quarta-feira, 17 de abril de 2013

Registro 427: Aplausos e lágrimas para Cleyde Yáconis



CLEYDE YÁCONIS FOI MESTRA, NORTE E EXEMPLO


Marco Antônio Pâmio
Ator e diretor

"Foi para o céu a nossa Cleyde. Ela foi grande! Tristeza e uma saudade que não vai passar." Assim diz o e-mail que Naum Alves de Souza, diretor de "Longa Jornada de Um Dia Noite Adentro", acaba de me enviar.
Foi na montagem de 2002 dirigida por ele que a conheci e tive a honra de viver seu filho em cena. A caminho do Rio de Janeiro, para o primeiro dia de ensaios, o estômago me revirava, pois em pouco tempo estaria diante do "mito Cleyde Yáconis", da "irmã de Cacilda", da "grande dama do teatro nacional".
E deparei com uma das pessoas mais simples, íntegras e autênticas que já conheci na vida.
        Cleyde era de uma retidão e de uma coerência admiráveis.
Avessa ao glamour costumeiramente associado à profissão e à cultura de celebridade, Cleyde era obcecada única e exclusivamente por seu ofício. Orgulhosa de seu repertório, construído ao longo de décadas de trabalhos memoráveis, fazia questão de mantê-lo irretocável e ilibado.
A cada noite de apresentação, seu nervosismo antes de entrar em cena era comovente, tamanha a responsabilidade e a importância que dava ao ato de estar no palco.
A boca secava, os lábios tremiam e, muitas vezes, após uma expiração profunda e agoniada, desabafava: "Por que escolhi fazer isso da minha vida, meu Deus?".
Do alto de seus quase 80 anos na época, tinha a adrenalina de uma estreante. Compreendia a função do ofício do ator com lucidez, tenacidade, obstinação e verticalidade cada vez mais raras.
     Estudava dia e noite seu texto, preocupava-se com cada detalhe da personagem, não deixava um instante em cena sem ser preenchido com verdade e emoção genuínas, nem uma única sílaba sem ser cristalinamente compreendida pelo público.
Sua Mary Tyrone era tão genial que muitas vezes eu me pegava em cena assistindo a ela, admirando-a.
E, terminado o espetáculo, aquele "monstro sagrado" do nosso teatro saía dirigindo seu carro rodovia Anhanguera adentro, rumo a sua chácara em Jordanésia. Simples assim. Sem pompa, sem glamour, sem vaidade. Lá, finda a extenuante jornada física e emocional com o suor de seu rosto e a exposição de sua alma, reencontrava a natureza.
Naum tem razão: a saudade não vai passar. Cleyde foi mestra, foi norte, foi exemplo para quem pisa no palco.
Foi, e há de continuar sendo, referência indiscutível numa profissão cada vez mais banalizada pela sede de sucesso instantâneo e do consumo imediato.
Que ela esteja agora sendo recebida por todos os deuses, já ao lado de tantos que lhe foram tão queridos. E com a certeza plena de que nunca a esqueceremos.

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O texto de Pâmio é admirável por ser ele uma ator e diretor que não pertence à geração da atriz e grande dama do teatro brasileiro Cleyde Yáconis. A percepção que ele tem desta grande intérprete é notável e serve como exemplo para os atores e atrizes em início de carreira. Serve porque é uma lição de como aprender vendo uma atriz experiente lidar com seu ofício. Está experiência vivida ao longo da vida, desde que de costureira do Teatro Brasileiro de Comédia passou para o palco e mostrou suas qualidades de atriz. 

Vi Yáconis somente uma vez, sob a direção do meu amigo Emílio Di Biasi. Ela era um furação em cena, uma explosão de técnica e emoção o que fazia com que eu não desgrudasse os olhos de sua figura em cena. Os crítico registraram intensas interpretações de Cleyde Yáconis, entre elas a Geni de Toda Nudez Será Castigada e a dilacerante Medéia, entre outros trabalhos. 

Vivendo reclusa, atriz não se recusou estar no palco e na televisão e trabalhou até não poder mais. Assim são as grandes intérpretes. Vivem para o teatro e deixam marcas na cena. Estas marcas não serão esquecidas enquanto houver uma único espectador que tenha visto a atriz representar. 

PS: Vi Marco Antônio Pâmio estrear como Romeu sob a direção de Antunes Filho em Romeu e Julieta. Ele fazia par com Giulia Gam. Como era lindos e intensos na paixão.

sábado, 13 de abril de 2013

Registro 426: Alexandre Porto Vidal escreveu.


VOCÊ VIU UM HOMOSSEXUAL POR AÍ?[1]

Alexandre Vidal Porto

           Ao longo dos últimos 40 anos, no mundo ocidental, a luta pela igualdade jurídica dos homossexuais obteve conquistas notáveis. De tema proscrito, passou à vanguarda do debate sobre direitos humanos. Cuba, que nos anos 60 mantinha campos de "reeducação" para gays, promove agora políticas de inclusão.
           Nesta última semana, foi a vez do Uruguai, que aprovou o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Ontem, a França também deu um passo importante nessa direção com a aprovação pelo Senado de um projeto que deve entrar em vigor até o meio do ano.
           No caso do Brasil houve avanços, mas o que se oferece aos gays em termos de proteção e respeito social é pouco em comparação ao que fazem países culturalmente próximos, como Argentina ou Portugal.
           Parte do Congresso brasileiro busca minar a consolidação de direitos das minorias sexuais com argumentos condenatórios, toscos e obscurantistas, de cunho radical religioso.
           Ajuda a compor o retrato do homossexual no imaginário popular a repetição incansável de personagens gays estereotipados em programas de televisão. No final, a imagem que fica é que os gays ou são patéticos, ou amaldiçoados.
           O fato de que um discurso desqualificador da homossexualidade possa ser explorado politicamente ou como fonte de humor é lamentável. Mas faz parte de nossas mazelas. Não é por acidente que o Brasil ocupa o 84º lugar no ranking de desenvolvimento humano da ONU, com índice inferior à média da América Latina e do Caribe.
           Toda superação de preconceitos exige ampliação de conhecimentos. No caso específico, os homossexuais brasileiros devem assumir a liderança desse processo educativo. A exemplo do que ocorreu em outros países, cabe a eles mostrar à sociedade quem realmente são.
           O ato mais político que um homossexual pode realizar é assumir-se como tal. Engajar-se pessoalmente na luta pela mudança de percepção. Dar cara, nome e profissão à homossexualidade.
           Chamar a atenção para o fato de que o gay ridicularizado pelo apresentador de televisão ou atacado na rua pode ser o filho que você ama, o irmão que você admira, o seu melhor amigo de infância ou o médico que salvou a sua vida.
           Cada gay que sai do armário traz amigos e parentes para a sua luta. O apoio público de pessoas influentes e admiradas, seja um empresário de peso, um político respeitado ou um artista de renome, dá segurança e respaldo a um ato radical, mas necessário, de afirmação pessoal, que contribui para uma sociedade mais democrática e inclusiva.
           Foi essa a lição que Daniela Mercury deu ao Brasil na semana passada. Que não é preciso ser triste, irresponsável e fracassado para ser gay, que não há nada de feio ou indigno na expressão de seu amor.
           E que a despeito do que diga o pastor ou o programa humorístico, a homossexualidade não é ridícula e nada tem a ver com maldição.
           Daniela fez a sua parte. Deixou claro que o Brasil já gosta de homossexuais. Só precisa saber quem eles são. Cabe a nós apresentá-los.

ALEXANDRE VIDAL PORTO é escritor e diplomata. 



