sábado, 14 de abril de 2007

Registro 40: Fragmento roseano

Um certo Miguilim morava com sua mãe, seu pai e seus irmãos, longe, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d’Água. E de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto, no Mutum. No meio dos campos Gerais, mas num covão em trecho de matas, terra preta, pé de serra. Miguilim tinha oito anos. Quando completara sete, avia saído dali, pela primeira vez: o Tio Têrez levou-o a cavalo, à frente da sela, para ser crismado no Sucuriju, por onde o bispo passava. Da viagem, que durou dias, ele guardara aturdidas lembranças, embaraçadas em sua cabecinha. De uma, nunca pôde se esquecer: alguém, que já estivera no Mutum, tinha dito: – ‘É um lugar bonito, entre morro e morro, com muita pedreira e muito mato, distante de qualquer parte; e lá chove sempre...”

Mas sua mãe, que era linda e com os cabelos pretos e compridos, se doía de tristeza de ter de viver ali. Queixava-se, principalmente nos demorados meses chuvosos, quando carregava o tempo, tudo tão sozinho, tão escuro, o ar ali era mais escuro; ou mesmo na estiagem, qualquer dia, de tardinha, na hora do sol entrar. – Oê, ah, o triste recanto...” – ela reclamava.



ROSA, João Guimarães. Manuelzão e Miguilim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 13.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

Registro 39 A: Hansen Bahia


Fundação Hansen Bahia

Cachoeira

Exposição permanente em homenagem ao xilógrafo, pintor e escultor alemão radicado na bahia, com destaque para as obras Noé e Seus Filhos (coleção) e Via Sacra do Pelourinho, formada por 14 xilogravuras que remetem ao calvário bíblico e que estão, pela primeira vez, expostas no município.

Fundação Hansen Bahia, Rua Treza de maio, 13. Cachoeira. Terça a sexta das 9h às 17h; sábado, domingos e feriados, das 9h às 14h.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Registro 39: A Rocha



Querida Edith Stein

Foste proclamada santa. Feminista, és uma ponte entre judeus e cristãos, místicos e filósofos, perseguidos e mártires.

FREI BETTO

Há anos medito sobre as surpreendentes veredas de tua vida. Sou apaixonado por ti. Na tua infância em Breslau, na Alemanha, teus pais, judeus devotos, te levavam aos sábados à sinagoga. Teu pai, comerciante de madeira, infundiu-te a inquietação diante do mistério da fé e te ensinou que as obras de Javé não cabem na razão humana.Porém, se já é difícil para um adulto apreender os desígnios de Deus quando passam pela dor, o que não dizer de uma criança que, como tu, viu o pai dar o último suspiro? Essa morte ressoou em teu espírito como silêncio de Javé. A fé apagou-se em teu horizonte. A ira divina, por uma razão que ultrapassava teus conhecimentos, fulminara como um raio tua família. Tua mãe assumiu, qual a "mulher perfeita" de que fala o epílogo do livro dos Provérbios, a educação dos sete filhos. Tua atenção centrou-se nos estudos. Em Göttingen, querias entender a razão das coisas. Malgrado os preconceitos machistas, alcançaste o doutorado em filosofia com uma brilhante tese sobre a empatia. De tal modo resplandecia teu talento que, aos 26 anos, mereceste o convite para, em Freiburg, te tornares assistente de Edmund Husserl, criador do método fenomenológico e inspirador de Jaspers, Scheler, Heidegger, Sartre e Levinas.

Aos 31 anos, o anjo de Deus cortejou-te e quebrou a película que impedia tua inteligência de transcender da razão à fé. Para escândalo de teus familiares, recebeste o batismo e, no mês seguinte, a crisma na Igreja Católica. Teu coração oscilava entre tantos pretendentes e a radicalidade da entrega ao Amado. Como professora no colégio das irmãs dominicanas, releste com outros olhos Tomás de Aquino.Em 1933, os alemães foram às urnas e alçaram Hitler ao poder. Logo, o nazismo iniciou a caça aos judeus. Foste destituída do Instituto Pedagógico de Münster. Prosseguiste, todavia, tuas pesquisas filosóficas. Não te conformavas ao ver a filosofia tomista, que renascia nos ambientes cristãos, tão apartada de outras correntes filosóficas modernas. Sabias que todo o pensamento filosófico aspirava à mesma fidelidade à experiência e ao ser. Assim, tu te esforçavas por estabelecer conexões entre razão analítica e intuição contemplativa, especulação e experiência, imanente e transcendente. Deixaste oito preciosas obras que aproximam o pensamento tomista e a fenomenologia, a antropologia e a teologia.

