sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Registro 420: Ciclo de Leituras Dramáticas


UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA
ESCOLA DE TEATRO
GRUPO DE PESQUISA DRAMATIS

APRESENTAM

CICLO DE LEITURAS DRAMÁTICAS DA UFBA

NOVA DRAMATURGIA – BARRA 69


Por volta de 1968 aparece na cena brasileira, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas não se restringindo a estes lugares, uma geração de dramaturgos inaugurando uma tendência inovadora: José Vicente, Leilah Assumpção, Antônio Bivar, Consuelo de Castro e Isabel Câmara, os autores mais representativos.

Uma das características imediatamente visíveis nos textos é o viés autobiográfico, apresentado por meio da linguagem despojada das regras literárias articuladoras da dramaturgia que se fazia até então. O forte acento confessional singulariza a produção dos textos, tornando-os bem diversos da produção dramatúrgica posta em movimento pelos Seminários de Dramaturgia do Teatro de Arena de São Paulo iniciado em 1958, de forte acento político e social.

Antônio Bivar, Consuelo de Castro, Isabel Câmara, Leilah Assumpção, Isabel Câmara e Zé Vicente afastam-se dos temas e das formas trabalhadas pelos autores que produziram uma dramaturgia engajada, voltada para a discussão dos problemas sociais. Tomando outro rumo, os jovens autores optam pelo confessionalismo, instaurando o poético e o político por outro viés. Estão em cena, não mais os personagens como o favelado, o vaqueiro, o retirante, o operário, entre outros, mas aqueles oriundos da classe média urbana que perde o rumo diante dos acontecimentos nacionais e internacionais.

É sabido que a finalização da década de sessenta é plena de reviravoltas: questionam-se hábitos, costumes, posicionamentos políticos e estéticos. Em meio ao ambiente contracultural, o Brasil vive o auge repressivo do governo civil-militar. Assim, os personagens criados pelos novos autores espelham a situação daquele momento.

Ao longo do tempo, boa parte da dramaturgia deste Ciclo de Leituras Dramáticas da UFBA foi esquecida. Ainda que Zé Vicente receba a atenção dos encenadores no presente, Leilah Assumpção e Consuelo de Castro continuem produzindo para o palco, Antônio Bivar, um dos participantes mais transgressores do grupo, já não escreve para o teatro. Isabel Câmara completa o quadro que comporta também Carlos Alberto Soffredini, Mário Prata e o baiano Ariovaldo Matos.

Seis textos compõem o Ciclo de Leituras Dramáticas – Nova Dramaturgia Barra 69: O Assalto, de Zé Vicente (Direção Harildo Déda), Fala Baixo Senão Eu Grito, de Leilah Assumpção (Direção Ewald Hackler), O Desembestado de Ariovaldo Matos (Direção Sérgio Nunes Melo), As Moças, de Isabel Câmara, (Direção Elisa Mendes), À Flor da Pele, de Consuelo de Castro (Direção Eliene Benício), Cordélia Brasil, de Antônio Bivar (Direção Celso Nunes).

A escolha dos textos baseia-se na importância que tiveram quando levados ao palco e por conterem elementos que dialogam com o presente. Ao serem revelados, os autores receberam a atenção da crítica e do público, atraídos que foram pelas abordagens existenciais levadas à cena de maneira violenta, cruzando-se aspectos autobiográficos e os ficcionais, figuradores dos impasses de uma geração cerceada pela situação política brasileira. São textos cuja potência não diminuiu e são merecedores de novas leituras.

Não haverá cobrança de ingresso. Para os espectadores que assistirem três leituras do Ciclo será fornecido um certificado.
PROGRAMAÇÃO
O ASSALTO
Zé Vicente
DIREÇÃO
Harildo Déda
ELENCO
Nando Zâmbia, Vinícius Martins,
Patrícia Oliveira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
26 de fevereiro, 18:30
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FALA BAIXO SENÃO EU GRITO
Leilah Assumpção
DIREÇÃO
 Ewald Hackler
ELENCO
 Joana Schnitman, Osvaldo Baraúna, 
Evana Jeyssan
TEATRO MARTIM GONÇALVES
27 de fevereiro, 18:30
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O DESEMBESTADO
Ariovaldo Matos
DIREÇÃO
Sérgio Nunes Melo
ELENCO
Newton Olivieri, Ana Tereza, Thiago Carvalho
Larissa Raton

 TEATRO MARTIM GONÇALVES
05 de março, 18:30

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 AS MOÇAS
Isabel Câmara 
DIREÇÃO
Elisa Mendes
ELENCOMárcia Andrade
 Laura Sarpa; 
Amauri Oliveira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
06 de março, 18:30

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À FLOR DA PELE
Consuelo de Castro
DIREÇÃO
Eliene Benício
ELENCO
Eveline Ferraz, Raimundo Matos de Leão
Marcos Moreira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
12 de março, 18:30

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CORDÉLIA BRASIL 
Antonio Bivar
DIREÇÃO
Celso Nunes
ELENCO
Jacyan Castilho, Marcelo Praddo, Saulus Castro
Antonio Fábio
TEATRO MARTIM GONÇALVES
13 de março, 18:30

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Coordenação do Ciclo de Leituras
Raimundo Matos de Leão
Joana Schnitman

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Registro 419: Mais uma vez Cachoeira


Mais um dia cachoeirano. Sábado (09.02,2013) de andanças pela cidade, suas ruas estreitas, ladeiras íngremes, casarões, os mais belos, alguns cuidadosamente conservados, outros nem tanto. Que belo seria se a população como um todo tivesse condições de preservar seu patrimônio. Ainda assim, é notável o cuidado com que muitos moradores tratam suas moradas. Fomos visitar outra benzedeira, ou rezadeira, como queira o leitor. Dona Odete mora numa casa humilde na lateral da Igreja do Rosarinho, perto do cemitério destinado aos negros, sítio restaurado na gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Perto também do cemitério dos alemães. Na última vez que estivemos (2012) aqui, o cemitério estava completamente abandonado, mas soube que havia um projeto de resaturo que se arrastava pelas confusas redes burocráticas. Soube também que não havia tanto interesse por ser um sítio destinado a enterrar brancos, uma atitude maléfica desencadeada por esta política equivocada que tenta impor um padrão norte-americano entre nós, ou seja, dividir uma nação miscigenada em brancos de um lado e negros do outro. Reafirmo aqui que sou totalmente contra a tal política. Reafirmo também o meu posicionamento contra ao preconceito e contra a falta de oportunidades para os pobres desta terra Brasilis. É certo que vivemos numa sociedade extremamente preconceituosa, mas não apartada.

Mas voltemos ao foco do registro, a visita que fizemos a Dona Odete, simplicidade visível no viver. Atitude acolhedora se mostra imediatamente e se amplia à medida que se quebram as barreiras proporcionadas pelo desconhecimento, tanto de um lado quanto do outro. Ela nos benzeu e disse ao meu amigo que ela estava muito carregado, puro mau olhado. Não comentou nada a meu respeito, mas rezou-me com a sabedoria dos antigos, conhecedora que é da bondades e das maldades deste mundo. A visita se encerrou com abraços.

Em seguida fomos a São Félix em busca de uma senhora fazedora de bonecas de pano, uma indicação da funcionária da Pousada. Rodamos sem encontrar o destino, até que alguém nos indicou a casa da irmã de Dona Noêmia. Gentilmente, a irmã no levou até a bonequeira, artesã de primeira. Para nossa surpresa de habitantes de cidade grande, a receptividade da senhora revelava uma outra maneira de ver o mundo, de conviver. Ainda que soubesse da violência do mundo distante e também do próximo, ela nos recebeu em sua casa, uma típica construção do começo do século XX, com seu longo corredor que dá acesso às salas. Por elas passamos para a varanda ladeada pelo estreito quintal com plantas exuberantes. Dona Noêmia nos mostrou algumas das suas bonecas, mas não tinha exemplar para venda.

Retornamos a Cachoeira em busca de outra senhora que nos indicaram como artesã de bonecas, mas não encontramos sua casa. Deixamos então para o domingo de carnaval. Fomos convidados para ir até Maragojipe para ver os blocos de mascarados, no meu tempo de menino chamados de caretas. Declinamos, pois tínhamos outros planos: descansar refrigerados pelo ar condicionado.

No domingo, conseguimos chegar até a casa de Dona Anita, mas ela não estava. Passamos mais uma vez no atelier de Mimo e adquirimos mais uma peça.

Antes de dormir, uma olhada no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Um horror. Estúpidos enredos, megalomania dos carnavalescos, tecnologia em vez de criatividade. Uma pena.

Segunda pela manhã, retornamos para tentar encontrar Dona Anita. Ela nos recebeu atenciosamente e saímos de lá com duas bonecas de pano, bonecas de feitio tradicional, tal qual as que eram vendidas na feira livre de Ipirá. As minhas irmãs brincaram com bonecas de pano que vão perdendo lugar para as de plástico feitas em série e sem muitas surpresas. Passamos mais uma vez pela praça e encontramos Davi, o pintor e Seu Zé, o fotógrafo. Um dedo de prosa na manhã ensolarada de céu azul bordado por nuvens brancas.