[1] Folha de S. Paulo, 13 de abril 2013

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Registro 425: Brasil, meu Brasil brasileiro


A COMISSÃO DOS DIREITOS HUMANOS 
VIROU UMA ESCULHAMBAÇÃO. 
QUE TRISTEZA!
MAS NÃO POR CAUSA DOS
PROTESTOS,
MAS PELA INDECÊNCIA

 QUE É SEU PRESIDENTE

quinta-feira, 14 de março de 2013

Registro 423: Pactos


O USO RETO DO CORPO


Contardo Calligaris


Em tese, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM) luta para que cada cidadão e cada grupo de cidadãos possam exercer plenamente sua diferença (claro, à condição de que essa diferença não atrapalhe a liberdade dos outros).
Parece lógico que a comissão seja presidida por um espírito libertário. Isso não exclui pastores, padres, imames e moralistas rigorosos, à condição de que, por cultura, experiência de vida e qualidades morais excepcionais, eles saibam colocar a liberdade dos outros antes de suas próprias convicções.
Esse não parece ser o caso do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), pastor evangélico, que acaba de ser eleito presidente da CDHM. Na notável série de suas declarações boçais citadas nestes dias, minhas preferidas são: 1) "Os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato."; e 2) "O reto não foi feito para ser penetrado - não sou contra o homossexual, sou contra o ato homossexual."
1) No texto bíblico que eu li, Cam zombou do pai Noé, o qual condenou Cam e sua descendência à servidão. Mais tarde, os defensores da escravatura decidiram que Cam era o antepassado dos africanos e se serviram dessa história para justificar a posse e o comércio de escravos.
Terminar a evocação de um relato bíblico com um "isso é fato" já é ingênuo. Terminar da mesma forma a revisão do relato bíblico proposta pelos defensores da escravatura é para além de ridículo.
Feliciano, formado em teologia, talvez leia a Bíblia no grego da Septuaginta e no hebraico do texto massorético. Eu me viro em grego antigo, mas, por hábito, leio a Bíblia no latim de São Jerônimo ou no inglês do rei James. Será que ele tem acesso a fontes que eu ignoro?
2) Cada deputado recebe uma verba considerável para que possa opinar com conhecimento de causa. Mas Feliciano parece não saber que uma porcentagem substancial de homossexuais não gosta de sexo anal, enquanto, inversamente, o sexo anal faz parte das fantasias e das práticas sexuais de muitos homens e mulheres heterossexuais. Isso, sem entrar no vasto capítulo das penetrações (fantasiadas ou reais, solitárias ou não) com objetos inanimados ou outras partes do corpo.
O deputado Feliciano poderia se corrigir, generalizando: "hétero ou homo, tanto faz: o reto não foi feito para ser penetrado". Eu entenderia melhor.
Mesmo assim, fico curioso. Será que, para o deputado Feliciano, as mãos foram feitas para carícias, solitárias ou não, recíprocas ou não? E como fica a boca? Sem pensar muito longe, será que ela foi feita para ser invadida pela língua do parceiro ou da parceira?
O deputado Feliciano poderia se entrincheirar atrás da ideia de que tudo o que não serve para a reprodução deveria ser banido do sexo. É uma opinião difícil de ser sustentada, pois, justamente, somos os únicos mamíferos cujo desejo sexual não depende nem um pouco da fertilidade da fêmea e, portanto, da reprodução. Mas é uma opinião respeitável e não incompatível com a presidência da CDHM, à condição de ser, para o próprio Feliciano, apenas uma opinião.
Em outras palavras, o deputado Feliciano tem o direito de ser impenetrável, para maior glória divina. Que diga, então, que SEU reto não foi feito para ser penetrado, e ninguém protestará.
Imaginemos que eu faça parte de um culto satânico que só permite atos sexuais que desprezem a finalidade reprodutiva, e isso justamente para contrariar um eventual plano divino. Ou imaginemos que eu pense, simplesmente, que o melhor uso do meu corpo é o prazer e o gozo.
Será que Marco Feliciano, presidente da CDHM, vai defender meus direitos? Se a resposta não for um sim retumbante, a CDHM deve trocar de presidente.
Agora, quem colocou o deputado Feliciano na presidência da CDHM? Seis deputados se retiraram assim que Feliciano foi eleito; entre eles, Domingos Dutra (PT), Luiza Erundina (PSB) e Jean Wyllys (PSOL). Mas, apesar do gesto dos seis, quem entregou a comissão ao PSC e a Feliciano foi a base aliada do governo.
A presidente Dilma disse que, nas eleições, "a gente faz o diabo" - ou seja, qualquer aliança vale para ganhar. De fato, nas eleições, a maioria de nossos políticos supostamente laicos e progressistas não fazem o diabo, fazem o santinho. Para conquistar votos fundamentalistas, beijam anéis e frequentam cultos; no fim, eles recompensam, de alguma forma. Por exemplo, com comissões. (Folha de S. Paulo, 14.03.2013)


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Se Stálin fez pacto com Hitler, por que o PT não faria  alianças, diga-se espúrias, para se manter no poder? A fala da presidente reflete muito bem o que vem ocorrendo no Brasil. E as consequências? É enojante tal atitude. Ela mostra bem a cara desta "esquerda" que aí está. E nós, para onde vamos? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Um partido que se vende ao diabo, ou faz o diabo para ganhar eleição, não pode ser confiável, pois muda ao sabor do vento. É lamentável. O texto de Contardo Calligaris é lúcido na sua argumentação. É pena seu texto ser lido por poucos. Chega de os "fins justificam os meios", até porque os fins tão apregoados pelo partido e sua militância rebanho não estão sendo alcançados. É fácil bancar a vestal quando se é oposição. Depois é chafurdar.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Registro 422 Para ser lido com atenção


OS DOIS TEXTOS COPIADOS DA EDIÇÃO DE HOJE, 8 DE MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER, VIVA TODAS ELAS, DO JORNAL FOLHA DE S. PAULO MERECEM A NOSSA ATENÇÃO. ELES FORAM ESCRITOS POR MULHERES E O SEGUNDO É SOBRE UMA MULHER DE FIBRA.

O PRIMEIRO É O RETRATO DO NOSSO ATRASO.

ELES DEVEM SER LIDOS UM APÓS O OUTRO. OS TEXTOS GUARDAM PROXIMIDADE EMOCIONANTE PELA LUCIDEZ, PELA CONTUNDÊNCIA E PELA OPORTUNIDADE DE CONFRONTAR QUESTÕES TÃO CONTRADITÓRIAS NESTE PAÍS QUE AVANÇA DOIS PASSOS E RECUA QUATRO.

FICO PENSANDO NAQUELES QUE QUEREM REGULAR A ATIVIDADE DA IMPRENSA NO BRASIL. NÃO FOSSE A LIBERDADE DE IMPRENSA, NÓS NÃO TERÍAMOS OPORTUNIDADE DE TOMAR CONHECIMENTO DAS BARBARIDADES E DAS GRANDEZAS QUE ACONTECEM COTIDIANAMENTE NO PAÍS  



CONTRA AS RAPOSAS, UNI-VOS!

Eliane Cantanhêde

BRASÍLIA - O Congresso ultrapassou todos os limites com a indicação e eleição do deputado federal e pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (atenção ao "minorias") da Câmara. A gente acha que já viu tudo, mas...

Essa história tem um enredo. O PT controla tradicionalmente a comissão, até porque o tema tem muito a ver com a história do partido, mas optou dessa vez por três comissões mais retumbantes. Junto com o PMDB, jogou a de Direitos Humanos no colo de aliados. E justamente no do Partido Social Cristão (PSC).

Boa coisa não ia dar, mas, como tudo que é ruim sempre pode piorar (diferentemente da máxima do também deputado Tiririca), a bancada do PSC indicou e a comissão elegeu o pastor Feliciano, que está no primeiro mandato, que se diz formado em teologia, com mestrado em teologia e doutorado em divindade, e que deixou um rastro racista e homofóbico nas redes sociais.

Pelo Twitter, tascou que "africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé" e que "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição". Por mais que explique, não justifica.

