sábado, 2 de agosto de 2008

Registro 189: Cotidiana

A propósito do Registro 188, recebi um comentário assinado por Anônimo. Ele diz que se não existe um Deus, existem homens que acreditam na paz, na igualdade, na justiça e que a História reserva páginas para esse homens. Concordo. Mas diante do fato de que essas páginas estão sendo relegadas em favor daquelas que pregam o contrário ou que não pregam absolutamente nada, fico perplexo, incomodado mesmo. Ainda assim, guardo o que restou na caixa de Pandora, mesmo quando amanheço emocionalmente niilista. Leiamos pois, as páginas que relatam o que pensam e fazem esse homens e mulheres para quem a História reservou páginas. A lista é enorme e nela, eu registro artistas, filósofos, místicos, poetas. Faço essa relação sabedor de sua incompletude, mas ela é sinaliza possibilidades... Ou minhas idiossincarsias.
Giornado Bruno
Galileu
Adriano, o imperdor
Tereza de Ávila
Fernando Pessoa
Machado de Assis,
Antonin Artaud
Anton Tchecov
Califa Ali Ben Ali
Sócrates
Sófocles
Eurípedes
Ésquilo
Shakespeare
Fauzi Arap
Nelson Rodrigues
Miguel de Cervantes e Dom Quixote
Lao-tsé
Cristo
João XXIII
Martin Luter King
Chaplin
Walter Benjamin
Constantin Stanislawki
Nietzsche
Luchino Visconti
Ozu
Kurosawa
Milton Santos
Agostinho da Silva
Lina Bardi
Martim Gonçalves
Jezy Grotowski
Carlos Drumonnd de Andrade
Murilo Mendes
Manoel Bandeira
Cecília Meireles
Hannah Arendt
Joaquim Nabuco
Manuel Querino
Manuel Faustino
Torquato neto
José Vicente
Janis Joplin
....
Amanheci com o espírito pra cima, contente comigo mesmo, com o mundo com aqueles que me acompanham. Uma esperança pousou na janela do meu quarto. Fiz a habitual caminhada matinal. Aproveitei para conversar com meus botões e olhar a cidade que amanhece aparentemente tranquila. Ah que saudade do trema!
Antes de sair alimentei com a doçura do mel os passarinhos "amarelinhos" e os colibris que se acostumaram com o néctar produzido pela abelhas. Tenho uma amiga no Barbalho que também alimenta pássaros. Livres de gaiolas, eles voam pela minha sala e cantam festivamente quando o bebedouro está cheio. É certo que reclamam quando deixo de abastecê-lo. Percebo a cobrança pelo tipo do canto, eles mudam a forma de cantar. O som cortante e incisivo é sinal de que falta água com mel.
Ontem à noite dei as três primeira aulas do semestre que se inicia. Aulas de História do Teatro Brasileiro. Apresentei o plano de curso e comecei lentamente a falar sobre dois conceitos, o da história de Walter Benjamin e o de transculturação de Ocatvio Ianni, para daí estudar acontecimentos, sujeitos e idéias construtoras do pensar-fazer teatro entre nós. Antes da aulas conversei com um aluno que deseja tornar-me seu orientador no trabalho de conclusão de curso. Trocamos algumas palavras sobre o tema que lhe interessa: Artaud.
São dez horas e vinte minutos. O registro se encerra. Tenho outras coisas para fazer: reponder a carta que veio da Itália da Psyche Out Fanzine de Silvano Pertone, escrever algumas linhas do livro que se arrasta sem que eu dê conta dele. Na verdade, o tema vem exigindo cuidados e por esse motivo opero vagarosamente. Por falar em livro, preparo-me para o lançamento de Sob o Signo das Luzes pela FTD. O livro está pronto e a editora prometeu lançá-lo na Bienal do Livro de São Paulo.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Registro188: Constatação


Hoje, a sensação de ser estrangeiro em minha própria terra tornou-se fortemente presente. A constatação não é de agora. Desde que parti e retornei para breves estadias, o sentimento de não pertecimento era vivido sem que isso provocasse dor.
Desde o passado até agora, lidar com essa emoção sempre foi de certa maneira facilitado pelas ocorrências, algumas boas outras nem tanto. Ocorrências na vida de quem se sente cidadão do mundo, cujo vento torna-se a cidade, versos que ouvi em uma canção popular na voz de Fernando Lona.
Céu de fim de tarde. Horizonte sem fim. Descrever a paisagem que se descortina da orla da cidade é querer o infinito. Descortinar o que há para além. O olhar traça uma grande panorâmica deslocando o ponto de vista do mar aberto para a a muralha de pedra e cal. Mas o que se lê da cidade são apenas fragmentos. A dinâmica vertiginosa não deixa o olhar captar além das aparências. Tudo se move rapidamente. O que se vê é a fisonomia sem que se possa captar o verdadeiro eu da cidade, sua gente move-se como figuras que se esvaem entre luz e sombra.
A foto foi feita em 28 de julho de 2008. Postado na mureta que circula a Avenida Oceânica para os lados do Farol da Barra, o olhar não quer ver a cidade, mas ela vai se construíndo pela imaginação e o que ela cria não diz muito da cidade. Ela constrói outra cidade. Uma cidade que combine mais com a paisagem descortinada ao por do sol. Outro rosto se forma e anda-se atrás dessa máscara imposta pelo céu de luzes cambiante e mar... e mar... Amar cada cidade que te é dada. Aprender com elas.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Registro 187: A vida é sagrada

Tem dias que o Mais, suplemento do jornal Folha de S. Paulo, está demais. Demais de bom, como no último domingo, 27 de julho. Nem sempre é assim, às vezes o Mais é de uma "chatura" sem fim, pedante que nem ele só.
Acabo de ler o número que traz na capa o poeta fuzilado pelos franquista, Federico Garcia Lorca, ou Lorca para aqueles que gostam e amam o poeta e portanto tratam-no com intimidade. Sobre Lorca, fala o cubano Urbano Martínez Caramante, contando-nos sobre a pesquisa realizada em torno da visita do poeta espanhol a Cuba, nos anos 30.
"Liberdade, liberdade abre as asas sobre nós"
Leia, a entrevista é reveladora.
Mais adiante, Luiz Costa Lima e João Cezar de Castro Rocha escrevem sobre a imensidão que é Antonio Candido, cuja Formação da Literatura Brasileira é referência.
Na folha seguinte Franklin de Matos (que não é meu parente nem aderente) resenha o livro de Tzvetan Todorov, O Espírito das Luzes. Bela resenha, faz a gente correr para a livraria e sair com o livro para sentar e ler e aprender. Nesses tempos bicudos, de caretice travestida de transgressão, de fundamentalismo (religioso, político, racial, para ficar só por aqui), gotas dos princípios definidos pelas Luzes caem bem. Melhor ainda quando lidos e vividos criticamente. O que não dá é pra ficar achando que os tempos pós-modernos superaram os preconceitos, os dogmas, as instituições e por aí vai.
Cito: "Autonomia do indivíduo e da sociedade, finalidade humana de nossos atos, universalismo, laicização, vontade geral, equilíbrio e independência dos poderes, invenção da história como relato dotado de sentido imanente, invenção da arte, do artista e da história da arte: alguém duvida que as Luzes sejam responsáveis por boa parte de nossa identidade atual?
Diante das teocracias islâmicas de hoje, da base norte americana de Guatánamo e das ameaças à pesquisa sobre células-tronco, alguém duvida de que precisem ser defendidas?"
Assim Franklin Matos encerra sua resenha sobre o livro em questão.
Por fim, na última página a lúcida porrada em nossos corações e mentes. Ela nos vem do filósofo esloveno Slavoj Zizek Em o Mutante, o esloveno apresenta uma ridografia de Radovan Karadzic, o líder-poeta que aterrorizou com sua guerra de limpeza étnica a região dos Balcãs. Gostaria de citar o texto na íntegra, mas o trecho final vale ser transcrito:
"O predomínio da violência religiosa (ou etnicamente) justificada pode ser explicado pelo próprio fato de vivermos numa era que se vê como sendo pós-ideológica.
Como já não é possível mobilizar grandes causas públicas com base na violência em massa - ou seja, a guerra - na medida em que nossa ideologia hegemônica nos chama para desfrutar nossas vidas e realizar nossos eus, é difícil para a maioria das pessoas superar sua repugnância diante da idéia de torturar e matar outro ser humano.
A grande maioria das pessoas é espontaneamente "moral": matar outro ser humano é profundamente traumático. Assim, para convencê-las a fazê-lo, é preciso uma causa "sagrada", maior, que faça os melindres individuias em relação ao assassinato parecerem triviais.
A religião ou o pertencimento étnico se enquadram perfeitamente nesse papel. É claro que existem casos de ateus patológicos que são capazes de cometer assassinatos em massa apenas por prazer, matar simplesmente por matar, mas eles constituem exceções raras.
A maioria de nós precisa ser "anestesiada" contra nossa sensibilidade elementar ao sofrimento do outro. E para isso é preciso uma causa sagrada.
Mais de uma século atrás, em "Os Irmãos Karamázov", Dostoiévski lançou um aviso contra os perigos do niilismo moral ateu: "Se Deus não existe, então tudo é permitido". A lição que nos ensina o terrorismo de hoje é que, pelo contrário, se existe um Deus, então tudo - até mesmo explodir centenas de espectadores inocentes - é permitido àqueles que afirmam agir diretamente em nome desse Deus, como instrumento de Sua vontade."
Dá o que pensar, não?
Por hoje é só. Se alguém concorda ou discorda, o diálogo está aberto. Alguns podem considerar que palavras ao vento dispersam. Mas é isso mesmo. Elas podem cair em bons olhos-ouvidos-mentes.
Agora, eu quero é comer com coentro, porque, como dizia Sílvio Lamenha, "Poesia é axial."

