terça-feira, 22 de maio de 2007

Registro 81: Uma leitura sobre a obra de arte

O Derrubador Brasileiro, 1879, Almeida Junior

O Mestiço, 1934, Portinari

O homem e a floresta

JORGE COLI

A mostra "Almeida Jr. - Um Criador de Imaginários", organizada pela Pinacoteca do Estado de São Paulo, entre outras obras, trouxe do Rio o conhecido "Derrubador Brasileiro".

Gilda de Mello e Souza propõe uma relação entre "O Derrubador Brasileiro" e Portinari: "É nosso, sobretudo, o jeito de o homem se apoiar no instrumento, sentar-se, segurar o cigarro entre os dedos, manifestar no corpo largado a impressão de força cansada, a que Cândido Portinari parece não ter sido insensível".

Esse "é nosso" mostra os poderes construtores, dentro de uma cultura, das ficções às quais se dá o nome de identidade. Não apenas o quadro é pintado na Europa, com um modelo italiano, como sucede ao admirável "Remorso de Judas", do ano anterior, 1878.
Ambas, o "Derrubador" e o "Judas", mostram descendência michelangelesca, com referências à pintura e à escultura de Buonarroti.

Mas essa não é a questão. A comparação interessante com Portinari relevou pontos de contato. Vale a pena assinalar as diferenças.

Um quadro como "O Mestiço", de Portinari, por exemplo, sugere, efetivamente, uma relação visual com "O Derrubador".

O fundo traz um cafezal, fruto e obra dessa força de trabalho condensada nos músculos dos braços cruzados. A força de trabalho, visualmente representada pelos bíceps, é geradora de riquezas. O olhar de frente está no limite do desafio. Se esses braços se cruzarem de fato, a riqueza não frutificará.

Estamos em plena poética marxista, traduzida em pintura.

Suor

De "O Derrubador", apoiado em seu machado, emana uma força muscular mas também um erotismo forte, que é possível deixar por conta das ambigüidades naturalistas, onde "o povo" vem carregado de seduções carnais, de potência sexual -veja-se Aluísio Azevedo, veja-se Júlio Ribeiro. Almeida Jr. [1850-1899] insiste no volume entre as pernas do trabalhador.

Mas ele não tem nenhuma exaltação da "força de trabalho". O derrubador destrói florestas como indica o fundo do quadro. Não o vemos em ação, mas no repouso. Concentra seus poderes físicos -força, erotismo- no próprio corpo. Desvia os olhos. Entre o seu aspecto, a postura de descanso, e seu trabalho paradoxalmente destruidor se situa um feixe de relações humanas bem mais complexas do que as expostas no quadro de Portinari.

Calma

Almeida Jr. nunca fez nenhum apelo à eloqüência heróica. Nunca retratou o trabalhador diante de uma natureza épica, como o fazia, nos EUA, seu contemporâneo Homer.

Gonzaga Duque, Monteiro Lobato, entre vários, assinalaram outra característica determinante e essencial das obras de Almeida Jr.: sua definitiva simplicidade.

Almeida Jr. foge da eloqüência como foge também do pitoresco e do narrativo. Não existe, em seus quadros, nenhuma afetação sentimental ou heróica. Não existe nenhuma vontade em retratar os embates da violência em ato ou as conseqüências de dramas sentimentais.

Grandeza

Almeida Jr. traz seus personagens e seus cenários a uma observação discreta, a um comedimento neutro, muitas vezes difícil de descrever. Ao fazer isso, por contraste, indica quanto os grandes efeitos -a comoção piedosa diante do miserabilismo, o contágio exaltado diante dos impulsos heróicos- são sempre afetados, redutores e, de fato, simplificadores; enquanto, ao contrário, a aparente simplicidade e a discrição que lhe são próprias se revelam como o melhor veículo para um verdadeiro aprofundamento.
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Publicado originalmente em a Folha de S. Paulo, Mais!, 06 de maio de 2007.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Registro 80: Mazelas do Brasil

NO TEMPO DAS MEIAS-CARAS

Ao desiludir-se do esforço para a conquista de um posto de destaque na cena dramática, no qual consumira cerca de quatro anos, se não mais, voltou-se Martins Pena para a comédia com intuitos de crítica social, gênero que não deveria ter abandonado. E escreveu então, Dois, mais tarde chamada Os Dois ou o Inglês Maquinista, título que só apareceu nos anúncios teatrais a partir de meados de 1845. A primeira versão, com aquele título, data “provavelmente de 1842”, como concluiu Darcy Damasceno pelo cauteloso exame dos manuscritos depositados na Biblioteca Nacional. Mas a data da estréia por ele consignada no volume Teatro de Martins Pena – I – Comédias, isto é, 28 de janeiro de 1845(...)