Outra mulher, também religiosa, cativou-te para a noite que une "amado com amada, amada já no amado transformada": Teresa de Ávila. Essa espanhola de coração fogoso, que viveu cerca de 350 anos antes, tomou-te pela mão, como uma menina a outra, e te conduziu ao que todo ser humano aspira: viver na fruição do amor.Sob a perplexidade de teus colegas de academia, aos 41 anos ingressaste no carmelo de Colônia. O único bem que levaste para o claustro foram seis grandes baús de livros. Em homenagem à tua inspiradora, tomaste o nome de irmã Teresa, Teresa Benedita da Cruz nome aliás bem brasileiro, de uma dessas mulheres que participam de nossas comunidades eclesiais de base.

No mesmo ano em que te consagraste ao Absoluto, os nazistas avançaram na campanha pela "purificação da raça". Eras judia de nascimento, semita de espírito e seguidora de um judeu, Jesus. Tua prioresa considerou prudente afastar-te da Alemanha. Em 1938, foste para o carmelo de Echt, na Holanda. Porque tinhas muita fé, não conhecias o medo. Mas evitavas a temeridade. Por isso, teu coração apertou-se quando Hitler ocupou a Holanda, em 1941. Oravas pelo fim da guerra e pelas vítimas que, como Anne Frank e sua família, experimentavam, a pouca distância de ti, os mesmos temores.

Em 1942, a Gestapo invadiu teu carmelo, arrebentou as portas, profanou o claustro e te arrancou da tua cela. O terror esquadrinhava cada recanto do mundo para aplacar essa sede de sangue, que faz da onipotência monstro insaciável. Num vagão de gado, foste levada, primeiro, ao campo de concentração de Westerbork, na Holanda; depois, para Auschwitz, na Polônia.

Certa manhã, despiram-te e, em companhia de muitas mulheres, ordenaram-te entrar no salão de banhos encimado por pequenos tubos que desciam do teto. Abertas as torneiras, não era água o que saía, era fumaça. Tuas orações acalmavam-te, enquanto tuas narinas ardiam entupidas pelo gás. Teus pulmões pareciam murchar dentro do peito, inusitada contração de um parto que te fazia nascer para o mais profundo de ti mesma. No mais íntimo de ti, quando todo o oxigênio se esvaíra, encontraste Aquele que inundara a tua vida de amor. O que era terno arrebatou-te, enfim, para o eterno.

João Paulo 2º beatificou-te em maio de 1987. No domingo, foste proclamada santa Edith Stein. Não eras perfeita nem deixaste de ser pecadora. Eras, sim, uma "rocha" ("stein", em alemão). Lembras-te daquele mestre que te deixava ruborizada ao dizer, em classe, "batam nesta 'pedra' e dela irradiarão faíscas de sabedoria"?

Feminista, és agora uma ponte entre judeus e cristãos, místicos e filósofos, perseguidos e mártires. Lamenta-se apenas que sejas reconhecida pela hierarquia eclesiástica por ter abraçado a fé católica. Haverá o dia em que a igreja reconhecerá também o valor das mulheres judias que foram profundamente fiéis à tradição da Torá.

A comunidade dos fiéis proclama-te modelo para todos nós, especialmente para as vítimas da intolerância política ou racial. Soubeste adorar o Pai "em espírito e verdade", como recomenda Jesus; viraste um paradigma para tantas jovens que buscam, pelos labirintos de um mundo marcado pelo consumismo e pela falta de sentido, uma razão para viver e morrer de amor.

