domingo, 12 de outubro de 2008
Registro 213: De Mário Quintana
Registro 212: Para Nilda Spencer
No Jardim da Saudade (10.10.2008), em meio à relva, árvores e canto de pássaros, os amigos artistas e não artistas levaram Nilda Spencer para outra morada. Quem sou eu para dizer que essa é a sua última morada? A nossa vã razão diz que sim, mas os mistérios são insondáveis. E do mistério se fez a arte que Nilda Spencer praticou durante cinqüenta e dois anos, a arte do intérprete. Como atriz, deixou nos palcos, nas telas do cinema e da televisão a marca do seu ofício, iniciado de maneira sistematizada quando da criação da Escola de Teatro, mas exercido antes em apresentações amadoras. Também foi pianista, atividade que sucumbiu aos encantos da arte teatral.
Esse sistema de rodízio de papéis importantes entre os alunos da Escola de Teatro foi uma prática instituída por Martim Gonçalves e fazia parte do seu projeto artístico-pedagógico. Mesmo que algumas injustiças tenham sido cometidas nas escolhas dos elencos das peças do repertório de A Barca, companhia criada no interior da Escola de Teatro da então Universidade da Bahia, os programas atestam tal prática. Foi no interior desse sistema que Nilda Spencer e seus colegas da primeira turma de formandos, em 1959, aprenderam e vivenciaram as diversas funções inerentes ao espetáculo. Os alunos, como ela, estiveram no palco e nas coxias revezando-se nas funções de intérprete, contra-regra, recepcionista, assistente de direção, entre outras. Foram protagonistas e coadjuvantes.
Ao ingressar na Escola de Teatro em 1968 estive próximo da professora e atriz, sempre elegante, calçando sempre sapatos de saltos altíssimos, uma compensação para sua baixa estatura. Tal artifício que a vaidade feminina não dispensava, era posto em segundo plano, visto que a esfuziante vitalidade de Nilda Spencer aumentava-lhe o porte. Anos mais tarde, ao reecontrá-la no camarim da Sala do Coro – TCA, onde fazia a protagonista de Ensina-me a Viver, ao abraçá-la vi o quanto era pequena e frágil, fruto da idade. A exuberância da mulher madura transmutara-se em graça e calma de quem sabe ter aproveitado a vida. Ao abraçá-la, não imaginávamos que se despedia do palco fazendo Maude, comemorando quarenta e cinco anos de carreira.
Estive uma única vez em cena com Nilda Spencer; foi na montagem de A Companhia das Índias, texto de Nelson Araújo, com direção de Orlando Sena. A atriz interpretava Rosélio Villarotas um ex-ministro de Eldorado, republiqueta sul-americana saída da imaginação do dramaturgo. Nilda Spencer compunha com muita habilidade o personagem; sem fazer dele uma caricatura do masculino, aproveitava-se dos recursos farsescos que a montagem de Sena possibilitava em sua moldura tropicalista, ganhando a cena de maneira hilariante. Ostentando grosso bigode, ela incorporava ao seu corpo o gestual masculinizado sabendo lidar com os estereótipos para criticar a macheza latino-americana e definir a personalidade de Vilarotas. Impagável!
Mais tarde, estando em São Paulo, e excursionando pelo Brasil (1981) com a peça Escuta, Zé Ninguém, criação memorável de Marilena Ansaldi e Celso Nunes, fui abraçado por Nilda Spencer no camarim do Teatro Castro Alves. Não esqueço esse abraço. Era o abraço de quem se reconhecia em mim, pois sabia que contribuira para a minha formação como ator, que passara um tanto do seu saber e me vira engatinhar no palco. Senti o caloroso e generoso abraço e agradeci, afetuosamente, tudo aquilo que aprendera com ela.
Que a nossa memória dê conta dessa vida no palco e que não esqueçamos a forma com que Nilda Spencer desdobrou-se em tantas máscaras para revelar o seu ser de atriz, de mulher. Ela agora “dança no sétimo céu”, rindo maliciosamente da nossa transitoriedade.
domingo, 5 de outubro de 2008
Registro 211: Sobre anjos

Iya Agbeni Xangô (Cléo Martins)
Vocês, meus leitores e leitoras, acreditam em anjos?
Eu, sim. Creio com toda a força do pensamento, palavras e coração. Acredito nestes luminosos seres angelicais e também em alguns outros tantos vivíssimos pelas ruas, estradas e avenidas.
Podemos ser anjos, para nosso próximo, ou, a depender da escolha, diabinhos bem ruinzinhos... Se a opção for involuntária, que Deus tenha misericórdia. Caso consciente, ai, ai...
Sempre nos cabe o desejo de seguimento da Verdadeira Luz.
Os iorubás acreditam na escolha do ori (a cabeça espiritual).
Mais do que nos traçados do destino (predeterminação), a escolha é sempre de nós outros e outras viventes.