Pensar e acreditar em coisas assim já é um absurdo inacreditável, além de inaceitável, mas escrever e divulgar isso é um verdadeiro escândalo. Mais absurdo, mais inacreditável, mais inaceitável e mais escandaloso ainda é o sujeito pensar, escrever e acabar presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.

Câmara e Senado, aliás, estão virando um zoológico de raposas tomando conta de galinheiros. Processados têm assento nos Conselhos de Ética, produtores rurais presidem as Comissões de Meio Ambiente e condenados pelo Supremo integram as de Constituição e Justiça.

Mas, enfim, depois que um senador renuncia à presidência do Senado, volta e é eleito novamente para o cargo, o que mais se poderia esperar?

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TEXTO DE ELEONORA DE LUCENA SOBRE MARGARIDA GENEVOIS

Quando começou a trabalhar na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, em 1972, Margarida Genevois falou para a família e amigos de casos de tortura e de desaparecidos da ditadura. Encontrou desinformação e desconfiança.

"Eu contava e ninguém acreditava, diziam que era imaginação. Até meu marido acreditava meio desconfiado", relembra às vésperas de fazer 90 anos: "Tomei conhecimento das coisas horríveis que se passavam nas prisões, das barbaridades. Mas a classe média é meio protegida das desgraças da sociedade".

Em seu apartamento em São Paulo, onde mora só, ela recorda que a comissão "era um dos poucos lugares que apoiavam os perseguidos. Eu recebia pessoas que estavam desesperadas, muitas tinham saído de prisões e estavam profundamente marcadas por aquilo tudo. É horrível perder um pai, um irmão que desapareceu feito fumaça no ar".

Da Cúria, as pessoas eram encaminhadas a advogados, médicos, psiquiatras: "Havia médicos que não atendiam. Mas alguns foram formidáveis, arriscaram a carreira. O tempo era duro, mas sempre tinha alguém que dava ajuda por debaixo do pano. Ou auxiliava a pessoa a deixar o país. Muitos não podiam ficar porque seriam mortos".

No início dos anos 1970, a ditadura mostrava sua face mais brutal. Foi quando d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, organizou a Comissão de Justiça e Paz, que acolhia opositores do regime, denunciava torturas e buscava por desaparecidos.

Margarida trabalhou com Arns por 25 anos, presidindo a comissão por três vezes. "O bem que d. Paulo fez não é bastante reconhecido. Quem trabalha com ele cresce."

E como ela foi parar na Cúria? "Eu fazia parte da Ação Católica. Dom Paulo formou a comissão e só tinha homem. Mas, pelo estatuto, tinha que ter uma mulher", recorda.

Indicada, ela conta que o trabalho aumentou quando ditaduras se implantaram no Chile, Argentina e Uruguai. Cidadãos desses países pediam ajuda à comissão. "A Cúria ficava cheia de gente. Sabiam que d. Paulo acolhia. Precisávamos arranjar roupa, lugar para dormir, trabalho, apoio moral. Estavam em péssimo estado, muitos só com a roupa do corpo", relata.

Atuando como embaixadora da comissão, todo ano ia à Europa obter dinheiro para o trabalho junto a ONGs ligadas à igreja: "Eu ia à França, Alemanha, Holanda. D. Paulo era muito cotado por lá. Todo mundo sabia que ele era um cardeal aberto, progressista. Viajava com uma carta dele e era bem recebida".

O marido Lucien se preocupava: "Ele vivia com medo, dizia que eu iria ser presa. Mas me dava total liberdade. A maior parte das coisas que eu fazia ele nem sabia".

Lucien, francês, foi diretor da Rhodia. Eles se conheceram numa excursão de trem a Minas. Ficaram 35 anos juntos (ele morreu em 1986). Logo após o casamento (1944), foram morar em Campinas.

Lá a multinacional francesa montou uma usina de cana de açúcar. Em plena guerra, ela precisava de álcool que não podia ser transportado por navio do Nordeste por causa do perigo alemão.

Na fazenda moravam 2.500 pessoas. Margarida notou que a mortalidade infantil era alta: "Os colonos eram paupérrimos. O médico dizia: não tem doença, é fome. As mães não sabiam cuidar das crianças. Depois do parto colocavam teias de aranha ou excremento de vaca nos curativos. O tétano vinha em dias".

Para mudar essa situação, ela criou um curso de puericultura, uma pequena creche (os berços eram feitos com caixas de cebola pintadas de azul) e fez um jornal para as mulheres. Ensinou o que aprendera no curso de enfermeira de guerra: "Vi na fazenda que não adianta dar as coisas -tem que educar".

A iniciativa foi um sucesso, reduziu as mortes de crianças. É desse tempo de fazenda, em que viveu 22 anos, que Margarida tem uma das recordações mais emocionantes: "Chegou lá no posto de puericultura um rapaz com um recém-nascido moribundo, olhos fundos, sem respirar direito. Havia uma tempestade e estávamos completamente isolados, a estrada interditada. Nem se podia telefonar. Tratei o bebê do meu jeito, fiz tudo que sabia, dei injeção. No dia seguinte a criança não tinha morrido. Levei-a ao pediatra de minhas filhas e ele me disse: 'A senhora salvou essa criança'. Isso não tem preço. Foi um ponto alto na minha vida".

O marido se aposentou e a família (quatro filhos) veio para São Paulo. Foi quando entrou na Comissão de Justiça e Paz. Na sala, Margarida mostra fotos em passeatas, congressos, visitas ao Carandiru, Araguaia, Serra Pelada.

De uma família de notáveis advogados, Margarida Bulhões Pedreira Genevois nasceu no Rio em 10 de março de 1923: "Minha mãe achava que moça de família não devia ir para a faculdade". Na juventude fez biblioteconomia, estudou literatura francesa. Aos 45 anos foi aluna de Fernando Henrique Cardoso no curso de sociologia e política.

Quem mais sofre com a falta de direitos humanos? "Os pobres têm mais necessidades, estão mais esmagados pela injustiça. Você percebe isso na rua. Alguns quase pisam em cima, têm desprezo pela pessoa. É cada um por si e os outros que se danem. Precisamos mudar essa atitude."

Margarida diz que na classe média há muito "desprezo pelo mais pobre". A relação patroa-empregada é um exemplo. Em algumas partes do país, ainda há o pagamento de trabalho por comida: "Não respeitam o salário mínimo, o horário de trabalho".

Qual é o segredo para estar tão bem aos 90? "Trabalho muito [como voluntária em ONGs de direitos humanos] e faço o que eu gosto. Também me cuido. Faço ginástica, senão os ossos enferrujam."

quarta-feira, 6 de março de 2013

Registro 421: Texto radical


O TEXTO COPIADO E COLADO SAIU NA FOLHA DE S. PAULO, EDIÇÃO DE HOJE, 6 DE MARÇO DE 2013.  VISANDO O DESTAQUE QUE O TEXTO MERECE, ALTEREI somente O TIPO DA LETRA. 

Não tenho NADA CONTRA o exposto


JEAN WYLLYS

O ASSUNTO É COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS


Cinismo cruel


Tento representar aqueles que sempre receberam mais insultos e porradas que direitos e estima! Saibam que não estão sozinhos! Luta que segue!


Graças ao jogo de interesses entre os partidos da base aliada, é quase certo que o pastor e deputado Marco Feliciano presidirá a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.


Esse fato não é escandaloso -e eu não me oponho a ele- pelo simples fato de ele ser pastor. Se o deputado Marco Feliciano fosse um pastor identificado com a garantia dos direitos humanos e da dignidade das minorias estigmatizadas, não haveria problema algum e eu não faria qualquer oposição.

Acontece que o deputado Marco Feliciano é um inimigo público e declarado de minorias estigmatizadas e tem um discurso público que estimula a violação da dignidade humana desses grupos.

Como pode presidir uma comissão de direitos humanos e minorias um deputado que disse que o problema da África negra é "espiritual" porque "os africanos descendem de um ancestral amaldiçoado por Noé", revivendo uma interpretação distorcida e racista da Bíblia, que já foi usada no passado para justificar a escravidão dos negros?

