sexta-feira, 4 de junho de 2010

Registro 310: Diga não às drogas. Diga mesmo!

O poeta Ferreira Gullar sempre acerta em seus textos publicados aos domingos na Ilustrada, um dos cadernos do jornal Folha de S. Paulo. Este que transcrevo aqui é de uma lucidez impressionante. Esqueci de registrar a data da publicação. Nele, o poeta trata de um tema preocupante, a desgraça do tráfico e de quem o alimenta. Ele nos chama para a real e nos coloca diante da nossa omissão. Somos omissos por que aceitamos os consumidores sociais da droga, um número bastante grande em todas as camadas da população brasileira, principalmente nas classes mais abastadas. É esse usuário irresponsável o incentivador o mercado. Tenho a seguinte opinião: por trás do traficantes existem pessoas poderosas e importantes no cenário nacional e internacional. E por isso, penso eu, o malefício se alastra como um rastilho de pólvora. Gullar nos fala também sobre os dependentes, um caso de saúde pública. Seu texto é uma alerta e deve ser lido em todos os lugares. Essa é a minha intenção: divulgá-lo. Leia. pense e tome uma atitude. Houve um tempo, lá pelos idos do 60 e 70 que os jovens não queriam ser rotulados de caretas e por esse motivo, muitos deles passaram a consumir drogas. Outros, usaram as substâncias visando a expansão da consciência e ampliar a sua capacidade criativa, outros brincaram. Alguns se deram bem, outros se perderam. Mas vivíamos tempos bem diferentes dos de hoje. A violência era de outra ordem. Hoje, sou mais pela caretice, mano!

QUEM MANTÉM O TRÁFICO É O USUÁRIO

Ferreira Gullar


Só uma operação em larga escala, que envolva famílias, escola e Estado, poderá deter o avanço da droga


SEI QUE o combate às drogas é um assunto polêmico e realmente de difícil solução. Sei também que as pessoas que se empenham nesse combate estão de boa-fé e convencidas das posições que defendem.

Um dos pontos mais difíceis de abordar é a repressão ao usuário de drogas, que é visto não como um contraventor, mas como uma vítima da dependência química.

De fato, não teria sentido tratar o viciado, que não consegue livrar-se da droga, do mesmo modo que o traficante, que se vale disso para ganhar dinheiro. Não obstante, me pergunto se todos os que consomem drogas são efetivamente dependentes, sem condição de livrar-se delas.

Já abordei aqui este assunto, quando usei do seguinte argumento: assim como a maioria dos consumidores de bebidas alcoólicas não é constituída de alcoólatras, também a maioria dos consumidores de drogas as consome socialmente.

Em grande parte, é gente de classe média alta e até mesmo executivos. Não podem ser vistos pelas autoridades do mesmo modo que os consumidores patológicos.

Este é um aspecto importante a ser considerado no combate às drogas, uma vez que o consumidor é o fator decisivo para a manutenção ou extinção do tráfico: não haverá comércio de drogas se não houver quem as compre. Sem consumidor, não há produção nem mercado.

Insisto neste ponto porque, como disse acima -e todos o sabem- será impossível extinguir o tráfico (e mesmo reduzi-lo drasticamente) se o número de consumidores se mantiver alto. E o fato é que o consumo de drogas cresce de ano para ano.

Se se admite, portanto, que é o consumidor quem garante a existência e expansão do tráfico, não resta dúvida de que é nele -no consumidor- que reside a chave do problema.

Atualmente, prepondera o combate direto ao tráfico, de que resulta uma verdadeira guerra, travada, quase sempre, nos subúrbios e nas comunidades pobres, que enfrentam grandes dificuldades para se manter e a suas famílias, e pagam alto preço pelas consequências dessa guerra.

E ao que tudo indica, com poucos resultados positivos. O tráfico continua a se expandir, envolvendo em suas malhas jovens cada vez mais jovens e até mesmo crianças cooptadas em suas escolas.

Paremos para refletir: se é o consumidor que mantém o comércio de drogas, não é evidente que o modo efetivo de combatê-lo é reduzir progressivamente o número de consumidores?

O erro cometido até aqui -se não me equivoco- terá sido reprimir tanto o traficante quanto o usuário de drogas, sem distinguir entre estes os que se drogam por necessidade patológica e os que o fazem socialmente. Mas, de qualquer maneira, a simples repressão, tanto ao usuário quanto ao traficante não resolverá o problema.

Por estar convencido disso, proponho que se encare essa questão a partir do consumidor, ou seja, impedindo que o número destes continue a crescer e, mais que isso, tentar reduzi-lo progressivamente.

Talvez as pessoas, que ainda não refletiram seriamente sobre o problema, tenham dificuldade de considerá-lo em sua verdadeira dimensão.

Sem exagero, a droga, como fenômeno mundial, pode ameaçar a própria civilização, já que se vale da juventude, isto é, daqueles que amanhã terão a sociedade em suas mãos.

Afora isso, a simples destruição de uma vida ou de uma família já justificaria todo o esforço possível para resolver tal problema. Por essa razão mesmo, acredito que o objetivo principal da luta a ser travada é manter os jovens e as crianças fora do alcance do traficante.

Estou convencido de que só uma operação em larga escala, que envolva não apenas as famílias, mas também a escola e os órgãos do Estado, poderá deter o avanço da droga. Não se trata de simplesmente promover uma campanha de esclarecimento, acreditando que isso seria suficiente. Não o seria.

Trata-se, a meu ver, de um trabalho permanente a ser desenvolvido por todos os setores da sociedade, devidamente organizado e mantido, evidentemente, pelo governo, com a participação da sociedade.

Um trabalho de reeducação e esclarecimento em caráter permanente, visando o futuro, mas implantado depois de muita reflexão e cuidadosamente elaborado. Tarefa para os novos governantes.

domingo, 30 de maio de 2010

Registro 309: Saudade

Lá se foram dois artistas, intérpretes de categoria. Eram estrelas e estrelas continuarão sendo, só que agora no firmamento, esferas celestes.  Um conhecido internacionalmente, Denis Hopper, o rebelde e seu Sem Destino, um filme que marcou a minha juventude e inesquecível nas sua inúmeras qualidades e nos seus defeitos.Um filme revolucionário. Outro, na província de nome Bahia, Wilson Mello. Conheci Mello quando passei a frequentar o Teatro Vila Velha nos longínquos anos 60. Seu Quincas Berro D'Água guardo na memória, assim como outros personagens  interpretados sob a direção de João Augusto. Vê-lo fazendo os vilões nas peças para crianças dirigidas por Manoel Lopes Pontes era diversão na certa.

Deseja que pemaneçam vivos em nossas lembranças. Que não sejam esquecidos!

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Registro 308: Celebração

A presença da escritora Fanny Abramovich em Salvador, a convite da Escola Arco-Íris, foi uma verdadeira festa para os amigos, ex-alunos e principalmente para as crianças, professores e pais do espaço educativo situado em Brotas, mais precisamente na Ladeira do Acupe. Inaugurou-se aí a Biblioteca Fanny Abramovich, uma simpática sala  com prateleiras muito práticas deixando à mostra a capa dos livros e não a lombada. Essa disposição torna visível para a criança o objeto-livro, já que as capas não se escondem uma atrás da outra como na maioria das bibliotecas. Gostei! No centro da sala um tapete e almofadões de chitão. Quem me conhece sabe a predileção que tenho por esse tecido tão popular de origem chinêsa e no Brasil ganhou uma padronagem especial, revelando a criatividde dos nossos criadores que adaptaram os desenhos florais ao gosto do nosso povo. Os antigos tecidos eram mais bonitos, mais elegantes, mas ainda encontramos belos padrões por aí. A sala é um encanto. No pátio da escola muitos trabalhos realizados pelos estudantes em torno dos livros que eles leram, uma demonstração do envolvimento da crianças com a proposta, o que resultou em conversas animadas entre a escritora e a garotada. Segundo me falou, ela ouviu perguntas saborosas, gargalhantes e surpreendentes.

As ligações de Fanny com a Bahia não são de hoje. Desde a década de 60, ela por aqui veio e travou conhecimento com o pessoal do Centro Popular de Cultura. Tanto que, após o golpe civil-militar de 1964, a escritora acolheu muitos dos baianos foragidos das perseguições policiais. Muitos desses rapazes e moças ocupam cargos importantes em vários setores públicos e privados não somente da Bahia, mas em outras regiões do país. Na década de 70, a educadora por aqui passou ministrando cursos e oficinas de pedagogia da arte. As turmas eram repletas de participantes interessados. Ainda hoje, ao ouvi-los percebe-se o quanto as brincadeiras, provocações e ensinamentos de Fanny mexeram com certezas e desencadearam processos de descobertas e inovações no campo da arte-educação. Distante da academia, Fanny é pioneira do trabalho com arte na escola e foi criadora do Centro de Educação e Arte, além de ter sido professora de teatro e artes plásticas no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem-Aleichem- GBISA, onde também fui professor e aprendi de fato o que é ser um educador.

Lodo depois, Fanny esteve no programa de televisão comandado por Marília Gabriela, TV Mulher. Sua participação trazia um sabor especial ao programa , todo ele produzido de forma inovadora, causando polêmica e irritando setores conservadores da sociedade. O programa saiu do ar.

