sábado, 4 de junho de 2011

Registro 356: OCUPAÇÕES FLÁVIO IMPÉRIO



ENCONTRO COM FLÁVIO IMPÉRIO

Raimundo Matos de Leão[1]

A vida se encarrega de proporcionar encontros, uma variedade deles. E os encontros são como fios com os quais tecemos a nossa passagem pelo Mundo. Algumas pessoas seguem em frente, outras saem de cena e outras permanecem, não sabemos até quando. Muitas são esquecidas propositadamente e o esquecimento é resultado de razões variadíssimas. Um presente singelo, recebido recentemente, desencadeou um fluxo de lembranças. Assim, escrevo sobre um encontro, ou melhor, sobre uma pessoa que certo dia entrou em minha vida marcando-a de maneira indelével. Refiro-me ao arquiteto, professor, desenhista, gráfico, pintor, cenógrafo e figurinista Flávio Império (1935-1985).
Ao retornar do trabalho, encontro num saco plástico, dos que deveríamos abolir, uma pequena bandeja com salgadinhos (saborosos) e duas canecas de alumínio polido. O kit (salgadinhos e canecas) nomeado de Bangladesh  pelo presenteador, o encenador Celso Nunes, continha um convite para a abertura de Ocupação Flávio Império, a instalação inaugurada no Itaú Cultural – São Paulo. O evento coordenado por Vera Império Hamburguer, sobrinha do multiartista, tem espaço concebido pelo cenógrafo Helio Eichbauer e inclui a instalação Ocupação Flávio Império além de oficinas de serigrafia e exibição de filmes, permanecendo em atividade até 17 de julho na sede do Itaú Cultural, Avenida Paulista, 149. Para aqueles que não podem ir ao evento como eu, preso por compromissos profissionais, recomendo acessar http://itaucultural.org.br . O site dispõe de informações necessárias para se ter uma ideia da imensa ação de Flávio Império, um renascentista na contemporaneidade.
O material disponível é de uma beleza incontestável e diz para todos nós como um artista se coloca no mundo e se apropria dele com sensibilidade, consciência de pertencer a uma geração, compreender o legado de outros e reinventar-se a cada dia. Os depoimentos e a reprodução dos trabalhos de Flávio Império dispostos na página intitulada Ocupação fornecem pistas para que se anteveja o resultado da digitalização do acervo do artista e a criação de um site sobre sua vida e obra patrocinadas pelo Itaú Cultural. Aguardemos. O acervo foi preservado pela família, sob a responsabilidade de Amélia Império Hamburguer, irmã de Flávio Império – falecida recentemente – e deverá seguir sua trajetória sob a guarda dos sobrinhos, penso eu.
Passada as informações sobre o evento, retorno ao início, ao tema do encontro. O meu encontro com Flávio Império no tempo em que eu era ator em São Paulo. Encontro acontecido de maneira surpreendente; outros encontros se deram até que o artista desligou-se de nós e foi cenografar noutras paragens, depois de ter feitos os mais belos, instigantes e criativos cenários para espetáculo teatrais e shows, entre eles os de Maria Bethânia, uma marca constante  na carreira da cantora. Para o Teatro de Arena, para o Grupo Oficina e para produções independentes, Flávio Império fez cenários e figurinos que influenciaram uma geração e permanecem ainda como uma referência inovadora por conta das soluções postas a serviço da cena. Suas invenções extrapolam o campo cenográfico para se fazer na pintura, na arquitetura e na vida. Império construiu uma vida no palco e fez da vida um palco, sem a superficialidade do vedetismo que por vezes impregnam a vida dos artistas.
De personalidade marcante, crítico mordaz, Flávio Império conseguia equilibrar suas observações certeiras com a doçura que por vezes tentava esconder. De uma energia mística, mas não mistificadora, motivo de crítica por parte de segmentos de esquerda a que pertenceu, Flávio transcendeu estes limites para se fazer um homem do seu tempo sem as amarras dicotômicas e maniqueístas que rondam este segmento.  Flávio pertenceu ao Teatro de Arena e atuou politicamente num determinado momento de sua vida. Mas a sua inquietação, o pensamento largo e a consciência aguda fizeram com que ele se “desligasse” deste engajamento sem deixar de ser um homem engajado, mais próximo de Camus que de Sartre, penso eu. Flávio não tinha aquela concepção autoritária do poder, era contrário ao pensamento único e exaltava a liberdade de expressão, campo por onde transitava com desenvoltura. Ampliando o seu pensamento, pois fora da rigidez que acometeu muitos dos seus companheiros de trabalho, ele soube agir sempre na perspectiva da transformação.
Por onde passou, o artista deixou pistas criativas das mais instigantes. Transitando entre o erudito e o popular com desenvoltura, colhia nos dois campos os elementos estruturadores de sua obra. Atento, conseguia ver a produção dos artistas populares com olhos iluminadores, dando-lhes outros significados sem diminuir a força dos objetos colhidos por suas andanças em São Paulo, Minas, Goiás, Pernambuco, Bahia. Império respeitava de maneira responsável o trabalho dos artistas anônimos, da mesam maneira como respeitou o dos seus pares.
Descendente de italianos, o artista tinha a força telúrica dos que nascem ao Sul da península, combinados com a brasilidade que se mostrava em cada quadro, cenário, escrito. Tal combinação vai se refletir na maneira como atua. Os signos criados pelo artista ao longo de uma carreira interrompida aos cinquenta anos, mostram a capacidade de olhar o Brasil na diversidade com que o país se revela e traduzi-la esteticamente
Flávio Império dominava palavra e com ela, seduzia o interlocutor sem anulá-lo. Captava com muita habilidade o pensamento do outro, por mais simples que fosse e dialogava. Esta palavra tão gasta era vivida em seu sentido mais pleno. Interação posta em movimento, assim era a ação do artista com o mundo e com seus semelhantes.
Aprendi muito com este professor que dizia não ensinar nada e que somente facilitava o aparecimento do potencial daquele se dispusesse a entrar no jogo da descoberta, ou melhor,  da autodescoberta. Em sua casa na Aclimação, quase um sítio em meio ao bairro, depois na Rua Marquês de Paranaguá, residência de sua mãe e por fim na Rua Monsenhor Passaláqua, na Bela Vista, passei horas conversando e trabalhando com ele, pois Flávio vivia sempre em atividade e envolvia o visitante no trabalho. A conversa, às vezes marcada por longos silêncios, era o entrosamento do fazer e do pensar, não necessariamente nesta ordem. Ainda ouço sua risada, forte, suas frases irônicas, seu carinho diante das minhas carências, suas dicas sobre a arte, o artista e a vida.

