sábado, 4 de fevereiro de 2012

Registro 388: "Roda Viva" proibida pela segunda vez




Cena de Roda Viva. O ator Rodrigo Santiago, caracterizado como Menino Jesus de Praga.

A polêmica em torno da proibição do texto teatral Roda Viva, por seu autor, tem gerado muito disse que disse. É certo que proibir um texto, principalmente sendo quem é o autor, Chico Buarque, é bem estranho. Primeiro, porque ele foi vítima da censura em várias ocasiões, quando vivíamos sob o tacão da ditadura civil-militar. Segundo, por ser ou ter sido um ícone da esquerda, a séria e a festiva, e ter defendido posições libertárias. Portanto, causa estranheza a proibição de encenação e reedição do texto.

O compositor-escritor alega que o tempo tornou mais evidente as deficiências do texto. Compreendemos, mas não aceitamos a proibição, da mesma forma como não aceitamos as proibições recentes de biografias, de reedições de livros, de exposições, de gravações de músicas e por aí vai. Mas estamos no Brasil, onde tudo pode. Parafraseando Otávio Mangabeira, pense numa coisa absurda, ela acontece no Brasil. A frase original referia-se ao Estado da Bahia, dita pelo seu governador.

Chico Buarque erra em proibir, mas acerta em dizer que seu texto apresenta deficiências. Quando da encenação de Roda Viva (1968), pela dupla José Celso Martinez Corrêa-Flávio Império, a crítica mais atenta já apontava as deficiências do texto. A potência do acontecimento, e que potência, estava na qualidade da dramaturgia cênica. A encenação transgressora, violenta e abusada, colocava no palco do Teatro Ruth Escobar - São Paulo,  a rebeldia espetacular já vista na montagem de O Rei da Vela, de Oswald de Andrade, em 1967, quando Zé Celso marcou o início de uma das muitas guinadas do Grupo Oficina. Em Roda Viva, Zé Celso extrapola e amplia a irreverência. 

Zé Celso parece não estar convencido das deficiências da peça, talvez tocado ainda pela força de sua concepção, que contou com a cabeça criativa e instigante de Flávio Império. Ou esteja ainda impregnado pelos acontecimentos que se desdobraram em torno do espetáculo: a polêmica, as acusações de imoralidade vindas de deputados paulistas, a invasão do Teatro Ruth Escobar pelo Comando de Caça aos Comunistas, a repetida agressão em Porto Alegre e, por fim, a proibição da peça em todo território nacional, dois meses antes da decretação do Ato Institucional Número 5,  o famigerado AI-5, em 13 de dezembro de 1968, sexta-feira.

Se desagradou a direita e os conservadores, gerando críticas e atos violentos, como o espancamento dos atores Rodrigo Santiago, Marília Pera, Zezé Mota, entre outros, deixou escandalizada a esquerda ortodoxa, visto que o espetáculo em cartaz não se coadunava com a gramática do teatro de protesto. A encenação de Zé Celso e Flávio Império rompia com a cartilha do bom mocismo, instigando a plateia a sair do comodismo e partir para a ação. Um dos meios utilizados pelo encenador para fazer os espectadores participativos era o panfleto jogado para a platéia, com o seguinte texto:

 "TODOS AO PALCO!!! Abaixo o conformismo e a burrice - PEQUENOS BURGUESES! Tire a bunda da cadeira e faça uma guerrilha teatral, já que você não tem peito de fazer uma real, PÔRRA!!!" 

A famosa cena do fígado ensanguentado arremessado sobre a platéia, mais a referência iconoclasta aos símbolos da Igreja Católica aumentava o poder subversivo do espetáculo e agia de forma a colocar em primeiro plano o que o texto dizia de uma forma muito menos selvagem e transgressora. A crítica ao sistema, ao show-business e à massificação decorrente da sociedade do espetáculo e da cultura de massas feita pelo autor não tinha a força vinda do palco. As suas imagens superavam o que a "pecinha ginasiana" (1) - no dizer do diretor e do cenógrafo - expunha comedidamente em seu engajamento.

A atualidade do texto Roda Viva não pode ser pensada de maneira pragmática. Ao ser encenado, o texto de Chico Buarque tomou uma dimensão que não tinha, embora tocasse num assunto muito pertinente, a construção de um ídolo da música popular, sua devoração pelos fãs e substituição por outro. A gramática do espetáculo fez com que o teatro brasileiro fosse arejado por um sopro violento, denominado negativamente por Anatol Rosenfeld com a "estética da agressão". Ainda que as avaliações tenham sido extremadas, tanto do ponto de vista negativo quanto do positivo, é certo que as ideias do encenador e do cenógrafo-figurinista tinham a capacidade de se encontrar com o seu presente. No momento, para que se tenha uma medida do seu poder é preciso que o texto volte a circular por dois meios, o livro e o palco. Atualizada, a peça Roda Viva terá sentido se as suas ideias figurarem no agora a possibilidade de mudança. Para tanto é preciso que esteja liberada.

Esperamos que a proibição seja revista e que possamos contar com uma reedição do texto. Li a primeira e única edição pela Editora Sabiá. Já não lembro muito bem do texto em suas particularidades, mas ainda registro na memória um certo desencanto quando da leitura. Não vi Roda Viva em cena. Dez anos depois de sua estreia, estive próximo de Flávio Império e ouvi-lo contar sobre o processo de feitura e sobre o resultado cênico aumentou a minha curiosidade pela encenação e também o meu desencanto pelo texto. 

Roda Viva é parte da história do teatro brasileiro e tal fato não pode ser negado. Roda Viva é parte da minha história de vida... Em dezembro de 1968, ganhei de Rubem Rocha Filho o LP de Chico Buarque no qual ele canta Sem Fantasia com sua irmã Cristina. A canção fazia parte do espetáculo. 


Liberdade para Roda Viva


(1) Cf. o texto de Mariângela Alves de Lima Flávio Império e a Cenografia do Teatro Brasileiro publicado em Flávio Império (EDUSP, 1999), organizado por Renina Katz e Amélia Hamburguer.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Registro 387: Lembrar para não esquecer


Confesso minha ignorância. Não sei quem é Rogério Gentile. Sei que escreve no jornal Folha de S. Paulo. Do jornal retirei o seu texto (publicado em 26 de janeiro de 2012) que reproduzo aqui. Leia. Posso afirmar que conheço Daniela Toledo do Prado, pois desde que foi acusada de maneira estúpida por uma médica despreparada para o exercício da função, ou equivocadamente zelosa, acompanho o calvário de Daniela. Nada pode reparar o que fizeram com esta mãe, cujo destino trágico remonta ao das tragédias gregas. Nem a minha solidariedade, nem a de ninguém poderá refazer o estrago que fizeram em sua vida e de seu filho. Mesmo assim sou solidário. Extremamente solidário. O texto de Gentile me assombra a cada parágrafo e somente os insensíveis da pós-modernidade podem se dar ao luxo de dormir tranquilos sabendo de uma existência torturada como a de Daniela. O último parágrafo me deixa quase mudo, tal a estupidez do Estado, mais uma, não querendo reconhecer o que infligiram a Daniela Toledo do Prado. O Estado é responsável. O que faço aqui é lembrar, lembrar para não esquecer. O texto de Gentile é preciso.