Lendo a Folha de de S. Paulo, edição de hoje, segunda-feira, li a entrevista de João Jorge Rodrigues, do Olodum sobre o carnaval soteropolitano. Embora discorde de alguns pontos, a sua fala é lúcida e coerente. Recortei o seguinte trecho:


"Folha de S. Paulo: - O chamado 'Afródromo' ajuda ou atrapalha o cenário? [a iniciativa de Carlinhos Brown e outras seis entidades de criar um novo circuito, exclusivo para os blocos afro, estrearia neste ano, mas foi adiada pela nova gestão na prefeitura]

João Jorge - O Olodum tem brigado muito para sair mais cedo e poder ser visto pela televisão. Para que empresas patrocinem de forma equitativa os blocos afros.

Ao mesmo tempo, eles resolveram fazer algo separado. O que a sociedade mais quer é que os negros escolham um gueto para ir e se afastem da disputa com eles. É como se soubéssemos o lugar em que deveríamos ficar, em vez de aparecermos na Barra, no Campo Grande.

Mais ainda: obriga o poder público a ter gastos com outro circuito, quando os recursos poderiam ser distribuídos de uma forma melhor".

Não sei se é o que quer a sociedade. Generalizar é radicalizar. Não concordo com a ideia de se criar o tal circuito já denominado de "Afródromo". Mais um absurdo nos absurdos baianos. Sou do tempo que o carnaval era a atração e as personalidades, os famosos, brincavam na rua junto com os foliões. Era reconhecidos, às vezes aporrinhados por fãs afoitos, mas estavam na rua, ali na Praça Castro Alves, na famosa escadaria, dançando e se divertindo. A mesmice tomou conta do circuito Barra-Ondina, tudo igual, repetitivo e chato. É certo que o carnaval passaria por transformações, mas elas aconteceram de cima para baixo. O poder público em conluio com o poder privado, incluindo os artistas, impuseram o modelo que está aí. Só quero ver quando a coisa não funcionar mais? Qual será a proposta urdida nos gabinetes. Mataram o carnaval no Centro, confinaram parte da festa no Centro Histórico. Fazem o mesmo com o circuito do Campo Grande que perde o interesse para as redes de televisão. Tudo se volta para o circuito "nobre", Barra-Ondina. Até quando? A força da grana determina tudo e o povão vai na onda.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Registro 418: Diário de Cachoeira, mais um dia...


Pela janela da antiga cela, hoje um dos bons apartamentos da Pousada do Convento do Carmo, vimos uma construção, mas não das antigas. De qualquer maneira, o interesse por ela fez com que saíssemos sem destino, mas com vontade de ver de perto o imóvel. Depois de íngreme ladeira, a rua terminava no topo do morro e não havia com seguir de carro. Estacionamos em frente a uma casa pintada de azul, muito simples, mas bem cuidada. Da casa saiu um dos seus moradores. Reconheci o moço que pintava a Pousada no dia da nossa chegada. Ele também nos reconheceu e nos levou para conhecer o imóvel, um antigo hospital para crianças, atualmente uma creche.

Do alto do morro, a vista da cidade é memorável. Fotografamos e entabulamos conversa com Caetano, o moço que nos recebeu. Ele mostrou a construção que está fazendo no terreno que lhe pertence. Interessamo-nos por plantas e ervas do terreno e ele foi identificando cada uma delas com sabedoria adquirida pela vivência: aroeira, vassourinha, mastruz, velame, jurubeba, entre outras. Uma serigueleira carregada de frutos ainda verdes chamava a atenção. Agradecidos pela gentileza, descemos a ladeira e seguimos o passeio para os lados da Santa Casa de Misericórdia.

Antes do almoço, fomos mais uma vez dar uma volta na praça em frente ao Paraguaçu. Em torno do monumento que homenageia as lutas pela Independência da Bahia, movimento resistente começado em Cachoeira, havia uma exposição de fotos de Seu Zé e de pinturas de Davi Rodrigues. Adquirimos duas pinturas em papel e uma foto e logo nos entrosamos. O cidadão cachoeirano é receptivo e conta orgulhosamente sobre a cidade, sua vida cultural e artística. Davi Rodrigues foi premiado na Bienal do Recôncavo, agraciado como artista da região. Sua pintura de temática fortemente marcada pela religiosidade sincrética de Cachoeira, se expressa formalmente por uma variedade cromática rica em detalhes obsessivamente trabalhados, remetendo ao pontilhismo. Ex-aluno de Hansen Bahia, o pintor iniciou seu trabalho como gravador, mas enveredou para a pintura, visto que os quadros despertavam mais interesse.

Na frente da exposição, ou seja, do monumento uma manifestação religiosa acontecia. Um terreiro de umbanda realizava culto em praça pública homenageando Oxum ou Iemanjá. Certamente Oxum,visto que o rio de águas doces banha a cidade. É possível que a cerimônia era para a Rainha das Águas. Um balaio com flores aguardava o momento de ser levado até o rio. Atraídos pelo evento aproximamo-nos respeitosamente e acompanhamos com palmas os pontos cantados pelos filhos e filhas do terreiro, muito deles em transe.

Depois do almoço visitamos o atelier de Mimo, escultor. Adquirimos quatro peças entalhadas na madeira, quatro pequenos Orixás.

Amanhã tem mais...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Registro 417: Diário de Cachoeira - Bahia


Há três anos, fugimos do Carnaval soteropolitano para o descanso em Cachoeira, uma das cidades mais lindas da Bahia. Aqui me sinto bem. O tempo escorre com suas ladeiras e ruas num traçado original, com seus casarões centenários, seus cantos e seu rio. Cachoeira é uma cidade potencialmente rica para o turismo. Mas espero que não seja um turismo predatório. Chegamos na quarta-feira (06.02.2013) depois de viagem tranquila. Passamos por Santo Amaro percorrendo as suas ruas principais. Logo depois, seguindo as curvas da estrada, descemos até a Heroica  como todos os cachoeiranos a conhecem. Mais uma vez, desfrutamos do conforto da Pousada do Convento do Carmo. Os padres sabiam morar. A bela construção, necessitando de mais cuidado, é imponente. Para quem quer descansar um ótimo lugar. Imagino com teria sido a vida por aqui quando o lugar era habitado pelos Carmelitas. Não entrarei no mérito da ação destes frades na região. O que importa para mim é o patrimônio, deixado, retrato de um passado, cujo tempo e a ação do homem, nem sempre responsável, não destruíram, embora haja muita ruína em Cachoeira. O passado se apresenta a todo instante em “seus milhões de instantes já vividos e que permanecem presentes enquanto deles persistir uma lembrança ou um efeito”, como nos diz Marguerite Yourcenar em seu livro A Volta da Prisão (1992, p. 4).

Andando pelas ruas, ficamos sabendo que seria realizada a Quarta dos Tambores, evento em praça pública. Às vinte horas estávamos na praça em frente ao rio, o Paraguaçu. A programação foi aberta com um grupo de ogans. Eles tocaram e cantaram cantigas em louvor aos Orixás da nação dominante em Cachoeira, a Jêje. Uma senhora vestida de branco também cantou e dançou no meio da grande roda. Um bom público foi se formando. Em seguida apresentaram-se grupos de samba-de-roda. O primeiro deles, Esmola Cantada revelava as confluências entre o sagrado e o profano. Segui-se a apresentação dos Filhos do Caquende e dança esquentou ainda mais. Os espectadores, homens e mulheres, dançavam divinamente, com elegância, ginga, sensualidade e domínio do passo e do espaço. Impressionante a habilidade dos pares e de todos que arriscavam expressar o samba no pé. Samba no pé e nas vozes que desfiavam os mais lindos e tradicionais sambas, alguns conhecidos outros não. Uma noite inesquecível. Não arrisquei uns passos, para não passar vergonha. Tenho o quadril sem molejo, condição necessária para a execução da dança.

Na quinta, fomos a uma rezadeira que com galhos de aroeira nos rezou. Seguindo a tradição iniciada por seu pai, um famoso beato de Cachoeira. Deixei na folhas as mazelas e saí da casa da rezadeira sentindo-me leve. Lembrei-me da infância quando Davina, rezadeira das boas em Ipirá, rezava os filhos de Dona Ester e de seu Roque.