Homem Nu, 1970
Serigrafia em acetato

Ganhei muitos presentes do artista, algumas gravuras destruídas pela ação do tempo; o desenho que conservo na cabeceira da cama; meu retrato Casca-máscara,  sem data, mas pintado por volta de 1976; um pano impresso com as pombas (serigrafia) que fez para o cenário de Cena Muda, show de Maria Bethânia. Lamento ter perdido a gravura em acetato, Homem Nu, que me deu por volta de 1977, quando veio pela primeira vez à minha casa. Flávio voltava de Salvador onde passara o carnaval hospedado na  casa de José Possi Neto, na Boca do Rio. Bons tempos! Nas conversas que tiveram, Possi comentou sobre mim.  Assim que Flávio retornou a São Paulo foi me procurar, levando-me a gravura.  Daí para frente nos tornamos amigos e a minha admiração, por vezes motivo de suas ironias, crescia na proporção que eu descobria um ser humano valoroso e o artista genial que era. Atuei na encenação de A Falecida (1979), de Nelson Rodrigues,  direção de Osmar Rodrigues Cruz. Acompanhei de perto a construção da cenografia concebida por Flávio Império. Deste encontro retenho a experiência  de ver um cenógrafo participar do processo desde o pensar até meter as mãos na confecção do cenário, com uma sabedoria que incluía o saber do outro. Ele não ordenava, ele fazia junto.
Na referida gravura em acetato, há um texto que reproduzo. Ele é o retrato desse grande artista:


Tens algo do fogo, tens algo do ar, tens algo da terra, tens algo dos animais, tens algo dos anjos. 
Tens a verdade e ela é livre.


[1] Professor adjunto da Escola de Teatro – Universidade Federal da Bahia.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Registro 355: Contra a intervenção da bancada religiosa

A notícia abaixo, em azul, foi publicada em a Folha de S. Paulo, edição de hoje. Ao mesmo tempo, leio que a Presidente Dilma Rousseff fez concessões à bancada religiosa no Congresso, barrando material a ser distribuido pelo Ministério da Educação esclarecendo aos estudantes do ensino médio sobre questões relaciondas à homofobia. Não conhceço o material, portanto me abstenho a defendê-lo ou acusá-lo. Mas não posso deixar de me preocupar com o avanço cada vez mais incontrolável dos deputados e senadores ligados às igrejas que se estabeleceram no Brasil. Hoje querem a mão, amanhã o braço e daí?! Como é que fica a situação de quem não professa nenhum dos credos? Como fica a situação dos que creem, mas não concordam com tais medidas impostas de cima para baixo?

Vivemos em um Estado laico e não podemos seguir os ditames de um grupo ou de grupos religiosos. Primeiro, porque membros de todas as igrejas, dirigentes e fiéis não estão acima do bem e do mal. Pelo contrário, agem como todos aqueles que não seguem qualquer dos credos vigentes, visto que são humanos e imperfeitos. Os fatos estão aí para provar.

Qual o direito que estes grupos tem de se arvorar detentores de códigos reguladores para uma população multireligiosa que conta com ateus e agnósticos e que não desejam ser enquadrada a partir de um universo passível de ser questionado?


Prezo muito o sagrado, mas não posso concordar com tais medidas e intervenções. Sabemos que em muitos templos, os dirigentes fomentam a violência, estimulando a agressão aos que não comugam com suas "verdades". É preciso que se pense numa formar de diminuir tais interferências em nome de uma moral nem sempre seguida. Basta de tanta hipocrisia.

As igrejas, valores e o pertencimento a elas são do âmbito da família e estritamente pessoal, agora querer regular a vida de todos impondo regras é uma questão perigosa.

A notícia sobre a morte do professor no Afeganistão deve servir como ponto de reflexão

Atiradores do Taleban mataram o diretor de uma escola feminina perto de Cabul, a capital afegã, porque ele ignorou ameaças para que parasse de lecionar para meninas. A informação é de funcionários do governo. Kham Mohammad, diretor da escola Porak para meninas, na província de Logar, a cerca de uma hora de carro da capital afegã, Cabul, foi morto a tiros perto de sua casa anteontem.

Ele havia recebido diversas ameaças de morte da parte do Taleban, que o avisou de que não deveria lecionar para meninas.

Este é o mais recente ataque da linha dura islâmica que se opõe à educação das mulheres -proibida pelo Taleban quando o movimento governou o Afeganistão, entre 1996 e 2001- por, supostamente, violar os preceitos islâmicos.

As mulheres reconquistaram alguns direitos depois que o Taleban foi derrubado por forças afegãs com apoio dos EUA, em 2001, entre os quais o de estudar e o de votar. Mas ataques esporádicos contra alunas, professores e edifícios de escolas onde elas estudam continuam acontecendo.