Quinta passada, dois de outubro, dia do aniversário de minha amiga Lourdes Massa, foi a festa dos Santos Anjos. Dois de Outubro. Dia dos famosíssimos guardiães desde o abandono do útero materno.
Os anjos se encontram presentes no judaísmo, islamismo e cristianismo.
No Catolicismo festejam-se os Anjos fiéis ao Senhor: mensageiros do Amor de Deus e combatentes do Mal.
São os nossos protetores desde a chegada ao mundão até a morte.
De muitos e dentre todos se destacam os magníficos Miguel, Rafael e Gabriel.
Miguel Arcanjo é o guerreiro combatente dos Caídos - os anjos rebeldes das profundezas do desamor onde Deus não habita. Conhecida a imagem do Arcanjo festejado no final de setembro a pisar no líder das legiões infernais.
São Miguel é referido tanto no Velho Testamento (livro de Daniel) quanto na Nova Aliança: Epístola de Judas e Apocalipse de São João: "Houve então uma batalha no céu: Miguel e seus Anjos guerrearam contra o Dragão. O Dragão batalhou, juntamente com seus Anjos, mas foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu".(Ap, 12:7).
Rafael quer dizer "Deus cura" na língua hebraica, na qual médico é rophe.
É o Arcanjo do Senhor contra as dores e mazelas humanas.
Não há referência expressa a Rafael no Novo Testamento.
É citado no Livro de Tobias. (Livro de Tobit, na tradução ecumênica da TEB)
Somente no capítulo 12 do referido texto o Arcanjo igualmente festejado aos 29 de setembro (com Miguel e Gabriel) se dá a conhecer: "Eu sou Rafael, um dos sete santos anjos que assistem e têm acesso à majestade do Senhor".(Tb 12,15)
Apesar de não expresso nos escritos néo-testementários a tradição tende a identificá-lo com o anjo da ovelha. (João 5,2).
Gabriel (Força de Deus, em hebraico) é o Anjo da Anunciação.
É tido como o Arcanjo da Esperança; da Revelação, sendo comumente associado a uma trombeta: a Voz de Deus transmissora das Boas Novas.
Foi quem também anunciou ao profeta Daniel a vinda do Mashiah - Messias. O Ungido: Cristo, em grego.
"Apareceu Gabriel da parte de Deus e me falou: dentro de setenta semanas [de anos] (70 anos x 7, ou seja, 490 anos) aparecerá o Santo dos Santos." (Daniel 9:24-26).
A ele foi confiada a missão dentre as missões: anunciar o nascimento do Filho de Deus.
Por isso, é muito admirado desde a antigüidade.
Foi quem apareceu a Zacarias para lhe comunicar a paternidade em idade proveta.
Há mais de uma referência no Evangelho de Lucas: meu predileto dentre os sinóticos.
"Eu sou Gabriel, o que está na presença de Deus" (Lucas 1:19). "Foi enviado por Deus o anjo Gabriel a uma cidade da Galiléia, a uma virgem chamada Maria, e chegando junto a ela, disse-lhe: Salve Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo". (Ela ficou confusa, mas disse-lhe o anjo:) "Não tenhas medo, Maria, porque estais na graça do Senhor. Conceberás um filho a quem porás o nome de Jesus. Ele será filho do Altíssimo e seu Reino não terá fim".
Também existem anjos encarnados, minha gente.
Há doze anos fui de Salvador até São Paulo em meu carro, com alguns amigos. O automóvel quebrou no meio do nada. Distante duas horas de Itabuna.
Comecei a sentir pânico. Impossível a comunicação por telefone celular.
De repente, não mais que de repente, surgiram Renato e seu sobrinho Renatinho no precário caminhão cheio de frutas.
Vendo nosso desespero providenciaram rudimentaríssimo "cambão". Renatinho assumiu o escort.
O guincho partiu - sem exagero - sete vezes sob sol causticante de rachar asfalto.
Todas as sete vezes Renatinho e Renato consertaram o cambão com sorriso nos olhos límpidos e nos lábios a mesma frase dirigida a mim (aos prantos) – "Cléo; que mulher sem fé é esta; não percebe que a gente está aqui pra consertar quantas vezes for preciso?!?"
Não aceitaram dinheiro.
Já em Itabuna, bem mais pacificada, tirei os óculos de sol e dei-os a Renatinho.
Tio e sobrinho desapareceram com a sutileza da chegada.
Nunca mais soube deles...
Registro 210: Leituras...
sábado, 4 de outubro de 2008
Registro 209: Onde eu nasci...
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
sábado, 20 de setembro de 2008
Registro 207: Ida e volta
marcos sagrados ao longo do caminho.
Sigo de ônibus... pelas janelas vejo a vida que passa.
Penso naqueles que foram abatidos pela intolerância
de ontem, e sobretudo de agora.
Intolerância gerada pelo capital da fé.
Irmãozinho, o que interessa é a grana.
Meu coração, terra sagrada, abriga o indizível
As máscaras vazias poluem a cidade
são caretas assustadoras.