Conheci Fanny quando ela escrevia para o Jornal da Tarde, em Sampa. No jornal, ela mantinha uma coluna das mais instigantes, tratando de literatura, teatro e de tudo que se produzia culturalmente para crianças. Humorados, ácidos, irônicos e demolidores, os textos apontavam para questões artísticas e educativas sem o ranço do bom mocismo, nem beiravam a crítica superficial sobre o que se produzia. Muitas deles foram reunidos no livro fora de catálogo, O estranho mundo que se mostra às crianças. Nele, existe um capítulo destinado ao teatro para crianças, com um texto intitulado Projeto Herodes. Por esse título dá para imaginar o teor do que ela analisa humoradamente, saborosamente e sem a arrogância, mas sem deixar de apontar a banaliade e os equívocos cometidos por gente que faz teatro para criança. Para Fanny, é como tudo  fosse "emiliano", ou seja, deriva da sabedoria de Emília, a magnífica criação de Monteiro Lobato.

Foi por essa época que a escritora e educadora entrou na minha vida, ao me entrevistar sobre premiação do texto Brincadeiras, no Concurso de Dramaturgia do Serviço Nacional de Teatro- 1977, do qual ela foi júri. Lembro-me que a conversa prolongou-se por muitas e muitas horas. Anos depois, Fanny me pediu para escrever um conto para uma coleção que organizava e que não foi para frente. O conto ficou na gaveta e logo depois foi publicado noutra coleção organizada por ela. Daí pra cá, a relação profissional se transformou em pura e doce amizade, que a distância só faz aumentar. Como boa ouvinte, qualidade que ela cultiva verdadeiramente, Fanny envolve o outro e estabelece uma troca sempre enriquecedora.

Fanny é adorável. Autora de INÚMEROS livros, tenho todos autografados, é uma escritora de imaginação fértil, criadora de situações das mais verdadeiras e envolventes. Seus leitores sabem disso. Ela atinge em cheio o universo de crianças, jovens e adultos. Brinca com a língua, inventa jogos de palavras e resolve seus enredos de maneira sensível, sem maniqueísmo, sem lições de nenhuma maneira, principalmente aquelas de dedo em riste. Sua literatura não é moralizadora no sentido repressivo, faz pensar e, sobretudo, diverte. Nas teias que traça,  mexe com o sensível, toca nos problemas e avança sobre eles sem medo. Seus livros são libertários, mas fogem das cartilhas que engessam o mundo do leitor.

Tenho certeza de que a semana foi divertidissima para todos que estiveram perto de Fanny. Foi um verdadeiro puxa-estica, pois todos queriam minutos de seu tempo. Recebê-la em casa foi uma celebração. A noite de inauguração da biblioteca foi uma arraso, com uma divertida e emocionante conversa, cujo tema eram as suas lembranças de quando menina, sua vida no Bom Retiro, sua vida de escolar e a descoberta das narrativas contadas por sua mãe e depois por aquelas que os livros trazem para encantamento e deleite de quem deles se aproxima. A fila de autógrafos durou quase quatro horas, com pais e crianças esperando para ter a assinatura no livro e uma palavra com a escritora. Como ela gosta de conversar, cada um teve seu dedo de prosa.

domingo, 23 de maio de 2010

Registro 307: Teatro quando é bom, é ótimo! A Cela e Atire a Primeira Pedra

Vou muito pouco ao teatro. Não devia ser tão ausente. Quando vou e o espetáculo é bom, sinto imenso prazer.

No fim de semana fui ver A Cela, de Michel Azama e Atire a Primeira Pedra, crônicas de Nelson Rodrigues adaptadas para o palco por Cleise Mendes e Fernando Santana. O primeiro espetáculo, recém estreado no Teatro XVIII, sai de cartaz no dia 23 maio. Pena que não prolongue a temporada. O segundo, vindo de outras temporadas,  fica na Sala do Coro até o dia 30. Ver as duas montagens e mergulhar no universo proposto pelas duas cenas causou em mim uma satisfação enorme.

A Cela, texto francês gira em torno de uma presidiária prestes a sair da prisão depois de cumprir uma pena de 20 anos, por ter cometido um crime passional. Uma única personagem que ao narrar sua vida na prisão, seus sentimentos, sua condição, desdobra-se em outros personagens que povoam o mundo da mulher. Ao penetrarmos em seu mundo, nos aproximamos desse ser que vacila frente à liberdade depois do aprisionamento. O monólogo contundente em nenhum momento descamba para o melodramático e renuncia ao pieguismo que por vezes cerca a temática. Na perspectiva da Libertada, tomamos conhecimento do dia-a-dia na prisão e mais ainda do conflito que se instaura diante da saída. Uma nova vida para ser vivida leva as marcas do crime e o estigma do confinamento na prisão. Embora cumprida a pena, aquele ser, ex-recluso, continuará com as marcas da exclusão. Assim, vai se inserir novamente no social carregando “os muros por dentro e a pela por cima”, como diz a personagem a certa altura.

O texto proporciona um belo exercício interpretativo a cargo da atriz Jacyan Castilho. Durante uma hora e quinze minutos, a intérprete domina a cena com habilidade corporal e vocal e toca a sensibilidade do espectador. A atriz sabe dosar os momentos de euforia, desespero, solidão e dor mesclando-os com ironia. Um belo solo.

O desafio de estar no palco, expondo com mestria os recursos interpretativos, faz com que o espectador suporte o desconforto causado pelo tema ali narrado. Trabalhando no interior do realismo e do psicológico, mas não se prendendo a ele, Jacyan Castilho potencializa a personagem mostrando-a através de recursos que quebram essa estrutura. Esse jogo amplia o drama nos fragmentos que se organizam, mas não de forma linear, visto que as lembranças não podem se organizar numa rígida cronologia. As significações contidas no texto são presentificadas no corpo da atriz. Ao mesmo tempo em que ilustra determinadas situações, esse corpo expressivo escapa das armadilhas que regem a construção de uma personagem sustentada nas convenções do realismo psicológico para expressar sentidos para além do fotográfico. Isso não implica em uma atuação totalmente antinaturalista, mas o que se vê em cena é o jogo entre códigos que se misturam ricamente na cena. Vemos em cena a criação de um indivíduo, mas a atriz adiciona partituras que extrapolam a caracterização pura e simples. Com isso, mostra certos efeitos de movimentação, postura e entonações que fogem ao esperado, fazendo com que as palavras e as emoções ganhem uma dimensão extracotidiana.

Para que o trabalho da atriz se materialize coerentemente facetado é necessário que suportes sejam dados, embora consideremos que atuar é sempre saltar no espaço sem rede de proteção, ainda que elas existam invisíveis. Ao conceber a moldura para a ação, os criadores do espetáculo, Cláudio Machado e Jacyan Castilho, instauram a poética da cena pelas imagens, atmosferas, rupturas. Para isso contribuem o cenário de Rodrigo Frota, a luz de Pedro Dutra e o figurino de Luiz Santana.

Utilizando do efeito da tela transparente, Rodrigo Frota múltiplica e dinamiza o espaço com a ajuda da luz. No primeiro instante, se vê uma parede preta e nela uma porta recortada Ao trabalhar com o iluminador, oferece surpresas. Quando a luz incide por trás da tela revelam-se outros espaços para a representação. Uma boa solução aos propósitos da encenação. Assim também é o desenho da luz sempre recortada.

A Cela é uma realização do Grove Estúdio Teatral que já havia apresentado A Canoa com Cláudio Machado e direção de Jacyan Castilho.

Atire a Primeira Pedra é uma incursão nas crônicas que Nelson Rodrigues publicou no jornal carioca A Última Hora. Adaptadas por Cleise Mendes e Fernando Santana também ator do espetáculo, as crônicas revelam recortes do universo feminino nas suas relações com o macho patriarcal – pai, marido, amante. Por outro lado, esses retratos exacerbados pela ótica do cronista-dramaturgo, mas não falseados, deixam transparecer as relações entre as mulheres – esposa, mãe, amante, irmã. Nelson Rodrigues domina o gênero com seu olhar de jornalista, relator preciso dos acontecimentos. Essa precisão é captada pelos adaptadores e o que se vê na cena são recortes desses retratos da vida como ela é.

Luiz Marfuz, o diretor de Atire a Primeira Pedra orquestra os elementos da encenação trilhando diversos gêneros para enfatizar o jogo cênico em sua mais pura teatralidade. O diretor não mede esforços para captar o espírito rodrigueano, mas não se deixa escravizar por ele. Seu espetáculo tem o sabor de uma fotonovela que não se leva a sério, visto que escancara o ridículo, os exageros, a passionalidade perpassando as ações das personagens não caricaturas, pois revelam a pobre humanidade. Aí são mostrados os amores suburbanos, traições e a torta sexualidade de uma classe média que teima em se manter pelas aparências. Tudo isso está em cena traduzido em tintas fortes, assumindo a breguice de certas canções populares que cantam os amores rotos, as dores de cotovelo, a melosidade de cartão postal e suas frases estereotipadas.

Para realizar sua concepção, Marfuz conta com um elenco numeroso de jovens atores formados pela Escola de Teatro. Esse grupo soube captar a proposta e entra no jogo cênico com segurança. Atores e atrizes mostram-se preparados para a tarefa. As qualidades individuais se manifestam, mas o que chama a atenção é o conjunto, a precisão com que caracterizam as personagens. Isso só se realiza porque as qualidades da preparação corporal e vocal estão visíveis em cada intérprete e se alguns se sobressaem não diminuem seus parceiros de cena. Espera-se que o Grupo Os 50’tões continue a trabalhar, aprofundando suas pesquisas para realizar encenações de qualidade. Historicamente, o teatro brasileiro foi enriquecido pela contribuição dos grupos. E se as condições são adversas, o grupo pode encontrar as alternativas para viabilizar a pesquisa e traduzi-las esteticamente.