INJUSTIÇA BRASILEIRA

 Rogério Gentile

 Daniela Toledo do Prado tinha 21 anos quando foi acusada por uma médica, em uma sala de emergência, de cometer um crime pavoroso: matar a própria filha, uma criança de um ano e três meses, com uma overdose de cocaína.

Em estado de choque, sem conseguir dizer quase nada em sua defesa, foi presa e levada pelos policiais, sob gritos de "vagabunda", para a cadeia, onde foi espancada.

Seu rosto ficou desfigurado. Teve a clavícula e a mandíbula quebradas. Perdeu a audição do lado direito -uma das detentas enfiou e quebrou uma caneta em seu ouvido. Apesar dos gritos, ninguém a socorreu e, somente após duas horas, foi levada, em coma, para o hospital.

Trinta e sete dias depois, porém, foi solta quando um laudo provou que não era cocaína o pó branco achado na mamadeira e na boca da menina. Mesmo assim, a Justiça só a absolveu em 2008, dois anos após perder a filha e, como ela costuma dizer, a sua própria vida.

Desempregada, evita até hoje sair de casa sozinha por medo de apanhar em razão da repercussão do caso -era chamada de "monstro da mamadeira". Toma antidepressivos, assim como seu filho de oito anos; diz sofrer dores fortes na cabeça e convulsões. "Não me esqueço do delegado. Dizia ter aberto o corpo de minha filha, que estava cheio de cocaína."

Embora terrível, o caso de Daniela não é uma exceção no Brasil. Cerca de 205,5 mil pessoas, ou 40% do total, estão encarceradas, muitas há anos, sem julgamento. São os chamados "presos provisórios", confinados frequentemente nas mesmas celas de criminosos condenados.

Quantos, de fato, são culpados e deveriam mesmo estar presos? Impossível saber. Os que um dia conseguirem provar sua inocência poderão recorrer à própria Justiça em busca de indenização. Daniela, após tanto sofrimento, conseguiu. Ganhará módicos R$ 25 mil e uma pensão mensal vitalícia de R$ 414. Isso, claro, se o governo Alckmin, que nega culpa do Estado no episódio, não conseguir reverter a decisão.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Registro 386: Se publico é porque concordo


PRIMAVERA BAIANA
 Antonio Risério

Embora o meu sentimento seja de urgência, quero conversar com calma, que o assunto é sério: Salvador. Numa de suas peças de teatro, Shakespeare faz a pergunta fundamental: “O que é a cidade, a não ser as pessoas?”. E me lembro disso porque nesta semana um amigo me disse, em tom de quase desencanto: “Nosso maior problema, em Salvador, é que não sabemos nos ver como cidadãos”. Está certo. E, neste sentido, o maior problema atual de Salvador somos nós mesmos.

A cara de Salvador não pode ser a da “grand vendeuse”, a da balconista-mor Ivete Sangalo, em pose autoritária, dizendo a frase imbecil: “Quem tem força, tem preço”. Em Salvador, hoje, devemos dizer coisa bem diferente: precisamos levantar a cabeça, recuperar a disposição, buscar o entusiasmo, nos mobilizar para dizer, alto e bom som, que não aceitamos o que estão fazendo com a nossa cidade. Chega de passividade. Se o que está acontecendo com Salvador (avacalhação e destruição da cidade) estivesse acontecendo em Porto Alegre, Curitiba ou São Paulo, não tenham dúvida: gaúchos, curitibanos e paulistanos teriam subido nas tamancas e saltado na goela da prefeitura.

E nós, não vamos fazer nada? Felizmente, parece que sim, que é possível. As pessoas começam a protestar aqui e ali. Exemplo disso, entre outros, foi o artigo que Fredie Didier Jr. publicou neste jornal, no domingo passado. “Salvador não passa por um bom momento histórico”, escreveu Didier. “Não falo da crise em sua monumentalidade: Pelourinho abandonado, metrô inacabado, ruas sujas. Embora grave, este tipo de problema é de solução mais fácil. Não me refiro, igualmente, à violência que nos assola. A violência impressiona, mas não destoa do que acontece em outras metrópoles. Falo de outra espécie de crise, mais profunda e de efeitos mais deletérios.Salvador está em crise existencial”.

A cidade apequenou-se, conclui Didier. Para, então, incitar: “Temos de retomar a nossa caminhada e refundar a cidade. Dar início a uma espécie de Renascença baiana”. Mais: “Salvador merece que façamos tudo isso por ela e a gente merece voltar a sentir orgulho da nossa cidade”. Perfeito. Já um outro amigo meu, apropriando-se da expressão hoje em voga para falar das grandes transformações que rolam no mundo árabe, me apareceu com uma frase ótima: “Precisamos promover alguma espécie de primavera baiana”. Sim, acho que está mais do que na hora de começar isso. É claro que não se trata de nenhuma comparação com o Oriente Médio.

O que queremos é dar um jeito na cidade. Salvador sofre, hoje, com uma coincidência infeliz: uma desprefeitura que mescla estupidez e incompetência e um governo estadual omisso diante dos problemas da cidade (e, como me diz ainda um outro amigo: “Menos com menos só dá mais na abstração matemática; na vida real, menos com menos dá menos ainda”). Mas não estamos condenados a assistir a isso sem dizer ou fazer nada. Em nome de nossas melhores tradições contestadoras, estamos na obrigação de nos mobilizar. Podemos, sim, promover uma primavera baiana.

Basta querer. Somar as nossas vozes nessa direção. Na mídia tradicional e na internet. Em blogs, no facebook, no twitter. Vamos bater na mesa e dizer que cidade nós queremos.Salvador, hoje, não é somente uma cidade abandonada, que está sendo progressivamente destruída. Mais que isso: é uma cidade humilhada. E não temos razão alguma – existencial, cultural, política ou histórica – para engolir esta humilhação. A hora é de aglutinar protestos isolados, manifestações soltas, vozes pontuais. Ou nos aproximamos e batemos na mesa, para reverter a situação atual e escorraçar a estupidez e a inércia, ou a cidade vai naufragar de vez. É hora de Salvador voltar a ser ativa, altiva e criativa – como já foi em outros momentos.

Em nossa história, temos diversos exemplos de enfrentamento e superação de reveses e crises. Não é agora que vamos nos comportar frouxamente, como se esta cidade fosse uma cadela trêmula, com o rabo entre as pernas – e não o lugar onde teve início a aventura civilizacional brasileira.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Registro 385: Entre Nós, um espetáculo imperdível


Dois motivos me levaram ao Teatro Gamboa para ver Entre Nós, texto e direção de João Sanches, os atores Igor Epifânio e Anderson Dy Souza e a crítica de Celso Jr. em seu Cadernos Grampeados. 

Digo de cara: o que se vê no palco do Gamboa é um exercíco teatral da melhor qualidade. 

Um texto inteligente sem a pretensão de obra prima, toca num assunto dos mais atuais: diversidade sexual, homossexualidade e por tabela homofobia. Sem levantar bandeira, mas cheio de toques para a platéia pensar, Entre Nós logo prende atenção do público que se torna cúmplice da cena. Cena aberta, direta, comunicativa, brechtiana, mas sem nota explicativa, pois não se trata de teorização sobre os postulados de Brecht, mas da utilização de recursos de comunicação que o bruxo alemão propunha para o teatro, ou pelo menos para o seu teatro. 