terça-feira, 29 de julho de 2008

Registro 186: Eleição e igrejas

Em pleno século XXI, o retrocesso O jogo político eleitoral atrela-se as igrejas. Com isso, não se leva em conta o passado do candidato, sua postura ética diante do mundo e do outro, nem seu programa político e sua vinculação com o pensamento moderno. Basta que ele seja fiel a sua igreja que passa a ser um cidadão acima de qualquer suspeita. É como se a religião servisse de blindagem para os candidatos que correm por aí a divulgar o seu credo em detrimento do outro como se ele fosse eleito para gerir os interesses do seu grupo religioso.
Tal fato acirra cada vez mais a intolerância e as divisões em um mundo que se quer plural e diverso.
Esse registro deve-se ao fato de ter lido o comentário assinado pelo jornalista Josias Pires, enviado por e-mail. Transcrevo a nota tal qual recebi. Concordo em parte com ela. Os dois primeiros parágrafos vão ao encontro do que penso a respeito dos acontecimentos que envolvem políticos que colocam em primeiro plano o seu credo religioso, induzindo o eleitor a escolhê-lo. Manipulação. Quanto ao restante da nota não tenho muito o que dizer, mas acho que ela é tendenciosa, da mesma maneira que a reportagem citada.
Um pouco menos de "igrejice" faria bem aos políticos e aos eleitores. E quando falo isso, não nego a grandeza da religiosidade. O que se postula é que cada um cuide do sua crença e não faça dela bandeira para ganhar eleição. Tal postura vai ampliar cada vez mais o fosso entre os indivíduos, já que cada igreja se acha detentora da verdade, caminho aberto para o pensamento único.
Estou fora!
"A "contaminação" do processo eleitoral em Salvador pela dimensão religiosa pode ser considerada uma das novidades deste início da campanha. De fato, as atitudes tomadas pela administração do atual prefeito que levaram à demolição de um templo religioso e a má vontade com a regularização fundiária das casas-de-santo – numa cidade negra em que o candomblé sempre foi um fator de resistência étnica, religiosa e cultural – ajudaram a botar mais lenha na fogueira da intolerância religiosa, uma praga que ninguém de bom senso pode querer para Salvador, cidade que já tem problemas em demasia para resolver.

O poeta Caetano Veloso já cantou o seu desejo de que um prefeito desse um jeito na Cidade da Bahia. Certamente precisaremos de gerações de bons prefeitos para que a nossa cidade saia do caos econômico e social em que se encontra. Acredito que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa em benefício da cidade, na medida em que cumpramos o nosso papel, transmitindo informações de qualidade, bem apuradas e bem escritas. Sabemos que nem sempre isto acontece e precisamos estar vigilantes para corrigir erros e continuar perseguindo os acertos.
O que me parece inaceitável na reportagem do jornal A Tarde sobre a visita de Pinheiro ao terreiro Maraió Lage é que o repórter "informa" que a yalorixá teria autorizado fotografias no interior do templo e que o candidato é que teria se recusado a ser fotografado. Conversei hoje pela manhã com Mãe Jojó que assegurou ser "mentira" – ela jamais teria autorizado isto, inclusive porque nunca procedeu desta forma e não seria agora, em plena campanha eleitoral, que iria mudar o seu comportamento. É proibido, sim, fazer fotografias no interior do terreiro – é uma regra básica daquela Casa. A postura de Pinheiro foi respeitar o desejo da mãe-de-santo.
Outro aspecto que pode ser apontado como desmedido foi o tamanho da foto. É a primeira vez que o jornal publica uma foto daquela dimensão de um candidato na atual campanha. Uma foto do candidato saindo do terreiro depois de ter conversado com Mãe Jojó. O significado da foto foi construído pelo texto – este é um caso em que as palavras falam mais do que uma imagem. Por fim, acredito que este tipo de jornalismo é uma contribuição para atiçar o clima de intolerância religiosa que grassa em alguns setores da nossa cidade. Quem ganha com isto?"

domingo, 27 de julho de 2008

Registro 185: Sobre a cidade

É A CIDADE QUE HABITA OS HOMENS OU SÃO ELES QUE MORAM NELAS?

Nelson Brissac

As cidades habitam os homens ou são eles que moram nelas? Hoje nem a cidade sem rastros e sem história nos habita, nem os homens que não sabem mais ver habitam a cidade. A alma dos lugares parece ter-se perdido para sempre. Reduzidos a locais moldados pelo hábito, com seus habitantes conformados com traçados preestabelecidos. É o aparente paradoxo da obra de Benjamin: o encontro da cidade com os homens se dá quando estes percorrem terras desconhecidas ou quando se fazem estranhos em sua própria cidade.

Porque só assim conseguem descobrir onde na cidade ainda vibram sinais de vida, por onde passa o lençol freático que a inunda de rumores ou de onde vem a luz que por vezes a faz resplandecer. É preciso redescobrir a paisagem das cidades.
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BRISSAC, Nelson. É a cidade que habita os homens ou são eles que moram nelas? In: Revista da USP. Disponível em htttp://wwww.usp.br/revistausp/n15/fjeantexto.html Acesso em 21 de julho de 2004