Mais uma vez no palco a realização cenográfica do jovem Rodrigo Frota, demonstração de habilidades não apenas nos cenários das duas peças comentadas, mas por outras realizações. A solução da cortina vermelha com a preta, a segunda que se abre em determinados momentos, cria um belo efeito, assim como a extensa mesa sobre o módulo no fundo do palco. Os abajures distribuídos ao longo da mesa trazem diversas significações, remetendo a cena para a penteadeira no lusco-fusco das alcovas e também para as boates esfumaçadas. Completa a cenografia uma mesa que serve às ações e as marcações desenhadas por Luiz Marfuz.

O figurino de Miguel Carvalho explora a sensualidade dos corpos femininos e caracteriza bem os tipos masculinos, alguns beirando ao cafona, um traço que a montagem não tem envergonha de exibir. Concebidas em vermelho, preto e branco, as roupas caracterizam muito bem as personagens. Se há uma restrição, ela está no figurino do Coro das Tias em Noiva da Morte. Eles destoam do conjunto. Cenário e figurinos são realçados pela luz de Fernanda Paquelet.

Os elementos cenográficos e os figurinos estabelecem uma conexão com o som da cena. No espetáculo, esse som brega, que ouvidos mais sensíveis rejeitam, adquire um sabor especial. A música integra-se organicamente ao todo da encenação e são bem cantadas pelo elenco.

Uma bela, divertida e ácida encenação. Com momentos muito bem solucionados e interpretados competentemente pelo elenco, é demonstração de que o nosso maior dramaturgo – afirmação questionável – tem muito a oferecer aos artistas de teatro e ao público.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Registro 306: O que acontece por aí...

O 13 de maio passou, parece que em branca nuvens. Induziram-nos a ignorar a data tão significativa para a nossa história. Esqueceram a luta dos abolicionistas negros, mulatos e brancos. Passaram a borracha na assinatura da princesa. Querem reescrever a história. Balela!

Bento XVI, com essa história de culpabilizar a união afetiva entre pessoas do mesmo sexo e a luta contra a descriminilização do aborto como sendo as desgraças da família, está tentando desviar a atenção para os pecados da Igreja. Sem querer generalizar para não cair no mesmo discurso, os horrores gerados no interior da família passam por outras questões. Por que não enfrentá-las?

Caetano Veloso mostrou mais uma vez a sua capacidade de gerar polêmica e tem lá suas razões. Seu lúcido e belo texto (O Globo) não demoniza ninguém, mas coloca as coisas nos devidos lugares. O Secretário de Cutura da Bahia respondeu, mas sua resposta não chega aos pés do texto do compositor. Acho que está na hora de cada um se olhar no espelho. Quem na Bahia não mamou nas têtas dos governos carlistas? Os artistas, conservadores e progressistas, para não falar em direita e esquerda, hoje em dia conceitos tão esfiapados, mantiveram seus projetos com o dinheiro do Estado e não assumem tal fato. Se essa, cara pálida! Querer dá um de vestal? Me engana que eu gosto!

Os teatros de Salvador estão fechando (ACBEU, Jorge Amado, Xisto Bahia, Gregório de Mattos). Uma pena! Se já não tínhamos espaços suficientes para colocar em cena as produções locais e as que nos visitam, agora é que a coisa se complica. Tal situação serve como medidor do nosso interesse pela arte. E quando o quadro se torna avassalador, não adianta belas palavras. O que se quer são ações.

Fui ver o filme de Zé Umberto, O Anjo Negro (1972) na Sala Walter da Silveira, sessão de 16:30 do dia 14 de maio. Só havia um espectador, eu. É certo que tenho interesse no filme. Depois de 38 fui autoavaliar o meu trabalho como ator. O filme tem alguns poucos bons achados que se perdem na confusão do roteiro. Dirigido eu poderia te rendido mais. Não foi o caso. A exibição do longa-metragem é parte da comemoração do Centenário do Cinema Baiano. Uma bobagem essa comemoração proposta pela Diretoria de Audiovisual da Faundação Cultural.

O cineasta iraniano continua preso! Somente por discordar! Cannes reclama, o mundo reclama, mas o ditador se acha um deus em sua vã glória de mandar. Atrás dele vai Lula, O Cara, querendo aparecer...

Hoje, fiquei feliz com a notícia dada pela diarista que cuida da minha morada e de mim também. Ela vai comprar a casa própria. Desejei felicidade e estimulei a fazer um chá de casa nova.

Depois de dez dias hospitalizado por conta de uma dengue hemorrágica que botou por terra as minhas plaquetas, vivo apavorado com os mosquitos que andam voejando por Salvador. São muitos... Cadê o pessoal do fumacê? Se a Prefeitura e Governo do Estado não tomam as devidas providências, não custa a população tomar vergonha e cuidados. É tão simples, basta deixar de lado a preguiça, o descaso e a ignorância para combater a proliferação do mosquito. Agradeço aos que atenderam o meu pedido e foram doar sangue no Instituto de Hematologia da Bahia. Agradeço também os bons serviços do pessoal do Hospital Português e aos amigos que torceram pelo meu reestabelecimento.

Ainda convalescendo participei do lançamento de Os Mansos, texto dramático do russo-argentino Alejandro Tantanian. O livro faz parte de um projeto coordenado por  Luis Alberto Alonso, Héctor Briones e Cacilda Povoas. Pediram-me um fala sobre o projeto e sobre o belo texto, uma incursão do autor pelo universo de O Idiota de Fiódor Dostoievski.

O diretor Celso Nunes está em Salvador para fixar residência. Espero que ele faça espetáculos teatrais por aqui. Só temos a ganhar.

Por hoje é só...

quarta-feira, 21 de abril de 2010

sábado, 17 de abril de 2010

Registro 303: As Melhores Coisas do Mundo

Saí do cinema cantarolando Something dos Beatles (1969) lembrando-me da minha juventude que se foi, mas que guardo na memória para que ela não se perca. E tudo isso por conta do belo filme de Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, As Melhores Coisas do Mundo. A sala do Unibanco Glauber Rocha estava vazia, uma pena. Será que os adolescente deixarão de aproveitar esse olhar tão singular sobre personagens tratados com tanto carinho pela diretora? Espero que não. Antes de falar sobre as qualidades do filme, o que me ocorre agora é adjetivá-lo: surpreendente, amoroso, sensível, violento, inquietante, real, jovem, maduro, poético, intrigante, desconcertante, sincero, legal, sofrido, pra frente e muito mais.

Adjetivar não empobrece o filme de Laís Bodanzky. Antes, revela o meu afâ de dizer as primeira impressões. Bodanzky é uma diretora que amadurece a cada trabalho e me cativa com seus personagens e, principalmente pela forma com que conta suas histórias. Foi assim e Bicho de Sete Cabeças e também em Chega de Saudade. Desejo que ela continue filmando e amadurecendo.

Lidando com situações como o divórcio dos pais, os dilemas sobre a sexualidade, a depressão do irmão, ouso de drogas (rémedio, cigarro maconha), a relação com os colegas e com os adultos, a presença da tecnologia como uma fixação, gerando o cyberbullying, agressiva forma de constrangimento através do celular e da internet, a diretora tira partido desses fenômenos, para evidenciar o aprendizado dos jovens. Mas não espere lições moralizantes nem edificantes, mesmo que seu olhar seja positivo e enternecedor. Laís Bodanzky não demoniza nem idealiza seus personagens. Eles são o que são, vivem o seu tempo, erram e acertam e procuram se entender diante do que vida traz.

São muitos os bons filmes sobre adolescentes e As Melhores Coisas do Mundo é um deles.

Ao dirigir seu olhar sobre o universo de adolescentes e jovens vivendo numa grande cidade brasileira, a diretora sabe-se universal e atemporal, embora trate especificaente de uma grupo de personagens de classe média em São Paulo, cidade que serve de cenário como qualquer grande metrópole globalizada. Essa é uma qualidade do filme. Sabemos onde tudo se passa, mas isso fica em segundo plano, porque a narrativa centra-se na captação dos embates vividos por Mano,quinze anos (Francisco Miguez, uma grande revelação) e seu irmão Pedro, dezessete anos (Fiuk, muito bom). Tudo se passa entre a família dos dois (Denise Fraga e Zé Carlos Machado, os pais), o hostil ambiente escolar e as aulas de violão (Paulo Vilhena, professor). Na aparente leveza do entre e sai dos estudantes gira a maior parte do filme. Somos jogados nesse ambiente e vemos desenrolar no seu interior os belos momentos da narrativa e também os mais chocantes quando nos são revalados os preconceitos que machucam não apensas os protagonista, mas a garota mais amiga de Mano, Carol (Gabriela Rocha, encantadora) e a outra, por quem Mano arrasta uma asa e lhe proporciona um momento de felicidade, embora o rejeite motivada pelo preconceito, justamente ela que sofre na pele a discriminação por parte dos colegas.