Como pode presidir uma comissão de direitos humanos e minorias um deputado que se referiu à Aids como "o câncer gay"? Um deputado que defende um projeto de lei para obrigar o Conselho Federal de Psicologia a aceitar supostas "terapias de reversão da homossexualidade" anticientíficas e baseadas em preconceitos.

Um deputado que quer criminalizar o povo de terreiro e enviar pais e mães de santo à cadeia por rituais religiosos que estão presentes nos mesmos capítulos da Bíblia que ele usa para injuriar os homossexuais? Ele lê a Bíblia com um olho só. Um deputado que apresentou um projeto para anular diversas (boas) decisões do Supremo Tribunal Federal, entre elas a sentença que reconhece as uniões homoafetivas como entidades familiares.

Na verdade, para ser justo, o acordo realizado para dar a presidência da CDHM ao PSC, com ou sem Marco Feliciano, já era um grave problema. Trata-se de um partido que fez campanha definindo a família de uma maneira que exclui não só gays e lésbicas, como também as famílias monoparentais, as com filhos adotivos e tantas outras. Trata-se de um partido que defende posições fundamentalistas que vão contra os direitos de muitas das minorias que essa comissão deve proteger.

Eu me formei num cristianismo que acolhe os diferentes, respeitando sua dignidade. Eu me apaixonei na juventude por esse cristianismo que deu origem à Teologia da Libertação, que participou da luta contra a ditadura e que nos deu grandes referências.

O PSC, lamentavelmente, não tem nada a ver com isso. E Marco Feliciano menos ainda! Que ele seja o novo presidente da comissão é uma contradição: é como colocar à frente das políticas contra a violência de gênero um cara que bate na mulher.

É isso que milhares de brasileiras e brasileiros estão sentido nesse momento: que a Câmara bateu neles. Em nós -confesso que eu também senti. Às vezes, me pergunto o que estou fazendo aqui. Mas depois vejo a mobilização de milhares de pessoas para impedir essa loucura e penso: é isso que estou fazendo, tentando representar aqueles que, como eu, sempre receberam mais insultos e porradas que direitos e estima! Saibam que não estão sozinhos! Luta que segue!

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Registro 420: Ciclo de Leituras Dramáticas


UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
ESCOLA DE TEATRO
GRUPO DE PESQUISA DRAMATIS

APRESENTAM

CICLO DE LEITURAS DRAMÁTICAS DA UFBA

NOVA DRAMATURGIA – BARRA 69


Por volta de 1968 aparece na cena brasileira, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas não se restringindo a estes lugares, uma geração de dramaturgos inaugurando uma tendência inovadora: José Vicente, Leilah Assumpção, Antônio Bivar, Consuelo de Castro e Isabel Câmara, os autores mais representativos.

Uma das características imediatamente visíveis nos textos é o viés autobiográfico, apresentado por meio da linguagem despojada das regras literárias articuladoras da dramaturgia que se fazia até então. O forte acento confessional singulariza a produção dos textos, tornando-os bem diversos da produção dramatúrgica posta em movimento pelos Seminários de Dramaturgia do Teatro de Arena de São Paulo iniciado em 1958, de forte acento político e social.

Antônio Bivar, Consuelo de Castro, Isabel Câmara, Leilah Assumpção, Isabel Câmara e Zé Vicente afastam-se dos temas e das formas trabalhadas pelos autores que produziram uma dramaturgia engajada, voltada para a discussão dos problemas sociais. Tomando outro rumo, os jovens autores optam pelo confessionalismo, instaurando o poético e o político por outro viés. Estão em cena, não mais os personagens como o favelado, o vaqueiro, o retirante, o operário, entre outros, mas aqueles oriundos da classe média urbana que perde o rumo diante dos acontecimentos nacionais e internacionais.

É sabido que a finalização da década de sessenta é plena de reviravoltas: questionam-se hábitos, costumes, posicionamentos políticos e estéticos. Em meio ao ambiente contracultural, o Brasil vive o auge repressivo do governo civil-militar. Assim, os personagens criados pelos novos autores espelham a situação daquele momento.

Ao longo do tempo, boa parte da dramaturgia deste Ciclo de Leituras Dramáticas da UFBA foi esquecida. Ainda que Zé Vicente receba a atenção dos encenadores no presente, Leilah Assumpção e Consuelo de Castro continuem produzindo para o palco, Antônio Bivar, um dos participantes mais transgressores do grupo, já não escreve para o teatro. Isabel Câmara completa o quadro que comporta também Carlos Alberto Soffredini, Mário Prata e o baiano Ariovaldo Matos.

Seis textos compõem o Ciclo de Leituras Dramáticas – Nova Dramaturgia Barra 69: O Assalto, de Zé Vicente (Direção Harildo Déda), Fala Baixo Senão Eu Grito, de Leilah Assumpção (Direção Ewald Hackler), O Desembestado de Ariovaldo Matos (Direção Sérgio Nunes Melo), As Moças, de Isabel Câmara, (Direção Elisa Mendes), À Flor da Pele, de Consuelo de Castro (Direção Eliene Benício), Cordélia Brasil, de Antônio Bivar (Direção Celso Nunes).

A escolha dos textos baseia-se na importância que tiveram quando levados ao palco e por conterem elementos que dialogam com o presente. Ao serem revelados, os autores receberam a atenção da crítica e do público, atraídos que foram pelas abordagens existenciais levadas à cena de maneira violenta, cruzando-se aspectos autobiográficos e os ficcionais, figuradores dos impasses de uma geração cerceada pela situação política brasileira. São textos cuja potência não diminuiu e são merecedores de novas leituras.

Não haverá cobrança de ingresso. Para os espectadores que assistirem três leituras do Ciclo será fornecido um certificado.
PROGRAMAÇÃO
O ASSALTO
Zé Vicente
DIREÇÃO
Harildo Déda
ELENCO
Nando Zâmbia, Vinícius Martins,
Patrícia Oliveira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
26 de fevereiro, 18:30
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FALA BAIXO SENÃO EU GRITO
Leilah Assumpção
DIREÇÃO
 Ewald Hackler
ELENCO
 Joana Schnitman, Osvaldo Baraúna, 
Evana Jeyssan
TEATRO MARTIM GONÇALVES
27 de fevereiro, 18:30
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O DESEMBESTADO
Ariovaldo Matos
DIREÇÃO
Sérgio Nunes Melo
ELENCO
Newton Olivieri, Ana Tereza, Thiago Carvalho
Larissa Raton

 TEATRO MARTIM GONÇALVES
05 de março, 18:30

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 AS MOÇAS
Isabel Câmara 
DIREÇÃO
Elisa Mendes
ELENCOMárcia Andrade
 Laura Sarpa; 
Amauri Oliveira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
06 de março, 18:30

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À FLOR DA PELE
Consuelo de Castro
DIREÇÃO
Eliene Benício
ELENCO
Eveline Ferraz, Raimundo Matos de Leão
Marcos Moreira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
12 de março, 18:30

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CORDÉLIA BRASIL 
Antonio Bivar
DIREÇÃO
Celso Nunes
ELENCO
Jacyan Castilho, Marcelo Praddo, Saulus Castro
Antonio Fábio
TEATRO MARTIM GONÇALVES
13 de março, 18:30

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Coordenação do Ciclo de Leituras
Raimundo Matos de Leão
Joana Schnitman

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Registro 419: Mais uma vez Cachoeira


Mais um dia cachoeirano. Sábado (09.02,2013) de andanças pela cidade, suas ruas estreitas, ladeiras íngremes, casarões, os mais belos, alguns cuidadosamente conservados, outros nem tanto. Que belo seria se a população como um todo tivesse condições de preservar seu patrimônio. Ainda assim, é notável o cuidado com que muitos moradores tratam suas moradas. Fomos visitar outra benzedeira, ou rezadeira, como queira o leitor. Dona Odete mora numa casa humilde na lateral da Igreja do Rosarinho, perto do cemitério destinado aos negros, sítio restaurado na gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Perto também do cemitério dos alemães. Na última vez que estivemos (2012) aqui, o cemitério estava completamente abandonado, mas soube que havia um projeto de resaturo que se arrastava pelas confusas redes burocráticas. Soube também que não havia tanto interesse por ser um sítio destinado a enterrar brancos, uma atitude maléfica desencadeada por esta política equivocada que tenta impor um padrão norte-americano entre nós, ou seja, dividir uma nação miscigenada em brancos de um lado e negros do outro. Reafirmo aqui que sou totalmente contra a tal política. Reafirmo também o meu posicionamento contra ao preconceito e contra a falta de oportunidades para os pobres desta terra Brasilis. É certo que vivemos numa sociedade extremamente preconceituosa, mas não apartada.

