quarta-feira, 24 de março de 2010

Registro 300: Um professor que me ensinou a gostar de História

Uma lágrima para o professor. Fui seu aluno quando cursei a Licenciatura em História na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas - UFBA, turma de 1970. Um inesquecível mestre
ISTVÁN JANCSÓ



ESTÊVÃO BERTONI

Ao lado do bibliófilo José Mindlin, István Jancsó foi vencendo aos poucos a "burrocracia", como conta sua filha Virgínia, para tornar real a doação da biblioteca do empresário à USP e, assim, dar vida ao projeto Brasiliana.
Professor de história formado pela USP em 1963, István era um húngaro de sotaque baiano -"oxente" era frequente em seu vocabulário.
Com os pais, chegou ao Brasil aos nove, fugindo da guerra.
Após se formar, mudou-se para a Bahia como professor.
Nessa época, aprendeu os segredos da culinária local com o amigo João Ubaldo Ribeiro.
Durante a ditadura, foi preso, torturado -perdeu parte da audição- e se exilou. Na França, deu aulas, mas voltou ao Brasil. Foi trabalhar numa indústria, mantendo o sonho de retornar à universidade.
Atualmente, era professor titular do IEB (Instituto de Estudos Brasileiros), da USP, e coordenador do Brasiliana, cujo prédio está sendo erguido. Nele, será possível pesquisar o maior acervo de livros e documentos sobre o Brasil.
À filha o pai dizia que cuidaria mais da saúde. Sua vida era toda dedicada à USP, conta o professor Pedro Puntoni.
Em 2007, ele intermediou a saída dos estudantes que haviam ocupado o prédio da reitoria. Assim explicou a atitude: "Sou professor, tinha que estar perto dos meus alunos".
Ontem, devido a um câncer, ele morreu aos 71 -23 dias após Mindlin. Deixa viúva, dois filhos e duas netas. O velório foi ontem, na Beneficência Portuguesa, de onde saiu aplaudido para o crematório.


Publicado na edição de 24 de março de 2010, Folha de S. Paulo

quinta-feira, 11 de março de 2010

quarta-feira, 3 de março de 2010

Registro 298: Liberdade antes que seja tarde

O governo conservador e ditatorial de Ahmadinejad prendeu o cineasta Jafar Panahi, que fez o belo O Círculo. Afirmam as autoridades que a prisão não é política. Mais uma mentira autoritária!
Liberdade para os presos políticos cubanos!
Que os filhos sequestrados pela ditadura argentina encontrem seus pais, como Francisco Madariaga encontrou o seu depois de 32 anos!
Que os parentes dos mortos do Araguaia possam saber da verdade sobre o paradeiro de cada um.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Registro 297: O ovo da serpente


O debate é interessante e vale a pena ler os textos que retirei do jornal Folha de S. Paulo, edição de 18 de fevereiro, 2010. Quando o controle é demasiado o pensamento se estreita ou vice-versa. Viver sob a censura é cair nas trevas. Sem essa de Grande Irmão! A qualidade da programação da produção artística e sua veiculação não passa pelo controle. Sem essa de pensamento único. Os dois articulistas levantam a lebre e é preciso que o debate se dê democraticamente. Dá arrepios pensar que o Sr. Marco Aurélio Garcia faz parte da equipe da ministra presidenciável Dilma Roussef.

Esterco, go home!
MARCOS AUGUSTO GONÇALVES
EDITOR DE OPINIÃO

Não há dúvida de que a indústria cultural desempenhou seu papel na ascensão dos Estados Unidos a potência mundial durante o século 20. Cinema, música, história em quadrinhos, pipoca e hambúrguer também foram artífices da "hegemonia" norte-americana.
Mas, se é tolice tentar negar a existência de laços entre cultura e poder, aproxima-se da burrice traduzir essa relação nos termos estreitos e datados do esquerdismo latino-americano, esquemático e antiamericanista, ainda professado, ao que parece, pelo assessor presidencial Marco Aurélio Garcia.
No discurso do sábio palaciano não há lugar para dialética e sutilezas. Tudo se move segundo o maniqueísmo pueril e ao mesmo tempo brutal do marxismo vulgar.
O culpado pelo atraso histórico do continente é o êxito dos americanos. O mal é o imperialismo ianque, que exerce sobre nós seu "processo de dominação". Algo assim: Rambo enfia o cano de sua metralhadora na orelha do Jeca Tatu e o obriga a dançar um rock.
O que emerge da conversa de Garcia é uma concepção estanque de culturas nacionais, que deveriam ser protegidas por muralhas para não se deixarem conspurcar pelo esterco alheio. Esterco, go home!
Parece não ocorrer ao nosso Policarpo Quaresma do Planalto que a cultura norte-americana, aliás de maneira análoga à brasileira, é em grande medida caudatária da europeia e forjou-se num complexo e rico processo de interação e entrechoques de nacionalidades e etnias -no qual, aliás, teve relevância a contribuição africana.
Sem os negros não haveria o jazz, aquela música perigosa que Hollywood adotou e ajudou a difundir pelo mundo.
E o que fez o jazz em seu "processo de dominação" sobre a cultura brasileira? Acabou com o nosso glorioso samba? Ora, Pixinguinha já era jazz. E a bossa nova, que terminou virando marca e orgulho nacional, não existiria sem a dialética do samba com o esterco jazzístico ianque. Oswald de Andrade, que também teve seu sarampo stalinista, já havia apontado: não precisamos ter medo, não somos indefesos, somos antropófagos.
Mas talvez Garcia, lembrando Sebá, o último exilado brasileiro (tipo criado em outros tempos por Jô Soares), ainda considere Tom Jobim e João Gilberto agentes infiltrados da CIA que queriam sabotar nossa autêntica música popular.
O problema das ideias expostas pelo professor é que, estando ele no poder e raciocinando como homem de Estado, indicam a hipótese sombria do autoritarismo. Não apenas ao modo tragicômico de Hugo Chávez, mas ainda pior. Ou como deveríamos entender a saudosa menção aos valores do finado socialismo real?
Concordaria o ilustre conselheiro, por exemplo, com o governo chinês, que exerce censura até sobre a internet? Aliás, por que Garcia está tão preocupado com a restrita TV a cabo?

Com medo da liberdade
LUIZ FERNANDO CARVALHO
ESPECIAL PARA A FOLHA

Ao ler as declarações de Marco Aurélio Garcia, lembrei da anedota que circulava na falecida República Democrática Alemã. Sabendo que toda correspondência seria lida por censores, um operário que conseguiu emprego na Sibéria combina com os amigos: "Vamos criar um código. Se uma carta estiver escrita em tinta azul, o que ela diz é verdade; se estiver escrita em vermelho, tudo é mentira".

Um mês depois, os amigos recebem uma carta escrita em azul, que diz: "Tudo aqui é maravilhoso, o comércio vive cheio, a comida é abundante, os lares aquecidos, os cinemas exibem filmes do Ocidente, há uma atmosfera de liberdade e justiça social por toda parte. O único senão é que não se consegue encontrar tinta vermelha".

A menção à inexistência da tinta mostra que a carta deveria ter sido escrita em vermelho. Isso produz o efeito da verdade: era a única forma de transmitir a mensagem verdadeira naquela condição de censura.

Pegando carona na anedota, podemos dizer que a "tinta" usada nas declarações do professor -"processo de dominação"- são termos que maquiam nossa percepção da situação em vez de nos permitir pensá-la, servem para mascarar e manter nossa precariedade audiovisual mais profunda.