Um incidente na manhã calorenta. Da última vez que estivemos na cidade, a matriz estava em processo de restauro e por isso mesmo fechada. Agora, com as obras concluídas, a Igreja do Rosário encontrava-se aberta aos seus fiéis e visitantes. Resolvemos entrar para apreciar o templo. Pretendíamos assistir à missa e em seguida fotografar o belo espaço. As fotos deveriam compor o blog Igrejas da Bahia, hoje contendo imagens de cinquenta igrejas de Salvador, incluindo a Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira, cuja decoração nos deixa extasiado. Pois bem, fomos proibidos de fotografar a Igreja do Rosário com a alegação de que o templo tinha sido roubado várias vezes. Sentimo-nos ofendidos, visto que fomos, de certa forma, acusados de sermos ladrões de igreja. O mais estranho é que tal medida tenha sido tomada depois que levaram a grande maioria das imagens. Presumo que as mesmas devam ser lindas e devem estar decorando alguma residência brasileira ou estrangeira. Feita a proibição nos retiramos. Antes, porém, nós protestamos. 

Um templo deve ser cuidado por seus responsáveis, mas não se pode proibir de fotografá-lo, desde que a máquina esteja adequada para tal função, sem flash, e não agrida os elementos decorativos nem as cerimônias religiosas e seus fiéis. Quanto a isto, estamos de acordo. Depois do sucedido, pensando cá com meus botões, dei-me conta de que a Arquidiocese e as Ordens Religiosas não botam um prego no seu patrimônio. Alegam determinações do Instituto do Patrimônio. Não botam prego, ou seja, não dão à mínima. Basta ver como ficou, por exemplo, o conjunto arquitetônico de São Francisco do Iguape, região perto de Cachoeira. É certo que o Instituto deve cuidar para que se mantenha o estilo de cada igreja, suas imagens, seus elementos decorativos, para que tudo isto não seja modificado aleatoriamente por pessoas que desconhecem a história da arte, ou sem a mínima sensibilidade para olhar o espaço e ver que não se pode inserir coisas conflitantes com a estética impressa pelos construtores das belas igrejas da Bahia e o Brasil. O mais sério de tudo é que este belíssimo patrimônio, independente da religião e da fé, é restaurado com verbas públicas. Portanto, somos nós, crentes e ateus, que destinamos o dinheiro recolhido pelos impostos para o restauro e a conservação dos edifícios, sejam eles igrejas, museus e outros. 

Não incorrendo em acusações, o certo é que os responsáveis pelas igrejas, ou seja, os padres, não estão nem aí. Não quero generalizar, mas é sabido que muitos deles dilapidam o patrimônio. Todos nós sabemos que tal acervo é cobiçado por colecionadores ávidos de botarem a mão nas ricas obras. Ladrões são muitos e de várias procedências... Não é o nosso caso. Podemos ser acusados de capturar os bens através das fotos, uma apropriação, mas que não causa dano ao patrimônio. Deixo aqui o meu protesto. Ah, além do mais, num época propícia ao turismo - a Pousada não me deixa mentir, visto seu bom número de hóspedes brasileiros e estrangeiros -, as igrejas de Cachoeira estão toda fechadas. E não somente elas. Tudo que pertence ao poder público também. Assim fica difícil manter viva está acolhedora e bela cidade que é Cachoeira, um poema entre morros, banhada pelo grande rio Paraguaçu, onde já não navega o vapor.

A sexta-feira amanheceu ensolarada. Depois do mergulho na piscina da pousada, fomos para São Félix, a vizinha cidade do outro lado do Paraguaçu. Queríamos ver a Bienal do Recôncavo em sua décima primeira edição, uma realização do Centro Cultural Dannemann.  Gostei do Centro e da Bienal. Não vou me deter nos trabalhos da mostra, são muitos; Mas não posso deixar de citar o de Flora Rebollo, os desenhos da Série Cortina Vermelha: Chapéu Mosquiteiro e Interior de Chapéu. A artista recebeu merecidamente, o grande prêmio. Da montagem, o único reparo é a cor dos painéis. As cores berrantes concorrem com muitas das obras. O Centro Cultural abriga uma sala onde um grupo de mulheres muito bem acomodadas em mesas enrolam charutos. Dannemann é uma fábrica de charutos. O resto do dia foi de passeio, fotos e depois muita preguiça.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Registro 416: Sempre é tempo de brincar






Os Brinquedos que Moram nos Sonhos, é o titulo da exposição de brinquedos populares que no momento ocupa as salas do andar térreo do Museu de Arte da Bahia. O acervo pertence ao fotógrafo carioca David Glat, coleção de cerca de 1.500 peças que se espalham brincantes a cativar crianças, naturalmente, e adultos que ainda guardam na memória os artefatos que povoaram a sua infância.

Para aqueles que se esqueceram dos brinquedos e das brincadeiras, a exposição facilitará o retorno ao universo das geringonças, carrinhos, bonecas, bichos e outros objetos criados por homens e mulheres neste Brasil imenso, povoado por artesões sensíveis e criativos. Estes artistas presentificam com suas criações a relação indissociável entre brinquedo e brincadeira, um princípio muitas vezes esquecido por muitos inventores de brinquedos.

Os expressivos brinquedos muito bem expostos, um dado importante a considerar, visto que o público de crianças podem observar muitos dos artefatos no mesmo nível dos seus olhos, ainda que outros brinquedos estejam expostos em níveis mais altos, o que não impede a apreciação. Há brinquedos de várias espécies. Alguns são estáticos e nem por isso menos interessante. Outros, além da beleza, movimentam-se fascinando quem se posta diante deles para admirá-los.

Para os desavisados, aqueles que só têm olhos para as novas tecnologias (nada contra), ficarão impactados com o envolvimento das crianças com os brinquedos populares que nos remetem a um tempo outro. No tempo de agora, com todos os artefatos industriais, meninos e meninas interagem de maneira viva, estabelecendo uma relação intensa. A beleza das formas, as cores, os materiais chamam a atenção. Os elementos fantásticos dialogando com objetos do real atraem independente da faixa etária. A variedade de personagens, alguns próximos do cotidiano, outros distantes, povoam as salas e os cenários montados pra ressaltar a estética dos brinquedos plenos de significados.

De maneira geral, os brinquedos são objetos de muitas reflexões, citarei alguns textos que me instigam, me fazem rir e pensar sobre o brinquedo. Walter Benjamin nos legou História cultural do brinquedo e Brinquedos e brincadeiras, ambos publicados no livro Magia e técnica, arte e política (1994). No livro O estranho mundo que se mostra às crianças (1983), Fanny Abramovich trata da produção cultural para as crianças e reserva espaço para falar sobre os brinquedos e as brincadeiras. Outros escritos existem, mas estes estão ao alcance da mão.

A ida ao Museu de Arte iluminou a minha tarde, me fez retornar ao tempo de criança, deixou-me emocionado. Por outro lado, me fez pensar sobre a potência existente nesta manifestação de homens e mulheres, muitas vezes ignorados, e que se afirmam no mundo criando beleza e enchendo-o de poesia. A exposição trouxe a lembrança de Mestre Molina, um criador de geringonças brincantes que recebeu o apoio da direção do Sesc em São Paulo. Mestre Molina  povoava o Sesc Fábrica da Pompéia com seus inventos. Lembrei-me também da coleção de brinquedos populares de Paulo Vasconcelos, pernambucano radicado em Sampa, que me emprestou brinquedos para a exposição que montei na Pompéia intitulada O reino de Lilliput. E como esquecer a exposição sobre brinquedos, concebida e montada por Lina Bo Bardi?

Finalizando este registro, informo que a exposição está organizada nos seguintes espaços: A Sala de Brinquedos, A Sala dos Sonhos, a Sala do Espetáculo, a Sala do Medo, A Sala das Reciclagens, A Sala do Desafio, A Sala das Representações e a das Instalações Multitemáticas. O acervo exposto foi recolhido por David Glat, desde os 20 anos em suas viagens pelo interior do Brasil. Aberta ao público em 09 de dezembro de 2012, a exposição permanecerá até abril de 2013, de terça à sexta, das 13h às 19h. Nos finais de semana das 14h às 19h. Não deixe de ir. Vá e brinque.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Registro 415: Homenagem


O Brasil perde uma grande intérprete, Walmor Chagas. A foto é uma cena do belo filme de Person, São Paulo S.A. Não vi o ator no palco, mas privei da amizade de muitos que atuaram com Chagas.  Todos foram unanimes em elogiar as qualidades interpretativas deste gaúcho que fez parte do Teatro Brasileiro de Comédias - TBC. Junto com Cacilda Becker, fundou umas das mais importantes companhias de teatro surgidas como consequência do TBC. 