Carlos Alberto Libânio Christo (frei Betto), 53, frade dominicano e escritor. O texto foi bublicado em 15 de novembro de 1998, na Folha de S. Paulo.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Registro 38: O Ponto de Fuga de Jorge Coli


O crime de todos nós

JORGE COLI

A força das crenças confere realidade ao que não existe. Houve um tempo em que se acreditava no "brasileiro cordial". Fazia parte da ficção que se denomina "identidade nacional".Maria Sylvia Carvalho Franco desmontou esse mito em sua tese "Homens Livres na Ordem Escravocrata", de 1969 [ed. Unesp]. Desmontagem no campo reflexivo e teórico: foi preciso que a violência cotidiana ameaçasse a segurança de cada um para que a tal cordialidade "inata" dos brasileiros ruísse plenamente no âmbito dos sentimentos coletivos. O livro "Cangaceiros", de Élise Jasmin (ed. Terceiro Nome, 2006), demonstra até que ponto, no Brasil, a violência se transformou, de maneira oficial, em crueldade. Ele reúne quase 90 fotos retratando Lampião e seu bando. Algumas, que formam o epílogo, são terríveis.Duas exibem cadáveres amarrados a uma prancha, em poses arranjadas, cercados por civis e militares, como se fossem troféus de caça.Outra mostra soldados diante de um corpo acéfalo, sobre o qual, por piada, colocaram uma garrafa de cachaça. As imagens se sucedem. Um grupo militar, com seu oficial, se organiza à volta de três cabeças decepadas. Um cangaceiro se perfila ao lado de uma outra cabeça que, atada pelos cabelos longos, pende com a boca aberta. Nesse caso, o vivo e o morto eram amigos, explica a legenda.Há naturezas-mortas macabras, em que composição se ordena com um senso artístico da simetria. Às cabeças cortadas se acrescentam coisas que pertenceram aos defuntos: chapéus, embornais, cartucheiras. Com Zepelim, cangaceiro mulato, num requinte de "mise-en-scène", alguém teve a idéia de manter sua pálpebra esquerda aberta graças ao auxílio de um palitinho.
Psicose. Essas fotos, dos anos de 1930, foram publicadas na imprensa. Décadas antes, Euclides da Cunha descrevia, no final de "Os Sertões", as frias atrocidades cometidas sobre os resistentes de Canudos. O autor conta: quando descobrem a cova de Antônio Conselheiro, morto antes do término dos combates, desenterram o corpo que já apodrecia. Fotografam-no, lavram uma ata e o devolvem à cova. Antes de cobri-lo novamente com terra, alguém, usando "uma faca jeitosamente brandida", decepa o cadáver. Euclides da Cunha prossegue: "Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio".
Cutelo.Pedro Americo pintou, em 1893, seu quadro "Tiradentes Esquartejado", que se tornaria célebre.Nunca outro herói nacional, em nenhum lugar do mundo, foi representado assim, retalhado como num açougue. Pedro Americo expõe, com clareza, a crueldade oficial. Seu Tiradentes é irmão dos jagunços de Canudos e dos cangaceiros de Lampião.
Pesadelo. Os três casos, de Tiradentes, dos jagunços e dos cangaceiros, pressupõem uma ação justiceira. Justiça que contém um álibi de vingança saboreada. Sabor de sangue. A crueldade investiu contra cadáveres; ela não nos fala dos punidos: revela a alma dos punidores. Hoje, não se cortam mais cabeças, pelo menos não de modo oficial e público. Porém entulham-se presos nas cadeias, em condições abomináveis. A justiça continua a ser sentida como punição e vingança. Diante de um crime, é fácil reagir instintivamente, desumanamente. No impulso, "pagar a pena", punir, vingar brotam primeiro. Só lá para trás, bem depois, é que se arrasta, quase irrisória, a idéia de compreender, de sanar, de educar, de recuperar.
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O texto foi publicado originalmente em Mais, Folha de S. Paulo, 8 de abril de 2007.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Registro 37: Ações afirmativas???

Em Boca de Matilde

Gilson Jorge

A declaração feita pela ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Política da Promoção Social da Igualdade Racial (Seppir) à BBC, de que considera natural que um negro não queira conviver com brancos quase “passou em branco” nos jornais diários e na TV, mas mereceu uma análise mais profunda em publicações semanais. Houve quem defendesse a idéia de que o assunto já foi suficientemente explorado e que não valeria a pena se estender em um debate sobre o que pode ter sido apenas a má interpretação por parte da jornalista. Mas as palavras estavam ali.

