quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Registro 406: Para educadores



Tomei a liberdade de copiar da Folha de S. Paulo e colar neste blog, o texto logo após a esta resumida introdução. Tamanha é lucidez na análise da proposta que ronda o ensino médio no Brasil, com a adoção de um sistema que privilegia o ensino em áreas que se agregam e ministradas à cargo de uma professor generalista, Sei bem o que é uma professor generalista. Na área da Arte, que é a minha, a batalha para romper com a excrecência do professor generalista foi muito dura, pois temos a certeza de que um professor não conseguirá ministrar conteúdos de Teatro, Música, Dança e Artes Visuais com a competência necessária e fazer com que os estudantes mergulhem no universo das linguagens da Arte de maneira adequado e vertical como deve ser este encontro. Ainda não conseguimos fazer com que as escolas públicas e privadas em sua totalidade compreendam a necessidade de um professor para cada linguagem da Arte. Há exceções, mas via de regra, os profissionais são levados a assumir a tarefa de ministrar aulas de Arte tendo apenas a formação numa das linguagens, o que descaracteriza uma proposta educativa séria. Agora, diante dos baixos índices educacionais, os burocratas da educação inventam uma moda que em vez de avançar retroage a um modelo  vigente no tempo da ditadura civil-militar. Mas deixemos que o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. exponha seu pensamento. Comungo com suas ideias e espero que mentes lúcidas consigam agir de maneira a barrar tal estupidez.

Reforma estapafúrdia

PAULO GHIRALDELLI JR

Querem professores de ensino médio generalistas como os do ensino básico. O aluno esperará a faculdade para ter professores especialistas. Será tarde demais.

A ideia que o Ministério da Educação (MEC) tem para melhorar a educação brasileira é a extinção do "professor de colégio". Nunca pensei que se chegaria nisso. É fantástico: não havendo mais a figura do professor, tudo se resolve.

A reforma que o MEC propõe para o ensino médio se resume nisto: ficam extintas as disciplinas tradicionais -português, história, física, filosofia etc. Seus conteúdos devem ser diluídos em "áreas", criadas sem respaldo epistemológico, mas apenas como reflexo do mal arrumado Enem.

A proposta foi tema de dois textos nesta seção no último sábado. Com ela, o MEC atual repete o erro da ditadura militar. Pela Lei de Diretrizes e Bases de 1971, foi feito algo parecido, tendo sido necessário voltar atrás sete anos depois, quando foi constatado o fracasso da reforma.

Como não nasci ontem, posso dizer quais as principais consequências da reforma atual proposta.

1) A primeira é gravíssima: desaparecendo a disciplina, desaparece a figura do professor da escola média, ou seja, o tradicional professor de colégio, uma vez que é pelo domínio de um conteúdo específico que ele se caracteriza.

O professor do ensino médio será um generalista igual ao professor do ensino das primeiras séries do ensino fundamental. Ele poderá ser despejados dentro das tais áreas e, conforme o jogo de forças interno a elas, descartado. Professor sem disciplina no âmbito do colégio não é professor.

2) Não havendo mais a profissão de, por exemplo, professor de física, de filosofia ou de história, para que serviriam os cursos de licenciatura na universidade brasileira? Para nada. Isso vai causar desprestígio ainda maior da carreira do magistério e o fechamento das licenciaturas na universidade.

3) Não existindo mais disciplinas na escola média, queiram ou não, haverá um vácuo de três anos na vida do jovem.

As áreas não funcionarão de imediato (se é que algo assim possa funcionar um dia!), como sempre ocorre nesses casos de mudanças esdrúxulas. Haverá, então, o caos na escola: não se saberá que tipo de professor deverá ficar com os alunos e, ao fim e ao cabo, teremos rapidamente na universidade duas ou mais gerações com três anos a menos de ensino.

4) Descaracterizada dessa maneira, a escola média irá se configurar como um "lugar de espera". Será um tipo de playground para adolescentes (!), que deverão ficar lá, "na bagunça" -provavelmente eles próprios perceberão que não se sabe o que fazer com eles. A escola será um lugar para segurar uma juventude que deverá esperar a universidade para voltar a ter professor especialista!

A universidade, por sua vez, terá de arcar com a tarefa de suprir o que se perdeu nesses três anos. 

Obviamente, não conseguirá dar conta disso. O ensino universitário sofrerá pressão no sentido de baixar seu nível, uma vez que a maioria dos alunos não estará entendendo coisa alguma em sala de aula.

Tecnicamente, no jargão da sociologia da educação, trata-se aí de "expropriação do saber" do professor, uma conhecida antessala para arrocho salarial e contenção de despesa.

PAULO GHIRALDELLI JR., 55, é filósofo, professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e autor de "As Lições de Paulo Freire" (Manole)

Folha de S. Paulo, 29 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Registro 402: Para os eleitores


Aos eleitores de Salvador, Bahia e de qualquer cidade do Brasil. Basta fazer as adaptações ao seu contexto 

No texto que se segue, Aninha Franco nunca foi tão mordaz como agora. Humorada, mas terrivelmente agressiva, ela diz o que a grande maioria de nós quer dizer ao ver tantas caras sorridentes pelas ruas da Cidade do Salvador. Perspicaz, ela toca na ferida que se esconde por trás de tantos sorrisos. Sorrisos de quem vislumbra  um futuro promissor. Leia e desfrute o texto, mas não esqueça o que Aninha aponta. Só não vê quem não quer. Um texto oportuno. Pena que os políticos, que raça horrível, continuarão escondendo sua sordidez por trás de um sorriso manso, suave. Cuidado!


Quem ri por último, pode rir melhor, se quiser

Aninha Franco, 
A Tarde, 26 de agosto de 2012 

Por que riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Nas placas que enfeiam, ainda mais, a linda cidade da Baía, destacam-se os dentes. Alvos, quase exuberantes, riem sobre a urbe destroçada. Riem de quê? Do lixo, dos buracos, do fedor de mijo que afligem os cidadãos do território sem cidadania? Do extermínio da produção artística criativa dos Anos 1990? Da inexistência de políticas públicas municipais para o que quer que seja? 

Do tráfico e da polícia que, concorrentes, matam, como nunca antes na história deste Estado, jovens das periferias? Do mensalão do PT? Da CPI de Cachoeira do PSDB? Ou do poder onipresente de Sarney, o corrupto mor do País, na frágil democracia de 1963, em toda a ditadura, de 1964 a 1989, e na democracia de agora? Riem do constrangimento e da vergonha de serem políticos, como Maluf, os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos?

De que riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Dos analfabetos absolutos ou funcionais que vitimizam a si mesmos, à cidade, aos municípios, e ao Estado? Da educação pública, da saúde pública, da péssima qualidade dos serviços públicos, ou das casas caras que ocuparam para fazer campanha, e das casas ainda mais caras que ocuparão depois, se vencerem, aumentando patrimônios a galope, sem que ninguém lhes impeça ou fiscalize? Riem dos salários que os três Poderes se autocontemplaram, às escondidas, e que a Lei de Acesso tem exposto?

De que tanto riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Da falta de novas lideranças políticas? Das promessas que, quase todos fizeram sem falta e, as quais, quase todos faltaram, sem dúvidas? Da grana que precisa ser investida no Centro Histórico, pós avacalhação 2007.2010? Riem da gestão de Joãozinho Oito que se encerra com a cidade mais provinciana que em 2004? Riem de não terem rejeitado suas contas, tolerando que se ele se candidate a governador em 2014? Que tanto têm para rir os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitano à gestão 2013.2016. Como quem ri por último ri melhor, temos a opção da não reeleição absoluta. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Registro 401: Sobre a política cultural, o teatro e os editais


SOBRE EDITAL, PROFISSIONAL E PÁ DE CAL
Por Gil Vicente Tavares


Em seu discurso de posse como Secretário de Cultura da Bahia, o professor Albino Rubim citou, para ciúme das outras artes, o teatro profissional baiano. Era início de 2011, reeleição de Jaques Wagner, e seu discurso, oportunamente, referiu-se à área que mais embate teve com a gestão passada da pasta.