Mas voltemos ao foco do registro, a visita que fizemos a Dona Odete, simplicidade visível no viver. Atitude acolhedora se mostra imediatamente e se amplia à medida que se quebram as barreiras proporcionadas pelo desconhecimento, tanto de um lado quanto do outro. Ela nos benzeu e disse ao meu amigo que ela estava muito carregado, puro mau olhado. Não comentou nada a meu respeito, mas rezou-me com a sabedoria dos antigos, conhecedora que é da bondades e das maldades deste mundo. A visita se encerrou com abraços.

Em seguida fomos a São Félix em busca de uma senhora fazedora de bonecas de pano, uma indicação da funcionária da Pousada. Rodamos sem encontrar o destino, até que alguém nos indicou a casa da irmã de Dona Noêmia. Gentilmente, a irmã no levou até a bonequeira, artesã de primeira. Para nossa surpresa de habitantes de cidade grande, a receptividade da senhora revelava uma outra maneira de ver o mundo, de conviver. Ainda que soubesse da violência do mundo distante e também do próximo, ela nos recebeu em sua casa, uma típica construção do começo do século XX, com seu longo corredor que dá acesso às salas. Por elas passamos para a varanda ladeada pelo estreito quintal com plantas exuberantes. Dona Noêmia nos mostrou algumas das suas bonecas, mas não tinha exemplar para venda.

Retornamos a Cachoeira em busca de outra senhora que nos indicaram como artesã de bonecas, mas não encontramos sua casa. Deixamos então para o domingo de carnaval. Fomos convidados para ir até Maragojipe para ver os blocos de mascarados, no meu tempo de menino chamados de caretas. Declinamos, pois tínhamos outros planos: descansar refrigerados pelo ar condicionado.

No domingo, conseguimos chegar até a casa de Dona Anita, mas ela não estava. Passamos mais uma vez no atelier de Mimo e adquirimos mais uma peça.

Antes de dormir, uma olhada no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Um horror. Estúpidos enredos, megalomania dos carnavalescos, tecnologia em vez de criatividade. Uma pena.

Segunda pela manhã, retornamos para tentar encontrar Dona Anita. Ela nos recebeu atenciosamente e saímos de lá com duas bonecas de pano, bonecas de feitio tradicional, tal qual as que eram vendidas na feira livre de Ipirá. As minhas irmãs brincaram com bonecas de pano que vão perdendo lugar para as de plástico feitas em série e sem muitas surpresas. Passamos mais uma vez pela praça e encontramos Davi, o pintor e Seu Zé, o fotógrafo. Um dedo de prosa na manhã ensolarada de céu azul bordado por nuvens brancas.

Lendo a Folha de de S. Paulo, edição de hoje, segunda-feira, li a entrevista de João Jorge Rodrigues, do Olodum sobre o carnaval soteropolitano. Embora discorde de alguns pontos, a sua fala é lúcida e coerente. Recortei o seguinte trecho:


"Folha de S. Paulo: - O chamado 'Afródromo' ajuda ou atrapalha o cenário? [a iniciativa de Carlinhos Brown e outras seis entidades de criar um novo circuito, exclusivo para os blocos afro, estrearia neste ano, mas foi adiada pela nova gestão na prefeitura]

João Jorge - O Olodum tem brigado muito para sair mais cedo e poder ser visto pela televisão. Para que empresas patrocinem de forma equitativa os blocos afros.

Ao mesmo tempo, eles resolveram fazer algo separado. O que a sociedade mais quer é que os negros escolham um gueto para ir e se afastem da disputa com eles. É como se soubéssemos o lugar em que deveríamos ficar, em vez de aparecermos na Barra, no Campo Grande.

Mais ainda: obriga o poder público a ter gastos com outro circuito, quando os recursos poderiam ser distribuídos de uma forma melhor".

Não sei se é o que quer a sociedade. Generalizar é radicalizar. Não concordo com a ideia de se criar o tal circuito já denominado de "Afródromo". Mais um absurdo nos absurdos baianos. Sou do tempo que o carnaval era a atração e as personalidades, os famosos, brincavam na rua junto com os foliões. Era reconhecidos, às vezes aporrinhados por fãs afoitos, mas estavam na rua, ali na Praça Castro Alves, na famosa escadaria, dançando e se divertindo. A mesmice tomou conta do circuito Barra-Ondina, tudo igual, repetitivo e chato. É certo que o carnaval passaria por transformações, mas elas aconteceram de cima para baixo. O poder público em conluio com o poder privado, incluindo os artistas, impuseram o modelo que está aí. Só quero ver quando a coisa não funcionar mais? Qual será a proposta urdida nos gabinetes. Mataram o carnaval no Centro, confinaram parte da festa no Centro Histórico. Fazem o mesmo com o circuito do Campo Grande que perde o interesse para as redes de televisão. Tudo se volta para o circuito "nobre", Barra-Ondina. Até quando? A força da grana determina tudo e o povão vai na onda.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Registro 418: Diário de Cachoeira, mais um dia...


Pela janela da antiga cela, hoje um dos bons apartamentos da Pousada do Convento do Carmo, vimos uma construção, mas não das antigas. De qualquer maneira, o interesse por ela fez com que saíssemos sem destino, mas com vontade de ver de perto o imóvel. Depois de íngreme ladeira, a rua terminava no topo do morro e não havia com seguir de carro. Estacionamos em frente a uma casa pintada de azul, muito simples, mas bem cuidada. Da casa saiu um dos seus moradores. Reconheci o moço que pintava a Pousada no dia da nossa chegada. Ele também nos reconheceu e nos levou para conhecer o imóvel, um antigo hospital para crianças, atualmente uma creche.

Do alto do morro, a vista da cidade é memorável. Fotografamos e entabulamos conversa com Caetano, o moço que nos recebeu. Ele mostrou a construção que está fazendo no terreno que lhe pertence. Interessamo-nos por plantas e ervas do terreno e ele foi identificando cada uma delas com sabedoria adquirida pela vivência: aroeira, vassourinha, mastruz, velame, jurubeba, entre outras. Uma serigueleira carregada de frutos ainda verdes chamava a atenção. Agradecidos pela gentileza, descemos a ladeira e seguimos o passeio para os lados da Santa Casa de Misericórdia.

Antes do almoço, fomos mais uma vez dar uma volta na praça em frente ao Paraguaçu. Em torno do monumento que homenageia as lutas pela Independência da Bahia, movimento resistente começado em Cachoeira, havia uma exposição de fotos de Seu Zé e de pinturas de Davi Rodrigues. Adquirimos duas pinturas em papel e uma foto e logo nos entrosamos. O cidadão cachoeirano é receptivo e conta orgulhosamente sobre a cidade, sua vida cultural e artística. Davi Rodrigues foi premiado na Bienal do Recôncavo, agraciado como artista da região. Sua pintura de temática fortemente marcada pela religiosidade sincrética de Cachoeira, se expressa formalmente por uma variedade cromática rica em detalhes obsessivamente trabalhados, remetendo ao pontilhismo. Ex-aluno de Hansen Bahia, o pintor iniciou seu trabalho como gravador, mas enveredou para a pintura, visto que os quadros despertavam mais interesse.

