domingo, 5 de julho de 2009

Registro 276: Barroco Popular

A exposição virtual Barroco Popular é resultado das minhas vivências e inquietações diante da cultura, fonte de onde retiro o material necessário para poetizar o que sinto. Os quadros apresentados traduzem ideias e sentimentos, retomando um trabalho interrompido desde a mostra coletiva Similitudes, no Centro Cultural Maria Antônia – São Paulo, em 1997, quando expôs trabalhos juntamente com Cláudio Barros, Mônica Colucci e Stela Maris Sanmartin. Os quadros da exposição Barroco Popular estiveram expostos no portal Diário, desativado recentemente, sem que recebesse aviso da Geocities.
Ao revisitar o barroco, evocando-o através da conjugação dos elementos que remetem a esse estilo tão presente no cotidiano brasileiro, busco expressar a capacidade de olhar e decompor em formas as mínimas porções que retenho dessa exuberância extravagante que povoa tetos e paredes de igrejas, solares e palácios em nossas mais antigas cidades, numa leitura sumamente particular.
Essas informações visuais aparecem conjugadas aos elementos florais do chitão, tecido popular no Brasil, utilizado com parcimônia na indumentária, mas de grande emprego na decoração. A opulência de formas e cores contidas nos tecidos remete também ao profuso das formas do barroco português, que aqui chegou para se tornar um traço da nossa identidade artístico-cultural.
Nos trabalhos apresentados, faço a releitura desse momento, instante em que se dá o encontro da criatividade européia com a inventividade dos primeiros artesãos encarregados de decorar as construções públicas e privados da colônia. Ao inserir os elementos da natureza tropical – flora e fauna – esses artistas imprimem uma marca nacional ao barroco. Sobre esse acontecimento carregado de intencionalidade, Ana Mae Barbosa esclarece ter sido o barroco o “primeiro produto cultural do país”, e que, embora fortemente marcado pelo modelo estrangeiro, foi “transformado pela força popular e pela criatividade nativa, conquistando características próprias”. Barroco Popular procura retomar esse instante, não como ele de fato se deu, mas como construção no presente.
Ao organizar, conjugar e sobrepor os elementos visuais para compor a escritura pictórica, utilizo-me da técnica mista sobre tela e mostro trabalhos, via Internet. Ao escolher a net. para veicular trabalho, vou ao encontro dos que pensam as relações entre arte e tecnologia, experimentando as possibilidades. Sobre a inserção na rede e o uso da tecnologia digital no trabalho artístico, Dulcimira Capisani enfatiza a necessidade do artista não se tornar “um mero fornecedor de conteúdos no universo altamente especializado das novas tecnologias”, mas fazer dessa ferramenta um lugar de experimentação como no domínio da prática artística. Quando a exposição no portal Diário, eu apresentava os originais com interferência produzida a partir de ferramentas do computador. Por esse motivo a exposição intitulava-se Barroco Popular - Verso e Reverso, visto que as interferências alteravam as cores originais. Deixei de lado essa opção para concentrar-me nos quadros como eles foram concebidos.
Na perspectiva benjaminiana, a disseminação pela rede impulsiona a reprodutibilidade e a circulação do trabalho, criando um elo "comunicacional" em grande escala.

Azulejos e flores I, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60. Acervo do artista

Fragmento, 2006, Mista sobre tela. 70 x 70. Acervo do artista

Celeste, 2006. Mista sobre tela, 60 x 60. Acervo do artista

Altar floral I, 205. Mista sobre tela, 60 x 70cm. Acervo particular

Azul, 2005. Mista sobre tela 70x70cm. Acervo particular

Êxtase, 2007. Mista sobre tela, 80 x 80 cm. Acervo do artista

Sem título III, Mista sobre tela, 2005, 60 x 60. Acervo particular

Azulejos e flores, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60 cm. Acervo particular

Altar floral, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60cm. Acervo do artista