De suas bocarras saem sorrisos congelados.
Palavras matraqueadas
De-co-ra-das, des-co-ra-das.
Batatadas
Desvitalizadas
Saio da livraria cuidando amorosamente
de Cartas a D.
Basta o primeiro parágrafo...
Parado no ponto de ônibus, eu me lembro de
Ensaio sobre a cegueira, o filme.
Branco
sábado, 13 de setembro de 2008
Registro 206: Comentário sobre Linha de Passe
domingo, 7 de setembro de 2008
Registro 205: Linha de Passe Adianta a Bola do Cinema Brasileiro

Não farei um resumo detalhado do seu enredo simples, mas não simplista. Para situar o leitor, localizo o centro de onde partem os acontecimentos do filme.
Cada filho dessa família tem um desejo que se configura na vontade e nas ações para realizá-lo. O mais novo é Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), obcecado, vive a procura do pai que ele sabe ser motorista de ônibus. Dario (Vinícius de Oliveira) sonha tornar-se jogador profissional. Sua batalha é tentar passar na seleção realizada por olheiros dos médios e grandes times, mas vai sofrer os limites da idade. Ao completar 18, já não interessa. É velho para o mundo do futebol. Denis (João Baldasserini) trabalha é moto-boy, tem um filho com uma namorada, com quem não vive. Dinho (José Geraldo Rodrigues), é arrimo de família, ajuda a mãe no sustento da casa, trabalhando como frentista. Dinho é evangélico, freqüenta a igreja e atua junto ao pastor. A mãe, Cleuza (Sandra Corveloni, Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes, 2008), grávida pela quinta vez, sem que se saiba quem é o pai, trabalha como empregada doméstica. Torcedora do Corinthians, assume o papel materno e paterno sustentando o lar num equilíbrio delicado.
Walter Salles e Daniela Thomas, tomam essas situações e não carregam a mão no drama. A secura perpassa o filme desde sua exposição inicial até o último instante. Eles não deixam espaço para o sentimentalismo lacrimoso ou piegas. Ao mesmo tempo, tratam seus personagens carinhosamente. Sem idealizá-los, mostram como eles são, como eles reagem no interior das circunstâncias e como cometem pequenas falhas. Os diretores orquestram a história de vida de cada um dos personagens durante alguns meses. Nesse tempo, os acontecimentos narrados prefiguram sempre a iminência do dramático. Optam pela ficção, mas dão um tratamento quase documental ao material. Fazem isso com habilidade, ainda que deixem lacunas, principalmente na amarração final na trajetória de cada filho. A opção por deixar em aberto pode não satisfazer a maioria dos espectadores, principalmente aqueles que estão acostumados a filmes cujas histórias se desenrolam obedecendo à clássica estrutura de começo, meio e fim bem amarrados. Essas omissões não chegam a perturbar o conjunto da obra. Ao finalizar a narrativa, ou melhor, as pequenas narrativas que formam o todo de Linha de Passe, Walter Salles e Daniela Thomas deixam que o espectador complete os finais. Para isso oferecem pistas ao longo do filme.
Sobre as interpretações, é notável sua condução. Os diretores retiram dos seus intérpretes o melhor. E não apenas do quinteto central, muito bem afinado, já que os atores foram bem escolhidos e adequam-se aos personagens. Eles são a alma do filme. Em meio às ótimas interpretações ressalta a criação de Sandra Corveloni. Sem grandiloqüência, visto que o personagem não pede esse registro, a atriz constrói Cleuza com pequenos gestos, olhares reveladores do que se passa em seu íntimo e falas cujas entonações precisas revelam a compreensão do personagem e do lugar onde ele está situado.
O elenco secundário, formado por atores com experiência em teatro, torna os personagens críveis, ainda que as suas participações sejam pequenas. Mas destacam-se as atuações de Fernando Bezerra, o preparador de Dario, de Gabriela Rabelo, a senhora paralítica, de Denise Weinberg, a patroa de Cleuza, além de Luiz Serra e Norival Riso.
Um destaque do filme é a escolha de São Paulo como locus da ação. A cidade, sua imensidão, seu descontrole, servem de moldura para história tratada com sensibilidade já demonstrada pelos diretores. A direção de arte soube captar com precisão os ambientes, da mesma forma que a música que se faz ouvir sem estardalhaço, mas cria o clima sonoro para os personagens se exponham à luz dos refletores e para a câmera que capta as nuances de suas interpretações
Não farei um resumo detalhado do seu enredo simples, mas não simplista. Para situar o leitor, localizo o centro de onde parte os acontecimentos do filme.