Um filme sobre descobertas. Um filme sobre como e duro e belo aprender a viver. E é isso que a diretora nos conta e o faz de uma maneira leve, mas não superficial. O roteiro seguro, adaptado de um livro de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto, não descamba para o piegas nem pelas facilidades, por exemplo, encontradas em Malhação onde tudo é chapado. Em As Melhores Coisas do Mundo, o universo dos adolescentes Mano e Pedro e de seus colegas é mostrado de maneira direta, mas sob camadas sutis que se espalham por todas as cenas, mesmo quando são chocantes na sua crueza. A cena em que Mano toma conheciemento do motivo que levou seu pai a se separar é uma delas. A que se segue também, quando o personagem se vê sozinho em meio ao trânsito em ritmo acelerado, sob o efeitos luminosos. 

Outra qualidade do filme é a sabedoria com que a diretora conduz o seu elenco de jovens, a maioria sem grande experiência interpretativa. E ganha pontos superlativos na descoberta de Francisco Miguez e na maneira com soube tirar dele um personagem que atravessa a tela para nos puxar para dentro do filme. Simpatizamos com Mano, principalmente naquilo que ele tem de comum a todos os adolescentes: confusão, insegurança, curiosidade e busca por uma identidade num momento da vida em que tudo é confusão e desejo. Somos rendidos pelo personagem e pelo ator. E vivemos com ele os enfrentamentos, a transição entre a infância e a juventude, a surpreendente identidade do pai, a primeira transa, a afirmação diante dos companheiros

Dos atores que interpretam os adultos, entre eles Caio Blat (professor Artur), a direção soube contar com a experiência e a qualidade interpretativa de cada um. Destaco o trabalho de Denise Fraga, uma ótima atriz, mas sempre perseguida por cacoetes que criou ao longo da carreira. Felizmente, em As Melhores Coisas do Mundo, vejo a atriz livre dos macetes humorísticos. A mãe interpretada de forma contida mostra uma facete nova da atriz.

Por fim, o filme de Bodanzky nos coloca diante de uma questão que não é novidade. As gerações diferem umas das outras, assim como a adolescência em cada época se mostra diversa, mas o que torna o filme abrangente é que nele reside algo que o tempo não modifica, aquilo que está presente no perído da adolescência, seja de ontem ou de hoje. Essa essência imutável é presente no filme como uma força latente, propiciando o diálogo com o que o adolescente que fomos um dia. Diálogo entre o passado e o presente, embalado por uma música bonita, belos planos, montagem agil, mas não eufórica. ponto para a diretora, elenco e equipe técnica.

Não deixe de ver o filme. Ele nos diz que apesar de tudo, a melhor coisa do mundo é viver.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Registro 303: Prisão

O CINEASTA JAFAR PANAHI CONTINUA PRESO

PROTESTE!

No dia 15, cineastas do mundo todo estão organizando projeções de filmes do iraniano Jafar Panahi em seus países. Dessa maneira protestam contra a sua prisão pelo governo de Mahmoud Ahmadinejad.

Em São Paulo, Leon Cakoff, diretor da Mostra Internacional de Cinema, organizará a exibição de três filmes de Panahi "O Espelho", "Fora do Jogo" e "Ouro Carmim".

sábado, 3 de abril de 2010

Registro 302

IMPOSSÍVEL CARINHO
                                       Manuel Bandeira

Escuta, eu não quero contar-te o meu desejo
Quero apenas contar-te a minha ternura
Ah se em troca de tanta felicidade que me dás
Eu te pudesse repor
- Eu soubesse repor -
No coração despedaçado
As mais puras alegrias da tua infância!

In : Poesia/Libertinagem

terça-feira, 30 de março de 2010

Registro 301: Multiculturalismo fora do eixo

O texto de João Pereira Coutinho aqui transcrito, foi publicado na edição de 30 de março de 2010, no jornal Folha de S. Paulo.

O autor toma como base para seu escrito o filme O Dia da Saia do cineasta Jean-Paul Lilienfeld. Interessa-me discutir aqui a questão essencial abordada pelo colunista, a aceitação irrestrita do multiculturalismo como panacéia para todos os problemas de consciência, da má consciência que aflige não somente a Europa, mas grande parte do mundo globalizado. É certo que a questão aparece com mais visibilidade na Europa.

A primeira impressão que temos é que a aceitação do multiculturalismo sem crítica e sem limite, advém do embaralhamento dos valores. Outro ponto, diz respeito ao receio que temos de ser taxados de conservador. Dessa maneira aceita-se tudo, como, por exemplo, não respeitar o Estado laico. Essa postura termina por criar uma confusão perigosa.

O texto de Pereira Coutinho é sábio nas colocações. Vamos aguardar o filme para que possamos apreciá-lo e ver de que forma a "mensagem" chega até nós. De antemão, penso a escola como o lugar da pluralidade e da diversidade, o que vem a ser a mesma coisa. Não vou chover no molhado.

Religião é um problema de foro íntimo e não deve apartar. Não deve ser parâmetro para a prática educativa em sala de aula. Se não atentarmos para isso, chegará um momento que teremos classes para cada um dos credos  existentes, com professores e educandos reunidos em função da religião que professam.  A escola pública não deve incorporar essa ideia absurda. Mas do jeito que as coisas caminham, tal absurdo pode se tornar realidade. No fundo no fundo é sempre a manifestação do autoritarismo. Se o multiculturalismo toma como um princípio o respeito pelo outro, o que vemos é a inversão desse princípio. Os "excluídos", os "periféricos", os "estrangeiros" em vez de conviverem com a diferença, terminam por impor seu ponto de vista... E sabemos a via que isso toma: a da violência. Se queremos acabar com as fronteiras, acabemos de fato com elas.

Eu leio a Bíblia, o Corão, o Talmud como leio a Ilíada e a Odisséia e sou professor. A cada instante, eu procuro agir sem a viseira decorrente dos meus preconceitos. Sei bem o quanto é difícil seguir essa determinação, mas faço disso um exercício de repeito ao outro. Pelo visto, a professora do filme sabe muito bem de si e do lugar que ocupa.


JOÃO PEREIRA COUTINHO

Uma mulher de saia
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Não admira que as alunas muçulmanas
troquem um tipo de sequestro por outro
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GOSTEI DE "O Dia da Saia", de Jean-Paul Lilienfeld. Confesso que assisti ao filme por motivos superficiais: Isabelle Adjani. Curiosidade: como estaria a velha musa da adolescência, que despertava no cronista todos os sentimentos hormonais de "A" a "Z"?

Adjani envelheceu; mas o rosto de anjo permanece. Uma condição que perturba, e tragicamente, ante a natureza diabólica da história.

Conto rápido, sem revelar os pormenores fundamentais: Adjani é professora de literatura em liceu problemático e suburbano. "Liceu problemático", no contexto, é eufemismo: com alunos que se comportam como selvagens e atuam como criminosos de gangue, a professora perde a cabeça quando descobre que um deles está armado.

Retirando-lhe a arma em gesto de pânico e a disparando por acidente, a professora cruza o seu pessoalíssimo rubicão. Não há retorno.

Resta-lhe sequestrar toda a turma e fazer uma exigência final: uma câmera de TV para denunciar a desagregação da sociedade francesa. Uma sociedade que, incapaz de fazer cumprir o seu programa laicista, é apenas uma manta de retalhos em que as comunidades imigrantes (leia-se: comunidades imigrantes islâmicas) impõem versões extremistas do seu próprio credo.

O interesse do filme começa dentro da sala de aula: na relação entre a professora e os alunos; mas também nas relações de poder, ou de opressão, que se revelam entre alunos e alunas: na violência verbal, física e até sexual dos primeiros sobre as segundas. Não admira que as alunas, muçulmanas também, passem gradualmente para o lado da professora que as sequestra. Ou, se preferirem, que troquem um tipo de sequestro por outro.

Mas o filme é igualmente notável ao mostrar o mundo "lá fora", que reage ao sucedido dentro da sala. Um mundo de relativismo letal, que na verdade produziu as condições ideais para o desastre. Um dos colegas da professora, indignado com a "islamofobia" da dita, retira o Corão da sacola e dispara: sempre que um aluno cita o Corão para justificar as suas ações mais "impróprias", ele próprio refuta o aluno com o Corão. Na sapiência medíocre da criatura, "integrar" a comunidade muçulmana na França (mais de 5 milhões) passa por transformar as escolas laicas em puras madrassas.

É contra esse programa "multiculturalista" que se revolta a professora; contra o antissemitismo dos alunos, que usam "judeu" como insulto permanente; contra a forma como eles agridem as suas "irmãs de fé" com brutal misoginia; e como se autoexcluem da sociedade de acolhimento, desenvolvendo narrativas de vitimização que só convidam a infindáveis ciclos de violência.

Um caso patológico de "islamofobia"? Assim seria se a própria professora, em conversa telefônica com os progenitores, não se revelasse aos nossos olhos, e aos olhos dos alunos, como sendo igualmente muçulmana. "Nós não sabíamos que a senhora era...", balbuciam os discentes, escutando a conversa em árabe.

A professora não permite a conclusão da frase. E replica, em gritos de afirmação: "Eu sou a professora de literatura! Aqui, sou apenas a professora de literatura!".

Curioso como, em duas frases, está resumida a diferença política fundamental entre a modernidade e o islã. De um lado, alguém que adere aos valores constitucionais da República, respeitando a separação entre duas esferas de poder distintas.