O governo afegão prometeu garantir avanços, promessa que parece difícil agora que os líderes afegãos estão iniciando um processo de reconciliação que inclui negociações com o Taleban. As agências de assistência ao desenvolvimento temem que os governos ocidentais estejam dedicando atenção excessiva à transferência de responsabilidades de segurança para unidades afegãs sem que tenham cimentado os avanços conquistados pelas mulheres, tais como o direito à educação.

Meninas voltaram a estudar nos últimos anos, especialmente em Cabul, mas é difícil exercer e proteger esses direitos nas regiões mais remotas do Afeganistão.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Registro 354: Zelita, uma tia querida


Zédindinha, minha irmã e eu.

Hoje, no meio da manhã, recebi a notícia de que minha querida tia Joselita, Zelita para os mais chegados e Zédindinha para mim e meus irmãos, fizera a sua passagem. Inesquecível em sua doçura, amou a todos incondicionalmente e viveu a vida distribuindo sorrisos. Um sorriso cativante de quem sabe relevar as imperfeições humanas e seguir em frente. 

Zédindinha, recebeu este diminutivo carinhoso por conta de ser madrinha de uma de minhas irmãs, mas eu me apropriei dele e passei a chamá-la assim, às vezes criando confusão para aqueles que não sabiam do nosso jeito de tratá-la.

Caçula de cinco irmãos, Zédindinha foi (é) querida por todos. Para mim, uma pessoal especial. Esteve junto a mim desde a minha tenra infância e posso dizer que ajudou minha mãe, sua irmã, a me criar. Ao longo da vida amparou a todos e nos momentos de crise, ela sempre esteve junto, sendo esteio e segurança. Para ela, as minhas homenagens e as flores mais lindas. Guardarei na memória o seu sorriso estampado no belo rosto que encantou a todos.

Anne Frank, em seu diário, afirma, sem nenhuma dúvida, acreditar na bondade humana, apesar de tudo. Não tenho a grandeza da jovem, mas tenho certeza de que Zédindinha era a bondade em pessoa, e assim, contribuiu para que esta qualidade não diminuísse no mundo.

Agora, reunidas as três irmãs, Edna, Ester e Joselita, trocarão confidências como sempre trocaram enquanto estiveram entre nós.



Registro 353: Zé Renato

Palmas para José Renato, fundador do Teatro de Arena, que deixou a cena.