A libertação evocada por Garcia transforma-se na melhor de todas as salvaguardas contra a liberdade: "A esquerda precisa reagir à difusão de valores capitalistas", diz. Em que a TV a cabo incomoda este governo? Assiste quem paga, e o assinante tem o livre-arbítrio de cancelar sua assinatura. Questões mais urgentes nas telecomunicações, como os desdobramentos dos canais digitais das TVs, seguem esquecidas em alguma gaveta do Planalto.

A TV a cabo representa uma elite de cerca de 5%, enquanto a maioria da população é arrastada pelos conteúdos [alguns até mais nocivos que os estrangeiros] das TVs abertas, que se abstêm de abraçar uma função maior: a formação de cidadãos, e não só de fiéis consumidores.

Mas isto pouco importa ao assessor, seu negócio é o controle do imaginário brasileiro via TVs a cabo, quem diria. É preciso olhar o mundo. Proibir, não. Nossa TV por assinatura nasceu sob influência de um modelo monopolista da TV aberta e da importação de produtos culturais dos grandes "players" do cenário internacional. Para alterar a restrição dos 49% no máximo de participação estrangeira nas concessões de TV, é necessário mudar a lei que as regula.

A não ser que Garcia considere que, diante da crescente monopolização das TVs pagas, monopólio por monopólio, o de Estado seja melhor. Mas o assessor escolheu virar suas baterias contra os ideais democráticos, tentando restringir o livre fluxo da informação, como acontece nos regimes totalitários, onde o primeiro inimigo passa a ser a imprensa livre.

Essa mesma imprensa foi quem revelou ao país seus verdadeiros pensamentos ao flagrar seu gesto obsceno [o top-top do Fradinho, do Henfil], captado por uma câmera "indiscreta", espalhando sua chocante reação debochada às primeiras investigações sobre o trágico acidente com o avião da TAM. Em vez de trabalhar para o aprimoramento da indústria cultural brasileira, Garcia opta pelo mais fácil: o cerceamento.

Ataca uma indústria ainda em formação, que nasceu tardiamente no Brasil nos anos 70 e se constituiu como mercado efetivo somente a partir dos 90. Hoje, as TVs por assinatura, que estão se revigorando através de leis de incentivo à produção nacional, deixaram de ser meras repetidoras de conteúdo estrangeiro e começam a gerar empregos para profissionais do audiovisual, trazendo inovação de fora e de dentro.

Debulhando todo o seu conteúdo, é evidente, avista-se muita produção duvidosa, mas se colhe também o que de melhor está sendo produzido no mundo da TV.

Comparar a influência em termos de dominação cultural da TV a cabo à ameaça militar da 4ª Frota americana é no mínimo uma piada [e velha], uma atitude anacrônica de uma esquerda já tão antiquada e sectária que nos faz lembrar os métodos do general Quandt de Oliveira, ministro das Comunicações [1974-79] do governo ditatorial do general Geisel, que preconizava a estatização das TVs e o cerceamento da exibição de produção estrangeira, num momento em que a Europa se preparava para privatizar suas TVs e McLuhan já tinha formulado o conceito de "aldeia global".

Ideias obtusas como as proclamadas por Garcia e a insistência em manter o isolamento eletrônico para melhor manipular e dominar -como em Cuba, Venezuela e China- é o mesmo que proibir a publicação de autores estrangeiros. Como diz o filósofo Slavoj Zizek: com esta esquerda, quem precisa de direita?

Caberá ao governo decretar o que é "esterco cultural"? Cercear a exibição de conteúdos, numa era de transmídia, é uma medida isolacionista, que não gera troca de ideias nem de ideais. É estar na contramão da cultura e do que acontece no mundo. Fico com Bernard Shaw: "Liberdade significa responsabilidade, é por isso que tanta gente tem medo dela".

LUIZ FERNANDO CARVALHO, 49, é cineasta e diretor de TV. Dirigiu "Lavoura Arcaica", "Hoje É Dia de Maria" e "Capitu", entre outros.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Registro 296:Dança em meio ao xixi... Ano que vem tem mais

Quem é obrigado a sair para fazer outra coisa que não seja se arrastar atrás de trios-elétricos turbinados deveria sair com máscara, não de carnaval que caiu em desuso, mas aquela para proteger o nariz, tal o fedor de mijo que se espalha pelo ar e por todos os cantos. Um horror!
E o povão, cultivando sua imensa ignorância, segue satisfeito no maior regozijo, com suas besteiras e vulgaridades. Mas isso não é mérito do povão. No topo da pirâmide e na espremida classe média esse é o comportamento cultivado. O Carnaval é uma vitrine para a exibição da vulgaridade. A loira da UNIBAN taí pra não deixar ninguém mentir.
Estamos muito mal musicalmente: a música considerada como a melhor do Carnaval baiano é Rebolation. Um indigência musical!
Deu no maior jornal da cidade que Ivete Sangalo se reinventa a cada ano. Só na cabeça de jornalista puxa saco! Ivete pode ser considerada uma animadora em cima do trio e boa cantora, mas é a mesmice ambulante. Todo ano a mesma coisa, muda só a fantasia, mas dentro do mesmo padrão.
O modelo do Carnaval tá fazendo água, só não vê quem não quer! Os cantores passam o tempo todo fazendo discurso de frase feita, comandando o bloco com palavras de ordem repetitivas e gastas, babando o ovo da imprensa e dos colegas de profissão atrasando o ritmo do desfile.
Durval Lélis já sinalizou a solução para o Carnaval. Que tal um axezódromo para o desfile e a cidade aberta para quem quiser sair e brincar?! O Rio de Janeiro está mostrando a saída.
As cenas de violência vistas pela TV são de assustar.
A beleza dos blocos negros a gente não vê. A televisão não tem interesse em mostrá-los.
Foi (é) bacana ter Moraes Moreira retornando. Mas gostaria de saber: ele e os trios independentes conseguiram desfilar num bom horário, conseguiram tocar em entre dois trios que se atropelam impedindo que se curta os sons de cada uma um?
Ah, quem vai no bloco só se anima diante das câmeras de TV. De resto se arrastam. Atrás dos trios-independes não vai ninguém. Fica uma vazio. Por que? A música é ótima, o repertório animado, mas o folião não se anima... Triste Carnaval.
A ti tocou-te a máquina mercante [...]
Tanto négocio e tanto negociante...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Registro 295: Revista Cena

Caso tenha interesse, segue o endereço eletrônico da Revista Cena, do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas - Instituto de Artes - Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tenho uma artigo publicado na revista: A Casa de Eros e Dionísio: um projeto de ensino e encenação

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Registro 294: É carnaval no gueto

