terça-feira, 17 de agosto de 2010

Registro 317: Os caminhos ou descaminhos do teatro

"Uma tarde no Guggenheim com a ala Mapplethorpe encerrada ao público (Deus existe!) e recordo uma conversa antiga com Anthony O'Hear, filósofo inglês que me dizia, com inteira razão, que a principal diferença entre a grande arte e a esmagadora maioria das brincadeiras conceituais dos nossos dias estava na noção de "inexaustibilidade".

A grande arte é aquela que existe e persiste em nós: uma experiência estética que somos humanamente incapazes de esgotar. Vemos Turner uma vez, duas, dez, cem e é como se fosse sempre a primeira vez.

Exatamente o contrário do que sucede com as brincadeiras conceituais: elas podem ser provocadoras, inovadoras, inteligentes. Interessam uma vez. Não interessam nenhuma outra vez."


O fragmento em letras grandes foi retirado da coluna que João Pereira Coutinho mantém no jornal a Folha de S. Paulo, sempre às terças-feiras. Seu texto vem a calhar. Hoje, com meus alunos de Interpretação na Escola de Teatro da UFBA, conversamos sobre  uma matéria publicada no mesmo jornal, em 24 de julho, sobre a exibição de uma "coisa" no Festival de Teatro de São José do Rio Preto. Chamo a coisa de "coisa" por conta do meu estranhamento a respeito do fato, uma peça de teatro sem atores. Achei pertinente discutir o inusitado acontecimento com os estudantes que estão prestes a concluir o Bacharelado em Interpretação Teatral.

O diretor desse "objeto não identificado" diz que sua versão em 3D da peça Os Cegos de Maurice Maeterlinck, portanto sem palco e sem atores é teatro. E Denis Marleu, o diretor, diz textualmente: "O ator não está em cena, mas a sua ausência instala a questão sobre a sua presença".  Só muito relativismo para entrar nesse jogo. Não sou contra a nenhuma experimentação, até porque o teatro, ao longo do tempo, absorveu as modificações ocorridas no tempo histórico, mas ainda assim manteve a sua essência, ou seja o ator ao vivo sem nenhuma mediação, somente aquelas  próprias da linguagem teatral. Mesmo no teatro com bonecos ou com sombras a presença do manipulador, na maioria das vezes, é vista pelo espectador.

O acontecimento em São José do Rio Preto pode ser o início de um fim? Não sei, mas penso que os estudantes de teatro deviam se debruçar sobre tal coisa. Exagerando, disse-lhes que o que me encanta no ato teatral é que ele é feito por atores de carne e osso, que podem esquecer o texto, pode enloquecer diante de todos ou mesmo morrer.

O fragmento de João Pereira Coutinho amplia a discussão... Quem se interessar que entre na corrente e participe da conversa.

domingo, 1 de agosto de 2010

Registro 316: Conversa com estudantes e uma café delicioso

Nos dias 29 e 30 de julho, estive novamente no Colégio Salesianos, no bairro Nazaré, para participar do Café Literário, evento organizado pelos professores de História com o apoio da coordenação e de outros setores da instituição. Ano passado fui homenageado pelos educandos e da mesma forma acolhido como agora.

O que me levou até eles foi o livro Sob o signo das Luzes que lancei em 2008. O romance histórico tem como pano de fundo a Revolta dos Alfaites também conhecida como Revolta dos Búzios, movimento baiano acontecido em Salvador nos finais do século XVIII. Tendo como objetivos principais separar Brasil de Portugal, findar o sistema escravista e instaurar a República, com base no ideario Iluminista, os conjurados de 1798, reuniram participantes de diversas classes sociais, o que torna o movimento grandioso.

A narrativa trata do antecedentes e da revolta abortada e do cumprimento das sentença, com seus líderes principais enforcados na  Praça da Piedade. Conto a história a partir do envolvimento de Eleutério, adolescente filho de uma negra alforriada. Aprendiz na alfaiataria de João de Deus, o garoto toma conhecimento da conjuração. Personagem ficcional, ele estabelece uma ligação com o leitor jovem, um dos objetivos que tinha em mente ao escrever Sob o signo as Luzes. Comprovei minha escolha por diversos depoimentos dos educandos que comigo conversaram durante toda a manhã.

Sentei-me de mesa em mesa, todas elas repletas de iguarias para um café da manhã, cercado de garotas e garotos, além de pais e convidados. Ouvi muito e falei o necessário. Embora fosse o homenageado, a festa era deles e a palavra também. Dei muitos autógrafos e pude perceber o quanto o livro contribuiu para que o conteúdo da disciplina fosse apreendido de forma prazerosa. Meu livro não é didático e tive a preocupação de não fazer dele uma aula de História, mas entrelaçar ficção e acontecimento histórico numa aventura vivida por Eleutério nas ruas e casa da Cidade da Bahia novecentista.

Além da leitura do livro, os educandos pesquisaram sobre os países africanos e sobre o preconceito que ainda vive entre nós, com relação aos negros brasileiros. Procurei ler nas falas dos educandos o que eles pensam a respeito dessa questão e percebi o quanto estão conscientes do problema, verbalizando que o preconceito e a desigualdade existem, mas que não vivemos numa sociedade apartada, dividida em negros de um lado e brancos do outro.

Parece-me que essa questão está sendo posta nas entrelinhas do Estatuto da Igualdade Racial, um corpo estranho em nossa legislação, já que  o artigo de número 5 da Constituição Brasileira diz e garante que somos todos iguais perante a lei sem distinção de nenhuma natureza. O Estatuto foi sancionado pelo Sr. Presidente, e se levado a ferro e a fogo como querem alguns, não há lugar para  Inácio Lula da Silva em nossa sociedade dividida, visto que nem branco nem negro ele é, mas sim branco-mestiço, ou moreno, ou mulato, como queiram os que se preocupam com a cor da pele e baseiam suas vidas tomando como princípio o conceito de raça. Conceito que nenhuma ciência avaliza nem cientista sério defende.

Visto apressadamente, o Estatuto parece um avanço. Talvez em alguns pontos ele avance, mas o princípio é equivocado pois defende um Brasil sem mestiços, traço que nos identifica e que não deixo de ressaltar em meu livro, ainda que de maneira menos acentuada como gostaria. Eu que sou branco mestiço, que trago gostas de sangue português, índio e negro, que estou mais para branco "encardido", não defendo nenhum feudo. Penso e quero igualdade para todos e não me sinto confortável com essa ideologia importada que nos enfiam guela abaixo. Também não sou ibero-descendente, como não sou afro-descendente ou ameríndio-descendente. Sou brasileiro, essa gente morena. Sou brasileiro sem ódio e sem rancor...

Pra quem não conhece e queira um posicionamento aberto e iluminador sobre o tema, eu indico o livro de Antonio Risério A utopia brasileira e os movimetos negros. Vale a pena ler sem preconceito o que ele tem a dizer.

Voltando ao assunto incial, o Café Literário no Colégio Salesianos, tenho certeza que os estudantes que lá encontrei, negros, brancos, mulatos, morenos, amarelos, saberão manter essa mestiçagem que nos engrandece como nação e que nos protege do pensamento único e desse absurdo gerado sem que a população brasileira tenha sido ouvida.

Os professores estão de parabéns pela iniciativa. Fico contente quando posso dialogar com o leitor, eu que na solidão escrevo. Agradeço a oportunidade de conversar com os estudantes. Eles me disseram coisas importantes que levarei em conta quando principiar outro livro.  

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Registro 315: Preste atenção

O texto reproduzido é do jornalista Fernando de Barros e Silva (Folha de S. Paulo, 12 de julho de 2010). É por essa e outras que eu não simpatizo com o PSDB. Quanto ao PT, seu gosto pelo poder e a simpatia por ditadores, me arrepia. No PV, nem pensar...


Pedágio na Cultura


SÃO PAULO - Começou mal, muito mal, a gestão de João Sayad à frente da TV Cultura de São Paulo.

Na quarta-feira da última semana, confeccionava-se, para o jornal noturno da emissora, uma reportagem sobre os pedágios paulistas, aos quais o próprio candidato tucano ao governo, Geraldo Alckmin, havia feito reparos. No início da noite, o diretor de jornalismo da TV Cultura, Gabriel Priolli, foi chamado à sala de Fernando Vieira de Mello, vice-presidente de conteúdo.

Ali ouviu a bronca: a TV não poderia se ocupar de assunto tão delicado sem o seu conhecimento prévio. Vieira de Mello ecoava um protesto que tinha origem em algum escaninho da burocracia tucana.