Uma lágrima para Walmor Chagas e muitos aplausos.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Registro 414: Mantra




Om Om Om 
Sarvesham Svastir bhavatu 
Sarvesham Shantir bhavatu 
Sarvesham Poornam bhavatu 
Sarvesham Mangalam bhavatu 
Om, Shanti, Shanti, Shanti 

Que bem-estar, paz, plenitude, felicidade, 
tranquilidade e prosperidade sejam alcançados por todos.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Registro 413: O que resta da Bahia


O texto de Antonio Risério me foi enviado por uma amiga com quem gosto de trabalhar, embora trabalhemos muito pouco juntos. Ao ler o texto, lembrei-me de quando cheguei a Salvador, vindo do interior para estudar. Aos 15 anos, em vista das circunstâncias, tornei-me dono do meu nariz. Vivia em uma pensão de estudantes na Rua São Raimundo, 14. Havia uma simplicidade, um jeito elegante de agir, sem muitos rapapés, mas de uma maneira civilizada. Frequentava o cinema e como era bom assistir ao filme concentrado, como todos os espectadores que iam ao cinema para se deleitar com o filme e não para conversar, como agora. Hoje em dia, quando reclamamos da conversa ou dos celulares ligados, somos acusados de intolerantes. Um absurdo!

O casarão onde morei um bom tempo de minha vida de estudante ainda existe, mas está completamente desfigurado. Mas que fazer?A Cidade da Bahia está desfigurada.

Conforme Risério, perdemos o prumo, ou seja, andamos sem urbanidade. A grossura capeia leve e solta por todas as classes, um traço que nos une agora. Estamos boçais, mal-educados, arrogantes e sem distinção, de distinto, veja lá! Lá pelos anos 60, éramos bem educados; elegantes, finos, discretos. Tínhamos uma maneira honesta, correta e impecável de proceder, sem perder a alegria, a brincadeira, a  sensualidade. Não éramos grosseirões.

Eu, garoto de 15 anos, vivi intensamente está velha urbe que mantinha um padrão de civilidade, de cordialidade, demonstração de que tínhamos aprendido no interior doméstico como nos comportar no espaço privado e no espaço público. Ricos e pobres igualavam-se (os marxistas vão me odiar) na atitude que tinham consigo e com a coisa pública, com o outro. Se havia vulgaridade, ela se tornava como coisa doentia, não para ser expurgada pela higienização. Não. Ela desaparecia em meio aos atos sensíveis que tornaram o baiano e a Bahia uma referência, agora perdida para a grosseria. Triste Bahia...

A GROSSERIA BAIANA

                                                                                  Antonio Risério

Outro dia, numa conversa, nossa first lady Fátima Mendonça, comentando certas cenas que presenciara, se lamentou da crescente falta de educação das pessoas. Concordei imediatamente com ela.

E disse que isto era especialmente triste em Salvador, que já foi uma cidade de pessoas gentis e educadas, tanto em recintos fechados quanto nos espaços públicos. E em todas as classes sociais. Mas que hoje, e também em todas as classes sociais, é uma cidade onde a vulgaridade e a grosseria predominam. Não sei se ela concordou comigo.

Mas aproveito a ocasião para rabiscar uma nota sobre o assunto. Porque, diante do fenômeno urbano, é possível distinguir entre, pelo menos, quatro coisas: urbanização, urbanismo, urbanicidade e urbanidade. E não custa nada definir, mesmo que superficialmente, esses termos. Recorrendo livremente a John Palen – e colocando algumas azeitonas em sua empada.

Urbanização diz respeito ao aspecto quantitativo do fenômeno. Ao número e à dimensão de cidades num país – a coisas como “taxa de urbanização”, etc. Urbanismo, por sua vez, é o campo das reflexões, dos projetos e desenhos, das configurações físicas da cidade. Mas não  é com urbanização ou urbanismo que lidamos, neste momento. E, sim, com urbanicidade (como pano de fundo) e com urbanidade (a questão que provocou as observações de nossa primeira dama).

Urbanicidade é um termo que diz respeito ao aspecto sócio-cultural da questão. É o lado cultural humano da urbanização. Diz respeito aos padrões sociais e comportamentais associados ao viver em cidades. À personalidade do urbanita (atenção: é urbanita mesmo e não urbanista; o urbanita é o indivíduo citadino). Às mudanças sociais, culturais, psicológicas, etc., provocadas pela urbanização. Aos estilos e técnicas citadinos de viver.

Urbanidade, por fim, tem dois sentidos. De uma parte, é um ideal de comportamento urbano – tanto da sociedade quanto no plano individual. De outra parte, diz respeito à educação urbana, à lhaneza no trato social. Meu amigo Marcelo Ferraz, em suas discussões de arquitetura e urbanismo, costuma lembrar que o pai dele costumava empregar a expressão.

De fato, não faz tempo, falava-se de urbanidade no sentido de educação pessoal e social. A urbanidade de um lugar era o seu grau de polidez e respeito aos outros e aos bens comuns. Quando alguém empregava a expressão “um sujeito urbano”, por exemplo, estava se referindo a uma pessoa polida, educada. E é exatamente isto o que estamos perdendo ou já foi perdido: a urbanidade. E é a perda de urbanidade que choca nossa querida Fátima Mendonça.

Com inteira, inteiríssima razão. Urbanismo à parte, esta nossa cidade do Salvador, por exemplo, possui um grau razoável de urbanização, um baixíssimo grau de urbanicidade – e parece já não ter a mínima noção do que é ou do que foi urbanidade. Lamentavelmente. Vemos isto em festas, em recepções, nos restaurantes supostamente chiques, em filas para isto ou aquilo, nas relações interpessoais, no atendimento dos serviços públicos, no comportamento diante dos bens coletivos, nos absurdos agressivos do trânsito, etc., etc.

O educado e informado Marcelo Ferraz se pergunta sempre – e, certa vez, me perguntou: em que momento foi que algo se esgarçou e rompeu, para que perdêssemos assim o trato urbano, no sentido da urbanidade, da condição de viver civilizadamente numa cidade? Sinceramente, Marcelo, confesso que não sei em que momento foi. Mas perdemos.

Em A Morte e a Morte de Quincas Berro d’Água (por favor, revisor: não coloque “morte” em caixa baixa, seguindo o atual padrão acadêmico de citar, que foi adotado pelos professorais daqui, mas não  tenho nada a ver com isso), Jorge Amado fala dos “ritos de gentileza” do povo da Bahia. Mas esses ritos pertencem já ao passado. É uma pena. Chegamos hoje a um grau baixo demais, em matéria de educação doméstica e urbana.

E isto – esta queda – nada tem a ver com pobreza. De jeito algum. Vivi minha juventude numa cidade pobre, mas que sabia o que era trato urbano. Neste sentido de civilidade. De urbanidade. E adianto, sem que ninguém me pergunte, que me envergonha o fato de que hoje o povo baiano seja imbatível, no contexto brasileiro, em matéria de grosseria e grossura. De falta de educação.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Registro 412: Homenagens




Malala Yousafzai

Mais uma texto copiado e colado. Seu autor é MOISÉS NAÍM, e foi publicado em a Folha de S. Paulo (23.11.2012). Comungo com o teor do texto, portanto assino em baixo.Não posso concordar com as aberrações que feriram Malala e Savita. Como não posso concordar com a estupidez do parlamento de Uganda que quer aprovar uma lei brutal: a pena de morte para a homossexualidade. Se eles fizerem isso, milhares de ugandenses poderiam ser executados, apenas por serem gays. Em pleno século XXI não é cabível tais atos, mas diante do fatos, o que fazer? Denunciar. É o que faço publicando o texto de Naím. 

Aproveito a oportunidade para felicitar o Brasil e ao Ministro Joaquim Barbosa. Venceu o mérito. 

Ouviu falar em Malala e Savita?
Moisés Naím

A trajetória dessas duas mulheres ilumina aspectos do mundo em que vivemos neste início de século 21

Malala Yousafzai e Savita Halappanavar. Não é trava-língua. São os nomes de duas pessoas que não poderiam ter menos em comum.

Mas com ambas ocorreram coisas que iluminam aspectos tanto trágicos quanto esperançosos do mundo em que vivemos.

Malala Yousafzai, paquistanesa, 15. Há um mês, quando voltava para sua casa no ônibus escolar, recebeu um tiro que lhe atravessou a cabeça e o pescoço, alojando-se no ombro. Sobreviveu milagrosamente. Seu pecado? O ativismo em favor do ensino para as meninas.

Ao reivindicar o ataque, o Taleban explicou que Malala "é o símbolo dos infiéis e da obscenidade". Quando, em 2009, os talebans controlavam sua cidade, no vale do Swat, Malala começou a escrever um blog. Ela relatava como já não podia ir à escola, o fechamento de muitas escolas e como às vezes os talebans simplesmente as incendiavam. Uma vez que o Exército paquistanês retomou o controle de Swat, Malala se converteu numa voz inteligente em favor da educação das meninas. Para os talebans, essas ideias merecem a morte.

Savita Halappanavar, uma bela dentista de 31 anos de origem indiana, vivia em Dublin. Em princípio, a Irlanda deveria ser menos perigosa para as mulheres que o vale do Swat.

Mesmo assim, um obscurantismo semelhante ao que motivou a tentativa de assassinato de Malala levou à morte de Savita. Grávida de 17 semanas, ela começou a se sentir mal e foi com o marido ao hospital Universitário de Galway. O diagnóstico foi evidente e o tratamento indicado, também. Os médicos concluíram que o feto era inviável.

