domingo, 9 de outubro de 2011

Registro 368: Participação o VIII Fórum Intermunicipal de Teatro da Bahia


ALGUNS DESAFIOS DO ENCENADOR NO SÉCULO XXI

Raimundo Matos de Leão


Inicialmente, eu agradeço à União de Amadores Cênicos da Bahia pelo convite. Sinto-me honrado em participar do VIII Fórum Intermunicipal de Teatro da Bahia, e espero contribuir com algumas ideias para animar o debate sobre o tema que me foi confiado: os desafios do encenador no século XXI. Os desafios são claros, e espero que os encenadores sejam homens e mulheres de seu tempo, atentos ao que acontece no mundo globalizado, mas sem perder de vista o que se passa no seu quintal na sua aldeia. Aí já temos um desafio que enseja uma certa demanda por parte de todos nós, artistas ou não. No caso daqueles que optaram pelo exercício de colocar em cena um espetáculo, assinando-o, a responsabilidade é inegável, visto que a obra artística deve trazer elementos que possam estabelecer a comunicação com o espectador na sua contemporaneidade. Falo no singular, pois a obra atinge cada um em particular, embora a plateia se configure com um conjunto de sujeitos. Isso torna o desafio  maior, pois o artista tem de falar para indivíduos que vão ao teatro munidos de uma visão de mundo e com uma bagagem de informações que serão postas a prova ou não pelo que está em cena.

Penso que o artista, por mais complexa que seja a sua obra, busca estabelecer um diálogo com aquele que recebe sua criação, portanto a obra deve se abrir para o receptor de maneira que seus elementos se traduzam e se espalhem. Neste processo, é preciso que o encenador se dê conta da importância do trabalho autoral que se manifesta por uma série de procedimentos cênicos, sem perder de vista o objetivo maior, que é fazer com que sua obra seja decodificada tanto por leigos quanto por especialistas. 

Desde que no teatro surge a figura do encenador nos meados do século XIX, ficando André Antoine como aquele que primeiro assinou um espetáculo, da mesma forma que o pintor assinava seus quadros, a figura do encenador passou a concentrar em maior ou menor grau a responsabilidade sobre o espetáculo. Ele é responsável pela autonomia do espetáculo, contribuindo então para que a encenação se constitua como discurso autônomo em relação ao texto dramático, criando assim a dramaturgia da cena ou o texto espetacular, como define o italiano Marco de Marinis (1982, apud FERNANDES, 2010), ao pensar o espetáculo como uma escritura. Aí temos outro desafio que implica  na opção por parte do artista de tomar para si uma determinada corrente estética e produzir/criar a partir dela, buscando uma unidade de sentidos ou optando por se expressar por um espetáculo organizado de maneira que ele se torne uma polifonia de significantes.

Outra questão que também me parece um desafio é o encenador dar conta da tradição, espanando o pó que o tempo deixou sobre o legado das gerações de artistas anteriores a ele, e ao mesmo tempo se valer dos avanços tecnológicos da contemporaneidade. No entanto, é necessário que o encenador fique de sobreaviso para não sair por aí copiando experimentos que negam o princípio fundamental do teatro, que é a relação direta em tempo real do ator com o espectador. A minha opinião, muitíssimo particular, é de que o teatro existe mesmo é nesta relação. Sem o elemento humano, como poderá haver reverberação emocional, intelectual, estética? Não me parece um bom caminho descaracterizar de tal forma o ato teatral que ele deixe de ser o que é. Tal afirmação não nega a interdisciplinaridade, o hibridismo e a fragmentação. O palco absorve tudo, desde que tudo faça sentido e signifique. Assim não cairemos na algaravia que por vezes se impõe no espaço cênico. Penso num certo equilíbrio entre a “vanguarda prospectiva,” celebrativa da tecnologia de ponta, e a “vanguarda tradicionalista” que se inspira nos ritos antigos (SCHECHNER, 1998), como um caminho para fortalecer a presença viva do ator em comunhão com os espectadores sem que se caia no virtualismo, tendência cada vez mais impositiva na cena.

Assim, vejo como desafio do encenador na pós-modernidade, levando em conta que este conceito está em permanente questionamento, agir organicamente para responder ao postulado do fim das grandes narrativas, ao rompimento das fronteiras entre arte, ciência e entre as linguagens da arte. Levando em consideração tais questões, o encenador deve atentar  para que o apagamento não se dê de maneira que não saibamos mais se o que vemos é encenação teatral ou outra manifestação. Sobre o propalado fim das grandes narrativas, Os Náufragos da Louca Esperança, criação do Théâtre du Soleil, excursionando pelo Brasil, segue na contramão. Sobre a encenação de Ariane Mnouchkine, Luiz Fernando Ramos afirma: "Negando a hipótese de que não haja lugar para as grandes narrativas, o que se conta não só analisa o fracasso das utopias modernas , como arisca  remexê-las. O coletivo do Soleil resiste. Eles não renunciam a sonhar e a produzir quimeras." (Folha de S. Paulo, 06.10.2011)

Outro conceito que deve ser um desafio no horizonte dos encenadores é a polêmica instaurada a partir de Lehmann (2007) e seu conceito de pós-dramático em oposição ao dramático, uma categoria ultrapassada, segundo o ponto de vista do teórico alemão. Seguindo o seu pensamento que aponta o pós-dramático,  surgido em cena desde o teatro experimental dos anos 70, e configurado com mais precisão nas experiências dos anos 90 para cá, o teatro do século XXI deixaria de ser fabular, caindo por terra a triangulação drama, ação e imitação, modelo que nem as vanguardas do século XX conseguiram romper. Parece-me, no entanto, que a discussão proposta envereda por uma via que determina o apagamento de um modelo e sua substituição por outro, um fator que pode colocar os encenadores em uma camisa-de-força, visto que todos devem ser, de agora em diante, pós-dramáticos, e assim conceber suas encenações. É certo que a teatralidade contemporânea vem sendo explodida ao longo do tempo. Podemos tomar a encenação de Ubu Rei de Alfred Jarry, em 1896, como um ponto luminoso nas muitas revoluções sofridas pelo teatro. Assim como este momento ímpar, outros surgiram ao longo da história do espetáculo, figurando transformações radicais e encenações autorais. Talvez seja esse o desafio maior, criar uma obra autoral e fazê-la chegar aos espectadores, independente de um modelo camisa-de-força.

Nesta panorâmica, corro o perigo da redução, mas o que quero fazer aqui é levantar pontos para uma reflexão por parte de quem se interessa em assumir a condição de encenador em um momento histórico de grande mobilidade, de tantas alternativas e redefinições que fornecem possibilidades para a escritura cênica.