Aqui em Salvador já é Carnaval. Amplia-se o caos já instalado desde janeiro quando começaram os trabalhos para a montagem do megalómano gueto. Sim, um gueto. A cidade que em décadas passadas, bem lá pra trás se enfeitava e se abria convidativa para todos, agora divide e demarca sues espaços só para alguns. O folião mesmo fica na beiradas, come por fora as sobras que caem da festa negócio. E como negócio sempre houve em qualquer festa e no Carnaval mais ainda, é melhor esclarecer meu ponto de vista. Na festa carnavalesca, desde o entrudo, o negócio sempre esteve presente, mas havia nos carnavais passados algo inegociável. Nesse espaço transitava o cidadão/folião que não precisava comprar a alegria nem o espaço para brincar na festa da carne, das parte baixas, do desregramento, da desmedida, do descontrole. Agora, tudo é controlado. E quem não tem grana, fica a ver navios, chupa o dedo e conforma-se, visto que as leis do mercado tomaram conta da folia baiana. E são essas leis que mandam, controlam, organizam, delimitam.
Comecemos pela decoração. As ruas viraram uma grande mostruário de marcas, a dos patrocinadores. Essa é a decoração. A iluminação é aquela para aumentar a vigilância, ainda bem. Com tanto dinheiro, o amigo do alheio vai pra rua com a finalidade de ganhar o seu na marra. Não há mais os enfeites de luzes coloridas no trajeto dos brincantes. Os delicados arabescos nos transportavam para fora do cotidiano da luz branca e o colorido da luzes enchiam os olhos de cores. Agora temos a iluminação vigiar e punir ou a iluminação para favorecer à maquinaria da televisão.
Da mesma forma, relegou-se ao passado a decoração temática, obra de artistas (não de marqueteiros), que por concurso ganhavam o direito de enfeitar as ruas. Ruas que se abriam para qualquer folião que quisesse enfrentar os três dias de folia. Agora são sete. Os empresários do Carnaval decidiram nos escritórios em conluio com o poder público essa mudança, esticando a festa para ganhar mais uns trocados.
A cidade parece uma praça de guerra. Imensos e contínuos tapumes enfeiam tudo em nome da proteção. Antes, a cidade se abria para os anônimos e para os famosos. Os últimos vinham por querer conhecer a festa ou para revivê-la, e não para faturar um cachê. A participação de famosos, emergentes e estabelecidos, tornou-se um vício na festa do Carnaval da Bahia. Eles chegam com seu contrato debaixo do braço, circulam, sorriem, dizem frase óbvias e como a maior partes deles é peixe fora d'água, soltam barbaridades em frente as câmeras. E tome palavras de ordem amplificadas em decibéis. Num tempo não tão distante, os famosos vinham para cair na gandaia e se esbaldavam sem a preocupação com o visual, nem com os sorrisos de ocasião.
É esse Carnaval de ponta-cabeça que nos enfiam goela abaixo, com seus shows pasteurizados em cima dos atuais trios-elétricos, que de trios só tem o nome. Quem deveria cantar e animar, passa a maior parte do tempo numa arenga feito político de segunda, que fala muito e não diz nada. É esse o Carnaval "guetificado", dividido, excludente. O Carnaval do camarote. O Carnaval bacana dos sorrisos para as câmeras, e somente para elas. A festa da obviedade, discoteca vertical. Alguns poderão argumentar que o povo gosta. Eu contraponho: nem tudo o que o povo gosta é bom. Além disso, não há outra opção. Se houver me diga. A indústria do carnaval martela sua propaganda e nos vemos todos levados por esse canto de sereia. Fugir dele é difícil. Vão-se os dias de um trio elétrico que arrastava gente pobre e gente rica.
Ao perguntar aos mais próximos se estavam preparados para o carnaval, ouvia sempre a mesma resposta: "Como, se um abadá custa os olhos da cara?!" Eu argumentava: e por que não pular sem abadá? Silêncio. Daí, eu concluir: comprar um abadá dá destaque, você deixa de ser massa. passa a ser diferenciado. Estar sem abadá significa que você pode ser confundido com povão e ninguém quer ser comparado aos miseráveis.
Esse texto parece escrito por um antifolião. Engana-se o leitor. Trago na alma o folião que é filho de Rei Momo, que desde criança fez a festa vendo o pai se transformar em Rei Momo numa pequena cidade do interior. Mas como não há mais espaço para esse folião, festejarei meu Carnaval de outro modo. Tenho por certo que tudo se transforma, para pior ou para melhor, esse é o ritmo da vida. Então, vamos esperar a transformação, sabendo que ele será artificial, porque gestada por uma minoria que vai impor outro modelo de Carnaval, quando o atual não render o que os empresários desejam lucrar. É só dar tempo ao tempo.
Durante a folia, eu vou mergulhar nos livros, cozinhar, ler os blogs que estão registrados no Cenadiária, ver filmes, dormir e sonhar com outros carnavais. Como estou prisioneiro em minha casa, já que parte do dia não posso sair de carro, tentarei abstrair. Na hora em que der vontade, irei ver o que acontece. Assim, poderei tomar pé do reinado do Momo Pepeu Gomes, mais rei da guitarra que nobre de folia, embora tenha nos embalado com sua música durante outras festas.
Por falar em ler, ontem, por extrema necessidade, procurei Introdução Filosofia da Arte, de Benedito Nunes e outro título que gostaria de ler durante essa semana atípica, Vão-se os Dias e Eu Fico,de Edson Nery da Fonseca. Não encontrei nenhum deles. O de Nery é lançamento recente, o de Nunes é uma velho conhecido perdido entre mudanças e doações de livros. Nas quatro grandes livrarias da cidade, poucas para uma capital do porte de Salvador, o leitor (pesquisador ou não) depara-se com um cenário de baixa oferta. Tem uma livraria que se denomina Mega Store, mega somente no nome. Mas vamos deixar prá lá. Até quarta-feira de cinzas...

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Registro 293: Nine

Os críticos torcem o nariz, o público americano não foi conferir e até agora as premiações ignoraram Nine. Eu gostei muito. Assisti com prazer. Ainda que tivesse na retina-memória as imagens instigantes de 8 1/2 de Felini, não fiquei comparando os filmes. As atrizes estão ótimas, cantam dança e representam, um clichê quando se quer falar da capacidade dos intérpretes americanos, embora o elenco estelar não seja de americanos. E ver Sofia Loren em forma é de fazer a gente gritar no escurinho do cinema, que estava vazio. O que para mim é ótimo. Não gosto de cinema cheio. Como sempre, Daniel Day-Lewis dá conta do recado.
Preparo-me para ver Invictus. Um chato da Folha de S. Paulo meteu o malho. Diz que o filme é previsível. Melodramático! Não acredito,mas vou conferir. Ah, não esquecer Preciosa.
Na minha lista de 2009 não inclui Proposta para um Tempo de Paz, de Daniel Filho. Aqui em Salvador queimaram o filme, da mesma forma como queimara Katin a poderosa denúncia de Andrei Wajda. Vi na TV, paga. A aberta é um lixo! A outra ainda possibilita que possamos ver coisas que as redes de cinema abortam.



quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Registro 292: Homenagem a Zilda Arns e ao povo do Haiti