sábado, 26 de julho de 2008

Registro 184: Passeio pela cidade

Ontem, aproveitando o último fim de semana de férias, sem ter muito o que fazer, resolvi andar sem rumo pelo centro da cidade. Gosto de fazer essas excursões, nem sempre prazerosas, mas estimulantes. A temperatura amena, muito mais outonal que invernal, torna a tarde agradável e a caminhada menos suarenta. Munido de paciência e de máquina fotográfica observo a sujeira das ruas, tão diferente da avenida próxima aos hotéis. Tomo o ônibus. Marcas da diferença.
Enquanto escrevo essas notas eu ouço Gal Costa. As canções do CD "O Sorriso do Gato de Alice" embalam o que me vem na cabeça. Tento reconstruir o passeio de ontem.
No ônibus, ouço a conversa de dois passageiros atrás do meu banco. A conversa me interessa. Controlo-me para não olhar e conferir quem são. Espero até eles descerem para conferir. A mulher comenta o que vê como se o outro passageiro não enxergasse a paisagem através da janela. Ou como se ele estivesse fazendo essa travessia depois de muitos anos. O casal desce nas proximidades do Campo Grande. Ele é bem idoso, muito bem vestido e de chapéu. Ela é mais jovem, deduzo ser sua filha. Veste-se como todas as mulheres que vejo pela cidade, calça apertada, blusa mais ainda, deixando entrever as dobras do corpo que tenta se acomodar ao modelo escolhido.
Resolvo descer na Piedade. Gosto da praça e mais de sua fonte. Ela me traz recordações da infância, quando estive pela primeira vez em Salvador. Lembro-me que a praça era mais bonita. Havia menos árvores, mas os arbustos floridos eram abundantes. Estátuas decoravam os canteiros e no meio do jardim a fonte, ainda existente. Hoje ela destoa do planejamento modernoso submetido ao jardim, mas continua charmosa, talvez o objeto mais belo na praça. Há também os bustos, um deles recentemente roubado, mas reposto, dos líderes da Conjuração Baiana, também chamada de Revolta dos Alfaiates. Justa homenagem, já que na praça foram enforcados.
Nos bancos que circundam o jardim muitos homens conversam. São idosos. Disseram-me ser aposentados que ali se reunem. Moradores de rua, mendigos e desocupados completam o cenário. Passantes se arrastam pra lá e prá cá num ritmo que às vezes me exaspera, principalmente quando apressado. Não é o caso nesse passeio sem compromisso. Mas noto sempre uma lentidão nas pessoas e pergunto-me sempre o motivo de elas pararem para conversar no meio do passeio público sem se importatr com o outro que às vezes tem que se espremer para passar rente a parede ou caminhar pela rua, visto que os dialogantes não conseguem perceber quem passa. Costumes, hábitos, questões culturais, dizem...
Passo pelo Convento da Lapa e me pergunto o que nele se abriga. Somente a igreja está aberta. Noto na entrada uma faixa com a seguinte frase: "Jesus te espera". De repente me ocorre que as igrejas disputam fiéis entre si usando os mecanismos da que condenam ou perseguem.
Passo pelo Central, o colégio onde fiz o curso clássico. Portanto sou antigo. A avenida Joana Angélica no meu tempo de calça azul-marinho e camisa de tricoline branco era mais bonita., o colégio também. Mas como disse o compositor popular, aqui, o que é construção já é ruína. Os casarões que sobraram ao longo da avenida estão descaracterizados. Viraram monstrengos arquitetônicos se é que se pode chamar de arquitetônico algo que não é nada. A feiúra impera.
As ruas estão cheias de caras de políticos com seus sorrisos, congeladas falsidades, tentando mostrar o que não são. Mas a fotografia revela e diz o que lhes vai na alma. Coitado de quem acredita em políticos. A paisagem está suja.
Dou com os costados nas imediações da Igreja de Santana, resolvo entrar para ver as imagens restauradas. A de São Benedito destruída por uma fanático fundamentalista e a de Santana. Constato que o templo está fechado, mas insisto. Por fim encontro uma porta lateral aberta.
Quase desisto de fotografar a imagem de Santana. Um ventilador preso na parede da secular igreja, como uma idéia fora do lugar, permanecia em todos os ângulos que me posicionei. Eu queria apenas a imagem e detalhes dos elementos decorativos, mas o ventilador intrometia-se e a objetiva capatava-o. De todos os lados que me posicionei estava ele lá, dizendo-se tecnologicamente moderno. Não deu para fotografar a outra imagem. Ela estva na sacristia e a luz não favorecia. Não quis usar o artifício de flash.
Os pássaros que cantam na minha janela atraídos pelo bebedouro com água e mel, cantam mais ainda quando ouvem as canções na voz de Maria das Graças. São dez horas de uma manhã de sábado. Há sol. O dia avanço com poucas promessas...
Descendo a ladeira em direção a Baixa dos Sapateiros, chegam-me aos ouvidos os acordes da canção de Ari Barroso. Ela toca somente em mim. Meu coração balança. E eu flâneur vou embalado no embalo da canção. Como não sei assobiar, cantarolo baixinhos as primeiras frases e ando por entre lojas de roupas populares até a Ladeira da Praça. Antes de subi-la, entro numa loja de coisas antigas numa daquelas ruas próxima a Casa de Angola na Bahia. Ruínas.
Retorno para casa, meu casúlo. Já é noite. Ao me aproximar sinto o cheiro de um bom incenso que vem do seu interior. A luz coada através das cortinas dão uma sensação de segurança.
Sinto o esplendor nas coisas.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Registro 183: Tem endereço certo

ALGEMAS

Raimundo Matos de Leão


Para te ter livre e teu,
para te amar sem medidas,
aprisionei o teu retrato
no meu álbum de recordações.

Rompi as cordas do egoísmo.
Algemei o teu retrato na memória.

Prisioneiro do meu álbum,
trancado na memória,
tatuado no meu corpo,
tenho-te livre para te amar.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Registro 182: Sobre gente e livros

Com fé em Deus

Cléo Martins
Membro da União Brasileira de Escritores


Há sete dias sobrevivo à virose patropi; aos costumes, entre nós cidadãos brasileiros. Agora, estou viva, penso em Avicena, o “príncipe dos médicos persas”, no combate à peste bubônica, na alta Idade Média. O professor mulçumano é personagem de Noah Gordon, romancista de quem sou fã de carteirinha. Vale a pena a deliciosa leitura de The physician, cuja tradução em português – O físico, deixa a desejar e dói.

Neste meio século sob o sol e à sombra, jamais padecera de calafrios encharcados. A virose me pegou feito neblina, última sexta. De repente, não mais que de repente. Dirigia lamentando a morte de Dinha do Acarajé, a simpática baiana que levou sua terra para mais adiante. Que Deus a tenha em Si. A memória da famosa quituteira foi reverenciada dia 20, na Câmara dos Vereadores; iniciativa de Olívia Santana, a Negona. Esta virose maledeta me impediu de comparecer a tudo que não fosse imperiosamente necessidade profissional. Deixei de participar do Encontro de Corais na Reitoria da Ufba e festividades dedicadas a Oxóssi, no Corpus Christi, em venerandos terreiros de Salvador.

Somente a chegada de meu novo livro Nanã, a senhora dos primórdios – uma realização da editora Pallas do Rio de Janeiro – conseguiu trazer-me um pouquinho de energia e o esboço de sorriso, Em breve, nas livrarias.

Fazendo-me mais forte do que sou, aproveitei o recesso para ler as novidades e reler livros de outras épocas. Adoro ler. O falecimento de Zélia Gattai – que perda lamentável para a cultura brasileira – fez com que lese, novamente, o superclássico Anarquistas graças a Deus: viagem à velha São Paulo dos bravos paisá. A literatura nacional cresceu muito a partir dessa obra da escritora, que tive o prazer de conhecer em 1992, no Axé Opô Afonjá, apresentada por Antonio Olinto, o magnífico autor de A Casa da Água, membro da Academia Brasileira de Letras, então colega de Jorge Amado. A escritora Zora Seljan, esposa de Olinto, falecida há pouco mais de três anos, esbanjava saúde e simpatia. Haveríamos de nos encontrar em Londres, em 1994.

Outro livro supimpa me caiu às mãos, Da Costa do Ouro – publicação da Editora Saraiva (2001) -, do escritor baiano Raimundo Matos de Leão. Recebeu, em 2002, o prêmio literário Adolfo Aizen, de literatura infantil e juvenil, na categoria romance histórico da união Brasileira de Escritores.

O tema gira sobre questões raramente exploradas da literatura do País: a problemática da cultura africana; os preconceitos, diferenças e semelhanças entre as religiões, buscando enfatizar a pluralidade cultural, a ética e o respeito à diversidade.

A trama se desenvolve aqui na cidade da Bahia, ao tempo da Revolta dos Malês, em 1835. Os jovens precisam ler esta obra sensível deste Brasil que haverá de se livrar da dengue e inominadas viroses. Com fé em Deus, minha gente
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Publicado em A Tarde, edição de 23 de maio de 2008

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Registro 142: Para o dia dos namorados

Hoje é dia dos namorados. Que ele seja leve para todos nós que gostamos de uma aconchego., de olho no olho, de carícias e intensas ternuras.

Que os namorados, e namoradas de ontem e de hojem mandem lembranças, abraços, beijos e queijos. Smak! Hoje, é bom lembrar: qualquer forma de amor vale a pena, como disse o poeta da canção popular Milton Nascimento. E se amor rima com dor, que não sofreu dores de amores. E não pense que Dolores que sofre de amores.

Registro 141: Divulgação


A Escola de Teatro da Ufba comemora 52 anos em 13 de junho. por conta de sua instalação no antigo Solar Santo Antônio, seu primeiro Teatro, atual Martim Gonçalves, recebeu o nome do santo. Para celebrar o aniversário, a instituição lança, às 18 horas, em sua sede, no Canela, três publicações do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC/ET/Ufba).

A primeira é a revista Repertório, que chega à nona edição e tem a poética e a política da diferença como tema. De acordo com os organizadores do evento, a publicação é uma tentativa de focalizar as artes cênicas afinadas com o debate político sobre processos sociais excludentes. A edição apresenta dois ensaios que discutem a história e a memória da escola da Ufba, primeiro curso de Artes Cênicas ligado a uma instituição de nível superior no País. Os ensaios são de autoria de Raimundo Matos de Leão e Jussilene Santana, que pesquisam sobre a história do teatro na Bahia.
Raimundo Matos de Leão é autor do livro Abertura Para Outra Cena: o moderno teatro na Bahia, editado pela Edufba em 2006. O livro narra a criação da Escola de Teatro e discute os problemas derivados da significativa iniciativa do reito Edgard Santos.