A reportagem não foi ao ar naquela noite. E Priolli foi afastado de suas funções na tarde de quinta-feira. Durou uma semana no cargo.

Consta que a reportagem sobre os pedágios foi exibida na noite de sexta, feriadão de 9 de julho. E alega-se que foi derrubada na antevéspera porque estava "mal feita". Ninguém deve ter visto o resultado final. Como quase ninguém teria visto se fosse exibida na quarta.

A verdade é que a Cultura é uma TV mais lida do que assistida. Os próprios conselheiros da Fundação Padre Anchieta acompanham a emissora pela imprensa.

A saída de Heródoto Barbeiro do "Roda Viva" nada tem a ver com a pergunta que ele fez no programa a José Serra uma semana antes -justamente sobre pedágios. A sua substituição por Marília Gabriela já estava acertada pela direção. Mas, ao enviar Priolli para a Sibéria, os tucanos conseguiram transformar uma mentira em algo verossímil.

O episódio escancara a ingerência política do tucanato na TV pública de São Paulo. Quando uma reportagem sobre pedágios vira questão de Estado, então é melhor fechar o departamento de jornalismo e exibir "Cocoricó", onde ao menos as crianças são levadas a sério.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Registro 314: Pataquadas baianas

Não sou chegado ao excessivo civismo, mas gosto de festas que movimentavam o cidadão e a cidade. Salvador está em festa, é 2 Julho, dia em que o sol brilha mais que no primeiro. Não é o caso, pois hoje amanheceu cinzento e chuvoso. Mas com chuva e vento o baiano vai para as ruas antigas pra ver e reverenciar o casal de Caboclos, símbolos nativistas da revolta dos brasileiros contra os portugueses que não aceitaram o Grito do Ipiranga. Aqui permanecendo sem arredar o pé do governo, tentavam manter sob seus domínios a rica região do Recôncavo e a capital com seu Porto na larga e bela Baía de Todos os Santos. 

A festa é centenária. Nela, os políticos de plantão usam o cortejo como vitrine. Quem acredita ainda em político e em partido, sai pra defender o seus credos! Essa é a parte mais desinteressante do desfile. O que gosto de ver e fotografar são as imagens que meus olhos não esquecem: as casas enfeitadas, as figuras históricas representadas por figurantes com suas roupas toscas, as bandas dos colégios, com suas balizas femininas tendo que ceder espaço para o rapazes, alguns não tão másculos, demonstrando suas evoluções ao longo do trajeto.  Quiseram proibir alguns rapazes de brindar o público com seus trejeitos. Uma pataquada baiana e homofóbica.

A segunda pataquada é a mudança do horário do cortejo por conta do jogo Brasil x Holanda. Tenho minhas dúvidas se essa é a melhor solução. O cortejo é centenário, anual e poderia seguir em meio ao jogo. Um onda de civismo.

A outra pataquada é a esdrúxula ideia do ocupante do Palácio de Ondina em dar o nome do estádio que surgirá das cinzas do conjunto esportivo da Fonte Nova, cujo estádio tem o nome de Otávio Mangabeira. Não esquecendo que havia também o ginásio coberto com o nome de Antônio Balbino, mais conhecido como Balbininho. Foi aí que vi os shows dos artistas da Jovem Guarda, vi Marta Vasconcelos ser eleita Miss Bahia e soube da solenidade de formatura de todos os cursos da Universidade Federal da Bahia, com estudantes protestando contra a ditadura.

No campo de futebol, eu assisti aos desfiles de abertura da Olimpíada Baiana da Primavera. Como aluno do Ginásio Edgard Santos desfilei certo ano. O tema mostrado pelo Ginásio era A Olimpíada na Grécia. E lá fui no pelotão dos atletas gregos, vestindo um ridículo saiote, sandália trançada nas pernas e peito nu. Na época, ninguém estranhava ver os estudantes baianos pelas ruas trajando roupas alusivas aos temas do desfile. Foi assim que cheguei ao estádio para encontrar colegas e professores na azáfama para fazer o Ginásio brilhar e ser classificado. Bela festa, com seu hino empolgante cujo verso ainda lembro "Canta a primavera em nossas vozes juvenis, circula a  primavera em nossa veias varonis...." No mesmo estádio, em um domingo de Bahia x Vitória, estive no campo para fazer algumas tomadas do filme Anjo Negro de José Umberto. Meu personagem, um juiz de futebol, marcava uma partida fictícia antes da verdadeira. O estádio lotado de torcedores... Ao me ver correndo e gesticulando, eles não vacilaram, deram-me uma vai monumental. Acho que nenhum ator jamais foi vaiado por tanta gente.

Eis que de repente,  vem o governador, que pouco governa, com a pataquada de querer nomear o novo estádio, uma obra discutível, de Lulão. Já não basta a mudança do nome do aeroporto? Mais uma aberração que temos de aguentar. E nada fazemos para deter tanto absurdo. A atitude do alcaide de plantão é oportunista, populista e explicitadamente puxa-saco.

Só me resta lembrar e dar viva a Cid Texeira, meu professor inesquecível.

É, os holandeses invadiram o Brasil!

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Registro 313: Homenagem a Anton Tchekhov



Luiz Felipe Pondé, o polêmico articulista da Folha de S. Paulo, escreve sempre às segundas-feiras. Com seus textos, ele me inquieta. Nem sempre concordo com seus argumentos, mas não deixo de lê-lo com simpatia, visto que me faz pensar. Seu posicionamento diante de variados assuntos, lidos à primeira vista e apressadamente, pode parecer reacionário, mas lidos com atenção revelam alguém que não pensa como o rebanho que segue a mesmice, não querendo desdoar do coro dos contentes. Ele fustiga o politicamente correto e outras formas do pensar pós-moderno, revelando sua visão humanista e libertária. Às vezes me assusto com suas posições, mas não fico indiferente ao que ele escreve.

Na edição de hoje, ele escreve sobre o querido dramaturgo russo Anton Tchekhov. Disse querido, e insisto em afimar isso, pois o dramaturgo e contista das estepes geladas toca profundamente na alma humana escavando-a fundo e sempre apaixonadamente. Por isso gosto profundamente de sua peças e contos. Ele olha seus personagens com carinho, mesmo aqueles pusilânemes. Expõe as nossas mesquinharias, Fala de longe sobre o nosso presente e futuro. É terno, comovente, irônico, corrosivo, mas sempre terno, provocando em nós um sorriso, mesmo quando as situações beiram ao dramático. Mas Tchekhov não faz drama por isso mesmo se espantou quando Stanislavski, o encenador russo, carregou as montagens de seu texto de uma seriedade de climas pesados.

Junto-me a Pondé para homenagear Tchekhov em seus 150 anos de nascimento. Leia abaixo o texto de Luiz Felipe Pondé.

LUIZ FELIPE PONDÉ

A medicina de Tchekhov
O escritor russo nascido há 150 anos tinha um sentido aguçado para a miséria concreta da vida humana


HÁ 150 ANOS o escritor russo Anton Tchekhov (1860-1904) nascia. Médico, Tchekhov tinha um sentido aguçado para a miséria concreta da vida humana.

Partilho com ele de um grande ceticismo com relação à crença cega no progresso, tão comum entre os tolinhos de hoje em dia.

Qual a visão de mundo de Tchekhov? Qual é a marca profética (comumente referida na crítica especializada) dos autores russos do século 19 com relação à modernização? No caso de Tchekhov, contra o delírio de autossuficiência moderna, essa marca está na sua visão de que a humanidade vive contra um cenário infinito que ultrapassa cada um de nós e a cada "era histórica", retirando-nos a possibilidade de avaliar o verdadeiro sentido de nossos atos.

Apenas aqueles que viverão 500 anos depois de nós poderão, talvez, ver algum obscuro sentido em nossas vidas.

Ao contrário dos "ocidentalizantes" (termo comum na Rússia do século 19 para descrever os que abraçavam o avanço moderno sem dúvidas), que se viam como donos do próprio destino, Tchekhov logo percebeu que a modernização seria apenas mais uma experiência, como tudo que é humano, de fracasso com relação à posse do destino.

Contra o ridículo orgulho moderno, ele vê que a modernidade seria uma série de encontros e desencontros com as eternas sombras do humano. Quais seriam as sombras "modernas"? Os ganhos sociais (a superação do "chicote", como dizia Tchekhov, um descendente de servos) e técnicos (os ganhos da medicina no combate, por exemplo, à cólera, que tanto ocupou sua vida de médico de província) que cobrariam um alto preço (perda dos laços comunitários, mergulho na desumanização instrumental em busca de uma vida melhor, "bregarização da vida"), representado de forma cirúrgica em sua obra.