Pouco tempo depois, o secretário fez uma reunião com alguns artistas da cidade, com foco na discussão do teatro profissional em Salvador; o que causou ciumeira nos que não foram chamados, e um entusiasmo perigoso nos que estavam presentes.

2011 foi um ano fraco para o teatro. O Fazcultura, demonizado como um programa do governo onde as decisões ficam na mão da iniciativa privada, foi a ferramenta que conseguiu dar um fôlego para que o ano não passasse em branco. O Vivo Encena patrocinou o festival Bahia em Cena e o espetáculo Sargento Getúlio, abrindo exceção por ser uma data comemorativa e a abertura do festival citado acima; visto que o programa da Vivo não tinha como foco patrocinar, através do Fazcultura, montagens de espetáculos. Namíbia, não! foi exceção que confirmou a regra da ineficiência dos editais e muito pouco se fez.

A despeito do descrédito do Prêmio Braskem, o reflexo do arrefecimento da produção profissional baiana ficou claro nas indicações de melhor espetáculo. Dos cinco indicados, um era de alunos da Escola de Teatro, outro, uma peça de formatura da mesma, além de Fim de Partida, produção da Companhia de Teatro da UFBA.

A Secretaria de Cultura justificou a falta de incentivo por conta das dívidas herdadas da gestão passada, e todos aceitaram um ano de vacas magras para que a casa fosse arrumada e os artistas e produtores fossem pagos.

O ano de 2012 começou sem perspectivas claras para aquecer o mercado teatral em Salvador. Uma contenda entre Secretaria de Cultura e Vivo Encena fez o segundo se afastar, com seus investimentos, do teatro profissional na cidade. Como em samba de pombo urubu tá sempre errado, prefiro me abster de entrar nessa confusão, apenas registrando que, nessa contenda, quem mais perdeu foram os artistas. A Coelba e a Bahiagás chegaram a lançar propostas via Fazcultura, mas, de fato, até o momento não vimos nenhuma empresa de porte marcando presença na produção teatral da cidade.

Desde o início do século XXI que o “teatro baiano” (na verdade, o teatro produzido em Salvador) começou a passar por problemas de produção e sustentabilidade. O empresariado baiano foi paulatinamente sumindo, com seus investimentos, e uma ideia de democratização, descentralização e incentivo dos desfavorecidos, em detrimento dos que vinham produzindo por diversos mecanismos de isenção fiscal, patrocínios diretos e, raramente, editais, acabou por, junto com a verba, pulverizar a produção da capital.

Houve um enfraquecimento do Fazcultura, com uma produção pouco atrativa aos olhos dos empresariados que, noutras épocas, chegavam a ir atrás dos artistas para patrocinar ou apoiar financeiramente. A concentração na política de editais e o fortalecimento de um Fundo de Cultura do Estado da Bahia – concentrando, inclusive, recursos outrora destinados, pelas empresas, ao Fazcultura – provou não dar conta de uma efetiva, diversificada e contundente produção em Salvador.

Muitos espetáculos passaram a cumprir a temporada exigida e depois sumir, sem fazer carreira, circular, participar de festivais e ter uma sobrevida que justificasse um investimento público. Considero um desperdício de verba pública destinar-se a um projeto seja 50, 100 ou 150 mil reais, e esse projeto não ter uma carreira, não atingir uma meta mínima de público, não ter um planejamento que não o torne dependente apenas do edital. A obra de arte precisa ser vista e penso que quando o governo investe nela, é pra que essa obra possa dialogar com a sociedade, seja algo que dê um retorno ao público comum com o que a arte tem de mais essencial para o homem: a poesia que falta no dia-a-dia, a reflexão que passa por outros caminhos que não o panfleto e o discurso da mídia.

Num ano de pouca e pobre produção teatral, a Fundação Cultural do Estado da Bahia lançou um edital chamado Setorial de Teatro onde o conceito era que qualquer projeto vinculado às artes cênicas poderia ser contemplado de acordo com sua relevância para a comissão, ao contrário dos editais da gestão passada, que eram divididos em categorias como montagem, circulação e manutenção.

Foram dezoito projetos aprovados. Como o próprio site da FUNCEB divulga, foram nove projetos de difusão/circulação, quatro de formação, três de criação e dois de produção. Esse resultado é um reflexo da crise que se instaurou no teatro de Salvador. Dos dezoitos, treze foram de formação, circulação e difusão. Com isso, percebe-se uma tendência na comissão. Há, inevitavelmente, uma constatação: incentivar a formação, difusão e circulação são quase decorrências das necessidades profissionais, em boa parte, de uma classe. A necessidade de formação é para se ter uma técnica apurada para a realização de um espetáculo. E é preciso grandes espetáculos para que a circulação e difusão sejam válidas. Contudo, justamente esse elo da cadeia produtiva, o fundamental e que fortalece todo o resto, foi enfraquecido.

Três festivais foram contemplados. Ora, um festival é algo estrategicamente fundamental. Algo que não deveria concorrer em editais, deveria ser algo que tivesse verba direta e não precisasse concorrer com outros projetos. Mas a comissão teve que escolher entre um festival de cerca de noventa mil e montagens de duzentos mil. É de uma covardia e esquizofrenia sem tamanho, e uma concorrência desleal, pois deixar de contemplar dois festivais que, juntos, somam menos de duzentos mil, para aprovar uma montagem de duzentos mil chega a ser loucura. Por quê? 

Justamente porque devem ser políticas diferenciadas dentro de uma secretaria de cultura.

Como foi dito acima, os artistas que mais tempo vêm fazendo teatro, estando regularmente nos palcos, criando obras que possam ter uma carreira e dialoguem com o mercado de forma a que o projeto gere um mínimo de sustentabilidade, esses artistas poucas, pouquíssimas ou até mesmo nunca produziram suas obras através de editais.

Eu, por exemplo, ainda iniciante, com apenas treze anos de carreira, só fiquei um ano sem produzir nada em teatro: 2007 (coincidência, ou não, primeiro ano do PT na Bahia). Em treze anos de carreira concorri umas trinta vezes entre editais de montagem estaduais e federais e ganhei apenas uma vez, com Os javalis. Se eu, neófito, já estou calejado e acostumado a perder editais, quanto mais profissionais com anos de profissão: e edital não é política pública e nem o x da questão. Infelizmente, mais uma vez, após o resultado do Setorial de Teatro, as discussões pareceram girar em torno de quem ganhou e quem deixou de ganhar. 

Mais uma vez, a classe, difusa e desunida, aproveitou-se de um edital “balaio de gato” para alfinetar e se enfraquecer internamente, quando o foco não era, não é e nem pode ser quem ganhou e quem perdeu, e é engraçado como alguns vestem a carapuça das críticas que são direcionadas ao Estado, e não a nenhum artista específico. “A casa dividida não fica de pé” (Mateus 12.25b), e a falta de união pelo bem comum só corrobora o pouco caso dos poderes públicos.

Uma reportagem foi feita discutindo os rumos do teatro profissional em Salvador. Esse teatro que é feito com regularidade, que se pretende inserido num mercado consumidor, com carreira, temporadas, festivais. E neste aspecto, como saiu na reportagem em uma citação minha, esse edital foi uma pá de cal no profissionalismo que se poderia pretender para o teatro na cidade, pela analogia com o escasso incentivo à produção local.

Para quem não sabe, a utilização da expressão “pá de cal” refere-se ao último ato feito no enterro de um defunto. Um mero edital equivocado, difuso e que, em sua perspectiva de contemplar tudo, acabou por desequilibrar a balança entre produção e os outros elos da cadeia, não tem relevância, por si só. Contudo, ele é o reflexo de toda uma conjuntura onde a fuga do empresariado, opções complicadas  e decisões aparentemente equivocadas das políticas públicas acabaram por enfraquecer de vez o mercado do teatro em Salvador.

O teatro é uma arte coletiva. Tanto no fazer quanto no aparecer. Uma andorinha só não faz verão e a sensação que tenho, quando olho os roteiros de teatro da cidade, é desoladora. Não adianta me dizerem que o Teatro NU fez uma temporada em julho de Os javalis, uma em agosto de Sargento Getúlio, e depois vai viajar para Porto Alegre. Se o mercado não está aquecido, se estão acontecendo, raramente, grandes produções, projetos de visibilidade e qualidade – sim, há teatro de qualidade e há o teatro ruim que, além de ser ruim pela sua simples existência, ainda afasta o público fazendo um desserviço à classe –, se a efemeridade, fragilidade e irrelevância de produções impera, não há como tocar um projeto de teatro sério, profissional e a médio e longo prazo na cidade.