O Grupo Interdisciplinar de Pesquisa e Extensão em Contemporaneidade, Imaginário e Teatralidade (Gipe-CIT) lança dois cadernos chamados Estudos em Movimento..

Os Anais de Etnocenologia trazem textos de pesquisadroes brasileiros e franceses. “A etnocenologia é o estudo das artes do espetáculo e não se restringe ao teatro. Analisa a dança, o circo e outras coisas que tem a ver com a perspectiva do espetáculo”, diz Armindo Bião, organizador dos anais.

terça-feira, 10 de junho de 2008

domingo, 8 de junho de 2008

138: Lúcida argumentação

Foto de Alair Gomes

Marlon Brando em O Pecado de Todos Nós, de John Huston

Leônidas nas Termópilas, de David

Vênus, de Urbino

Ponto de Fuga

Corpos eróticos
JORGE COLI
jorgecoli@uol.com.br

A mirabolante notícia de que o Exército cercou uma emissora de TV para prender um sargento que se declarou homossexual traz ensinamentos. O Exército é uma sociedade masculina bastante fechada que exalta a força física e os valores viris. Mundo macho de machos, favorece o homoerotismo, senão o homossexualismo.

Platão escreveu que um exército composto por casais de amantes seria indestrutível porque um teria vergonha de mostrar-se covarde diante do outro, preceito que Alexandre, o Grande, ao que parece, estimulou em seus batalhões. Não estamos mais na Antigüidade, porém, e a sociedade contemporânea desenvolveu um gigantesco preconceito contra o homoerotismo.

Não é difícil perceber o que se esconde por trás da represália contra o sargento. Quando o homofóbico se exprime, não fala do outro, fala de si mesmo. Isso é verdade para qualquer preconceito. O racista, o anti-semita projetam no ser que odeiam o fantasma envergonhado de si próprios, das pulsões que têm dentro de si. Quando as exprimem, é para melhor escondê-las.

Não é certamente um movimento consciente, mas o esquema é mais ou menos assim: "Se estou acusando, denegrindo, humilhando alguém que manifesta características que eu condeno, é porque, vejam bem, sou o oposto dele, sou isento de seus vícios e defeitos". Está claro, essas características, vícios e defeitos existem apenas na cabeça de quem incrimina.

Só assim pode-se compreender uma ação tão pouco inteligente como aquele cerco da emissora.

Holofote
É impossível imaginar uma intervenção mais espalhafatosa: invasão de um programa ao vivo, quando ia ao ar uma questão efervescente, ótima para programas sensacionalistas. A situação criada é muito mais espetacular do que o problema. Qualquer um de sensato procuraria uma solução discreta, para evitar o escândalo, para não transformar aquele sargento em vítima.

É que o bom senso e a razão fogem quando as pulsões reprimidas falam mais forte. Era preciso proclamar para a galáxia que os comandantes não são gays, que os soldados não são gays, que não há nada de gay no Exército: "Estão vendo? Nós não admitimos, nós cercamos, nós prendemos".

Quem quiser intuir o que se passou, veja "O Pecado de Todos Nós" (1967), filme de John Huston, que foi um diretor machão entre os machões. Ou medite sobre a tela "Leônidas nas Termópilas", de David, datada de 1814, apogeu de delírio erótico-militar.

Pele
O corpo humano despido constituiu um dos vetores mais essenciais das artes no Ocidente desde a Antigüidade. Nossos tempos pudicos, porém, mudaram nossos olhos. Ninguém será tomado por um libidinoso por amar a Vênus de Urbino. Mas um interesse acentuado pelo Davi de Michelangelo não passaria insuspeito.
Areia
O misto de beleza e de sedução que os nus apresentam nas artes fazia parte do prazer próprio a todos diante das obras. Hoje, ao contrário, homens despidos são classificados dentro de um interesse gay específico.

Há uma exposição, no Gasômetro, em Porto Alegre, de Alair Gomes. Deve ser muito bela, porque se trata de um grande fotógrafo. Tomava imagens de rapazes nas praias do Rio, nos anos de 1970. Corpos flexíveis e longilíneos, captados com elegância. Têm a graça das estátuas antigas.

É preciso limpar os tristes óculos que passamos a usar para contemplá-los com o prazer da ficção artística, sem nos sentirmos ameaçados por medos secretos.
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Folha de S. Paulo, 8, de junho de 2008

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Registro 138. Ao meu amigo Rubem Rocha Filho



Não estás aqui! A estranha bruxa da Memória vê
Em cadeiras vazias tua imagem ausente,
E aponta onde sentaste, onde agora deverias estar
Mas não estás.
Shelley


RUBEM ROCHA FILHO (1939-2008)

Toda a teatralidade cabe em uma voz

WILLIAN VIEIRA

Era um "tipo popular" no Nordeste o tal Rubem Rocha Filho. Quase todo pernambucano, em algum momento da vida, travou contato com ele -ao menos com sua "voz de teatro", que emprestava a filmes e peças, campanhas políticas e comerciais de TV. "Tinha o poder da palavra."

Havia até quem com ele aprendeu a ler, nos livros infantis como "Tilico no Meio da Rua". Por isso ligavam os fãs para o programa "Sexta Cultural", em que o autor batia papo com convidados; era para dar parabéns, prestar homenagem ou contar alguma grande história de vida.

A dele não era menor. Carioca formado em ciências sociais, foi logo fazer teatro, dizia, até com Cacilda Becker. Até aceitar o convite para dirigir no Teatro Popular do Nordeste, em 1968. Fez mestrado nos Estados Unidos, doutorado na Inglaterra e, após uma década de 70 à inglesa, escrevendo programas para a BBC de Londres, voltou a Pernambuco.

Dirigiu peças como "O Anjo Azul", atuou em filmes como "Baile Perfumado" e se entregou à "Paixão de Cristo", evento teatral de Nova Jerusalém (PE) -"o maior espetáculo da terra, no maior teatro ao ar livre do mundo". Mas Rocha Filho temia a velhice. Há três anos, após ser premiado em um concurso sobre maturidade, enxotou o discurso da melhor idade. "Só temos medos: solidão, doença, abandono". Morreu quarta, aos 68, de falência múltipla dos órgãos. Solteiro, não tinha filhos.
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Folha de S. Paulo, 2 de junho de 2008.

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Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:
"Ele está morto"

Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.

Ele era meu norte, meu sul, meu leste e oeste.
Minha semana de trabalho e meu domingo
Meu meio-dia, minha meia-noite.
Minha conversa, minha canção.

Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.

Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque
Pois nada mais agora pode servir.

W.H. Auden

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Registro 137: + Bernardo Linhares

O sol

Ao Poeta Ruy Espinheira Filho

Depois da noite em chamas,
cantando nas espumas,
o mar ainda é rubro
ouriçado de escamas.

Feito uma concha, rosa
secreta sob as ondas,
a lua fecha os olhos
e oculta a própria sombra.

No céu surge outra chama
na chama vários tons
nos tons todas as gamas.

O sol, concha amarela,
transforma a aurora escura
num céu de madrepérola.

