
sábado, 17 de março de 2007
Registro 6: Uma poesia
Raimundo Matos de Leão
Sou fruto dos
que me tiraram a verdade
e me obrigaram a sentir saudade.
A verdade era nua e crua.
Espantava
nas evidências paradisíacas que espelhava.
Um dia aprisionada
tornou-se documento da minha identidade
perdida.
Deixaram-me fora, por fora.
E eu, perdido, me reencontro
nas pegadas apagadas
dos que não sentiam saudade.
2006
Registro 5: Os da Mesa Dez
Oswaldo Dragún

PRÓLOGO
Público desta praça, boa-noite!
Somos os novos comediantes.
Somos atores que vão
de praça em praça, de cidade em cidade,
porém sempre adiante.
Se é certo que a vida do homem é uma estrela, que dura apenas um minuto
nesta infinita trajetória que é um dia do mundo, convenhamos que também é uma história.
Uma pequena história irrealizada, que termina às vezes antes de começar.
Uma pequena história para ser contada.
A comédia italiana era outra coisa.
Talvez fosse aquela época de rosas.
Hoje, espinhos se fincam em nossas mãos,
às vezes calosas, e então o arrancamos.
Às vezes de nuvem e naufragamos.
O bandolim quebrado do arlequim,
E hoje um trem furioso.
E o sorriso azul da colombina,
à esperança rosada de uma nova heroína.
Mãe, mulher, irmã.
Que como um ponto de interrogação,
Riscam o dia de amanhã do nosso calendário.
Mas nós sabemos, já que sendo atores, sábios somos,
que o sol chega até o berço de uma simples semente.
O homem não é mais que uma semente.
E a sua história, uma história simplesmente.
Nós existimos porque vocês existem.
Suas histórias nos pesam na alma.
e nossas mãos a choram.
Lágrimas de muito longe trazemos.
E também um riso.
Se algum de vocês, pais nossos,
tem um riso para ser rido ou uma lágrima para ser chorada,
que se aproxime ao fim da jornada de anos.
Atores, cantores, trovadores, caçadores de estrela.
Sua história contaremos lá,
Em longínquas praças, sob a lua, ou sob o sol, para muitos ou nenhum.
O importante é contá-la.
E sua pequena história irrealizada,
será outra história para ser contada.
Público desta praça. Muito obrigado.
O CENÁRIO ESTÁ VAZIO. DE DIFERENTES DIREÇÕES ENTRAM A ATRIZ I e II E OS ATORES I, II E III. SAUDAM-SE ENTRE SI E VOLTAM-SE PARA O PÚBLICO.
ATOR I – Certamente vocês não conhecem os da mesa dez.
ATOR II – Nós os conhecemos.
ATRIZ II – Ela se chamava...
ATRIZ I – Maria.
ATOR I – Ele se chamava...
ATRIZ I – José.
ATOR II – Eu fui amigo de José.
ATRIZ I – Eu fui amiga de Maria.
ATOR III – Ele e eu fomos amigos dos dois.
ATRIZ II – Nós faremos todos os personagens necessários, porém isto não é o mais importante.
ATOR I – O mais importante é a história em si, e se a contamos é porque talvez Maria e José estejam entre vocês, escutando-nos. E queremos que saibam que não os esquecemos. Foi uma história triste...
ATRIZ II – Não é verdade. Foi uma história alegre!
ATOR III – Foi muito divertida.
ATOR II – Foi muito amarga.
ATRIZ II – Ah, não! Lembro-me muito bem como começou... Com música! Concluíamos o colegial, dávamos uma festa!
JOSÉ – (ENTRANDO) Mas o caso é que eu não era estudante. Um amigo me havia trazido.
ATOR II – (A JOSÉ) Venha, José, vamos aproveitar! A Tereza vai te apresentar alguma amiga.
JOSÉ – Não, meu amigo, amanhã tenho que acordar às sete.
ATOR I – Vamos bater uma bola!
ATOR II – Porém o convenci, e veio.
ATRIZ I – E eu lhe apresentei uma amiga. Maria... Ele é amigo do meu namorado.
MARIA – Muito prazer...