Sem título I, 2005. Mista sobre tela, 50 x 80. Acervo particular

Jardim II, 2004, díptico. Mista sobre tela, 50 x 110cm. Acervo particular

Jardim I, 2006. Mista sobre tela, 40 x 88cm. Acervo particular

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Registro 275: Revista MIMUS

Para ter acesso ao primeiro e futuros números da Mimus, revista on-line de mímica corporal dramática, de acesso gratuito, basta clicar no endereço abaixo:



Registro 274; Entrevista

Em 6 de maio fui entrevistado por Oscar D'Ambrósio; caso tenha interesse em ouvir o bate-papo, basta clicar no endereço abaixo. A minha entrevista é a de número 106. Na conversa, conto um pouco sobre o meu envolvimento com a literatura, com o teatro e com a vida. Outros entrevistados constam da expressiva relação, certamente você encontrará alguns de sua preferência.

domingo, 14 de junho de 2009

Registro 273: Cacilda, * 1921 + 1969


Cacilda Becker em Maria Stuart

Quando da morte de Cacilda Becker em 14 de junho de 1969, distante de nós quarenta anos, o poeta primeiro escreveu o belo poema transcrito aqui, uma homenagem que presto a esse mito do teatro brasileiro. Não vi Cacilda Becker em cena, conheço apenas Floradas na Serra o filme que vez com Jardel Filho, mas convivi com espectadores de seu trabalho. A opinião de todos era unânime: Cacilda iluminava a cena em qualquer peça, em qualquer personagem e mesmo quando não se saía bem era inesquecível. Recomendo a leitura de dois livros fundamentais para compreender esse "monstro de teatro", Uma Atriz: Cacilda Becker, de Nanci Fernandes e Maria Thereza Vargas (São Paulo: Perspectiva, 1984) e Cacilda Becker: fúria santa, de Luís André do Prado (São Paulo: Geração Editorial, 2002)


ATRIZ
A morte emendou a gramática.

Morreram Cacilda Becker.
Não era uma só. Era tantas.
professorinha pobre de Piraçununga
Cleópatra e Antígona
Maria Stuart
Mary Tyrone
Marta de Albee
Margarida Gautiher e Alma Winemiller
Hannah Jelkes a solteirona
a velha senhora Clara Zahanassian
adorável Júlia
outras muitas, modernas e futuras
irreveladas.
Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
e um mendigo esperando infinitamente Godot.
Era principalmente a voz de martelo sensível
martelando e doendo e descascando
a casca podre da vida
para mostrar o miolo de sombra
a verdade de cada um nos mitos cênicos.
Era uma pessoa e era um teatro.
Morreram mil Cacildas em Cacilda.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 11 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009