Lua

Para Renata Belmonte

Onde o limite é o amor,
o céu espelha
um mar de estrelas.
O fogo todo é cor de rosa.
O cinza, sereno violeta.
Feita perfeita para o gozo,
voa no céu a borboleta.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Regsitro 136: Idéario contracultural

ECOS DE 68
A IMAGINAÇÃO NO PODER

Raimundo Matos de Leão

Loucos, desbundados, beatiniks, rebeldes, revolucionários e todos os que “velam pela alegria do mundo”, quarenta anos vos contemplam! Ainda que esse tempo seja relativamente curto, o passado recente está pleno de significados, de utopias não realizadas, de sonhos postergados, de idéias e desafios hoje institucionalizados pela política da globalização, pelo projeto neoliberal e pela expansão da indústria cultural. Esse “tempo de agora”, ditado pela lógica do mercado, carece de novos reptos. E mesmo que venham a ser capturados, como foram os desafios vanguardistas que irromperam durante os anos 60 e 70, tais estímulos podem escapulir “como ratos do museu”, o que torna sua luta se não vitoriosa, pelo menos útil, como indica Edoardo Sanguineti (2000). Por conseguinte, o confronto entre os novos valores, paradigmas e propostas e os valores estabelecidos é permanente, mesmo que se dê a absorção do novo por parte do sistema. Isso não impede comportamentos desviantes da norma reguladora. Os desvios provocam rupturas.
Essa dinâmica insufla o artista, e não somente ele, no seu inconformismo, mesmo que a voracidade da indústria do entretenimento seja imensa e, de certa forma, negativa para o ato criador. Portanto, um choque de contracultura não traria nenhum prejuízo aos artistas pressionados pelo capital que os obriga a viver entre “o oportunismo e a resistência, entre o utilitarismo burguês e a efetiva dedicação à poesia”, como expõe Leandro Konder em Walter Benjamin, o marxismo da melancolia (1999).
As idéias da contracultura surgem nos Estados Unidos, mas não se restringem ao universo norte-americano, como alguns fazem crer. O movimento configura-se como uma força marcadamente conflitante com o status quo, inconformado com a institucionalização da vida, invadindo fronteiras. Considerada como uma “invasão bárbara”, o ideário contracultural avança contra os valores que sustentam a sociedade mundializada pós-Segunda Guerra, notadamente aquela que vive a política da segurança, conseqüência da Guerra Fria. Ao extrapolar as fronteiras do sítio onde brota, transcultura-se, contagiando setores da juventude em diversas paragens; juventude militante, que por volta do final da década de cinqüenta e mais precisamente nas décadas de 60 e 70 preparam “com amor no coração” a invasão, fustigando os “grossos portões” do establishment.
Iniciada desde a geração beat, as idéias da contracultura contaminam boa parte da juventude no Brasil. Insatisfeitos, os jovens, e não só eles, voltam-se contra a cultura burguesa assentada na superficialidade de uma vida medíocre, em cuja base está o consumo como uma razão da existência. Nos seus desdobramentos e operando com as idéias de Herbert Marcuse, Norman Brown, entre outros, o movimento contraculturalista politiza-se, fortalecido pelos acontecimentos de Maio de 68 na França, quando os estudantes levantam barricadas, decididos a revolucionar as estruturas de poder, tanto nos sistemas de direita quanto de esquerda. Os slogans “É proibido proibir” e “A imaginação no poder”, são pichados nos muros de Paris, alimentando o real e o imaginário dos sujeitos que se articulam sob uma nova subjetividade. Nota-se no interior do movimento a presença das teorias desenvolvidas pelos intelectuais da Escola de Frankfurt. No Brasil, as manifestações de pensamento, sejam elas estéticas, filosófica, sociológicas e antropológicas, vão estar coloridas pelos diversos matizes das reflexões dos frankfurtianos.
Na polifonia da cena, vê-se também o pensamento de Georg Lukács a ancorar o discurso dos que pensam forma e conteúdo na arte sob a chave de que a manifestação artística é apenas um reflexo da realidade. Para os que enveredam nas trilhas da contracultura e procuram responder aos limites impostos pelo sistema, o lume para suas reflexões estético-culturais está, como disse anteriormente, em Marcuse, Benjamin, Horkheimer e Adorno, não se restringindo a esses nomes. Esse corpo de pensadores, vai dar estofo para as posições que transitam entre a crítica à racionalidade e a negação da desrazão, à noção de individuo e sua autonomia, distanciando-o das “teorias que se aliam a uma técnica totalitária e da conservação do poder”, como escreve Olgária Matos em A escola de Frankfurt, luzes e sombras do iluminismo (2005). Entre nós, Luiz Carlos Maciel, distingue-se entre os que escrevem e defendem a mudança dos velhos hábitos e posturas, tornando-se um propagador do pensamento contraculturalista.
Vista também como “a invasão dos centauros” a escalar os sustentáculos do sistema, a contracultura configura-se como imagens de conquistadores enfurecidos em luta “contra as festividades civilizadas em andamento”, conforme Theodore Roszak (1972). Seus postulados colocam em questão a ortodoxia tecnocrata. Investe contra os planos da direita e os da esquerda, em um fluxo que reclama o afastamento das gerações passadas, mesmo que não se saiba onde chegar. No entanto, seu inconformismo não revela inconsciência, nem alienação. A postura negativa com relação aos ditames da ordem social tecnocrata é reveladora da politização dos segmentos da classe média, notadamente dos jovens, atentos que estão para a seguinte premissa: “qualquer que seja o custo para a causa ou a doutrina, é preciso atentar à singularidade e à dignidade de cada indivíduo e ceder àquilo que a consciência exige no momento existencial” (Roszak). Essa premissa, se não congrega tudo e todos, aponta para o entendimento entre segmentos ativistas e a juventude mais afinada com a filosofia hippie, congregada em torno do lema “Paz e Amor”.
Ao dizer sobre esse estado de comunhão, não se afirma que o movimento contracultural instaurou a confraternização universal. O sistema soube atacar as suas contradições e se apropriar dos elementos contestatórios para manipulá-los a seu favor. Os impasses e as contradições mostram a fragilidade das investidas contraculturais, muito mais que a rigidez ortodoxa do pensamento ocidental sustentou a ação revolucionária das décadas anteriores. Nas batalhas por resolver os problemas decorrentes das injustiças sociais e dar corpo a toda as exteriorizações da vida psíquica, surgem demandas no interior da vanguarda que a contracultura instala. Os dilemas enfrentados por esses segmentos dão margem a que seus críticos se lhe oponham, condenando-os ou simplesmente negando-os, ao tipificar suas manifestações como vazias, alienadas e alienantes. Esse novo modo de viver surpreende por colocar em risco o mundo disciplinado que a juventude naquele momento contesta. Por esse motivo é desqualificado e reprimido.
Ao rejeitar todo um arcabouço de idéias que mantém os pilares da sociedade massificada, os grupos no centro desse arco multicor que é a contracultura persistem firmemente sustentados por um desejo de viver o presente, diluindo-se a noção de futuro como promessa. Intentam práticas sociais alternativas sustentadas pelo discurso e pela ação que propõem um radical afastamento da racionalidade determinada pelo autoritarismo. Nesse arcabouço promove-se “uma base cultural para a comunidade, novos padrões familiares, novos costumes sexuais, novas maneiras de ganhar a vida, novas formas estéticas e novas identidades pessoais no lado oculto da política de poder, no lar burguês e na sociedade de consumo” como atesta Roszak.
No interior da contracultura cria-se um quadro matizado de oposição aos regimes tecnocratas e totalitários, ao pensamento cientificista – uma quase religião –, ao entendimento da política como abstração. Afirmam-se premissas que abarcam discussões e vivências a respeito de aspectos abrangentes da existência. Contesta-se a noção de progresso, aquela que se compraz em avançar sobre os destroços causados pela ação dos vencedores ou pela acumulação quantitativa, como nos lembra Benjamin (1994), ao se posicionar contra “a obtusa fé no progresso”, ideologia que irmana opostos: conservadores e progressistas – iludidos que são pela crença no ideal progressista – pensam que a humanidade avança para além barbárie. Os contraculturalista prefiguram o ideal comunitário e a democratização da vida. Em sua rebeldia, desenham o estado de exceção compreendido pela via positiva, contrário ao estado supressor das liberdades democráticas imposto, por exemplo, pelo governo civil-militar entre nós. No período de sua existência, a contracultura se firma e se propaga no Brasil, mas não como uma decorrência circunstancial, fruto das redes ditatoriais que controlam o País nos idos de sessenta e setenta. Essa visão que toma a contracultura como resultante da circunstância nega a sua força subversiva não apenas nos trópicos, mas em todos os sítios onde os jovens se posicionam contra. Apesar do regime ditatorial, o desbunde desmontou o discurso fechado. “Pelas brechas, pelas rachas” (Torquato Neto) desviou-nos da caretice reinante. Agora, diante das imposições do mercado, do atrelamento da cultura às normas econômicas, da passividade social e do individualismo exacerbado, resta apelar para a redenção messiânica, a iluminação profana, nos termos propostos por Walter Benjamin. A redenção poderá nos devolver o que nos foi e é retirado brutalmente.
Concluindo, toma-se de Olgária Matos o seguinte trecho: “Para reconhecer o instante (...) da revolução, para reconhecer os sinais anunciadores do futuro, necessita-se de ‘presença de espírito’, tal como Benjamin o diz. E este é ‘corpórea presença de espírito’, é sensorial e sensual”. Essa presença de espírito insufla a imaginação, intensifica os poderes de Eros contra Thanatos e fortalece o sujeito em sua luta contra a razão instrumental. Então, o sensível contido na arte se apresenta como uma saída contra o barbarismo. Ações inspiradas de contracultura talvez nos livrem do neoconservadorismo infiltrado nas instituições e na vida, nos alertem contra o que há de falso no discurso progressista. Portanto, a contracultura continua imprescindível na pós-modernidade, não como repetição, mas como inquietação no presente. Memória ativa que transforma o presente.
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O texto foi publicado originalmente no suplemento Cultural do jornal A Tarde, Salvador - Bahia, em 17 de maio de 2008, pp.8-9

Registro 135: Carolina chegou por e-mail

Carolina

Bernardo Linhares

São rosas na bruma
buquê de gaivotas
por cima das águas
bordadas de espumas.