JOSÉ – Igualmente, José.
ATOR III – E dançaram...
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DRAGÚN, Oswaldo. Os da mesa dez. Texto reprografado, s.d.
Em Os da Mesa Dez, Dragún mostra através dos personagens centrais, os jovens José e Maria, o amor e as esperanças dos que desejam se encontrar e viver uma relação afetiva superando os obstáculos impostos pelas convenções sociais. No enfrentamento das barreiras entre as classes, os personagens, ele mecânico e ela estudante de arquitetura, filha de uma família de classe média abastada, terão que dar conta da dura realidade imposta pelas circunstâncias, fato que os deixa inseguros na consecução dos seus objetivos. No entanto, há sempre uma esperança para esses jovens que querem tomar para si o norte das suas vidas.
Em torno do par central gravitam outros personagens: amigos, pai, mãe, irmã, envolvidos diretamente com José e Maria, compondo o painel dos conflitos matizados por cores que delineiam a ação, ora intensamente dramática, ora resvalando para situações cômicas sem que se perca a densidade das relações e da “mensagem” contida no discurso teatral de Dragún. Nos personagens que compõem as duas famílias aparecem as frustrações, as visões de mundo deformadas, determinantes das relações humanas e dos problemas decorrentes das atitudes que tomam em relação a si e aos outros. Além dos familiares, aparecem os amigos de João e Maria, compondo um rico painel de situações em que a camaradagem é marcada por imagens de uma juventude vivenciando conflitos e desejando acertar as suas vidas, da mesma forma que o casal central da peça.
Oswaldo Dragún estrutura seu texto utilizando-se de recursos narrativos permeando a ação dramática um efeito que distancia o espectador do foco emotivo para fazê-lo refletir sobre o que acontece em cena. Para o autor, seu teatro é fruto das imagens fragmentadas em núcleos que formam o painel vivo e sintético, mas não redutor. Dragún afirma: “Tenho uma mente que apanha o que está organizado e o desorganiza. Por isso, para mim é um horror escrever um ensaio, que exige o contrário (...). Meu teatro parte de uma realidade que está aparentemente organizada e a desorganiza”. Dessa forma concebe-se também a montagem de Os da Mesa Dez, realçando a poesia do texto sem que se despreze o elemento principal de sua estrutura que é a fragmentação em pequenas cenas rápidas, mas plenas de significados. Esses aspectos são enfatizados na concepção do espetáculo.
Tomam parte do elenco de Os da Mesa Dez, os alunos-atores: Antônio Abreu, Ava Catarina Palma, Barbarah Sossa, Mariana Martinez, Nilson de Oliveira, Ricardo Faria, Viviane Veiga.
Anualmente, a Cia. Experimental de Teatro da FSBA coloca em cartaz uma montagem sob a responsabilidade de um dos docentes, envolvendo os alunos de todos os semestres e diversos setores da Faculdade, firmando-se como espaço de experimentação cênica e aprendizado, conforme sua proposta, acompanhada e avaliada pela coordenação do Curso de Artes Cênicas.
sexta-feira, 16 de março de 2007
Registro 4: Ainda sobre Tchecov
AUTOR PROFETIZA O FIM DE UMA ÉPOCA[1]
Mariangela Alves de Lima
No primeiro ato de O Jardim das Cerejeiras o espaço indicado é um quarto cuja função se alterou pelo uso, mas ao qual as pessoas da casa se referem como “o quarto das crianças”. Ainda está escuro, as janelas estão fechadas e a rubrica determina a estação do ano. Este ato se passa em maio, no luminoso verão do Hemisfério Norte onde as noites são curtas e os dias longos. As cerejeiras estão em flor, mas só poderemos vê-las depois, quando estivermos informados sobre o significado dessas árvores para a família que habita a casa e sobre a ameaça que paira sobre o cerejal. Ao abrir-se a cena para o último ato da peça, a ação está outra vez localizada no “quarto das crianças”, agora despojado do mobiliário e tendo a um canto as malas empilhadas dos antigos proprietários da casa. As crianças que outrora viveram nesse aposento cercado de flores do verão e pelos frutos do outono permaneceram no universo descuidado da infância. Lhuba e Leonid, os irmãos arruinados pela ociosidade e pela imprevidência com que administraram a propriedade rural que deveria prover sua subsistência, estão de partida para uma nova vida. Ela voltará a Paris deixando para trás as filhas e ele, um cinquentão, trabalhará pela primeira vez.