Martins Pena não teria escrito Os Dois ou o Inglês Maquinista se não existisse então no Brasil o problema dos meias-caras, isto é dos africanos introduzidos ilegalmente no país pelos barcos dos traficantes, que conseguiam furar o cerco dos navios de guerra ingleses, então policiando as rotas marítimas do sul do Atlântico. Naquela peça, ele explora a rivalidade existente entre os ingleses e os que se beneficiavam com o trabalho de escravos. O problema era velho de onze anos, quando foi composta a comédia. Dando cumprimento a acordo negociado entre o Império do Brasil e o reino da Inglaterra ainda no fim do reinado de D. Pedro I, a Assembléia Geral do Império aprovou a lei de 7 de novembro de 1831, sancionada pela Regência em nome de D. Pedro II e assinada, também, pelo Ministro da Justiça, padre Diogo Antônio Feijó. Tal lei dizia, em seu artigo primeiro: “Todos os escravos que entrarem no território, ou portos do Brasil vindos de fora, ficam livres. Excetuam-se: 1º ) Os escravos matriculados no serviço de embarcações pertencentes a país, onde a escravidão é permitida, enquanto empregados no serviço das mesmas embarcações: 2º ) os que fugirem do território, ou embarcação estrangeira, os quais serão entregues aos senhores que os reclamarem, e reexportados para fora do Brasil. Para os casos de exceção n. 1º , na visita da entrada se lavrará termo do número de escravos, com as declarações necessárias para verificar a identidade dos mesmos, e fiscalizar-se na visita da saída se a embarcação leva aqueles, com que entrou. Os escravos que forem achados, depois da saída da embarcação, serão apreendidos, e retidos até serem reexportados”.

Júnior, Raimundo Magalhães. Martins Pena e sua época. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro
MEC, 1972, p. 55-56

domingo, 20 de maio de 2007

Registro 79: De Gabeira


Saudades do Brasil

Fernando Gabeira



CHAMA-SE Burle Marx o edifício onde moro em Brasília. Gosto de ver o nome inscrito na placa de bronze. Conforta-me a lembrança de uma pessoa interessante. Escrevi um longo artigo sobre sua vida, almocei em sua casa, viajamos juntos para Minas, onde criou um belo espaço. Quando penso nele, uma outra figura me vem à mente. Cabelos e bigodes brancos, eu o conheci num vôo da Amazônia. Era um jovem repórter, e Noel Nutels, esse é seu nome, falou de seu trabalho, do pulmão dos índios que tentava proteger da tuberculose. Minha cabeça deu voltas, foi um grande estímulo. Trouxe para o Burle Marx um documentário sobre a bossa nova.
Lembrei-me de Tom Jobim, suas conversas sobre pássaros, percebi que estava ficando nostálgico. Se vivesse fora do Brasil, num exílio, talvez me desculpasse. Seria a quantidade de canalhas por quilômetro quadrado que me empurra para o passado? Mas sempre existiram. Basta que se leia Nelson Rodrigues. Não sou tão estúpido a ponto de pensar que hoje não existem pessoas como aquelas. Simplesmente não aparecem para mim. Depois de tantos anos, minguaram as ilusões. Quando saímos, havia prosperidade e medo, uma combinação que fortalecia o governo. O slogan da época: ame-o ou deixe-o. Hoje há prosperidade, um clima de adesão cheia de expectativas, do tipo "também sou filho de Deus".
No lugar do autoritário slogan da ditadura, a metáfora se desloca do espaço nacional para as glândulas salivares. Do ame-o ou deixe-o para o engula ou cuspa, um roteiro de dilemas. Não há mais um ditador apontando o caminho do exílio. Apenas alguém que não se conforma com a incompreensão: os vilões precisam, agora, reconhecer a beleza da gata borralheira. Oswaldo Cruz não inventou um remédio para a febre amarela. Mas enfrentou o senso comum ao proteger o povo contra a varíola. E contemplava o mangue, escuro e lamacento, do alto de um imponente castelo. Nas atuais circunstâncias, o dínamo se desloca do futuro para o passado. Num imenso cemitério vertical, onde os andares são camadas do tempo, visito os mortos, canto: "ah, se a juventude que essa brisa canta/ficasse aqui comigo mais um pouco...". Outros não reagem assim. Um amigo assiste ao filme "300" e escreve um bilhete: melhor, combateremos à sombra. Como estão distantes as fases heróicas, limito-me a responder: tudo bem, mas vamos combater sem a crase.
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Publicado originalmente em a Folha de S. Paulo, 19 de maio de 2007.