domingo, 17 de abril de 2011

Registro 352: Fim de Partida no Teatro Martim Gonçalves


FIM DE PARTIDA


Raimundo Matos de Leão

Fim de Partida, de Samuel Beckett (1906-1982), ou Fim de Jogo, numa tradução mais literal, em cartaz no Teatro Martim Gonçalves, é fruto da parceria entre Rita Carvalho Produções e a Cia de Teatro da UFBA. Sob a direção de Ewald Hackler, responsável também pelo cenário e figurino, conta no elenco com  Harildo Déda (Hamm), Gideon Rosa (Clov), Gil Teixeira (Nagg), Maria de Souza (Nell). Luz: Eduardo Tudella.
Ao sair da sessão de ontem (16 de abril de 2011), tive a certeza de que o texto de Samuel  Beckett requer não somente um diretor experimentado, mas, sobretudo, um elenco que torne possível assistir à peça, já que ela se torna um exercício de paciência. Cabe aos atores o mérito de tornar suportável o insuportável. Portanto, deixo claro que o texto não é o meu preferido. Muito se gastou e se gasta papel e tinta para exegeses em torno de Fim de Partida e da obra de Beckett como um todo. Mas diante de Esperando Godot, Fim de Partida  parece mais a repetição de um pensamento circular. A minha objeção ao texto não foi impedimento para apreciar a encenação no palco do Martim Gonçalves.
Ao abrir-se a cortina, vemos dois restos humanos, Hamm e Clov. No fundo da sala onde se passa a ação, dois latões de lixo servem de abrigo para mais dois rebotalhos, Nagg e Nell, pais de Hamm. O tempo se arrasta levando-nos de roldão. O matraquear dos passos de Clov marcam o ritmo das vidas que se estiolam. Para preencher o vazio, eles falam, se agridem, reclamam, rememoram. E fica claro que não há saída, nem solução, ainda que no final, Clov preparado para partir, adentre o recinto de onde quer fugir e se coloca na moldura da única porta porta na sala. Nem lá nem cá. Mas antes que tome a iniciativa de partir, a luz se apaga sobre o vazio e lúgubre ambiente. Nada a fazer. Estão os dois condenados a viver a condição de senhor e escravo no que ela tem de dependência, subserviência e necessidade um do outro.
Do interior de um dos latões de lixo surge Nagg, e em seguida Nell; vivendo em suas respectivas latas de lixo, a aproximação torna-se difícil. Eles não têm pernas, visto que no passado sofreram um acidente. Ainda que vivam degradadamente, instantes de recordação se insinuam entre eles, deixando entrever afeto em meio a brutalidade da vida no lar, onde o filho cego tiraniza a si e aos outros.  Como em Godot, parece não haver mais ninguém além dos quatro personagens, ainda que se mencione uma ou outra pessoa.
O mundo pós Segunda Guerra e os temores da Guerra Fria são dados para que se compreenda a obra de Beckett. Tanto Esperando Godot quanto Fim de Partida chegam à cena na década de cinquenta, tempo conhecido como de prosperidade, de arrumação da casa-mundo destroçada pela barbárie anterior. E Beckett injeta na cena indagações sobre a condição humana, pois desconfia da euforia. De lá para cá suas indagações parecem soar com mais veemência, em virtude do mal-estar instalado no cotidiano e que se tenta disfarçar pelo consumo, pelos antedepressivos, pelo culto ao corpo e sua reconstrução artificial, recursos para  se conseguir a felicidade no tempo de agora.
A cena construída por Ewald Hackler potencializa o mal-estar, pois sua organização não desvia a atenção do espectador para efeitos teatralistas que possam amenizar a crueza da peça. Sua concepção ressalta os conteúdos da obra ajustando-os ao espaço, numa leitura muito fiel ao que pede o autor. Assim, também os figurinos se adéquam ao todo da encenação e nenhuma nota desviante dilui a cena no seu propósito de evidenciar a condição humana, toda ela sem perspectiva, desejosa de futuro e que vê adiante somente incerteza. Dias melhores ou morte latejam na cena concebida pelo encenador; assim, a ação flui passo-a-passo entre fala e silêncio, algumas explosões e muita ironia. A narrativa das vidas isoladas e situadas no mundo em destruição presentifica-se na cena que, sabemos, não terá fim. Tudo recomeça.
Para dar corpo às ideias do autor e às suas como encenador, Ewald Hackler conta com quatro intérpretes de visíveis qualidades cênicas. Cabe a eles corporificar esse mundo destruído, cercado por quatro paredes, onde vidas decrescendo agarram-se aos fios de esperança. Harildo Déda em cena, desde o início da peça, permanece preso a cadeira de rodas, pois, cego, não consegue mover-se, dependendo sempre de Clov. A caracterização do ator é impressionante, causando impacto sobre a plateia, seu físico e sua voz servem ao personagem; os gestos, em sua maior parte contidos, se expandem quando as emoções assim exigem. Dosando humor corrosivo com sutil ironia, Harildo Déda apresenta um Hamm em suas diversas facetas de opressor e dependente de sua vítima. Nos monólogos, trabalhados com extrema acuidade, o ator explora a sua capacidade de entender o que pensa o personagem, estampando com equilíbrio a solidão de Hamm, um triste palhaço convencido de sua onipotência.
Cabe a Gideon Rosa dar vida a Clov, o servo que, na criação do ator, apresenta-se como um galho seco e torto a se arrastar no mesmo ritmo, entre a cozinha, seu mundo particular, e a sala-cela onde está aprisionado, da mesma forma que seu amo. Corpo e voz dão a medida do personagem na sua impossibilidade de sentar, por isso as pernas ganham uma dimensão e seus passos criam a musicalidade do espetáculo sem música. Música monótona tal qual a vida de Clov, condenado no ir e vir, a executar tarefas mecanicamente. Gideon Rosa constrói no corpo o drama da repetição.
Os dois atores, Harildo Déda e Gideon Rosa, sabem que a peça é centrada na relação dependente dos personagens que interpretam, e sabem também que a encenação armou a cena em função dos dois. É no embate dos dois que a peça se apresenta criando um clima obsessivo, com seus jogos destrutivos de quem sabe que não há alternativa para eles em um mundo que também não funciona. Os atores destilam as camadas emocionais conferindo densidade à monotonia, cada qual infernizando o outro com sua rabugice. Dois atores na força de sua experiência teatral despertam interesse para uma peça sem peripécias, profundamente niilista . Por isso mesmo necessita do talento/técnica dos dois atores para manter atenta uma platéia. Plateia onde se encontram espectadores desavisados sobre o que foram ver e que por isso terminam abandonando a sala ou manifestando seu mal-estar durante a sessão. Não é teatro fácil. Por isso mesmo a tarefa dos atores se desdobra. O elenco de Fim de Partida tem a oportunidade de mostrar competência no manejo de seus recursos para fazer chegar até o público esse mundo incômodo e insuportável. Não fosse o elenco,  seria difícil suportar duas horas de um enredo esgarçado e repetitivo, martelando o oco da nossa existência.
Não há efeitos desnecessários, não há pirotecnia, nem concessão por parte do encenador. Portanto, há espaço para que os intérpretes centrais e os coadjuvantes mostrem que a montagem depende dessa capacidade de tradutibilidade que, por mais que consigamos localizar e tornar objetiva, passa por algo indizível.   
Para o casal de velhos, a direção encontrou dois intérpretes, Gil Teixeira e Maria de Souza, distante da idade presumível para os personagens de Nagg e Nell. Tanto um como o outro tiram partido dos seus personagens passando por cima dessa hipótese, e nos dão uma interpretação permeada de gestos delicados, remetendo a velhice à infância. Perdidos em suas lembranças, cabe aos dois superar os dias difíceis, mergulhando na rememoração para amenizar a convivência forçada ou escolhida, já que, antes do acidente que lhes amputou as pernas, eles estavam juntos. As intervenções dos atores/personagens acentuam o patético da cena.
          Encenação difícil, Fim de Partida requer o investimento do espectador, mas que não deve afastá-lo do Teatro Martim Gonçalves. Há algo no palco para ser apreendido e aprendido, visto que o rigor da cena inscreve a montagem na linhagem dos clássicos, tal a harmonia com que o encenador arma o jogo cênico, concebe o cenário e figurinos, orienta a criação dos objetos (Claudete Eloy e Maurício Pedrosa) e da maquiagem (criação de Roberto Laplagne) e dá margem ao criador da luz de fazê-la consubstanciada aos princípios que regem a concepção de Ewald Hackler.
          O teatro baiano só tem a lucrar com espetáculo de tal monta.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Registro 351: Aguardando um filme



Com ansiedade, positiva é certo, por isso não desgastante, eu esperava que o filme Homens e Deuses de Xavier Beauvois estreasse hoje em um dos cinemas de Salvador, mas nada. Os exibidores estão lentos e andam caprichando na programação de filmes sem mérito, ou melhor de pouco mérito, para não desencadear a fúria de muitos. Não acredita, basta olhar o jornal e ver que os lançamentos não ultrapassam a linha mediana do que se espera de uma bom filme. A maioria é de produtos medíocres.E não estou falando de filme "cabeça", expressão hoje em dia usada para qualificar ou desqualificar filmes que exigem um pouco mais de sensibilidade, de atenção, de reflexão por parte do espectador. 