Na frente da exposição, ou seja, do monumento uma manifestação religiosa acontecia. Um terreiro de umbanda realizava culto em praça pública homenageando Oxum ou Iemanjá. Certamente Oxum,visto que o rio de águas doces banha a cidade. É possível que a cerimônia era para a Rainha das Águas. Um balaio com flores aguardava o momento de ser levado até o rio. Atraídos pelo evento aproximamo-nos respeitosamente e acompanhamos com palmas os pontos cantados pelos filhos e filhas do terreiro, muito deles em transe.

Depois do almoço visitamos o atelier de Mimo, escultor. Adquirimos quatro peças entalhadas na madeira, quatro pequenos Orixás.

Amanhã tem mais...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Registro 417: Diário de Cachoeira - Bahia


Há três anos, fugimos do Carnaval soteropolitano para o descanso em Cachoeira, uma das cidades mais lindas da Bahia. Aqui me sinto bem. O tempo escorre com suas ladeiras e ruas num traçado original, com seus casarões centenários, seus cantos e seu rio. Cachoeira é uma cidade potencialmente rica para o turismo. Mas espero que não seja um turismo predatório. Chegamos na quarta-feira (06.02.2013) depois de viagem tranquila. Passamos por Santo Amaro percorrendo as suas ruas principais. Logo depois, seguindo as curvas da estrada, descemos até a Heroica  como todos os cachoeiranos a conhecem. Mais uma vez, desfrutamos do conforto da Pousada do Convento do Carmo. Os padres sabiam morar. A bela construção, necessitando de mais cuidado, é imponente. Para quem quer descansar um ótimo lugar. Imagino com teria sido a vida por aqui quando o lugar era habitado pelos Carmelitas. Não entrarei no mérito da ação destes frades na região. O que importa para mim é o patrimônio, deixado, retrato de um passado, cujo tempo e a ação do homem, nem sempre responsável, não destruíram, embora haja muita ruína em Cachoeira. O passado se apresenta a todo instante em “seus milhões de instantes já vividos e que permanecem presentes enquanto deles persistir uma lembrança ou um efeito”, como nos diz Marguerite Yourcenar em seu livro A Volta da Prisão (1992, p. 4).

Andando pelas ruas, ficamos sabendo que seria realizada a Quarta dos Tambores, evento em praça pública. Às vinte horas estávamos na praça em frente ao rio, o Paraguaçu. A programação foi aberta com um grupo de ogans. Eles tocaram e cantaram cantigas em louvor aos Orixás da nação dominante em Cachoeira, a Jêje. Uma senhora vestida de branco também cantou e dançou no meio da grande roda. Um bom público foi se formando. Em seguida apresentaram-se grupos de samba-de-roda. O primeiro deles, Esmola Cantada revelava as confluências entre o sagrado e o profano. Segui-se a apresentação dos Filhos do Caquende e dança esquentou ainda mais. Os espectadores, homens e mulheres, dançavam divinamente, com elegância, ginga, sensualidade e domínio do passo e do espaço. Impressionante a habilidade dos pares e de todos que arriscavam expressar o samba no pé. Samba no pé e nas vozes que desfiavam os mais lindos e tradicionais sambas, alguns conhecidos outros não. Uma noite inesquecível. Não arrisquei uns passos, para não passar vergonha. Tenho o quadril sem molejo, condição necessária para a execução da dança.

Na quinta, fomos a uma rezadeira que com galhos de aroeira nos rezou. Seguindo a tradição iniciada por seu pai, um famoso beato de Cachoeira. Deixei na folhas as mazelas e saí da casa da rezadeira sentindo-me leve. Lembrei-me da infância quando Davina, rezadeira das boas em Ipirá, rezava os filhos de Dona Ester e de seu Roque.

Um incidente na manhã calorenta. Da última vez que estivemos na cidade, a matriz estava em processo de restauro e por isso mesmo fechada. Agora, com as obras concluídas, a Igreja do Rosário encontrava-se aberta aos seus fiéis e visitantes. Resolvemos entrar para apreciar o templo. Pretendíamos assistir à missa e em seguida fotografar o belo espaço. As fotos deveriam compor o blog Igrejas da Bahia, hoje contendo imagens de cinquenta igrejas de Salvador, incluindo a Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira, cuja decoração nos deixa extasiado. Pois bem, fomos proibidos de fotografar a Igreja do Rosário com a alegação de que o templo tinha sido roubado várias vezes. Sentimo-nos ofendidos, visto que fomos, de certa forma, acusados de sermos ladrões de igreja. O mais estranho é que tal medida tenha sido tomada depois que levaram a grande maioria das imagens. Presumo que as mesmas devam ser lindas e devem estar decorando alguma residência brasileira ou estrangeira. Feita a proibição nos retiramos. Antes, porém, nós protestamos. 

Um templo deve ser cuidado por seus responsáveis, mas não se pode proibir de fotografá-lo, desde que a máquina esteja adequada para tal função, sem flash, e não agrida os elementos decorativos nem as cerimônias religiosas e seus fiéis. Quanto a isto, estamos de acordo. Depois do sucedido, pensando cá com meus botões, dei-me conta de que a Arquidiocese e as Ordens Religiosas não botam um prego no seu patrimônio. Alegam determinações do Instituto do Patrimônio. Não botam prego, ou seja, não dão à mínima. Basta ver como ficou, por exemplo, o conjunto arquitetônico de São Francisco do Iguape, região perto de Cachoeira. É certo que o Instituto deve cuidar para que se mantenha o estilo de cada igreja, suas imagens, seus elementos decorativos, para que tudo isto não seja modificado aleatoriamente por pessoas que desconhecem a história da arte, ou sem a mínima sensibilidade para olhar o espaço e ver que não se pode inserir coisas conflitantes com a estética impressa pelos construtores das belas igrejas da Bahia e o Brasil. O mais sério de tudo é que este belíssimo patrimônio, independente da religião e da fé, é restaurado com verbas públicas. Portanto, somos nós, crentes e ateus, que destinamos o dinheiro recolhido pelos impostos para o restauro e a conservação dos edifícios, sejam eles igrejas, museus e outros. 

Não incorrendo em acusações, o certo é que os responsáveis pelas igrejas, ou seja, os padres, não estão nem aí. Não quero generalizar, mas é sabido que muitos deles dilapidam o patrimônio. Todos nós sabemos que tal acervo é cobiçado por colecionadores ávidos de botarem a mão nas ricas obras. Ladrões são muitos e de várias procedências... Não é o nosso caso. Podemos ser acusados de capturar os bens através das fotos, uma apropriação, mas que não causa dano ao patrimônio. Deixo aqui o meu protesto. Ah, além do mais, num época propícia ao turismo - a Pousada não me deixa mentir, visto seu bom número de hóspedes brasileiros e estrangeiros -, as igrejas de Cachoeira estão toda fechadas. E não somente elas. Tudo que pertence ao poder público também. Assim fica difícil manter viva está acolhedora e bela cidade que é Cachoeira, um poema entre morros, banhada pelo grande rio Paraguaçu, onde já não navega o vapor.