Estamos numa encruzilhada. De cá, para conforto dos de lá, nos engalfinhamos em picuinhas, revanchismos, invejas e disputas. De lá, o poder público nada faz de eficiente e programado, somos cada vez menos estimados pelos empresários, as perspectivas se fecham e a situação é calamitosa.

Resta, por enquanto, torcer para que os projetos aprovados no Setorial de Teatro inundem de qualidade e energia os palcos da capital e do interior. Que o pouco que foi aprovado traga uma relevância e uma significância imensa ao público, tão desacreditado em relação ao que se produz aqui. Precisamos voltar a pôr a cabeça pra fora da lama, precisamos ser vistos, precisamos voltar a ter credibilidade, dignidade, relevância no cenário artístico da Bahia. O antes tão bem falado, criticado e viajado “teatro baiano” precisa se reerguer. O profissional dessa classe precisa voltar a produzir e dar continuidade aos seus projetos.

Ano que vem é Copa das Confederações. Daqui a dois anos, Copa do Mundo. Precisamos de um novo prefeito que cumpra sua obrigação de incentivar nossa cultura, coisa que estupidamente não vem sendo feita. Precisamos ter a chance de mostrar que Salvador não é só aquela imagem batida, e que temos uma cultura forte, sólida e diversificada que pode, também, ser de interesse do turista, pode ser mercado, pode gerar renda e fortalecer a economia. É preciso incentivar a produção local para apresentarmos nossa diversidade e riqueza, e há recursos, estão investindo muita grana nessas copas. Porém, dinheiro teria também para o centenário de Jorge Amado e por enquanto a grande ação cultural do Governo Estadual foi colocar placas de outdoor pela cidade.

Não será com promessas vãs de um Secretário de Cultura (que domaram os protestos da classe), com o descaso do governo estadual, com a ignorância do governo municipal, com o descrédito de empresários e com editais pífios e esquizofrênicos que chegaremos lá.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Registro 400: Uma delícia de ver.



QUEM MONTOU A SEQUÊNCIA É UM GÊNIO. USOU A MÚSICA STAYING ALIVE COM CENAS DE DANÇAS DE FILMES ANTIGOS ESTRELADOS POR ASTROS DO PASSADO. INCRÍVEL. VALE A PENA DEDICAR 5 MINUTOS PARA ASSISTIR! BASTA CLICAR!

domingo, 22 de julho de 2012

Registro 399: Enquanto escuto Erasmo Carlos e amigos...


     1- De uma maneira geral, e com raras exceções, os críticos cinematográficos resolveram detestar Na Estrada, o filme de Walter Salles Junior a partir de On The Road, a bíblia beat de Jack Kerouac. Penso que se deixaram influenciar por opiniões desencadeadas apressadamente em Cannes quando na estreia do filme no Festival.
     Boa parte dos críticos não respeitam a leitura que o cineasta brasileiro, um dos melhores, fez do livro, quase cinquenta anos depois da viagem que o autor empreendeu pelos Estados Unidos da América na companhia de amigos. Está viagem emblemática se dá em dois níveis: o exterior, marcado pelos encontros e desencontros, a paisagem e os embates que aí se dão. O outro nível, mais profundo, porque mexe com a interioridade do Eu, este que absorve o que vê, ouve e escuta e se transforma.
     A viagem é sempre transformadora, mesmo que indique uma parada no final da estrada, ou o retorno ao mesmo, ao conhecido. A literatura de ontem e de hoje está repleta de viagens. Mesmo assim, o sujeito que parte e retorna não é o mesmo que partiu, ainda que guarde em si o que de fato é, mergulhando então na nostalgia de ter deixando algo por fazer.
        Octavio Ianni, no belo texto A viagem como metáfora, nos diz que a história dos povos está marcada pela viagem. Para ele, a humanidade trabalha "a viagem, seja como modo de descobrir o 'outro', seja como modo de descobri o 'eu'. É como se a viagem, o viajante  e a sua narrativa revelassem todo o tempo o que se sabe e o que não se sabe, o conhecido e o desconhecido, o próximo e o remoto,  o real e o virtual.
    A experiência da viagem realizada por Sal Paradise e Dean Moriarty acompanhados por Marylou mexe com as nossas certezas e figura a ultrapassagem de fronteiras, ao mesmo tempo dissolvendo-as ou recriando-as, Ianni novamente. 
      Ao ver na tela, a viagem movida sexo, drogas e jazz, na perspectiva do cineasta, um ser sempre fascinado pelos deslocamentos advindos da estrada, o filme traz as lembranças de um tempo em que eu, já passado da adolescência, buscava formar em mim um sujeito de espírito livre.
        Mesmo condicionado por uma formação católica repressiva eu encontrava acolhida nas páginas do livro que agora apreciei na tela. Os desregramentos vividos pelos personagens calavam fundo e mesmo sem ultrapassar a medida, eu sabia que era possível botar o pé na estrada, mesmo que a estrada fosse imaginária. E foi por ela que caminhei sempre. Vez em quando, ela se tornava real e eu caía nela desrespeitando os condicionamentos ditados pelo social.  
        Se não há tanta loucura como acusam faltar no filme, ainda há inquietação e muita. E há também beleza! Diante de uma sociedade massificada pelo consumo e pela necessidade, o livro e o filme são um tapa na cara de quem se acha muito louco nos dias de hoje. A moçada de hoje, a que se diz pra frente e libertária,  já encontrou estradas e picadas abertas por jovens que nos anos quarenta pularam fora dos condicionamentos e escreveram sua história com liberdade invejável. E pensar que eu nem era nascido! Mas fui bafejado por este fluxo libertário que vem de longe...
      Se há um erro em Na Estrada, ele está na escolha de Sam Riley, o ator que interpreta Sal Paradise, que na verdade é Kerouac. Que ator mais sem graça. Fora Riley, os outros atores e atrizes são ótimos e intensos como são os personagens que representam. 
        Veja o filme sem preconceitos.

2 - A companhia italiana de Fondazione Pontendera de Teatro esteve em Salvador com dois espetáculo: Abito e Lisboa. Como não conhecia o trabalho de Roberto Bacci, animador e encenador da Fondazione, corri apressado para ver Abito que dirigiu com Anna Stigsgaard. 
      Que decepção!
     Inspirado no Livro do Desassossego do poeta Fernando Pessoa na pessoa de Bernardo Soares, seu semi-heterônimo, o espetáculo promete muito nos vinte minutos iniciais e depois se repete numa chatisse infindável. Um fórmula pós-dramática que se repete e nada acrescenta. Não emociona. Nem esteticamente. Seus efeitos impressionam aos desavisados. Fui embora antes de terminar. No dia seguinte, conversando com colegas de trabalho, descubro que não perdi nada, pois nada mudou nem surpreendeu.
       Em meio ao texto retirado do Livro do Desassossego, inseriram poesias de Pessoa, de seus Outros (Caeiro, Reis, Campos) que lhe habitam. Uma delas, a que fala do menino Jesus e de um poeta, despertou em mim a vontade de ouvir o CD Rosa dos Ventos, aquele mágico show de Maria Bethânia dirigido por Fauzi Arap. E foi o que fiz ao chegar em casa. A cantora diz o texto como ninguém.
    O registro sobre a passagem do Pontendera por Salvador sai superatrasado. Eu andava travado pela preguiça...

3 - Um amigo de infância e juventude, muito querido, a quem não vejo faz muitos e muitos anos, comunicou-me o nascimento do seu segundo neto. Desejo-lhes o melhor dos mundos! Eu que só tenho sobrinhos, queridos, não serei avô. Serei somente tio-avô, mas não é a mesma coisa. Não lamento. 

4 -  Leia e sinta o prazer que senti. Mas leia com calma. 