Com linha da costa
de seda tão pura
costuro tua moda
na vela do barco.

Ternura mais funda
os fios da corrente
revelam teus laços...

Cortando o silêncio,
um amor imenso
navega no vento.

sábado, 8 de março de 2008

Registro 134: Homegam a Dona Aracy

Conheci dona Aracy em casa de Dr. Edu e dona Bia, levado por um amigo da família e também por um dos filhos, o saudoso Plínio de Carvalho Tess. Convivi com os Tess por pouco tempo, mas durante o curto período, percebi ser um clã especial. Tenho gratas recordações do acolhimento, da gentileza e do carinho que me devotaram. Dos Tess, recebi, entre outras coisas, a obra completa de Guimarães Rosa, um presente inestimável. De dona Aracy , eu ganhei um autógrafo no exemplar de Grande Sertão.
Reproduzo o texto de Fabiana Canosa aproveitando-o para homenagear a mulheres no Dia Internacional dedicado a elas. Esclareço que a homenagem se estende a todos os dias, porque as mulheres, como os homens, as crianças, os índios, os pais, as mães, os negros, não precisam de uma data especial para homenageá-los.
Que o exemplo de dona Aracy cale fundo em todos que desejam um mundo justo, sem preconceitos. Que possamos todos respeitar as diferenças étnicas, religiosas, sexuais, culturais. Dizer não ao estado de violência diariamente é a condição para amenizá-la ou, quem sabe, exterminá-la da face da terra.
Raimundo
A MULHER QUE DRIBLOU O NAZISMO
Fabiana Caso

Em plena era nazista, imagine uma mulher linda, de tipo físico latino, com forte apelo sensual, que passava zunindo em seu veículo pelas ruas de Hamburgo, na Alemanha. Os guardas paravam o carro, mas ficavam boquiabertos com a figura altiva que saía de dentro dele, falando um alemão perfeito e sem sotaque. Inertes, constatavam, então, que ela era funcionária consular, com imunidade garantida. Mal sabiam que, por vezes, ela transportava judeus - para os quais conseguia vistos de entrada no Brasil e até mesmo o navio em que embarcariam.
Não bastassem essas proezas, Aracy de Carvalho foi casada com um dos maiores escritores brasileiros: João Guimarães Rosa. No próximo mês, ela completa 100 anos de vida - assim como faria o escritor. Mora na capital paulista com seu filho, o advogado especializado em Direito Corporativo e Internacional, Eduardo Carvalho Tess, e a nora Beatriz Carvalho Tess. Tem quatro netos e oito bisnetos.
Até os 90 anos, ela morava sozinha no apartamento que dividiu com o marido no Rio de Janeiro, mas, há cerca de sete anos, sofre do Mal de Alzheimer. Por uma ironia do destino, alguém com tanto para contar já não fala, não anda e reconhece o filho apenas algumas vezes. Mas sua memória ficará viva: no momento, duas pesquisadoras estão finalizando uma biografia que vai contar a fascinante história de dona Aracy, enquanto outras brasileiras estão executando pesquisas na Alemanha para um documentário sobre o tema.
Pioneira em todos os aspectos, Aracy é filha de mãe alemã e pai brasileiro. Nasceu em Rio Negro, no Paraná, mas se criou em São Paulo. Como as moças da época, casou-se cedo, com o alemão Johannes Edward Ludwig Tess, com quem teve o filho Eduardo. Mas, insatisfeita, optou pelo desquite e emigrou para a Alemanha. “Um dos motivos foi o clima não muito favorável para uma mulher desquitada no Brasil”, conta o filho Eduardo. “Meu pai era alemão, um tipo nórdico, e minha mãe tinha personalidade muito latina.”
Com o filho de 5 anos, ela aportou na Alemanha em 1934 e foi morar com uma tia em Hamburgo. Como falava fluentemente alemão, francês e inglês, conseguiu um emprego como chefe de vistos no Consulado do Brasil naquela cidade. Logo o regime nazista e a perseguição aos judeus passaram a revoltar Aracy, especialmente depois da chamada Noite dos Cristais - um atentado às sinagogas, comércios e aos próprios judeus, em 1938. Eduardo lembra de ter visto as vidraças quebradas do comércio judaico.
Foi no Consulado que Aracy conheceu o então diplomata João Guimarães Rosa, que tinha o cargo de vice-cônsul. Na época, a Alemanha vivia um racionamento de comida e, aos semitas, era dada uma quantidade menor de alimentos. Aracy passou a alimentá-los com a cota extra que recebia no Consulado: ia de casa em casa distribuindo comida. Dizem que Guimarães Rosa a acompanhava nessas distribuições, mesmo morrendo de medo pelo que poderia acontecer com sua mulher.
Ela foi bem mais longe. Como a entrada dos judeus estava proibida no Brasil pelas leis do Estado Novo, conseguiu vistos para cerca de 100 famílias, segundo as contas de seu filho. A partir de 1937, obtinha atestados de residência para os judeus em Hamburgo e, assim, conseguia a emissão de passaportes sem o J de identificação. Colocava-os em meio à papelada para o cônsul assinar, sem levantar suspeitas.
Eduardo era pequeno na época e, por questões de segurança, foi enviado de volta para morar com a avó em São Paulo - o próprio governo alemão começou a evacuar as crianças por causa dos bombardeios. Mas, segundo contaram ao filho, nessa bonita missão protetora, sua mãe teve o auxílio de um instrutor da auto-escola onde aprendeu a dirigir, que também era policial. “Dizem que era ele que conseguia os atestados de residência em Hamburgo.” Em uma das homenagens a ela, Aracy disse que fez tudo isso “simplesmente porque somos todos irmãos”, lembram Eduardo e Beatriz. “Ela era guerreira e corajosa, sabia se posicionar”, resume seu filho.
RELATO
Uma das pessoas salvas por dona Aracy também vai completar 100 anos em novembro. Ela se chama Maria Margareth Bertel Levy (depois que seu nome polonês foi trocado no passaporte) e hoje vive no mesmo bairro que dona Aracy. Lúcida e meiga, fala com carinho sobre a benfeitora, de quem acabou se tornando uma amiga para toda a vida. “Fui pedir um visto para entrar no Brasil no Consulado e conheci Aracy. Foi amor à primeira vista.”
Naquela época, em Hamburgo, o marido de Margareth estava escondido em um lugar que apenas ela sabia. No dia em que ele deveria embarcar no navio, Aracy deixou o seu carro com placa consular na porta do prédio de Margareth, para ela ir pegá-lo, caso houvesse qualquer imprevisto. “Ela guardou minhas jóias em sua casa e nos acompanhou até o camarote do navio. Lá, escondeu o saquinho com as jóias na descarga do banheiro. E só desceu quando já estavam retirando a ponte”, lembra. Margareth conseguiu retomar o contato com Aracy porque tinha o endereço da mãe dela, Sida Mobius de Carvalho (que faleceu aos 104 anos).
Entusiasmada, a amiga lembra de outra família “salva”, que não falava uma palavra sequer de português. “Quando foram embarcar para o Brasil, Aracy deu a eles o endereço da tia dela em São Paulo, que falava alemão. Acho que ficaram até devendo dinheiro para ela”, fala. “Ela era um anjo. Uma mulher linda e sensual que só queria fazer o bem para as pessoas em apuros.” Depois de décadas trabalhando com o marido, que era dentista, Margareth ficou viúva há cerca de 20 anos. Não tem filhos, mas a família de Aracy continua cuidando dela até hoje: Eduardo e Beatriz fazem visitas diárias.
Pelo seu feito, Aracy é a única mulher brasileira que tem o nome no Museu do Holocausto, em Jerusalém. Lá, há uma árvore plantada em sua homenagem no chamado Jardim dos Justos, onde são citados outros protetores famosos, como Oskar Schindler. O rabino da Congregação Israelita Paulista (CIP), Michel Schlesinger, que esteve no Museu há pouco tempo, comenta: “Aracy foi uma dessas pessoas que não silenciaram diante do regime nazista, que sentiram que tinham uma missão e colocaram a própria segurança em segundo lugar para que os semitas fossem salvos. É admirável, porque ignorou a proibição. A coisa mais fácil era deixar passar.”
AMOR NA TERRA NATAL
Aracy voltou ao Brasil com Guimarães Rosa em 1942, depois de um tempo em Baden Baden, onde viveram com as porções racionadas de comida e sem calefação. Casaram-se por procuração no México - as leis brasileiras não permitiam o casamento de dois desquitados. Em terra natal, Aracy abriu mão da carreira diplomática por causa do amor a seu Joãozinho, apelido carinhoso pelo qual chamava o escritor. Era proibido que duas pessoas casadas trabalhassem na mesma embaixada.
Depois do período em que o escritor trabalhou na embaixada de Bogotá, na Colômbia, os dois foram para o Rio de Janeiro, onde passaram a maior parte da vida, rodeados por muitos cachorros e gatos. A família conta que Aracy ficava sentada ao lado de Guimarães enquanto ele escrevia - invariavelmente, lia trechos para ela. “Minha mãe dava palpites e sugestões”, diz Eduardo. Não foi à toa que ele deu Grande Sertão: Veredas para a mulher, com a seguinte frase: “À Ara - minha mulher, muito amada, minha companheira para sempre - com a vida e o carinho do seu Joãozinho”.
Nos anos sombrios da ditadura militar, Aracy voltou a praticar sua solidariedade. Com Guimarães, ajudou o amigo do casal Franklin de Oliveira a se exilar. Já viúva, ficou sabendo que o compositor Geraldo Vandré estava sendo procurado e o escondeu em seu apartamento por quase três meses. Eduardo lembra dessa época. “Tínhamos medo de que as crianças acabassem entregando.” Vandré ainda ficou escondido na casa da mãe de Aracy, Syda, em São Paulo, antes de cruzar fronteiras.
A linda história de Aracy encantou a então pesquisadora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), da Universidade de São Paulo (USP), Neuma Cavalcante. Ela era responsável pelo acervo de Guimarães Rosa, mas ficou intrigada com essa mulher, para quem tinha dado o livro Grande Sertão: Veredas. Quando descobriu que protegera os judeus no nazismo, resolveu escrever uma biografia sua, juntamente com a professora licenciada da USP, Elza Mine. “Quando Grande Sertão foi traduzido para o francês, Guimarães escreveu para o tradutor, dizendo que não tinha dedicado o livro, mas dado para Aracy.”
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Publicado originalmente pelo jornal O Estado de S. Paulo, 02 de março de 2008.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Registro 133: 1808 E O TEATRO BRASILEIRO