Do outro, os que permitem que a identidade religiosa se sobreponha a qualquer outra, suprimindo os espaços de liberdade e de tolerância que definem as sociedades liberais do Ocidente.

O filme de Jean-Paul Lilienfeld pode não ser um prodígio cinematográfico. Mas mesmo na sua modéstia de telefilme, ele serve como aviso para a França e para a Europa.

Sempre que o assunto ronda essas matérias polêmicas, os exércitos mais conservadores descem o sarrafo sobre a ameaça da imigração islâmica no velho continente.

Confesso que nunca embarquei nesse pavor: o problema não está na imigração, que aliás pode ser uma necessidade para uma Europa demograficamente suicidária.

O problema está na forma como se recebem esses fluxos migratórios. Sem uma economia capaz de crescer e de integrar socialmente quem chega (como nos Estados Unidos); e pelo contínuo repúdio do patrimônio político e cultural da Europa em nome de um multiculturalismo demencial que tudo autoriza e nada condena, o futuro do continente está personificado no colega da professora. Alguém que jogou heroicamente a Bíblia pela janela; para acabar os dias com o Corão dentro da sacola.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Registro 300: Um professor que me ensinou a gostar de História

Uma lágrima para o professor. Fui seu aluno quando cursei a Licenciatura em História na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - UFBA, turma de 1970. Um inesquecível mestre
ISTVÁN JANCSÓ



ESTÊVÃO BERTONI

Ao lado do bibliófilo José Mindlin, István Jancsó foi vencendo aos poucos a "burrocracia", como conta sua filha Virgínia, para tornar real a doação da biblioteca do empresário à USP e, assim, dar vida ao projeto Brasiliana.
Professor de história formado pela USP em 1963, István era um húngaro de sotaque baiano -"oxente" era frequente em seu vocabulário.
Com os pais, chegou ao Brasil aos nove, fugindo da guerra.
Após se formar, mudou-se para a Bahia como professor.
Nessa época, aprendeu os segredos da culinária local com o amigo João Ubaldo Ribeiro.
Durante a ditadura, foi preso, torturado -perdeu parte da audição- e se exilou. Na França, deu aulas, mas voltou ao Brasil. Foi trabalhar numa indústria, mantendo o sonho de retornar à universidade.
Atualmente, era professor titular do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, e coordenador do Brasiliana, cujo prédio está sendo erguido. Nele, será possível pesquisar o maior acervo de livros e documentos sobre o Brasil.
À filha o pai dizia que cuidaria mais da saúde. Sua vida era toda dedicada à USP, conta o professor Pedro Puntoni.
Em 2007, ele intermediou a saída dos estudantes que haviam ocupado o prédio da reitoria. Assim explicou a atitude: "Sou professor, tinha que estar perto dos meus alunos".
Ontem, devido a um câncer, ele morreu aos 71 -23 dias após Mindlin. Deixa viúva, dois filhos e duas netas. O velório foi ontem, na Beneficência Portuguesa, de onde saiu aplaudido para o crematório.


Publicado na edição de 24 de março de 2010, Folha de S. Paulo

quinta-feira, 11 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Registro 298: Liberdade antes que seja tarde

O governo conservador e ditatorial de Ahmadinejad prendeu o cineasta Jafar Panahi, que fez o belo O Círculo. Afirmam as autoridades que a prisão não é política. Mais uma mentira autoritária!
Liberdade para os presos políticos cubanos!
Que os filhos sequestrados pela ditadura argentina encontrem seus pais, como Francisco Madariaga encontrou o seu depois de 32 anos!
Que os parentes dos mortos do Araguaia possam saber da verdade sobre o paradeiro de cada um.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Registro 297: O ovo da serpente


O debate é interessante e vale a pena ler os textos que retirei do jornal Folha de S. Paulo, edição de 18 de fevereiro, 2010. Quando o controle é demasiado o pensamento se estreita ou vice-versa. Viver sob a censura é cair nas trevas. Sem essa de Grande Irmão! A qualidade da programação da produção artística e sua veiculação não passa pelo controle. Sem essa de pensamento único. Os dois articulistas levantam a lebre e é preciso que o debate se dê democraticamente. Dá arrepios pensar que o Sr. Marco Aurélio Garcia faz parte da equipe da ministra presidenciável Dilma Roussef.

Esterco, go home!
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
EDITOR DE OPINIÃO

Não há dúvida de que a indústria cultural desempenhou seu papel na ascensão dos Estados Unidos a potência mundial durante o século 20. Cinema, música, história em quadrinhos, pipoca e hambúrguer também foram artífices da "hegemonia" norte-americana.
Mas, se é tolice tentar negar a existência de laços entre cultura e poder, aproxima-se da burrice traduzir essa relação nos termos estreitos e datados do esquerdismo latino-americano, esquemático e antiamericanista, ainda professado, ao que parece, pelo assessor presidencial Marco Aurélio Garcia.
No discurso do sábio palaciano não há lugar para dialética e sutilezas. Tudo se move segundo o maniqueísmo pueril e ao mesmo tempo brutal do marxismo vulgar.
O culpado pelo atraso histórico do continente é o êxito dos americanos. O mal é o imperialismo ianque, que exerce sobre nós seu "processo de dominação". Algo assim: Rambo enfia o cano de sua metralhadora na orelha do Jeca Tatu e o obriga a dançar um rock.
O que emerge da conversa de Garcia é uma concepção estanque de culturas nacionais, que deveriam ser protegidas por muralhas para não se deixarem conspurcar pelo esterco alheio. Esterco, go home!
Parece não ocorrer ao nosso Policarpo Quaresma do Planalto que a cultura norte-americana, aliás de maneira análoga à brasileira, é em grande medida caudatária da europeia e forjou-se num complexo e rico processo de interação e entrechoques de nacionalidades e etnias -no qual, aliás, teve relevância a contribuição africana.
Sem os negros não haveria o jazz, aquela música perigosa que Hollywood adotou e ajudou a difundir pelo mundo.
E o que fez o jazz em seu "processo de dominação" sobre a cultura brasileira? Acabou com o nosso glorioso samba? Ora, Pixinguinha já era jazz. E a bossa nova, que terminou virando marca e orgulho nacional, não existiria sem a dialética do samba com o esterco jazzístico ianque. Oswald de Andrade, que também teve seu sarampo stalinista, já havia apontado: não precisamos ter medo, não somos indefesos, somos antropófagos.
Mas talvez Garcia, lembrando Sebá, o último exilado brasileiro (tipo criado em outros tempos por Jô Soares), ainda considere Tom Jobim e João Gilberto agentes infiltrados da CIA que queriam sabotar nossa autêntica música popular.
O problema das ideias expostas pelo professor é que, estando ele no poder e raciocinando como homem de Estado, indicam a hipótese sombria do autoritarismo. Não apenas ao modo tragicômico de Hugo Chávez, mas ainda pior. Ou como deveríamos entender a saudosa menção aos valores do finado socialismo real?
Concordaria o ilustre conselheiro, por exemplo, com o governo chinês, que exerce censura até sobre a internet? Aliás, por que Garcia está tão preocupado com a restrita TV a cabo?

Com medo da liberdade
LUIZ FERNANDO CARVALHO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Ao ler as declarações de Marco Aurélio Garcia, lembrei da anedota que circulava na falecida República Democrática Alemã. Sabendo que toda correspondência seria lida por censores, um operário que conseguiu emprego na Sibéria combina com os amigos: "Vamos criar um código. Se uma carta estiver escrita em tinta azul, o que ela diz é verdade; se estiver escrita em vermelho, tudo é mentira".

Um mês depois, os amigos recebem uma carta escrita em azul, que diz: "Tudo aqui é maravilhoso, o comércio vive cheio, a comida é abundante, os lares aquecidos, os cinemas exibem filmes do Ocidente, há uma atmosfera de liberdade e justiça social por toda parte. O único senão é que não se consegue encontrar tinta vermelha".

A menção à inexistência da tinta mostra que a carta deveria ter sido escrita em vermelho. Isso produz o efeito da verdade: era a única forma de transmitir a mensagem verdadeira naquela condição de censura.

Pegando carona na anedota, podemos dizer que a "tinta" usada nas declarações do professor -"processo de dominação"- são termos que maquiam nossa percepção da situação em vez de nos permitir pensá-la, servem para mascarar e manter nossa precariedade audiovisual mais profunda.

A libertação evocada por Garcia transforma-se na melhor de todas as salvaguardas contra a liberdade: "A esquerda precisa reagir à difusão de valores capitalistas", diz. Em que a TV a cabo incomoda este governo? Assiste quem paga, e o assinante tem o livre-arbítrio de cancelar sua assinatura. Questões mais urgentes nas telecomunicações, como os desdobramentos dos canais digitais das TVs, seguem esquecidas em alguma gaveta do Planalto.

A TV a cabo representa uma elite de cerca de 5%, enquanto a maioria da população é arrastada pelos conteúdos [alguns até mais nocivos que os estrangeiros] das TVs abertas, que se abstêm de abraçar uma função maior: a formação de cidadãos, e não só de fiéis consumidores.

Mas isto pouco importa ao assessor, seu negócio é o controle do imaginário brasileiro via TVs a cabo, quem diria. É preciso olhar o mundo. Proibir, não. Nossa TV por assinatura nasceu sob influência de um modelo monopolista da TV aberta e da importação de produtos culturais dos grandes "players" do cenário internacional. Para alterar a restrição dos 49% no máximo de participação estrangeira nas concessões de TV, é necessário mudar a lei que as regula.