Entretanto, mas preocupante do que a frase da ministra, que pode até ser vista como um mero tropeço verbal, é a constatação de que há um discurso e algumas ações dentro e fora do movimento negro que se encaixam perfeitamente em uma tendência de acirramento das tensões “raciais”. Ou, como declarou ao caderno Mais da Folha de S. Paulo a antropóloga Yvonne Maggie, a incitação ao ódio “racial”. O racial vai entre aspas porque cientistas sociais abandonaram a noção de que existem raças branca, negra e indígena. Ninguém é obrigado a concordar com a igualdade, mas quem agir de forma racista deve encarar a lei.

Em fevereiro passado, durante um encontro com jornalista em Salvador, um artista branco (para os padrões locais) narrou um episódio em que foi cercado por homens negros que o espancaram sem que ele tivesse feito nada para provocar a violência. Isso foi mais de duas décadas, mas o artista continua acreditando, ou dizendo que acredita, que o ato foi justificável pelo fato de ele ser branco e de os brancos terem subjugados historicamente os negros.

(...)

A noção de que quem foi açoitado pode também açoitar resvala para um perigoso campo em que cada um pode decidir, com base na sua experiência pessoal, a quem pode atacar física ou psicologicamente. Mulheres que apanharam dos maridos podem reivindicar o direito a odiar todos os homens. Pessoas que sofreram abusos sexuais de padres na infância podem clamar que toda batina esconde um pedófilo.

Qualquer pessoa, independentemente da cor que carregue na pele, tem o direito de levar uma vida digna e respeitável. A ela não devem ser imputados os crimes e pecados cometidos por outras pessoas, apenas os que ela mesma eventualmente realize. Como ministra de Estado, Matilde Ribeiro deveria refletir sobre o impacto que a sua fala pode ter em jovens ávidos por achar em quem atirar a primeira pedra.

Gilson Jorge, jornalista, é repórter de Brasil. O texto foi publicado em Opinião, A Tarde, 5 de abril de 2007.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Registro 36: Roda de Ibejis


Enviaram-me a foto por e-mail e sem referência. Espero que o autor
se manifeste para que eu possa fazer o registro.
A imagem é deslumbrante na sua simplicidade e diz tantas
coisas para os nosso olhos por vezes nublados.
Apesar das cisrcuntâncias, amargas, as crianças brincam e
em suas brincadeiras revelam tantas coisas miúdas,
mas que fazem a diferença.
Roda-mundo

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Registro 34: Olhai...Dizei...Heverá dor igual a minha dor?





















Lá Pietà
Michelangelo

Para as mães que perderam seus filhos
e filhas
na violência do tráfico e das drogas
ou então, vitimados nas malhas do preconceito e da
discriminação.
Para todas elas que viram seus filhos estuprados,
violados,
emasculados,
subjugados
ou arrastados pelas ruas como um Judas em Sábado de Aleluia.
Para as mães que tiveram seus filhos seqüestrados e
torturados
moral e fisicamente
Para aquelas que choraram e gemeram
nas delegacias, necrotérios, cemitérios, ruas.
Para as que viram seus rebentos
podados
nos hospitais
nos campos e estradas
nas fábricas
nas repartições.
Para as mães que viram seus filhos e filhas mendigos.
Humilhados e ofendidos.
Para as mães que perderam suas crias...
iludidas,
expostas,
ridicularizadas,
fantasmáticas criaturas do mesmo sempre-igual.
Para as mães que guardaram a sua dolorosa dor
diante da arrogância,
cinismo
descaso
autoritarismo.
Para as mães...

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Registro 34:


Meditação é principalmente um meio para se atingir a liberação espiritual. Seus vários métodos são designados para afrouxar os laços físicos, permitindo que o individual ascenda ao transcendental, ao reino espiritual. Diz-se que quem realiza isto com sucesso atinge o Rúach Hacodesh, a “Inspiração Divina”, que é o termo hebraico genérico para “Iluminação”.