A sexta-feira amanheceu ensolarada. Depois do mergulho na piscina da pousada, fomos para São Félix, a vizinha cidade do outro lado do Paraguaçu. Queríamos ver a Bienal do Recôncavo em sua décima primeira edição, uma realização do Centro Cultural Dannemann.  Gostei do Centro e da Bienal. Não vou me deter nos trabalhos da mostra, são muitos; Mas não posso deixar de citar o de Flora Rebollo, os desenhos da Série Cortina Vermelha: Chapéu Mosquiteiro e Interior de Chapéu. A artista recebeu merecidamente, o grande prêmio. Da montagem, o único reparo é a cor dos painéis. As cores berrantes concorrem com muitas das obras. O Centro Cultural abriga uma sala onde um grupo de mulheres muito bem acomodadas em mesas enrolam charutos. Dannemann é uma fábrica de charutos. O resto do dia foi de passeio, fotos e depois muita preguiça.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Registro 416: Sempre é tempo de brincar






Os Brinquedos que Moram nos Sonhos, é o titulo da exposição de brinquedos populares que no momento ocupa as salas do andar térreo do Museu de Arte da Bahia. O acervo pertence ao fotógrafo carioca David Glat, coleção de cerca de 1.500 peças que se espalham brincantes a cativar crianças, naturalmente, e adultos que ainda guardam na memória os artefatos que povoaram a sua infância.

Para aqueles que se esqueceram dos brinquedos e das brincadeiras, a exposição facilitará o retorno ao universo das geringonças, carrinhos, bonecas, bichos e outros objetos criados por homens e mulheres neste Brasil imenso, povoado por artesões sensíveis e criativos. Estes artistas presentificam com suas criações a relação indissociável entre brinquedo e brincadeira, um princípio muitas vezes esquecido por muitos inventores de brinquedos.

Os expressivos brinquedos muito bem expostos, um dado importante a considerar, visto que o público de crianças podem observar muitos dos artefatos no mesmo nível dos seus olhos, ainda que outros brinquedos estejam expostos em níveis mais altos, o que não impede a apreciação. Há brinquedos de várias espécies. Alguns são estáticos e nem por isso menos interessante. Outros, além da beleza, movimentam-se fascinando quem se posta diante deles para admirá-los.

Para os desavisados, aqueles que só têm olhos para as novas tecnologias (nada contra), ficarão impactados com o envolvimento das crianças com os brinquedos populares que nos remetem a um tempo outro. No tempo de agora, com todos os artefatos industriais, meninos e meninas interagem de maneira viva, estabelecendo uma relação intensa. A beleza das formas, as cores, os materiais chamam a atenção. Os elementos fantásticos dialogando com objetos do real atraem independente da faixa etária. A variedade de personagens, alguns próximos do cotidiano, outros distantes, povoam as salas e os cenários montados pra ressaltar a estética dos brinquedos plenos de significados.

De maneira geral, os brinquedos são objetos de muitas reflexões, citarei alguns textos que me instigam, me fazem rir e pensar sobre o brinquedo. Walter Benjamin nos legou História cultural do brinquedo e Brinquedos e brincadeiras, ambos publicados no livro Magia e técnica, arte e política (1994). No livro O estranho mundo que se mostra às crianças (1983), Fanny Abramovich trata da produção cultural para as crianças e reserva espaço para falar sobre os brinquedos e as brincadeiras. Outros escritos existem, mas estes estão ao alcance da mão.

A ida ao Museu de Arte iluminou a minha tarde, me fez retornar ao tempo de criança, deixou-me emocionado. Por outro lado, me fez pensar sobre a potência existente nesta manifestação de homens e mulheres, muitas vezes ignorados, e que se afirmam no mundo criando beleza e enchendo-o de poesia. A exposição trouxe a lembrança de Mestre Molina, um criador de geringonças brincantes que recebeu o apoio da direção do Sesc em São Paulo. Mestre Molina  povoava o Sesc Fábrica da Pompéia com seus inventos. Lembrei-me também da coleção de brinquedos populares de Paulo Vasconcelos, pernambucano radicado em Sampa, que me emprestou brinquedos para a exposição que montei na Pompéia intitulada O reino de Lilliput. E como esquecer a exposição sobre brinquedos, concebida e montada por Lina Bo Bardi?

Finalizando este registro, informo que a exposição está organizada nos seguintes espaços: A Sala de Brinquedos, A Sala dos Sonhos, a Sala do Espetáculo, a Sala do Medo, A Sala das Reciclagens, A Sala do Desafio, A Sala das Representações e a das Instalações Multitemáticas. O acervo exposto foi recolhido por David Glat, desde os 20 anos em suas viagens pelo interior do Brasil. Aberta ao público em 09 de dezembro de 2012, a exposição permanecerá até abril de 2013, de terça à sexta, das 13h às 19h. Nos finais de semana das 14h às 19h. Não deixe de ir. Vá e brinque.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Registro 415: Homenagem


O Brasil perde uma grande intérprete, Walmor Chagas. A foto é uma cena do belo filme de Person, São Paulo S.A. Não vi o ator no palco, mas privei da amizade de muitos que atuaram com Chagas.  Todos foram unanimes em elogiar as qualidades interpretativas deste gaúcho que fez parte do Teatro Brasileiro de Comédias - TBC. Junto com Cacilda Becker, fundou umas das mais importantes companhias de teatro surgidas como consequência do TBC. 

Uma lágrima para Walmor Chagas e muitos aplausos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Registro 414: Mantra




Om Om Om 
Sarvesham Svastir bhavatu 
Sarvesham Shantir bhavatu 
Sarvesham Poornam bhavatu 
Sarvesham Mangalam bhavatu 
Om, Shanti, Shanti, Shanti 

Que bem-estar, paz, plenitude, felicidade, 
tranquilidade e prosperidade sejam alcançados por todos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Registro 413: O que resta da Bahia


O texto de Antonio Risério me foi enviado por uma amiga com quem gosto de trabalhar, embora trabalhemos muito pouco juntos. Ao ler o texto, lembrei-me de quando cheguei a Salvador, vindo do interior para estudar. Aos 15 anos, em vista das circunstâncias, tornei-me dono do meu nariz. Vivia em uma pensão de estudantes na Rua São Raimundo, 14. Havia uma simplicidade, um jeito elegante de agir, sem muitos rapapés, mas de uma maneira civilizada. Frequentava o cinema e como era bom assistir ao filme concentrado, como todos os espectadores que iam ao cinema para se deleitar com o filme e não para conversar, como agora. Hoje em dia, quando reclamamos da conversa ou dos celulares ligados, somos acusados de intolerantes. Um absurdo!

O casarão onde morei um bom tempo de minha vida de estudante ainda existe, mas está completamente desfigurado. Mas que fazer?A Cidade da Bahia está desfigurada.

Conforme Risério, perdemos o prumo, ou seja, andamos sem urbanidade. A grossura capeia leve e solta por todas as classes, um traço que nos une agora. Estamos boçais, mal-educados, arrogantes e sem distinção, de distinto, veja lá! Lá pelos anos 60, éramos bem educados; elegantes, finos, discretos. Tínhamos uma maneira honesta, correta e impecável de proceder, sem perder a alegria, a brincadeira, a  sensualidade. Não éramos grosseirões.

Eu, garoto de 15 anos, vivi intensamente está velha urbe que mantinha um padrão de civilidade, de cordialidade, demonstração de que tínhamos aprendido no interior doméstico como nos comportar no espaço privado e no espaço público. Ricos e pobres igualavam-se (os marxistas vão me odiar) na atitude que tinham consigo e com a coisa pública, com o outro. Se havia vulgaridade, ela se tornava como coisa doentia, não para ser expurgada pela higienização. Não. Ela desaparecia em meio aos atos sensíveis que tornaram o baiano e a Bahia uma referência, agora perdida para a grosseria. Triste Bahia...

A GROSSERIA BAIANA

                                                                                  Antonio Risério

Outro dia, numa conversa, nossa first lady Fátima Mendonça, comentando certas cenas que presenciara, se lamentou da crescente falta de educação das pessoas. Concordei imediatamente com ela.

E disse que isto era especialmente triste em Salvador, que já foi uma cidade de pessoas gentis e educadas, tanto em recintos fechados quanto nos espaços públicos. E em todas as classes sociais. Mas que hoje, e também em todas as classes sociais, é uma cidade onde a vulgaridade e a grosseria predominam. Não sei se ela concordou comigo.

