rua de mão única: extratos. In: Reflexões sobre a criança, o brinquedo e a educação. São Paulo: Duas Cidades; Ed. 34, 2002, p. 105-106.
sábado, 24 de março de 2007
Registro 18: Sobre a história do teatro na Bahia

Muitas são as razões para a escolha de um tema de pesquisa e estudo. Uma delas é a paixão pelo conhecimento. E essa paixão norteou todo o trabalho desenvolvido em torno do objeto escolhido. Junte-se a ela o querer saber um pouco mais sobre a história do teatro na Bahia, seus caminhos e descaminhos – tema vasto que requer vários estudos e estudiosos que queiram se debruçar sobre o fazer teatral na Cidade do Salvador. Algumas obras foram escritas abordando diversos ângulos dessa história. Outras deverão ser feitas. Espera-se que este trabalho, ao se somar ao existente, contribua para aqueles que venham a se debruçar sobre a temática, observando-a sob novos ângulos e, sobretudo, preenchendo os aspectos lacunares aqui existentes. Esse livro é derivado da dissertação de mestrado apresentada publicamente em 2003, no Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas – UFBA. Por sugestão da banca examinadora, fizemos alterações no texto original.
Uma outra razão norteia a escolha temática e remete-nos ao deslumbrante, incrível e pesado 1968, “ano que não acabou”, no dizer de Zuenir Ventura. Nesse ano ingressamos na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia como aluno do Curso de Formação do Ator, concluído em 1971. Desse processo de aprendizagem muita coisa positiva encontra-se sedimentada na nossa formação e crescimento como ser humano, como profissional. Quanto a esses aspectos, não cabe aqui discorrer sobre eles. Mas, em virtude da escolha do tema aqui desenvolvido, é importante que se registre o fascínio exercido pela Escola de Teatro do tempo em que Martim Gonçalves era seu diretor.
Na época em que ingressamos na Escola, havia um sentimento de nostalgia, uma saudade pelo tempo vivido. Cultuava-se aquele tempo como sendo um momento ímpar e grandioso do teatro na Bahia, algo que se perdera, não havendo possibilidade de ser retomado. A nostalgia parecia-nos um sentimento paralisante, que não acrescentava muito às demandas da própria Escola e principalmente do momento histórico que se vivia. Ao lado dos nostálgicos, viviam aqueles que destilavam suas críticas ao que se fizera, aos resquícios daquela momentosa criação de Edgard Santos e Martim Gonçalves. Ponderemos, no entanto, que havia mais ressentimento destrutivo do que uma crítica objetiva ao trabalho feito na Escola de Teatro.
Da mesma forma que a atitude nostálgica, a ressentida era também paralisadora. Assim, aquele espaço de ensino e encenação mostrava-se aquém da efervescência criativa e modernizadora que o caracterizara nos seus primórdios. E tudo isso num momento em que o país parecia explodir em radicalizações estéticas, políticas, sociais que teriam como resposta o Ato Institucional n° 5, na malfadada noite de 13 de dezembro de 1968.
Vivendo entre as duas atitudes, terminamos por seguir os contestadores sem nos preocuparmos em avaliar o que realmente significara aquela época, marco renovador da encenação na Bahia, embora no íntimo existisse o fascínio por aquela ação desencadeada nos anos de 1950. Passados mais de trinta anos, diante do imperativo de darmos continuidade aos estudos universitários, eis que “somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes”, como nos indica Walter Benjamin em sua Tese número 3, Sobre o conceito da história. O passado da Escola de Teatro se nos apresenta “como uma imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecida”, metáfora benjaminiana aqui agregada para esclarecer uma escolha que se tornou necessária e vital para compreendê-lo.
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LEÃO, Raimundo Matos de. Abertura para outra cena: o moderno teatro na Bahia. Salvador: Fundação Gregório de Matos; Edufba, 2006, p. 13-14.
Na época em que ingressamos na Escola, havia um sentimento de nostalgia, uma saudade pelo tempo vivido. Cultuava-se aquele tempo como sendo um momento ímpar e grandioso do teatro na Bahia, algo que se perdera, não havendo possibilidade de ser retomado. A nostalgia parecia-nos um sentimento paralisante, que não acrescentava muito às demandas da própria Escola e principalmente do momento histórico que se vivia. Ao lado dos nostálgicos, viviam aqueles que destilavam suas críticas ao que se fizera, aos resquícios daquela momentosa criação de Edgard Santos e Martim Gonçalves. Ponderemos, no entanto, que havia mais ressentimento destrutivo do que uma crítica objetiva ao trabalho feito na Escola de Teatro.
Da mesma forma que a atitude nostálgica, a ressentida era também paralisadora. Assim, aquele espaço de ensino e encenação mostrava-se aquém da efervescência criativa e modernizadora que o caracterizara nos seus primórdios. E tudo isso num momento em que o país parecia explodir em radicalizações estéticas, políticas, sociais que teriam como resposta o Ato Institucional n° 5, na malfadada noite de 13 de dezembro de 1968.
Vivendo entre as duas atitudes, terminamos por seguir os contestadores sem nos preocuparmos em avaliar o que realmente significara aquela época, marco renovador da encenação na Bahia, embora no íntimo existisse o fascínio por aquela ação desencadeada nos anos de 1950. Passados mais de trinta anos, diante do imperativo de darmos continuidade aos estudos universitários, eis que “somos tocados por um sopro do ar que foi respirado antes”, como nos indica Walter Benjamin em sua Tese número 3, Sobre o conceito da história. O passado da Escola de Teatro se nos apresenta “como uma imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecida”, metáfora benjaminiana aqui agregada para esclarecer uma escolha que se tornou necessária e vital para compreendê-lo.
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LEÃO, Raimundo Matos de. Abertura para outra cena: o moderno teatro na Bahia. Salvador: Fundação Gregório de Matos; Edufba, 2006, p. 13-14.
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