A FAMÍLIA REAL ABRE AS CORTINAS DO ESPETÁCULO TEATRAL NO PAÍS

Raimundo Matos de Leão

Doutor e Mestre em Artes Cênicas – UFBA. Escritor, coordenador e professor do Curso de Artes Cênicas da Faculdade Social.

Comemorações de efemérides históricas tornam-se momentos para se rever à luz dos atuais estudos historiográficos as ocorrências positivas e negativas dos acontecimentos passados, retirando-os do continuum para salvá-los da petrificação. Faz-se um movimento em torno da chegada da corte portuguesa ao Brasil em 1808: publicações, eventos e muita polêmica vão marcar o aniversário de 200 anos da chegada de dom João 6º aos trópicos. Primeiramente na Bahia, onde aportou em 22 de janeiro e permanecendo em Salvador até 26 de fevereiro, depois a corte segue para o Rio de Janeiro, capital da colônia, cidade que vai beneficiar-se com a chegada dos portugueses, passando em seguida ao estatuto de metrópole do Vice-Reino de Portugal e Algarves.
Além do que a farta documentação nos legou, pode-se imaginar o efeito causado pela presença da corte, tanto na Bahia quanto no Rio de Janeiro: certamente um reboliço no real e no imaginário dos sujeitos que presenciaram tal acontecimento.
Informe-se que a esquadra que adentrou a Baía de Todos os Santos estava incompleta devido à tempestade, mas uma das três naus que aportaram em suas águas trazia o regente, fato que propiciou a realização de festejos religiosos e comemorações em torno da figura do príncipe. Até aí, nenhuma novidade; fazer festas religiosas espetaculares, mescladas de elementos profanos, traço identitário do “catolicismo teatral”, é uma prática que o século XIX não deixará de cultivar, embora julgada pela aristocracia como manifestação do “populacho”, por isso de mau gosto.

As manifestações teatrais no Brasil, nos três primeiros séculos da colonização, estão marcadas pela hibridização de elementos da liturgia católica, legado da tradição portuguesa, das festas indígenas e da cultura africana transculturada. O conjunto dessas expressões sustenta essa trajetória irregular do teatro, até que se definam as linhas estruturantes do fenômeno entre nós.

No Rio de Janeiro, local escolhido para sediar a corte lusitana, além das festividades, a permanência da nobreza acarretou a desocupação de residências para dar abrigo aos europeus que chegavam. Em função da corte, os espaços públicos e privados deixam-se contaminar pelos modos do viver europeu, modificando-se o cenário social da cidade balneária. Como parte da corte absolutista e parasitaria, os nobres instalados no Rio de Janeiro vão transformá-lo, com seus hábitos e costumes, numa cidade portuguesa. Essa transformação na paisagem humana logo vai ser assumida pela população local, criando-se todo um aparato normativo que passa a reger as relações em sociedade. Para o bem ou para o mal, o brasileiro entra em uma nova ordem impulsionada pela abertura dos portos às nações amigas, intensificando-se com isso o processo de transculturação, em marcha desde os primórdios coloniais. É bem verdade que a abertura não se deu por completa, visto que normas restritivas impediram o acesso de algumas nações aos portos brasileiros, dando-se a primazia à Inglaterra.

O teatro brasileiro não ficou incólume a essa reviravolta. Os nossos antepassados do século XIX vão tomar conhecimento da estruturação definidora da tríade que constitui o fenômeno teatral - intérpretes, público e dramaturgos – já que a atividade teatral nos séculos anteriores, ainda que existente, carecia dessa triangulação basilar colocada em prática de forma incipiente. Tal afirmativa não apaga a contribuição daqueles que aturam no que compreendemos como a pré-história do teatro no Brasil.

A configuração triádica mostra-se de maneira mais autônoma a partir do momento em que o teatro sofre os eflúvios do romantismo. Entre os anos de 1836 e 1938, o teatro romântico aparece nas ribaltas dos centros mais desenvolvidos do país. Toma-se esse período como o da fundação do teatro nacional. No entanto, as alterações no panorama teatral vão se dar desde o ancoramento da corte joanina no Rio de Janeiro.
Data dos anos oitocentos a construção de diversas casas de espetáculos não apenas no Rio de Janeiro, mas em outras províncias, fenômeno indicativo de que a prática teatral requeria um lugar para ser vista. É seguro dizer que 33 teatros foram inaugurados entre os anos de 1812 e 1895, do Norte ao Sul do território nacional.

Salvador vê surgir na encosta da Montanha o Teatro São João, inaugurado no aniversário do príncipe regente (13 de maio de 1812), constituindo-se em um espaço com 340 cadeiras nos camarotes, 300 cadeiras na platéia e 400 nas torrinhas, lugares mais altos e reservados aos de pouco poder aquisitivo. Nessa configuração espacial pode-se ler de que maneira hierarquizavam-se as relações de classe.

Sobre a construção do Teatro São João, Affonso Ruy esclarece em sua História do Teatro na Bahia (1959), que ao chegar o príncipe em Salvador, as obras tinham sido iniciadas, sendo seus alicerces fruto do trabalho dos africanos presos quando do levante da nação hauçá em 1807.

A partir de sua inauguração, o Teatro São João torna-se o lugar de encontro da sociedade baiana, que não soube ou não quis conservá-lo como documento vivo de um tempo que se quer perdido. Diversos fatores podem ser enumerados para justificar o descaso com relação a esse bem público que transitou por mãos privadas, acabando-se pelo fogo nos idos de junho de 1923.

Em sua monografia histórico-analítica, O Theatro na Bahia – Da colônia à República: 1800-1923, Sílio Boccanera Júnior informa que a construção, com alguns defeitos, mostrava-se ricamente ornamentada e sua acústica tecnicamente bem realizada.