O Nobel da Paz brasileiro

ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - Zilda Arns foi o que todas nós, ou muitas de nós, gostaríamos de ser ou de ter sido: uma mulher de infinita dedicação às suas crianças, à sua gente, ao seu país e ao seu mundo.
Ela morreu como viveu: chacoalhando em desconfortáveis jipes militares, aos 75 anos, numa guerra contra a pobreza, a sujeira, a ignorância. A favor da vida. Morreu para que tantos outros vivessem no pequeno Haiti, o mais miserável país da América Latina, quase um encrave da África pobre na região.
Médica, especializada em educação física e pediatria, coordenadora da Pastoral da Criança da CNBB, Zilda foi indicada três vezes pelo Brasil para o Prêmio Nobel da Paz.
Merecia, e seria uma honra para cada um de nós. Mas ela não era só brasileira, era do mundo.
Suas soluções simples, baratas e enormemente eficazes cruzaram fronteiras e foram salvar vidas em 15, 20 países pobres da América Latina e da África. Coisas assim como lavar as mãos, tomar banho, aproveitar os alimentos até o último detalhe. Quem não leu sobre macerar cascas de ovos para adicionar cálcio à alimentação de pobres? Quem não sabe da mistura caseira para salvar crianças de desnutrição e desidratação?
Sua história e seus ideais se confundem com os de um ícone mundial, que foi Madre Tereza de Calcutá. Mas Zilda não era freira, não usava hábito e dedicou sua vida à vida alheia, mantendo-se bonita, vaidosa, imensamente feminina. Não interpretou um papel. Era apenas ela mesma em ação.
Se Zilda Arns tivesse morrido de uma doença qualquer, de um acidente qualquer, mesmo assim sua morte teria imensa repercussão e geraria uma tristeza nacional. Quis o destino, ou a sua saga, que ela morresse no Haiti, num terremoto.
Torna-se, portanto, uma personagem única, cercado por símbolos e exemplos que deixam marcas, rastros. Zilda, definitivamente, não passou pela vida em vão.

O texto publicado no jornal Folha de S. Paulo (14.01.2009) merece a nossa atenção.
Rezemos pelo Haiti, pensemos no Haiti. Ajudemos o Haiti.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Registro 291: Notícias do ano que passou

Não farei a lista do melhores do ano. Elas são sempre falsas, mas registro acontecimentos que vivi em 2009. Tais acontecimentos ficam como momentos de intensa magia. E os registros estão guiados somente pela subjetividade, de outra forma não seria, visto que não pretendo estabelecer nenhum juízo de valor. Quero apenas o registro daquilo que ficou em mim como um elo emocional, afetivo

Conclui mais um livro e enviei para algumas editoras. Espero que um delas aceite Dias de Busca e Um Achado. Meus livro publicados, Primavera Pop!, Braçoabraço, Da Costa do Ouro, De Cara Para o Futuro, Bacanas e Famosos no Caderno de Autógrafos e Um Grilo no Pedaço, continuam vendendo, espero que sejam lidos.

Em maio, lancei Transas na Cena em Transe: teatro e contracultura na Bahia (EDUFBA). De vez em quando alguém faz um elogio ao trabalho. Fico contente... O teatro baiano (1966-1974) e seus artistas proporcionaram o material necessário para a feitura do livro.

Assisti aos ótimos filmes Canções De Amor, Bem Vindo, Crônica de Natal, Bastardos Inglórios, À Deriva. No teatro apreciei A Canoa, Deciembre, Caso Sério, A Última Sessão de Teatro, Noite de Reis, Pinóquio.

Li alguns livros: Indignação de Philip Roth, Seleção Natural de Otávio Frias Filho, Estilo Tardio de Edward Said, Bendito Maldito, uma biografia de Plínio Marcos por Oswaldo Mendes, Estátua de Sal (2008) de Albert Memmi, e muitos outros... Reli livros de Fanny Abramovich e recebi de Cecília da Silveira Luedemann Carrapicho. A jovem escritora foi minha aluna no Scholem Aleicham

A biografia de Plínio Marcos, eu ainda não terminei, mas o livro é muito bem escrito embora tenha algumas informações incorretas sobre a atuação de Alberto D'Aversa na Bahia, mas isso não diminui o valor do livro. Pronto, lá vou eu fazendo apreciação.

Aguarda na mesa de cabeceira o livro de Cláudio Magris Às Cegas. O livro vai ter que esperar, já que tenho pela frente uma empreitada que merece a minha dedicação e meu empenho.

Além disso, acompanhei com bastante interesse os blogs de Daniel Pizza, Luiz Carlos Merten, Zanin e Celso Júnior.

Espantei com a situação do Centro Histórico de Salvador quando acompanhei uma amiga paulistana interessada no Barroco. Torci pelos artistas baianos, principalmente os companheiros de ofício. Espero dias melhores...

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Registro 290: Estado laico

Vale a pena ler em A Tarde de hoje, 18 de dezembro, 2009, o artigo de Luiz Mott Estado Laico. O antropólogo vai na mosca e deixa uma alerta. Transcrevo um trecho: "Merece aplauso o poder público ao negar privilégio aos estudantes religiosos que recusam fazer provas do Enem no sábado. Devem ser multados ou caçado o alvará dos templos que desrespeitam o sagrado direito de repouso do cidadão, cujo sono é prejudicado pelos ruídos infernais de liturgias e alto-falantes. O sábado foi criado para o homem e não o homem para o sábado, disse Jesus."

domingo, 13 de dezembro de 2009

Registro 289: 13 de dezembro

Hoje, 13 de dezembro, é dia de Santa Luzia, a padroeira dos que não veem a luz. A festa é celebrada em Salvador na igreja dedicada a ela, uma belo conjunto arquitetônico que vive uma processo de restaura arrastado sem que se saiba até quando se concluirá. Os órgãos encarregados de cuidar do patrimônio de pedra e cal devem saber.
O conjunto fica situado numa área degrada da Cidade Baixa, nada convidativa para uma visita, mas no dia 13, os fiéis vão pegar a água da fonte dita milagrosa. Gosto da santa por essa simbologia ligada ao ver e a sua incapacidade. Embora se possa ver de muitas maneira: a linguagem dos sinais está aí para que os privados da visão possam ver.
Dia 13 de dezembro é também a data de aniversário do malfadado e miserável e estúpido Ato Institucional Número 5 editado pelo governo civil-militar em 1968. Não lembro de ter ouvido sua proclamação já que no horário em que a notícia foi dada em cadeia nacional, eu devia estar ensaiando Biedermann, e Os Incendiários, texto de Max Frisch sob a direção de Alberto D' Áversa na Escola de Teatro da UFBA. Mas lembro-me bem dos seus efeito deletérios sobre a vida de todos nós.
Dentre seus efeitos, o que atingiu a minha categoria, a dos artistas, a maior foi a censura. Se é que posso dizer maior, já que o AI5 castrava toda possibilidade de manifestação de quqluer categoria. Mas a censura ao teatro, ao cinema, as artes plásticas e a literatura foi grandemente danosa. A Segunda Bienal de Artes Plástica da Bahia, aberta no Convento da Lapa foi fechada e muitas obras retiradas a partir da sanha proibitiva do governo. O passando nos olha dizendo que devemos ficar atentos, como aquela canção de que diz a mesma coisa.
Após 24 anos anos da queda do regime militar, depois da redemocratização e da Constituição que se fez depois da Abertura e nos rege, eis que o Supremo Tribunal Federal nos joga no túnel do tempo e nos deixa assombrados ao manter a censura ao jornal O Estado de S. Paulo. E para isso seis ministros usam de firulas, mantendo-se aferrados a princípios que ferem a Constituição cujo artigo 220, diz que "é vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica ou artística", tudo isso para esconder-proteger a família Sarney, sem que se possa acompanhar o andamento das investigações.
Aproveito para citar mensagem enviada ao Estado pelo professor Plácido Z. Táboas. Diz o texto: "A frase 'se é inviolável a honra e a intimidade, é preciso que isso tenha alguma consequência' não seria mais apropriada para o caso do caseiro Francelino Costa? Provavelmente o mesmo ministro não a tenha proferido naquela ocasião porque então se julgava a violação do sigilo bancário de uma pessoa comum, perpetrada por essas pessoas incomuns. Nenhum Poder da República se salva...' (O Estado de São Paulo, 13 de dezembro de 2009, p.A 2)
O desprezo pela Constituição abre perigoso precedente. E como não sabemos o que se arma nos corredores do Poder, somos levados a terríveis fantasias ou não? Espero que o fantasma da ditadura, seja ela de direita ou de esquerda, não se apresente no horizonte do país.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Registro 296: Espanto!