Daí que Entre Nós ensina divertindo, cumprindo uma promessa nem sempre posta em prática pelo teatro. Tal premissa, que não deve ser esquecida pelas linguagens da arte, se inflitra na cena, tanto no texto quanto na direção e no trabalho dos dois intérpretes acompanhados por um músico e sua guitarra, um pouco estridente em alguns momentos. O músico pontua a cena, mais um personagem em cena. 

E são muitos os personagens vividos pelos dois atores. E eles ganham a platéia pois sabem jogar como camaleões que mudam de cor no jogo de se mostrar e se esconder. Para contar a história de uma garoto que se descobre apaixonado por um colega de sala, Igor e Anderson interpretam uma dúzia de personagens sem nenhum recurso exterior de caracterização, somente o corpo talentosamente trabalhado e exposto para a apreciação. Calma, não pense que você verá corpos nús ou semi-nús. Estou falando de outra coisa. 

Interagindo entre si e com o público, os intérpretes atigem um nível muito bom, comprovando a já demostrada habilidade para a cena como vi em outros espetáculos.

Além de atuarem, operam a luz. Mesmo este achado da direção, repetindo-se exaustivamente não incomoda e torna-se parte da gramática do espetáculo. Penso que a luz podia ser explorada com mais efeitos de cor, como na cena do prostíbulo. Por que não assumir o clichê, tão discutido no espetáculo e preencher a cena final de luz cor-de-rosa, rapazes? Assumam o clichê!

Não há cenário e nem precisa. A cena é preenchida pelos atores, mas nem sempre pela música, embora presente o tempo todo, mas carecendo de meios tons, de mais ironia nos seus comentários. Os figurinos concebidos de maneira adequada cumprem a função dentro do espetáculo.

Sem medo da adjetivação, o espetáculo é divertido, leve, consequente, debochado, didático, divertido, romântico, crítico, ambíguo. Os diferentes sentidos tornam a peça mais interessante ainda. Mas não há indefinição. O jogo entre simulacro e realidade se explicita como um dado do que é proposto. Tanto a história que vai se construindo quanto a relação entre os dois atores é permeada de muitos sentidos o que torna a sequência final muito engraçada, pois surge a dúvida sobre quem quer beijar, os personagens ou os atores.  

Vá conferir. Os rapazes ficam até 29 de janeiro. Desejo que eles voltem a cartaz pelo seguinte motivo: teatro bom deve permanecer em cartaz e atrair um público diverso, não somente o entendido...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Registro 384: Sobre um pincel de barba


Não imaginei o quanto seria difícil adquirir um bom pincel para barba, um que durasse pelo menos um ano, pois o que eu tinha era bem velhinho. E ao contrário do que se pensa, o velhinho era bem macio. Mas de tão gasto, já não servia para nada. Assim, dispensei-o e corri a comprar outro, pois faço a barba diariamente. Adquiri um, e para minha decepção, ele logo se partiu. Lá se foi para a lata do lixo. Necessitando repor o dito cujo, exclui a rede de farmácias onde havia adquirido o frágil pincel e parti para outra alternativa.

Bem metido, fui ao shopping e busquei uma loja que comercia produtos importados. Contente e me achando, voltei para o recesso do lar com o vistoso pincel. Bastou uma semana, comecei a perceber uns fios enormes e esbranquiçados em meio à espuma e pensei: estou com a barba cheia de fios brancos, mas estes não podem ser meus. E não eram. O pincel importado soltava seus pelos. Mesmo assim fui usando-o, até que numa manhã o chumaço de pelos desprendeu-se do suporte, ficando eu a ver navios. Irritado joguei fora o que restou do pincel.

Aí começou a aventura, ou melhor, desventura para encontrar um novo pincel.  Retornei à rede de farmácias, nada encontrei. Nem pincel de primeira nem de segunda. Sem alternativa, lá fui eu para a loja de importados e dei de cara com os pincéis importados, irmãos do que soltou o chumaço de pelos. Ao conferir a procedência, matei a charada. Os pincéis são vagabundos porque são fabricados na China.

Não querendo fazer espuma com a mão, resignei-me a comprar o produto chinês. Triste um país que precisa importar pincel de barba que se acaba com duas semanas de uso. Eu gostaria de saber por que os produtos fabricados na China são péssimos. Tudo o que vem de lá, fora a sua cultura milenar,  não presta. E as nossas lojas estão atulhadas de produtos da China. Produtos que a indústria nacional não consegue fabricar. Até peixe importamos da China! 

Decerto tudo lá é mais barato porque o trabalhador deve ser explorado e vigiado. Êta sisteminha bom!!!!! E tem gente que acha mesmo e defende. Não meu caso.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Registro 383: Lágrimas

O teatro brasileiro perde o ator e diretor Fernando Peixoto. Gaúcho, Peixoto participou do Grupo Oficina e contribuiu imensamente para a construção do moderno teatro brasileiro. Pensador rigoroso e contundente seguiu de forma muito especial as teorias de Brecht, difundindo seu pensamento e sua estética.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Registro 382: Bahia, minha preta!