domingo, 31 de maio de 2009

Registro 269: Relato de uma semana que se finda

A semana que se finda foi movimentada. Fazer um relato sobre ela é dar conta de coisas que acontecem e que me põe em movimento ou não. Depende do que rola ou do meu jeito de encarar cada situação. Mas vamos num giro sobre a semana soteroplitana.
O clima em Salvador continua ameno e isso, pra mim, é uma benção. Pena que as chuvas desabriguem tantos com tão pouco. Não suporto o calor, uma coisa nada civilizada. Caso me pergunte por que eu estou em Salvador, terra de tanto calor, digo que tem coisas por aqui de que gosto muito. Mas não gosto dessa tal de "baianidade", tema de uma mesa coordenada pelo professor e ator e diretor Celso Júnior. A tal mesa aconteceu no V ENECULT, evento que discute a cultura. No seu blog Cadernos Grampeados, Celso faz um reflexão sobre cultura ou falta dela, baianidade e arte. Vale uma olhada. Você pode não gostar, mas tem humor por lá e muita seriedade no que ele pensa.
Também participei de uma mesa coordenada pela professora Antônia Pereira (PPGAC - UFBA), juntamente com as professoras Cássia Lopes e Cleise Mendes também do referido programa. Fui bendito entre as mulheres. Nosso tema era corpo e teatralidade na contracultura. Foi uma boa mostra e sinaliza para o tema - contracultura - que a meu ver é sempre olhado de esgueira, como aquela onda desbundada. Diante do que vejo por aí, fecho com o desbunde. A sala estava cheia, pena que não pudemos debater entre nós nem com os participantes. E olha que cumprimos o tempo destinado a cada comunicação. Ás vezes me ocorre que tais encontros, importantíssimos, são pensados para a ser assim mesmo: sem tempo.
Conheci a diretora Fran Teixeira, cearense de boa cepa, artista talentosa. Quem viu O Cantil que ela trouxe para o FIAC - Bahia (2008), sabe do que falo. A dramaturgia, direção e produção do espetáculo sob sua responsabilidade anima o espectador que anda reticente com o teatro. Eu ando assim. Por isso não saio de casa pra ver qualquer coisa. O Cantil uma leitura muito precisa de A Exceção e a Regra de Bertolt Brecht é inesquecível. Por falar em teatro bom, gostei de ver Alegria de Viver de Déborah Moreira e George Mascarenhas. Transitando pelo mito de Pigmalião, cruzando-o com o universo de Matisse, os dois artistas tocam nossos corações. Digo por mim que saí do teatro com vontade de fazer teatro. A vontade passou, mas não o desejo de voltar e ver novamente a criação desse dois sensíveis intérpretes. Eles lidam muito bem com a Mímica Corporal Dramática.
Na quinta-feira, 28, ainda como parte do ENECULT, houve lançamento de livros editados pela Edufba, entre eles, Transas na Cena em Transe: teatro e contracultura na Bahia, de minha autoria. O evento foi no belíssimo Palacete das Artes, um dos exemplares que restou da arquitetura do início do século XX em Salvador, datada de 1912. Poucos amigos estivarem por lá, mas os que compareceram animaram a minha noite e aqueceram meu coração. Ah, tinha uma gente metida, fazendo pose. Nariz em pé não faltava. Nessa ocasiões medito sobre a vaidade. Por vezes me sinto que nem aquele Poema em Linha Reta - Fernando Pessoa-Álvaro de Campos. Quando deu certa hora e achei que tinha cumprido o meu papel de autor, saí à francesa. Tenho dois livros publicado pela Edufba: Abertura Para Outra Cena: o moderno teatro na Bahia (2006), é anterior a Transas na Cena em Transe. O primeiro, trata sobre a criação da Escola de Teatro em 1956 e analisa o projeto de Martim Gonçalves. O segundo livro retoma outro momento da história do teatro na Bahia. Outro dia um aluno me chamou de "referência". Rimos muito. É, parece que virei referência sobre o assunto. Ah, ia me esquecendo, fui entrevistado por uma aluna da Escola de Teatro sobre o XVI Curso Livre de Teatro, quando dei aulas e dirigi Píramo e Tísbe, de Vladimir Capella, um autor de teatro para criaças que a Bahia precisa descobrir. Ele é dos ótimos.
A semana foi também de muitas reuniões e expectativas: a Faculdade Social, onde sou docente e cooordenador do curso de Artes Cênicas, recebeu a comissão do MEC que veio para avaliar a instituição, em função do seu recredenciamento. Acho que nos saímos bem. Vamos aguardar o resultado. Por falar no curso de Artes Cênicas, preparamos o Seminário Interdisciplinar 2009.1, um momento muito interessante no processo artístico-pedagógico.
Recebi uma mensagem de Marcos Barbosa, dramaturgo e professor de mão cheia. O motivo da mensagem foi a leitura que ele fez de meu livro Sob o Signo das Luzes. Ah, os livros, os temas, os interesses nos ligam.
Ah, comprei livros. Compro livro na mesma medida que compro comida. Meu corpo também se alimenta de palavras. A minha mesa de cabeceira tem uma pequena pilha de coisas para ler. Devorei O Filho da Mãe, de Bernardo Carvalho. Gostei imensamente. Ao terminá-lo, recomecei a leitura, de tão bom que é o livro.
Assombrei-me com a ameaça da explosão nuclear da Coreia do Norte. Ditadores são sempre insanos. Eles são guiados pela razão louca. Durma-se com uma ameaça dessa!
Na República Sindicalista - o Brasil - um acontecimento me deixa sem entender a jogada, embora as "otoridades" tenham explicado. Falo sobre o apoio dado pelo governo brasileiro ao ministro da cultura do Egito, candidato ao maior cargo da UNESCO. Não desceu, estou entalado. Acho bacana a aproximação com os países árabes, mas apoiar o tal ministro... Ah, e tem um brasileiro credenciado para tal função, já atuando na UNESCO. Ele é preterido pelo seu próprio país e dizem que o homem é competente. Dá saudade de Stanislau Ponte Preta.
Pra encerrar, fui ver o coral da Igreja de Santana do Rio Vermelho regido por Giancarlo Salvagani. Eles cantaram uma Ave Maria em russo, muita linda e bem executada. Encerraram a missa com o Magnificat. Era uma cerimônia para coroar Maria. Meninas vestidas de anjo, meninos com velas formando uma corredor até o altar, mas tudo sem ritmo, sem noção de ritual muito menos de espetáculo. Deu vontade de meter o dedo e dizer como é que se faz uma cerimônia de coroação. Mania de gente de teatro, assumo. "A gente nasce para o que é". Êta sabedoria!
Ufa!