Diante de tantos apelos, surge outro desafio: aquele que nos é colocado constantemente, o do engajamento em uma corrente estética, política ou espiritual. Não delongarei o assunto, visto que cabe a cada encenador optar por uma dos campos que acabei de citar, ou por todos eles. Mas é preciso que reflitamos sobre a diversidade de pensamento que engendra uma série de produtos artísticos reverberadores de sentimentos e ideias que desejam a transformação, seja da arte ou do sujeito. Pensando nas teorias desenvolvidas, segundo Guy Debord (1997) em A sociedade do espetáculo, tudo aquilo que era vivido tornou-se representação, ou seja, espetáculo, e este acúmulo de representação gera em nós a sensação de que não podemos intervir e modificar as coisas. Tal comportamento gera uma certa passividade, identificada no interior da pós-modernidade. Lutar contra esta passividade talvez seja um desafio do encenador em direção ao engajamento, mas de modo tal que este engajamento não nos leve ao radicalismo da exclusão. No momento em que o discurso da inclusão é pauta em todas as reuniões e conversas, é necessário discutir a intolerância para sabermos o que é preciso tolerar, e isso  sem que se turve o olhar, para não sermos restritivos ou complacentes demais.

Vejo também como desafio do encenador no século XXI o exercício do papel de pedagogo. É preciso que ele exerça este papel, o do encenador-pedagogo, principalmente quando prepara atores em seus espetáculos. Esta função foi posta em prática no passado por Constantin Stanislavski, e resultou nos avanços que conhecemos sobre a preparação de intérprete, como também das técnicas de encenação. E por falar em técnicas, não é possível conceber um encenador que não as domine minimamente. Deixando claro que as técnicas não devem ser um limitador no seu processo de criação, cabe então, como um desafio, a capacidade do encenador de utilizar as técnicas, percebendo-as enquanto procedimentos que renderão frutos  quando da concepção do seu trabalho, e de sua transposição para tridimensionalidade da cena. A ênfase está na construção da poética, sendo a técnica um meio para a criação.

Quero alertar para a conjunção teoria e prática, não necessariamente nesta ordem, pois vejo neste binômio algo interligado. Cabe ao encenador dar conta dos princípios que regem os estudos teatrais, não desviando a teoria da prática, para não tornar os processos criativos em elucubrações que fazem do palco outro lugar. Deve-se dar conta do trânsito entre as fronteiras, movendo-se com sabedoria para evidenciar o que o teatro tem de mais interessante:  a relação entre alguém que age e outro que a observa.

Cabe ao encenador do século XXI se perguntar a cada momento: para aonde vai o teatro? No artigo O Teatro na Encruzilhada (1998.), Richard Schechener, estudioso da Performance, coloca a pergunta no plural: “Aonde vão os teatros?”, visto que os aspectos do teatro são múltiplos e não evoluem ao mesmo tempo. Portanto, há espaço para gêneros e formas diversas. Nesta diversidade, cabe ao encenador manter a qualidade de suas propostas, sejam elas conformadas de maneira realista-naturalista, ou sob o signo da vanguarda, do experimentalismo, mas sem perder de vista que a experiência teatral é a do espetáculo ao vivo. Por fim, o desafio maior é encontrar os meios para concretizar o sonho e o desejo de cada um.

Finalizando, cito um trecho que recolhi de um artigo escrito pela atriz Fernanda Torres, publicado na Folha de S. Paulo, em 21 de fevereiro de 2011. Diz ela:

Em Surfando no Caos, autobiografia do guru do LSD da América nos anos 1970, Timothy Leary prevê que, no futuro, os relacionamentos virtuais dominarão de tal maneira a humanidade que a presença de alguém em carne e osso será um acontecimento de dimensões míticas. Intrigante observação. Se o psicólogo americano estiver certo, a velha invenção dos gregos, o teatro, será o grande diferencial das gerações futuras, seja na vida artística, política ou filosófica. Em um mundo ainda nervoso, tenso, populoso e avidamente dominado pela tecnologia, nada superará o poder da presença orgânica da natureza encarnada, sólida, calorosa e profunda. E assim, o humanismo entrará novamente em voga.”

Deve encenador fazer do seu espetáculo o lugar dessa humanidade.


REFERÊNCIAS

DÉBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
FERNANDES, Sílvia. Teatralidades contemporâneas. São Paulo: Perspectiva, 2010.
RAMOS, Luiz Fernando. Théâtre du Soleil sintetiza potência da literatura e do cinema. In: Folha de S. Paulo, Ilustrada. São Paulo, 2011.
SCHECHENER. Richard. O teatro na encruzilhada. Correio da Unesco, ano 26, n.1, jan., 1998.
TORRES, Fernanda. Iremos tocar a baleia Moby no meio da sala. In. Folha de S. Paulo, Ilustrada. São Paulo, 2011.

O presente texto sofreu acréscimos após sua apresentação no Fórum, mas mantém as ideia defendidas durante a exposição. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Registro 367: Estado e Religião: uma combinação que não dá certo

JUDEU SEM RELIGIÃO

Escritor israelense que ganhou na Justiça o direito de ter carteira de identidade sem registro de crença ataca a não separação entre religião e Estado e o uso do judaísmo por 'fascistas'. Yoram Kaniuk publicou mais de 20 livros em sua premiada carreira, mas nunca ocupou tantas manchetes. O motivo foi a ação para apagar o judaísmo de sua carteira de identidade. 

Depoimento a Marcelo Ninio (de Jerusalém para Folha de S. Paulo, 6 de outubro de 2001)

Tomei a decisão por que não queria ser minoria em minha própria família [risos]. Sou casado há 50 anos com uma americana não judia. Minhas filhas nasceram aqui, serviram o Exército, são cidadãs israelenses, mas não são consideradas judias. Ganhei um neto e ele foi considerado "sem religião", por ser filho de não judia. Decidi que quero ser como o meu neto. Cansei do controle da religião neste país. É um ciclo perigoso: os religiosos se fortalecem politicamente e impõem mais e mais a religião sobre nós. Até o calendário e o horário de verão são impostos pelos religiosos. Há um controle inaceitável sobre a vida das pessoas. Querem transformar Israel num Estado religioso. Lutei pela criação deste país. O objetivo não era um Estado judeu. [David] Ben Gurion [fundador de Israel] não sonhou com isso, ele não acreditava em religião. O que ele queria era um lar nacional para o povo judeu.Decidi que quero ter a nacionalidade judia, não a religião. Mas Israel não reconhece isso. Bibi [premiê de Israel, Binyamin Netanyahu] fala o tempo todo que os palestinos devem reconhecer o caráter nacional judeu de Israel, mas o próprio Estado não reconhece a nacionalidade judia sem a religião. A decisão judicial é histórica. O juiz abriu uma brecha que, espero, levará à separação entre Estado e religião. Ainda não é uma revolução, mas pode ser o começo.Esse veredicto pode começar a quebrar o monopólio político dos religiosos. Se houver separação entre Estado e religião, eles não terão mais o mesmo poder político. Hoje, nosso modelo lembra a Idade Média. Quando a religião tem o controle, a vítima é sempre a liberdade. Minha mulher e minhas filhas nunca sofreram por não serem judias. Vivemos em Tel Aviv, uma cidade muito liberal. Mas é humilhante, porque não são como os outros. Todas as reações que recebi até agora foram muito boas. Milhares de pessoas esperam por isso há anos, e acho que muitas seguirão o meu exemplo. Ninguém me atacou ainda, mas espero que isso aconteça [risos]. Sou um lutador. Israel tem de decidir: pode ser país democrático ou país judeu religioso. Não pode ser os dois. Religião é dogma, não aceita a democracia. Se em um ou dois anos não acontecer uma mudança, este país está perdido. Se tornará um Estado religioso e sem mão de obra, sem soldados para defendê-lo nem gente capacitada para desenvolver alta tecnologia. Sustentamos centenas de milhares de parasitas. Hoje quase 50% dos alunos de classes primárias são ortodoxos, e a maioria não se integrará ao Estado. Além de tudo, a falta de separação entre Estado e religião permite que o fascismo se espalhe. O incêndio criminoso da mesquita no norte de Israel é só um exemplo. Há fascistas nos assentamentos que fazem o que querem e o governo não faz nada. Atacam árabes, arrancam suas oliveiras, vandalizam mesquitas e o governo faz vista grossa, pois teme perder seu apoio político. Chegamos a um beco sem saída. Por isso o veredicto que me foi concedido é tão importante: cria uma brecha histórica para mudarmos isso, para acabarmos com a legitimidade dos fascistas que usam a religião.Se Israel for mais democrático e menos religioso, o Estado poderá agir contra esses hooligans.  (Grifos meus)