sábado, 19 de maio de 2007

Registro 78: Ecos benjaminianos

INFÂNCIA E HISTÓRIA
ENSAIO SOBR A DESTRUIÇÃO DA EXPERIÊNCIA

Giorgio Agamben

Todo discurso sobre a experiência deve partir atualmente da constatação de que ela não é mais algo que ainda nos seja dado fazer. Pois, assim como foi privado da sua biografia, o homem contemporâneo foi expropriado de sua experiência: aliás, a incapacidade de fazer e transmitir experiências talvez seja um dos poucos dados certos de que disponha sobre si mesmo. Benjamin, que já em 1933 havia diagnosticado com precisão esta “pobreza de experiência da época moderna, indicava suas causas na catástrofe da guerra mundial, de cujos campos de batalha “a gente voltava emudecida... não mais rica, porém mais pobre de experiências partilháveis... Visto que as experiências jamais receberam desmentido tão radical quanto as experiências estratégicas na guerra de posição, as experiências econômicas na inflação, as experiências corpóreas na fome, as experiências morais no despotismo. Uma geração que tinha ido à escola em bonde puxado a cavalo encontrava-se em pé, sob o céu, numa paisagem em que nada permanecera inalterado, salvo as nuvens; e no centro, em um campo de força de correntes destrutivas e explosões, o frágil, minúsculo corpo humano.

Porém, nós hoje sabemos que, para a destruição da experiência, uma catástrofe não é de modo alguma necessária, e que a pacífica existência cotidiana em uma grande cidade é, para esse fim, perfeitamente suficiente. Pois o dia-a-dia do homem contemporâneo não contém quase que seja ainda traduzível em experiência: não a leitura do jornal, tão rica em notícias do que lhe diz respeito a uma distância insuperável; não os minutos que passa, preso ao volante, em um engarrafamento; não a viagem às regiões ínferas nos vagões do metrô nem a manifestação que de repente bloqueia a rua; não a névoa dos lacrimogêneos que se dissipa lenta entre os edifícios do centro e nem mesmo os súbitos estampidos de pistola detonados não se sabe onde; não a fila diante dos guichês de uma repartição ou a visita aos país da Coconha do supermercado nem os eternos momentos de muda promiscuidade com o desconhecidos no elevador ou no ônibus. O homem moderno volta para casa à noitinha extenuado por uma mixórdia de eventos – divertidos ou maçantes, banais ou insólitos, agradáveis ou atrozes – entretanto nenhum deles se tornou experiência.

AGABEN, Giorgio. Infância e história: destruição da experiência e origem da história. Belo Horizonte, MG:UFMG, 2005, p. 21-22

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Regsitro 77: Mais PESSOA, Fernando

EROS E PSIQUE

Fernando Pessoa

CONTA LENDA que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém;

Mas cada um cumpre o Destino –
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A princesa que dormia.

PESSOA, Fernando. Fernando Pessoa:obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003, p. 181.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Registro 76: Romance-vida


Nasci em Bolonha, no dia 5 de março de 1922. Quantas coisas caro Gennariello, estão contidas nestas poucas palavras! Alegro-me por você ter o coração bastante simples, bastante puro, e o espírito ainda muito jovem e totalmente aberto para o espetáculo do mundo! Para falar-lhe não terei necessidade de embaralhar artificialmente a ordem desta narrativa, nem receio de começar pelo princípio. Você é meu destinatário. Não desejo outros. Peço-lhe que permaneça sempre o rapaz napolitano que amo: vivo, sincero, saudável de alma e de corpo, pronto a penetrar em cada novo livro com a seriedade de um menino pobre que vai pela primeira vez à escola, mas ao mesmo tempo disposto a rejeitá-lo rindo às gargalhadas se o autor o aborrece através de um estilo complicado e obscuro.