O “soteropolitano” Teatro São João não foi construído por decreto do príncipe regente, mas em 1810, desejando doar ao Rio de Janeiro de um teatro a altura de sua presença na cidade, dom João determina que se construa tal espaço, o que leva Décio de Almeida Prado a afirmar: “não se compreendia, obviamente, casa real sem seu respectivo palco, traço de união – e às vezes de desunião – entre poder e povo”.

Coube ao cabeleireiro do regente, Fernando José de Almeida, a incumbência de construir o Teatro São João, contando para isso com benefícios da coroa, sem que essa assumisse de fato a responsabilidade pelo empreendimento. Inaugurado o teatro em 1813, esse espaço reservado à representação recebeu outros nomes, em função das mudanças no cenário político. Quando da proclamação da Independência foi renomeado, passando a se chamar Teatro São Pedro de Alcântara, uma referência a dom Pedro I.

Com a vitória das forças liberais em 1831, passou a se chamar Teatro Constitucional. Altera-se o nome do Teatro ao sabor dos ventos da política, um procedimento ainda em voga quando as autoridades que usam do poder para tais determinações, e arbitrariamente mudam o nome de bens públicos. Mais tarde, o espaço recebeu o nome de João Caetano, uma merecida homenagem ao nosso primeiro intérprete, ainda que se verifique o seu descuido em fomentar a dramaturgia nacional.

A iniciativa do príncipe regente estimula portugueses e brasileiros a freqüentar as casas de espetáculo, movendo-se por necessidade de diversão, por sofisticação – o lugar público torna-se palco de exibição – por vontade de apreciar o espetáculo do ponto de vista cultural e artístico, ou por sentirem-se importantes na companhia do governante. Galante de Souza comenta sobre o hábito das famílias irem ao teatro para se mostrarem visíveis ao olhar do outro, e assim “fazer-se passar por pessoas de destaque (...), e o encantamento, que condenara as senhoras brasileiras à reclusão do lar, quebrou-se”. A necessidade pela visibilidade parece-nos ainda um motivo para que a elite vá ao teatro.

Construído o Teatro São João, tornou-se necessária a presença de artistas para animá-lo, cabendo as renomadas companhias portuguesas o privilégio de ocupar a cena. Cria-se com isso mais um laço de influência, como outros que ligam Portugal ao Brasil. O teatro que se faz no Brasil desde a presença de dom João no Rio de Janeiro é essencialmente português. Coube a companhia da atriz portuguesa Maria Torres a função de inaugurar o Teatro São João. Esse trânsito faz com que muitos dos intérpretes portugueses permaneçam no Brasil, determinando não somente o repertório de textos lusitanos e peças francesas traduzidas, mas a maneira de representar, principalmente no que concerne a prosódia. A esses elencos portugueses agregam-se atores brasileiros, estabelecendo-se então os elementos necessários para formação dos segundos pelos primeiros. Essa prática permanecerá aferrada aos palcos brasileiros até o surgimento de João Caetano, por volta de 1833, reivindicando apoio do poder público para o teatro nacional, contribuindo para a profissionalização e, sobretudo, refletindo sobre sua prática no palco, fornecendo subsídios necessários para a autonomia do ator brasileiro, elevando-lhe o status. Marcadamente nacionalista nas suas proposições, João Caetano não esquece a contribuição dos atores e atrizes portugueses na estruturação de uma prática de representar e de escrever para a cena.

Destacados os aspectos dominantes neste brevíssimo painel sobre o teatro brasileiro ao findar o período colonial, concluímos que a arte teatral – nesse momento inaugural da identidade do Brasil como nação –, vai sofrer as influências das matrizes portuguesas, vai receber os influxos diretivos da Missão Artística Francesa. Essa intervenção vai contribuir para o salto qualitativo que se percebe ao longo do século XIX, quando a produção visível no palco será apreciada e debatida pelos artistas e intelectuais, de maneira elogiosa e contributiva para o fortalecimento do espetáculo. O reverso da moeda revela também as posturas preconceituosas e excludentes que cercaram as avaliações sobre o teatro que se fez no decorrer do século.

Vale acrescentar que a instauração de uma nova prática artística, desde a chegada da família real e sua corte no Brasil, não pode ser louvada sem que se faça uma crítica aos estrangulamentos causados por esse processo modernizador imposto de cima para baixo. Olhando-se atentamente para o período anterior ver-se-á que a colônia possuía artistas de incontestável valor: poetas, músicos, escultores e pintores que se vêem relegados a segundo plano, tal a mentalidade impositiva do novo modelo estético que se quer para o lugar que abriga a corte.
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Publicado originalmente, com modificações, pelo jornal A Tarde, Cultural, 12 de janeiro de 2008, pp.4-5.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Registro 133 A: Iluminação Natalina

Folheando os jornais do dia, eu encontrei o texto se Guilherme Wisnik (Folha de S. Paulo, Ilustrda, 24 de dezembro de 2007). Resolvi publicá-lo no Cenadiária por ser aquele que me diz mais sobre a iluminação natalina. Sua reflexão foge da mesmice que cerca a maioria do que se escreve sobre o Natal. O processo de iluminação, segundo a sua ótica, é difícil de ser vivido, de ser atingido em sua plenitude. Mas vale a pena tentar... cada um que encontre os caminhos para atingir esse estado diante do indizível. Mas que esse caminho nos afaste das trilhas do fundamentalismo, seja ele qual for.
Iluminação genital

Guilherme Wisnik

NAS PÁGINAS do Apocalipse, são João tem a visão de uma ordem divina que sobrevém ao Juízo Final. É a Nova Jerusalém, descrita como uma cidade quadrada, com doze portas, e cuja praça é "de ouro puro, como vidro transparente". Uma cidade que, no dizer do evangelista, não necessitava mais de Sol nem de Lua, "porque a glória de Deus a tem iluminado, e o Cordeiro (Jesus) é a sua lâmpada".

Considera-se que o primeiro emprego mais extensivo do vidro, na história da construção, data do século 12, com os vitrais das catedrais góticas. Em grande parte, dada à vontade de que estas pudessem equiparar-se simbolicamente à imagem diáfana da Nova Jerusalém descrita por são João Batista, na qual o ouro coincide com o cristal, e o brilho reluzente é sinônimo de transparência (significativamente, quase todas as catedrais trazem representações do Apocalipse em suas portas).

Avanço técnico surpreendente numa época ainda conservadora, em que o horizonte humano se estreitava com a possibilidade iminente do final dos tempos. Daí que a idéia de uma luz que vem do alto se mantenha, ainda hoje, ligada à dimensão da transcendência, mesmo em um tempo em que a desmaterializada fachada de vidro se tornou o símbolo do "esclarecimento", isto é, das "luzes" da razão.

Certa vez um aluno, numa aula minha, querendo referir-se à luz zenital de uma construção (que entra pela cobertura, através de clarabóias), confundiu-se e falou em "iluminação genital". Ato falho que é um verdadeiro achado, já que a abertura vaginal é a primeira luz que "vemos" na vida. E, convenhamos, ela está no zênite do percurso do bebê em sua travessia pelo canal de parto, ao final do qual considera-se que a criança foi literalmente dada à luz.

Ao nascer, chegamos ao céu. Que é, por sua vez, a terra. Assim, as "partes baixas" sobem para o zênite, e eu diria que esse aluno teve, naquele momento, uma súbita iluminação: a vagina como uma Novíssima Jerusalém. Imagino que Freud gostaria da associação, particularmente sugestiva no dia de Natal. Em vez de representar uma dimensão inacessível do mundo (sobrenatural, platônica), essa luz nada mais é do que o próprio mundo no qual entramos.

Por outro lado, esse encontro com a luz é, agora, uma experiência ao mesmo tempo sublime e traumática. Pensemos, por exemplo, na dificuldade do Menino Jesus em romper aquele umbral virginal. Terá visto uma luz mais mortiça e bruxuleante do que nós? Mesmo sendo ele a "lâmpada" dos homens, não foi dispensado de ver, um dia, essa luz no fim do túnel como uma espécie de "Juízo Inicial": o momento em que o feto se individua, passando a ter uma bagagem própria e totalmente intransferível.

É freqüente a associação entre o espaço da igreja e o ventre materno, o conforto uterino. Pois o interior em penumbra da igreja, todo envolto em mistério, é sempre vedado à vista desde o exterior, ficando protegido por um anteparo situado em frente à porta, como um hímen. Reservadas, elas são como virgens guardando-se para aquilo que virá depois do Apocalipse.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Registro 132: Apoio

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