Pensemos no depoimento do escritor, hoje com 80 anos. A sua lucidez é impressionante. Em um mundo acossado cada vez mais pelas Religiões, todas elas querendo o poder para somente reprimir o indivíduo,  as palavras de Yoram Kaniuk calam fundo, pelo menos em mim

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Registro 366: Mais um trecho de Amostra Grátis


Mais um trecho da mostra didática, AMOSTRA GRÁTIS, dos alunos-atores do Módulo I - Interpretação, Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, sob a minha orientação. O vídeo é de autoria de Sandro Souza aluno do curso de Direção Teatral.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Registro 365: Meu livro


Um muro no meio do caminho?! meu primeiro conto para crianças, publicado em 1987, agora recebe uma novíssima edição pela Atual Editora (Grupo Saraiva). Este novo projeto, ganhou a atenção da editora e o resultado é dos melhores. A ilustração é de Márcio Levyman, que foi meu aluno no Ginásio Israelita Scholem Aleichem. Ele fez uma belo trabalho. Levyman é um ilustrador de mão cheia. Gosto do seu traço. O livro foi editado primeiramente por iniciativa de Fanny Abramovich  organizadora de uma coleção para a Salesiana. Na ocasião, o Plano Color atrapalhou os planos da editora e o livro, ainda que tivesse boas críticas, perdeu-se por aí. Agora, ele é outro livro, contando uma história inusitada, a mesma história, mas atualizada. Clique na foto.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Registro 364: Protocolo Lunar

Em cartaz no Teatro Martim Gonçalves, Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, o espetáculo Protocolo Lunar, uma história de amor para todas as idades, cumpre com técnica e arte a sua missão, mostrar em um espaço poético a fábula contada por uma senhora "lunática" a uma garota, que sem questionar sobre lógica da existência da mulher secular, dialoga de maneira imaginativa, fazendo-nos mergulhar no universo da fantasia, do sonho e criação sem freios.

No espaço concebido por Sonia Rangel também dramaturga e diretora, a encenação mistura atores e bonecos para falar dos amores perdidos, mas que encontram lugar no espaço lunar. Espaço que se materializa de forma criativa evidenciada nos objetos iluminados com precisão e sensibilidade por Pedro Dutra. 

Na primeira etapa da fábula, quando do encontro da Velha com a Menina, o diálogo permeado de nonsense nos faz sorrir e esperar pela segunda parte quando a velha conta sobre a paixão que se perde, mas não cria desconforto. Perder e ganhar fazem parte do jogo da vida, do aprendizado...

Ainda que a transição entre a primeira parte e a segunda se alongue, não perdemos o interesse pelo que acontece. Mas a ação ganharia desenvoltura houvesse um enxugamento em boa parte do texto. Com isso desapareceria o vácuo que há na dramaturgia textual e cênica. Tal observação não retira o mérito do conjunto, visto que a força do espetáculo está nas imagens que cria.


O diálogo entre os bonecos se dá através de uma língua inventada cuja sonoridade é cativante. Os atores manipuladores merecem aplausos por tais momentos.


No palco permeado de imagens incrivelmente belas, a encenação nos diz o que é a poesia, esta manifestação intraduzível por mais que queiramos conceituá-la. Ela se manifesta de maneira intensa em nossas vidas poetizando-a. E na peça, os livros que a Velha carrega nas malas são a prova de que a poesia se faz como elaboração de forças criativas que emanam do espírito humano, desencadeadas por um querer que não se submete a uma lógica estreita. Ela é livre e se faz na disparidade.

Protocolo Lunar cativa o público, vimos isto pela reação durante o espetáculo e no final, quando a plateia aplaude não por obrigação, uma atitude recorrente nos finais dos espetáculos em Salvador, me parece.

A equipe de Os Imaginários responsável pelo trabalho cênico constitui-se como um grupo vinculado ao projeto de pesquisa Imaginário e Processos de Criação. Centrando-se no universo de Teatro de Animação, a produção do grupo mostra-se inventiva neste espetáculo, assim como em Fragmentos, animação com Beckett.

Vale a pena conferir Protocolo Lunar. Para mim foi um experiência gratificante. Dormi contente e tive sonhos saltitando por entre meus lençóis.


Penso que Federico Garcia Lorca aplaudiria Protocolo Lunar e Sílvia Orthof também. Maria Clara Machado,  certamente. Lewis Carrol,sem dúvida. Fanny Abramovich aplaudiria entusiasticamente.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Registro 363: Bons filmes, belas palavras

Ontem, ao sair do cinema, pensei em escrever sobre o filme A Árvore da Vida, mas tomado pela experiência não consegui organizar as ideias. A intensidade da obra não me paralisou, mas não querendo reduzir o seu impacto através de frases feitas não insisti, o texto ficou reduzido a um parágrafo. 
O filme de Terrence Malick causou uma funda impressão e catalizou certas preocupações que me acompanham. Aproveitando a oportunidade, digo o mesmo de Melancolia, o filme de Lars von Trier. Tanto um como o outro são filmes que mexem com o espectador e não há meio termo, ou gostamos ou detestamos. 
Logo cedo, antes de sair para cumprir a jornada de trabalho na Escola de Teatro, início do semestre, olhei a Folha de S. Paulo e dei com o texto de Luiz Felipe Pondé. O texto me satisfez plenamente. Ainda que discorde de outros textos de Pondé, o de hoje sobre o filme de Malick é preciso. Sem a sua permissão reproduzo o artigo e espero que ele contribua para aqueles que desejam ver A Árvore da Vida. Mas aviso, vá de coração aberto. Recomendo também a ida ao cinema para ver Melancolia. E tem mais, na sexta, 26, deve entrar em cartaz Homens e Deuses. Viva os filmes, os bons filmes. Vamos ao texto.
Natureza e graça
Luiz Felipe Pondé
(Folha de S. Paulo, 15 de agosto de 2011)

A vida é feita de escolhas. Uma das escolhas mais sérias na vida é o modo como vivemos a vida, se como graça ou como natureza. Essa questão é uma alternativa clássica na filosofia cristã, mais especificamente de Santo de Agostinho, morto no ano 430 d.C. Duas de suas obras, "Natureza e Graça" e "Confissões", são essenciais para entendermos este problema. 