terça-feira, 26 de maio de 2009

Registro 268: Depoimento VII

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

Sergipano de nascimento, desde jovem Harido Déda "sentou praça" na Cidade da Bahia. Ator, diretor teatral, mestre em Arte Cênicas, professor da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia. Participante do Centro Popular de Cultura - CPC, fundador do Teatro de Arena na Bahia, Harildo Déda tem em seu vasto currículo uma série de espetáculos, filmes e participações em novelas e mini-séries. Nos anos setenta ingressa no Teatro Livre da Bahia trabalhando sob a direção de João Augusto.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?

Yumara Rodrigues

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?

Marlon Brando, Paul Newman, Pacino, Meryl Streep, Bette Davis.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?

Marfuz, Paulo Dourado, Guerreiro e, é claro, Hackler.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.

Todos que eu conheço são muito bons e injustiçados

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Eu, Brecht, de Deolindo Checcucci

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
O Bonde Chamado Desejo, direção de Charles Mac Gaw, Morte e Vida Severina, direção de Luiz Carlos Maciel, Stopem, Stopem e Os Cordéis, de João Augusto

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Roda Viva, de Zé Celso

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
As Três Irmãs, direção de Enrique Diaz, Hamlet (W. Moura - Aderbal)

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Não!!! Mas muita gente que faz acha!

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Heda Gabler

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
As Três Irmãs, direção de Gianni Ratto, Calígula, direção de Martim Gonçalves, com Sérgio Cardoso

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
A Casa de Bernarda Alba, direção de Possi

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
E tem? Me lembre pelo amor de Deus!

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Rasga Coração, Eles Não Usam Bleque-Tai, O Noviço, Álbum de Família, Vestido de Noiva

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
...

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Não sei.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
As que eu vi na Bahia? Todas!...

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Qualquer Shakespeare, Em Família de Oduvaldo Vianna Filho, Gata em Teto de Zinco Quente.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A síntese.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
A empáfia; o pretexto.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Registro 257: Flávio Império