RUBÁYÁT

OMAR KHAYYÁM
TRADUÇÃO LUIZ ANTÔNIO De FIGUEIREDO

VII
Enche a Taça de Vinho, e tua roupa severa
atira ao fogo acolhedor da Primavera!
Chega de contrição! O Pássaro do Tempo
abriu as asas rumo ao Fim que nos espera!

XII
Um Livro de Poesia sob a Rama Florida,
o Vinho e o Pão, ao lado a Mulher preferida,
cantando no deserto uma Canção singela,
fariam deste areal a Terra Prometida!

XXI
Amada, enche-me a Taça, vou deixar de lado
os medos de Amanhã e a mágoa do Passado!
Amanhã! Poderei considerar-me o mesmo,
com meus sete mil anos, sem estar cansado?

XXIV
Vamos gozar, Amor, cada breve Momento!
Logo seremos Pó, levado pelo Vento!
Pó jazendo no Pó, e sob o Pó da tumba,
sem Vinho, sem Cantor, sem Música ou lamento!

XXXV
Meu lábio degustou a sagrada Bebida
num Caneco de Argila, para entender a Vida.
Argila aconselhou: - "Contente-se em Beber,
não haverá mais Vinho após a Despedida!"

XLI
Sem mais interrogar o humano e o divino,
às mãos do Vento errante entrega teu Destino,
e teus dedos enlaça nas tranças do esbelto
jovem que oferta o Vinho - e viva o desatino!

XLII
Se o Vinho que bebes e os beijos de tua boca
têm Princípio e têm Fim, e tudo que nos toca,
morre, lembra que és Hoje o mesmo ser de Outrora,
e o mesmo de Amanhã nesta Existência louca!

SOBRE O TEXTO O matemático e astrônomo persa Umar Ibn Ibráhim Al Khayyámi, ou apenas Omar Khayyám (1048-1131), escreveu o "Rubáyát" -101 quadras (rubái) "de rara limpidez de forma e profundidade de pensamento", nas palavras de Manuel Bandeira-, que ganha edição integral no Brasil. Marcada por descrença e desencanto, sua filosofia preconiza o prazer que se pode extrair de uma taça de vinho, da companhia da mulher amada, de uma flor. Traduzido do persa para o inglês por Edward FitzGerald (1809-83), trabalho que deu origem à presente tradução, o "Rubáyát" influenciou o budismo e autores modernos como Jorge Luis Borges e Fernando Pessoa. O livro sai em agosto pela Editora Unesp (164 págs., R$ 35). Publicado em Ilustríssima, Folha de S. Paulo, 22 de julho de 2012)

terça-feira, 10 de julho de 2012

Registro 398: Sou solidário



'FIQUEI FELIZ POR DILMA 
NÃO ENCONTRAR AHMADINEJAD'

A ativista iraniana Mina Ahadi, porta-voz do Comitê Internacional Contra o Apedrejamento de Mulheres, participou na semana passada do Fórum Mulheres Reais que Inspiram, organizado por Ana Paula Padrão. Ela falou à coluna de Mônica Bérgamo (Folha de S. paulo, 10 de julho de 2012) por e-mail.


Folha - Quais os exemplos de violência contra mulheres nos países ocidentais?

Mina Ahadi - No ocidente existem formas de violência à mulher como a doméstica, a prostituição e o estupro. Não há apedrejamento. Entretanto, os governos ocidentais têm ajudado aqueles que defendem o apedrejamento a ganhar o poder. Eles não ajudam a conter o avanço da política contra a mulher nos países de regime islâmico. E eles têm mantido o silêncio sobre esse e outros crimes, como o apartheid de gêneros.

É possível pensar em um mundo sem apedrejamento de mulheres?

Sim, claro! Com a campanha contra a execução de Sakineh Ashtiani [condenada por adultério], o Comitê Internacional Contra Apedrejamento conseguiu suspender o ato contra ela. Os aiatolás da República Islâmica começaram a pensar em formas alternativas de punição. Esse é o começo do fim dessa violência por outros governos islâmicos. O apedrejamento é uma vergonha para a humanidade e precisa se tornar algo do passado. A Organização das Nações Unidas deveria propor um documento que condene e proíba crimes religiosos como apedrejamento, apartheid de gêneros, circuncisão de mulheres e uso de véus.

Foi certo convidar o presidente Mahmoud Ahmadinejad para a Rio + 20?

Eu fiquei mais feliz pelo fato de a presidente Dilma Rousseff e outras autoridades brasileiras não terem se encontrado com ele. Ahmadinejad vai a essas conferências para fazer de conta que tudo é normal no Irã. E que ele pode agir como um presidente de um outro país qualquer. Mesmo que a situação ambiental no Irã seja preocupante e vergonhosa -e esse era o tema central da Rio +20-, o objetivo do regime islâmico nessas visitas é completamente político.

Qual sua opinião sobre Dilma Rousseff? O Brasil deveria cortar relações com o Irã?

Estou certa de que o governo brasileiro pode cortar relações diplomáticas com o regime islâmico e dar o exemplo para outros países ocidentais. Não se pode manter relação com um regime que apedreja pessoas e mata milhares por razões políticas.

sábado, 9 de junho de 2012

Registro 397: Homenagem a Carmem Bittencourt



Conheci Carmem Bittencourt desde a primeira vez que assisti a uma espetáculo no Teatro Vila Velha. Corria o ano de 1966. A peça encenada, Estórias de Gil Vicente, por João Augusto reunia textos do dramaturgo português e finalizava com a adaptação para o palco de uma livreto de Cordel, A Entrada de Lampião no Inferno. A partir daí acompanhei a trajetória da atriz até me transferir da Bahia para São Paulo.

Carmem Bittencourt, uma dos fundadores da Sociedade Teatro dos Novos, juntamente com Carlos Petrovich, Echio Reis, Othon Bastos, Sonia Robatto, Maria Francisca, Tereza Sá, liderados por João Augusto, depois do rompimento da turma com a Escola de Teatro e seu diretor na ocasião, Martim Gonçalves, os dissidentes partiram para uma aventura que deu certo. 

O grupo tornou-se uma referência do moderno teatro na Bahia, etapa iniciada pelas atividades de Martim Gonçalves junto a Escola de Teatro da então Universidade da Bahia. A Sociedade Teatro dos Novos se impôs e por seu trabalho e pertinácia construiu no Teatro Vila Velha, Passeio Público, no terreno doado pelo governador Juracy Magalhães. 

Descendente de família tradicional de Salvador, Carmem Bittencourt teve um papel prepoderenante na consolidação da Sociedade e do espaço, não somente como atriz, mas como adminstradora e faz tudo. Muitas vezes comprei ingresso de suas mãos, pois quando não estava em cena, ela exercia também a função de bilheteira, assim como outros atores da Sociedade. 

Um talento dramático à toda prova, Carmem Bittencourt não se limitava aos papéis "sérios", revelando-se uma comediante das mais expressivas. Como não atuei no Teatro Vila Velha, minha relação mais próxima com a atriz se deu quando do seu ingresso no elenco de A Casa de Bernarda Alba, de Garcia Lorca, sob a direção de José Possi Neto, que realizava em 1973, a sua primeira e inesquecível encenação, uma leitura muito particular e pertinente para a época do texto do dramaturgo e poeta espanhol. Como assistente de direção, acompanhei de perto a criação do personagem Maria Josefa por Carmem Bittencourt.

Ao entrar em cena como Maria Josefa, a atriz infundia pura poesia e na loucura da personagem dizia palavras lúcidas sobre a casa, a sua dona e sobre a repressão infundida por ela às suas filhas e criadas. Em meu livro Transas na Cena: teatro e contracultura na Bahia, dedico muitas páginas ao espetáculo, seu processo de feitura e acabamento; registro acontecimentos importantes envolvendo o elenco e a atriz em foco.

Distante da Bahia, não acompenhei a saída de cena de Carmem Bittencourt, mas ao retornar para Salvador, no horizonte do século 2, em minhas andanças pela cidade, uma tentativa de me recontrar com a soterópolis que deixara, encontrei Carmem caminhando pela Graça, bairro onde residia. No primeiro momento não me reconheceu, mas ao ouvir as lembranças ao seu trabalho em A Casa de Bernarda Alba, ela me abraçou, disse que não atuava mais e seguiu em frente. Fiqui parado vendo-a distanciar-se. A figura magra, de traços angulosos, muito parecida com outras mulheres criadas por Lorca, andou firme. Desde aquele encontro não soube mais da atriz, até abrir as páginas de um dos jornais que circulam por aqui e saber de seu falecimento no dia 7 de junho.