Desconsolada, Savita se resignou e pediu que realizassem um aborto. "Não podemos", explicaram os médicos. "A lei nos permite fazer abortos apenas quando o coração do feto deixou de bater." Foram forçados a esperar. O coração do feto parou de bater na quarta. E o de Savita, no sábado seguinte.

A autópsia revelou que a causa da morte dela foi infecção generalizada. O marido disse à BBC: "Era nosso primeiro bebê, e ela estava radiante. Não há dúvida de que Savita estaria viva se pudesse ter encerrado a gravidez que a matou."

Por que proteger um feto que é inegavelmente inviável e não tem esperança de vida é mais importante que a proteção de uma jovem mãe de 31 anos com saúde perfeita? Você sabe a resposta. Tanto a tentativa fracassada de assassinato de Malala quanto a morte "por razões legais" de Savita provocaram indignação mundial. Embora isto ainda não seja o suficiente para mudar as coisas radicalmente no Paquistão ou na Irlanda, as duas tragédias tiveram efeitos esperançosos.

Os políticos irlandeses foram forçados a prometer reformar as leis que impediram salvar a vida de Savita. No Paquistão, ficou mais difícil defender a ideia de que as meninas não precisam ir à escola.

Essas mudanças não são suficientes. Mas ao menos as histórias de Malala e Savita lembraram ao mundo que o obscurantismo não é um fenômeno da Idade Média. Está presente e cobra vidas no século 21.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Registro 411: Gostei do texto. Leia

Como você pode ver, o texto não é meu, mas valeu copiar e colar. Como ando com preguiça (mãe de todos os vícios) de escrever, lanço mão do que me agrada, pois me faz pensar.

A fé no progresso

CONTARDO CALLIGARIS


ASSISTI A "Lincoln", o novo filme de Spielberg, no dia da estreia, na sexta-feira passada, numa lotadíssima sessão da tarde, em Manhattan. No Brasil, "Lincoln" chegará só no fim de janeiro.


O filme, que é uma obra-prima imperdível, se concentra sobre o esforço político de Lincoln para que a Câmara dos Representantes ratificasse, em 1865, a 13ª emenda da constituição dos EUA -a que aboliu a escravatura no país.


A escravatura era a aposta central da guerra, que durava havia quatro anos, entre o Norte e o Sul escravocrata. Mas, mesmo no Norte, nem todos eram abolicionistas, e muitos temiam que os negros liberados se tornassem um dia cidadãos e, pasme, pudessem votar.

Ninguém, naquela sala de cinema, na sexta passada, podia evitar de pensar que, três dias antes, o país reelegera seu primeiro presidente negro. Em menos de 150 anos, foi um progresso e tanto.

Falo de progresso só porque essa mudança promove valores nos quais aposto: quando eles avançam, acho que a gente progride. Não acredito na ideia de uma evolução "natural" da civilização (nota para os amigos filósofos: concordo com Voltaire, não com Condorcet, ainda menos com Saint-Simon).


Lembro-me de discussões intermináveis, no fim dos anos 1960, com Nicola, um jovem salernitano que fazia uma pós-graduação em geologia do petróleo em Genebra e que era decididamente anticomunista. A cada almoço, eu e meu amigo Enzo tentávamos convencer Nicola de que o futuro do socialismo seria radioso. Não funcionava.


Um dia, achei um escrito (filosoficamente duvidoso, mas de uma procedência que pareceu confiável a Nicola) segundo o qual, radioso o não, o futuro socialista era inelutável, previsto pelo marxismo "científico". Nicola acreditava na ciência, era ingênuo, e o texto o abalou. Não sei se ele se converteu, mas sumiu do restaurante universitário durante um tempo, e a gente se perdeu de vista.


Bom, Nicola, é um pouco tarde, mas talvez você esteja trabalhando numa plataforma do pré-sal e leia este jornal (o mundo é pequeno, mesmo). Nesse caso, aceite minhas desculpas: o marxismo "científico" é uma ideia calhorda, e o comunismo nunca foi inelutável. Já naquela época, aliás, eu sabia que nada acontece na história sem o engajamento subjetivo dos atores (por isso preferia, por exemplo, Henri Lefebvre a Louis Althusser -e por isso continuo gostando de Alain Badiou, porque ele nunca deixou de pensar que, sem engajamento dos sujeitos, não acontece nada, não há progresso algum).


Tudo isso parece óbvio? Vamos devagar: o sonho comunista pode estar morto, mas nossa (cômoda) crença num progresso "natural" e garantido continua bem viva.


Por exemplo, na semana passada, na eleição americana, junto com a vitória de Obama, aconteceu a derrota de dois candidatos a senador cuja oposição à legalização do aborto (mesmo em caso de estupro) era de um machismo e de uma estupidez ultrajantes. Na mesma eleição, houve também Estados que aprovaram o casamento de pessoas do mesmo sexo.


Nasci e cresci numa Itália em que a desigualdade de fato e de direito era sinistra, e o amparo era pouco. Nesse mundo, as mulheres estavam longe de ter direitos comparáveis aos dos homens, não existia divórcio, qualquer aborto era criminoso, o consumidor de droga era igualado ao traficante, e a homossexualidade era uma vergonha que era melhor esconder.


Para que essas realidades mudassem, lutei -ou seja, junto com muitos outros, votei, escrevi, desfilei, militei. Mesmo assim, tenho a estranha impressão de que fomos carregados por uma espécie de movimento "natural", ao qual era possível resistir, mas que sempre ganharia no fim -um progresso na direção do grande ideal cristão: a maior liberdade possível dos indivíduos sem renunciar à solidariedade.


Essa impressão de progresso "natural" é falsa e perigosa. Na história, nada é garantido: tudo é, sempre, conquistado.


O que nos separa de outros mundos possíveis (e horríveis) não é a inelutabilidade do progresso, mas a obstinação de pequenos grandes gestos. Entre nós e as trevas, há o corpo ferido de Malala Yousafzai, 14, baleada na cabeça pelo Talibã paquistanês porque promovia o "secularismo' (ou seja, queria ir para a escola e pensar com a sua cabeça).


Ou, a coragem da catarinense Isadora Faber, 13, que continua seu "Diário de Classe" on-line, embora hostilizada por professores, por administradores e talvez por um pintor negligente (Folha, 11 de novembro).


Publicado pela Folha de S. Paulo, em 15 de novembro de 2012.

sábado, 27 de outubro de 2012

Registro 410: Aplausos para Regina Dourado



Cena de Seu Quequé
Em primeiro plano Regina Dourado (Santinha) 
e Raimundo Matos (Quinquim)

Meu contato mais vivo com Regina Dourado se deu em São Paulo em 1982, quando gravamos o tele-romance Seu Quequé, sob a direção de Edson Braga, exibido pela TV Cultura de São Paulo. A memória dá conta deste encontro. O outro, em Salvador, na década de 70 é permeado de incertezas. Em Seu Quequé, contracenamos e nos divertimos, ela mais do que eu. Era a minha primeira experiência na teledramaturgia, fato que me deixava tenso a cada gravação.

Regina tirava de letra e esfuziante animava o estúdio. Quando as cenas eram externas, ela não reclamava do desconforto, estava sempre alegre e empenhada em fazer bem o seu personagem. Ainda recordo do seu riso sonoro, logo transformado numa gargalhada que  amenizava a canseira das gravações. Nossos personagens faziam parte de um núcleo importante da história. Ela era Dona Santinha, uma das três mulheres de Quequé, personagem de Osmar Prado. O meu, era Quinquim, um viúvo apaixonado por Santinha.  

Como disse, a memória não dá mais conta do primeiro encontro, mas trabalhei com Regina Dourado na TV Aratu, no início da década de setenta. Fazíamos um programa para criança comandado por um Palhaço e com ele um grupo de animais: o Macaco, a Onça e o Galo (símbolo da empresa). Havia também outro ator, Kerton Bezerra.  Cabia a Regina Dourado fazer a Onça, enquanto eu fazia o Galo. O programa era ao vivo e Regina, muito jovem. Éramos todos jovens; atores em início de carreira. Naquela época, eu era muito crítico e não conseguia brincar, ainda que mascarado. Às vezes, sentia-me ridículo debaixo da máscara de Galo que vestia. Não era o caso de Regina.

Regina se foi depois de uma bela carreira na televisão, cinema, teatro. Para ela, uma lágrima e muitos aplausos. 

Inesquecível!   

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Registro 409: Apoio a Hebe Alves


Faço parte do grupo de professores recém concursados. Portanto, considero-me novo na Escola de Teatro, embora velho, pois fui aluno do Curso de Formação do Ator. Em seguida, como estudante da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, cursei uma disciplina optativa e convidado por Possi Neto tornei-me seu assistente na inesquecível encenação de "A Casa de Bernarda Alba". Foi aí que eu me aproximei de Hebe Alves, aluna e uma das atrizes. Quando fiz "As Feras", último trabalho antes de seguir para São Paulo, Hebe estava no elenco. Ao retornar, depois de muitos anos, Hebe e Deolindo me convidaram para dirigir o XVI Curso Livre de Teatro, experiência que me fez reatar com o teatro. Em todos os momentos, a presença de Hebe foi sempre a do artista que se mostra apaixonado por sua arte e por ela se impõem no mundo. 