         Somente um poeta com a consciência e a sensibilidade aguçadas consegue perceber que a "Bahia está viva ainda." Bahia é, no caso, a Cidade do Salvador. Assim se refere a ela Caetano Veloso, em artigo escrito na edição de 8 de janeiro de 2012, de A Tarde. Mas o poeta não deixa de ver as mazelas que atingem a urbe. Como não sou poeta, embora tenda a concordar com o texto, não consigo ver com tanta nitidez o que há de vivo em meio a tanta ruína. No entanto, vejo muitas possibilidades para que Salvador se mostre como a jóia que foi, integrado-se ao século XX sem a continuada e firme destruição e apagamento das camadas de tempo impressas em sua vida, sua cultura, seu jeito.
        Caetano Veloso enumera as belezas que ele vê e desfruta: o muro azul líquido do mar cercando a cidade; a missa assistida na igreja do Carmo, mas originalmente rezada na igreja do Rosário dos Pretos, belo e significativo título para este lugar, e que se mantém assim. Espero que não a transformem na igreja do Rosário dos Negros ou dos Afro-decendentes, como quer o equivocado pensar politicamente correto. Até porque, para mim, a designação "preto" não é pejorativa nem diminutiva, visto que ao me referir ao local como sendo dos Pretos, sei bem o que quero dizer: digo da grandeza de gente que se empenhou para construir e legar à cidade um dos monumento mais belos, que se harmoniza com tudo que o largo-ladeira tem de imponente no seu traçado, na sua arquitetura e na triste e ao mesmo tempo grandiosa história. O cantor-compositor menciona também o acarajé da Cira (para mim o melhor do local), degustado ao sabor da brisa da Mariquita.
          Mas somente um poeta vê o que há de belo na Cidade da Bahia. Eu, que aqui vivo e não sou dotado da sensibilidade afinada do artista, vejo somente degradação. A degradação que o poeta também vê, mas ameniza, aquela que transformou o Porto da Barra, o lugar mais lindo, no local mais horrível, tal a devastação. Aliás, do Porto até o Morro do Cristo, a paisagem natural sucumbe à feiúra que os homens construíram nas últimas décadas. Poder público inoperante e cidadãos desmazelados juntam-se para criar um lugar completamente "armengado", termo tipicamente baiano e que cai bem para caracterizar o que se vê na Barra. E não somente. Ao flanar pela cidade, a velha e boa cidade, o que salta aos olhos é a quantidade de lugares que poderiam ser belos não fosse a descaracterização, a sujeira, a falta de imaginação, a intervenção medíocre, burra mesmo. E quem procura viver cultivando a beleza, se espanta com a feiúra. Mas sei que a opção pela beleza termina desencadeando em nós aflição e desolação, e não felicidade, como afirma Tzvetan Todorov em A Beleza Salvará o Mundo (Difel, 2011).
         Outro dia, acompanhando um amigo que foi ao SEBRAE na Av. Sete, cuidei de apreciar duas grandes fotos na parede da sala de atendimento. São fotos do mesmo trecho onde se localiza o prédio, que por muito tempo abrigou o Instituto Mauá, ali no local conhecido como Mercês. Uma foto deve ser do início do século XX e a outra atual. A diferença entre uma e outra é gritante. Na primeira tudo se ordena de maneira agradável ao olhar, o que não acontece com a segunda.
      Caetano Veloso encerra Ainda Cá, título do seu artigo, mencionando Edgard Santos, Martim Gonçalves, Glauber Rocha, gente de uma Bahia que parecia ou era de fato mais bela. De lá pra cá, certa compreensão de progresso desencadeou transformações que me levam a dizer a "Bahia está viva ainda", mas é uma triste Bahia, ainda que soem alaridos muito mais que harmonias. 
         No texto, há menção ao filme Trampolim do Forte, de João Rodrigo Matos, não por acaso neto de Agostinho da Silva. Veloso nos diz que o filme “é poderoso em sua revelação do quanto pode a Cidade do Salvador (grifo meu). Concordo. A Cidade é plena de possibilidades e os artistas conseguem retirar do seu cotidiano aquilo que os administradores não conseguem ou não querem ver. Não vou repisar o mote do capitalismo desenfreado, perverso e ganancioso, ainda que não tenha vivido sob outro regime, como causa do desmazelo que toma conta da Cidade do Salvador.
         Mesmo considerando o que se produz hoje culturalmente e artisticamente, o que Edgard Santos, Martim Gonçalves, Lina Bardi, Agostinho da Silva, os cineastas do ciclo do cinema baiano, o pessoal da geração Mapa, os criadores da Jogralescas e outros mais fizeram, resiste em sua potência? As respostas podem ser de variados calibres. Arrisco dizer: talvez, uma parcela dos cidadãos baianos, entre eles alguns artistas, consegue dar conta do legado. O poder público tergiversa e, tanto quanto grande parcela da população não consegue enxergar mesmo “com muito sol”. Mas seguimos em frente acreditando que podemos contribuir para “civilizar o infinito.” 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Registro 381: Lágrimas

Uma lágrima para Daniel Piza. Em sua última postagem, 28 de dezembro, ele desejava a todos uma feliz ano novo e prometia retornar seus registros assim que retornasse da festa no dia 11. Um jovem talento se vai. Lamento.

Registro 380: Estamos em 2012

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, 
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. 
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. 
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. 
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, 
com outro número e outra vontade de acreditar 
que daqui para diante vai ser diferente."
.
Carlos Drummond de Andrade

UM BELO ANO NOVO PARA TODOS.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Registro 379: Final de ano

No tempo em que as casas comerciais faziam e distribuíam Folhinhas - para os mais novos, calendário -, havia uma com a seguinte estampa: um velho alquebrado despedia-se, enquanto uma criança com sorriso maroto entrava em uma sala preparada para recebê-la. Uma mensagem desejando votos de Feliz Ano Novo completava a cena. Foi-se o tempo... Mas um quadrinho da Mafalda pode abrir o registro 379.



O ano de 2011 vai chegando ao final do seu ciclo, apontando para 2012, o ano que vai acabar segundo uma porção de gente equivocada, gente crédula, sem postura crítica. O calendário Maia é a referência para mais um absurdo dentre muitos a nos atropelar diuturnamente. Durante o ano, inúmeras mensagens alertando para o fim infestaram a caixa do correio eletrônico. Foram todas apagadas, tendo em visto a dimensão da insensatez. Só me resta fazer coro com Assis Valente e com a Pequena Notável: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar / Por causa disso minha gente lá em casa começou a rezar... E o mundo não se acabou.” 

Apesar dos pesares, não tenho do que me queixar. Se o mundo anda fora dos eixos, como diz o bardo pela boca de Hamlet, tentei de todas as maneiras equilibra-me diante dos desequilíbrios. Um exercício diário. Viver é perigoso, já dizia o Rosa. Algumas notícias embrulharam meu estômago, outras fizeram meu coração se fechar um pouco. Uma grande parte me fez duvidar da capacidade do humano seguir a razão sábia. Aqui, no nosso quintal, só sendo muito Poliana para aguentar a mediocridade, a estupidez, a falta de civilidade. Tudo junto é a regra, não é exceção. Entre a miséria do quotidiano e a desmedida dos pequenos gestos, acreditar que a beleza poderá nos salvar pode ser um antídoto. 

Ao manifestar pesar pela morte do ditador da Coréia do Norte, o P C do B ficou com o mico do ano. Se essa gente chega ao poder, estamos fritos. Para um partido que defendia o regime que se instalou por muito e muitos anos na Albânia, só não causa espanto em quem acredita nos bons propósitos do Partido. A Folha de S. Paulo, edição de hoje (28.12.2011) traz um interessante editorial sobre o tema.

Outro mico: o Poder Judiciário posando de vestal! Só rindo.

A reforma da Praça de Ondina, aquela que beira o mar, durou mais de noves meses. Ao ser inaugurada demonstrou-se um “belo” desastre. Obra mal feita, logo apresentou seus problemas. Ainda assim, melhor que o monumental camarote que lá estão montando desde meados de dezembro. Assim, passaremos boa parte do verão com o mastodonte impedindo a visão do mar e dificultando o acesso de quem gosta de ir à praia. Sobrou para os banhistas um corredor estreito entre tapumes e um trecho todo arrebentado, já que não foi incluído no pacote. Nunca vi um leilão da via pública feito tão desrespeitosamente. E tudo continua como dantes no castelo de Abrantes. Uns “gatos pingados” ocuparam por um tempo a praça, num arremedo das ocupações norte-americanas. Penso que não deu em nada.   

O fato é uma gota no oceano de descalabros em Salvador. A cada dia a cidade se transforma no pior monstrengo. Suja, descaracterizada, confusa e barulhenta. Enquanto isso, o alcaide e sua ex-consorte mostram cenas de suas vidas íntimas para o público soteropolitano. O BBB vai se espalhando sem nenhuma decência. Falta-nos um  Gregório de Mattos, o Boca do Inferno.

Neste ano, deixei de ver televisão. O aparelho continua em casa para que eu possa ver filmes escolhidos a dedo, no conforto do sofá, sem as conversas e os celulares inoportunos A tv aberta é um lixo, reino da hipocrisia. Seus apresentadores primam pela “canastronice”. Cortei os canais por assinatura, já que a sua programação é repetitiva e cara. Além do mais, enquanto se assiste a um filme são inseridos anúncios na tela, um absurdo. 