Ontem (04.12.2009), dia da padroeira das tempestades, de calor intenso e muita luminosidade, deparo-me na edição de A Tarde com uma carta em defesa da Marcha da Maconha. Nada contra. Marcha-se por tanta coisa, umas até indefensáveis! Outra nem tanto.
O meu espanto não é fruto nem da Marcha nem da carta. Mas através dela fico sabendo que o sociólogo Renato Cinco estabelece uma relação entre a repressão ao tráfico como sendo uma questão abolicionista, ou melhor antiabolicionista, visto que para ele, os perseguidos, pessoas ligadas ao tráfico, são "negros" e "pobres". Por serem negros e pobres são vítimas do preconceito e a perseguição se dá por essa condição. Penso ser uma distorção. Não me parece que o tráfico esteja associado a essa ou aquela etnia nem é uma questão de classe.
Se a contravenção está instalada nas regiões onde se encontram moradores de baixa renda, não podemos sair em defesa da criminalidade por conta da pobreza e de serem negros o contrataventores. O tráfico também se instala em outras camadas da sociedade e o problema deve ser atacado do ponto de vista da criminalidade, seja ela conduzida por qualquer pessoa. Não sendo assim, instala-se a barbárie! O que se persegue não são negros e pobres, assim me parece, mas contraventores, "comerciantes" ilegais de drogas, algumas delas mortais. E essa ação não fica circunscrita ao ciclo de venda e consumo, não necessariamente nessa ordem. O comércio ilegal na mão de brancos ou negros, leva a um ciclo de horror derivado da violência gerada por esse ambiente.
O posicionamento do sociólogo escamoteia, desvia e tenta criar uma falácia. Depois, quando se diz que a sociologia serve para tudo e não serve para nada, desperta-se o furor dos sociólogos de plantão. Mas teses estapafúrdias como estas causam espanto e são perigosas. Não creio que a luta para vencer o preconceito e incluir passe por essa ótica. Não creio que tal tese amplie a discussão sobre a legalização das drogas, assunto complexo que não deve ser discutido por esse viés. Essa visão idealizada do povo não faz avançar as suas questões nem contribui para o processo transformador. A que ponto nós chegamos!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Registro 295: Corajoso posicionamento

Meu nome é dirigismo, e escreve-se na pedra!

Gideon Rosa

Ator e jornalista

A classe artística pode e deve imediatamente reagir a declaração (jornal A TARDE, 27.11.2009, pág. A-8, editoria de Salvador) arrogante e cínica do diretor do Teatro Castro Alves quando, para tentar justificar a ausência de inscrições para os editais do Núcleo do TCA, disse: “Meu questionamento a isso tudo é que talvez essa propalada crise na cultura esteja acontecendo dentro do cerne (sic) dos criadores. Mas vamos relançar o edital do tema livre ainda em dezembro em data a ser anunciada até o fim da semana que vem... no caso de novamente não haver inscritos com documentação em ordem minha posição é de que não haja uma terceira tentativa... “

Os stanilistas remanescentes – no Brasil e no mundo – devem estar todos com os pelos eriçados. Jamais, em tempo em algum, foram tão competentes quantos esses gestores da cultura baiana: eles possuem talento inigualável para mentir, distorcer, manipular, cooptar, coagir pela força do vil metal e, principalmente, enriquecer aproveitando as brechas da legislação, mantendo a cara de humildade.

Qualquer gestor com uma vírgula de humildade iria desejar investigar as razões pelas quais os artistas baianos não quiseram se inscrever nos editais do Núcleo do TCA. Se assim o fizesse, iria descobrir que a razão pela qual os artistas se afastaram – àqueles que ainda possuem brios e respeito pelo seu ofício – é pelo simples fato de não desejarem se submeter ao atual grau de dirigismo do processo criativo embutido nos editais. Os editais estão atualmente configurados de modo nocivo à produção artística, e, claro, ao processo criativo. Os editais são – todos, indistintamente, não importa a unidade, se na Funceb, se no Irdeb, se no TCA, em qualquer campo – um emaranhado manual de como os artistas devem manejar seu processo criativo. Isso é uma afronta inaceitável para quem se respeita!

Aí então, àqueles que ainda possuem algum discernimento se recusam a concorrer a um prêmio de R$ 200 mil para uma montagem (menos o desconto linear de 20%), cujo edital estipula um número mínimo e máximo de atores, o que configura uma descarada ideologia de reparação social através da arte. Além disso, exige-se um piso salarial de R$ 2.500,00 (para atores) e técnicos (variadas faixas) durante três meses. Mas esquecem de fazer as contas. Quem é o artista que, antes de começar, conhece todas as démarches do processo criativo? Ainda não nasceu quem o soubesse. Um processo criativo pode durar um mês, 14 ensaios, 40 ensaios, não há parâmetro; só as necessidades do trabalho vão determinando isso.

Para agravar, os editais exigem que os ganhadores ministrem uma série de oficinas tão idiotas que o coitado passará mais tempo elaborando as oficinas (se for honesto, claro) que não terá tempo de pensar artisticamente em sua própria montagem. Sem falar que as parcelas não são pagas no tempo devido, mas as despesas de produção não esperam, e a prova disso é que a última produção do Núcleo do TCA (Jeremias...) teve um final melancólico: dívidas, brigas internas, inadimplência, troca de elenco etc.

Mas os editais da Funarte, Caixa Cultural, Petrobrás e outros que existem por aí têm salvo parcialmente a situação. A vitória dos artistas baianos nesses editais externos comprova, com clareza, que os artistas baianos não estão em crise criativa. A crise é, verdadeiramente, de gestão, de ausência de um plano para as artes, como confessou publicamente o próprio secretário, muito embora a grande mídia não tenha registrado essa frase emblemática. Em resumo, são esses editais externos que permitem que se dê uma pequena volta por cima dessa perseguição implacável aos artistas implementada pelos atuais gestores da cultura baiana. São eles que têm mantido a dignidade mínima da produção artística da Bahia. Poderia ser mais, mas a arrogância resolveu colocar tudo no mesmo balaio e o resultado é uma confusão da qual nem eles próprios conseguirão mais sair.

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Publico o texto do ator Gideon Rosa, pois trata-se de um pensamento corajoso a respeito de uma questão que não pode ser deixada de lado. Se a culpa está na política cultural do atual governo, refletindo-se em uma edital que não desperta interesse entre os artistas de teatro, é necessário que os mandatários revejam sua postura. Ainda que estejam nos cargos para se colocarem na defesa de uma proposta político-partidária, que repensem suas ações à luz do bom senso, visto que tal projeto vem se mostrando ineficaz. Que as palavras de Gideon Rosa se propague, não como assunto de fofoca, mas como um alerta para todos os artistas e principalmente para aqueles que estão no poder. Poder passageiro, diga-se de passagem! A vingança não é a melhor atitude.

sábado, 28 de novembro de 2009

Registro 294: A última sessão de teatro


Pensei encontrar uma excitação exagerada no hall de entrada do Teatro Vila Velha, aquela estereotipada atitude em dia de estreia, quando a classe teatral se reúne: veteranos, novatos, aspirantes, muitos desejosos de estar no palco, o que é natural. Os famosos, os que se acham famosos, os colunáveis, os amigos dos artistas, os familiares, todos num enxame que, por vezes, parece que o espetáculo é na plateia, não no palco. Mas não foi essa a atmosfera que vi e senti ontem à noite. O Teatro Vila Velha de saudosa arquitetura, agora no seu modelo atual, de múltiplas possibilidades, abrigava um numeroso público sem estardalhaço.