Como eu acredito que a Escola de Teatro necessita de alguém que tenha uma profunda ligação com as artes cênicas, é que eu apoio Hebe Alves para a direção. Não farei desta consulta um campo de batalha, mas não posso trair meus princípios. Tenho profundo carinho e respeito pela comunidade da Escola de Teatro, seus estudantes, seus técnicos, seus professores, mas o que eu quero, agora, é ver uma outra coisa. Sem nostalgia, devemos olhar o passado e retirar dele aquilo que ficou como potência, o irrealizado, as promessas. Quem esquece o passado não pode olhar para frente. Eu quero seguir em frente... A alternância de pessoas e ideias é salutar para qualquer instância de poder, já que a manutenção pode se tornar perigosa. Por tais motivos, a minha opção é pelo plano de trabalho apresentado por Hebe Alves.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Registro 408: Monteiro Lobato

Antes que o mundo acabe, ou melhor expurguem a obra de Monteiro Lobato para crianças, vou comprá-la, já que a minha coleção adquirida aos dezoitos anos, para espanto de meu pai, perdeu-se em meio a tantas mudanças. Inesquecíveis aventuras, elas não me tornaram preconceituoso nem outra coisa qualquer sem caráter, ao contrário. Os livros foram abertura para minha mente e por eles compreendi o mundo, inclusive as suas doenças. Assim venho tentando diuturnamente respeitar os outros com suas grandrezas ou não. Mesmo sabendo que tudo tem um limite.  Me assusta está postura equivocada do politicamente correto. Eu cantei aquela música que diz assim: "É proibido proibir..." Viva Dona Benta, Tia Nastácia, Emília, a personagem mais irreverente da literatura para crianças, Pedrinho, Narizinho, Visconde de Sabugosa, Tio Barnabé, Rabicó e todos os outros que encheram de alegria e dor a minha infância. A compra tardia se deu por motivos óbvios: quando eu era menino, a minha família não tinha tantas posses para destinar a uma coleção. Li alguns livros retirados da estante de minha tia professora. Mais tarde, retirei da biblioteca pública da c idade onde passei a minha infância, meu sítio do Pica-pau Amarelo, minha Terra do Nunca. Aos dezoito anos, passando férias no interior, surpreendeu-me um vendedor na porta de casa mercando os livros de capa dura na cor vermelha com o título em dourado. Com argumentos firmes consegui fazer com que meu pai, adquirisse aquele mundo de pura imaginação, de lições e de coisas divertidas que agora querem apagar. Tia Nastácia não iria gostar de tão absurda campanha. Apagar o livro Caçadas de Pedrinho é limitar a possibilidade de se discutir sobre preconceito, discriminação e outros monstros que assolam o Brasil. Proibir uma obra literária é um retrocesso. Seguindo está cartilha politicamente correta na forma que estão propondo, adeus literatura. Os livros estão cheios de bons e maus sentimentos. Querer passar uma borracha e apagar o que se escreveu no passado e no presente é fazer o que os nazista fizeram: acenderam fogueiras para incinerar o pensamento, a imaginação, a vida humana transformada em arte.

domingo, 2 de setembro de 2012

Registro 407: Absurdos no Novo Código Penal


O texto do professor Christiano Jorge Santos, publicado no jornal Folha de S. Paulo em 2 de setembro, revela os absurdos equívocos da proposta do novo Código Penal.

CHRISTIANO JORGE SANTOS

Código Penal: entre baleias e seres humanos

Entre omitir socorro a um cão ou a uma criança, deixe para trás a criança. E saiba: o crime compensa, inclusive para os já presos, pois penas diminuirão

A árdua tarefa de reformar uma legislação de 1941 não poderia ser bem sucedida em apenas oito meses. Para a elaboração das propostas do novo Código Penal, não foram realizadas discussões com as principais faculdades de direito do país. Não houve ampla participação das instituições e entidades de classes da área jurídica. O diálogo com a sociedade não foi satisfatório.

As audiências públicas, pautadas principalmente em temas polêmicos como aborto e eutanásia, ofereciam apenas três minutos para a manifestação de cada um dos tantos interessados. O resultado da pressa não poderia ser diferente. O texto legislativo apresenta falhas graves. Trata-se de um código feito por dez advogados, dois procuradores de justiça e três juízes.

Entre os piores erros, destaca-se o ato de reduzir o racismo, o preconceito e a discriminação a fato impune, diante da ausência de sanção.

Há diversas penas desproporcionais. De acordo com o novo dispositivo legal, a vida de um animal vale mais do que a vida humana. Basta confrontar os crimes contra a pessoa (ou contra a dignidade sexual) e os crimes contra a fauna para que se percebam previsões equivocadas.

Pune-se no projeto a omissão de socorro a animais em perigo, com prisão de um a quatro anos. Em contrapartida, a omissão de socorro a um ser humano em idêntica situação gera prisão de apenas um a seis meses, ou multa. Portanto, entre se omitir no socorro a um cão atropelado ou uma criança, é mais vantajoso deixar a criança para trás.

O ato de promover uma "rinha de galos" é punido com dois a seis anos de prisão, pena bem superior ao ato de provocar intencionalmente uma lesão em um humano, que incorre em prisão de seis meses a um ano.
Molestar baleias e golfinhos gera pena de prisão de dois a cinco anos. Molestar sexualmente um adolescente, sem grave ameaça ou violência, deixa o criminoso no máximo dois anos preso. A comissão deixa claro que a proteção penal aos seres humanos é inferior à fauna.

A flora brasileira não teve o mesmo tratamento especial. Embora nossas florestas, especialmente a Amazônica, sejam alvo de cobiça internacional e de desmatamento, destruir inteiramente uma floresta nativa provoca uma reação penal pífia: prisão de três meses a um ano -a mesma pena para quem danificar a vegetação de logradouro público. Arrancar as pétalas de uma rosa na pracinha ou destruir a Amazônia se tornam condutas de igual gravidade.

O uso de drogas também merece destaque. Para a nova lei, deixou de ser crime portar entorpecentes para consumo pessoal -o suficiente para o consumo médio individual por cinco dias. Além da impossibilidade de se definir critérios do que seria "uma quantidade razoável", o novo código abre precedente para o tráfico difuso. Qualquer traficante flagrado com até 25 porções poderá alegar ser um mero usuário. Basta dividir a droga com outros "portadores" para poder traficar em larga escala e, o pior, dentro da legalidade.

Quanto aos delitos patrimoniais, o crime compensa. As penas do roubo simples caíram de quatro a dez anos de prisão para três a seis anos. A pena para roubo com emprego de arma caiu de cinco a 15 anos para quatro a oito anos de reclusão.

Os futuros criminosos serão contemplados com uma liberdade mais célere, inclusive os que já estão presos, já que a lei penal mais favorável ao réu retroage. O atual crime de extorsão -a exemplo da obtenção da senha de cartões bancários em seqüestros-relâmpagos- será considerado roubo por equiparação. Desta forma, não será mais possível somar as penas de roubo e extorsão, o que beneficia (e muito) o réu.
A aprovação do texto do atual projeto de lei representa um enorme risco à segurança jurídica e à sociedade brasileira. Pese a capacidade e o saber jurídico de vários de seus membros, a meritória intenção de reforma gerou várias inovações positivas, mas também maus resultados.

A esperança de evitarmos prejuízos à sociedade brasileira está nas novas emendas ao Projeto. O MP já encaminhou mais de cem propostas de emenda ao Senado Federal para corrigir estes e outros equívocos no novo Código Penal.

CHRISTIANO JORGE SANTOS, 45, é professor doutor de direito penal na PUC-SP e promotor de Justiça

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Registro 406: Para educadores



Tomei a liberdade de copiar da Folha de S. Paulo e colar neste blog, o texto logo após a esta resumida introdução. Tamanha é lucidez na análise da proposta que ronda o ensino médio no Brasil, com a adoção de um sistema que privilegia o ensino em áreas que se agregam e ministradas à cargo de uma professor generalista, Sei bem o que é uma professor generalista. Na área da Arte, que é a minha, a batalha para romper com a excrecência do professor generalista foi muito dura, pois temos a certeza de que um professor não conseguirá ministrar conteúdos de Teatro, Música, Dança e Artes Visuais com a competência necessária e fazer com que os estudantes mergulhem no universo das linguagens da Arte de maneira adequado e vertical como deve ser este encontro. Ainda não conseguimos fazer com que as escolas públicas e privadas em sua totalidade compreendam a necessidade de um professor para cada linguagem da Arte. Há exceções, mas via de regra, os profissionais são levados a assumir a tarefa de ministrar aulas de Arte tendo apenas a formação numa das linguagens, o que descaracteriza uma proposta educativa séria. Agora, diante dos baixos índices educacionais, os burocratas da educação inventam uma moda que em vez de avançar retroage a um modelo  vigente no tempo da ditadura civil-militar. Mas deixemos que o filósofo Paulo Ghiraldelli Jr. exponha seu pensamento. Comungo com suas ideias e espero que mentes lúcidas consigam agir de maneira a barrar tal estupidez.