Mas aproveito a ocasião para rabiscar uma nota sobre o assunto. Porque, diante do fenômeno urbano, é possível distinguir entre, pelo menos, quatro coisas: urbanização, urbanismo, urbanicidade e urbanidade. E não custa nada definir, mesmo que superficialmente, esses termos. Recorrendo livremente a John Palen – e colocando algumas azeitonas em sua empada.

Urbanização diz respeito ao aspecto quantitativo do fenômeno. Ao número e à dimensão de cidades num país – a coisas como “taxa de urbanização”, etc. Urbanismo, por sua vez, é o campo das reflexões, dos projetos e desenhos, das configurações físicas da cidade. Mas não  é com urbanização ou urbanismo que lidamos, neste momento. E, sim, com urbanicidade (como pano de fundo) e com urbanidade (a questão que provocou as observações de nossa primeira dama).

Urbanicidade é um termo que diz respeito ao aspecto sócio-cultural da questão. É o lado cultural humano da urbanização. Diz respeito aos padrões sociais e comportamentais associados ao viver em cidades. À personalidade do urbanita (atenção: é urbanita mesmo e não urbanista; o urbanita é o indivíduo citadino). Às mudanças sociais, culturais, psicológicas, etc., provocadas pela urbanização. Aos estilos e técnicas citadinos de viver.

Urbanidade, por fim, tem dois sentidos. De uma parte, é um ideal de comportamento urbano – tanto da sociedade quanto no plano individual. De outra parte, diz respeito à educação urbana, à lhaneza no trato social. Meu amigo Marcelo Ferraz, em suas discussões de arquitetura e urbanismo, costuma lembrar que o pai dele costumava empregar a expressão.

De fato, não faz tempo, falava-se de urbanidade no sentido de educação pessoal e social. A urbanidade de um lugar era o seu grau de polidez e respeito aos outros e aos bens comuns. Quando alguém empregava a expressão “um sujeito urbano”, por exemplo, estava se referindo a uma pessoa polida, educada. E é exatamente isto o que estamos perdendo ou já foi perdido: a urbanidade. E é a perda de urbanidade que choca nossa querida Fátima Mendonça.

Com inteira, inteiríssima razão. Urbanismo à parte, esta nossa cidade do Salvador, por exemplo, possui um grau razoável de urbanização, um baixíssimo grau de urbanicidade – e parece já não ter a mínima noção do que é ou do que foi urbanidade. Lamentavelmente. Vemos isto em festas, em recepções, nos restaurantes supostamente chiques, em filas para isto ou aquilo, nas relações interpessoais, no atendimento dos serviços públicos, no comportamento diante dos bens coletivos, nos absurdos agressivos do trânsito, etc., etc.

O educado e informado Marcelo Ferraz se pergunta sempre – e, certa vez, me perguntou: em que momento foi que algo se esgarçou e rompeu, para que perdêssemos assim o trato urbano, no sentido da urbanidade, da condição de viver civilizadamente numa cidade? Sinceramente, Marcelo, confesso que não sei em que momento foi. Mas perdemos.

Em A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água (por favor, revisor: não coloque “morte” em caixa baixa, seguindo o atual padrão acadêmico de citar, que foi adotado pelos professorais daqui, mas não  tenho nada a ver com isso), Jorge Amado fala dos “ritos de gentileza” do povo da Bahia. Mas esses ritos pertencem já ao passado. É uma pena. Chegamos hoje a um grau baixo demais, em matéria de educação doméstica e urbana.

E isto – esta queda – nada tem a ver com pobreza. De jeito algum. Vivi minha juventude numa cidade pobre, mas que sabia o que era trato urbano. Neste sentido de civilidade. De urbanidade. E adianto, sem que ninguém me pergunte, que me envergonha o fato de que hoje o povo baiano seja imbatível, no contexto brasileiro, em matéria de grosseria e grossura. De falta de educação.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Registro 412: Homenagens




Malala Yousafzai

Mais uma texto copiado e colado. Seu autor é MOISÉS NAÍM, e foi publicado em a Folha de S. Paulo (23.11.2012). Comungo com o teor do texto, portanto assino em baixo.Não posso concordar com as aberrações que feriram Malala e Savita. Como não posso concordar com a estupidez do parlamento de Uganda que quer aprovar uma lei brutal: a pena de morte para a homossexualidade. Se eles fizerem isso, milhares de ugandenses poderiam ser executados, apenas por serem gays. Em pleno século XXI não é cabível tais atos, mas diante do fatos, o que fazer? Denunciar. É o que faço publicando o texto de Naím. 

Aproveito a oportunidade para felicitar o Brasil e ao Ministro Joaquim Barbosa. Venceu o mérito. 

Ouviu falar em Malala e Savita?
Moisés Naím

A trajetória dessas duas mulheres ilumina aspectos do mundo em que vivemos neste início de século 21

Malala Yousafzai e Savita Halappanavar. Não é trava-língua. São os nomes de duas pessoas que não poderiam ter menos em comum.

Mas com ambas ocorreram coisas que iluminam aspectos tanto trágicos quanto esperançosos do mundo em que vivemos.

Malala Yousafzai, paquistanesa, 15. Há um mês, quando voltava para sua casa no ônibus escolar, recebeu um tiro que lhe atravessou a cabeça e o pescoço, alojando-se no ombro. Sobreviveu milagrosamente. Seu pecado? O ativismo em favor do ensino para as meninas.

Ao reivindicar o ataque, o Taleban explicou que Malala "é o símbolo dos infiéis e da obscenidade". Quando, em 2009, os talebans controlavam sua cidade, no vale do Swat, Malala começou a escrever um blog. Ela relatava como já não podia ir à escola, o fechamento de muitas escolas e como às vezes os talebans simplesmente as incendiavam. Uma vez que o Exército paquistanês retomou o controle de Swat, Malala se converteu numa voz inteligente em favor da educação das meninas. Para os talebans, essas ideias merecem a morte.

Savita Halappanavar, uma bela dentista de 31 anos de origem indiana, vivia em Dublin. Em princípio, a Irlanda deveria ser menos perigosa para as mulheres que o vale do Swat.

Mesmo assim, um obscurantismo semelhante ao que motivou a tentativa de assassinato de Malala levou à morte de Savita. Grávida de 17 semanas, ela começou a se sentir mal e foi com o marido ao hospital Universitário de Galway. O diagnóstico foi evidente e o tratamento indicado, também. Os médicos concluíram que o feto era inviável.

Desconsolada, Savita se resignou e pediu que realizassem um aborto. "Não podemos", explicaram os médicos. "A lei nos permite fazer abortos apenas quando o coração do feto deixou de bater." Foram forçados a esperar. O coração do feto parou de bater na quarta. E o de Savita, no sábado seguinte.

A autópsia revelou que a causa da morte dela foi infecção generalizada. O marido disse à BBC: "Era nosso primeiro bebê, e ela estava radiante. Não há dúvida de que Savita estaria viva se pudesse ter encerrado a gravidez que a matou."

Por que proteger um feto que é inegavelmente inviável e não tem esperança de vida é mais importante que a proteção de uma jovem mãe de 31 anos com saúde perfeita? Você sabe a resposta. Tanto a tentativa fracassada de assassinato de Malala quanto a morte "por razões legais" de Savita provocaram indignação mundial. Embora isto ainda não seja o suficiente para mudar as coisas radicalmente no Paquistão ou na Irlanda, as duas tragédias tiveram efeitos esperançosos.

Os políticos irlandeses foram forçados a prometer reformar as leis que impediram salvar a vida de Savita. No Paquistão, ficou mais difícil defender a ideia de que as meninas não precisam ir à escola.

Essas mudanças não são suficientes. Mas ao menos as histórias de Malala e Savita lembraram ao mundo que o obscurantismo não é um fenômeno da Idade Média. Está presente e cobra vidas no século 21.