Esta paciência para com o obscuro sentido de nossas vidas é atípica em uma época como a nossa, marcada pela impaciência com o vazio da vida. Fingimos que sabemos o sentido de nossas vidas, vendo-o como sendo o "avanço" ou o "progresso" técnico, ético e social. Para cada avanço, um afeto se esvazia sob o dilaceramento das relações (burocratizadas) que se dissolvem no ar. Os afetos e não as ideias nos humanizam, e afetos não são passíveis de uma geometria do útil.

É exatamente da inutilidade dos afetos que fala Tchekhov em peças como "Tio Vânia" ou "Três Irmãs", nas quais as pessoas são tragadas pelos avassaladores detalhes da vida numa marcha cega em direção ao desperdício da sensibilidade humana. Na peça "A Gaivota", uma infeliz gaivota abatida torna-se metáfora de todo o drama: assim como é abatida uma gaivota (pelo diletante desejo humano da caça), somos todos abatidos ao longo da vida, por diletantismo do destino.

Entretanto, que os tolinhos de plantão não pensem que um grande anatomista da alma humana como Tchekhov pensaria bobagens como "se não matarmos gaivotas o mundo será melhor".

É no confronto com as contradições internas da sua obra que podemos perceber que Tchekhov não era um "tolinho progressista" que acreditava numa humanidade higienizada de suas misérias morais.

No conto "O Homem Extraordinário", um homem insuportavelmente honesto, reto e justo (o "insuportável" fica por conta da fala de sua esposa na agonia do parto) destrói a possibilidade da vida cotidiana, em nome de uma vida absolutamente ética: sem luxos, sem desperdício, sem abusos.

Este homem extraordinário dificilmente abateria gaivotas por diletantismo, mas, no lugar do diletantismo da caça, ele asfixiaria a respiração humana sob a caricatura morta de uma vida corretíssima.

No "Jardim das Cerejeiras", uma família da pequena aristocracia rural russa empobrecida, dona de uma propriedade com um jardim de cerejeiras, perde a posse das terras para um descendente de servos, agora livre, burguês e crente no futuro. No lugar deste velho e inútil jardim será construído um loteamento de férias para a "classe média" vir com seu direito brega à felicidade e seu amor ao "futuro".

Pois é ele, o habitante brega desses loteamentos, o herdeiro da Terra e dele será o reino dos céus.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Registro 312: Protesto

Baltasar Garzón e os direitos humanos


WADIH DAMOUS

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O afastamento de Garzón é um duro golpe nos direitos humanos; não é aceitável que as leis de anistia sirvam para acobertar genocídios
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Baltasar Garzón é um dos mais importantes magistrados espanhóis. Juiz da Audiência Nacional, Garzón tem sido responsável por algumas das mais relevantes investigações conduzidas pelo Judiciário da Espanha.

Foi proferida por ele a decisão de prender o general Augusto Pinochet, acusado de ser responsável por tortura e morte de espanhóis que viviam no Chile durante o período da ditadura naquele país. Mais recentemente, Garzón presidia as investigações sobre a prática de genocídio na Argentina, de que foram vítimas também cidadãos espanhóis, quando aquele país vivia sob o regime militar.

Sua atuação nos dois casos é o ponto culminante de trajetória profissional que envolve a investigação de delitos que vão do tráfico ao terrorismo, passando por crimes financeiros e lavagem de dinheiro. Livre de compromissos partidários, a atuação de Garzón tem, por vezes, gerado descontentamento em diferentes setores da política espanhola. Assim, ele já foi objeto de críticas vindas tanto do PP (partido de centro-direita) quanto do PSOE (de centro-esquerda).

Por isso, embora provoque profunda decepção nos espíritos democráticos, não surpreende a decisão do Conselho Geral do Poder Judicial da Espanha que suspendeu Garzón do exercício da magistratura, afastando-o das investigações que conduzia. A acusação que recai sobre ele é a de ter proferido "decisão ilegal e abusiva" ao determinar a investigação de crimes praticados durante o regime franquista. O propósito de Garzón era permitir a identificação dos restos mortais de milhares de desaparecidos durante e em seguida à Guerra Civil Espanhola.

Na sua interpretação, crimes contra a humanidade não poderiam estar abrangidos pela lei de anistia espanhola, editada em 1977, razão pela qual as investigações deveriam ter lugar. O afastamento de Garzón é um duro golpe no direito internacional dos direitos humanos. Não é aceitável que leis de anistia sirvam para acobertar genocídios ou crimes contra a humanidade, crimes que não violam apenas os direitos de cidadãos de uma nação.

Por isso, o afastamento de Garzón de suas funções tem provocado intensa reação internacional, sobretudo por parte das organizações de defesa dos direitos humanos. Cabe aos democratas de todo o mundo protestar. É estranho que país democrático, como a Espanha de hoje, desconheça o princípio da independência da magistratura.

Se havia discordância em relação à decisão do magistrado, que se tentasse reformá-la por meio do sistema de recursos. Se o ordenamento jurídico não comporta recurso adequado para impugnar a decisão monocrática de um juiz, por maior que seja sua estatura constitucional, isso significa que o sistema é falho e deve ser reformado.

Do ponto de vista da promoção dos direitos humanos, a decisão que atinge Garzón é desastrosa. Do ponto de vista institucional, com ela o sistema espanhol torna-se exemplo de como não se deve organizar o Judiciário e conceber as garantias dos juízes.

WADIH DAMOUS, advogado, é presidente da OAB-RJ (seccional Rio de Janeiro da Ordem dos Advogados do Brasil). Texto publicado em 24 de junho 2010, Folha de S. Paulo.

sábado, 19 de junho de 2010

Registro 311: Não fosse real, seria cômico

O diálogo aqui reproduzido não é de minha autoria. Recebi por e-mail. É anônimo, não devia. Quem escreveu que assuma. Mas não vejo problema em publicá-lo. Como não tenho rabo preso...nem aqui nem ali. O texto revela uma situação... É divertido, mas toca em questões sérias para se pensar.  O outro lado deve ter suas justificativas. Muitas, mas não acredito mais nelas. Opine.

FÁBULA DA CULTURA NA BAHIA
Num Pelourinho densamente povoado por baratas, conversam uma Cigarra e uma Formiga:

Cigarra- Voce viu, o que Caetano escreveu sobre o Pelourinho?
Formiga- Caetano não entende nada do Pelô!
Cigarra- Como é?!
Formiga- Foi o Governador que disse...
Cigarra- Ah. E se o governador disse...?
Formiga- Quem discordar é de direita e é viúva do carlismo!
Cigarra- Mas e o Secretário? Não foi financiado durante décadas pelo carlismo?
Formiga- Você não entende nada de carlismo. ACM vive e o Secretário é de esquerda!
Cigarra- Diz o povo do Band'olodum que quando o diabo não vem manda o secretário.
Formiga- Se o Secretário é viúva, é porem honesta.
Cigarra- Honesta?! Parece que os atores do Olodum não ganham cachê até hoje.
Formiga- São todos artistas privilegiados e ainda querem ganhar cachê?

Num Pelourinho densamente povoado por baratas conversam uma Cigarra e uma Formiga:

Cigarra- Caetano disse que tinham abandonado o Pelourinho porque era obra de ACM.
Formiga- Caetano é de direita.
Cigarra- No mês que o Teatro Municipal do Rio foi reinaugurado ao custo de 200 milhôes, aqui o Teatro Jorge Amado está fechando...
Formiga- Jorge Amado é carlista e é de direita.
Cigarra- Em Buenos Aires o Teatro Colón foi todo reformado como uma das principais salas do mundo e aqui o telhado (a cobertura) da Concha Acústica do TCA caiu.
Formiga- Vamos interiorizar a Concha.
Cigarra- Aqui não se inaugura nada! Numa favela do Rio inauguraram o Centro Cultural Waly Salomão.
Formiga- Quem?!
Cigarra- Esqueça. O jornal A Tarde revelou que cerca de 50% dos projetos aprovados em editais da Secult não receberam recursos. Pode?
Formiga- Os artistas só ficam se lamentando... Reclamar é coisa de artista carlista.
Cigarra- Mas voce realmente acha correto lançar outros editais quando quase metade dos anteriores não foram pagos?! Divulgar o edital e depois não pagar ou cancelar não é uma fórmula nazista de manipulação da mídia!
Formiga- A cultura tem que ser autosustentável! Voces ainda vão ver os resultados dessa política...
Cigarra- Mas em todos os principais países do mundo a cultura é subsidiada pelos governos. Você já ouviu falar nisso, não?!
Formiga- Vamos criar aqui um novo modelo para o mundo.
Cigarra- Modelo novo? Aqui há tempos não acontece nada de importante. Os espaços estão vazios e os grupos de música, teatro e dança estão à míngua. O movimento cultural de Salvador é o mesmo de uns 30 anos atrás...Modelo... novo?!
Formiga- Não aguento mais... Vocês só dizem a mesma coisa?
Cigarra- Quando todo mundo diz a mesma coisa é a opinião da maioria... ou não?
Formiga- São todos viúvas do carlismo.
Cigarra- Voce quer dizer que todo o povo do Cultura na UTI e mais Caetano, João Ubaldo, Emmanoel Araújo, Nizan Guanaes, Aninha Franco, Fernando Guerreiro, Edgard Navarro, Elísio Pitta, Geraldo Maia, Washigton Queiroz, Gideon Rosa, Smetak, a família Amado, a família Caymmi e tantos, tantos outros são todos carlistas?
Formiga- Claro! E nós não podemos nem dialogar com carlistas.
Cigarra- E Rodin?
Formiga- Hem?
Cigarra- O Museu Rodin é um projeto carlista! E dos mais questionáveis!!
Formiga-... É?
Cigarra- E ao fim do mandato vai ser a grande obra cultural do governo Wagner.
Formiga- Mas nós vamos interiorizar a cultura.
Cigarra- O Museu Rodin então faz então de Wagner um governador carlista?
Formiga- Claro que não! Wagner é um governador de esquerda!!
Cigarra- Um governador carlista de esquerda??
Formiga- Mas Rodin é... importante.
Cigarra- Então vamos ficar eternamente auto-sustentados entre o Rodin carlista (real) e a interiorização (imaginária) da propaganda?
Formiga- Não esqueça da cultura popular.
Cigarra- E aí vamos ter de aturar que enquanto em SP eles fazem a "virada cultural" com mais de mil eventos na capital e mais de mil eventos no interior em uma única noite, aqui a "virada" é contra o fechamento do Teatro Jorge Amado. Enquanto no Rio eles planejam um novo Museu da Imagem e Som (65 milhões) no Rio aqui temos de ficar discutindo o fechamento... do Armazém Cenográfico (no máximo 30 mil reais).
Formiga- É por isso que vamos interiorizar...
Cigarra- Mas quando? Quer dizer que se Wagner continuar a Secult tambem continua como está??!! Isto é: sucateamento do Pelourinho, do Balé Folclórico, do Balé do TCA, da Fund. Casa de Jorge Amado, do Teatro XVIII, editais midiáticos, cinismo, dirigismo e arrogância??
Formiga- Vamos i n t e r i o r i z a r...
Cigarra- E você ainda diz que nós é que dizemos sempre a mesma coisa.
Formiga- É como disse La Fontaine: ri melhor quem ri por último.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Registro 310: Diga não às drogas. Diga mesmo!

O poeta Ferreira Gullar sempre acerta em seus textos publicados aos domingos na Ilustrada, um dos cadernos do jornal Folha de S. Paulo. Este que transcrevo aqui é de uma lucidez impressionante. Esqueci de registrar a data da publicação. Nele, o poeta trata de um tema preocupante, a desgraça do tráfico e de quem o alimenta. Ele nos chama para a real e nos coloca diante da nossa omissão. Somos omissos por que aceitamos os consumidores sociais da droga, um número bastante grande em todas as camadas da população brasileira, principalmente nas classes mais abastadas. É esse usuário irresponsável o incentivador o mercado. Tenho a seguinte opinião: por trás do traficantes existem pessoas poderosas e importantes no cenário nacional e internacional. E por isso, penso eu, o malefício se alastra como um rastilho de pólvora. Gullar nos fala também sobre os dependentes, um caso de saúde pública. Seu texto é uma alerta e deve ser lido em todos os lugares. Essa é a minha intenção: divulgá-lo. Leia. pense e tome uma atitude. Houve um tempo, lá pelos idos do 60 e 70 que os jovens não queriam ser rotulados de caretas e por esse motivo, muitos deles passaram a consumir drogas. Outros, usaram as substâncias visando a expansão da consciência e ampliar a sua capacidade criativa, outros brincaram. Alguns se deram bem, outros se perderam. Mas vivíamos tempos bem diferentes dos de hoje. A violência era de outra ordem. Hoje, sou mais pela caretice, mano!

QUEM MANTÉM O TRÁFICO É O USUÁRIO

Ferreira Gullar


Só uma operação em larga escala, que envolva famílias, escola e Estado, poderá deter o avanço da droga


SEI QUE o combate às drogas é um assunto polêmico e realmente de difícil solução. Sei também que as pessoas que se empenham nesse combate estão de boa-fé e convencidas das posições que defendem.

Um dos pontos mais difíceis de abordar é a repressão ao usuário de drogas, que é visto não como um contraventor, mas como uma vítima da dependência química.

De fato, não teria sentido tratar o viciado, que não consegue livrar-se da droga, do mesmo modo que o traficante, que se vale disso para ganhar dinheiro. Não obstante, me pergunto se todos os que consomem drogas são efetivamente dependentes, sem condição de livrar-se delas.

Já abordei aqui este assunto, quando usei do seguinte argumento: assim como a maioria dos consumidores de bebidas alcoólicas não é constituída de alcoólatras, também a maioria dos consumidores de drogas as consome socialmente.

Em grande parte, é gente de classe média alta e até mesmo executivos. Não podem ser vistos pelas autoridades do mesmo modo que os consumidores patológicos.

Este é um aspecto importante a ser considerado no combate às drogas, uma vez que o consumidor é o fator decisivo para a manutenção ou extinção do tráfico: não haverá comércio de drogas se não houver quem as compre. Sem consumidor, não há produção nem mercado.

Insisto neste ponto porque, como disse acima -e todos o sabem- será impossível extinguir o tráfico (e mesmo reduzi-lo drasticamente) se o número de consumidores se mantiver alto. E o fato é que o consumo de drogas cresce de ano para ano.

Se se admite, portanto, que é o consumidor quem garante a existência e expansão do tráfico, não resta dúvida de que é nele -no consumidor- que reside a chave do problema.

Atualmente, prepondera o combate direto ao tráfico, de que resulta uma verdadeira guerra, travada, quase sempre, nos subúrbios e nas comunidades pobres, que enfrentam grandes dificuldades para se manter e a suas famílias, e pagam alto preço pelas consequências dessa guerra.

E ao que tudo indica, com poucos resultados positivos. O tráfico continua a se expandir, envolvendo em suas malhas jovens cada vez mais jovens e até mesmo crianças cooptadas em suas escolas.

Paremos para refletir: se é o consumidor que mantém o comércio de drogas, não é evidente que o modo efetivo de combatê-lo é reduzir progressivamente o número de consumidores?

O erro cometido até aqui -se não me equivoco- terá sido reprimir tanto o traficante quanto o usuário de drogas, sem distinguir entre estes os que se drogam por necessidade patológica e os que o fazem socialmente. Mas, de qualquer maneira, a simples repressão, tanto ao usuário quanto ao traficante não resolverá o problema.

Por estar convencido disso, proponho que se encare essa questão a partir do consumidor, ou seja, impedindo que o número destes continue a crescer e, mais que isso, tentar reduzi-lo progressivamente.

Talvez as pessoas, que ainda não refletiram seriamente sobre o problema, tenham dificuldade de considerá-lo em sua verdadeira dimensão.

Sem exagero, a droga, como fenômeno mundial, pode ameaçar a própria civilização, já que se vale da juventude, isto é, daqueles que amanhã terão a sociedade em suas mãos.

Afora isso, a simples destruição de uma vida ou de uma família já justificaria todo o esforço possível para resolver tal problema. Por essa razão mesmo, acredito que o objetivo principal da luta a ser travada é manter os jovens e as crianças fora do alcance do traficante.

Estou convencido de que só uma operação em larga escala, que envolva não apenas as famílias, mas também a escola e os órgãos do Estado, poderá deter o avanço da droga. Não se trata de simplesmente promover uma campanha de esclarecimento, acreditando que isso seria suficiente. Não o seria.

Trata-se, a meu ver, de um trabalho permanente a ser desenvolvido por todos os setores da sociedade, devidamente organizado e mantido, evidentemente, pelo governo, com a participação da sociedade.