Por falar em filmes, registro aqueles que apreciei: Melancolia, Em Nome de Deus, O Palhaço, A Árvore Da Vida, Bravura Indômita, Um Conto Chinês e muitos outros que não me lembro. Mas como não faço lista dos melhores do ano, não preciso completar o registro. Ah, faltou ver Meia Noite em Paris. Medianeiras, fui cheio de expectativas. A Pele Que Habito, passei uma semana pensando no filme. Ainda hoje ele me inquieta. Bem melhor que Má Educação (que não gosto) e Volver. Falta ver As Canções. No teatro, a agenda foi bem falha. Do Festival Latino Americano, vi meia hora de Gatomaquia do Grupo La Cuarta do Uruguai. Do Festival Internacional de Artes Cênicas, mas nacional que inter, nada vi. Mas confiando nos registro feitos no blog Cadernos Grampeados por Celso Júnior alguma coisa devo ter perdido de uma programação que não despertou meu interesse. Assisti Fim de Jogo. Escrevi sobre a encenação aqui no blog. Gostei de ver Remendo Remendó que a moçada de A Outra Companhia de Teatro mostrou no Teatro Vila Velha.

Fiquei feliz com o resultado apresentado pelos estudantes do Módulo II – Interpretação da Escola de Teatro. Fiquei com eles durante dois semestres e a moçada cresceu sensivelmente. O avanço foi visível em Cenas de Família e Um Incômodo. A turma de concluintes mostrou garra e empenho em Tudo é Mentira, longo, mas exuberante. Vi também Grito do Coração, texto em um ato,  homenagem que Harildo Déda, Gideon Rosa, Patrícia Oliveira e Vinícius Martins prestaram ao autor Tennessee Williams (1911-1983), em comemoração aos 100 anos do dramaturgo. Ganhei de presente Mister Paradise edição com peças de um ato de Williams.

 As leituras foram muitas. A quem interessar, recomendo: Nêmesis de Philip Roth, Ilusões Pesadas, de Sacha Sperling,  Borges Oral & Sete Noites, de Jorge Luis Borges. De Jonathan Frazen, Liberdade e As Correções; Avec Grotowski, Peter Brook, A Preparação do Diretor, Anne Bogart. O deslumbrante A Lebre com Olhos de Âmbar de Edmundo de Waal. Agora leio A Beleza Salvará o Mundo, de Tzvetan Todorov, espero concluir antes da virada, aproveitando as férias merecidas. Não consegui terminar a leitura de Odisséia, de Homero, na tradução de Trajano Vieira. A edição bilíngue continua pousada sobre a mesa de cabeceira. A Ausência que Seremos de Héctor Abad, imperdível, tocante. muito outros livros não constam do registro, paciência... Ah, quase esqueço de A Folha Dobrada, de William Maxwell, uma bela história sobre a amizade

O livro Harildo Déda, a Matéria dos Sonhos, escrito por Luiz Marfuz e por mim, foi lançado em novembro. Uma justa homenagem ao ator. Outros merecem. Vejamos: Sônia dos Humildes, João Augusto, Nilda Spencer, os que partiram. Mário Gusmão tem o seu escrito por Jeferson Bacelar

Meu primeiro livro Um Muro no Meio do Caminho? ganhou uma nova e caprichada edição pela Saraiva

Depois de muitos anos, muitos mesmo, reencontro dois amigos, um deles companheiro de infância e que não vejo desde 1974. Trocamos mensagens. O outro conheci em São Paulo por volta de 1975. Diz o poeta, “a vida é a arte do encontro...” ainda que complete: “embora haja tanto desencontro” 

Vi finalmente As Canções, o filme de Coutinho. Tocante como Edifício Master e Jogo de Cena. Árido como Moscou. Todos são belos momentos de cinema. Cinema pra poucos, uma pena. Os filmes não são difíceis, mas não é pra todo mundo. Na sessão das 17:00h do dia 26 seis gatos pingados na sala. Lembrei-me de quando vi Electra de Cacoyannis. Eu devia ter 14 anos quando assisti ao filme no Cine Íris (Feira de Santana). Na sala só havia o professor Divaldo Pitombo e eu. O filme acabou de ser lançado em DVD, revi. Continua poderoso. Adquiri vários dos filmes da Coleção Folha. Alguns são favoritos.

Desde que adquiri Recanto, o novo trabalho de Gal Costa, a minha cantora favorita entre muitas que admiro, faço um esforço para absorver, não a voz nem as letras, mas os arranjos. Eles não me entram confortavelmente pelo ouvido. Não acho que sejam inovadores, pelo contrário, ao pretender novidade revelam certa mesmice. Mas como gosto da intérprete, continuarei ouvindo o CD. Espero mudar de opinião. De qualquer maneira, é louvável a atitude de Gal Costa, prova que ainda há inquietação, os anos de carreira e a fama não mataram certa ebulição que leva o artista a correr riscos. Aplausos! É um disco triste, muito triste. Eu queria um disco menos Caetano e mais Gal. Será que você me entende?

Caso eu me lembre de mais alguma coisa, compartilho com os leitores do blog. Agora é me preparar para fugir da muvuca.

Acrescento mais um mico: o ditador da Venezuela, num momento paranoico, atribuiu à CIA, leia-se governo norteamericano, a onda de câncer que se abateu sobre os governantes da América Latina. Tenho profundo pesar pelos doentes, mas o delírio venezuelano é risível.  É estranho que tantos governantes, ou ex, sejam acometidos da mesma doença, quase ao mesmo tempo, mas daí fazer tal acusação é querer desviar a atenção dos problemas que acometem os países Latinos com com sua "veias aberta.s" A postura anti-imperialista é velha e não leva a nada. Já vimos este filme.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Registro 378: É Natal




Quando criança, eu sempre gostei de ver presépios. Gostava por dois motivos: pelo significado do tema ali retratado e pela forma como cada família se encarregava de organizar a cena. A cada Natal, era sempre uma surpresa. Eu apreciava o jeito como os materiais eram utilizados na construção cenográfica e como as figuras eram dispostas.


Geralmente armados em um dos cantos da sala de visitas, os presépios refletiam a compreensão que cada um tinha da cena, misturando-se as figuras da tradição com objetos do cotidiano, como brinquedos, recortes de revistas, bibelôs e tudo mais que a imaginação do autor desejasse. Os mais tradicionais mantinham-se fiéis aos elementos básicos e terminavam por remeter seus presépios às inúmeras pinturas legadas pelos artistas ao longo do tempo. Confeccionados com papéis pintados imitando pedras tinham sempre na base uma faixa de areia que chamávamos de praia onde se dispunha um espelho como se fosse um lago onde patos nadavam tranquilamente. 

Em casa, ainda que se comemorasse a festa com muito ânimo e rigor, não lembro de presépio armado com frequência, pelo menos durante a minha infância. Mas não posso me esquecer da surpresa proporcionada por meu pai. Eu já beirava os 18 anos, quando nas proximidades do Natal grandes caixa de madeira foram deixadas em casa sem que ele revelasse o seu conteúdo. Logo em seguida me pediu que eu recortasse em papelão algumas montes indicando-me como modelo os morros que víamos do quintal. O morro chamado de Monte Alto, cujo o cimo abrigava uma capela visitada pelos fiéis na Sexta da Paixão, serviria como fonte para a minha empreitada. Intrigado e descontente por não saber o destino de tais recortes pus-me a pintar os recortes, mesmo sem dominar as técnicas do claro-escuro para dar volume ao intento. Em seguida, fui intimado a ajudá-lo a montar em um pequeno palco armado no salão da Grupo Escola Góes Calmon a cenografia para o presépio que ele queria, não para a família e convidados, mas para toda a cidade. Fazendo suspense, só abriu as caixas no dia 23 de dezembro, retirando dela as figuras para dispô-las na cena.