Tivesse eu escolhido como audiência o frívolo público literário e os seus pedantes mentores que o censuram por dar importância ao tempo cronológico, sentir-me-ia tão livre para relatar a minha vida, um episódio após o outro, como aconteceram? Para agradar àqueles senhores, seria necessário quebrar a seqüência natural dos acontecimentos, desprezar as datas, contar ao inverso, misturar o presente, o passado e o futuro, num quebra-cabeça pretensioso. Seria igualmente necessário que a palavra deixasse de ser a roupagem simples do pensamento e que perdesse todas as suas qualidades, toda a elegância de sua perfeita proporção com a idéia a apresentar. E então, tudo isso passaria a ser um jogo verbal gratuito, aquilo que eles chamam de “linguagem”, independente das coisas que desejamos exprimir.
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FERNANDEZ, Dominique. Pela mão do anjo. Rio de Janeiro: Rocco, 1985, p.11.
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PELA MÃO DO ANJO não é uma biografia convencional de Pier Paolo Pasolini (...)Mas para preencher as lacunas deixadas pela reserva de Pasolini em falar de si mesmo como pessao - não obstante sua coragem de discutir desassombradamente seus segredos - Domique Fernadez impregnou-se de tal modo da personalidade do angustiado escritor e cineasta, que foi capaz de escrever toda a narrativa na primeira pessao, como se o próprio Pasolini nos falasse.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Registro 75: O não ser da moça-nordestina

­­­­­­­­­­­­­­­­­­­Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei o que, mas sei que o universo jamais começou.

Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início, se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos? Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos – sou eu que escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique. Meu coração se esvaziou de todo o desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia sincopada e estridente – é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade? Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.

Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual – há dois anos e meio venho aos poucos descobrindo os porquês É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei. Como estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não inicio pelo fim que justificaria o começo – como a morte parece dizer sobre a vida – porque preciso registrar os fatos antecedentes.

Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo coagular em cubos de geléia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu.
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LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984, p. 17-18.

terça-feira, 15 de maio de 2007

Registro 74: Para atores

(...) Pode-se afirmar que o verdadeiro artista está sempre disposto a qualquer sacrifício para atingir um momento de criatividade. O artista medíocre prefere não correre riscos, e por isso é convencional. Tudo que é convencional, tudo é medíocre, está relacionado a esse medo. O ator convencional põe um lacre em seu trabalho, e lacrar é um ato defensivo. Quem se protege "constrói" e "lacra". Quem quer se abrir tem que destruir as paredes.
É uma questão complicada. O que chamamos de "construção da personagem" é na verdade a produção de uma imitação plausível. Devemos, portanto, buscar outro caminho. A opção criativa consiste em produzir uma série de imitações provisórias sabendo que, mesmo que um dia você sinta que descobriu a personagem, isso não pode durar. Naquele dia específico, talvez fosse o melhor que você pôde fazer, mas deve lembrar que a verdadeira forma ainda não está lá. A forma verdadeira só chega no último instante, às vezes até depois. É um nascimento. A verdadeira forma não é como a construção de um edifício, em que cada ação é uma avanço lógico em relação à ação anterior. Pelo contrário, o verdadeiro processo de construção envolve simultaneamente uma espécie de demolição, que implica a aceitação do medo. Toda demolição cria um espaço perigoso, no qual há menos suportes e menos apoio.
Mais ainda: mesmo quando atingimos momentos de autêntica criatividade nas impropvisações, nos ensaios ou durante um espetáculo, existe sempre o risco de borrar ou destruir a forma emergente.
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BROOK, Peter A porta aberta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p. 20

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Registro 73: A Última Gravação

A ÚLTIMA FITA

Uma peça de Samuel Beckett

[Tradução de Wilton Rossi]

Tarde da noite no futuro.

Na casa de Krapp.

No centro, à frente, uma pequena mesa cujas duas gavetas se abrem em direção ao público. Sentado à mesa, de frente para o público, ou seja, no lado oposto das gavetas, um velho homem fatigado: Krapp.

Calças pretas desbotadas, muito estreitas para ele. Colete preto desbotado, quatro grandes bolsos. Um pesado relógio de prata com corrente. Camisa branca encardida aberta ao pescoço, sem colarinho. Surpreendente par de botas brancas sujas, tamanho 42, no mínimo, muito estreitas e pontudas.

Rosto pálido. Nariz arroxeado. Cabelos grisalhos em desalinho. Barba por fazer.

Muito míope (mas sem óculos). Pouca audição.

Voz arranhada. Entonação peculiar.

Andar penoso.