Lá se foi Carmem Bittencourt que além de atriz, trabalhou muitos anos na Sociedade Orfãos de São Joaquim. Aos 94 anos, ela deixou este palco-mundo e foi representar noutras plagas. Mas fica registrado aqui a sua força, sua integridade, sua firmeza a sua grandeza de atriz. Muito além desde registro há um legado nas fotografias dos espetáculo que fez:  Almanjarra (1957), Auto do Nascimento (1959), O Beijo no Asfalto (1961), Eles Não Usam Blequetai (1964), Estórias de Gil Vicente (1966), A Morte de Quincas Berro D’Água (1972) e Branca de Neve e os 7 Anões (1973), entre outros. E se existem cópias, os fotogramas do filme Moleques de Rua (1963) de Álvaro Guimarães e de Entre o Amor e Cangaço (1965), de Aurélio Teixeira, demonstram as qualidades dessa atriz insequecível. Como é inesquecivel a sua Romana, em Eles não Usam Blequetai, nas palavras de Harildo Déda que apreciou a sua criação no palco:

Eu me lembro de momento de Carmem, que fazia Romana, catando feijão. Ela não chora, a atriz não chora, mas a queda de cada grão de feijão dentro da vasilha de alumínio é como se fosse lágrimas. Era muito bonito.


Aplausos!

terça-feira, 5 de junho de 2012

Registro 396: Dois espetáculos, Salmo 91 e Olorum



SALMO 91
Salmo 91, texto de Dib Carneiro Neto é mais um trabalho derivado do livro Estação Carandiru de Drauzio Varella, transposto também para o cinema por Hector Babenco. Um assunto como o da vida na penitenciária paulista, e o massacre que dizimou mais de cem mortos nela trancafiada foi abordado por três das linguagens da arte: a literatura, o cinema e o teatro. Daí a sua importância, pois o tema, visto por ângulos diversos e submetido aos elementos de cada uma dos meios, forma um painel sobre a des-esperança
.
Além disso, o massacre do Carandiru, como ficou conhecida a chacina, inspirou o intenso trabalho de Nuno Ramos: a instalação denominada 111, exposta na Bienal Brasil Século XX (1994), um conjunto de meteoritos negros com inscrições, manifestação no campo das artes visuais ou plásticas. Portanto, o tema despertou o interesse de vários artistas.

É notável um traço comum entre os trabalhos, a densidade presente em todos eles, sem nenhum ranço da arte panfletária, muita acostumada ao tematizar tais acontecimentos. Os discursos citados acima seguem outra proposta e despertam sentimentos e pensamentos mais profundo que um panfleto.

Salmo 91 esteve em cartaz na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, em Salvador, depois de uma temporada no Teatro Molière. Dirigido por Djalma Thürler, Salmo 91 é composto por dez monólogos correspondendo aos personagens interpretados por cinco atores, Lucio Tranchesi Rubio, Fábio Vidal, Duda Woyda, Rafael Medrado e Lucas Lacerda.

Originalmente, o texto não determina um cruzamento entre os monólogos, já que se mostram independentes, mas o diretor faz com que eles se cruzem, com os atores interagindo na dramaturgia cênica, opção que dinamiza o espetáculo de maneira intensa, com belas cenas retiradas de um material não tão belo: a vida passada, as condições de vida na prisão, os relacionamentos entre os presos. Colabora para a plasticidade da encenação, o espaço trabalhado pelo cenógrafo carioca José Dias e pela iluminação que recorta a cena, dando-lhe contornos para cada momento específico deste bom trabalho diretivo.

Djalma Thürler conduz seu elenco com precisão, retirando de cada intérprete bons momentos, marcando a cena de maneira orgânica, ainda que alguns intérpretes se destaquem pela entrega emocional e pela técnica que sustenta a criação. Mantendo a atmosfera e delineando cada personagem, os atores não resvalam em nenhum momento para a caricatura. A intensidade de algumas interpretações não beira o exagero.

Espetáculo bem acabado, Salmo 91 precisa ser visto e discutido. Para tanto, espera-se que retorne ao palco não somente para o amadurecimento de suas constituintes, mas para apreciação por parte do público interessado em bom teatro. Seu tema pode afastar espectadores, mas não aqueles atraídos pela humanidade que emana do tema e que podem se deixar tocar por suas contradições, sua violência e jogos de poder. Dib Carnerio Neto, ao adaptar o livro para o palco, não trata seus personagens sob a tinta do maniqueísmo. Ao expor cada um na sua inteireza, adentra por um universo rico de nuances reveladoras de uma vida no crime. O autor, o diretor e, sobretudo, os intérpretes reviram as almas atormentadas destes homens encarcerados, expondo para o espectador os personagens, mas sem tomar partido e sem julgamento prévio. O que se passa no palco é uma fatia tragicômica da realidade revestida de poesia, mas sem mascaramento. Os personagens são o que são e buscam sobreviver diante das circunstâncias. O espetáculo vive pela sua intensa poesia, pois o real se metamoforseia em objeto estético.

OLORUM
Em cartaz no Espaço Xisto Bahia, temos Olorum, texto de Gildon Oliveira sob a direção de Elisa Mendes, espetáculo do Grupo NITA. O autor reconta no palco o mito da criação do mundo e do homem, a partir da matriz africana. Ao recontar a aventura de Oxalá e Odudua, sua irmã (na versão adaptada), Gildon trabalha com a estrutura do épico, opção que facilita, de maneira criativa, a compreensão do mito por parte do espectador.

Transitando por universo aparentemente conhecido, o autor conduz a criança, espectador para o qual se destina o espetáculo, para o interior da narrativa fecunda, pois constrói seu desenrolar intercalando a ação dramática com intervenções de narradores que fazem avançar o que se conta. Por veze, esta escolha rompe com a representação de situações ricas que a poesia dramática possibilita quebrando-lhe a atmosfera e interrompendo o fluxo emocional, ponto central do drama, para ressaltar a objetividade do gênero épico., um traço determinante da encenação concebida por Elisa Mendes.

A diretora arma o espetáculo em um espaço neutro, tendo ao fundo um painel formado por pequenos recortes brancos que lembram bandeirinhas, mas que nada contribui para o todo da encenação. E não funciona nem como elemento decorativo. Mas a solução encontrada para caracterizar o Orum (céu), uma árvore em miniatura à beira do proscênio, é teatral e plena de significados.

O figurino esclarece enquanto elemento da linguagem. Em alguns casos, como o de Oxalá e Odudua, tornam-se peças expressivas caracterizadoras dos personagens, pois são criativas bem adequadas ao contexto da peça. Coube a Hamilton Lima a responsabilidade pelo cenário e figurinos.

Com excessivas cenas de dança que não contribuem para o desenrolar da ação, o espetáculo se sustenta na qualidade do texto, nos bons desempenhos dos atores (Mariana Freire, Jussara Matias, Marinho Gonçalves, Leandro Villa), dos bailarinos (Denys Silva, Claudionor Neto, Beatriz Costa), na sensível iluminação de Marcelo Marfuz e sobretudo nas canções de autoria de Gildon Oliveira e Ângelo Castro.