Cada filho dessa família tem um desejo que se configura na vontade e nas ações para realizá-lo. O mais novo é Reginaldo (Kaique de Jesus Santos), obcecado, vive a procura do pai que ele sabe ser motorista de ônibus. Dario (Vinícius de Oliveira) sonha tornar-se jogador profissional. Sua batalha é tentar passar na seleção realizada por olheiros dos médios e grandes times, mas vai sofrer os limites da idade. Ao completar 18, já não interessa. É velho para o mundo do futebol. Denis (João Baldasserini) trabalha como é moto-boy, tem um filho com uma namorada, com quem não vive. Dinho (José Geraldo Rodrigues), é arrimo de família, ajuda a mãe no sustento da casa, trabalhando como frentista. Dinho é evangélico, freqüenta a igreja e atua junto ao pastor. A mãe, Cleuza (Sandra Corveloni, Palma de Ouro de Melhor Atriz em Cannes, 2008), grávida pela quinta vez, sem que se saiba quem é o pai, trabalha como empregada doméstica e está grávida.Torcedora do Corinthians, assume o papel materno e paterno sustentando o lar num equilíbrio delicado.
terça-feira, 2 de setembro de 2008
Registro 204: Laranjas
No livro W ou a memória da infância, de Georges Perec (*1936 +1982), uma bela e triste a narrativa, encontrei a seguinte nota de rodapé: "A palavra orange ("laranja", em francês) é formada de or ("ouro") e ange ("anjo"), o que explica a formulação da advinha (N.T.)". A explicação é dada a propósito da reflexão que o personagem faz a respeito da prova da existência das coisas, no caso a hicória (madeira canadense usada para fazer esqui), cuja raridade era uma das provas de sua existência. O personagem, um menino, fala de coisas ausentes "acerca das quais nos perguntávamos como podiam existir", tal como as laranjas. E na forma de uma adivinhação explicita: "primeiro é um metal precioso, depois um habitante dos céus, o conjunto uma fruta deliciosa...*)" (p. 128). A nota de rodapé explica a formulação e a palavra explicada expressa essa imagem envolvendo ouro e anjo. Como já gostava, e muito, de laranjas, não sei se passei a gostar mais um pouco da fruta. O certo é que elas tornaram-se mágicas para mim, principalmente quando doces e cheias de sumo refrescante. Retirei a imagem que ilustra o texto no ideiasideias.blogs.sapo.pt/1842.html; não encontrado o crédito, registro o lugar de onde veio o quadro com as laranjas tão auríferas e luminosas a despertar em mim tantos desejos. O poder da imagem. sexta-feira, 29 de agosto de 2008
Registro 203: Os meus livros, eles estão por aí...
Livros são como filhos. A imagem é gasta, mas significa muito. Eles crescem. Criam pernas, melhor, asas. Levantam vôo em busca de mãos, de olhos, de mentes que queiram acolhê-los.
Bacanas..., foi bom escrevê-lo. Vira de ponta cabeça a noção de bacana e de famoso.
Gosto de todos. Um deles está esgotado, foi o segundo: Um muro no meio do caminhoACRELÍRICO
é irmão gêmeo de Um campo de morangos para sempre. Um dia quero transforma Acrelírico num romance
Primavera pop! foi o primeiro livro para o leitor jovem. Um campo de morangos, fala de engajamento e desbunde e dediquei aos meus colegas do Colégio Estadual da Cahia - Central . Gosto muito dele, pena que a editora não soube trabalhar o livro! Ainda desejo muitos campos de morangos para todos. Batalho por uma nova edição.
Braçoabraço, muito lido. A transformação pela arte. A vida de uma menino abandonado, morador de rua e seu encontro com o circo.
As editoras que acolheram meus livros: INACEN, Salesiana, Saraiva, Melhoramentos, Fundação Cultural do Estado da Bahia, SM, Edufba, Paulinas, FTDquarta-feira, 27 de agosto de 2008
Registro 202: Seminário Memória do Teatro Baiano

O seminário é dividido em quatro mesas distribuídas ao longo dos dois dias de atividades. Cada mesa representa uma década e será composta por um mediador e três artistas que produziram e atuaram em alguma produção teatral do período. As mesas são as seguintes:
Mesa Anos 60: 02/09, das 09:00 às 12:00.Mediada por Jussilene Santana.Participantes confirmado: Harildo Déda e Sonia Robatto.
Mesa Anos 70: 02/09, das 14:00 às 17:00. Mediada por Cleise Mendes. Participantes confirmados: Hebe Alves, Deolindo Checcucci e Raimundo Matos Leão.
Mesa Anos 80: 03/09, das 09:00 às 12:00. Mediada por Luiz Marfuz. Participante confirmado: Hebe Alves, Antônio Godi e Paulo Dourado.
Mesa Anos 90: das 14:00 às 17:00.Mediada por Fernando MarinhoParticipante confirmado: Chica Carelli, Meran Vargens e Carmem Paternostro.
Será fornecido certificado para os participantes com 75% de presença.As inscrições começam no dia 18 de agosto e pode ser feita através do e-mail: aoutra@teatrovilavelha.comMaiores informações pelo telefone: (71) 3083-4617.
sexta-feira, 22 de agosto de 2008
Registro 201: Alzira Power
A montagem atual conta com Cristina Pereira e Sidney Sampaio no elenco. Direção Gustavo Paso.