Misturando montes artificiais, pintados toscamente, com plantas e musgos retirados da caatinga, tendo ao fundo um céu azul estrelado o presépio materializou-se no salão sem carteiras e tornou-se uma atração.

Guardo ainda na memória o presépio de dona Elisa, ele tinha como atração uma bela imagem do Deus Menino no Monte, peça antiga, hoje encontrada somente em museus e antiquários. Na casa de um tio armava-se a lapinha no meio da sala, proporcionando ao visitante uma movimentação para apreciar as cenas distribuídas nos diversos planos. Vi outros presépios e cada um deles aguçou a minha percepção para a religiosidade popular, para a arte e, principalmente para o teatro. Aquelas variadas cenas revelavam teatralidade, algo que só compreendi muito mais tarde. Mas não tenho dúvida, as lapinhas educaram a minha sensibilidade e o meu olhar.


sábado, 17 de dezembro de 2011

Registro 377: Aplausos



Sérgio Britto 1923 - 2011

A homenagem se estende a Joãozinho Trinta, o carnavalesco, artista genial. Ele se apropriou do que a avenida tinha de melhor e expandiu sua criatividade. Ainda que desafinado, eu canto para Cesária Évora, a cantante caboverdiana. Sérgio Britto, como os outros dois, deixou-nos um legado. Vi apenas suas direções para Os Filhos de Kennedy e Afinal uma Mulher de Negócios. Seu livro O Teatro & Eu é deslumbrantemente corajoso. O ator não se esconde. 

Êta 17 de dezembro triste!

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Registro 376: Boa palavra


SENTIDOS DO FUNDAMENTALISMO

CONTARDO CALLIGARIS

Eis uma (pequena) contribuição ao debate sobre fundamentalismo que se deu, recentemente, na Folha (artigos de Ives Gandra da Silva Martins, 24/11, e Daniel Sottomaior, 8/12; cartas dos leitores Antônio Ilário Felici e Francisco Guimarães, 9/12; coluna de Hélio Schwartsman, 10/12).

Fundamentalista é, antes de mais nada, quem leva a sério sua convicção e segue à risca os preceitos que derivam dela.

Se você for católico, não se divorciará nem comerá carne na Sexta da Paixão; se for judeu, no sábado, evitará ligar a luz elétrica; se for muçulmano, não tomará álcool e, caso seja mulher, circulará de véu fora de casa; se for ateu, não invocará a misericórdia divina, nem mesmo em momentos de extremo perigo.

Meu pai era convencido de que existem mistérios para os quais qualquer resposta seria desonesta.

Nesse seu agnosticismo, ele era fundamentalista no sentido que acabo de definir. Um dia, quando meu irmão e eu éramos já adultos, ele quis que prometêssemos que, se ele, na agonia, pedisse a assistência de um padre, nós lhe negaríamos esse recurso, considerando que sua sanidade mental teria se perdido no aperto acovardado da última hora.

Prometemos. Por sorte, ele morreu sem pedir conforto religioso algum. Se ele tivesse pedido, não sei se eu teria mantido minha promessa; à diferença dele, eu não sou fundamentalista: decido e escolho segundo as circunstâncias e não por princípio.

Mesmo assim, tenho respeito, se não simpatia, por esse tipo de fundamentalismo. E acho que todos deveriam poder levar (e viver) suas convicções a sério, se assim quiserem -claro, nos limites básicos impostos pelos códigos Penal e Civil, que regem a convivência social.

Mas tenho pressa de chegar ao outro sentido, pelo qual fundamentalista é quem exige que os preceitos que derivam de suas convicções ou de sua fé sejam observados por todos -ou mesmo que eles se transformem em lei da sociedade inteira.

Esse tipo de fundamentalista, seja qual for sua convicção, religiosa ou ateia, é animado pela necessidade de converter os outros, a qualquer custo. Em geral, ele acha que a violência de seu espírito "missionário" é um corolário de sua fé e uma prova de sua generosidade: "Forçando o outro a se converter, eu só quero seu bem, mesmo que seja contra a vontade dele".

Com esse tipo de fundamentalista, eu implico, por duas razões.

Primeiro, detesto que alguém esconda sua violência atrás de pretensas boas intenções e não gosto da ideia de que um outro imagine saber o que é "bom" para mim.

Segundo, não acredito que alguém possa querer converter os outros à força por generosidade.

Há duas razões pelas quais, em regra, alguém quer impor as normas de suas convicções aos outros, e ambas são péssimas:

1) Ele precisa que ao menos os outros respeitem essas normas, que ele preza, mas não consegue impor a si mesmo -ou seja, incapaz de obedecer a seus próprios princípios, ele quer validá-los pela obediência forçada dos outros;

2) Ele quer se livrar da inveja que ele sente da vida dos que não respeitam essas mesmas normas (para assinalar a componente de inveja, presente nos moralistas, Alfred Kinsey, o grande sociólogo e sexólogo, dizia que "ninfômana" e "tarado" são os que conseguem ter uma vida sexual mais intensa do que a da gente).

Em suma, os motores de muitos fundamentalismos missionários são a incapacidade de viver à altura dos preceitos pregados e a inveja de quem não respeita esses preceitos.

Por isso, no debate (ou na gritaria) entre homossexuais e evangélicos, por exemplo, nem preciso decidir se gosto mais de Oscar Wilde ou do apóstolo Paulo.

Pois, bem antes e independentemente disso, a oposição relevante é a seguinte: os homossexuais não pretendem que os evangélicos passem todos a transar com parceiros do mesmo sexo ou a frequentar baladas gays, enquanto os evangélicos pretendem que os homossexuais se convertam e renunciem a seu desejo (transformado em "pecado") - ou, no mínimo, que eles sejam impedidos de viver segundo suas próprias disposições e convicções.

Ou seja, para se situar nessa oposição, não é preciso escolher entre as ideias e as práticas das partes, mas entre os que querem regrar a vida de todos segundo seus preceitos e os que preferem que, nos limites da lei, todos possam pensar e agir como quiserem.

Assim sendo, como se diz na roleta, "façam suas apostas". (Folha de S.Paulo 15.12.2011) Ilustrada