Um trabalho de reeducação e esclarecimento em caráter permanente, visando o futuro, mas implantado depois de muita reflexão e cuidadosamente elaborado. Tarefa para os novos governantes.

domingo, 30 de maio de 2010

Registro 309: Saudade

Lá se foram dois artistas, intérpretes de categoria. Eram estrelas e estrelas continuarão sendo, só que agora no firmamento, esferas celestes.  Um conhecido internacionalmente, Denis Hopper, o rebelde e seu Sem Destino, um filme que marcou a minha juventude e inesquecível nas sua inúmeras qualidades e nos seus defeitos.Um filme revolucionário. Outro, na província de nome Bahia, Wilson Mello. Conheci Mello quando passei a frequentar o Teatro Vila Velha nos longínquos anos 60. Seu Quincas Berro D'Água guardo na memória, assim como outros personagens  interpretados sob a direção de João Augusto. Vê-lo fazendo os vilões nas peças para crianças dirigidas por Manoel Lopes Pontes era diversão na certa.

Deseja que pemaneçam vivos em nossas lembranças. Que não sejam esquecidos!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Registro 308: Celebração

A presença da escritora Fanny Abramovich em Salvador, a convite da Escola Arco-Íris, foi uma verdadeira festa para os amigos, ex-alunos e principalmente para as crianças, professores e pais do espaço educativo situado em Brotas, mais precisamente na Ladeira do Acupe. Inaugurou-se aí a Biblioteca Fanny Abramovich, uma simpática sala  com prateleiras muito práticas deixando à mostra a capa dos livros e não a lombada. Essa disposição torna visível para a criança o objeto-livro, já que as capas não se escondem uma atrás da outra como na maioria das bibliotecas. Gostei! No centro da sala um tapete e almofadões de chitão. Quem me conhece sabe a predileção que tenho por esse tecido tão popular de origem chinêsa e no Brasil ganhou uma padronagem especial, revelando a criatividde dos nossos criadores que adaptaram os desenhos florais ao gosto do nosso povo. Os antigos tecidos eram mais bonitos, mais elegantes, mas ainda encontramos belos padrões por aí. A sala é um encanto. No pátio da escola muitos trabalhos realizados pelos estudantes em torno dos livros que eles leram, uma demonstração do envolvimento da crianças com a proposta, o que resultou em conversas animadas entre a escritora e a garotada. Segundo me falou, ela ouviu perguntas saborosas, gargalhantes e surpreendentes.

As ligações de Fanny com a Bahia não são de hoje. Desde a década de 60, ela por aqui veio e travou conhecimento com o pessoal do Centro Popular de Cultura. Tanto que, após o golpe civil-militar de 1964, a escritora acolheu muitos dos baianos foragidos das perseguições policiais. Muitos desses rapazes e moças ocupam cargos importantes em vários setores públicos e privados não somente da Bahia, mas em outras regiões do país. Na década de 70, a educadora por aqui passou ministrando cursos e oficinas de pedagogia da arte. As turmas eram repletas de participantes interessados. Ainda hoje, ao ouvi-los percebe-se o quanto as brincadeiras, provocações e ensinamentos de Fanny mexeram com certezas e desencadearam processos de descobertas e inovações no campo da arte-educação. Distante da academia, Fanny é pioneira do trabalho com arte na escola e foi criadora do Centro de Educação e Arte, além de ter sido professora de teatro e artes plásticas no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem-Aleichem- GBISA, onde também fui professor e aprendi de fato o que é ser um educador.

Lodo depois, Fanny esteve no programa de televisão comandado por Marília Gabriela, TV Mulher. Sua participação trazia um sabor especial ao programa , todo ele produzido de forma inovadora, causando polêmica e irritando setores conservadores da sociedade. O programa saiu do ar.

Conheci Fanny quando ela escrevia para o Jornal da Tarde, em Sampa. No jornal, ela mantinha uma coluna das mais instigantes, tratando de literatura, teatro e de tudo que se produzia culturalmente para crianças. Humorados, ácidos, irônicos e demolidores, os textos apontavam para questões artísticas e educativas sem o ranço do bom mocismo, nem beiravam a crítica superficial sobre o que se produzia. Muitas deles foram reunidos no livro fora de catálogo, O estranho mundo que se mostra às crianças. Nele, existe um capítulo destinado ao teatro para crianças, com um texto intitulado Projeto Herodes. Por esse título dá para imaginar o teor do que ela analisa humoradamente, saborosamente e sem a arrogância, mas sem deixar de apontar a banaliade e os equívocos cometidos por gente que faz teatro para criança. Para Fanny, é como tudo  fosse "emiliano", ou seja, deriva da sabedoria de Emília, a magnífica criação de Monteiro Lobato.

Foi por essa época que a escritora e educadora entrou na minha vida, ao me entrevistar sobre premiação do texto Brincadeiras, no Concurso de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro- 1977, do qual ela foi júri. Lembro-me que a conversa prolongou-se por muitas e muitas horas. Anos depois, Fanny me pediu para escrever um conto para uma coleção que organizava e que não foi para frente. O conto ficou na gaveta e logo depois foi publicado noutra coleção organizada por ela. Daí pra cá, a relação profissional se transformou em pura e doce amizade, que a distância só faz aumentar. Como boa ouvinte, qualidade que ela cultiva verdadeiramente, Fanny envolve o outro e estabelece uma troca sempre enriquecedora.

Fanny é adorável. Autora de INÚMEROS livros, tenho todos autografados, é uma escritora de imaginação fértil, criadora de situações das mais verdadeiras e envolventes. Seus leitores sabem disso. Ela atinge em cheio o universo de crianças, jovens e adultos. Brinca com a língua, inventa jogos de palavras e resolve seus enredos de maneira sensível, sem maniqueísmo, sem lições de nenhuma maneira, principalmente aquelas de dedo em riste. Sua literatura não é moralizadora no sentido repressivo, faz pensar e, sobretudo, diverte. Nas teias que traça,  mexe com o sensível, toca nos problemas e avança sobre eles sem medo. Seus livros são libertários, mas fogem das cartilhas que engessam o mundo do leitor.

Tenho certeza de que a semana foi divertidissima para todos que estiveram perto de Fanny. Foi um verdadeiro puxa-estica, pois todos queriam minutos de seu tempo. Recebê-la em casa foi uma celebração. A noite de inauguração da biblioteca foi uma arraso, com uma divertida e emocionante conversa, cujo tema eram as suas lembranças de quando menina, sua vida no Bom Retiro, sua vida de escolar e a descoberta das narrativas contadas por sua mãe e depois por aquelas que os livros trazem para encantamento e deleite de quem deles se aproxima. A fila de autógrafos durou quase quatro horas, com pais e crianças esperando para ter a assinatura no livro e uma palavra com a escritora. Como ela gosta de conversar, cada um teve seu dedo de prosa.

domingo, 23 de maio de 2010

Registro 307: Teatro quando é bom, é ótimo! A Cela e Atire a Primeira Pedra

Vou muito pouco ao teatro. Não devia ser tão ausente. Quando vou e o espetáculo é bom, sinto imenso prazer.

No fim de semana fui ver A Cela, de Michel Azama e Atire a Primeira Pedra, crônicas de Nelson Rodrigues adaptadas para o palco por Cleise Mendes e Fernando Santana. O primeiro espetáculo, recém estreado no Teatro XVIII, sai de cartaz no dia 23 maio. Pena que não prolongue a temporada. O segundo, vindo de outras temporadas,  fica na Sala do Coro até o dia 30. Ver as duas montagens e mergulhar no universo proposto pelas duas cenas causou em mim uma satisfação enorme.

A Cela, texto francês gira em torno de uma presidiária prestes a sair da prisão depois de cumprir uma pena de 20 anos, por ter cometido um crime passional. Uma única personagem que ao narrar sua vida na prisão, seus sentimentos, sua condição, desdobra-se em outros personagens que povoam o mundo da mulher. Ao penetrarmos em seu mundo, nos aproximamos desse ser que vacila frente à liberdade depois do aprisionamento. O monólogo contundente em nenhum momento descamba para o melodramático e renuncia ao pieguismo que por vezes cerca a temática. Na perspectiva da Libertada, tomamos conhecimento do dia-a-dia na prisão e mais ainda do conflito que se instaura diante da saída. Uma nova vida para ser vivida leva as marcas do crime e o estigma do confinamento na prisão. Embora cumprida a pena, aquele ser, ex-recluso, continuará com as marcas da exclusão. Assim, vai se inserir novamente no social carregando “os muros por dentro e a pela por cima”, como diz a personagem a certa altura.

O texto proporciona um belo exercício interpretativo a cargo da atriz Jacyan Castilho. Durante uma hora e quinze minutos, a intérprete domina a cena com habilidade corporal e vocal e toca a sensibilidade do espectador. A atriz sabe dosar os momentos de euforia, desespero, solidão e dor mesclando-os com ironia. Um belo solo.