O filme de Xavier Beauvois, biscoito fino, como diria Oswald de Andrade de sua poesia "um dia, a massa comerá do biscoito fino que eu fabrico", não chegou. Esperarei, pois quero vê-lo em tela grande. Homens e Deuses vem precedido de críticas das mais elogiosas. Para muitos, a crítica não é um indicador seguro. Por vezes ela comete exdruxulice, mas as que li até o momento despertaram-me a vontade de apreciar a obra. Resta esperar. Espero não me decepcionar, visto que os programadores das salas optam, em sua maioria, pelo previsível. Ah, desconfio sempre da quantidade de estrelas com que os colunistas dos jornais agraciam alguns filmes. Por hoje é só, como dizia Sílvio Lamenha, "poesia é axial"

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Registro 350: Um seguidor de Grotowski

O americano Thomas Richards, principal seguidor de Jerzy Grotowski (1933-1999) -diretor polonês que revolucionou as artes cênicas com a criação de seu "teatro pobre"-, participa do Encontro Mundial das Artes Cênicas, em Belo Horizonte.

O evento, que começou no dia 10 e vai até 1º de maio, busca refletir sobre o fazer teatral através do compartilhamento de ideias e trabalhos de artistas de diversas nacionalidades.


Richards, grande destaque da programação, apresenta através de workshops os princípios básicos da prática em performance desenvolvidos no centro de pesquisa criado por Grotowski em 1986, hoje chamado Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards.


Richards conversou com a Folha sobre sua experiência com o diretor polonês cujas pesquisas influenciam a criação teatral até hoje. 



Folha - Na sua opinião, qual foi a maior contribuição que Grotowski deu ao teatro? 

Thomas Richards - Grotowski sempre procurava a verdade, algo que ia além de formas e imitações. Sua descoberta relacionada ao impulso como fundamento da ação foi uma inovação notável que ainda hoje pode nos ajudar a tocar acordes escondidos em nós, parte do inconsciente coletivo. 



A devastação da Polônia, dizimada pela invasão nazista, foi testemunhada por Grotowski. Isso se refletiu na criação de seu teatro pobre? 

A experiência certamente o marcou, criando nele a consciência de que a história pode afetar profundamente a vida das pessoas. 



Por que após 1969 Grotowski parou de dirigir? 

Grotowski foi reconhecido como um dos maiores diretores do mundo. O caminho mais provável teria sido se prender a isso. Mas ele deixa isso pra lá e dedica-se exclusivamente às suas pesquisas. 



Por que você acha que foi escolhido por Grotowski para ser seu seguidor?

Não há mistério nisso. Como em qualquer situação profissional, houve uma demanda por competência e dedicação.Tinha acabado de me formar na Universidade de Yale. Estava com 22 anos, insatisfeito, sentindo que algo dentro de mim precisava ser revelado. Ele estava entrando na última fase de sua vida, precisava passar seu conhecimento. 



Qual foi o grande ensinamento que você teve com ele? 

Ele me fez responder uma pergunta que eu tinha, mas não conseguia formular. Quando eu o conheci, minha sensação é de que estava sufocando. Seu trabalho tende para uma espécie de reconexão. Nossas pesquisas para esse tipo de despertar são baseadas num trabalho diário, que dura uma vida. 



Como seu centro de pesquisa faz avançar o pensamento de Grotowski?

Nós nos esforçamos para criar uma contracorrente que impulsiona o ser humano a restabelecer uma ligação humana, mesmo que isso vá contra os nossos desejos de isolamento e proteção. 



Qual será o foco de seu workshop no Brasil?

Artistas brasileiros terão oportunidade de participar da nossa prática pela primeira vez. Vamos investigar elementos essenciais do nosso trabalho, como contato, impulso, intenção, ação, reação, e explorar razões que levam artistas à criação.



Folha de S. Paulo 12 de abril de 2011. Entrevista concedida à jornalista Gabriela Mellão

domingo, 3 de abril de 2011

Registro 349: Flávio Império em vídeo

Registro 348: Flávio Império em vídeo

Registro 347: Num domingo entediante

Tem gente que veio ao mundo para atrasar o processo civilizatório. Pura especulação? Sei disso, mas diante do que presencio e leio cabe especular. A máxima é uma provocação. 


Espanta-me o que é dito, espantam-me atitudes irreprováveis em um mundo que se quer civilizado. Eu, com meu aforismo, posso espantar. O mundo avança, mas os humanos, ou pelo menos alguns humanos, parecem permanecer no ponto zero. São muitos? Penso que sim.  


Cada dia que passa desaba sobre o nosso cotidiano os maiores descalabros e minha sensibilidade educada com tenacidade é agredida. Ainda assim, mantenho minha inabalável capacidade de acreditar na beleza do nosso mundo. E quando a agressão é insuportável cerco-me de boa literatura, cinema, teatro, artes visuais e  música. Assim, eu resisto. 


Recebi o texto de Frei Betto por e-mail. Não havia nenhuma informação sobre a publicação original do texto. Visto que na Internet há muito gato por lebre, espero que o texto seja mesmo do dominicano. Aviso quem não comungo com todas as ideias de Frei Betto nem compartilho com algumas de suas atitudes, mas gostei do texto.



DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL

Frei Betto


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.