A não ser que Garcia considere que, diante da crescente monopolização das TVs pagas, monopólio por monopólio, o de Estado seja melhor. Mas o assessor escolheu virar suas baterias contra os ideais democráticos, tentando restringir o livre fluxo da informação, como acontece nos regimes totalitários, onde o primeiro inimigo passa a ser a imprensa livre.

Essa mesma imprensa foi quem revelou ao país seus verdadeiros pensamentos ao flagrar seu gesto obsceno [o top-top do Fradinho, do Henfil], captado por uma câmera "indiscreta", espalhando sua chocante reação debochada às primeiras investigações sobre o trágico acidente com o avião da TAM. Em vez de trabalhar para o aprimoramento da indústria cultural brasileira, Garcia opta pelo mais fácil: o cerceamento.

Ataca uma indústria ainda em formação, que nasceu tardiamente no Brasil nos anos 70 e se constituiu como mercado efetivo somente a partir dos 90. Hoje, as TVs por assinatura, que estão se revigorando através de leis de incentivo à produção nacional, deixaram de ser meras repetidoras de conteúdo estrangeiro e começam a gerar empregos para profissionais do audiovisual, trazendo inovação de fora e de dentro.

Debulhando todo o seu conteúdo, é evidente, avista-se muita produção duvidosa, mas se colhe também o que de melhor está sendo produzido no mundo da TV.

Comparar a influência em termos de dominação cultural da TV a cabo à ameaça militar da 4ª Frota americana é no mínimo uma piada [e velha], uma atitude anacrônica de uma esquerda já tão antiquada e sectária que nos faz lembrar os métodos do general Quandt de Oliveira, ministro das Comunicações [1974-79] do governo ditatorial do general Geisel, que preconizava a estatização das TVs e o cerceamento da exibição de produção estrangeira, num momento em que a Europa se preparava para privatizar suas TVs e McLuhan já tinha formulado o conceito de "aldeia global".

Ideias obtusas como as proclamadas por Garcia e a insistência em manter o isolamento eletrônico para melhor manipular e dominar -como em Cuba, Venezuela e China- é o mesmo que proibir a publicação de autores estrangeiros. Como diz o filósofo Slavoj Zizek: com esta esquerda, quem precisa de direita?

Caberá ao governo decretar o que é "esterco cultural"? Cercear a exibição de conteúdos, numa era de transmídia, é uma medida isolacionista, que não gera troca de ideias nem de ideais. É estar na contramão da cultura e do que acontece no mundo. Fico com Bernard Shaw: "Liberdade significa responsabilidade, é por isso que tanta gente tem medo dela".

LUIZ FERNANDO CARVALHO, 49, é cineasta e diretor de TV. Dirigiu "Lavoura Arcaica", "Hoje É Dia de Maria" e "Capitu", entre outros.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Registro 296:Dança em meio ao xixi... Ano que vem tem mais

Quem é obrigado a sair para fazer outra coisa que não seja se arrastar atrás de trios-elétricos turbinados deveria sair com máscara, não de carnaval que caiu em desuso, mas aquela para proteger o nariz, tal o fedor de mijo que se espalha pelo ar e por todos os cantos. Um horror!
E o povão, cultivando sua imensa ignorância, segue satisfeito no maior regozijo, com suas besteiras e vulgaridades. Mas isso não é mérito do povão. No topo da pirâmide e na espremida classe média esse é o comportamento cultivado. O Carnaval é uma vitrine para a exibição da vulgaridade. A loira da UNIBAN taí pra não deixar ninguém mentir.
Estamos muito mal musicalmente: a música considerada como a melhor do Carnaval baiano é Rebolation. Um indigência musical!
Deu no maior jornal da cidade que Ivete Sangalo se reinventa a cada ano. Só na cabeça de jornalista puxa saco! Ivete pode ser considerada uma animadora em cima do trio e boa cantora, mas é a mesmice ambulante. Todo ano a mesma coisa, muda só a fantasia, mas dentro do mesmo padrão.
O modelo do Carnaval tá fazendo água, só não vê quem não quer! Os cantores passam o tempo todo fazendo discurso de frase feita, comandando o bloco com palavras de ordem repetitivas e gastas, babando o ovo da imprensa e dos colegas de profissão atrasando o ritmo do desfile.
Durval Lélis já sinalizou a solução para o Carnaval. Que tal um axezódromo para o desfile e a cidade aberta para quem quiser sair e brincar?! O Rio de Janeiro está mostrando a saída.
As cenas de violência vistas pela TV são de assustar.
A beleza dos blocos negros a gente não vê. A televisão não tem interesse em mostrá-los.
Foi (é) bacana ter Moraes Moreira retornando. Mas gostaria de saber: ele e os trios independentes conseguiram desfilar num bom horário, conseguiram tocar em entre dois trios que se atropelam impedindo que se curta os sons de cada uma um?
Ah, quem vai no bloco só se anima diante das câmeras de TV. De resto se arrastam. Atrás dos trios-independes não vai ninguém. Fica uma vazio. Por que? A música é ótima, o repertório animado, mas o folião não se anima... Triste Carnaval.
A ti tocou-te a máquina mercante [...]
Tanto négocio e tanto negociante...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Registro 295: Revista Cena

Caso tenha interesse, segue o endereço eletrônico da Revista Cena, do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas - Instituto de Artes - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tenho uma artigo publicado na revista: A Casa de Eros e Dionísio: um projeto de ensino e encenação

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Registro 294: É carnaval no gueto

Aqui em Salvador já é Carnaval. Amplia-se o caos já instalado desde janeiro quando começaram os trabalhos para a montagem do megalómano gueto. Sim, um gueto. A cidade que em décadas passadas, bem lá pra trás se enfeitava e se abria convidativa para todos, agora divide e demarca sues espaços só para alguns. O folião mesmo fica na beiradas, come por fora as sobras que caem da festa negócio. E como negócio sempre houve em qualquer festa e no Carnaval mais ainda, é melhor esclarecer meu ponto de vista. Na festa carnavalesca, desde o entrudo, o negócio sempre esteve presente, mas havia nos carnavais passados algo inegociável. Nesse espaço transitava o cidadão/folião que não precisava comprar a alegria nem o espaço para brincar na festa da carne, das parte baixas, do desregramento, da desmedida, do descontrole. Agora, tudo é controlado. E quem não tem grana, fica a ver navios, chupa o dedo e conforma-se, visto que as leis do mercado tomaram conta da folia baiana. E são essas leis que mandam, controlam, organizam, delimitam.
Comecemos pela decoração. As ruas viraram uma grande mostruário de marcas, a dos patrocinadores. Essa é a decoração. A iluminação é aquela para aumentar a vigilância, ainda bem. Com tanto dinheiro, o amigo do alheio vai pra rua com a finalidade de ganhar o seu na marra. Não há mais os enfeites de luzes coloridas no trajeto dos brincantes. Os delicados arabescos nos transportavam para fora do cotidiano da luz branca e o colorido da luzes enchiam os olhos de cores. Agora temos a iluminação vigiar e punir ou a iluminação para favorecer à maquinaria da televisão.
Da mesma forma, relegou-se ao passado a decoração temática, obra de artistas (não de marqueteiros), que por concurso ganhavam o direito de enfeitar as ruas. Ruas que se abriam para qualquer folião que quisesse enfrentar os três dias de folia. Agora são sete. Os empresários do Carnaval decidiram nos escritórios em conluio com o poder público essa mudança, esticando a festa para ganhar mais uns trocados.
A cidade parece uma praça de guerra. Imensos e contínuos tapumes enfeiam tudo em nome da proteção. Antes, a cidade se abria para os anônimos e para os famosos. Os últimos vinham por querer conhecer a festa ou para revivê-la, e não para faturar um cachê. A participação de famosos, emergentes e estabelecidos, tornou-se um vício na festa do Carnaval da Bahia. Eles chegam com seu contrato debaixo do braço, circulam, sorriem, dizem frase óbvias e como a maior partes deles é peixe fora d'água, soltam barbaridades em frente as câmeras. E tome palavras de ordem amplificadas em decibéis. Num tempo não tão distante, os famosos vinham para cair na gandaia e se esbaldavam sem a preocupação com o visual, nem com os sorrisos de ocasião.
É esse Carnaval de ponta-cabeça que nos enfiam goela abaixo, com seus shows pasteurizados em cima dos atuais trios-elétricos, que de trios só tem o nome. Quem deveria cantar e animar, passa a maior parte do tempo numa arenga feito político de segunda, que fala muito e não diz nada. É esse o Carnaval "guetificado", dividido, excludente. O Carnaval do camarote. O Carnaval bacana dos sorrisos para as câmeras, e somente para elas. A festa da obviedade, discoteca vertical. Alguns poderão argumentar que o povo gosta. Eu contraponho: nem tudo o que o povo gosta é bom. Além disso, não há outra opção. Se houver me diga. A indústria do carnaval martela sua propaganda e nos vemos todos levados por esse canto de sereia. Fugir dele é difícil. Vão-se os dias de um trio elétrico que arrastava gente pobre e gente rica.
Ao perguntar aos mais próximos se estavam preparados para o carnaval, ouvia sempre a mesma resposta: "Como, se um abadá custa os olhos da cara?!" Eu argumentava: e por que não pular sem abadá? Silêncio. Daí, eu concluir: comprar um abadá dá destaque, você deixa de ser massa. passa a ser diferenciado. Estar sem abadá significa que você pode ser confundido com povão e ninguém quer ser comparado aos miseráveis.
Esse texto parece escrito por um antifolião. Engana-se o leitor. Trago na alma o folião que é filho de Rei Momo, que desde criança fez a festa vendo o pai se transformar em Rei Momo numa pequena cidade do interior. Mas como não há mais espaço para esse folião, festejarei meu Carnaval de outro modo. Tenho por certo que tudo se transforma, para pior ou para melhor, esse é o ritmo da vida. Então, vamos esperar a transformação, sabendo que ele será artificial, porque gestada por uma minoria que vai impor outro modelo de Carnaval, quando o atual não render o que os empresários desejam lucrar. É só dar tempo ao tempo.
Durante a folia, eu vou mergulhar nos livros, cozinhar, ler os blogs que estão registrados no Cenadiária, ver filmes, dormir e sonhar com outros carnavais. Como estou prisioneiro em minha casa, já que parte do dia não posso sair de carro, tentarei abstrair. Na hora em que der vontade, irei ver o que acontece. Assim, poderei tomar pé do reinado do Momo Pepeu Gomes, mais rei da guitarra que nobre de folia, embora tenha nos embalado com sua música durante outras festas.
Por falar em ler, ontem, por extrema necessidade, procurei Introdução Filosofia da Arte, de Benedito Nunes e outro título que gostaria de ler durante essa semana atípica, Vão-se os Dias e Eu Fico,de Edson Nery da Fonseca. Não encontrei nenhum deles. O de Nery é lançamento recente, o de Nunes é uma velho conhecido perdido entre mudanças e doações de livros. Nas quatro grandes livrarias da cidade, poucas para uma capital do porte de Salvador, o leitor (pesquisador ou não) depara-se com um cenário de baixa oferta. Tem uma livraria que se denomina Mega Store, mega somente no nome. Mas vamos deixar prá lá. Até quarta-feira de cinzas...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Registro 293: Nine