O desafio de estar no palco, expondo com mestria os recursos interpretativos, faz com que o espectador suporte o desconforto causado pelo tema ali narrado. Trabalhando no interior do realismo e do psicológico, mas não se prendendo a ele, Jacyan Castilho potencializa a personagem mostrando-a através de recursos que quebram essa estrutura. Esse jogo amplia o drama nos fragmentos que se organizam, mas não de forma linear, visto que as lembranças não podem se organizar numa rígida cronologia. As significações contidas no texto são presentificadas no corpo da atriz. Ao mesmo tempo em que ilustra determinadas situações, esse corpo expressivo escapa das armadilhas que regem a construção de uma personagem sustentada nas convenções do realismo psicológico para expressar sentidos para além do fotográfico. Isso não implica em uma atuação totalmente antinaturalista, mas o que se vê em cena é o jogo entre códigos que se misturam ricamente na cena. Vemos em cena a criação de um indivíduo, mas a atriz adiciona partituras que extrapolam a caracterização pura e simples. Com isso, mostra certos efeitos de movimentação, postura e entonações que fogem ao esperado, fazendo com que as palavras e as emoções ganhem uma dimensão extracotidiana.

Para que o trabalho da atriz se materialize coerentemente facetado é necessário que suportes sejam dados, embora consideremos que atuar é sempre saltar no espaço sem rede de proteção, ainda que elas existam invisíveis. Ao conceber a moldura para a ação, os criadores do espetáculo, Cláudio Machado e Jacyan Castilho, instauram a poética da cena pelas imagens, atmosferas, rupturas. Para isso contribuem o cenário de Rodrigo Frota, a luz de Pedro Dutra e o figurino de Luiz Santana.

Utilizando do efeito da tela transparente, Rodrigo Frota múltiplica e dinamiza o espaço com a ajuda da luz. No primeiro instante, se vê uma parede preta e nela uma porta recortada Ao trabalhar com o iluminador, oferece surpresas. Quando a luz incide por trás da tela revelam-se outros espaços para a representação. Uma boa solução aos propósitos da encenação. Assim também é o desenho da luz sempre recortada.

A Cela é uma realização do Grove Estúdio Teatral que já havia apresentado A Canoa com Cláudio Machado e direção de Jacyan Castilho.

Atire a Primeira Pedra é uma incursão nas crônicas que Nelson Rodrigues publicou no jornal carioca A Última Hora. Adaptadas por Cleise Mendes e Fernando Santana também ator do espetáculo, as crônicas revelam recortes do universo feminino nas suas relações com o macho patriarcal – pai, marido, amante. Por outro lado, esses retratos exacerbados pela ótica do cronista-dramaturgo, mas não falseados, deixam transparecer as relações entre as mulheres – esposa, mãe, amante, irmã. Nelson Rodrigues domina o gênero com seu olhar de jornalista, relator preciso dos acontecimentos. Essa precisão é captada pelos adaptadores e o que se vê na cena são recortes desses retratos da vida como ela é.

Luiz Marfuz, o diretor de Atire a Primeira Pedra orquestra os elementos da encenação trilhando diversos gêneros para enfatizar o jogo cênico em sua mais pura teatralidade. O diretor não mede esforços para captar o espírito rodrigueano, mas não se deixa escravizar por ele. Seu espetáculo tem o sabor de uma fotonovela que não se leva a sério, visto que escancara o ridículo, os exageros, a passionalidade perpassando as ações das personagens não caricaturas, pois revelam a pobre humanidade. Aí são mostrados os amores suburbanos, traições e a torta sexualidade de uma classe média que teima em se manter pelas aparências. Tudo isso está em cena traduzido em tintas fortes, assumindo a breguice de certas canções populares que cantam os amores rotos, as dores de cotovelo, a melosidade de cartão postal e suas frases estereotipadas.

Para realizar sua concepção, Marfuz conta com um elenco numeroso de jovens atores formados pela Escola de Teatro. Esse grupo soube captar a proposta e entra no jogo cênico com segurança. Atores e atrizes mostram-se preparados para a tarefa. As qualidades individuais se manifestam, mas o que chama a atenção é o conjunto, a precisão com que caracterizam as personagens. Isso só se realiza porque as qualidades da preparação corporal e vocal estão visíveis em cada intérprete e se alguns se sobressaem não diminuem seus parceiros de cena. Espera-se que o Grupo Os 50’tões continue a trabalhar, aprofundando suas pesquisas para realizar encenações de qualidade. Historicamente, o teatro brasileiro foi enriquecido pela contribuição dos grupos. E se as condições são adversas, o grupo pode encontrar as alternativas para viabilizar a pesquisa e traduzi-las esteticamente.

Mais uma vez no palco a realização cenográfica do jovem Rodrigo Frota, demonstração de habilidades não apenas nos cenários das duas peças comentadas, mas por outras realizações. A solução da cortina vermelha com a preta, a segunda que se abre em determinados momentos, cria um belo efeito, assim como a extensa mesa sobre o módulo no fundo do palco. Os abajures distribuídos ao longo da mesa trazem diversas significações, remetendo a cena para a penteadeira no lusco-fusco das alcovas e também para as boates esfumaçadas. Completa a cenografia uma mesa que serve às ações e as marcações desenhadas por Luiz Marfuz.

O figurino de Miguel Carvalho explora a sensualidade dos corpos femininos e caracteriza bem os tipos masculinos, alguns beirando ao cafona, um traço que a montagem não tem envergonha de exibir. Concebidas em vermelho, preto e branco, as roupas caracterizam muito bem as personagens. Se há uma restrição, ela está no figurino do Coro das Tias em Noiva da Morte. Eles destoam do conjunto. Cenário e figurinos são realçados pela luz de Fernanda Paquelet.

Os elementos cenográficos e os figurinos estabelecem uma conexão com o som da cena. No espetáculo, esse som brega, que ouvidos mais sensíveis rejeitam, adquire um sabor especial. A música integra-se organicamente ao todo da encenação e são bem cantadas pelo elenco.

Uma bela, divertida e ácida encenação. Com momentos muito bem solucionados e interpretados competentemente pelo elenco, é demonstração de que o nosso maior dramaturgo – afirmação questionável – tem muito a oferecer aos artistas de teatro e ao público.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Registro 306: O que acontece por aí...

O 13 de maio passou, parece que em branca nuvens. Induziram-nos a ignorar a data tão significativa para a nossa história. Esqueceram a luta dos abolicionistas negros, mulatos e brancos. Passaram a borracha na assinatura da princesa. Querem reescrever a história. Balela!

Bento XVI, com essa história de culpabilizar a união afetiva entre pessoas do mesmo sexo e a luta contra a descriminilização do aborto como sendo as desgraças da família, está tentando desviar a atenção para os pecados da Igreja. Sem querer generalizar para não cair no mesmo discurso, os horrores gerados no interior da família passam por outras questões. Por que não enfrentá-las?

Caetano Veloso mostrou mais uma vez a sua capacidade de gerar polêmica e tem lá suas razões. Seu lúcido e belo texto (O Globo) não demoniza ninguém, mas coloca as coisas nos devidos lugares. O Secretário de Cutura da Bahia respondeu, mas sua resposta não chega aos pés do texto do compositor. Acho que está na hora de cada um se olhar no espelho. Quem na Bahia não mamou nas têtas dos governos carlistas? Os artistas, conservadores e progressistas, para não falar em direita e esquerda, hoje em dia conceitos tão esfiapados, mantiveram seus projetos com o dinheiro do Estado e não assumem tal fato. Se essa, cara pálida! Querer dá um de vestal? Me engana que eu gosto!

Os teatros de Salvador estão fechando (ACBEU, Jorge Amado, Xisto Bahia, Gregório de Mattos). Uma pena! Se já não tínhamos espaços suficientes para colocar em cena as produções locais e as que nos visitam, agora é que a coisa se complica. Tal situação serve como medidor do nosso interesse pela arte. E quando o quadro se torna avassalador, não adianta belas palavras. O que se quer são ações.

Fui ver o filme de Zé Umberto, O Anjo Negro (1972) na Sala Walter da Silveira, sessão de 16:30 do dia 14 de maio. Só havia um espectador, eu. É certo que tenho interesse no filme. Depois de 38 fui autoavaliar o meu trabalho como ator. O filme tem alguns poucos bons achados que se perdem na confusão do roteiro. Dirigido eu poderia te rendido mais. Não foi o caso. A exibição do longa-metragem é parte da comemoração do Centenário do Cinema Baiano. Uma bobagem essa comemoração proposta pela Diretoria de Audiovisual da Faundação Cultural.