Na mesa um gravador com microfone e algumas caixas de papelão contendo fitas gravadas.

Mesa e área adjacente próxima sob forte luz branca. O resto do palco no escuro.

Krapp permanece imóvel por um momento, solta um grande suspiro, consulta seu relógio, examina seus bolsos, retira um envelope e o coloca de volta, tira um pequeno molho de chaves e o levanta à altura dos olhos, escolhe uma chave, levanta-se e desloca-se para a frente da mesa. Abaixa-se, destranca a primeira gaveta, examina seu interior, mexe dentro dela, retira uma fita e a examina, guarda a fita de novo, tranca a gaveta, destranca a segunda gaveta, examina seu interior, mexe dentro dela, retira dela uma grande banana e a examina, tranca a gaveta, põe as chaves de volta em seu bolso. Dá meia volta, avança rumo à borda do palco, pára, acaricia a banana e a descasca, joga a casca no chão diante de seus pés, põe a ponta da banana em sua boca e permanece imóvel, olhando à frente para o vazio. Finalmente morde a ponta da banana, vira-se e começa a andar de um lado para o outro na borda do palco, sob a luz, ou seja, não mais que quatro ou cinco passos em cada sentido, mastigando meditativamente a banana. Pisa na casca, escorrega e quase cai, recupera-se, inclina-se e examina a casca e, finalmente, ainda abaixado, a empurra com o pé através da borda do palco para o fosso. Continua a andar de um lado para o outro, termina a banana, volta para a mesa, senta-se, permanece um momento imóvel, solta um grande suspiro, retira as chaves de seu bolso, levanta-as à altura de seus olhos, escolhe uma chave, levanta-se e vai até a frente da mesa, destranca a segunda gaveta, retira uma outra grande banana e a examina, tranca a gaveta, recoloca as chaves em seu bolso, vira-se e avança para a borda do palco, pára, acaricia a banana, retira sua casca e a atira para o fosso, põe a ponta da banana em sua boca e permanece imóvel olhando à frente para o vazio. Finalmente tem uma idéia, coloca a banana em um bolso do colete, com a ponta aparecendo, e corre o mais rápido que pode para o fundo do palco, no escuro. Dez segundos. Barulho alto de uma rolha sendo retirada da garrafa. Quinze segundos. Volta para a luz carregando um velho livro registro e senta-se à mesa. Põe o livro na mesa, limpa sua boca, limpa suas mãos na frente do colete, junta-as vivamente e as esfrega.

KRAPP
(Animadamente) Ah! (Inclina-se sobre o livro, vira as páginas, encontra o ponto que procura, lê.) Caixa... trrês... fita... ccinco. (Levanta a cabeça e olha para a frente. Prazerosamente.) Fita! (Pausa.) Fiiiita! (Sorriso alegre. Pausa. Inclina-se sobre a mesa, começa a examinar e mexer nas caixas.) Caixa... trrês... trrês... quatro... dois... (Com surpresa) Nove! Meu Deus! ...sete... ah! A safadinha! (Pega a caixa e a examina.) Caixa trrês. (Coloca a caixa sobre a mesa e a abre. Examina as fitas no seu interior.) Fita... (Examina o livro.) ...ccinco... (Examina as fitas.) ...ccinco... ccinco... ah! A malandrinha! (Retira uma fita e a examina.) Fita ccinco. (Coloca-a sobre a mesa, fecha a caixa três, coloca-a junto às outras, pega a fita.) Caixa trrês, fita ccinco. (Inclina-se sobre o gravador, levanta a cabeça. Prazerosamente.) Fiiiita! (Sorriso alegre. Inclina-se, insere a fita na máquina, esfrega as mãos.) Ah! (Examina o livro, lê uma passagem no pé da página.) Minha mãe finalmente em paz... Hmm... A bola preta... (Levanta sua cabeça, olha confusamente para a frente. Intrigado.) Bola preta?... (Examina novamente o livro, lê.) A enfermeira morena... (Levanta a cabeça, medita, examina novamente o livro, lê.) Pequena melhora das condições intestinais... Hmm... Memorável... quê?! (Olha mais de perto.) Equinócio, memorável equinócio. (Levanta a cabeça, olha confusamente para a frente. Intrigado.) Memorável equinócio?... (Pausa. Dá de ombros, examina novamente o livro, lê.) Adeus ao (Vira a página.) amor.