Aquilo me fez refletir: “Qual dos dois modelos produz felicidade?” Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não, tenho aula à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde”. “Não”, retrucou ela, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, perguntei. “Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.

Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse”: “Tenho aula de meditação!”

Estamos construindo super-homens e super-mulheres totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizadosPor isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um super-executivo se não se consegue se relacionar com as pessoas.

Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação! Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!”

Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? Antes, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade.

Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real!

É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais. A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é “entretenimento”; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.

Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

 Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista.

Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista.

Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's.

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores, como vocês, o assediavam, ele respondia”:

“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

sexta-feira, 25 de março de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

Registro 345: Uma flor para Elizabeth Taylor

Uma cena de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf

Inesquecível em Um Lugar ao Sol, Assim Caminha a Humanidade, Gata em Teto de Zinco Quente, De Repente, no Último Verão, Disque Butterfield 8, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf, Pecado de Todos Nós. Seus olhos eram piscinas azuis-violetas. Sua presença magnética. Sua vida um melodrama. Uma dama desregrada que enchia a tela de volúpia. Assisti quase todos os seus filmes, mesmo os ruins, mas sua presença diluía a má qualidade de certos filmes. Um ícone do século XX, ela sabia de sua importância no cansado século XXI. Flores para Elizabeth.

quarta-feira, 9 de março de 2011

344: Carnaval em Cachoeira - Bahia


Fugi do caos carnavalesco para Cachoeira. Não senti saudades de Salvador durante os dias que por lá passei. Cachoeira desperta em mim sentimentos contraditórios. Gosto do que vejo, da sua atmosfera... sinto-me bem na cidade. Por outro lado, me angustio ao ver que ela tem potencial que não é explorado. Explorado a partir de um projeto que respeite suas características e sua identidade, seu jeito de ser. Penso sempre em Parati todas as vezes que vou à jóia do Paraguaçu, preguiçosamente posta em sua margem num diálogo com sua cara metade, São Félix.
Tudo é beleza e tudo é ruína. Andar por suas ruas e ver como é lindo aquilo que está cuidado, restaurado, respeitado. É um prazer desfrutar da poesia que emana de seus casarões e das pequenas casas que compõem o cenário de ladeiras, praças e ruas estreitas, e becos que guardam silenciosamente camadas do tempo depositadas em cada janela, porta, telhado. É triste saber que muita coisa podia ser melhor cuidada e não é. Fico a sonhar com Cachoeira inteiramente restaurada, mas não tratada como parque temático ou algo parecido. Restaurada para se manter como uma cidade histórica viva e não morta. Uma cidade que precisa do seu jeito especial para sobreviver. O atrativo é sua arquitetura, sua história, sua vida cultural. Modificá-la é matá-la. E quando afirmo isto, não desejo que ela viva como um museu, mas que se espelhe em Ouro Preto, em Parati e outras tantas cidades brasileiras cujos moradores sabem o que significa morar em lugar que é diferente e diverso da mesmice que torna tudo moderno.
O rio. Fiquei horas olhando suas águas e pensando que o vapor já não navega como antigamente. Olhar São Félix tão longe, tão perto e deixar o espírito voar entre uma margem e outra e depois fazer a travessia pela ponte. Travessia que deve ser feita a pé.
Ver igrejas e capelas, sobrados e casas que de tão baixas se expõem para o visitante que se sente envergonhado e contém a curiosidade para não bisbilhotar a intimidade dos que aí vivem. Na Pousada do Carmo, um monumento com sua Igreja da Ordem Terceira inteiramente restaurada, ganhei horas de silêncio e reflexão, divididas entre leituras e conversas a meia voz. Pensando sempre como teria sido a vida dos que viveram alí nos séculos passados, imaginei ficções.
Na Pousada, o charme é a construção em si, mas muito desleixada como hotel. A sensação que tive é de que tanto faz. Basta o convento. Nas sala, antigo cemitério, uma caixa está jogada dentro de uma das sepulturas, uma mesa de bilhar encostada em um canto torna-se uma objeto inusitado em meio à sala. Procurei por um folheto que contivesse informações sobre o convento. Não há.
Na beira do rio, o antigo Hotel Colombo desmancha-se. Mas nem tudo está perdido. A Irmandade da Boa Morte ocupa dois casarões belissímos, assim como a Fundação Hansen Bahia. Fora uma capela que não consegui identificar, as igrejas estão conservadas. A Igreja da Ajuda é um primor arqutetônico. Muitas residências também merecem a atenção dos seus proprietários e A Heróica segue vencendo o tempo, o descaso e a limitação para se impor majestosa abrigando sua gente negra e mulata de sorriso simpático e voz mansa. Gente reservada, ciente de sua privacidade. 
Não fui abordado por ninguém pedindo ou tentando vender alguma coisa. Para uma cidade turística é uma dado para ser levado em conta.
Vi em algumas galerias quadros de um artista, mas não consegui identificar seu nome. Fotografei um deles, cuja imagem de Santa Luzia repete-se de maneiras variadas. Noutro trabalho, surge a imagem de Glauber Rocha e noutro a de São João Menino, cada qual num releitura muito particular.

Não encontrei artesanato original para comprar. Fui até Coqueiro, um lugarejo à beira do rio, para adquirir a cerâmica de Dona Gadu, uma simpatia.

Fiz muitas fotos e deixo algumas para apreciação dos interessados. Espero que tenham vontade de ir até Cachoeira para ver de perto os seus contrastes. Não é longe de Salvador, a estrada é ótima, conservada e sinalizada.



sexta-feira, 4 de março de 2011

Registro 343: Dona Aracy, O Anjo de Hamburgo

Lá se foi dona Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, aos 102 anos, uma benfeitora da humanidade. Conheci dona Aracy já idosa, mas muito lúcida, sempre elegante. Este privilégio devo ao meu amigo, o professor Wellington Vieira de Camargo com quem trabalhei no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem.