Bivar, toma dois personagens para jogar sobre a platéia o escárnio de uma geração que se viu reprimida, e descrente dos ideários postulados pela cultura de esquerda configurado pelo nacional-popular, parte para outros caminhos, cujos códigos subjetivos indicam a recusa e apontam para a desagregação. Embora distante no tempo, o texto continua firme em suas proposições e recebe uma inspirada direção de Gustavo Paso. Diante do real baseado em valores degradados, as atitudes de Alzira, a princípio incoerentes, tornam-se coerentes. O seu voluntarismo desencadeia humor e fantasia na cena. Sua investida rebelde contra o acomodamento choca, mas a personagem termina por se impor e no jogo criado por Bivar, Ernesto, o corretor, sai perdendo. Um aviso; capta quem quer. Com esse material, Gustavo Paso orquestra o espetáculo de maneira poética, agilizando a escritura cênica de forma que o conflito se desenvolve num crescendo. A exposição das idéias e dos desejos dos personagens desenvolve-se dando lugar para as explosões temperamentais de Alzira e de desespero de Ernesto. Ao longo desse encontro de opostos há lugar para o lirismo, o melodramático, Tudo bem dosado pela sensível mão do diretor.
O humor escrachado, dosado de ironia, marca o encontro de Alzira, a solteirona que atrai para seu apartamento o jovem corretor Ernesto. Caído numa armadilha, o personagem enfrenta a loucura da mulher solitária que desmonta suas certezas e aponta-lhe o comodismo classe média. Comodismo de quem aceita a vida sem questionamentos, além daqueles que determinam a sobrevivência. Alzira, contraditória, revela-se uma personagem que investe sua delirante loucura contra os limites, as regras, o opressor. Durante uma hora de intenso confronto, em que as regras do bom senso e do politicamente correto são explodidas, as personagens se atraem e se repelem num jogo em que a mulher termina por dominar a situação. O domínio de Alzira sobre Ernesto se dá pela transparência com ela se revela para ele. Desbragadamente furiosa ela investe contra as certezas do jovem e quando ele tenta virar o jogo, ela dá a volta por cima.
Com esse material explosivo e dois personagens confinados em um apartamento, o diretor soube orquestrar uma espetáculo intenso, tragicômico, permeado de lirismo. Sem atualizar o texto, sua encenação aproxima o texto de Bivar da platéia atual, tornando-o atemporal, ainda que lance mão de efeitos - gravação de programas de rádio das décadas de quarenta e cinqüenta e trilha sonora - que parecem datados, mas que de forma bem manipulada criam empatia e enchem a cena de uma delicadeza que só faz aumentar o absurdo da situação criada por Bivar.
Em um cenário, cujo vermelho impera como um signo da violência que a situação figura, Gustavo Poso arma o espetáculo surpreendendo a platéia com efeitos visuais, em que figurino, luz e objetos cênicos servem de moldura para que Cristina Pereira dê largas ao seu talento de atriz. A intensidade com que ela se entrega na construção de Alzira, a Alzira Porra Louca, um dos títulos da peça, mas censurado pela repressão policialesca da época, é imediatamente percebida pelo espectador desde a longa cena inicial quando a atriz, de maneira metódica, se prepara para enfrentar a chegada do visitante. Papel defendido com garra por Iolanda Cardoso, a criadora primeira de Alzira, encontra em Cristina Pereira uma atriz pronta para representá-lo. Alternando comicidade e contensão, suavidade e explosão, a atriz estabelece uma poderosa comunicação com a platéia. Generosa, a atriz cria oportunidades para o seu companheiro de cena, o jovem ator Sidney Sampaio. Os dois criam a necessária empatia para que o texto de Bivar, com seu final surpreendente e provocativo, chegue até a platéia sem muitas ranhuras.
Amoral, como em toda sua dramaturgia, o autor esbanja talento e maneja habilmente a situação, solucionando-a de maneira fatal, num golpe de teatro, única saída para almas dilaceradas presas nas malhas do cotidiano opressor, dos sonhos postergados e da rotina mortal. Tudo isso construído com altas doses de humor e crueldade ferina, mas sempre deslizando para a zombaria demolidora. A direção de Gustavo Paso explora o texto no que ele tem de originalidade, mas não sem mantém refém a ele. Paso compreende a peça de Bivar e imprime a sua leitura de maneira que o texto passe incólume a mais uma prova do palco depois de anos de sua estréia. Poder-se-ia dizer que por ser uma dramaturgia fruto de um momento especial, já bafejada pelos ares da contracultura, a peça estaria presa ao circunstancial. Não é o que se vê no palco. Ainda há um sopro de rebeldia, de novidade, de atualidade em Alzira Power ou O Cão Siamês, título da peça, indicativo do absurdo da situação em cena, mas que não resvala par ao incompreensível. Ainda que concebido sob a mais ferrenha censura, o discurso é direto e suas ambigüidades tornam saborosa essa dramaturgia - conhecida como "Nova Dramaturgia" - merecedora de novas encenações.