O novo filme do misterioso cineasta americano Terrence Malick (que despreza o glamour da indústria do cinema e das festas da mídia) se abre com esta questão. "Árvore da Vida" foi o vencedor da palma de ouro de Cannes deste ano. 

Malick é um cineasta que faz da espiritualidade a matéria-prima de seu cinema, como, por exemplo, o russo Tarkovski fazia.

Já em "Além da Linha Vermelha", de 1998, com a espiritualidade na guerra, e "O Novo Mundo", de 2005, com a espiritualidade do encontro com o "outro", Malick faz da voz em "off" de seus personagens um apelo desesperado da espécie humana em busca do sentido de nossa aventura na Terra. Em Malick, cada agonia do indivíduo (cada "voz") é arquetípica do humano.

Por favor, não entenda "espiritualidade" aqui como essas bobagens de sofás que você muda de lugar para melhorar a energia da sua casa ou uma palavra para você falar de suas manias com cristais ou expectativas reencarnacionistas. 

"Espiritualidade" aqui significa a indagação essencial se a vida é fruto de uma força cega ou fruto de uma intenção bela, confrontada cotidianamente com o sofrimento inquestionável da vida.

Segundo a personagem feminina principal, a mãe dos três filhos (um deles, quando adulto, será Sean Penn) e esposa de Brad Pitt no filme, interpretada pela belíssima ruiva Jessica Chastain, há duas formas de viver: "The way of grace or the way of nature" (segundo a graça ou segundo a natureza). Podemos também traduzir "way" aqui por caminho, modo, forma ou maneira.

Esta é a chave para o entendimento mais profundo deste filme. Sem ela, você poderá ficar rodando em círculos ao redor do encontro, no enredo, entre a origem do universo e da vida na Terra (narrada em maravilhosas imagens cósmicas e paleontológicas) e a história da família que tem essa "mística" como mãe e que nos primeiros minutos recebe a notícia da morte de um de seus filhos na guerra do Vietnã (o "filho mais doce e generoso" dos três).

Eu, que sou uma pessoa essencialmente atormentada pela melancolia (como dizia semana passada ao comentar outra recente pérola do cinema, o filme "Melancolia" de Lars von Trier), considero esse conceito de "graça" do cristianismo uma das maiores criações da filosofia ocidental, além do conceito de Deus, claro. A graça sempre me encanta e, no cristianismo, ela é o "modo" de Deus criar as coisas. 

Toda vez que o mundo (e nós nele) surpreende, saindo de sua constante miséria interesseira, vaidosa, traiçoeira, monotonamente previsível, eu sinto o cheiro da graça. 

Tivesse eu que definir o modo como vivo, diria, entre a melancolia e a graça. Para mim, não há nada entre elas, só abismo.

Peço aos inteligentinhos que me poupem o blá-blá-blá do jardim da infância sobre as críticas ao cristianismo ou ao conceito de Deus. Proponho que hoje vão brincar no parque.

A graça é generosa, não pensa em si mesma, pode ser humilhada, ignorada, desprezada, mas ainda assim ela dá vida. A natureza só pensa em si mesma, submete todos a ela, é escrava de sua fisiologia, ao fim, vira pedra. 

É mais ou menos assim que a mãe "mística" define a diferença entre viver segundo a graça ou segundo a natureza.

Se a vida é fruto da graça, ela é dádiva de beleza e de bondade, se ela é apenas natureza, ela é cega e sem sentido.
 
O adulto Sean Penn será o herdeiro agoniado desta questão: a vida é graça ou mera natureza? "Devo ser competitivo", como o pai o ensinou a ser (a natureza), ou "generoso", como a mãe lhe dizia (a graça)? A morte prematura do irmão será intransponível? Como amar a vida diante da morte? Seria ela a derrota da graça? A vitória da natureza cega?

domingo, 31 de julho de 2011

Registro 362: Marina Tzvetáieva

Em seu texto de hoje (A Tarde), Caetano Veloso fala de três mulheres, sua irmã Maria Bethânia, a escritora Clarice Lispector e a poetisa russa (me recuso a aceitar "a poeta") Marina Tzvetáieva, de quem acabo de ler Vivendo sob o fogo, confissões, livro com cartas de Tzvetáieva, seleção, organização e prefácio de Tzvetavan Todorov. Dela, temos pouca poesia em português. Há uma coletânea editada pela Martins Fontes, Indícios flutuantes com tradução de Aurora Fornoni Bernardini, que eu não conheço, mas vou procurar. Registro duas poesias de Marina Tzvetáieva. A primeira é traduzida por Haroldo de Campos e a segunda por Décio Pignatari

Mão esquerda contra a direita.
Tua alma e minha alma - rentes.

Fusão, beatitude que abrasa.
Direita e esquerda - duas asas.

Roda tufão, o abismo fez-se
Da asa esquerda à asa direita.



ENCONTRO

Vou chegar tarde ao encontro marcado,
cabelos já grisalhos. Sim, suponho
ter-me agarrado à primavera, enquanto
via você subir de sonho em sonho.

Vou carregar esse amargo – por largo
tempo e muitos lugares, de penedos
a praças (como Ofélia – sem lámurias)
por corpos e almas – e sem medos!

A mim, digo que viva; à terra, gire
com sangue no bosque e sangue corrente,
mesmo que o rosto de Ofélia me espie
por entre as relvas de cada corrente,

e, amorosa sedenta, encha a boca
de lodo – oh, haste de luz no metal!
Não chega este amor à altura do seu
amor ... Então, enterre-me no céu!

terça-feira, 12 de julho de 2011

Registro 361 Amostra Grátis


Amostra Grátis, exercício cênico dos estudantes da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, é resultante de processos de improvisação e do trabalho do ator sobre si mesmo. Tendo como princípio o jogo teatral, a proposta visa o trabalho coletivo sem deixar de lado o indivíduo em seu processo de formação para o palco. Assim, ressaltamos as qualidades de cada aluno-ator, na perspectiva de evidenciar que o teatro se constrói pelo trabalho de equipe. Ainda que muitos tenham alguma experiência d palco, é a primeira vez que este grupo se mostra ao olhar do espectador. Cumpre-se, então, uma das etapas do aprendizado: a relação que se dá entre quem faz e quem vê. Amostra Grátis esteve em cartaz no dia 9 de julho de 2011, constituindo-se também como uma atividade de extensão.