O mais conhecido método contemporâneo de meditação é o que envolve um mantra, uma palavra ou frase que é repetida continuamente durante um certo período de tempo A pessoa concentra-se no mantra à exclusão de tudo mais, limpando a mente de todos os pensamentos estranhos e separando-o do fluxo normal da consciência. Neste método, o mantra pode ser repetido verbalmente ou a repetição pode ser completamente mental. Este tipo de meditação é encontrado na Cabalá, especialmente entre as escolas mais antigas. Nos Hechalot, por exemplo, a pessoa começa sua ascensão espiritual repetindo 112 vezes vários Nomes Divinos.

Meditação com mantra é um exemplo de meditação estruturada dirigida externamente, na medida em que a pessoa se concentra em uma palavra ou frase definida, no lugar dos pensamentos espontâneos da mente (vagar mental). Como envolve uma prática específica, repetida por um período fixo de tempo, ela é considerada uma meditação estruturada.

Outro exemplo de meditação estruturada dirigida externamente é a contemplação, onde a pessoa olha fixamente para um objeto, colocando toda sua concentração nele. Em práticas ocultas, o tipo mais conhecido de contemplação envolve a concentração visual em uma bola de cristal. Outros tipos de contemplação envolvem mandalas, quadros ou letras, onde a pessoa se fixa nelas, enquanto esvazia a mente de todos os outros pensamentos. Na meditação cabalística, o mais simples instrumento contemplativo é o Tetragramaton (ou Tetagrama, o Nome Inefável de Deus), e isto é discutido até mesmo em trabalhos não cabalísticos. Formas mais complexas também são usadas, e este método parece haver alcançado seu ponto mais alto sob a influência do rabino Shalom Sharabi (1702-1777).

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KAPLAN,Aryeh. Meditação e Cabalá: teoria e prática. São Paulo: Editora Sêfer, 2005, p. 23

Registro 33: Sobreviventes


Registro 32: Estudos, década de 90

Peixe

Cuia Grão

Lua

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Registro 31: Na matinê do Cine Teatro Cliper

Teorema
Filme da redenção

O Sol por Testemunha
Filme perturbador

Rocco e Seus Irmãos
Tragédia grega moderna


Um Bonde Chamado Desejo
Filme tenso em sua carnalidade



O Segredo de Brokbeack Mountain
Filme tristíssimo


Em meados dos anos 50, meu pai construiu o Cine Teatro Cliper em Ipirá- Bahia. Meus olhos de menino acompanharam cada etapa desse projeto. Eu passei a ser o filho do dono do cinema, mas isso não representava muito. O que eu gostava mesmo era de mergulhar no escurinho da sala com seus cheiros característicos. Gostava de ver o baleiroTiago, arrumar o cesto com as balas, drops, chicletes, confeitos, caramelos e bombons, ajudado por minha mãe. Gostava de receber de Pedro, o projecionista, os fotogramas que sobravam. Durante o dia, quando Margarida fazia a limpeza, era uma prazer subir ao palco com sua ribalta de luzes coloridas que se acendiam anunciando o início da sessão, quando a cortina de tecido transparente abria-se para revelar imagens, imagens, imagens. Torcia para meu pai abrir as latas com filmes e ver as fotografias dos próximos cartazes. As latas em caixas de couro eram entregues em minha casa. O cheiro de acetato penetrava no meu nariz e eu, viciado, perdia-me nos enredos aventurosos, dramáticos, cômicos.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Registro 30: Um pensamento sempre moderno


Colóquio Walter Benjamin


Formas de Percepção Estética na Modernidade


PROMOÇÃO DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA DA UFBA
em parceria com o Goethe-Institut Salvador-Bahia




O Colóquio reúne professores-pesquisadores de várias universidades brasileiras que se dedicam ao estudo da filosofia de Walter Benjamin. O principal objetivo é ampliar debates e estudos no Brasil, especialmente na Bahia, sobre a obra do filósofo, principalmente relacionados as formas de percepção estética da modernidade, com ênfase em questões como arte, cidade, mídia e memória. O Colóquio conta com a presença do professor Bernd Witte (Universidade Heinrich-Heine, Düsseldorf), presidente da IWBG – Internationale Walter Benjamin Gesellschaft e biógrafo de Walter Benjamin.
Local: Goethe-Institut Salvador-Bahia Data: 09 a 11 de abril de 2007Inscrições e informações: De 23 de março a 04 de abril, de 8:00 às 11:30 e de 13:30 às 16:30 horas, na FAPEX, à Rua Caetano Moura, 140, Federação, Salvador, Bahia. Tels. (71) 3183.8460 ou 3183.8459.
Programação:

Dia 09 de abril – Segunda-Feira

08:30 – Abertura
09:00 – Bernd Witte – A crise da tradição: cidade, escrita, memória
10:20 – Bernd Witte: Sobre a Sociedade Internacional Walter Benjamin
14:30 – Willi Bolle (USP) - “Um painel com milhares de lâmpadas” - As “Passagens” de Walter Benjamin como dispositivo de pesquisa
15:10– Márcio Selligmann-Silva (UNICAMP) – Mídia, tradução e judaísmo em Walter Benjamin e Vilém Flusser

Dia 10 de abril – Terça-Feira

08:30 – Jeanne Marie Gagnebin (UNICAMP/PUC-SP) – De uma estética da visibilidade a uma estética da tatibilidade em Walter Benjamin
09:10 – Carla Milani Damião (UESC) – Distração, tatibilidade e hábito: percepção e recepção no cinema segundo Walter Benjamin
10:20 – Ernani Chaves (UFPA) – Inconsciente ótico e função terapêutica do cinema: deslocamento do olhar em Walter Benjamin
14:30 – Olgária Mattos (USP) : A Aufklärung urbana: a via-láctea secularizada
15:10 – Suzana Kampff-Lages (UFF) – Tradução como rememoração: Benjamin e Baudelaire

Dia 11 de abril – Quarta-feira

08:30 – Taísa Palhares (USP)– Aura e a crise da arte em Walter Benjamin?
09:10 – Edvaldo Souza Couto (UFBA) – Walter Benjamin: ruas, objetos e passantes
10:10 _ Gunter Pressler (UFPA) – Walter Benjamin e a poesia concreta brasileira
14:30 – Emiliano Aquino (UECE) – Walter Benjamin e o problema da aparência social do capitalismo
15:10 – Romero Freitas (UFOP) – Da ironia romântica ao estranhamento brechtiano
20:00 – Mesa “Botando Banco” - Walter Benjamin: Mídia e Cultura. Moderador: João Carlos Salles(UFBA)
20:05 _ Antonia Torreão Herrera (UFBA) – Questões contemporâneas sobre o narrador: conversando com Walter Benjamin
20: 35_ André Lemos (UFBA) – Benjamin e o ciber-flâneur
21:05 – Bernd Witte - Titulo a confirmar

Apoio: Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFBA, Capes, Goethe-Institut Salvador-Bahia.

segunda-feira, 2 de abril de 2007

Registro 29: Diga daí, amizade...

Eu tenho um amigo que, entre as atividades que faz, escreve poesia. Conheci-o no palco dando cambalhotas - vestido numa sunga ridícula - em A Morta, de Oswald de Andrade, espetáculo dirigido pelo amigo comum, Emílio di Biasi. Trinta anos já se vão desde que dividimos o palco da Sala Gil Vicente – Teatro Ruth Escobar. Hoje, meu amigo dá cambalhotas mentais e eu desisti do palco. Ele é muito inteligente, cheio de normas, mas vive fora delas. É delicado, mas quando tromba com alguém, saia da frente: ele pode lhe chamar de “fubá da Vila Nhocunhé”. Mas não dê tanta importância, já que o coração é grande e a alma não é pequena.

Solicitei o envio de alguns dos seus escritos para registrar na Cenadiária. Como ele não mandou, capturei um deles em Umazona, seu blog cheio de novidades, textos incríveis, coisa de gente que pesquisa, que tem alfarrábios, que guarda segredos e partilha com o mundo. Ele é exagerado, generoso, gosta dos prazeres do mundo, mas não descuida das coisas do espírito, embora militante das fileiras marxistas.
Guardo esse amigo, e outros, em um “cofre que não se pode fechar de cheio”. A nossa convivência foi sempre respeitosa, mas nem sempre tranqüila. Mas é viva, surpreendente, cativante e cheia de humor, mesmo quando nossos achaques interferem pondo em risco o equilíbrio delicado, sensível e cuidadoso da amizade.