Reforma estapafúrdia

PAULO GHIRALDELLI JR

Querem professores de ensino médio generalistas como os do ensino básico. O aluno esperará a faculdade para ter professores especialistas. Será tarde demais.

A ideia que o Ministério da Educação (MEC) tem para melhorar a educação brasileira é a extinção do "professor de colégio". Nunca pensei que se chegaria nisso. É fantástico: não havendo mais a figura do professor, tudo se resolve.

A reforma que o MEC propõe para o ensino médio se resume nisto: ficam extintas as disciplinas tradicionais -português, história, física, filosofia etc. Seus conteúdos devem ser diluídos em "áreas", criadas sem respaldo epistemológico, mas apenas como reflexo do mal arrumado Enem.

A proposta foi tema de dois textos nesta seção no último sábado. Com ela, o MEC atual repete o erro da ditadura militar. Pela Lei de Diretrizes e Bases de 1971, foi feito algo parecido, tendo sido necessário voltar atrás sete anos depois, quando foi constatado o fracasso da reforma.

Como não nasci ontem, posso dizer quais as principais consequências da reforma atual proposta.

1) A primeira é gravíssima: desaparecendo a disciplina, desaparece a figura do professor da escola média, ou seja, o tradicional professor de colégio, uma vez que é pelo domínio de um conteúdo específico que ele se caracteriza.

O professor do ensino médio será um generalista igual ao professor do ensino das primeiras séries do ensino fundamental. Ele poderá ser despejados dentro das tais áreas e, conforme o jogo de forças interno a elas, descartado. Professor sem disciplina no âmbito do colégio não é professor.

2) Não havendo mais a profissão de, por exemplo, professor de física, de filosofia ou de história, para que serviriam os cursos de licenciatura na universidade brasileira? Para nada. Isso vai causar desprestígio ainda maior da carreira do magistério e o fechamento das licenciaturas na universidade.

3) Não existindo mais disciplinas na escola média, queiram ou não, haverá um vácuo de três anos na vida do jovem.

As áreas não funcionarão de imediato (se é que algo assim possa funcionar um dia!), como sempre ocorre nesses casos de mudanças esdrúxulas. Haverá, então, o caos na escola: não se saberá que tipo de professor deverá ficar com os alunos e, ao fim e ao cabo, teremos rapidamente na universidade duas ou mais gerações com três anos a menos de ensino.

4) Descaracterizada dessa maneira, a escola média irá se configurar como um "lugar de espera". Será um tipo de playground para adolescentes (!), que deverão ficar lá, "na bagunça" -provavelmente eles próprios perceberão que não se sabe o que fazer com eles. A escola será um lugar para segurar uma juventude que deverá esperar a universidade para voltar a ter professor especialista!

A universidade, por sua vez, terá de arcar com a tarefa de suprir o que se perdeu nesses três anos. 

Obviamente, não conseguirá dar conta disso. O ensino universitário sofrerá pressão no sentido de baixar seu nível, uma vez que a maioria dos alunos não estará entendendo coisa alguma em sala de aula.

Tecnicamente, no jargão da sociologia da educação, trata-se aí de "expropriação do saber" do professor, uma conhecida antessala para arrocho salarial e contenção de despesa.

PAULO GHIRALDELLI JR., 55, é filósofo, professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e autor de "As Lições de Paulo Freire" (Manole)

Folha de S. Paulo, 29 de agosto de 2012

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Registro 402: Para os eleitores


Aos eleitores de Salvador, Bahia e de qualquer cidade do Brasil. Basta fazer as adaptações ao seu contexto 

No texto que se segue, Aninha Franco nunca foi tão mordaz como agora. Humorada, mas terrivelmente agressiva, ela diz o que a grande maioria de nós quer dizer ao ver tantas caras sorridentes pelas ruas da Cidade do Salvador. Perspicaz, ela toca na ferida que se esconde por trás de tantos sorrisos. Sorrisos de quem vislumbra  um futuro promissor. Leia e desfrute o texto, mas não esqueça o que Aninha aponta. Só não vê quem não quer. Um texto oportuno. Pena que os políticos, que raça horrível, continuarão escondendo sua sordidez por trás de um sorriso manso, suave. Cuidado!


Quem ri por último, pode rir melhor, se quiser

Aninha Franco, 
A Tarde, 26 de agosto de 2012 

Por que riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Nas placas que enfeiam, ainda mais, a linda cidade da Baía, destacam-se os dentes. Alvos, quase exuberantes, riem sobre a urbe destroçada. Riem de quê? Do lixo, dos buracos, do fedor de mijo que afligem os cidadãos do território sem cidadania? Do extermínio da produção artística criativa dos Anos 1990? Da inexistência de políticas públicas municipais para o que quer que seja? 

Do tráfico e da polícia que, concorrentes, matam, como nunca antes na história deste Estado, jovens das periferias? Do mensalão do PT? Da CPI de Cachoeira do PSDB? Ou do poder onipresente de Sarney, o corrupto mor do País, na frágil democracia de 1963, em toda a ditadura, de 1964 a 1989, e na democracia de agora? Riem do constrangimento e da vergonha de serem políticos, como Maluf, os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos?

De que riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Dos analfabetos absolutos ou funcionais que vitimizam a si mesmos, à cidade, aos municípios, e ao Estado? Da educação pública, da saúde pública, da péssima qualidade dos serviços públicos, ou das casas caras que ocuparam para fazer campanha, e das casas ainda mais caras que ocuparão depois, se vencerem, aumentando patrimônios a galope, sem que ninguém lhes impeça ou fiscalize? Riem dos salários que os três Poderes se autocontemplaram, às escondidas, e que a Lei de Acesso tem exposto?

De que tanto riem os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitanos? Da falta de novas lideranças políticas? Das promessas que, quase todos fizeram sem falta e, as quais, quase todos faltaram, sem dúvidas? Da grana que precisa ser investida no Centro Histórico, pós avacalhação 2007.2010? Riem da gestão de Joãozinho Oito que se encerra com a cidade mais provinciana que em 2004? Riem de não terem rejeitado suas contas, tolerando que se ele se candidate a governador em 2014? Que tanto têm para rir os candidatos ao executivo e legislativo soteropolitano à gestão 2013.2016. Como quem ri por último ri melhor, temos a opção da não reeleição absoluta. 

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Registro 401: Sobre a política cultural, o teatro e os editais


SOBRE EDITAL, PROFISSIONAL E PÁ DE CAL
Por Gil Vicente Tavares


Em seu discurso de posse como Secretário de Cultura da Bahia, o professor Albino Rubim citou, para ciúme das outras artes, o teatro profissional baiano. Era início de 2011, reeleição de Jaques Wagner, e seu discurso, oportunamente, referiu-se à área que mais embate teve com a gestão passada da pasta.

Pouco tempo depois, o secretário fez uma reunião com alguns artistas da cidade, com foco na discussão do teatro profissional em Salvador; o que causou ciumeira nos que não foram chamados, e um entusiasmo perigoso nos que estavam presentes.

2011 foi um ano fraco para o teatro. O Fazcultura, demonizado como um programa do governo onde as decisões ficam na mão da iniciativa privada, foi a ferramenta que conseguiu dar um fôlego para que o ano não passasse em branco. O Vivo Encena patrocinou o festival Bahia em Cena e o espetáculo Sargento Getúlio, abrindo exceção por ser uma data comemorativa e a abertura do festival citado acima; visto que o programa da Vivo não tinha como foco patrocinar, através do Fazcultura, montagens de espetáculos. Namíbia, não! foi exceção que confirmou a regra da ineficiência dos editais e muito pouco se fez.

A despeito do descrédito do Prêmio Braskem, o reflexo do arrefecimento da produção profissional baiana ficou claro nas indicações de melhor espetáculo. Dos cinco indicados, um era de alunos da Escola de Teatro, outro, uma peça de formatura da mesma, além de Fim de Partida, produção da Companhia de Teatro da UFBA.

A Secretaria de Cultura justificou a falta de incentivo por conta das dívidas herdadas da gestão passada, e todos aceitaram um ano de vacas magras para que a casa fosse arrumada e os artistas e produtores fossem pagos.