Os convidados foram chegando e se reunindo à espera de A Última Sessão de Teatro, o espetáculo-homenagem que Luiz Marfuz criou e Selma Santos produziu para comemorar os 70 anos do ator, professor e diretor Harildo Déda. Boa parte da plateia era de ex-alunos, companheiros de palco, amigos, familiares, mas se não me engana a memória, dei por falta de muita gente.
Perdoa-se a não presença daqueles que já se foram, pois alí não podiam estar. Talvez numa sessão espírita!
Sem muita certeza, posso dizer que a energia de alguns estava presente: João Augusto, Sônia dos Humildes, Alberto D'Aversa, Margarida Ribeiro, Álvaro Guimarães, João Gama e tantos outros que estiveram presentes em momentos diversos da vida de artista de Harildo Déda.
Da mesma forma, senti a falta de depoimento dos companheiros da "antiga" no programa.

Depois do inevitável merchadise e do aviso de como se comportar, houve uma longa pausa. Necessária para nos preparar para a finalidade da noite. Um silêncio grave e pesado tomou conta da sala. De repente soaram os três sinais. Soaram como se de longe, de muito longe dos tempos. Por que não substituí-los pelas pancadas de Molière? Por fim, a luz banhou o elegante, sóbrio e apropriado espaço criado por Rodrigo Frota, jovem cenógrafo que se afirma no palco, com bastante sensibilidade para o ofício. Os adamascados que usa para criar o ambiente remetem ao palco, palco histórico. Os poucos móveis completam a cena, cujo piso de madeira prensada e de cor natural reflete a luz clareando os tons escuros dos tecidos. Três áreas para a representação: um palco que avança, uma área sob uma cobertura e resguardada por uma cortina. Acima dela, uma balaustrada. Não fosse o ator uma apaixonado por Shakespeare seria apenas uma coincidência. Ocorre-me agora ser tal opção, uma citação? Mas isso não tem importância. Ficar decifrando códigos durante a apreciação é não se envolver com a essência da representação.
Criada a moldura, instalada a atmosfera pela habilidade do diretor, eis que entra em cena o ator, o personagem, o ator-personagem? O jogo inicial é o do teatro dentro do teatro. E logo sabemos que o ator-personagem já não consegue se lembrar dos textos. A memória falha. E é sobre isso que ele fala, mas fala, sobretudo dos significados do teatro. E nos pergunta, e a si mesmo, se o teatro ainda significa alguma coisa. A ironia de tudo: o ator é conhecido por HD, mas sua memória falha e ele abandona o teatro quando da temporada de Rasga Coração, o monumental e controverso texto que Oduvaldo Vianna Filho nos legou do leito do hospital. Não há aqui a pretensão de analisar o embate geracional que o talentoso autor traz em seu texto, mas informar que ele vai servir, em A Última Sessão de Teatro, para ilustrar de maneira muito apropriada a temática que Luiz Marfuz escreveu para Harildo Déda.
No desenrolar do enredo, mais um texto agrega-se ao tema da peça - a relação de um velho ator com um jovem desejoso de se tornar ator tal qual seu ídolo. Fato que acontece quando HD, depois de muito relutar, passa a lhe ensinar o ofício. O texto seguinte, Eles Não Usam Black-tie de Gianfrancesco Guarnieri, serve de contraponto, da mesma forma que Rasga Coração, somando-se a uma situação conflitante da peça de Marfuz. No dia do teste para o papel de Lucas na montagem de Rasga Coração, retorno de HD aos palcos, o jovem Luiz Fernando mente, justificando o seu atraso. Sua mentira convence o mestre e ele ganha o papel. Ao ser descoberto é expulso da casa por HD e por sua companheira, Olga. Nos textos de Guarnieri e Vianinha, um pai bate-se com um filho; duas gerações, com pensamentos diversos entram em conflito. Nas duas peças, apesar do afeto que une os dois, o filho é expulso de casa. De forma engenhosa, sem grandes malabarismos, Marfuz arma a sua trama e expõe de maneira muito viva os três momentos, costurando-os de forma bastante segura. Esse mecanismo torna seu texto abrangente, ele pode falar a outra faixa de público, aquela que não é do meio teatral, já que o seu texto está permeado de referências somente conhecidas para quem é do métier ou conhece Harildo Déda.
Antes de introduzir os dois textos consagrados da dramaturgia nacional, Marfuz insere na cena o "inventor do humano", fazendo HD interpretar monólogos retirados de peças de Shakespeare, autor que ele usa também para ensinar Luiz Fernando a dizer um texto. Para quem conhece as habilidades do ator-professor com o universo do bardo, fica em nós a vontade de vê-lo em cena interpretando as monumentais criações de Shakespeare. Ao dizer o monólogo de Lear, o intérprete deixa ver o que pode fazer com o papel. Fosse noutra praça, o nosso primeiro ator, teria condições de fazer o Rei Lear na totalidade, ou Próspero de A Tempestade.
Esclarecido o embuste, recurso que Luiz Fernando usou para ganhar o papel, tanto HD quanto Olga acolhem o jovem, que vê a sua chance chegar. No final de A Última Sessão de Teatro, diferentemente dos personagens Lucas e Tião, das peças citadas, Luiz Fernando se integra ao núcleo "familiar" e passa a fazer parte da família do teatro, unindo-se ao elenco da montagem de Rasga Coração, sem antes ouvir reprimendas do mestre. A relação mestre e discípulo se completa.
O espetáculo se ergue sem pirotecnia por parte do diretor. Marfuz está a serviço de uma ideia e do seu intérprete, Harildo Déda. Sem descuidar de Neide Moura (Olga) e revelando Fernando Santana, ator com futuro promissor, o diretor arma a cena de maneira que os personagens apareçam e os atores possam mostrar a competência necessária para comunicar-lhes ao público. É certo que o foco é HD, e seu intérprete sabe tirar partido desse personagem tão próximo dele. De maneira irônica, ele expõe seus cacoetes e nos convence de que não é ele quem está em cena. Esse jogo torna o espetáculo uma demonstração de sua metamorfose. Mas todo tempo, é como se ele piscasse nos enganando. Hypokrités.
Na estréia, contando com a cumplicidade da plateia, Déda não se deixou levar por esse sentimento, mas soube tirar partido da situação e nos envolveu sedutoramente. Tanto nas passagens realistas da peça, quanto nos momentos de reflexão, parênteses que se abrem ao longo do drama, ele se utiliza do cabedal que a vida no palco e na sala de aula lhe deram. Atinge nos monólogos uma qualidade interpretativa invejavel para qualquer ator que queira estar no palco com a segurança que ele tem. Nesses momentos, o ator utiliza e domina os recursos vocais e corporais para nuançar as palavras que brotam de uma compreensão que tem do texto. A palavra compreendida soa clara e precisa, pois dita pelo domínio da técnica, sem o artificialismo teatralista, mas reveladora da teatralidade. Essa compreensão do que é estar no palco, essa outra realidade, Harildo Déda mostra sem pomposidade e divide a cena com seus companheiros. Gostaria de têlo ouvido completar as canções que em dois momento entoa. O mágico e inesperado momento em que começa a cantar Over the Rainbow é interrompido sem que a cena se complete. Uma pena! O fugaz momento em que canta um trecho de Zumbi (Guarnieri, Boal, Edu Lobo) poderia se concluir. Déda tem recursos de cantor para exibi-los, como já o fez na montagem de Zumbi (1966) sob a direção de Álvaro Guimarães e na Companhia das Índias (Nelson de Araújo, Orlando Senna), em 1968, quando cantava à capela Ol Man River.
Neide Moura, tem nas mãos o personagem mais ingrato. No jargão e na tradição do teatro, é escada para o protagonista. Por isso, Olga não lhe dá possibilidade de grandes vôos, mas a atriz corresponde ao que lhe é dado, marca com sua presença a cena. Na silenciosa Romana de Black-tie demonstra qualidades de atriz presentes em toda a sua atuação.
Fernando Santana como Luiz Fernando, o jovem ator que se posta diante da casa de HD para ser atendido e realizar seu desejo, é uma grata supresa. Infunde verdade ao personagem, usa bem a sua bela voz e não se intimida diante dos atores experimentados com quem contracena. Uma boa promessa.
A iluminação de Walter Santos e Luiz Marfuz é bem concebida, necessitando de pequenos ajustes. Toda produção revela cuidado e profissionalismo.
Ao fim de tudo, fica-se com a certeza de que o teatro já não é uma recomendação médica como o foi na Grécia, nem mais uma cerimônia que unia a pólis. Ainda assim, consegue tocar de meneira indelével aos que se aproximam dele: os que trazem inpune a marca de Dioniso ou os querem comungar com os oficiantes de um rito já desencantado que nos arrasta quando é pleno nas suas constituintes.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Registro 293: Texto de Fernando de Barros e Silva