Arquiteto, professor, artista plástico, diretor, produtor e cenógrafo, Flávio Império dedicou sua vida ao fazer teatral, participando de experiências consagradas e inovadoras do teatro brasileiro, como as do Arena e do Oficina, além de contribuir com seu talento para inúmeros espetáculos fora dos dois grupos magistrais.
Pelo seu trabalho recebeu quase vinte prêmios, como o Governador do Estado, Saci, Molière, Associação Paulista de Críticos de Arte, Medalha de Ouro na Bienal de Teatro e Prêmio de Cenografia na Quadrienal de Praga.
Flávio Império amadureceu como artista que entende a estrutura da linguagem teatral como totalidade. Para ele, cenografia não é fundo e roupa. É muito mais. É o momento do acontecimento teatral, incluindo a ação dramática, texto, luz, som, movimento e o público.
Conheci Flávio em 1976 depois que ele retornou de um verão na Bahia. Hóspede de José Possi Neto na Boca do Rio, Flávio soube por Possi da minha pessoa: uma jovem ator residindo em São Paulo, em começo de carreira. Certo dia, o porteiro do edifício anunciou a sua chegada para uma visita. E eu que admirava seus trabalhos, mas não o conhecia pessoalmente, tratei de recebê-lo ainda sob o impacto da surpresa.
Ao abrir a porta percebi de cara a força da presença. Sem muitos rodeios ele entrou sorrindo abertamente e com uma certa ironia disse estar ali para conhecer um ator baiano de quem tinha ouvido falar muito. Encabulei.
Ele relatou a estada em Salvador. Contou sobre a praia da Boca do Rio, sobre o Carnaval e sobre a perda da carteira surrupiada em meio a folia. De cara, me deu uma de suas gravuras impressa em acetato. No centro da gravura a imagem de um homem, que depois vim a saber quem era. Um homem nu em meio as formas orgânicas, destacando-se uma frase escrita numa espiral. Não lembro do texto; a gravura se perdeu entre as arribações. Mas a frase inicial dizia: "Tens algo das plantas, tens algo dos animais..." A partir daí tornei-me amigo e admirador desse artista, para quem Gianni Ratto dedicou o seu livro Antitratado de Cenografia. Em um país de significativos cenógrafos, Ratto também um importante artista da cenografia escolheu Flávio e Tomás Santa Rosa para homenageá-los. Transcrevo um trecho do livro:
É inevitável, observando panoramicamente a obra de Flávio, pensar nos grandes artífices da Renascença: homens-artistas-artesãos que dominavam um leque de atividades complexas cuja dimensão era a resultante de um esplêndido instinto criador aliado a uma intuitiva postura crítica (RATTO, 2001, p. 17).
Muito se escreveu sobre Flávio e ele deixou muitos escritos ainda sem publicação, mas um livro fundamental foi publicado pela Edusp: Flávio Império, organizado por Renina Kataz e Amélia Hamburguer.
Os textos e as reproduções dos quadros que se seguem são de autoria do cenógrafo inventor.
O teatro me ensinou a vida;
A arquitetura o espaço.
O ensino sinceridade.
A pintura a solidão.
O teatro me fez amigo da multidão.

Auto-retrato/detalhe.Técnica mista. Coleção particular. 1976

adoro
irmã/mente
noel e shakespeare, boal, zé celso, ruth, sábato; gente que faz acontecer o teatro no Brasil. caetano, bethania, célia, célia helena, cacilda, walmor, andré - sei lá
gente que sempre gostou de atuar na cena. mesmo que não soubessem exatamente o que estavam fazendo
GOSTAM e GOSTAVAM
quem se enche o saco se afasta e é sempre pouco, o que consegue nos afastar.
o comodismo, o dinheiro, a idade, a preguiça, - outras bossas.
uma certa "bohemia", cada geração no seu botequim - bar - restaurante, ou própria casa - vendo televisão.
e todo mundo hoje em dia claro que prefere receber em dollares, como a Carmem Miranda!
o "artista" precisa de muita conversa tanto quanto de muito silêncio e recolhimento interior pra conseguir criar.
só na correria, não dá!
e sossego é dólar, ou relativa pobreza.
agradeço a todos os que até hoje me aplaudiram.
porque GOSTARAM.
e se gostam eu também fico contente de conseguir "fazer" o próprio "ato" de agradar.
"gostar da gente" é o nosso IBOPE pessoal
não tenho unanimidade. (mas isso, nem Cristo) mas uma deliciosa platéia,
quando é Bethania, Gal, Artigas, Caetano, Walmor, Célia, Edmar, Gláucia, Vina, Azzis, Guarnieri, Paulo José, Tozzi, Carmela, Djalma, Dina, Myriam, Flávio Motta, Renina, Parreiras, e quantos foram os aplausos.
tive de "agradecer" na estréia de Andorra. fui levado pelo próprio chamado
foi incrível
e, basta uma vez na vida.
é uma enorme prova de amor alegre e cheio de lágrimas foi tão grande o sentimento, que até hoje agradeço.
se me perguntassem algum desses dias com quem mais gostaria de trabalhar
eu reponderia ARRIGO e CASÉ
há sempre com quem, imagine ter feito a "cenografia" de algum show da Ângela Maria, Procópio, Dulcina, e do próprio Noel ao vivo.
seria um total barato!
ter feito Doces Bárbaros, pra mim foi "diploma PHD". tive uma semana pra bolar, fazer, levar, pendurar e ficar olhando, PASMO! tinha conseguido.
em particular, agradeço à Sonia minha "fada madrinha" .
e ao Iácov que, pela 1a. vez, "iluminou" um espetáculo em que a cenografia nasceu junto: OTHELLO.
e ao Arquimedes, por ter me ensinado tudo sobre "o palco", e ainda me ensinar, e aos meus "alunos" que me obrigam a "sambar", e manter o ritmo de cintura.
necessário ao "passar do tempo"
assim, enfim, agradeço a Deus por existir.