O ano de 2012 começou sem perspectivas claras para aquecer o mercado teatral em Salvador. Uma contenda entre Secretaria de Cultura e Vivo Encena fez o segundo se afastar, com seus investimentos, do teatro profissional na cidade. Como em samba de pombo urubu tá sempre errado, prefiro me abster de entrar nessa confusão, apenas registrando que, nessa contenda, quem mais perdeu foram os artistas. A Coelba e a Bahiagás chegaram a lançar propostas via Fazcultura, mas, de fato, até o momento não vimos nenhuma empresa de porte marcando presença na produção teatral da cidade.

Desde o início do século XXI que o “teatro baiano” (na verdade, o teatro produzido em Salvador) começou a passar por problemas de produção e sustentabilidade. O empresariado baiano foi paulatinamente sumindo, com seus investimentos, e uma ideia de democratização, descentralização e incentivo dos desfavorecidos, em detrimento dos que vinham produzindo por diversos mecanismos de isenção fiscal, patrocínios diretos e, raramente, editais, acabou por, junto com a verba, pulverizar a produção da capital.

Houve um enfraquecimento do Fazcultura, com uma produção pouco atrativa aos olhos dos empresariados que, noutras épocas, chegavam a ir atrás dos artistas para patrocinar ou apoiar financeiramente. A concentração na política de editais e o fortalecimento de um Fundo de Cultura do Estado da Bahia – concentrando, inclusive, recursos outrora destinados, pelas empresas, ao Fazcultura – provou não dar conta de uma efetiva, diversificada e contundente produção em Salvador.

Muitos espetáculos passaram a cumprir a temporada exigida e depois sumir, sem fazer carreira, circular, participar de festivais e ter uma sobrevida que justificasse um investimento público. Considero um desperdício de verba pública destinar-se a um projeto seja 50, 100 ou 150 mil reais, e esse projeto não ter uma carreira, não atingir uma meta mínima de público, não ter um planejamento que não o torne dependente apenas do edital. A obra de arte precisa ser vista e penso que quando o governo investe nela, é pra que essa obra possa dialogar com a sociedade, seja algo que dê um retorno ao público comum com o que a arte tem de mais essencial para o homem: a poesia que falta no dia-a-dia, a reflexão que passa por outros caminhos que não o panfleto e o discurso da mídia.

Num ano de pouca e pobre produção teatral, a Fundação Cultural do Estado da Bahia lançou um edital chamado Setorial de Teatro onde o conceito era que qualquer projeto vinculado às artes cênicas poderia ser contemplado de acordo com sua relevância para a comissão, ao contrário dos editais da gestão passada, que eram divididos em categorias como montagem, circulação e manutenção.

Foram dezoito projetos aprovados. Como o próprio site da FUNCEB divulga, foram nove projetos de difusão/circulação, quatro de formação, três de criação e dois de produção. Esse resultado é um reflexo da crise que se instaurou no teatro de Salvador. Dos dezoitos, treze foram de formação, circulação e difusão. Com isso, percebe-se uma tendência na comissão. Há, inevitavelmente, uma constatação: incentivar a formação, difusão e circulação são quase decorrências das necessidades profissionais, em boa parte, de uma classe. A necessidade de formação é para se ter uma técnica apurada para a realização de um espetáculo. E é preciso grandes espetáculos para que a circulação e difusão sejam válidas. Contudo, justamente esse elo da cadeia produtiva, o fundamental e que fortalece todo o resto, foi enfraquecido.

Três festivais foram contemplados. Ora, um festival é algo estrategicamente fundamental. Algo que não deveria concorrer em editais, deveria ser algo que tivesse verba direta e não precisasse concorrer com outros projetos. Mas a comissão teve que escolher entre um festival de cerca de noventa mil e montagens de duzentos mil. É de uma covardia e esquizofrenia sem tamanho, e uma concorrência desleal, pois deixar de contemplar dois festivais que, juntos, somam menos de duzentos mil, para aprovar uma montagem de duzentos mil chega a ser loucura. Por quê? 

Justamente porque devem ser políticas diferenciadas dentro de uma secretaria de cultura.

Como foi dito acima, os artistas que mais tempo vêm fazendo teatro, estando regularmente nos palcos, criando obras que possam ter uma carreira e dialoguem com o mercado de forma a que o projeto gere um mínimo de sustentabilidade, esses artistas poucas, pouquíssimas ou até mesmo nunca produziram suas obras através de editais.

Eu, por exemplo, ainda iniciante, com apenas treze anos de carreira, só fiquei um ano sem produzir nada em teatro: 2007 (coincidência, ou não, primeiro ano do PT na Bahia). Em treze anos de carreira concorri umas trinta vezes entre editais de montagem estaduais e federais e ganhei apenas uma vez, com Os javalis. Se eu, neófito, já estou calejado e acostumado a perder editais, quanto mais profissionais com anos de profissão: e edital não é política pública e nem o x da questão. Infelizmente, mais uma vez, após o resultado do Setorial de Teatro, as discussões pareceram girar em torno de quem ganhou e quem deixou de ganhar. 

Mais uma vez, a classe, difusa e desunida, aproveitou-se de um edital “balaio de gato” para alfinetar e se enfraquecer internamente, quando o foco não era, não é e nem pode ser quem ganhou e quem perdeu, e é engraçado como alguns vestem a carapuça das críticas que são direcionadas ao Estado, e não a nenhum artista específico. “A casa dividida não fica de pé” (Mateus 12.25b), e a falta de união pelo bem comum só corrobora o pouco caso dos poderes públicos.

Uma reportagem foi feita discutindo os rumos do teatro profissional em Salvador. Esse teatro que é feito com regularidade, que se pretende inserido num mercado consumidor, com carreira, temporadas, festivais. E neste aspecto, como saiu na reportagem em uma citação minha, esse edital foi uma pá de cal no profissionalismo que se poderia pretender para o teatro na cidade, pela analogia com o escasso incentivo à produção local.

Para quem não sabe, a utilização da expressão “pá de cal” refere-se ao último ato feito no enterro de um defunto. Um mero edital equivocado, difuso e que, em sua perspectiva de contemplar tudo, acabou por desequilibrar a balança entre produção e os outros elos da cadeia, não tem relevância, por si só. Contudo, ele é o reflexo de toda uma conjuntura onde a fuga do empresariado, opções complicadas  e decisões aparentemente equivocadas das políticas públicas acabaram por enfraquecer de vez o mercado do teatro em Salvador.

O teatro é uma arte coletiva. Tanto no fazer quanto no aparecer. Uma andorinha só não faz verão e a sensação que tenho, quando olho os roteiros de teatro da cidade, é desoladora. Não adianta me dizerem que o Teatro NU fez uma temporada em julho de Os javalis, uma em agosto de Sargento Getúlio, e depois vai viajar para Porto Alegre. Se o mercado não está aquecido, se estão acontecendo, raramente, grandes produções, projetos de visibilidade e qualidade – sim, há teatro de qualidade e há o teatro ruim que, além de ser ruim pela sua simples existência, ainda afasta o público fazendo um desserviço à classe –, se a efemeridade, fragilidade e irrelevância de produções impera, não há como tocar um projeto de teatro sério, profissional e a médio e longo prazo na cidade.

Estamos numa encruzilhada. De cá, para conforto dos de lá, nos engalfinhamos em picuinhas, revanchismos, invejas e disputas. De lá, o poder público nada faz de eficiente e programado, somos cada vez menos estimados pelos empresários, as perspectivas se fecham e a situação é calamitosa.

Resta, por enquanto, torcer para que os projetos aprovados no Setorial de Teatro inundem de qualidade e energia os palcos da capital e do interior. Que o pouco que foi aprovado traga uma relevância e uma significância imensa ao público, tão desacreditado em relação ao que se produz aqui. Precisamos voltar a pôr a cabeça pra fora da lama, precisamos ser vistos, precisamos voltar a ter credibilidade, dignidade, relevância no cenário artístico da Bahia. O antes tão bem falado, criticado e viajado “teatro baiano” precisa se reerguer. O profissional dessa classe precisa voltar a produzir e dar continuidade aos seus projetos.

Ano que vem é Copa das Confederações. Daqui a dois anos, Copa do Mundo. Precisamos de um novo prefeito que cumpra sua obrigação de incentivar nossa cultura, coisa que estupidamente não vem sendo feita. Precisamos ter a chance de mostrar que Salvador não é só aquela imagem batida, e que temos uma cultura forte, sólida e diversificada que pode, também, ser de interesse do turista, pode ser mercado, pode gerar renda e fortalecer a economia. É preciso incentivar a produção local para apresentarmos nossa diversidade e riqueza, e há recursos, estão investindo muita grana nessas copas. Porém, dinheiro teria também para o centenário de Jorge Amado e por enquanto a grande ação cultural do Governo Estadual foi colocar placas de outdoor pela cidade.

Não será com promessas vãs de um Secretário de Cultura (que domaram os protestos da classe), com o descaso do governo estadual, com a ignorância do governo municipal, com o descrédito de empresários e com editais pífios e esquizofrênicos que chegaremos lá.