Raimundo Matos de Leão 
Professor-diretor

quinta-feira, 7 de julho de 2011

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Registro: 358: Um texto que cai bem


                                    Passeatas diferentes
 
                                                         Contardo Calligaris


        Por que alguém desfila para pedir não liberdade para si mesmo, mas repressão para os outros? Domingo passado, em São Paulo, foi o dia da Parada Gay.Alguns criticam o caráter carnavalesco e caricatural do evento. Alexandre Vidal Porto, em artigo na Folha do próprio domingo, escreveu que, na luta pela aceitação pública, "é mais estratégico exibir a semelhança" do que as diferenças, pois a conduta e a aparência "ultrajantes" podem ter "efeito negativo" sobre o processo político que leva à igualdade dos homossexuais. Conclusão: "O papel da Parada é mostrar que os homossexuais são seres humanos comuns, que têm direito a proteção e respeito, como qualquer outro cidadão".
Entendo e discordo. Para ter proteção e respeito, nenhum cidadão deveria ser forçado a mostrar conformidade aos ideais estéticos, sexuais e religiosos dominantes. Se você precisa parecer "comum" para que seus direitos sejam respeitados, é que você está sendo discriminado: você não será estigmatizado, mas só à condição que você camufle sua diferença.
Importa, portanto, proteger os direitos dos que não são e não topam ser "comuns", aqueles cujos comportamentos "caricaturais" testam os limites da aceitação social.
Nos últimos anos, mundo afora, as Paradas Gays ganharam a adesão de milhões de heterossexuais porque elas são o protótipo da manifestação libertária: pessoas desfilando por sua própria liberdade, sem concessões estratégicas. É essa visão que atrai, suponho, as famílias que adotam a Parada Gay como programa de domingo. A "complicação" de ter que explicar às crianças a razão de homens se esfregarem meio pelados ou de mulheres se beijarem na boca é largamente compensada pela lição cívica: com o direito deles à diferença, o que está sendo reafirmado é o direito à diferença de cada um de nós.
O mesmo vale para a Marcha para Jesus, que foi na última quinta (23), também em São Paulo. Para muitos que desfilaram, imagino que a passeata por Jesus tenha sido um momento de afirmação positiva de seus valores e de seu estilo de vida -ou seja, um desfile para dizer a vontade de amar e seguir Cristo, inclusive de maneira caricatural, se assim alguém quiser.
Ora, segundo alguns líderes evangélicos, os manifestantes de quinta-feira não saíram à rua para celebrar sua própria liberdade, mas para criticar as recentes decisões pelas quais o STF reconheceu a união estável de casais homossexuais e autorizou as marchas pela liberação da maconha. Ou seja, segundo os líderes, a marcha não foi por Jesus, mas contra homossexuais e libertários.
Pois é, existem três categorias de manifestações: 1) as mais generosas, que pedem liberdade para todos e sobretudo para os que, mesmo distantes e diferentes de nós, estão sendo oprimidos; 2) aquelas em que as pessoas pedem liberdade para si mesmas; 3) aquelas em que as pessoas pedem repressão para os outros.
O que faz que alguém desfile pelas ruas para pedir não liberdade para si mesmo, mas repressão para os outros?
O entendimento trivial desse comportamento é o seguinte: em regra, para combater um desejo meu e para não admitir que ele é meu, eu passo a reprimi-lo nos outros.
Seria simplório concluir que os que pedem repressão da homossexualidade sejam todos homossexuais enrustidos. A regra indica sobretudo a existência desta dinâmica geral: quanto menos eu me autorizo a desejar, tanto mais fico a fim de reprimir o desejo dos outros. Explico.
Digamos que eu seja namorado, corintiano, filho, pai, paulista, marxista e cristão; cada uma dessas identidades pode enriquecer minha vida, abrindo portas e janelas novas para o mundo, permitindo e autorizando sonhos e atos impensáveis sem ela. Mas é igualmente possível, embora menos alegre, abraçar qualquer identidade não pelo que ela permite, mas por tudo o que ela impede.
Exemplo: sou marido para melhor amar a mulher que escolhi ou sou marido para me impedir de olhar para outras? Não é apenas uma opção retórica: quem vai pelo segundo caminho se define e se realiza na repressão - de seu próprio desejo e, por consequência, do desejo dos outros. Para se forçar a ser monogâmico, ele pedirá apedrejamento para os adúlteros: reprimirá os outros, para ele mesmo se reprimir.
No contexto social certo, ele será soldado de um dos vários exércitos de pequenos funcionários da repressão, que, para entristecer sua própria vida, precisam entristecer a nossa. 

Originalmente publicado em Folha de S. Paulo, 30 de junho de 2011.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Registro 357: Uma bela frase



Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.

Guimarães Rosa

sábado, 4 de junho de 2011

Registro 356: OCUPAÇÕES FLÁVIO IMPÉRIO



ENCONTRO COM FLÁVIO IMPÉRIO

Raimundo Matos de Leão[1]