No entanto, entre o verão e o outono, sem que nenhuma ação sensata se desencadeie para reverter a catástrofe econômica, enquanto o desagradável tema de como salvar a propriedade endividada, os personagens de Anton Chekhov modificam-se em suaves gradações, como se respondessem ao inevitável ciclo da natureza. Ao fim, para a aristocracia e para os serviçais rompeu-se o laço econômico e sentimental com o mundo rural. O novo proprietário é o homem moderno que antecipa com prazer o ruído dos machados abatendo as velhas árvores que darão lugar a construções modernas. De qualquer forma, o que desaparecerá não tem mais utilidade prática, é um jardim. Deixou há duas gerações de ser um pomar com a função de nutrir e prover os que dele cuidavam. Para a nova ordem que se instala, o sentimentalismo é um luxo.
Enquanto escrevia a peça, Chekhov comentava, na correspondência a amigos, sobre a sua comicidade. Quando a enviou para ser encenada pelo Teatro de Arte de Moscou, onde estreou em janeiro de 1904, advertiu que deveria ser interpretada como comédia. Se considerarmos a concepção canônica do gênero é ainda mais difícil aceitar essa recomendação do autor. As primeiras imagens estivais da peça são demasiadamente sedutoras e nos fazem participar do sentimento de que esse velho mundo, que se esfacela pela força do determinismo histórico e cuja injustiça “é preciso expiar através do sofrimento”, apelo patético da agonia. Seus habitantes não são cruéis ou desprovidos de encantos, são apenas insensatos e anacrônicos e nos compadecemos deles porque não compreendem. Ignorantes, comportam-se às vezes como personagens trágicos, ou seja, homens bons a quem o destino golpeou injustamente.
Ao enfatizar a graça da peça, é possível que o autor se referisse a um ritmo ou a uma forma de interpretação que contrariasse o fatalismo. O que os personagens centrais sentem e percebem como destino é desmentido pelo modo como agem. A bela Lhuba, tão gentil com os hóspedes e com os que a servem, despende uma moeda de ouro enquanto, na cozinha, os criados passam fome. seu irmão, dado a rompantes sentimentais e elegíacos desvia-se para o assunto do jogo de bilhar cada vez que é confrontado com uma discussão mais séria, que exigiria empenho e definição.
Em cada um dos personagens há enfim, um cacoete ou uma obsessão rompendo o fio da narrativa, que se introduz como um sinal de que é impossível, entre essas pessoas, manter o crescendo da ação dramática essencial para a tonalidade trágica. O que lhes acontece pertenceria por direito à categoria do drama: perderam suas raízes, estão lançados sem nenhuma rede de proteção em um mundo para o qual estão inteiramente despreparados. No entanto, o modo como se constitui o ser dessas criaturas, a alternância com que sofrem e contornam o sofrimento, sugere a adaptação de todo o organismo vivo às condições alteradas do meio ambiente. Nós os seguimos de dentro do quarto à pradaria do segundo ato, depois os vemos dançando uma quadrilha, afrancesada, enquanto ocorre o leilão da propriedade e, por fim, os reencontramos no território da infância e estão todos diferentes. Os mais velhos aquietados, sem as folhas verdes das ilusões, mas também sem a angústia da esperança, os jovens com o vigor dos que se preparam para instalar a nova ordem que substituirá a Rússia imperial.