Quando cantava uma partida próxima
Ou em aflito esperar pelo dia, ou
Como fazem ifigênias iguais em todo porto
Repetindo o balé já sabido por ambos,
Assim ou assado, tanto se lhe dá (ou come),
Principalmente agora, outros rituais, talvez.
Cem por cento, ou cem por uma?
Na seleção dos gestos, roupas e atavios,
Lã do encostar doce-molente em cada corpo,
Corpos lavados, lisos, penteados,
Um pouco de dinheiro novo é bom.
Talvez o grito, o gozo, seja falso hoje,
Talvez não hoje, mas amanhã, quem sabe?
Existe mesmo o toque do sagrado, é certo.
Existe mesmo o toque do sagrado.
Não fora assim, porém, fácil seria o erro,
O mesmo antigo, eterno e sempre branco alvo
Vestido lógico, comum de dois somente:
A Noiva,
O Marinheiro.
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PIMENTEL, Cid. Os originais, São Paulo: Hucitec, 1986.

domingo, 1 de abril de 2007

Registro 28: Deslumbramento


Ascension
Anish Kapoor

Registro 27: Para não esquecer



(...)

quem me pariu foi o ventre de uma navio
quem me ouviu foi o vento no vazio
do ventre de um porão

vou baixar no seu terreiro
epa raio machado trovão
epa justiça de guerreiro

ê samba ê ê samba á
o batuque das ondas na noites mais longas
me ensinou a cantar
Ê samba ê ê samba á
dor é o lugar mais fundo
é o umbigo do mundo
é o fundo do mar

(...)

ê samba ê ê samba á
eu faço a lua brilhar
o esplendor e clarão
luar de luanda em meu coração

Vou aprender a ler
pra ensinar meu camarada

Capinam
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CAPINAM, José Carlos. Yáyá Massemba. Intérprete: Maria Bethânia. In: Maria Bethânia, Brasileirinho. Biscoito Fino, 2003. 1 CD. Faixa 2.
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Foto 1, Lindemann, ed. Creoula, c. 1900.
Foto 2, José Christiano de Freitas Henriques Jr. Retrado de escravo (?) não identificado, c. 1865.
Foto 3, João Ferreira Villela. Ama escrava e menino Augusto Gomes Leal (segundo identificação da Fundaj), c. 1860.
KOSSOY, Boris e CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. O olhar europeu: O negro na iconografia brasileira do século XIX. São Paulo: Edusp, 1994

sábado, 31 de março de 2007

Registro 26: Êxtase

Êxtase de Santa Tereza
Bernini

Oh, meu Bem Amado, por teu amor aceito não ver nesta terra a doçura do teu olhar, não sentir o inexprimível beijo de tua boca, mas suplico-te que me abraces com teu amor. Um dia, tenho a esperança, cairás impetuosamente sobre mim, transportando-me para o lume do amor; tu me mergulharás nesse ardente abismo a fim de fazer de mim – e para sempre – a feliz vítima dele.
Tereza D´Ávila

Êxtase: estado de quem se encontra como que transportado para fora de si e do mundo sensível, por efeito de exaltação mística ou de sentimentos muito intensos de alegria, prazer, admiração, temor reverente...

sexta-feira, 30 de março de 2007

Registro 25: Sassaricando!!!!

Vírginia Lane
Vedetes em Revista
Exposição em homenagem
à atriz Virgínia Lane.
Aconteceu em São Paulo na
Caixa Cultural
09.02.2007

quinta-feira, 29 de março de 2007

Registro 24: Mito-poema

Narciso, Caravaggio
NARCISO

Raimundo Matos de Leão

Narciso,
de tanto olhar
espelho se tornou.
Congelado em si,
a ninguém mais olhou.

Narciso,
de tanto namorar
namorado se tornou
do espelho.

Narciso, cego,
ensurdecido e mudo
para o mundo
ficou.

Narciso ensimesmado
tornou-se um chato.
Trancou-se em casa,
murchado

São Paulo/1988

Eco e Narciso, John William