domingo, 11 de dezembro de 2011

Registro 375: Cenas de Família e Um Incômodo

Cenas de Família e Um Incômodo, finalização do semestre 2011.2, Módulo II de Interpretação Teatral da Escola de Teatro da UFBA reuniu seis cenas curtas de peças realista - Pequenos Burgueses, de Máximo Gorki, O Jardim das Cerejeiras, de Anton Tchékov, A Moratória, de Jorge Andrade, Cordel do Amor Sem Fim, de Cláudia Barral, Eles Não Usam Black-tie, de Gianfranceso Guarnieri e No Natal a Gente Vem te Buscar, de Naum Alves de Souza. Peças de uma dramaturgia consagrada, visto que, ao longo do tempo, os textos passaram pela prova do palco sob diversas concepções. Os textos foram escolhidos visando possibilitar aos alunos-atores o contato com os temas tratados pelos autores e, sobretudo, o exercício interpretativo no interior da convenção realista, conteúdo do Módulo, um procedimento que se renova a cada tempo e não se prende ao Realismo histórico, embora se aproxime dele como referência.Objetivou-se com o trabalho mostrar o potencial de cada estudante e como cada um encaminhou seus processos ao abraçar os personagens, de forma a mostrar mais uma vez as suas qualidades de intérpretes. É certo que uma cena diz pouco sobre a totalidade de uma peça, mas ele é reveladora de algo que perpassa o texto como moto contínuo. Nesta reunião de cenas de família, subjaz um incômodo ou vários embaraços: as mesquinharias, a perda de uma propriedade, um pedido de casamento que se desfaz e um desejo não realizado, um filho que trai a sua família e, por conseguinte, a sua classe. Por fim uma família que constrói suas relações sustentada pela hipocrisia. Cenas de Família e Um Incômodo não é uma exercício de encenador, mas uma moldura para evidenciar atrizes e atores em processo de formação. A Mostra esteve em catar na Sala 5 - Escola de Teatro, nos dias 9 e 10 de dezembro. Segue-se alguns registros de cenas.
Raimundo Matos de Leão
Coordenador do Módulo e 
professor de Interpretação e
História do Teatro

Pequenos Burgueses 
Tatiana (Ana Tereza) e Pólia (Enoe Lopes Pontes)

Tatiana (Ana Tereza), Bessemenov (Ronei Silva),
 Akoulina, Mariana Passos)

 Tatiana (Ana Tereza), Piotr (Roy Rogeres),
Akoulina (Mariana Passos)

O Jardim das Cerejeiras
Liuba (Mariana Barbosa), Gaiév (Saulus Castro),
Lopakie (Maxwell Marquez)

Firs (Madyson Cavalcante), Liuba (Mariana Barbosa),
 Gaiév (Saulus Castro)

A Moratória
Helena (Ana Henrique), Marcelo (Augusto Nascimento)

Marcelo (Augusto Nascimento), Helena (Ana Henrique)

Joaquim (Roy Rogeres), Lucília (Carluce Couto)

Cordel do Amor Sem Fim
Teresa (Dany Araújo), José (Madyson Cavalcante), 
Madalena (Evana Jeyssan), Carminha (Lahana Olipa)

Madalena (Evana Jeyssan), Carminha (Lahana Olipa)

Eles não Usam Black-tie
Otávio (Ronei Silva), Romana (Jéssica Menezes)

Maria (Uerla Cardoso), Tião (Saulus Castro)

No Natal a Gente Vem te Buscar
Mãe (Ana Henrique), Solteirona (Gabriela Lucenti)

Solteirona (Gabriela Lucenti), Primo (Maxwell Marquez),
Mãe (Ana Henrique), Pai (Madyson Cavalcante)

sábado, 10 de dezembro de 2011

Registro 374: ESTUPIDEZ

"A Justiça determinou ontem a internação provisória do adolescente que atropelou e matou o desempregado Vaderli Gonçalves. O advogado do garoto, Wagner de Souza, disse à Folha desconhecer a decisão da Justiça. Ele afirma que o menino confundiu o pedal do acelerador com o do freio, razão da tragédia." (Folha de S. Paulo, 10 de dezembro de 2011)

A estupidez, título do registro não se refere ao ato da Justiça. Leia com atenção e veja de quem é a asneira. Um homem é morto por um adolescente de 14 anos que, num ato de irresponsabilidade, sai dirigindo um carro pelas ruas do Campo Limpo, bairro paulistano causando um ato violento e traumático para uma família. O ato não pode ser relativizado. O acontecimento trágico é exemplar. Ele revela o descompasso, algo estranho no interior da família. É muita irresponsabilidade junta. 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Registro:372: Recebi, recolhi. Palavras são sagradas


João Guimarães Rosa diz:
Todo caminho da gente é resvaloso. Mas também, cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta! O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria. Aperta e daí afrouxa. Sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.

Cruz e Souza completa:
O coração que sente vai sozinho,
Arrebatado, sem pavor, sem medo,
Leva dentro de si raro segredo,
Que lhe serve de guia no caminho.

Para arrematar, Fabrício Carpinejar:


MELHOR ASSIM

Não culpo Deus pela caligrafia.
Não se pode escrever bem
E ainda ter a letra bonita.

Não reclamo a estranheza do rosto,
O nariz torto, os olhos caídos.
O que falta em mim, imagino.

Ser feio até que me tranquiliza.
Enquanto os outros se descobrem,
Eu me invento. Não me basto sozinho.
A beleza de minha mulher me perdoa.

sábado, 5 de novembro de 2011

sábado, 29 de outubro de 2011

Registro 370: filme, lembranças, livros e lírios

São precisamente 19:51 desse horário inventado, nada contra. Acabo de retornar do Cine Glauber Rocha onde fui ver Palhaço de Selton Melo. Ecos do passado perpassam o filme, mas não há saudosismo piegas. Sabemos que o circo está morrendo, mas o trabalho do ator-diretor não é réquiem. 

Sutil, delicado e perpassado de humor, o filme prendeu minha atenção. São belos os planos, a ambientação e, sobretudo, o entrosamento do elenco. Cada qual desempenha o seu papel em harmonia com a proposta do diretor e completam a atuação dos protagonistas, Paulo José e Selton Melo. Uma bela trupe de profissionais se encarrega de encher a tela de poesia. Não há pieguice, como não há humor grosseiro, uma tônica destes tempos tão arreganhados e desmedidos. Para completar, o diretor entrega a Moacir Franco (o humorista-cantor), a Jorge Loredo (o Zé Bonitinho) e a Ferrugem (o ex-menino prodígio) pequenos papéis, completando o painel de personagens todos eles cativantes. Ao longo do filme, outras homenagens: uma casa comercial chama-se Aretusa, nome de um circo famoso, o personagem de Selton Melo (Pangaré, o palhaço) tem o nome do famoso palhaço Benjamin Oliveira e o de Paulo José (o palhaço Puro Sangue) denomina-se Valdemar, uma referência a Arrelia (Valdemar Seyssel). Este último eu conheci em São Paulo.  

Lembrei-me dos circos que frequentei na minha infância: o Nerino, o Pavilhão Zé Bezerra, o Circo São Raimundo, onde Maria de Jesus e Ducycleide disputavam a preferência do público masculino. A primeira, de sensualidade recatada, se é que isto existe, era morena de longos cabelos pretos. A outra, despudorada, extravasava sex-appeal de loira oxigenada. Uma delícia vê-las em seus números. Como chamariz de público, a propaganda alimentava a rivalidade entre as duas. Durante a temporada  do circo em Ipirá, Maria de Jesus e outros artistas residiram numa casa perto da minha, mas não tive coragem de me aproximar. Fascinado, eu acompanhava o dia-a-dia daquela gente para mim tão estranha, visto que conseguiam, todas as noites,  elevar-se acima do cotidiano.

Muitas vezes, no final da tarde, quando o palhaço com pernas de pau e megafone percorria as ruas gritando “Hoje tem espetáculo?!”, eu fazia parte do grupo de meninos que respondia: “Tem sim senhor! Por este feito, nós éramos marcados no braço com tinta preta e assim, entrávamos sem pagar na função da noite. O duro era tomar banho sem que a marca desaparecesse. Devo muito do que sou ao circo, a estes artistas que me faziam sonhar em querer ser um deles.