Os críticos torcem o nariz, o público americano não foi conferir e até agora as premiações ignoraram Nine. Eu gostei muito. Assisti com prazer. Ainda que tivesse na retina-memória as imagens instigantes de 8 1/2 de Felini, não fiquei comparando os filmes. As atrizes estão ótimas, cantam dança e representam, um clichê quando se quer falar da capacidade dos intérpretes americanos, embora o elenco estelar não seja de americanos. E ver Sofia Loren em forma é de fazer a gente gritar no escurinho do cinema, que estava vazio. O que para mim é ótimo. Não gosto de cinema cheio. Como sempre, Daniel Day-Lewis dá conta do recado.
Preparo-me para ver Invictus. Um chato da Folha de S. Paulo meteu o malho. Diz que o filme é previsível. Melodramático! Não acredito,mas vou conferir. Ah, não esquecer Preciosa.
Na minha lista de 2009 não inclui Proposta para um Tempo de Paz, de Daniel Filho. Aqui em Salvador queimaram o filme, da mesma forma como queimara Katin a poderosa denúncia de Andrei Wajda. Vi na TV, paga. A aberta é um lixo! A outra ainda possibilita que possamos ver coisas que as redes de cinema abortam.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Registro 292: Homenagem a Zilda Arns e ao povo do Haiti

O Nobel da Paz brasileiro

ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - Zilda Arns foi o que todas nós, ou muitas de nós, gostaríamos de ser ou de ter sido: uma mulher de infinita dedicação às suas crianças, à sua gente, ao seu país e ao seu mundo.
Ela morreu como viveu: chacoalhando em desconfortáveis jipes militares, aos 75 anos, numa guerra contra a pobreza, a sujeira, a ignorância. A favor da vida. Morreu para que tantos outros vivessem no pequeno Haiti, o mais miserável país da América Latina, quase um encrave da África pobre na região.
Médica, especializada em educação física e pediatria, coordenadora da Pastoral da Criança da CNBB, Zilda foi indicada três vezes pelo Brasil para o Prêmio Nobel da Paz.
Merecia, e seria uma honra para cada um de nós. Mas ela não era só brasileira, era do mundo.
Suas soluções simples, baratas e enormemente eficazes cruzaram fronteiras e foram salvar vidas em 15, 20 países pobres da América Latina e da África. Coisas assim como lavar as mãos, tomar banho, aproveitar os alimentos até o último detalhe. Quem não leu sobre macerar cascas de ovos para adicionar cálcio à alimentação de pobres? Quem não sabe da mistura caseira para salvar crianças de desnutrição e desidratação?
Sua história e seus ideais se confundem com os de um ícone mundial, que foi Madre Tereza de Calcutá. Mas Zilda não era freira, não usava hábito e dedicou sua vida à vida alheia, mantendo-se bonita, vaidosa, imensamente feminina. Não interpretou um papel. Era apenas ela mesma em ação.
Se Zilda Arns tivesse morrido de uma doença qualquer, de um acidente qualquer, mesmo assim sua morte teria imensa repercussão e geraria uma tristeza nacional. Quis o destino, ou a sua saga, que ela morresse no Haiti, num terremoto.
Torna-se, portanto, uma personagem única, cercado por símbolos e exemplos que deixam marcas, rastros. Zilda, definitivamente, não passou pela vida em vão.

O texto publicado no jornal Folha de S. Paulo (14.01.2009) merece a nossa atenção.
Rezemos pelo Haiti, pensemos no Haiti. Ajudemos o Haiti.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Registro 291: Notícias do ano que passou

Não farei a lista do melhores do ano. Elas são sempre falsas, mas registro acontecimentos que vivi em 2009. Tais acontecimentos ficam como momentos de intensa magia. E os registros estão guiados somente pela subjetividade, de outra forma não seria, visto que não pretendo estabelecer nenhum juízo de valor. Quero apenas o registro daquilo que ficou em mim como um elo emocional, afetivo

Conclui mais um livro e enviei para algumas editoras. Espero que um delas aceite Dias de Busca e Um Achado. Meus livro publicados, Primavera Pop!, Braçoabraço, Da Costa do Ouro, De Cara Para o Futuro, Bacanas e Famosos no Caderno de Autógrafos e Um Grilo no Pedaço, continuam vendendo, espero que sejam lidos.

Em maio, lancei Transas na Cena em Transe: teatro e contracultura na Bahia (EDUFBA). De vez em quando alguém faz um elogio ao trabalho. Fico contente... O teatro baiano (1966-1974) e seus artistas proporcionaram o material necessário para a feitura do livro.

Assisti aos ótimos filmes Canções De Amor, Bem Vindo, Crônica de Natal, Bastardos Inglórios, À Deriva. No teatro apreciei A Canoa, Deciembre, Caso Sério, A Última Sessão de Teatro, Noite de Reis, Pinóquio.

Li alguns livros: Indignação de Philip Roth, Seleção Natural de Otávio Frias Filho, Estilo Tardio de Edward Said, Bendito Maldito, uma biografia de Plínio Marcos por Oswaldo Mendes, Estátua de Sal (2008) de Albert Memmi, e muitos outros... Reli livros de Fanny Abramovich e recebi de Cecília da Silveira Luedemann Carrapicho. A jovem escritora foi minha aluna no Scholem Aleicham

A biografia de Plínio Marcos, eu ainda não terminei, mas o livro é muito bem escrito embora tenha algumas informações incorretas sobre a atuação de Alberto D'Aversa na Bahia, mas isso não diminui o valor do livro. Pronto, lá vou eu fazendo apreciação.

Aguarda na mesa de cabeceira o livro de Cláudio Magris Às Cegas. O livro vai ter que esperar, já que tenho pela frente uma empreitada que merece a minha dedicação e meu empenho.

Além disso, acompanhei com bastante interesse os blogs de Daniel Pizza, Luiz Carlos Merten, Zanin e Celso Júnior.

Espantei com a situação do Centro Histórico de Salvador quando acompanhei uma amiga paulistana interessada no Barroco. Torci pelos artistas baianos, principalmente os companheiros de ofício. Espero dias melhores...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Registro 290: Estado laico

Vale a pena ler em A Tarde de hoje, 18 de dezembro, 2009, o artigo de Luiz Mott Estado Laico. O antropólogo vai na mosca e deixa uma alerta. Transcrevo um trecho: "Merece aplauso o poder público ao negar privilégio aos estudantes religiosos que recusam fazer provas do Enem no sábado. Devem ser multados ou caçado o alvará dos templos que desrespeitam o sagrado direito de repouso do cidadão, cujo sono é prejudicado pelos ruídos infernais de liturgias e alto-falantes. O sábado foi criado para o homem e não o homem para o sábado, disse Jesus."