A vida se encarrega de proporcionar encontros, uma variedade deles. E os encontros são como fios com os quais tecemos a nossa passagem pelo Mundo. Algumas pessoas seguem em frente, outras saem de cena e outras permanecem, não sabemos até quando. Muitas são esquecidas propositadamente e o esquecimento é resultado de razões variadíssimas. Um presente singelo, recebido recentemente, desencadeou um fluxo de lembranças. Assim, escrevo sobre um encontro, ou melhor, sobre uma pessoa que certo dia entrou em minha vida marcando-a de maneira indelével. Refiro-me ao arquiteto, professor, desenhista, gráfico, pintor, cenógrafo e figurinista Flávio Império (1935-1985).
Ao retornar do trabalho, encontro num saco plástico, dos que deveríamos abolir, uma pequena bandeja com salgadinhos (saborosos) e duas canecas de alumínio polido. O kit (salgadinhos e canecas) nomeado de Bangladesh  pelo presenteador, o encenador Celso Nunes, continha um convite para a abertura de Ocupação Flávio Império, a instalação inaugurada no Itaú Cultural – São Paulo. O evento coordenado por Vera Império Hamburguer, sobrinha do multiartista, tem espaço concebido pelo cenógrafo Helio Eichbauer e inclui a instalação Ocupação Flávio Império além de oficinas de serigrafia e exibição de filmes, permanecendo em atividade até 17 de julho na sede do Itaú Cultural, Avenida Paulista, 149. Para aqueles que não podem ir ao evento como eu, preso por compromissos profissionais, recomendo acessar http://itaucultural.org.br . O site dispõe de informações necessárias para se ter uma ideia da imensa ação de Flávio Império, um renascentista na contemporaneidade.
O material disponível é de uma beleza incontestável e diz para todos nós como um artista se coloca no mundo e se apropria dele com sensibilidade, consciência de pertencer a uma geração, compreender o legado de outros e reinventar-se a cada dia. Os depoimentos e a reprodução dos trabalhos de Flávio Império dispostos na página intitulada Ocupação fornecem pistas para que se anteveja o resultado da digitalização do acervo do artista e a criação de um site sobre sua vida e obra patrocinadas pelo Itaú Cultural. Aguardemos. O acervo foi preservado pela família, sob a responsabilidade de Amélia Império Hamburguer, irmã de Flávio Império – falecida recentemente – e deverá seguir sua trajetória sob a guarda dos sobrinhos, penso eu.
Passada as informações sobre o evento, retorno ao início, ao tema do encontro. O meu encontro com Flávio Império no tempo em que eu era ator em São Paulo. Encontro acontecido de maneira surpreendente; outros encontros se deram até que o artista desligou-se de nós e foi cenografar noutras paragens, depois de ter feitos os mais belos, instigantes e criativos cenários para espetáculo teatrais e shows, entre eles os de Maria Bethânia, uma marca constante  na carreira da cantora. Para o Teatro de Arena, para o Grupo Oficina e para produções independentes, Flávio Império fez cenários e figurinos que influenciaram uma geração e permanecem ainda como uma referência inovadora por conta das soluções postas a serviço da cena. Suas invenções extrapolam o campo cenográfico para se fazer na pintura, na arquitetura e na vida. Império construiu uma vida no palco e fez da vida um palco, sem a superficialidade do vedetismo que por vezes impregnam a vida dos artistas.
De personalidade marcante, crítico mordaz, Flávio Império conseguia equilibrar suas observações certeiras com a doçura que por vezes tentava esconder. De uma energia mística, mas não mistificadora, motivo de crítica por parte de segmentos de esquerda a que pertenceu, Flávio transcendeu estes limites para se fazer um homem do seu tempo sem as amarras dicotômicas e maniqueístas que rondam este segmento.  Flávio pertenceu ao Teatro de Arena e atuou politicamente num determinado momento de sua vida. Mas a sua inquietação, o pensamento largo e a consciência aguda fizeram com que ele se “desligasse” deste engajamento sem deixar de ser um homem engajado, mais próximo de Camus que de Sartre, penso eu. Flávio não tinha aquela concepção autoritária do poder, era contrário ao pensamento único e exaltava a liberdade de expressão, campo por onde transitava com desenvoltura. Ampliando o seu pensamento, pois fora da rigidez que acometeu muitos dos seus companheiros de trabalho, ele soube agir sempre na perspectiva da transformação.
Por onde passou, o artista deixou pistas criativas das mais instigantes. Transitando entre o erudito e o popular com desenvoltura, colhia nos dois campos os elementos estruturadores de sua obra. Atento, conseguia ver a produção dos artistas populares com olhos iluminadores, dando-lhes outros significados sem diminuir a força dos objetos colhidos por suas andanças em São Paulo, Minas, Goiás, Pernambuco, Bahia. Império respeitava de maneira responsável o trabalho dos artistas anônimos, da mesam maneira como respeitou o dos seus pares.
Descendente de italianos, o artista tinha a força telúrica dos que nascem ao Sul da península, combinados com a brasilidade que se mostrava em cada quadro, cenário, escrito. Tal combinação vai se refletir na maneira como atua. Os signos criados pelo artista ao longo de uma carreira interrompida aos cinquenta anos, mostram a capacidade de olhar o Brasil na diversidade com que o país se revela e traduzi-la esteticamente
Flávio Império dominava palavra e com ela, seduzia o interlocutor sem anulá-lo. Captava com muita habilidade o pensamento do outro, por mais simples que fosse e dialogava. Esta palavra tão gasta era vivida em seu sentido mais pleno. Interação posta em movimento, assim era a ação do artista com o mundo e com seus semelhantes.
Aprendi muito com este professor que dizia não ensinar nada e que somente facilitava o aparecimento do potencial daquele se dispusesse a entrar no jogo da descoberta, ou melhor,  da autodescoberta. Em sua casa na Aclimação, quase um sítio em meio ao bairro, depois na Rua Marquês de Paranaguá, residência de sua mãe e por fim na Rua Monsenhor Passaláqua, na Bela Vista, passei horas conversando e trabalhando com ele, pois Flávio vivia sempre em atividade e envolvia o visitante no trabalho. A conversa, às vezes marcada por longos silêncios, era o entrosamento do fazer e do pensar, não necessariamente nesta ordem. Ainda ouço sua risada, forte, suas frases irônicas, seu carinho diante das minhas carências, suas dicas sobre a arte, o artista e a vida.

Homem Nu, 1970
Serigrafia em acetato

Ganhei muitos presentes do artista, algumas gravuras destruídas pela ação do tempo; o desenho que conservo na cabeceira da cama; meu retrato Casca-máscara,  sem data, mas pintado por volta de 1976; um pano impresso com as pombas (serigrafia) que fez para o cenário de Cena Muda, show de Maria Bethânia. Lamento ter perdido a gravura em acetato, Homem Nu, que me deu por volta de 1977, quando veio pela primeira vez à minha casa. Flávio voltava de Salvador onde passara o carnaval hospedado na  casa de José Possi Neto, na Boca do Rio. Bons tempos! Nas conversas que tiveram, Possi comentou sobre mim.  Assim que Flávio retornou a São Paulo foi me procurar, levando-me a gravura.  Daí para frente nos tornamos amigos e a minha admiração, por vezes motivo de suas ironias, crescia na proporção que eu descobria um ser humano valoroso e o artista genial que era. Atuei na encenação de A Falecida (1979), de Nelson Rodrigues,  direção de Osmar Rodrigues Cruz. Acompanhei de perto a construção da cenografia concebida por Flávio Império. Deste encontro retenho a experiência  de ver um cenógrafo participar do processo desde o pensar até meter as mãos na confecção do cenário, com uma sabedoria que incluía o saber do outro. Ele não ordenava, ele fazia junto.
Na referida gravura em acetato, há um texto que reproduzo. Ele é o retrato desse grande artista:


Tens algo do fogo, tens algo do ar, tens algo da terra, tens algo dos animais, tens algo dos anjos. 
Tens a verdade e ela é livre.


[1] Professor adjunto da Escola de Teatro – Universidade Federal da Bahia.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Registro 355: Contra a intervenção da bancada religiosa

A notícia abaixo, em azul, foi publicada em a Folha de S. Paulo, edição de hoje. Ao mesmo tempo, leio que a Presidente Dilma Rousseff fez concessões à bancada religiosa no Congresso, barrando material a ser distribuido pelo Ministério da Educação esclarecendo aos estudantes do ensino médio sobre questões relaciondas à homofobia. Não conhceço o material, portanto me abstenho a defendê-lo ou acusá-lo. Mas não posso deixar de me preocupar com o avanço cada vez mais incontrolável dos deputados e senadores ligados às igrejas que se estabeleceram no Brasil. Hoje querem a mão, amanhã o braço e daí?! Como é que fica a situação de quem não professa nenhum dos credos? Como fica a situação dos que creem, mas não concordam com tais medidas impostas de cima para baixo?

Vivemos em um Estado laico e não podemos seguir os ditames de um grupo ou de grupos religiosos. Primeiro, porque membros de todas as igrejas, dirigentes e fiéis não estão acima do bem e do mal. Pelo contrário, agem como todos aqueles que não seguem qualquer dos credos vigentes, visto que são humanos e imperfeitos. Os fatos estão aí para provar.

Qual o direito que estes grupos tem de se arvorar detentores de códigos reguladores para uma população multireligiosa que conta com ateus e agnósticos e que não desejam ser enquadrada a partir de um universo passível de ser questionado?