Eu conhecia um dos netos de dona Aracy, o saudoso Plínio Tess, mas Wellington me aproximou da família, gente discreta, de carinhosa acolhida. Certa feita, seu filho, Eduardo Tess presenteou-me com uma caixa contendo toda a obra de Guimarães Rosa. Anos mais tarde recebi o livro que traz a correspondência entre o avô Rosa e as netas Vera e Beatriz. O livro, Ooó do Vovô (EDUSP, PUC Minas, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), é delicioso.

Quando recebi a obra de Guimarães Rosa não contive o ímpeto de solicitar o autógrafo de dona Aracy, mas não querendo incomoda-lá com o meu pedido, pedi ajuda a uma das netas. O meu exemplar de Grande Sertão, Veredas, dedicado a ela pelo escritor, ganhou sua assinatura.

Para os que não sabem, dona Aracy é chamada de O Anjo de Hamburgo por ter salvo muitos judeus, conseguindo  vistos assinados pelo marido, cônsul-adjunto brasileiro na Alemanha, quando Hitler entendeu de exterminar os judeus da face da terra.

O trabalho no consulado facilitou a atividade subversiva de dona Aracy. Subversiva porque vivíamos sob o Estado Novo, a ditadura getulista simpatizante da política do Eixo. Para sorte de muitos, dona Aracy estava no lugar certo e na hora certa. Ela era encarregada do setor de vistos da embaixada e foi assim que atuou, indo de encontro às normas do governo brasileiro quanto a imigração de judeus. E tudo começou quando Hitler iniciou a perseguição com a Noite dos Cristais, ataque de grupos de nazistas as sinagogas e lojas, em 9 de novembro de 1938. Por sua solidariedade, dona Aracy tem seu nome inscrito no Jardim dos Justos entre as Nações do Museu do Holocausto de Israel, honra concedida aos não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus do extermínio nazista.

Lembro que, ao frequentar a casa da família, encontrei-me com uma senhora salva por dona Aracy e que se tornou sua amiga, visitando-a constantemente apesar da idade. Soube hoje que Maria Margareth Bertel Levy, a amiga alemã vinda para o Brasil, ajudada por dona Aracy,faleceu no dia 21 de fevereiro aos 102 anos.  


Dona Aracy nasceu na cidade de Rio Negro, Paraná, em 20 de abril de 1908. Sinto orgulho de ter nascido no mesmo dia em que ela. Seu pai era português e sua mãe alemã. Casou-se com Johan Tesse, separando-se dele num tempo em que no Brasil não havia divórcio, uma prova do quão arrojada era está mulher, culta e poliglota, por quem Guimarães Rosa se apaixonou, quando a conheceu trabalhando no consulado em Hamburgo.

Flores para Dona Aracy (1908-2011), e a minha homenagem.


O texto seguinte não é de minha autoria, recebi-o por e-mail, com solicitação para divulgá-lo. Acho oportuno publicá-lo junto a homenagem que presto a dona Aracy


"Irena Sendler, uma senhora de 98 anos, faleceu há pouco tempo. Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações.  Mas os seus planos iam mais além... Sabia quais eram os planos dos nazistas relativamente aos judeus (sendo alemã)! Irena leva crianças escondidas no fundo da sua caixa de ferramentas e levava um saco de sarapilheira na parte de trás da sua caminhoneta (para crianças de maior tamanho). Também levava na parte de trás da caminhoneta um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto. Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar deste encobria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer. Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças. Por fim os nazistas apanharam-na e partiram-lhe ambas as pernas, braços e prenderam-na brutalmente.

Irena mantinha um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma árvore no seu jardim. Depois de terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir a família. A maioria tinha sido levada para as câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adotivos.

No ano passado foi proposta para receber o Prêmio Nobel da Paz... mas não foi selecionada. Quem o recebeu foi Al Gore por uns dispositivos sobre o Aquecimento Global.Não permitamos que alguma vez esta Senhora seja esquecida!! Estou transportando o meu grão de areia, reenviando esta mensagem. Espero que faças o mesmo. Passaram já mais de 60 anos, desde que terminou a 2ª Guerra Mundial na Europa. Este e-mail está a ser reenviado como uma cadeia comemorativa, em memória dos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos e 1.900 sacerdotes católicos que foram assassinados, massacrados, violados, mortos à fome e humilhados com os povos da Alemanha e Rússia olhando para o outro lado. Agora, mais do que nunca, com tantos governos e sociedades e proclamando vergonhosamente que o Holocausto é um mito, é imperativo assegurar que o Mundo nunca esqueça."

quarta-feira, 2 de março de 2011

Registro 342: Diário da província

O calor, o fim das férias, o caos carnavalesco que se abate sobre Salvador, afastaram-me do blog. Mas venço a morrinha e registro algumas anotações...

A cidade está entregue às baratas ou melhor a quem organiza o carnaval. Os órgãos públicos fecham os olhos aos desmandos, quem manda mesmo são os empresários carnavalescos. Tudo está estragulado e pelo que se vê, o pupulacho vai ficar mais espremido, enquanto os bacanas se esbaldam nos supercamarotes. Os bacanas e os deslumbrados com a "bacanice" dos outros.

O bom gosto na decoração dos camarotes passou longe, mais uma breguice no cenário muito brega. Os anúncios divulgando os artistas são medonhos. Direção de arte não existe, bom fotógrafo pra quê? No ano passado eram as caretas horríveis dos políticos asombrando o nosso cotidiano durante a campanha eleitoral, agora são os cantores, uma enxurrada de desconhecidos, horríveis. Os conhecidos, as ditas superestrelas,  agem como se estivessem acima do bem e do mal.