A “Nova Dramaturgia”, é o termo utilizado por Sábato Magaldi para enfeixar os trabalhos de Antônio Bivar, José Vicente, Leilah Assumpção, Consuelo de Castro, Isabel Câmara, acrescento o de Timochenco Webb, jovens autores que estrearam no final da década de 60 e que obtiveram com seus primeiros textos a receptividade da crítica e do público. No artigo datado de agosto de 1969, o crítico faz um balanço da temporada teatral e aponta o surgimento desses autores, todos eles escrevendo para o palco e expondo sob uma nova chave as questões do seu tempo. Afastados do realismo social que prefigurou a fase anterior da dramaturgia, aquela feita nos moldes proposto pelo Seminário de Dramaturgia promovido pelo Teatro do Arena, esses autores colocam nos textos a experiência vivida, adotam o confissão e escancaram a vida da metrópole onde vivem. Nota-se na diversidade de seus trabalhos o influxo de Plínio Marcos, autor que se torna vísivel ao mesmo tempo que os citados, mas que corre em raia própria, mas sem deixar de servir de esteio para os novos dramaturgos.
quarta-feira, 20 de agosto de 2008
Registro 200: Sob o Signo das Luzes

terça-feira, 19 de agosto de 2008
Registro 199: Contribuição de Dimitri Ganzelevitch
Há, portanto, 33 anos que a mesma pergunta, com exagerada freqüência, vem bater á minha porta. “Porque veio morar aqui?” Uns com tom de profunda incredulidade. “Quem me dera, a mim, estar no hemisfério norte!”, outros com uma pontinha de suspeita. “Seria mais um Ronald Biggs?”.
Ninguém muda assim, do dia para o outro, de cultura, de clima, de idioma, de comportamento, sem motivo.
Hoje chegou a vez de desvendar o segredo.
Foi pela força de um disco. Um LP como se falava na época
Minha mãe, separada de meu pai, viveu durante 25 anos com um português, em Lisboa. Antonio Lopes Ribeiro era cineasta, crítico de cinema, poeta, escritor. Irrequieto, magro, nervoso, fazia sempre grandes discursos com muitos gestos, fumando um cigarro atrás do outro. Teve imensa responsabilidade na minha formação intelectual de adolescente.
Na sala reinava um magnífico aparelho de som, um Grundig. Rádio e toca-discos. Nele podíamos ouvir, não só os modernos 33 rotações, de vinil, mas também os velhos 78, em frágil bakelite. Havia de tudo, desde Chopin, Brahms, Chaliapine e Caruso até Amália, Piaf, Carmen Miranda e Dick Farney. Que bela voz tinha este Dick! Parecia veludo...
Antônio viajava muito. Uma vez veio do Brasil, onde encontrara cem personalidades do mundo do cinema e da música, com as malas entupidas de discos. Entre vários discos havia um, com uma caricatura mostrando um forte mulato de camisa listrada e chapéu de palha. Dorival Caymmi. Uma seta indicava “Maracangalha”.
As canções de Caymmi foram, para mim, uma viagem num mundo mágico, quente, doce e colorido. Alegre e poético também.
A vida dá suas voltas.
Meu tio Boris trabalhava para a Unesco no Rio de Janeiro. Convidou-me para conhecer o carnaval. Na minha bagagem, uma carta de apresentação para Orígenes Lessa, autor do “O Feijão e o Sonho” e grande especialista em literatura de cordel. Sua companheira, Maria-Eduarda, era filha do conde Marim, algarvio com muito honra. Me desafiaram. “Vamos ao casamento do filho de Jorge Amado, em Salvador. Porque não vem com a gente?” Porque não? Fui.
Foi grande a emoção de encontrar, na casa do famoso escritor, o autor de “Eu vou para Maracangalha” e de tantas pérolas da música brasileira. Pouco mais fiz do que apertar timidamente sua mão e olhar para ele a cada minuto. Parecia, com seu cabelo grisalho, ter um brilho especial. Mas, naquela manhã, a verdadeira estrela da casa era Débora, a cobra de Paloma Amado.
Durante uns cinco dias, passeamos pela cidade, muitas vezes ciceroneados por um jovem poeta, muito mulherengo, Ildásio Tavares. Lembro de uma seresta nas areias do Abaeté, com velas plantadas em pequenas covas ao abrigo da brisa. A beira da lagoa parecia um céu estrelado ao avesso. Tão inocentes, em 1971, aquelas areias...
A vida continua dando suas voltas.
Vi morar na Bahia em 1975 e descobri então que o colorido cartão postal também tinha um avesso, branco e preto, bastante mais fastidioso. Teria que preencher os espaços vazios com meus próprios pincéis para resistir a uma realidade que seria, ao princípio, dura e sem piedade. Aprendi a viver.