Por fim, a escolha do tema é exitosa, pois coloca de maneira apropriada um tema pertencente ao contexto cultural baiano, coim suas raízes na matriz africana, marco também da brasilidade. Vale conferir Olorum, demonstração de que o teatro para criança em Salvador atinge uma qualidade visível como neste espetáculo. Espera-se que a cena destinada a um público numeroso saiba manter-se em um nível estético sem concessões ao comercialismo que por vezes ronda os produtos culturais oferecidos aos espectadores em formação. Assim, os responsáveis por levar as crianças ao teatro podem escolher de maneira criteriosa aquilo que elas apreciariam sem diminuir-lhes a inteligência e a sensibilidade

Èpa Bàbà!

sábado, 12 de maio de 2012

Registro 395:Festejando 13 de maio, ainda que alguns não queiram



José do Patrocínio


Princesa Isabel

13 de Maio

Caetano Veloso

Dia 13 de maio em Santo Amaro
Na Praça do Mercado
Os pretos celebravam
(Talvez hoje inda o façam)
O fim da escravidão
Da escravidão
O fim da escravidão

Tanta pindoba!
Lembro o aluá
Lembro a Maniçoba
Foguetes no ar

Pra Saudar Isabel ô Isabel
Pra saudar Isabé

Dia 13 de maio comemora-se a abolição da escravatura. Mas há uma tendência, um pensamento em voga que tenta reescrever a história apagando o gesto da Princesa Isabel e com isso a luta dos abolicionistas, homens e mulheres que combateram para que se acabasse o trabalho escravo no Brasil. A letra cantada por Caetano Veloso, em seu disco Noite dos Norte, refere-se às comemorações pelo fim da escravidão. É a festa do Bembé. Como disse anteriormente, um ideário vem sendo propagado de maneira intensa, procura-se desfazer a importância do 13 de maio. Tal pensamento foi importado, via Universidade, dos Estados Unidos da América do Norte, por intelectuais brasileiros emprenhados por norte-americanos. É certo que vivemos em um país extremadamente preconceituoso, mas não apartado. Não praticamos nem defendemos a separação. Esta política racialista nos levará para um caminho nem sempre construtivo. A afirmação do brasileiro não passa por tal retórica, muito menos a afirmação dos negros e negras que povoam o país de Norte a Sul e marcam com sua cultura, seus trabalhos, suas religiões e sua arte a nossa história, ontem e hoje. Apagar o 13 de maio é ignorar a luta de muitos: negros, brancos, mulatos, intelectuais, artistas, estudantes e populares, cidadãos brasileiros que se empenharam para por um fim na ação desgraçada que nos manchou com a escravidão. 

Viva Castro Alves.

Mas como diz Joaquim Nabuco, "a escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela se espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ele povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte.... É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.

Assim, lembro o dia 13 de maio. E comemoro o ato libertador que marca a nossa história. Sei que a população negra no Brasil sofre e se vê em condições desfavoráveis, mas não será a política racialista que nos salvará. Somos uma país mestiço, somos um país agregador. Acredito e luto por isso.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Registro 394: A Deus o que é de Deus: religião fora do espaço educativo


O texto logo abaixo é um dos editoriais de hoje (06.04.2012) de a Folha de S. Paulo. Mesmo sem consultar o jornal para pedir permissão, resolvo publicá-lo, tendo em vista a seriedade com que trata o assunto. Além do mais, concordo com o texto. Acredito que a liberdade de um termina onde começa a do outro. Obrigar alunos à prática religiosa, seja ela qual for, não cabe nos espaços do Estado. Religião é uma escolha individual e deve ser praticada nos lugares reservados aos cultos. Embora cada um possa manifestar seu credo, deve antes de tudo saber do Outro. Não podemos ficar omissos diante de atitudes que não correspondem com a laicidade do Estado. A omissão pode nos levar ao caos, pois na disputa pelos espaços públicos e mais fiéis, religiosos de diversas religiões podem ultrapassar os limites, como tem feito professoras católicas, evangélicas e espíritas e não somente elas. A bancada de deputados e senadores religiosos prestam o desserviço ao Brasil.  Cito as três vertentes porque as notícias que me chegam tratam delas. Não me consta que um budista, um adepto do candomblé tenha feito proselitismo em sala de aula. E espero que não o façam, assim como os islâmicos, já que não devemos abrir espaço para nenhuma religião no espaço educativo. Ou teremos que abrir para todas, dando ao aluno a opção de seguir a que quer, ou mesmo nenhuma. A opção é aluno, mesmo assim não acho que a escola pública seja o lugar para o ensino da religião, visto que cada uma tem a sua verdade. Não sou ateu, e nada tenho contra que o é. Como disse o representante da CNBB, não podemos obrigar nem proibir ninguém de rezar. Portanto,  que se reze em casa ou na igreja. Da mesma forma, penso que convicção política não deve interferir na transmissão do conhecimento. Às vezes, o ensino é tão ideologizado, seguindo um ponto de vista unívoco que termina por comprometer o processo de aprendizagem.


Religião na escola

Estado deve impedir práticas confessionais em sala de aula na rede pública, não para reprimir a fé, mas para garantir liberdade religiosa

Há quase cem anos, um adolescente mineiro foi expulso do colégio de jesuítas onde estudava. Seu nome: Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

O motivo da expulsão também ganhou notoriedade: a "insubordinação mental" de que o acusavam tornou-se, com o passar dos anos, uma das muitas distinções da biografia do poeta.

Também mineiro, e com a mesma idade (17 anos) que tinha o escritor naquele episódio, o estudante Ciel Vieira "insubordinou-se", por assim dizer, diante de uma professora de geografia do seu colégio, na cidade de Miraí, a 355 km de Belo Horizonte.

A professora tinha por hábito iniciar as aulas rezando o Padre Nosso. Ateu, o estudante não acompanhou a classe na oração. A professora reagiu, dizendo ao jovem que ele não tinha Deus no coração e nunca seria nada na vida.

O caso ganhou repercussão, dando respaldo à atitude do estudante -que, com razão, não vê motivo para ser obrigado a rezar numa escola da rede pública.

Seria mais confortável, é claro, fingir uma adesão superficial ao rito. A atitude de independência do estudante se inscreve, todavia, num clima ideológico e cultural que se diferencia dos padrões de indiferença e acomodação típicos do Brasil de algumas décadas atrás.

Dos protestos contra a presença de crucifixos em repartições públicas ao questionamento judicial, por parte da União, dos critérios que devem reger o ensino religioso nas escolas, avolumam-se iniciativas para afirmar com mais nitidez o princípio da laicidade do Estado.

Ao mesmo tempo, vê-se em toda parte uma tendência, se não para o fundamentalismo religioso, pelo menos no rumo de um proselitismo militante. É uma manifestação legítima, desde que não resvale para a imposição ao público de valores e práticas cuja adoção constitui matéria de foro íntimo.

Denominações cristãs diversas fazem valer seu poder como mecanismos eleitorais. Bancadas parlamentares religiosas se organizaram em todos os níveis da Federação. A TV aberta promove intensamente este ou aquele credo.

Por demagogia ou convicção, surgem mesmo casos em que políticos quebram explicitamente o princípio da neutralidade do Estado em questões religiosas. Foi o que aconteceu em Ilhéus, onde vereadores e prefeito tornaram obrigatória a oração do Pai Nosso nas escolas municipais.

Casos assim podem parecer localizados e desimportantes. Todavia, a ideia de que o Estado não deve se imiscuir nas questões de fé tem uma relevância cada vez maior.

Não se trata de uma questão de militância ateísta -o que está em jogo é a liberdade de todas as religiões, indistintamente, para conviverem de forma pacífica, sem favor nem perseguição do poder público.

domingo, 1 de abril de 2012

Registro 393: Que susto!


IDOS DE MARÇO


Lá se foi março. Ao mesmo tempo em que sinto saudade quero esquecê-lo. Tive minha casa arrombada na madrugada do dia em que ia para Aracaju lançar Harildo Déda, matéria dos sonhos. Felizmente o sujeito não conseguiu entrar, acordei assustado e gritei por quem mora comigo e divide as alegrias e as tristezas que a vida traz ou que criamos. O assaltante não penetrou o recinto sagrado do meu lar, pois é assim que o vejo. Finalzinho do mês, o meu coração deu sinais de cansaço e abateu-se. Um susto! Mas agora, diante do acontecido, a calma toma conta de mim, invade-me.

Sempre pensei na vida, na vida dos outros, algumas vezes bisbilhoteiramente, mas quase sempre por desinteresse, movido apenas pela troca advinda dos encontros e das belezas que as vidas contêm. Sempre respeitei a vida, a vida do outro, um valor supremo. Quanto a minha, penso que vivia esquecido de mim. Algum poeta já formulou tal questão. Bons poetas, invejo-os, conseguem sintetizar pela linguagem o que se passa no interior e o que captam do mundo. Mas lá ia eu sem dar conta de que a vida pode se interromper num átimo. Repentinamente ela nos põe diante do impermanente e somos forçados a aceitar o que nos é dado ou que fabricamos nesta usina que é o mundo.