maio 1983

Gerais/detalhe. Técnica mista, 1977

Sinto sempre o impulso que eu pinto
sintonizo e pinto
esse impulso me livra
me liberta me diverte me alerta
que amanhã haverá sol
mesmo que hoje eu morra
o outro dia é renascer do seu ser do sol
da chave maior que é a libertação da dor,
o amor
Refazendo.Técnica mista, coleção particular,1975


Bananeiras

sábado, 16 de maio de 2009

Registro 256: O teatro abriu caminhos...

Comecei a fazer teatro em Feira de Santana, no Teatro Experimental de Feira - TEF, mas não participei de montagens. O grupo estava em crise e durante o período não realizou nenhum espetáculo, mas a experiência serviu para solidificar um desejo: me tornar um homem de teatro.
Ingressei na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia em 1968, o ano que começou bem, mas "não terminou". Ou melhor, terminou sob o AI-5. Fiz o Curso de Formação do Ator. Naquela época, um curso de nível médio. Por esse motivo fiz Licenciatura em História para ter o nível universitário, mas o teatro sempre esteve no centro das minhas atenções. Pelo teatro construi a minha identidade, que ao longo dos anos vem se modificando, já que a identidade não é algo fixo, imutável, como querem alguns.
Fiz espetáculos na Escola e fora dela. Alguns desses espetáculos estão registrados aqui.
Um momento importante de minha vida como aluno-ator foi o contato com professores significativos para a minha formação. Não vou nomeá-los para não ser indelicado com aqueles que passaram por mim sem deixar nenhuma marca positiva. Embora a culpa não seja deles, mas minha que não fui suficientemente interessado em descobrir o que poderiam trocar comigo.
Conclui o curso em quatro anos, pois a instituição não cumpria com a oferta de disciplinas no tempo regulamentar. Em 1973, por sugestão de José Possi Neto, solicitei uma disciplina optativa no curso de Direção e fui seu assistente em A Casa de Bernarda Alba, memorável espetáculo ainda hoje lembrado por muitos, como uma realização das mais significativas na história do teatro na Bahia. Em seguida fiz, como ator, Tito Andronico.
Em 1974 fui para São Paulo com o intuito de continuar a minha carreira e, durante 17 anos, estive ligado ao teatro como intérprete e em seguida como dramaturgo. Durante esse período e depois, quando me afastei do palco, vi muitas encenações e com elas refinei a minha sensibilidade, o meu olhar, a percepção com relação ao espetáculo. Aprendi com encenadores, atore, atries, cenógrafos, figurinistas, iluminadores, dramaturgos.
Entre a Escola de Teatro e a vida profissional em Salvador e São Paulo, participei de diversos espetáculos e leituras dramáticas, com destacados diretores e atores da cena brasileira. Por diversas vezes recebi críticas favoráveis ao meu trabalho como intérprete, principalmente aquelas vinda do companheiros de ofício. Em 1986 deixei de atuar e fui realizar outras atividades. Distanciei-me do teatro, mas ele continuou sendo um norte para minha vida. Mesmo distante permaneci grato aos deuses do teatro e também ao meu terapeuta que me ajudou a resolver uma porrada de dúvidas, inseguranças e por que não amar(guras).
Atualmente me dedico ao ensino e a pesquisa. Sou professor de teatro, isso me leva para muitos campos. Os registros fotográficos não estão completos, as imagens se perderam ao longo do tempo ou então foram doadas para o acervo da Funarte.
Parafraseando Walter Benjamin, em mim, o teatro abriu avenidas.
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1968
Os Incendiários, de Max Frish - Direção: Alberto D'Aversa. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio
Bidermann, e os Incendiários
Raimundo Matos, Harildo Déda, Raimundo Blumetti, Gildásio Leite