Fundam-se sobre a sólida evidência do texto as interpretações que consideram essa obra de Chekhov como uma crônica da sua época e uma percepção quase profética da agonia do regime imperial. O novo proprietário é um filho de servos e, embora afeiçoado aos seus amigos aristocratas, exala ao fim um ressentimento de classe. O pomposo estudante Tromiov deixa a cena em direção a Moscou para assumir seu lugar na “vanguarda da humanidade que marcha em direção à verdade suprema”. Tampouco se enganam os que vêem nesse círculo de personagens à deriva entre as convulsões da História um emblema das mortes e renascimentos que, ao longo da existência, deixam marcas de crescimento na psique de cada indivíduo. O que talvez valha a pena considerar, nessa delicada construção em que o destino individual se entrelaça ao de toda uma sociedade, é que as velhas máscaras dramáticas do herói e do vilão, da tragédia e da comédia, não servem bem à representação desse movimento intencionalmente fluido. Quem se aproximar dela como se tratasse de um “drama psicológico” ou de uma competente “crônica histórica” terá eludido a articulação entre aparentes fragmentos de conservação.
Chekhov precaveu-se contra o luto sublime que poderia envelopar, como um manto de mau gosto, as suas cerejeiras evanescentes. Não contava, talvez, com a possibilidade de que a sua classificação da peça dentro do gênero cômico estimulasse saltitantes vaudevilles. Já aconteceu.
[1] LIMA, Mariangela Alves de. Anton Chekaov: autor profetiza o fim de uma época. In: Caderno 2, O Estado de São Paulo – D3, 1 de novembro de 2000.
Registro 3: Fragmentos tchecovianos
A Gaivota
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Registro 2: Literatura para crianças

Quando Hobrecker iniciou sua coleção, há 25 anos, os velhos livros infantis eram usados como papel de embrulho. Ele foi o primeiro a oferecer-lhes um asilo, por algum tempo, contra as fábricas de papel. Entre as milhares de obras que abarrotam suas estantes, há talvez centenas que têm nesse local seu último exemplar. Não é com pompa e dignidade profissional que esse arquivista dos livros infantis aparece em público. Ele não visa o reconhecimento pelo seu trabalho, mas a participação do leitor na beleza que ele revelou. O aparelho erudito – principalmente um apêndice bibliográfico de cerca de duzentos dos títulos mais importantes – é bem vindo para o colecionador, sem importunar o leigo. Segundo o autor, o livro infantil alemão nasceu com o Iluminismo. Era na pedagogia que os filantropos punham à prova o seu grande programa de remodelação da humanidade. Se o homem é por natureza piedoso, bom e sociável, deve ser possível fazer da criança, ente natural por excelência, um ser supremamente piedoso, bom e sociável. E como em todas as pedagogias teoricamente fundamentadas a técnicas da influência pelos fatos só é descoberta mais tarde e a educação começa com as admoestações problemáticas, assim também o livro infantil em suas primeiras décadas é edificante e moralista, e constitui uma simples variante deísta do catecismo e da exegese. Hobrecker critica esses textos com severidade. Não podemos, com efeito, negar sua aridez e mesmo sua irrelevância para o leitor infantil. Mas essas falhas, já superadas, são insignificantes se comparadas com os equívocos que hoje estão em moda graças a uma suposta “empatia” no espírito da criança: a jovialidade desconsolada das histórias em versos e as caretas hilares desenhadas por pretensos “amigos das crianças” para ilustrar essas histórias. A criança exige dos adultos explicações claras e inteligíveis, mas não explicações infantis, e muito menos as que os adultos concebem como tais. A criança aceita perfeitamente coisas sérias, mesmo as mais abstratas e pesadas, desde que sejam honestas e espontâneas e, por isso, algo pode ser dito a favor daqueles velhos textos. _____________________________________________________________
Walter Benjamin escreve a resenha Livros infantis antigos e esquecidos em 1924. Perspicaz e amoroso, o crítico, filósofo, homem de muitas sabedorias, ilumina o texto com imagens de pensamento, abrindo janelas sobre o tema. Vale a pena passear sobre suas idéias e pensar nos livros produzidos, hoje, para as crianças desse imenso livro que é o Brasil. Em 1989, Fanny Abramovich, escreve:
Querer saber de todo o processo que acontece, do nascimento até a morte, faz parte da curiosidade natural da criança, pois se trata da vida em geral e da sua própria em particular... Saber sobre seu corpo, sua sexualidade, seus problemas de crescimento, sua relação (fácil ou dificultosa) com os outros faz parte do se perguntar sobre si mesma e do precisar encontrar respostas... (...). A questão é saber como o tema é abordado: se sem medo, sem reservas, sem fugir das questões principais ou fazer-de-conta que não existem... (...). Estamos falando de literatura... Portanto, não se trata de livros didáticos, de não-ficção, onde se disserta, se dá explicação objetiva, seca, dura... Não é a demonstração dum teorema (a vida não é bem assim...) nem a explanação dum fenômeno científico distante (...) Estamos falando de literatura, de ficção, de histórias onde se aborda um – ou vários problemas – que a criança pode estar atravessando ou pelo qual pode estar se interessando...