Março passou. Abril chega com a promessa de nova ou novas maneiras de viver. Mesmo sendo outono, há um sol que adentra pela janela que foi arrebentada. Uma promessa de vida, embora o inverno se aproxime. Mas como aqui, onde vivo, o clima é rebelde e não segue as demarcações da temporalidade de maneira regular e alterando a paisagem e nossos humores, eu sigo como se fosse primavera, promessa de verão. Ainda que eu não goste de calor, redobro o ânimo.

Fui e estou cercado de atenções e de carinhos. É bom saber-se querido.

Enquanto me recuperava hospitalizado, lá se foram Chicos Anísios; imito Carlos Drummond de Andrade ao escrever sobre a atriz Cacilda Becker: “morreram Cacilda Becker”. Lá se foi Ademilde Fonseca ao mesmo tempo em que Millôr Fernandes. Para muitos, talvez não signifique nada. Para mim, são sentidas perdas. Consolo-me por saber que eles deixaram rastos, legando aos que ficam uma produção, aquilo que para eles era capital cultural, para nós capital simbólico.

Enquanto descansava em um quarto impessoal, descobri um poeta, Daniel Lima, pernambucano que manteve reclusa a sua poesia por muitos e muitos anos. Aos 91 anos, por surrupio de uma amiga, tem sua produção publicada em Poemas (Cepe Editora, 2011). Com sua poesia misturando-se às visitas e aos que cuidavam de mim, tornei o quarto menos frio, menos impessoal. Ele passou a ser meu, pois nele eu estava com meus cheiros, sonhos, demônios e anjos. Abre o livro, dois textos apresentativos: um de Lourival Holanda, outro de Zeferino Rocha. Os dois conduzem o leitor com segurança e abrem portas para as muitas portas que a poesia de Lima descerram. Uma bela descoberta.

Mas nem tudo é uma maravilha reconfortando o nosso espírito atribulado. Ao dar umas espiadas na televisão constatei que as novelas são cada vez mais um horror. As vilãs são risíveis. Parecem mais bruxas de contos para assustar crianças. Um telejornal local pautou no seu horário nobre uma reportagem sobre um cão que pula para pegar pedras atiradas na água por seu dono. Falta de assunto, ou estupidez do editor? Não tenho nada contra cães, ao contrário. Mas façam-me o favor... As reportagens sobre o aniversário da Cidade do Salvador eram de uma obviedade rasteira, a repetição da repetição. A publicidade cada vez mais calhorda faz de tudo para vender produtos. Uma marca francesa de automóvel tem um comercial onde a ética, a solidariedade, o repeito pelo outro são jogados no chão. Se eles, os publicitários e os executivos da Peugeot pretendiam o engraçado, não conseguiram tirar um riso, somente indignação. Um estagiário é mandado por dois boçais para abrir a porta da loja. Ele cumpre a ordem, é ridicularizado pelos dois e massacrado pela horda de consumidores que avançam em busca dos carros. Corte. Vemos então o estagiário jogando no chão, pois pisoteado. Segue-se o seguinte diálogo entre os dois vendedores que se acham: - “Vamos fazer o que?” Resposta: "Ah, vamos almoçar".

Recebi a visita de uma aluna na UTI. Fiquei deveras emocionado. Ela chegou, pegou a minha mão, trocamos algumas palavras e ainda sinto o seu toque solidário e confortante. Dois dias depois estava ela juntamente com outras colegas em meu quarto dando-me apoio com seus sorrisos. Saíram deixando no ar a graça de quem tem um mundo pela frente. Mais alunos, agora os rapazes. Perguntei se queriam aula, riram.

Gosto de ser professor.


Por recomendação, ouço Vivaldi e Mozart.

sábado, 24 de março de 2012

Registro 392: Bons arguemntos



RUMO À PERFEIÇÃO 
OU 
JOGUEM FLORES NA GENI (1)

Cleise Mendes

Projeto de lei denominado Antibaixaria, apresentado pela deputada estadual Luiza Maia, que visa proibir a contratação, com dinheiro público, de artistas cujas canções ofendam a imagem feminina ou incentivem a violência contra a mulher, será votado na Assembléia Legislativa da Bahia no próximo dia 20. Como mérito do projeto, pode-se computar a discussão que vem ocorrendo em sites e blogs, pois nestes tempos de inanição intelectual qualquer movimento que leve à expressão de ideias e ao debate pode ser visto como algo em princípio saudável.

Dos argumentos que percorri, pró e contra, um dos mais razoáveis e que corresponde à minha experiência pessoal é que os projetos artísticos, ao reivindicar apoio dos cofres públicos, são examinados por comissões de artistas e intelectuais de reconhecida competência, plenamente capazes de avaliar a relevância cultural de tais propostas. Mas o que se quer, quase sempre, com uma “lei” no domínio da cultura, é justamente invalidar ou no mínimo tornar dispensável o processo de apreciação, discussão e interpretação, o choque de visões, o salutar dissenso. Pretende-se resolver “de cima”, rotulando-se a priori o que pode ou não pode ser oferecido ao público. Alguém já pensou quantas leis seriam necessárias para prever todos os supostos “malefícios” que uma obra de arte pode causar à sensibilidade dos incautos cidadãos? Consta que o romance Lágrimas do Jovem Werther, de Goethe, levou em seu tempo inúmeros jovens leitores ao suicídio. Ah! Se houvesse, então, uma lei contra contar histórias de amor infeliz! Quantas vidas teriam sido poupadas!

Quanto ao projeto Antibaixaria, o que me espanta nessa ideia de lei é a exclusividade do seu alvo. Por que apenas músicas que ofendam a mulher? Se o objetivo é impedir que o dinheiro público seja gasto em produtos artísticos nocivos à sociedade, por que então não incluir, num amplo gesto de defesa, toda a sociedade? Devem portanto ser evitadas músicas que tratem pejorativamente as crianças, os jovens, os idosos; as pessoas muito magras ou as muito gordas; as muito pobres ou as muito ricas; as adeptas de um bom copo, e as abstêmias; as gulosas e as anoréxicas; as viciadas em trabalho e as preguiçosas; as devotas e as sem fé. Não se deve também admitir canções cujas letras desonrem os torcedores do Bahia, do Vitória, ou de qualquer outra associação futebolística, o mesmo devendo ser aplicado aos demais esportes, por questão de isonomia. E para que o alcance da lei seja realmente amplo e irrestrito, por que não incluir nossos irmãos animais, tantas vezes vitimados por musiquinhas cruéis? Nada de “atirei o pau no gato” ou “pisa na barata, oi, mata essa barata, oi”, portanto.

Mas uma dúvida ainda paira, no esforço de defender a coisa pública de todo tipo de arte deletéria: por que apenas a música? (Ou será que devíamos dizer: por que apenas a música baiana?) Pois não existem tantos romances, filmes, peças teatrais, pinturas, quadrinhos, blogs, e tudo o mais que nossa imaginação venha a criar, capazes de veicular palavras e imagens ofensivas a qualquer transeunte do espaço social? Logo, uma lei que se queira verdadeiramente ampla e democrática deve contemplar a prevenção contra toda e qualquer expressão artística que possa vir a se tornar nociva aos consumidores. E seria necessário começar pela Ilíada, de Homero, com suas aterradoras descrições de guerra. Quando criança, tive pesadelos com o guerreiro que teve o olho vazado por uma lança…

Depois que tivermos criado leis em número suficiente para higienizar todas as formas de arte, deixando-as isentas de violência, sarcasmo, deboche, preconceito, hediondez, morbidez, grotesco, nonsense, bobagem, erotismo, sacanagem e o que mais fira as almas sensíveis, poderemos todos, numa República ideal, apenas ouvir as canções que tenham como assunto o cotidiano dos anjos e as sonoridades que tecem em suas harpas, reclinados em brancas nuvens.  E então estaremos livres também de outra praga do nosso tempo: a pirataria. Pois as músicas angelicais serão distribuídas gratuitamente por um governo bom e justo, para todos os cidadãos, já que ninguém sentirá o menor desejo de copiá-las ilegalmente.