Outro dia vi num anúncio de empreedimento imobiliário uma frase que chamou minha atenção pelo inusitado. A frase, obviamente, vendia as excelências do empreendimento e estava escrita em português informando sobre os itens do mega edifício, mas repentinamente surgia uma palavra em inglês - garden -, como se nossa maltratada língua não contivesse a palavra adequada, jardim para identificar aquele lugar onde se plantam flores, árvores e que tais. O publicitário deve ser uma jóia de superlativa babaquice. Para ele e os empreendedores, o termo em língua estrangeira da visibilidade ao projeto. Coisa mais jeca!

A mania de nomear edifícios em outra línguas, notadamente inglesa e francesa é uma constante por aqui e pelo Brasil. E como a maioria da população não sabe a pronúncia correta, os nomes se tornam engraçados, quando não uma aberração.

Andei indo ao cinema, mas não vi O Cisne Negro nem O Discurso do Rei. Gosto demasiadamente de Inverno na Alma. Como não vi a primeira versão de Bravura Indômita, o filme dos  dos irmãos Coen me satisfaz plenamente. Fico livre de comparações. Aguardo Poesia.

Po falar em cinema, lá se foi Annie Girardot, atriz francesa, inesquecível em Rocco e Seus Irmãos, a obra-prima de Visconti. Girardot fez tantos filmes, mas sua Nádia no filme do italiano é memorável, como persogem muito bem concebido e interpretado com grandeza pela atriz. Foi-se Jane Russell, a morena estonteante que exalava sensualidade pelos poros. Nos deixou também Carminha Brandão, atriz brasileira que a nova geração não sabe quem é.

Fui até o fim de Biutiful, muito mais pelo ator que pelo filme. Iñárritu perdeu a mão. São tantos os temas em seu filme que é uma overdose de problemas do mundo globalizado e pós-moderno. Talvez uma bula para entender tal mundo ou desentendê-lo de vez. O filme não conseguiu estabelecer nenhuma empatia, portanto não me comoveu nem me faz refletir. Um sessão tediosa, um filme hiperbólico. Em seus outros filmes, o diretor já demonstrava tendência ao exagero, mas o seu colaborador, Arriaga, conseguia conter os excessos, assim penso eu.

Tetro vai bem até certo ponto. A partir  da tal cerimônia de entrega do prêmio na Patagônia, desanda e Carmem Maura, uma atriz excelente está um tanto ridícula no personagem. Além do mais aguentar Vicent Gallo durante duas horas, urgh! Não tenho nenhuma simpatia pelo ator. Na verdade, acho que ele é mais uma personalidade excêntrica, que um ator. Coppola ainda me diz muito, mesmo quando escorrega e pesa a mão. Deve-se prestar atenção em Alden Ehrenreich, uma promessa e uma beleza e tanto. 

Não vi a entrega do Oscar, não aguenta mais tal cerimônia. Basta ler os jornais nos dias seguinte e pronto.

Em casa, vi Dois Destinos, o tocante filme de Valerio Zurlini. O filme é de 1962 e continua inteiro. Revi Histórias Extrodinárias  (1968), baseado em contos de terror de Edgard Allan Poe, direção de Vadim, Malle, Fellini. A história de Vadim perdeu a força. Adquiri para rever  Boccaccio 70 (1962), Moniceli, Fellini, Visconti e De Sica e Ontem, Hoje e Amanhã, de Vittorio De Sica
Hoje, terminei um quadro feito a pedido de uma amiga. Gostei do resultado, faz tempo que não pegava nos pincéis. Isso em meio à preguiça de um verão insuportável.

Fugirei do carnaval, sempre! E olha que sou folião desde criança, afinal sou filho de um pai que era Rei Momo. Mas carnaval selvageria não dá. A minha intuição diz que os níveis de violência vão pro alto.

Conclui as dez sessões de Rofling com Celso Nunes, diretor de teatro e também terapeuta. Uma experiência e tanto. A terapia corporal mexeu positivamente comigo.

Agora planejo fazer os ajustes nos meus planos de curso, esperar a edição do livro que escrevi sobre o ator Harildo Déda e torcer para o outono chegar com promessas de temperaturas mais amenas.

Conclui a leitura de O Poder da Arte, de Simon Schama (Companhia das Letras, 2010). Pode-se discordar da argumentação e dos juízos do autor sobre os artistas que escreve. São oito ensaios sobre as genialidades de Caravaggio, Bernini, Rembrandt,David, Turner, Van Gogh, Picasso e Rotko. Sem erudição presunçosa, Schama nos lança para dentro da obra-vida dos artistas escolhidos. Dentendo-se em analisar alguns dos trabalhos dos mestres com linguagem clara e envolvente, ele aproxima os artistas de nós, pobres mortais. Quem se interessa por arte vai gostar de ler suas 501 páginas e apreciar as belas ilustrações. vale a pena.

Presenteei uma amiga judia e comunista com um oratório de Iemanjá. Ela telefonou contente com o presente feito por mim. Hoje, da parte dela, recebi um postal com a figura de Lenin feita a bico de pena. Minha amiga é uma pessoa interessantíssima: estudou em colégio protestante, sua mãe lhe contava histórias de fadas, cuja figura do príncipe confundia-se com a de Luiz Carlos Prestes. Certa vez confidenciou-me que gostava de ver as meninas vestidas de noiva para a Primeira Comunhão e tinha inveja delas. Uma figura e tanto a minha amiga. Invejável espírito aberto ela tem e me anima a ser da mesma forma.