ABRAMOVICH, Fanny. Literatura infantil: gostosuras e bobices. São Paulo: Scpione, 1989, p. 98-99.
- EU QUEEEEEEEEEEEEERO UM MURO NO MEEEEIO DO CAMINHO!!
O berro foi ouvido por todos em seu apartamento e no do vizinho também, mas a vida continuou no ritmo do relógio. Tic-tac, tic-tac, tic-tac! Só o ritmo de Juca parecia mais acelerado naquela manhã.
A mesa estava posta. Durante o café, depois de um grande silêncio, interrompido de vez em quando pelo creck-crck das torradas, Dona Amélia, mãe de Juca, tentou saber que história era aquela de muro no meio do caminho. Juca, muito misterioso, olhou para xícara de café com leite e depois para o bule; em seguida, encarando a mãe, na respondeu. Dona Amélia estava intrigada, precisava saber o significado daquele berro. Lá na cozinha, o papagaio gritou:
- Traz o café do louro, Divina!
Divina deixou mais torradas quentinhas na mesa e lá se foi pra cozinha, sem saber a tal história do muro.
LEÃO, Raimundo Matos de. Um muro no meio do caminho. Ilustrações de Beth Kock. São Paulo: Salesiana Dom Bosco, 1987.
Enquanto isso, nós dois, eu e meu irmão, no córrego, andamos pra baixo e pra cima. Mas nós não brincamos disso só por causa da água. É que lá no fundo, brilhando, sempre tem uns pedaços de vidro. Minha mãe diz, e minha avó concorda com ela, que o nome certo é louça antiga, mas nós já estamos acostumados, meu irmão e eu, a dizer que são cacos de vidro. Eles são grandes, pequenos, quebrados, redondos, compridos, grossos, finos, de todo jeito. Às vezes são coloridos, às vezes são brancos.
VIANA, Vivina de Assis. O rei dos cacos. Ilustrações de Carlos Moreno. São Paulo: Salesiana Dom Bosco, 1986.
Mônica e Dona Lelena batiam muitos papos.
- Taí, mamãe. Cansei de ver na televisão, de ler nas revistas, mas nunca achei que ia acontecer comigo. Não acredito. Não pode ser verdade. É um pesadelo sem fim. Um horror total!
- Precisa ter esperanças, minha filha.
- Esperança? No quê? De quê? Estou doentíssima e você vem falando de esperança...
- Podia procurar outro médico.
- Boa idéia! Quem sabe uma outra opinião? Um jeito diferente de me tratar?
- Talvez um outro remédio. Tenho algumas economias. Vamos usar. Todinhas. Já falei com o Heitor. Ele concorda.
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ABRAMOVICH, Fanny. Dias difíceis. Ilustrações de Helena Alexandrino. São Paulo: Moderna, 2002.
Registro 1: Inauguração
Octavio Paz
Leio num poema:
conversar é divino.
Porém deuses não falam:
fazem, desfazem mundos,
enquanto os homens falam.
Os deuses, sem palavras
jogam jogos terríveis.
O espírito desce
e desata as línguas,
porém não fala palavras:
fala lume. A linguagem
elo deus inflamada
é uma profecia
de chamas, um desabar
de sílabas queimadas:
cinzas sem sentido
A palavra do homem
é filha da morte.
Falamos porque somos
mortais: palavras não
são signos, são séculos.
Ao dizer o que dizem
os nomes que dizemos
dizem tempo: nos dizem,
somos nomes do tempo.
Conversar é humano
Tradução de Augusto Massi