Em 1983 encontrei novamente o magnífico mulato, já de cabelo branco, novamente na casa da rua Alagoinhas. Novamente apertei, tímido, sua mão. Afinal o que é que um pobre imigrante simplório nas suas certezas de europeu banhado em Molière e Debussy, mas incapaz – até hoje – de sambar ou contar uma piada, teria ousado falar com um Dorival Caymmi?
Os anos passaram, fiz minha esta terra que tanto critico aqui, confesso, e que tanto defendo quando a atacam lá fora. Segui meu caminho por verdes vales e poeirentas caatingas, lamaçais e águas mornas. Sempre guardei na memória a honra de ter apertado, por duas vezes, a mão de um homem que podia levar um ano para fazer uma só canção, mas ofereceu ao mundo pérolas de mares fundos, onde belas sereias valsam com pescadores enamorados.
Perdi, nas mudanças, o disco até um amigo rastafari, amante de boa música e comerciante esclarecido do Pelourinho, sabendo de minha procura, me oferecer um velho exemplar, idêntico ao de minha lembrança de adolescente.
Hoje abro a televisão para enfrentar a triste noticia.
Dorival Caymmi acaba de morrer aos 94 anos, rodeado por uma maravilhosa família que consegue viver de música sem nunca ter caído nos fáceis sucessos descartáveis que agora poluem nossa sociedade consumista e desmemoriada.
Hei de ir, ainda este ano, mesmo sem Amália, a Maracangalha.
Se Deus quiser.
Salvador, 16 de agosto de 2008
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
Registro 197: "Tanto négocio, tanto negociante" e muita estupidez
Essa resumida introdução deve-se à carta que ele enviou ao jornal A Tarde, da Cidade da Bahia, e publicada em 15 de agosto de 2008. Vou transcrevê-la porque gosto da sua lúcida argumentação. Ele sai em defesa do calçadão da Barra, aquele de pedras portuguesas, que o imediatismo, a burrice, a simplificação, a desinformação sepultaram. Não digo para sempre, porque, quem sabe um dia, alguém resolve que o calçadão deve retornar ao que era, até que a sanha modernizadora de uma gestão incompetente botasse abaixo. Não é a primeira vez que isso acontece em Salvador. Os registros da estupidez dos políticos (muitos), péssimos administradores, são inúmeros. Eles decidem tudo nos bastidores. O pior de tudo é que encontram apoio. Apoio de gente desinformada que se encanta com a novidade, a comodidade. Não me alinho a essa maioria inculta.
O monstrengo que virou o Campo Grande depois da reforma (gestão anterior) que retirou a calçada desenhada lindamente com pedras portuguesas está aí para quem quiser conferir. Aquelas estátuas de resina são ridículas. Isso numa cidade que teve lindas estátuas de mármore em seus jardins públicos. Par onde levaram as da Praça da Piedade? Onde se encontra a que havia no centro da Praça Tomé de Souza?
A propósito, espero que a reforma do Passeio Público seja feita com inteligência, sensibilidade e informação sobre o logradouro. Não faço aqui a defesa do imobilismo, mas um pouco de história não faz mal a ninguém. Um dos elementos que singulariza a Cidade da Bahia é sua história. Isso faz a diferença. Quando ela virar uma cidade qualquer, lamentaremos.
A questão do piso de pedras portuguesas na Bahia não funcionar é porque, atualmente, eles são mal feitos. Propositadamente mal feitos.
Mas deixo ao leitor as palavras do santamarense.
“Cheguei da Europa e soube, aqui, do crime que o prefeito de Salvador está cometendo no Porto da Barra. Não posso ficar calado. É uma indecência manter as pessoas desinformadas a ponto de entrarem na guerra suicida à calçada portuguesa. O calçamento português é marca importante da nossa vida física e espiritual. Os incômodos que porventura venham de sua má conservação não são motivo para destruí-lo. Em São Luís (atualmente a cidade mais bonita do Brasil), as antigas calçadas portuguesas foram restauradas com o esmero técnico adequado e não provocam trepidação em carrinhos de bebê nem engolem saltos de madames. E são vastas e extensas áreas da cidade que as ostentam. As praças de Lisboa apresentam a mesma firmeza e a mesma elegância. Por que há tantos baianos votando a favor desse descalabro? Será que voltamos ao mau gosto vulgar que dominava antes de Jaime Lerner recuperar o Largo da Ordem em Curitiba? Regredimos para a visão grosseira que teria deixado o Pelourinho, em Salvador, o Largo da Lapa, no Rio, virarem pó e serem substituídos pelo caos dos restos da arquitetura moderna que enfeiam o Brasil? São restos culturais de baixa qualidade que se oferece aos grupos emergentes da sociedade, em nome da democracia. É caso para ouvirem especialista, respeitarem-se os locais históricos e míticos, esboçar-se uma reestruturação inteligente da cidade. Se isso não agrada de imediato a uma (suposta) maioria desavisada, não importa. O essencial está num texto escrito por Ordep Serra: um texto excelente sob todos os pontos de vista. Então, um lugar como o Porto da Barra pode ser violado assim? Não. Protesto veementemente. Não se pode adotar piso de concreto e granito polido na curva do Porto e tampouco a retirada das árvores. O que é que há com Salvador que o prefeito começou a construção de uma favela nas areias da orla e esse esboço continua lá, enquanto uma horda de desinformados apoia a destruição do porto da Barra?”