O cineasta iraniano continua preso! Somente por discordar! Cannes reclama, o mundo reclama, mas o ditador se acha um deus em sua vã glória de mandar. Atrás dele vai Lula, O Cara, querendo aparecer...

Hoje, fiquei feliz com a notícia dada pela diarista que cuida da minha morada e de mim também. Ela vai comprar a casa própria. Desejei felicidade e estimulei a fazer um chá de casa nova.

Depois de dez dias hospitalizado por conta de uma dengue hemorrágica que botou por terra as minhas plaquetas, vivo apavorado com os mosquitos que andam voejando por Salvador. São muitos... Cadê o pessoal do fumacê? Se a Prefeitura e Governo do Estado não tomam as devidas providências, não custa a população tomar vergonha e cuidados. É tão simples, basta deixar de lado a preguiça, o descaso e a ignorância para combater a proliferação do mosquito. Agradeço aos que atenderam o meu pedido e foram doar sangue no Instituto de Hematologia da Bahia. Agradeço também os bons serviços do pessoal do Hospital Português e aos amigos que torceram pelo meu reestabelecimento.

Ainda convalescendo participei do lançamento de Os Mansos, texto dramático do russo-argentino Alejandro Tantanian. O livro faz parte de um projeto coordenado por  Luis Alberto Alonso, Héctor Briones e Cacilda Povoas. Pediram-me um fala sobre o projeto e sobre o belo texto, uma incursão do autor pelo universo de O Idiota de Fiódor Dostoievski.

O diretor Celso Nunes está em Salvador para fixar residência. Espero que ele faça espetáculos teatrais por aqui. Só temos a ganhar.

Por hoje é só...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

sábado, 17 de abril de 2010

Registro 303: As Melhores Coisas do Mundo

Saí do cinema cantarolando Something dos Beatles (1969) lembrando-me da minha juventude que se foi, mas que guardo na memória para que ela não se perca. E tudo isso por conta do belo filme de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, As Melhores Coisas do Mundo. A sala do Unibanco Glauber Rocha estava vazia, uma pena. Será que os adolescente deixarão de aproveitar esse olhar tão singular sobre personagens tratados com tanto carinho pela diretora? Espero que não. Antes de falar sobre as qualidades do filme, o que me ocorre agora é adjetivá-lo: surpreendente, amoroso, sensível, violento, inquietante, real, jovem, maduro, poético, intrigante, desconcertante, sincero, legal, sofrido, pra frente e muito mais.

Adjetivar não empobrece o filme de Laís Bodanzky. Antes, revela o meu afâ de dizer as primeira impressões. Bodanzky é uma diretora que amadurece a cada trabalho e me cativa com seus personagens e, principalmente pela forma com que conta suas histórias. Foi assim e Bicho de Sete Cabeças e também em Chega de Saudade. Desejo que ela continue filmando e amadurecendo.

Lidando com situações como o divórcio dos pais, os dilemas sobre a sexualidade, a depressão do irmão, ouso de drogas (rémedio, cigarro maconha), a relação com os colegas e com os adultos, a presença da tecnologia como uma fixação, gerando o cyberbullying, agressiva forma de constrangimento através do celular e da internet, a diretora tira partido desses fenômenos, para evidenciar o aprendizado dos jovens. Mas não espere lições moralizantes nem edificantes, mesmo que seu olhar seja positivo e enternecedor. Laís Bodanzky não demoniza nem idealiza seus personagens. Eles são o que são, vivem o seu tempo, erram e acertam e procuram se entender diante do que vida traz.

São muitos os bons filmes sobre adolescentes e As Melhores Coisas do Mundo é um deles.

Ao dirigir seu olhar sobre o universo de adolescentes e jovens vivendo numa grande cidade brasileira, a diretora sabe-se universal e atemporal, embora trate especificaente de uma grupo de personagens de classe média em São Paulo, cidade que serve de cenário como qualquer grande metrópole globalizada. Essa é uma qualidade do filme. Sabemos onde tudo se passa, mas isso fica em segundo plano, porque a narrativa centra-se na captação dos embates vividos por Mano,quinze anos (Francisco Miguez, uma grande revelação) e seu irmão Pedro, dezessete anos (Fiuk, muito bom). Tudo se passa entre a família dos dois (Denise Fraga e Zé Carlos Machado, os pais), o hostil ambiente escolar e as aulas de violão (Paulo Vilhena, professor). Na aparente leveza do entre e sai dos estudantes gira a maior parte do filme. Somos jogados nesse ambiente e vemos desenrolar no seu interior os belos momentos da narrativa e também os mais chocantes quando nos são revalados os preconceitos que machucam não apensas os protagonista, mas a garota mais amiga de Mano, Carol (Gabriela Rocha, encantadora) e a outra, por quem Mano arrasta uma asa e lhe proporciona um momento de felicidade, embora o rejeite motivada pelo preconceito, justamente ela que sofre na pele a discriminação por parte dos colegas.

Um filme sobre descobertas. Um filme sobre como e duro e belo aprender a viver. E é isso que a diretora nos conta e o faz de uma maneira leve, mas não superficial. O roteiro seguro, adaptado de um livro de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, não descamba para o piegas nem pelas facilidades, por exemplo, encontradas em Malhação onde tudo é chapado. Em As Melhores Coisas do Mundo, o universo dos adolescentes Mano e Pedro e de seus colegas é mostrado de maneira direta, mas sob camadas sutis que se espalham por todas as cenas, mesmo quando são chocantes na sua crueza. A cena em que Mano toma conheciemento do motivo que levou seu pai a se separar é uma delas. A que se segue também, quando o personagem se vê sozinho em meio ao trânsito em ritmo acelerado, sob o efeitos luminosos. 

Outra qualidade do filme é a sabedoria com que a diretora conduz o seu elenco de jovens, a maioria sem grande experiência interpretativa. E ganha pontos superlativos na descoberta de Francisco Miguez e na maneira com soube tirar dele um personagem que atravessa a tela para nos puxar para dentro do filme. Simpatizamos com Mano, principalmente naquilo que ele tem de comum a todos os adolescentes: confusão, insegurança, curiosidade e busca por uma identidade num momento da vida em que tudo é confusão e desejo. Somos rendidos pelo personagem e pelo ator. E vivemos com ele os enfrentamentos, a transição entre a infância e a juventude, a surpreendente identidade do pai, a primeira transa, a afirmação diante dos companheiros

Dos atores que interpretam os adultos, entre eles Caio Blat (professor Artur), a direção soube contar com a experiência e a qualidade interpretativa de cada um. Destaco o trabalho de Denise Fraga, uma ótima atriz, mas sempre perseguida por cacoetes que criou ao longo da carreira. Felizmente, em As Melhores Coisas do Mundo, vejo a atriz livre dos macetes humorísticos. A mãe interpretada de forma contida mostra uma facete nova da atriz.

Por fim, o filme de Bodanzky nos coloca diante de uma questão que não é novidade. As gerações diferem umas das outras, assim como a adolescência em cada época se mostra diversa, mas o que torna o filme abrangente é que nele reside algo que o tempo não modifica, aquilo que está presente no perído da adolescência, seja de ontem ou de hoje. Essa essência imutável é presente no filme como uma força latente, propiciando o diálogo com o que o adolescente que fomos um dia. Diálogo entre o passado e o presente, embalado por uma música bonita, belos planos, montagem agil, mas não eufórica. ponto para a diretora, elenco e equipe técnica.

Não deixe de ver o filme. Ele nos diz que apesar de tudo, a melhor coisa do mundo é viver.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Registro 303: Prisão

O CINEASTA JAFAR PANAHI CONTINUA PRESO

PROTESTE!

No dia 15, cineastas do mundo todo estão organizando projeções de filmes do iraniano Jafar Panahi em seus países. Dessa maneira protestam contra a sua prisão pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad.

Em São Paulo, Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema, organizará a exibição de três filmes de Panahi "O Espelho", "Fora do Jogo" e "Ouro Carmim".

sábado, 3 de abril de 2010

Registro 302

IMPOSSÍVEL CARINHO
                                       Manuel Bandeira

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias da tua infância!

In : Poesia/Libertinagem

terça-feira, 30 de março de 2010

Registro 301: Multiculturalismo fora do eixo

O texto de João Pereira Coutinho aqui transcrito, foi publicado na edição de 30 de março de 2010, no jornal Folha de S. Paulo.