Prezo muito o sagrado, mas não posso concordar com tais medidas e intervenções. Sabemos que em muitos templos, os dirigentes fomentam a violência, estimulando a agressão aos que não comugam com suas "verdades". É preciso que se pense numa formar de diminuir tais interferências em nome de uma moral nem sempre seguida. Basta de tanta hipocrisia.

As igrejas, valores e o pertencimento a elas são do âmbito da família e estritamente pessoal, agora querer regular a vida de todos impondo regras é uma questão perigosa.

A notícia sobre a morte do professor no Afeganistão deve servir como ponto de reflexão

Atiradores do Taleban mataram o diretor de uma escola feminina perto de Cabul, a capital afegã, porque ele ignorou ameaças para que parasse de lecionar para meninas. A informação é de funcionários do governo. Kham Mohammad, diretor da escola Porak para meninas, na província de Logar, a cerca de uma hora de carro da capital afegã, Cabul, foi morto a tiros perto de sua casa anteontem.

Ele havia recebido diversas ameaças de morte da parte do Taleban, que o avisou de que não deveria lecionar para meninas.

Este é o mais recente ataque da linha dura islâmica que se opõe à educação das mulheres -proibida pelo Taleban quando o movimento governou o Afeganistão, entre 1996 e 2001- por, supostamente, violar os preceitos islâmicos.

As mulheres reconquistaram alguns direitos depois que o Taleban foi derrubado por forças afegãs com apoio dos EUA, em 2001, entre os quais o de estudar e o de votar. Mas ataques esporádicos contra alunas, professores e edifícios de escolas onde elas estudam continuam acontecendo.

O governo afegão prometeu garantir avanços, promessa que parece difícil agora que os líderes afegãos estão iniciando um processo de reconciliação que inclui negociações com o Taleban. As agências de assistência ao desenvolvimento temem que os governos ocidentais estejam dedicando atenção excessiva à transferência de responsabilidades de segurança para unidades afegãs sem que tenham cimentado os avanços conquistados pelas mulheres, tais como o direito à educação.

Meninas voltaram a estudar nos últimos anos, especialmente em Cabul, mas é difícil exercer e proteger esses direitos nas regiões mais remotas do Afeganistão.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Registro 354: Zelita, uma tia querida


Zédindinha, minha irmã e eu.

Hoje, no meio da manhã, recebi a notícia de que minha querida tia Joselita, Zelita para os mais chegados e Zédindinha para mim e meus irmãos, fizera a sua passagem. Inesquecível em sua doçura, amou a todos incondicionalmente e viveu a vida distribuindo sorrisos. Um sorriso cativante de quem sabe relevar as imperfeições humanas e seguir em frente. 

Zédindinha, recebeu este diminutivo carinhoso por conta de ser madrinha de uma de minhas irmãs, mas eu me apropriei dele e passei a chamá-la assim, às vezes criando confusão para aqueles que não sabiam do nosso jeito de tratá-la.

Caçula de cinco irmãos, Zédindinha foi (é) querida por todos. Para mim, uma pessoal especial. Esteve junto a mim desde a minha tenra infância e posso dizer que ajudou minha mãe, sua irmã, a me criar. Ao longo da vida amparou a todos e nos momentos de crise, ela sempre esteve junto, sendo esteio e segurança. Para ela, as minhas homenagens e as flores mais lindas. Guardarei na memória o seu sorriso estampado no belo rosto que encantou a todos.

Anne Frank, em seu diário, afirma, sem nenhuma dúvida, acreditar na bondade humana, apesar de tudo. Não tenho a grandeza da jovem, mas tenho certeza de que Zédindinha era a bondade em pessoa, e assim, contribuiu para que esta qualidade não diminuísse no mundo.

Agora, reunidas as três irmãs, Edna, Ester e Joselita, trocarão confidências como sempre trocaram enquanto estiveram entre nós.



Registro 353: Zé Renato

Palmas para José Renato, fundador do Teatro de Arena, que deixou a cena.