Caetano Veloso
Assino embaixo,
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Registro 196: Hoje tem palhaçada? Tem sim senhor!

Picolino IIInesquecível Circo Nerino...
Em junho de 1955, Ipirá – Bahia, encostado na porta do posto-restaurante O Rodoviário, cujo proprietário era meu pai, eu vi o comboio chegar; caminhões e ônibus, numa fila que para mim era interminável. A longa fila entrou lentamente na cidade que se alvoroçava diante da imponência do cortejo. Nunca se vira tantos caminhões e ônibus juntos por ali. Só quando passavam os romeiros para a festa das Candeias é que eu via um movimento igual ao que presenciei naquele dia.
As crianças, principalmente os meninos, mas as meninas também, todos corriam para ver o Circo Nerino que chegava. Vinha de longe prometendo maravilhamento. A cidade se rendeu diante do número de viaturas, diante do grande elenco. Em pouco tempo os artistas montaram a estrutura circular na praça principal. Dela sairiam os alumbramentos dos espetáculos.
Atraído, fascinado e curioso acompanhei o trabalho daquela gente sem me aproximar. Por contas das histórias de que ouvia: - Gente de circo leva criança para ser treinada, eu temia que isso acontecesse comigo. Mas, se o apavoramento me detinha, a vontade de ser artista de circo me levava para perto daquele reboliço rompendo o marasmo da pequena cidade. A vontade de ser artista diminuía os receios de ser levado para longe. Eu era muito pequeno e não podia sair sem a companhia de um adulto. Portanto, a minha imaginação tratava de criar essa realidade paralela tecida pelo fascínio e por algo que não conseguia tomar forma, como tomou a medida que fui crescendo e os circos foram chegando e partindo.
Na enorme praça da igreja, mais precisamente atrás do imponente templo, armou-se o Nerino, delícia daqueles dias de inverno sertanejo de céu azul e noites frias. Enorme, sólido, se é que um circo pode ser definido por essa qualidade. A imponência de sua estrutura, a grandiosidade de sua forma, inspirava segurança e acolhimento. A maleabilidade da lona, esticada até o limite do permitido, desenhava-se no espaço da praça. Outra paisagem surgia aos meus olhos encantados com o primeiro circo que viam. Era grande o Circo Nerino. Grande aos meus olhos de criança, grande também aos olhos dos adultos, impressionados com a monumental empanada. Era um circo e tanto o Nerino! E a cidade empolgada aguardou o momento da estréia.
Eu vi Picolino, o palhaço. Um deles, visto que são três. Talvez o Picolino I ou II, que seja! Ele era maravilhoso e isso é o que importa. Não me esqueci de suas palhaçadas e do grande colarinho que ele movia habilmente engolindo sua cabeça. Ainda hoje me lembro da roupa e da maquiagem bem definida. Era a imagem mais fiel de um palhaço. Para mim ficou sendo o palhaço dos palhaços.
Havia teatro no Nerino. Não lembro o que vi no palco, mas ainda guardo a imagem de uma cena, principalmente do cenário. Um mar de ondas revoltas que brilhavam à luz dos refletores.
Por fim, recordo-me da moça vestida de branco sobre uma bola azul pontilhada de estrelas prateadas. Ela fazia a bola girar pelo picadeiro enquanto fazia acrobacias, quase uma dança etérea naquele globo-planeta que girava sob seus pés. A orquestra tocava uma valsa e eu, sentado na cadeira forrada de vermelhode não desgrudava os olhos. Eles apreendiam tudo... Na minha quietude de menino, os sentidos aguçados sorviam imagens e sons e cheiros de um mundo que se mistura ao dos outros circos que eu vi, não tão maravilhosos quanto o Nerino, mas queridos da mesma forma: O Pavilhão Zé Bezerra, sem picadeiro, uma construção retangular culminando com o palco onde se dava a função: atrações variadas, como a do mágico que fazia levitar uma moça, e comédias e dramas no final da sessão; o Circo São Raimundo, com suas duas atrações principais, a angelical Maria de Jesus e a loira fatal Ducicleide; e o circo de nome perdido na memória, mas que marcou a minha infância pelo fato de ter desabado na noite em que estreava uma ipiraense cativada pela vida debaixo da lona e pelo amor do palhaço Jatobinha. Quando o Nerino partiu, fiquei na porta do posto-restaurante O Rodoviário, até que os ônibus e caminhões desaparecessem sob o pó da estrada. Eles levavam as minhas muitas saudades e a certeza de que o circo viveria em mim de muitas maneiras.