Não vi Palhaços de Federico Fellini, mas tenho a impressão que há no filme de Selton Melo respiros fellinianos.  O olhar maroto do palhaço Pangaré dá lugar ao tristonho de Benjamin, desejoso de alguém ou de alguma coisa que o faça rir. Sua fixação no ventilador torna-se uma metáfora para o sufoco vivido por este palhaço que tenta romper com a sua identidade, mas como um filho pródigo retorna ao pai e à lona.

Na saída, comprei um livro. Borges, oral & sete noites, são aulas que escritor argentino proferiu a convite da Universidade Bolonha. Enquanto esperava o ônibus na Praça Castro Alves, vazia, sob a luz do entardecer, comecei a leitura do primeiro texto curto, O livro. Borges nos diz que “pegar um livro e abri-lo contém a possibilidade do fato estético”.  Borges escreve:  “Em primeiro lugar, mencionarei Montaigne,  que dedica um de seus ensaios ao livro. Nesse ensaio há uma frase memorável: “Não faço nada sem alegria”. Montaigne afirma que o conceito de leitura obrigatória é um falso conceito. Diz que quando encontra uma passagem difícil num livro, deixa-o de lado; porque vê na leitura uma forma de felicidade”. Confesso que não li Montaigne, mas estou a concordar com ele.

Por falar em livros, um deles me levou até o Colégio Antônio Vieira na noite de 26, próximo passado. Fui ao encontro de estudantes do programa de educação de jovens e adultos. Faz tempo não sou acolhido com tanto carinho nem sou ouvido com tanta atenção. Estudantes de 18 a 60 anos, presumo, e professores enchiam o auditório para uma conversa sobre identidade, tolerância/intolerância, inclusão e exclusão, tudo que a razão enlouquecida provoca nos tempos que correm. Eles tinham lido o meu livro Da Costa do Ouro, motivo de minha ida ao Colégio.

Encabulado, porque apresentado pelas professoras com tantos elogios, iniciei a minha fala contando sobre como cheguei ao ato da escrita e de como engendrei o livro que parte de uma acontecimento histórico, a revolta dos Malês, na Bahia do século XIX. O livro narra o encontro de três jovens: Mariana, neta de uma Mãe de Santo, Fortunato, um Malê muçulmano e Richard, filho de uma família de inglesa Protestante.  

A minha fala gerou um diálogo guiado pela razão sábia e tratamos de assuntos relativos ao livro e outros que surgiram no calor da troca. No final, autografei muitos livros e ganhei um belo vaso com lírios, que desde aquela noite abrem seus botões enfeitando a minha casa. Mais alguns dias eles estarão murchos. Ó impermanência! Aceito-a. Os lírios passarão, mas o seu significado permanecerá, lembrando-me do encontro, até que eu salte para fora do círculo do tempo.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Registro 369: A ausência que seremos


Muitos livros foram escritos tendo como figura central o pai. Lembro-me de Carta a meu pai de Kafka,  e de como este livro terrível me marcou. Recordo-me de a Ilha de Arturo, de Elza Morandi, que se não tem o pai como personagem central, mostra-o como uma figura de suma importância na formação de Arturo. A figura paterna assoma nos livros de Dostoievski e em tantas obras que nos mostram de maneira positiva ou negativa de que maneira o pai se mostra para a família, sobretudo para os filhos. Acabo de ler um livro inesquecível, cujo título nos inquieta: A ausência que seremos.

O título são versos atribuídos a Jorge Luis Borges que foram encontrados no bolso do médico sanitarista e defensor dos Direitos Humanos Héctor Abad Gómez, assassinado na Colômbia na década de 80. Quem escreve é seu filho Héctor Abad, que nos oferece a intimidade de sua memória para contar em primeiro plano a sua relação com este pai, que parece não existir de tão grandioso que é. Mas não se trata de hagiologia, e sim do retrato de um homem que soube colocar no mesmo plano o seu amor pela família, em especial pelo filho, e o dever para com os humilhados e ofendidos do seu país, sendo este último o motivo de seu assassinato.

Vale à pena conferir o livro de Héctor Abad e mergulhar fundo em suas páginas. Primeiro, porque seremos tocados pelo encantamento que este pai biografado provoca em seu filho criança. E o que salta destas páginas é o amor incondicional e envolvente marcando a infância do autor admirador da figura heróica, afetiva e calorosa do pai. Ao mesmo tempo, acompanhamos os conflitos vividos pelo adolescente, que se vê sufocado por esta figura superprotetora que não esconde seu afeto distribuído em grandes doses entre a esposa, as seis filhas e o filho querido. Por fim, veremos o adulto que se depara com um pai combatente, interessado, herói e mártir.

Nos registros do filho, os sentimentos são rememorados, e por eles nós percebemos as marcas do afeto guiando-lhe os passos, fazendo-o  crescer. Vemos também o estrago que a violência perpetrada pelos paramilitares acobertados pelas autoridades colombianas trouxe à família e ao país, visto que  Abad Gómez não foi o único assassinado naquele período penumbroso da história da Colômbia.  No concerto de vozes (mulher, filhas, amigos e inimigos)  orquestrado por Héctor Abad, surge o retrato de um médico humanista em toda a sua complexidade. Sua história contada por alguém tão íntimo nos comove, pois não é um discurso panfletário nem sectário, mas o retrato de uma vida civilizada em meio à barbárie que acometeu e acomete a América Latina com suas veias abertas, seus barroquismos, suas mazelas e suas loucas esperanças.  Memória e história a nos envolver.

Algumas horas dedicadas  ao livro A ausência que seremos nos fazem entrar em contato com a narrativa salvadora de um passado nos termos de Walter Benjamin. As preocupações do pensador judeu-alemão sobre o ato de contar história, sua serventia e importância, soam nas páginas do livro de Héctor Abad. A narrativa adiada por muito tempo, por conta da violência que se abateu sobre sua família, é prova cabal da afasia, ou seja, a impossibilidade de narrar. Mas o tempo decorrido entre os acontecimentos e o ato rememorativo é demonstração de que o narrador destravou-se. A escrita surge plena, pois o conteúdo recalcado retorna iluminado pela necessidade salvadora. A palavra que corporifica a narrativa assume então  a dimensão da constituição do sujeito. Portanto, não há mais silêncio, nem esquecimento.

As lutas encetadas pelo sujeito na tentativa de não deixar o passado esquecido nos leva a pensar na importância da reminiscência,  para que se possa, de certa maneira, vencer a morte. Nada se perde, se assim queremos.  O ato de lembrar, tão presente na história e na literatura, cuida para que nada nos escape. (GAGNEBIN, 2004) Ao urdir a trama de sua narrativa, Abad fala de sua experiência após um tempo em que, mudo, não conseguiu dar corpo à narrativa que nos dá.  Assim, vencendo o trauma ou livrando-se dele pelo ato rememorador, o autor compartilha conosco os vestígios deixados por seu pai. Emerge da guerra suja da Colômbia um sujeito que não emudece e faz valer as suas referências e de sua coletividade. A ausência que seremos é denúncia, mas é, sobretudo, a demonstração da grandeza do amor voltado para o individuo e para a coletividade.

REFERÊNCIAS

ABAS, Héctor. A ausência que seremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
GAGNEBIN, Jeanne Marie. História e narração em Walter Benjamin. São Paulo: Perspectiva, 2004.