O Fidalgo Aprendiz, de Francisco Manoel de Melo - Direção: Álvaro Guimarães - 10 Festival do Barroco na Bahia - Teatro Castro Alves.
A Companhia das Índias, de Nelson Araújo - Direção: Orlando Sena. Teatro Santo Antônio.
A Companhia das Índias

A Bela Adormecida, de Raimundo Blumetti - Direção: Deolindo Checcucci. Teatro Castro Alves.

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1969
Onde Há Uma Cruz, de Eugene O'Neill - Direção: Raimundo Melo. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

Onde Há Uma Cruz
Raimundo Matos, Harildo Déda, Normalice Souza
A Bicicleta do Condenado, de Fernando Arrabal - Direção: Jesus Chediak. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

O Circo de Bonecos, de Oscar Von Pfhul - Direção: Teresa Lopes. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

Branca de Neve e os Sete Anões, adaptação de Chico Ribeiro e Maria Idalina – Direção: Maria Idalina. Teatro Castro Alves.

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1970
O Painel da Peste, de Igmar Bergman - Direção: Anatólio Oliveira - Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes Cênicas - Teatro Santo Antônio.

Um Elefantinho Incomoda Muita Gente, de Oscar Von Pfhul – Direção: Maria Idalina. Teatro Castro Alves.

Macbeth, de William Shakespeare - Direção: Henrique Ariman - Teatro Castro Alves – Salvador.
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1971
Oficina de Papai Noel, de Maria Idalina – Direção Maria Idalina. Teatro Castro Alves.

O Embarque de Noé, de Maria Clara Machado – Direção: Roberto Assis Departamento de Música e Artes Cênicas – Teatro Santo Antônio.

O Consertador de Brinquedos, de Stela Leonardos - Direção: Maria Idalina. Teatro Castro Alves.
O Consertado de Brinquedos
Cilene Guedes, Raimundo Matos, Waldemar Nobre

Ensaio de O Consertador de Brinquedos
Haidil Linhares, Nei Galvão, Cilene Guedes, Raimundo Matos
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1972
A Bela Adormecida, adaptação de Raimundo Blumetti – Direção: Deolindo Checcucci. Teatro Castro Alves.
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1973
Tito Andronico, de William Shakesperare - Direção: José Possi Neto. Departamento de Teatro da Escola de Música e Artes - Teatro Santo Antônio.
Tito Andronico
Eduardo Esteves, Eduardo Calazans, Raimundo Matos, Gildásio Leite


Eduardo Esteves, Eduardo Tudella, Raimundo Matos, Gildásio Leite Jacques Beauvoir

As Feras, de Vinicius de Moraes - Direção: Álvaro Guimarães. Barração da Rua dos Ingleses.


Foto para divulgação de As Feras
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1974
A Perseguição, de Timochenco Webbi - Direção: Márcio Aurélio - Teatro Aliança Francesa do Butantã , Teatro de Arena - Porto Alegre.


A Morta, de Oswald de Andrade - Direção: Emílio Di Biasi. Sala Gil Vicente - Teatro: Ruth Escobar.