domingo, 13 de dezembro de 2009

Registro 289: 13 de dezembro

Hoje, 13 de dezembro, é dia de Santa Luzia, a padroeira dos que não veem a luz. A festa é celebrada em Salvador na igreja dedicada a ela, uma belo conjunto arquitetônico que vive uma processo de restaura arrastado sem que se saiba até quando se concluirá. Os órgãos encarregados de cuidar do patrimônio de pedra e cal devem saber.
O conjunto fica situado numa área degrada da Cidade Baixa, nada convidativa para uma visita, mas no dia 13, os fiéis vão pegar a água da fonte dita milagrosa. Gosto da santa por essa simbologia ligada ao ver e a sua incapacidade. Embora se possa ver de muitas maneira: a linguagem dos sinais está aí para que os privados da visão possam ver.
Dia 13 de dezembro é também a data de aniversário do malfadado e miserável e estúpido Ato Institucional Número 5 editado pelo governo civil-militar em 1968. Não lembro de ter ouvido sua proclamação já que no horário em que a notícia foi dada em cadeia nacional, eu devia estar ensaiando Biedermann, e Os Incendiários, texto de Max Frisch sob a direção de Alberto D' Áversa na Escola de Teatro da UFBA. Mas lembro-me bem dos seus efeito deletérios sobre a vida de todos nós.
Dentre seus efeitos, o que atingiu a minha categoria, a dos artistas, a maior foi a censura. Se é que posso dizer maior, já que o AI5 castrava toda possibilidade de manifestação de quqluer categoria. Mas a censura ao teatro, ao cinema, as artes plásticas e a literatura foi grandemente danosa. A Segunda Bienal de Artes Plástica da Bahia, aberta no Convento da Lapa foi fechada e muitas obras retiradas a partir da sanha proibitiva do governo. O passando nos olha dizendo que devemos ficar atentos, como aquela canção de que diz a mesma coisa.
Após 24 anos anos da queda do regime militar, depois da redemocratização e da Constituição que se fez depois da Abertura e nos rege, eis que o Supremo Tribunal Federal nos joga no túnel do tempo e nos deixa assombrados ao manter a censura ao jornal O Estado de S. Paulo. E para isso seis ministros usam de firulas, mantendo-se aferrados a princípios que ferem a Constituição cujo artigo 220, diz que "é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística", tudo isso para esconder-proteger a família Sarney, sem que se possa acompanhar o andamento das investigações.
Aproveito para citar mensagem enviada ao Estado pelo professor Plácido Z. Táboas. Diz o texto: "A frase 'se é inviolável a honra e a intimidade, é preciso que isso tenha alguma consequência' não seria mais apropriada para o caso do caseiro Francelino Costa? Provavelmente o mesmo ministro não a tenha proferido naquela ocasião porque então se julgava a violação do sigilo bancário de uma pessoa comum, perpetrada por essas pessoas incomuns. Nenhum Poder da República se salva...' (O Estado de São Paulo, 13 de dezembro de 2009, p.A 2)
O desprezo pela Constituição abre perigoso precedente. E como não sabemos o que se arma nos corredores do Poder, somos levados a terríveis fantasias ou não? Espero que o fantasma da ditadura, seja ela de direita ou de esquerda, não se apresente no horizonte do país.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Registro 296: Espanto!

Ontem (04.12.2009), dia da padroeira das tempestades, de calor intenso e muita luminosidade, deparo-me na edição de A Tarde com uma carta em defesa da Marcha da Maconha. Nada contra. Marcha-se por tanta coisa, umas até indefensáveis! Outra nem tanto.
O meu espanto não é fruto nem da Marcha nem da carta. Mas através dela fico sabendo que o sociólogo Renato Cinco estabelece uma relação entre a repressão ao tráfico como sendo uma questão abolicionista, ou melhor antiabolicionista, visto que para ele, os perseguidos, pessoas ligadas ao tráfico, são "negros" e "pobres". Por serem negros e pobres são vítimas do preconceito e a perseguição se dá por essa condição. Penso ser uma distorção. Não me parece que o tráfico esteja associado a essa ou aquela etnia nem é uma questão de classe.
Se a contravenção está instalada nas regiões onde se encontram moradores de baixa renda, não podemos sair em defesa da criminalidade por conta da pobreza e de serem negros o contrataventores. O tráfico também se instala em outras camadas da sociedade e o problema deve ser atacado do ponto de vista da criminalidade, seja ela conduzida por qualquer pessoa. Não sendo assim, instala-se a barbárie! O que se persegue não são negros e pobres, assim me parece, mas contraventores, "comerciantes" ilegais de drogas, algumas delas mortais. E essa ação não fica circunscrita ao ciclo de venda e consumo, não necessariamente nessa ordem. O comércio ilegal na mão de brancos ou negros, leva a um ciclo de horror derivado da violência gerada por esse ambiente.
O posicionamento do sociólogo escamoteia, desvia e tenta criar uma falácia. Depois, quando se diz que a sociologia serve para tudo e não serve para nada, desperta-se o furor dos sociólogos de plantão. Mas teses estapafúrdias como estas causam espanto e são perigosas. Não creio que a luta para vencer o preconceito e incluir passe por essa ótica. Não creio que tal tese amplie a discussão sobre a legalização das drogas, assunto complexo que não deve ser discutido por esse viés. Essa visão idealizada do povo não faz avançar as suas questões nem contribui para o processo transformador. A que ponto nós chegamos!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Registro 295: Corajoso posicionamento

Meu nome é dirigismo, e escreve-se na pedra!

Gideon Rosa

Ator e jornalista

A classe artística pode e deve imediatamente reagir a declaração (jornal A TARDE, 27.11.2009, pág. A-8, editoria de Salvador) arrogante e cínica do diretor do Teatro Castro Alves quando, para tentar justificar a ausência de inscrições para os editais do Núcleo do TCA, disse: “Meu questionamento a isso tudo é que talvez essa propalada crise na cultura esteja acontecendo dentro do cerne (sic) dos criadores. Mas vamos relançar o edital do tema livre ainda em dezembro em data a ser anunciada até o fim da semana que vem... no caso de novamente não haver inscritos com documentação em ordem minha posição é de que não haja uma terceira tentativa... “

Os stanilistas remanescentes – no Brasil e no mundo – devem estar todos com os pelos eriçados. Jamais, em tempo em algum, foram tão competentes quantos esses gestores da cultura baiana: eles possuem talento inigualável para mentir, distorcer, manipular, cooptar, coagir pela força do vil metal e, principalmente, enriquecer aproveitando as brechas da legislação, mantendo a cara de humildade.

Qualquer gestor com uma vírgula de humildade iria desejar investigar as razões pelas quais os artistas baianos não quiseram se inscrever nos editais do Núcleo do TCA. Se assim o fizesse, iria descobrir que a razão pela qual os artistas se afastaram – àqueles que ainda possuem brios e respeito pelo seu ofício – é pelo simples fato de não desejarem se submeter ao atual grau de dirigismo do processo criativo embutido nos editais. Os editais estão atualmente configurados de modo nocivo à produção artística, e, claro, ao processo criativo. Os editais são – todos, indistintamente, não importa a unidade, se na Funceb, se no Irdeb, se no TCA, em qualquer campo – um emaranhado manual de como os artistas devem manejar seu processo criativo. Isso é uma afronta inaceitável para quem se respeita!

Aí então, àqueles que ainda possuem algum discernimento se recusam a concorrer a um prêmio de R$ 200 mil para uma montagem (menos o desconto linear de 20%), cujo edital estipula um número mínimo e máximo de atores, o que configura uma descarada ideologia de reparação social através da arte. Além disso, exige-se um piso salarial de R$ 2.500,00 (para atores) e técnicos (variadas faixas) durante três meses. Mas esquecem de fazer as contas. Quem é o artista que, antes de começar, conhece todas as démarches do processo criativo? Ainda não nasceu quem o soubesse. Um processo criativo pode durar um mês, 14 ensaios, 40 ensaios, não há parâmetro; só as necessidades do trabalho vão determinando isso.

Para agravar, os editais exigem que os ganhadores ministrem uma série de oficinas tão idiotas que o coitado passará mais tempo elaborando as oficinas (se for honesto, claro) que não terá tempo de pensar artisticamente em sua própria montagem. Sem falar que as parcelas não são pagas no tempo devido, mas as despesas de produção não esperam, e a prova disso é que a última produção do Núcleo do TCA (Jeremias...) teve um final melancólico: dívidas, brigas internas, inadimplência, troca de elenco etc.

Mas os editais da Funarte, Caixa Cultural, Petrobrás e outros que existem por aí têm salvo parcialmente a situação. A vitória dos artistas baianos nesses editais externos comprova, com clareza, que os artistas baianos não estão em crise criativa. A crise é, verdadeiramente, de gestão, de ausência de um plano para as artes, como confessou publicamente o próprio secretário, muito embora a grande mídia não tenha registrado essa frase emblemática. Em resumo, são esses editais externos que permitem que se dê uma pequena volta por cima dessa perseguição implacável aos artistas implementada pelos atuais gestores da cultura baiana. São eles que têm mantido a dignidade mínima da produção artística da Bahia. Poderia ser mais, mas a arrogância resolveu colocar tudo no mesmo balaio e o resultado é uma confusão da qual nem eles próprios conseguirão mais sair.

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Publico o texto do ator Gideon Rosa, pois trata-se de um pensamento corajoso a respeito de uma questão que não pode ser deixada de lado. Se a culpa está na política cultural do atual governo, refletindo-se em uma edital que não desperta interesse entre os artistas de teatro, é necessário que os mandatários revejam sua postura. Ainda que estejam nos cargos para se colocarem na defesa de uma proposta político-partidária, que repensem suas ações à luz do bom senso, visto que tal projeto vem se mostrando ineficaz. Que as palavras de Gideon Rosa se propague, não como assunto de fofoca, mas como um alerta para todos os artistas e principalmente para aqueles que estão no poder. Poder passageiro, diga-se de passagem! A vingança não é a melhor atitude.