domingo, 17 de abril de 2011

Registro 352: Fim de Partida no Teatro Martim Gonçalves


FIM DE PARTIDA


Raimundo Matos de Leão

Fim de Partida, de Samuel Beckett (1906-1982), ou Fim de Jogo, numa tradução mais literal, em cartaz no Teatro Martim Gonçalves, é fruto da parceria entre Rita Carvalho Produções e a Cia de Teatro da UFBA. Sob a direção de Ewald Hackler, responsável também pelo cenário e figurino, conta no elenco com  Harildo Déda (Hamm), Gideon Rosa (Clov), Gil Teixeira (Nagg), Maria de Souza (Nell). Luz: Eduardo Tudella.
Ao sair da sessão de ontem (16 de abril de 2011), tive a certeza de que o texto de Samuel  Beckett requer não somente um diretor experimentado, mas, sobretudo, um elenco que torne possível assistir à peça, já que ela se torna um exercício de paciência. Cabe aos atores o mérito de tornar suportável o insuportável. Portanto, deixo claro que o texto não é o meu preferido. Muito se gastou e se gasta papel e tinta para exegeses em torno de Fim de Partida e da obra de Beckett como um todo. Mas diante de Esperando Godot, Fim de Partida  parece mais a repetição de um pensamento circular. A minha objeção ao texto não foi impedimento para apreciar a encenação no palco do Martim Gonçalves.
Ao abrir-se a cortina, vemos dois restos humanos, Hamm e Clov. No fundo da sala onde se passa a ação, dois latões de lixo servem de abrigo para mais dois rebotalhos, Nagg e Nell, pais de Hamm. O tempo se arrasta levando-nos de roldão. O matraquear dos passos de Clov marcam o ritmo das vidas que se estiolam. Para preencher o vazio, eles falam, se agridem, reclamam, rememoram. E fica claro que não há saída, nem solução, ainda que no final, Clov preparado para partir, adentre o recinto de onde quer fugir e se coloca na moldura da única porta porta na sala. Nem lá nem cá. Mas antes que tome a iniciativa de partir, a luz se apaga sobre o vazio e lúgubre ambiente. Nada a fazer. Estão os dois condenados a viver a condição de senhor e escravo no que ela tem de dependência, subserviência e necessidade um do outro.
Do interior de um dos latões de lixo surge Nagg, e em seguida Nell; vivendo em suas respectivas latas de lixo, a aproximação torna-se difícil. Eles não têm pernas, visto que no passado sofreram um acidente. Ainda que vivam degradadamente, instantes de recordação se insinuam entre eles, deixando entrever afeto em meio a brutalidade da vida no lar, onde o filho cego tiraniza a si e aos outros.  Como em Godot, parece não haver mais ninguém além dos quatro personagens, ainda que se mencione uma ou outra pessoa.
O mundo pós Segunda Guerra e os temores da Guerra Fria são dados para que se compreenda a obra de Beckett. Tanto Esperando Godot quanto Fim de Partida chegam à cena na década de cinquenta, tempo conhecido como de prosperidade, de arrumação da casa-mundo destroçada pela barbárie anterior. E Beckett injeta na cena indagações sobre a condição humana, pois desconfia da euforia. De lá para cá suas indagações parecem soar com mais veemência, em virtude do mal-estar instalado no cotidiano e que se tenta disfarçar pelo consumo, pelos antedepressivos, pelo culto ao corpo e sua reconstrução artificial, recursos para  se conseguir a felicidade no tempo de agora.
A cena construída por Ewald Hackler potencializa o mal-estar, pois sua organização não desvia a atenção do espectador para efeitos teatralistas que possam amenizar a crueza da peça. Sua concepção ressalta os conteúdos da obra ajustando-os ao espaço, numa leitura muito fiel ao que pede o autor. Assim, também os figurinos se adéquam ao todo da encenação e nenhuma nota desviante dilui a cena no seu propósito de evidenciar a condição humana, toda ela sem perspectiva, desejosa de futuro e que vê adiante somente incerteza. Dias melhores ou morte latejam na cena concebida pelo encenador; assim, a ação flui passo-a-passo entre fala e silêncio, algumas explosões e muita ironia. A narrativa das vidas isoladas e situadas no mundo em destruição presentifica-se na cena que, sabemos, não terá fim. Tudo recomeça.
Para dar corpo às ideias do autor e às suas como encenador, Ewald Hackler conta com quatro intérpretes de visíveis qualidades cênicas. Cabe a eles corporificar esse mundo destruído, cercado por quatro paredes, onde vidas decrescendo agarram-se aos fios de esperança. Harildo Déda em cena, desde o início da peça, permanece preso a cadeira de rodas, pois, cego, não consegue mover-se, dependendo sempre de Clov. A caracterização do ator é impressionante, causando impacto sobre a plateia, seu físico e sua voz servem ao personagem; os gestos, em sua maior parte contidos, se expandem quando as emoções assim exigem. Dosando humor corrosivo com sutil ironia, Harildo Déda apresenta um Hamm em suas diversas facetas de opressor e dependente de sua vítima. Nos monólogos, trabalhados com extrema acuidade, o ator explora a sua capacidade de entender o que pensa o personagem, estampando com equilíbrio a solidão de Hamm, um triste palhaço convencido de sua onipotência.
Cabe a Gideon Rosa dar vida a Clov, o servo que, na criação do ator, apresenta-se como um galho seco e torto a se arrastar no mesmo ritmo, entre a cozinha, seu mundo particular, e a sala-cela onde está aprisionado, da mesma forma que seu amo. Corpo e voz dão a medida do personagem na sua impossibilidade de sentar, por isso as pernas ganham uma dimensão e seus passos criam a musicalidade do espetáculo sem música. Música monótona tal qual a vida de Clov, condenado no ir e vir, a executar tarefas mecanicamente. Gideon Rosa constrói no corpo o drama da repetição.
Os dois atores, Harildo Déda e Gideon Rosa, sabem que a peça é centrada na relação dependente dos personagens que interpretam, e sabem também que a encenação armou a cena em função dos dois. É no embate dos dois que a peça se apresenta criando um clima obsessivo, com seus jogos destrutivos de quem sabe que não há alternativa para eles em um mundo que também não funciona. Os atores destilam as camadas emocionais conferindo densidade à monotonia, cada qual infernizando o outro com sua rabugice. Dois atores na força de sua experiência teatral despertam interesse para uma peça sem peripécias, profundamente niilista . Por isso mesmo necessita do talento/técnica dos dois atores para manter atenta uma platéia. Plateia onde se encontram espectadores desavisados sobre o que foram ver e que por isso terminam abandonando a sala ou manifestando seu mal-estar durante a sessão. Não é teatro fácil. Por isso mesmo a tarefa dos atores se desdobra. O elenco de Fim de Partida tem a oportunidade de mostrar competência no manejo de seus recursos para fazer chegar até o público esse mundo incômodo e insuportável. Não fosse o elenco,  seria difícil suportar duas horas de um enredo esgarçado e repetitivo, martelando o oco da nossa existência.
Não há efeitos desnecessários, não há pirotecnia, nem concessão por parte do encenador. Portanto, há espaço para que os intérpretes centrais e os coadjuvantes mostrem que a montagem depende dessa capacidade de tradutibilidade que, por mais que consigamos localizar e tornar objetiva, passa por algo indizível.   
Para o casal de velhos, a direção encontrou dois intérpretes, Gil Teixeira e Maria de Souza, distante da idade presumível para os personagens de Nagg e Nell. Tanto um como o outro tiram partido dos seus personagens passando por cima dessa hipótese, e nos dão uma interpretação permeada de gestos delicados, remetendo a velhice à infância. Perdidos em suas lembranças, cabe aos dois superar os dias difíceis, mergulhando na rememoração para amenizar a convivência forçada ou escolhida, já que, antes do acidente que lhes amputou as pernas, eles estavam juntos. As intervenções dos atores/personagens acentuam o patético da cena.
          Encenação difícil, Fim de Partida requer o investimento do espectador, mas que não deve afastá-lo do Teatro Martim Gonçalves. Há algo no palco para ser apreendido e aprendido, visto que o rigor da cena inscreve a montagem na linhagem dos clássicos, tal a harmonia com que o encenador arma o jogo cênico, concebe o cenário e figurinos, orienta a criação dos objetos (Claudete Eloy e Maurício Pedrosa) e da maquiagem (criação de Roberto Laplagne) e dá margem ao criador da luz de fazê-la consubstanciada aos princípios que regem a concepção de Ewald Hackler.
          O teatro baiano só tem a lucrar com espetáculo de tal monta.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Registro 351: Aguardando um filme



Com ansiedade, positiva é certo, por isso não desgastante, eu esperava que o filme Homens e Deuses de Xavier Beauvois estreasse hoje em um dos cinemas de Salvador, mas nada. Os exibidores estão lentos e andam caprichando na programação de filmes sem mérito, ou melhor de pouco mérito, para não desencadear a fúria de muitos. Não acredita, basta olhar o jornal e ver que os lançamentos não ultrapassam a linha mediana do que se espera de uma bom filme. A maioria é de produtos medíocres.E não estou falando de filme "cabeça", expressão hoje em dia usada para qualificar ou desqualificar filmes que exigem um pouco mais de sensibilidade, de atenção, de reflexão por parte do espectador. 

O filme de Xavier Beauvois, biscoito fino, como diria Oswald de Andrade de sua poesia "um dia, a massa comerá do biscoito fino que eu fabrico", não chegou. Esperarei, pois quero vê-lo em tela grande. Homens e Deuses vem precedido de críticas das mais elogiosas. Para muitos, a crítica não é um indicador seguro. Por vezes ela comete exdruxulice, mas as que li até o momento despertaram-me a vontade de apreciar a obra. Resta esperar. Espero não me decepcionar, visto que os programadores das salas optam, em sua maioria, pelo previsível. Ah, desconfio sempre da quantidade de estrelas com que os colunistas dos jornais agraciam alguns filmes. Por hoje é só, como dizia Sílvio Lamenha, "poesia é axial"