 (1) Publicado originalmente em Caramurê.

segunda-feira, 19 de março de 2012

Registro 391: Dá o que pensar

O texto é apócrifo, recebi de uma amiga via e-mail. Mas gostei. Taí o texto para o doce deleite, ou não, de quem se dispor a perder um tempo para ler.

Na fila do supermercado, o caixa diz a uma senhora idosa:

- A senhora deveria trazer suas próprias sacolas para as compras, uma vez que sacos de plástico não são amigáveis com o ambiente.

A senhora pediu desculpas e disse: - Não havia essa onda verde no meu tempo.

O empregado respondeu: - Esse é exatamente o nosso problema hoje, minha senhora.

Sua geração não se preocupou o suficiente com o nosso ambiente.

- Você está certo - responde a velha senhora - nossa geração não se preocupou adequadamente com o ambiente. Naquela época, as garrafas de leite, garrafas de refrigerante e cerveja eram devolvidos à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes. Realmente não nos preocupamos com o ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisamos ir a dois quarteirões.

Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis. Roupas secas: a secagem era feita por nós mesmos, não nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secavam nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas.

Mas é verdade: não havia preocupação com o ambiente, naqueles dias. Naquela época só tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que depois será descartado como?

Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama, era utilizado um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisava ir a uma academia e usar esteiras que também funcionam a eletricidade.

Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o ambiente. Bebíamos diretamente da fonte, quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos.

Canetas: recarregávamos com tinta tantas vezes ao invés de comprar outra. Abandonamos as navalhas, ao invés de jogar fora todos os aparelhos 'descartáveis' e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte.

Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época. Naqueles dias, as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam em suas bicicletas ou a pé para a escola, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos só uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos. E nós não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima.

Então, não é risível que a atual geração fale tanto em "meio ambiente", mas não quer abrir mão de nada e não pensa em viver um pouco como na minha época?

sexta-feira, 2 de março de 2012

Registro 390: A pergunta que não quer calar

Um país que importa peixe do Alasca, da China e do Uruguai precisa de um Ministério da Pesca? Caso alguém possa me esclarecer, eu agradeço de coração.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Registro 388: "Roda Viva" proibida pela segunda vez




Cena de Roda Viva. O ator Rodrigo Santiago, caracterizado como Menino Jesus de Praga.

A polêmica em torno da proibição do texto teatral Roda Viva, por seu autor, tem gerado muito disse que disse. É certo que proibir um texto, principalmente sendo quem é o autor, Chico Buarque, é bem estranho. Primeiro, porque ele foi vítima da censura em várias ocasiões, quando vivíamos sob o tacão da ditadura civil-militar. Segundo, por ser ou ter sido um ícone da esquerda, a séria e a festiva, e ter defendido posições libertárias. Portanto, causa estranheza a proibição de encenação e reedição do texto.

O compositor-escritor alega que o tempo tornou mais evidente as deficiências do texto. Compreendemos, mas não aceitamos a proibição, da mesma forma como não aceitamos as proibições recentes de biografias, de reedições de livros, de exposições, de gravações de músicas e por aí vai. Mas estamos no Brasil, onde tudo pode. Parafraseando Otávio Mangabeira, pense numa coisa absurda, ela acontece no Brasil. A frase original referia-se ao Estado da Bahia, dita pelo seu governador.

Chico Buarque erra em proibir, mas acerta em dizer que seu texto apresenta deficiências. Quando da encenação de Roda Viva (1968), pela dupla José Celso Martinez Corrêa-Flávio Império, a crítica mais atenta já apontava as deficiências do texto. A potência do acontecimento, e que potência, estava na qualidade da dramaturgia cênica. A encenação transgressora, violenta e abusada, colocava no palco do Teatro Ruth Escobar - São Paulo,  a rebeldia espetacular já vista na montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, quando Zé Celso marcou o início de uma das muitas guinadas do Grupo Oficina. Em Roda Viva, Zé Celso extrapola e amplia a irreverência. 

Zé Celso parece não estar convencido das deficiências da peça, talvez tocado ainda pela força de sua concepção, que contou com a cabeça criativa e instigante de Flávio Império. Ou esteja ainda impregnado pelos acontecimentos que se desdobraram em torno do espetáculo: a polêmica, as acusações de imoralidade vindas de deputados paulistas, a invasão do Teatro Ruth Escobar pelo Comando de Caça aos Comunistas, a repetida agressão em Porto Alegre e, por fim, a proibição da peça em todo território nacional, dois meses antes da decretação do Ato Institucional Número 5,  o famigerado AI-5, em 13 de dezembro de 1968, sexta-feira.

Se desagradou a direita e os conservadores, gerando críticas e atos violentos, como o espancamento dos atores Rodrigo Santiago, Marília Pera, Zezé Mota, entre outros, deixou escandalizada a esquerda ortodoxa, visto que o espetáculo em cartaz não se coadunava com a gramática do teatro de protesto. A encenação de Zé Celso e Flávio Império rompia com a cartilha do bom mocismo, instigando a plateia a sair do comodismo e partir para a ação. Um dos meios utilizados pelo encenador para fazer os espectadores participativos era o panfleto jogado para a platéia, com o seguinte texto:

 "TODOS AO PALCO!!! Abaixo o conformismo e a burrice - PEQUENOS BURGUESES! Tire a bunda da cadeira e faça uma guerrilha teatral, já que você não tem peito de fazer uma real, PÔRRA!!!" 

A famosa cena do fígado ensanguentado arremessado sobre a platéia, mais a referência iconoclasta aos símbolos da Igreja Católica aumentava o poder subversivo do espetáculo e agia de forma a colocar em primeiro plano o que o texto dizia de uma forma muito menos selvagem e transgressora. A crítica ao sistema, ao show-business e à massificação decorrente da sociedade do espetáculo e da cultura de massas feita pelo autor não tinha a força vinda do palco. As suas imagens superavam o que a "pecinha ginasiana" (1) - no dizer do diretor e do cenógrafo - expunha comedidamente em seu engajamento.

A atualidade do texto Roda Viva não pode ser pensada de maneira pragmática. Ao ser encenado, o texto de Chico Buarque tomou uma dimensão que não tinha, embora tocasse num assunto muito pertinente, a construção de um ídolo da música popular, sua devoração pelos fãs e substituição por outro. A gramática do espetáculo fez com que o teatro brasileiro fosse arejado por um sopro violento, denominado negativamente por Anatol Rosenfeld com a "estética da agressão". Ainda que as avaliações tenham sido extremadas, tanto do ponto de vista negativo quanto do positivo, é certo que as ideias do encenador e do cenógrafo-figurinista tinham a capacidade de se encontrar com o seu presente. No momento, para que se tenha uma medida do seu poder é preciso que o texto volte a circular por dois meios, o livro e o palco. Atualizada, a peça Roda Viva terá sentido se as suas ideias figurarem no agora a possibilidade de mudança. Para tanto é preciso que esteja liberada.

Esperamos que a proibição seja revista e que possamos contar com uma reedição do texto. Li a primeira e única edição pela Editora Sabiá. Já não lembro muito bem do texto em suas particularidades, mas ainda registro na memória um certo desencanto quando da leitura. Não vi Roda Viva em cena. Dez anos depois de sua estreia, estive próximo de Flávio Império e ouvi-lo contar sobre o processo de feitura e sobre o resultado cênico aumentou a minha curiosidade pela encenação e também o meu desencanto pelo texto. 

Roda Viva é parte da história do teatro brasileiro e tal fato não pode ser negado. Roda Viva é parte da minha história de vida... Em dezembro de 1968, ganhei de Rubem Rocha Filho o LP de Chico Buarque no qual ele canta Sem Fantasia com sua irmã Cristina. A canção fazia parte do espetáculo. 


Liberdade para Roda Viva


(1) Cf. o texto de Mariângela Alves de Lima Flávio Império e a Cenografia do Teatro Brasileiro publicado em Flávio Império (EDUSP, 1999), organizado por Renina Katz e Amélia Hamburguer.