O autor toma como base para seu escrito o filme O Dia da Saia do cineasta Jean-Paul Lilienfeld. Interessa-me discutir aqui a questão essencial abordada pelo colunista, a aceitação irrestrita do multiculturalismo como panacéia para todos os problemas de consciência, da má consciência que aflige não somente a Europa, mas grande parte do mundo globalizado. É certo que a questão aparece com mais visibilidade na Europa.

A primeira impressão que temos é que a aceitação do multiculturalismo sem crítica e sem limite, advém do embaralhamento dos valores. Outro ponto, diz respeito ao receio que temos de ser taxados de conservador. Dessa maneira aceita-se tudo, como, por exemplo, não respeitar o Estado laico. Essa postura termina por criar uma confusão perigosa.

O texto de Pereira Coutinho é sábio nas colocações. Vamos aguardar o filme para que possamos apreciá-lo e ver de que forma a "mensagem" chega até nós. De antemão, penso a escola como o lugar da pluralidade e da diversidade, o que vem a ser a mesma coisa. Não vou chover no molhado.

Religião é um problema de foro íntimo e não deve apartar. Não deve ser parâmetro para a prática educativa em sala de aula. Se não atentarmos para isso, chegará um momento que teremos classes para cada um dos credos  existentes, com professores e educandos reunidos em função da religião que professam.  A escola pública não deve incorporar essa ideia absurda. Mas do jeito que as coisas caminham, tal absurdo pode se tornar realidade. No fundo no fundo é sempre a manifestação do autoritarismo. Se o multiculturalismo toma como um princípio o respeito pelo outro, o que vemos é a inversão desse princípio. Os "excluídos", os "periféricos", os "estrangeiros" em vez de conviverem com a diferença, terminam por impor seu ponto de vista... E sabemos a via que isso toma: a da violência. Se queremos acabar com as fronteiras, acabemos de fato com elas.

Eu leio a Bíblia, o Corão, o Talmud como leio a Ilíada e a Odisséia e sou professor. A cada instante, eu procuro agir sem a viseira decorrente dos meus preconceitos. Sei bem o quanto é difícil seguir essa determinação, mas faço disso um exercício de repeito ao outro. Pelo visto, a professora do filme sabe muito bem de si e do lugar que ocupa.


JOÃO PEREIRA COUTINHO

Uma mulher de saia
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Não admira que as alunas muçulmanas
troquem um tipo de sequestro por outro
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GOSTEI DE "O Dia da Saia", de Jean-Paul Lilienfeld. Confesso que assisti ao filme por motivos superficiais: Isabelle Adjani. Curiosidade: como estaria a velha musa da adolescência, que despertava no cronista todos os sentimentos hormonais de "A" a "Z"?

Adjani envelheceu; mas o rosto de anjo permanece. Uma condição que perturba, e tragicamente, ante a natureza diabólica da história.

Conto rápido, sem revelar os pormenores fundamentais: Adjani é professora de literatura em liceu problemático e suburbano. "Liceu problemático", no contexto, é eufemismo: com alunos que se comportam como selvagens e atuam como criminosos de gangue, a professora perde a cabeça quando descobre que um deles está armado.

Retirando-lhe a arma em gesto de pânico e a disparando por acidente, a professora cruza o seu pessoalíssimo rubicão. Não há retorno.

Resta-lhe sequestrar toda a turma e fazer uma exigência final: uma câmera de TV para denunciar a desagregação da sociedade francesa. Uma sociedade que, incapaz de fazer cumprir o seu programa laicista, é apenas uma manta de retalhos em que as comunidades imigrantes (leia-se: comunidades imigrantes islâmicas) impõem versões extremistas do seu próprio credo.

O interesse do filme começa dentro da sala de aula: na relação entre a professora e os alunos; mas também nas relações de poder, ou de opressão, que se revelam entre alunos e alunas: na violência verbal, física e até sexual dos primeiros sobre as segundas. Não admira que as alunas, muçulmanas também, passem gradualmente para o lado da professora que as sequestra. Ou, se preferirem, que troquem um tipo de sequestro por outro.

Mas o filme é igualmente notável ao mostrar o mundo "lá fora", que reage ao sucedido dentro da sala. Um mundo de relativismo letal, que na verdade produziu as condições ideais para o desastre. Um dos colegas da professora, indignado com a "islamofobia" da dita, retira o Corão da sacola e dispara: sempre que um aluno cita o Corão para justificar as suas ações mais "impróprias", ele próprio refuta o aluno com o Corão. Na sapiência medíocre da criatura, "integrar" a comunidade muçulmana na França (mais de 5 milhões) passa por transformar as escolas laicas em puras madrassas.

É contra esse programa "multiculturalista" que se revolta a professora; contra o antissemitismo dos alunos, que usam "judeu" como insulto permanente; contra a forma como eles agridem as suas "irmãs de fé" com brutal misoginia; e como se autoexcluem da sociedade de acolhimento, desenvolvendo narrativas de vitimização que só convidam a infindáveis ciclos de violência.

Um caso patológico de "islamofobia"? Assim seria se a própria professora, em conversa telefônica com os progenitores, não se revelasse aos nossos olhos, e aos olhos dos alunos, como sendo igualmente muçulmana. "Nós não sabíamos que a senhora era...", balbuciam os discentes, escutando a conversa em árabe.

A professora não permite a conclusão da frase. E replica, em gritos de afirmação: "Eu sou a professora de literatura! Aqui, sou apenas a professora de literatura!".

Curioso como, em duas frases, está resumida a diferença política fundamental entre a modernidade e o islã. De um lado, alguém que adere aos valores constitucionais da República, respeitando a separação entre duas esferas de poder distintas.

Do outro, os que permitem que a identidade religiosa se sobreponha a qualquer outra, suprimindo os espaços de liberdade e de tolerância que definem as sociedades liberais do Ocidente.

O filme de Jean-Paul Lilienfeld pode não ser um prodígio cinematográfico. Mas mesmo na sua modéstia de telefilme, ele serve como aviso para a França e para a Europa.

Sempre que o assunto ronda essas matérias polêmicas, os exércitos mais conservadores descem o sarrafo sobre a ameaça da imigração islâmica no velho continente.

Confesso que nunca embarquei nesse pavor: o problema não está na imigração, que aliás pode ser uma necessidade para uma Europa demograficamente suicidária.

O problema está na forma como se recebem esses fluxos migratórios. Sem uma economia capaz de crescer e de integrar socialmente quem chega (como nos Estados Unidos); e pelo contínuo repúdio do patrimônio político e cultural da Europa em nome de um multiculturalismo demencial que tudo autoriza e nada condena, o futuro do continente está personificado no colega da professora. Alguém que jogou heroicamente a Bíblia pela janela; para acabar os dias com o Corão dentro da sacola.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Registro 300: Um professor que me ensinou a gostar de História

Uma lágrima para o professor. Fui seu aluno quando cursei a Licenciatura em História na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - UFBA, turma de 1970. Um inesquecível mestre
ISTVÁN JANCSÓ



ESTÊVÃO BERTONI

Ao lado do bibliófilo José Mindlin, István Jancsó foi vencendo aos poucos a "burrocracia", como conta sua filha Virgínia, para tornar real a doação da biblioteca do empresário à USP e, assim, dar vida ao projeto Brasiliana.
Professor de história formado pela USP em 1963, István era um húngaro de sotaque baiano -"oxente" era frequente em seu vocabulário.
Com os pais, chegou ao Brasil aos nove, fugindo da guerra.
Após se formar, mudou-se para a Bahia como professor.
Nessa época, aprendeu os segredos da culinária local com o amigo João Ubaldo Ribeiro.
Durante a ditadura, foi preso, torturado -perdeu parte da audição- e se exilou. Na França, deu aulas, mas voltou ao Brasil. Foi trabalhar numa indústria, mantendo o sonho de retornar à universidade.
Atualmente, era professor titular do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, e coordenador do Brasiliana, cujo prédio está sendo erguido. Nele, será possível pesquisar o maior acervo de livros e documentos sobre o Brasil.
À filha o pai dizia que cuidaria mais da saúde. Sua vida era toda dedicada à USP, conta o professor Pedro Puntoni.
Em 2007, ele intermediou a saída dos estudantes que haviam ocupado o prédio da reitoria. Assim explicou a atitude: "Sou professor, tinha que estar perto dos meus alunos".
Ontem, devido a um câncer, ele morreu aos 71 -23 dias após Mindlin. Deixa viúva, dois filhos e duas netas. O velório foi ontem, na Beneficência Portuguesa, de onde saiu aplaudido para o crematório.


Publicado na edição de 24 de março de 2010, Folha de S. Paulo

quinta-feira, 11 de março de 2010