O texto de autoria de Fernando de Barros e Silva é exemplar, porque expõe de forma direta e clara o obscurantismo da universidade que expulsa a aluna e avaliza, em nome de princípios pedagógicos, a barbárie. A que ponto nós chegamos?! As justificativas atestam a perversidade de uma instituição que deveria cuidar da formação de estudantes, futuros profissionais e quiçá dirigentes da nação. No entanto, o que ela faz contradiz os princípios que regem o universo da educação. Fascistas! É o que se pode dizer deles. Fosse eu pai de uma filha pediria sua transferência imediata.

Os linchadores da Unib
A notícia da expulsão de Geisy Arruda pela Uniban é estarrecedora. O informe divulgado ontem pela direção da universidade, por meio do qual a aluna ficou sabendo da decisão, é um panfleto obscurantista que requer análise. Ele transforma a incitação ao estupro de uma jovem acossada na universidade por algumas centenas de marmanjos em "reação coletiva de defesa do ambiente escolar".

Eis o que conclui a "sindicância" da Uniban: "Foi constatado que a atitude provocativa da aluna buscou chamar a atenção para si por conta de gestos e modos de se expressar, o que resultou numa reação coletiva de defesa do ambiente escolar". Geisy, diz a nota, ensejou "de forma explícita os apelos dos alunos" e foi expulsa por "flagrante desrespeito aos princípios éticos, à dignidade acadêmica e à moralidade". O título do informe agrega ao conteúdo um toque de humor negro: "A educação se faz com atitude e não com complacência".
De que educação falam esses farsantes? Devemos chamar essa fábrica de açougueiros de instituição de ensino? Que princípio ético ou dignidade acadêmica podem sobreviver a uma escola que pune a vítima humilhada para respaldar a brutalidade e a covardia de uma turba excitada com a própria fúria?
Como se sentirão agora as garotas que estudam na Uniban? Estarão os rapazes liberados pela direção a agir sempre assim em defesa do "ambiente escolar"?
As cenas são conhecidas: "Pu-ta!, pu-ta!", "vamos estuprar!", "solta ela, professor!". Um aluno chutou a maçaneta da porta da sala em que a moça estava encurralada; outros tentaram colocar o celular entre suas pernas para fotografá-la.
A Uniban invoca um zelo pedagógico que não tem para satisfazer a vontade fascista da maioria e preservar os negócios. Com sua decisão, ela deu chancela institucional aos atos de barbárie praticados em suas dependências. Mais do que isso: ao linchar Geisy, a universidade consuma o serviço que os alunos haviam deixado pela metade.
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Folha de São Paulo, edição de 9 de novembro de 2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Regsitro 292: Lá se foi Anselmo Duarte

Lembro-me bem quando vi o filme de Anselmo Duarte, O Pagador de Promessas, exibido no Cine Madrid em Feira de Santana, Bahia. Conhecia o ator dos filmes da Atlântida, exibidos no Cine Teatro Cliper, de propriedade de meu pai, na cidade de Ipirá.
Ver O Pagador de Promessas foi (é) uma experiência marcante. A atmosfera do filme, as interpretações, a forma como o cineasta capta Salvador e seu arredores, o desenvolvimento do roteiro e a estrutura narrativa clássica prenderam a atenção do garoto que aos 12 anos tinha o cinema como a sua maior diversão. Era o meu brinquedo preferido, capturado que fui desde os seis anos, quando era levado às matinês no cinema onde passei parte de minha infância.
Anos mais tarde, me dei conta da polêmica desencadeada pelos cineastas ligados ao ciclo que ficou conhecido como Cinema Novo, críticos contundentes do filme. Consideravam a obra esquemática, acadêmica, conservadora nas suas constituintes. Não aceitavam o fato do filme ter recebido a Palma de Ouro no Festival de Cannes (1962). Por falar em premiação, a lista de láureas concedidas ao filme O Pagador de Promessas, aos seus atores e técnicos é imensa. Para quem se interessar em conferir, indico o ótimo Dicionário de Filmes Brasileiros de autoria de Antônio Leão da Silva Neto (não é meu parente).
No tempo da minha adolescência, eu não me interessava por essa querela, ainda hoje não sei se isso me interessa. O que importava é que o mesmo impacto causado em mim pelo filme de Anselmo Duarte, foi o mesmo causado por Barravento (1961), Porto das Caixas (1962), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), Vidas Secas (1963), entre outros expoentes da cinematografia tupinquim. É certo que ao longo daquele tempo, fui percebendo as diferenças que regiam a gramática dos diretores que se opunham ao filme de Anselmo Duarte, mas isso não mudou em nenhum momento a força de comunicação do seu filme em mim.
Revi O Pagador de Promessas inúmeras vezes. Em todas elas, constatei a presença dessa qualidade que torna alguns filmes memoráveis. Mesmo com outros olhos, os já cansados de tantas imagens e tantas estéticas, pude retirar da obra um leitura renovada, um aspecto não percebido, um detalhe perdido. Em meio a tudo isso, a força da primeira impressão a pulsar diante das cenas revisitadas.
O adolescente ensimesmado que residia na mesma rua do Cine Madrid, não imaginava que um dia estaria em um set de filmagem juntamente com Anselmo Duarte e fazendo um personagem que era marido da personagem de Ilka Soares. Tal acontecimento, devo a Djalma Limongi Batista, que me escolheu para o pequeno papel em seu longa Brasa Adormecida (1986). Filmado em uma belíssima fazenda no interior de São Paulo, o longa reunia um elenco numeroso e Anselmo Duarte marcava com sua experiência e passado o filme e, com histórias, os longos e às vezes entediantes intervalos das filmagens. Enquanto eu ouvia seus casos, lembrava-me do Cine Teatro Cliper onde vi Tico-Tico no Fubá, Absolutamente Certo e outros filmes que a memória não dá conta.
Fui espectador de Vereda da Salvação, o belo filme que fez depois do sucesso de O Pagador de Promessas. Rejeitado pelo público, raramente é exibido. Quem sabe agora, depois de sua morte, façam uma retrospectiva dos seus trabalhos como ator e diretor. Vê-lo em O Caso dos Irmãos Naves de Luiz Sérgio Person, é tomar conhecimento de uma ator com possibilidades interpretativas que não se restrigem ao trabalho do galã que foi.
Aplausos para Anselmo Duarte.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Registro:291: Não deixe de ler