A Morta
Walter Marins, Raimundo Matos, Walquíria Lobo, Márcio De Luca
Bri Fiocca, Wilma de Souza
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1975
Tio Vânia, de Anton Tchecov - Direção: Emílio Di Biasi. Sala do Meio - Teatro Ruth Escobar.

Lição de Anatomia, de Carlos Mathus - Direção: Carlos Mathus. Auditório Augusta.
Cacilda Lanuza, Kadu Moliterno, Geraldo Del Rey
Beth Caruso, Herson Capri, Imara Reis, Raimundo Matos

Raimundo Matos, Geraldo Del Rey
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1977
Pedreira das Almas, de Jorge Andrade - Direção: Thereza Theriot. Teatro Alfredo Mesquita - São Paulo

Souzalândia, de Augusto Francisco - Direção: Roberto Lage. Teatro Oficina - São Paulo

Domingo, Zeppellin, de Marcos Vinincius - Direção: Silnei Siqueira.Teatro Aliança Francesa, Teatro Municipal de São Paulo.
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1978
Último Carro, de João das Neves - Direção: João das Neves. Pavilhão da Bienal.

Os Saltimbancos, adaptação de Chico Buarque - Direção: Silnei Siqueira. Tuca.

Lição de Anatomia, de Carlos Mathus - Direção: Carlos Mathus. Viagem pelo Brasil.
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1979
A Falecida, de Nelson Rodrigues - Direção: Osmar Rodrigues Cruz.Teatro Popular do Sesi.
A Falecida
Reinaldo Rezende, Paulo Prado, Ismael Rosan
Raimundo Matos, Luiz Parreiras
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1980
Quem Conta Um Conto Aumenta Um Ponto, de Raimundo Matos - Direção: Roberto Lage. Teatro Anchieta.

Quem Conta Um Conto Aumenta Um Ponto
Raimundo Matos, Cleide Queiros
Geni, de Chico Buarque e Marilena Ansaldi - Direção: José Possi Neto. Teatro Franco Zampari.

Geni
Marilena Ansaldi, Raimundo Matos, Ivan Lima

Raimundo Matos, Yeta Hansen, Armando Tirabosqui
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1981
Escuta, Zé, de William Reich e Marilena Ansaldi - Direção: Celso Nunes. Teatro Franco Zampari e viagem pelo Brasil.

Raimundo Matos

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1982
Coitado do Isidoro, de Sebastião de Almeida - Direção: Osmar Rodrigues Cruz - Teatro Popular do Sesi - Santo André.

Elenco e equipe técnica com o diretor Osmar Rodrigues Cruz
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1983
Casa de Brinquedos, de Toquinho e Elifas Andreatto - Direção: Mário Mazetti. Tuca.

Édipo Rei, de Sófocles - Direção: Marcio Aurélio – Galpão -Teatro Ruth Escobar - São Paulo e viagem pelo Brasil.

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1984
Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão, de Naum Alves de Souza - Direção: Naum Alves de Souza.Teatro Maria Della Costa.
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1985
Madame Blavatski, de Plínio Marcos - Direção: Jorge Takla - Teatro Aliança Francesa.

Madame Blavatski
Raimundo Matos, George Otto, Thaia Perez,
Tony Brandão, Wladerez de Barros

Walderez de Barros, Raimundo Matos
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2000
Exercícios Cênicos, diversos autores. Mostra do XVI Curso Livre de Teatro, atividade de extensão da Escola de Teatro da UFBA - Direção: Raimundo Matos de Leão - Teatro Martins Gonçalves.
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2001
Píramo e Tisbe, de Vladimir Capella - XVI Curso Livre de Teatro - Direção: Raimundo Matos de Leão - Espaço Xisto.


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2005
Brincadeiras, de Raimundo Matos de Leão - Direção: Raimundo Matos de Leão. Teatro Isba.
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2006

Os da Mesa 10, de Oswaldo Dragun - Direção: Raimundo Matos de Leão. Teatro Isba.


Os da Mesa 10
Antonio Alcântara, Ricardo Faria
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2007
Yerma, de Federico Garcia Lorca - Direção: Raimundo Matos de Leão. Teatro Isba.