O texto de João Pereira Coutinho foi publicado em A Folha de S. Paulo, edição de 3 de novembro de 2009. Leia. Vale a pena.

Temor e tremor

JOÃO PEREIRA COUTINHO

ALMOÇO COM um colega de trabalho no centro de Lisboa. Subitamente, o celular dele dá sinais de vida. Ele atende. Reparo que fica pálido. Levanta-se, grita pelo celular um "já-estou-a-caminho" que me faz levantar também e sai do restaurante. Pago a conta, entro no carro com ele. Temo o pior: um familiar atropelado, sequestrado, assassinado.
Falso alarme: o filho, uma criança com sete anos, apresentou sintomas de febre no colégio. E dores de cabeça. E alguns vômitos. As salas de aula foram imediatamente evacuadas, e a criança, aterrorizada com os procedimentos, foi isolada em compartimento à parte, onde só se entra com máscaras e, imagino, uma daquelas vestimentas que os astronautas usam na superfície lunar. "A professora suspeita de gripe A", diz-me ele, com a voz rouca, a ameaçar pranto.
Chegamos ao colégio, ele sai do carro, corre para a sala em que está o filho. Antes de entrar no leprosário, entregam-lhe uma máscara. Ele põe a máscara, agarra a criança -que, entretanto, adormeceu de tanto chorar- e a leva para o carro. Mas pergunta primeiro: "João, preferes ir de táxi para não haver perigo de contágio?".
É nesses momentos que uma pessoa relembra os pensamentos estoicos de Marco Aurélio e responde: "Não é preciso. Eu vou sobreviver".
A criança dorme. O pai, ainda de máscara, ameaça não dormir nas próximas noites. E eu, sem máscara (mas com a úlcera dilatada), medito em silêncio respeitoso. Por que motivo o mundo enlouqueceu à minha volta?
A resposta é mais sinistra do que imaginam. Todos os anos, a gripe sazonal ataca com ferocidade. O vírus, que potencia outras complicações de saúde, mata meio milhão de pessoas no mundo inteiro. Um verdadeiro massacre que, estranhamente, não faz manchetes nos jornais como a gripe A. Motivos?
A resposta mais evidente seria dizer que a gripe A é incomparavelmente mais mortífera do que a gripe sazonal que nos visita todos os anos.
Infelizmente, a resposta estaria errada: a julgar pelo número de vítimas no hemisfério Sul, onde o inverno já veio e já foi, as vítimas da gripe A foram bastante inferiores às vítimas anuais da gripe sazonal.
Só na Austrália, informa a edição corrente da revista "The Atlantic", morreram mil pessoas. Todos os anos, morrem na Austrália 3.000 com a gripe normal.
Se assim é, repito, como explicar a histeria?
Com uma única palavra: juventude. Afirmei que a gripe sazonal mata meio milhão de pessoas todos os anos. Mas essas 500 mil almas são, na esmagadora maioria dos casos, velhos e, é claro, doentes crônicos, tudo gente que não entra na contabilidade midiática. Velhos e doentes são, por assim dizer, "dispensáveis".
A gripe A altera o cenário ao atacar e, por vezes, matar gente saudável e jovem. As preocupações médicas são compreensíveis e respeitáveis: uma pandemia de gripe A seria dramática. Mas a histeria global é sobretudo ideológica, não médica: ela explica-se pelo simples fato de a gripe A não respeitar a "saúde" e a "juventude", os dois únicos deuses que o mundo moderno respeita e louva com verdadeiro fervor pagão.
Se a gripe A se limitasse ao seu trabalho habitual, ceifando apenas velhos e doentes, não haveria um espirro nos jornais. E a criança? A criança sobreviveu.
Desde logo porque não era gripe, muito menos a temível A. "Provavelmente foi uma virose", disse-me o pai, dias depois, aliviado. Sorri. "Virose" é a palavra favorita dos médicos para explicarem o que não conseguem explicar. Mas depois acrescentou: "Seja como for, vou vacinar a família inteira contra a gripe A. Nunca se sabe".
Precisamente: nunca se sabe. A frase, aliás, resume o estado da arte sobre o assunto. No referido número da revista "The Atlantic", alguns especialistas mundiais levantaram dúvidas sobre a eficácia da vacinação. Um exemplo: em 2004, houve uma quebra de 40% na produção da vacina. Paradoxalmente, o índice de mortalidade desse ano ficou rigorosamente na mesma.
Pior: em 1989, apenas 15% da população americana e canadense acima dos 65 anos optava pela vacina; hoje, a percentagem subiu para os 65%. Paradoxalmente, o número de mortos também subiu.
Preferi não falar mais sobre o assunto. Ainda a recuperar do primeiro susto, talvez o meu colega não se recuperasse de um segundo. E para quê? Se a vacina traz segurança, ou uma ilusão de segurança, a verdade será sempre um luxo a que não nos podemos permitir.

sábado, 31 de outubro de 2009

Registro 290: Biblioteca Osmar Rodrigues Cruz

O Instituto Osmar Rodrigues Cruz, uma iniciativa de sua filha, a professora Maria Eugênia Rodrigues Cruz, companheira de elenco na montagem de A Falecida dirigida por Osmar para o Teatro Popular do Sesi, coloca na rede a Biblioteca Virtual Osmar Rodrigues Cruz, com o objetivo de divulgar o acervo de milhares de livros sobre teatro que o diretor organizou ao longo de sua vida.
Através do portal, em fase de testes, os interessado terão acesso aos livros e revistas que serão digitalizados. Tal iniciativa deve ser apoiada por todos, pois significa um passo no sentido de tornar público uma biblioteca particular contendo obras raras, de grande importância para os pesquisadores e estudiosos do teatro. Somente os amigos mais íntimos de Osmar Rodrigues Cruz tiveram contato com a biblioteca, agora aos cuidados de Maria Eugênia. Mas iniciativa abre essa possibilidade para muitos. O gesto de Maria Eugênia mostra a compreensão que ela tem desse acervo e da necessidade de socializá-lo, visto que o meio encontrado para sua divulgação tende a se expandir permitindo o acesso a todos.
Ao registrar esse acontecimento, sinto-me honrado pelo convite feito por Maria Eugênia, para que eu participasse da diretoria do Instituto.
Para quem quiser visitar o portal é só acessar o endereço abaixo.