Levanta sua cabeça, medita, inclina-se sobre a máquina e a liga, assume a posição de audição, ou seja, inclina-se para a frente, cotovelos na mesa, mão em concha na orelha, face para a frente.
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No início da década de setenta, na Escola de Tetro da Universidade Federal da Bahia,vi uma encenação do texto de Samuel Beckett. Quem fazia o Velho Krapp era o aluno-ator Harildo Déda, cujo trabalho impressionava pela composição que o ator criou, vencendo a idade inadequado para o papel. As qualidades do intérprete tornavam-se visíveis no palco não apenas pela composição detalhada e precisa, mas sobretudo pela compreensão do universo do autor. Estavam em cena no corpo e na voz a caducidade, o absurdo do tempo, a inação, as frustrações do personagem. A encenação não primava pela inventividade. E como exercício de direção de uma aluna do curso, não explorava as possibilidades que o texto de Becktt oferece no seu quase nada, visto que ação se passa num lugar fechado, mínimo, onde se vê uma mesa e uma velho gravador de rolo onde Krapp ouve gravaçãoes de um tempo passado revisitado a cada instante. O jovem Krapp aparece na voz firme e vigorosa, criando uma partitura para a voz do idoso e decrépito personagem em cena e que ouve suas lembranças. Ao tentar gravar novas fitas, Krapp não consegue. Resta somente o silêncio...O ator Harildo Déda mostrava a senilidade de Krapp e os instantes em que, iluminado pelas lembranças, deixava entrever no rosto e nos gestos os rasgos de felicidade que restam impressos na fita e que o gravador traz para o presente. Um belo trabalho, inesquecível.

domingo, 13 de maio de 2007

Registro 72: Joaquim Nabuco escreveu

Joaquim Nabuco escreveu e Caetano Veloso incluiu no disco Noites do Norte.
A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país, e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte... É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte.

sábado, 12 de maio de 2007

Registro 71: Lorca








As seis cordas

Federico Garcia Lorca

A guitarra faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Registro 70: Dobras de Leitura, vale a pena conferir


Edição N. 45 - Ano VIII - Maio de 2007

Dobras de nascimento e de morte, mistérios e estrelas na Vitrine Literária: é Pedro a quatro, África 3 Tempos... E duas DobraVerde's: a última parte do artigo de Susana Irion Dacol sobre a presença de autores da literatura não-infantil nas coletâneas de conto do PNBE 2002 e a palavra da ilustradora Thais Linhares. Mais 1 encontro mãe e filho, nos Alinhavos de Tânia Piacentini.

Essas e outras novidades on-line,
10 de maio, em Dobras da Leitura.
w w w . d o b r a s d a l e i t u r a . c o m

* OBRAS APRESENTADAS NESTA EDIÇÃO

Pedro, de Bartolomeu Campos de Queirós e Sara Ávila (Cia. Editora Nacional), Pedro e o Cruzeiro do Sul, de Cléo Busatto e Renato Alarcão (Edições SM), Pedro e Lua, de Odilon Moraes (Cosac Naify), Os Pedros, de Sandra Pina, il. Jorge Barreto(Salesiana), A história do galo Marquês, de Ganymédes José, il. Avelino Guedes (Moderna), O que tem na panela, Jamela?, de Niki Daly (Edições SM), Os gêmeos do tambor, de Rogério Andrade Barbosa e Ciça Fittipaldi (DCL). * TREVO DE LEITURAS: Diferentes somos todos, de Alina Perlman e Cecília Esteves (SM), Uma maré de desejos, de Georgina Martins, il. Cris Eich (Ática), Amar o mar, de Silvana Pinheiros Taets e Fê (DCL). VITRINE DE ESTUDOS: Literatura infantil: voz de criança, de Maria José Palo e Maria Rosa Duarte Oliveira (Ática).

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Registro 69: Tolerância


Sou católico, apostólico, baiano.

Sou devoto de Santo Antônio e de Nossa Senhora do Carmo. Entrei no candomblé, tardiamente, aos 20 e tantos anos, pelas mãos de Luiza Olivetto e Lícia Fabio, que me pediram para ajudar nas obras de restauração do telhado do Terreiro do Gantois.

Fui consertar o telhado do Gantois e o Gantois consertou minha vida. O candomblé não é uma religião. É um culto. Culto aos antepassados, às forças da natureza.

O candomblé é moderno. Ele já era ecológico antes que a ecologia entrasse em voga. Ele é avançado. Não exclui opções sexuais. Ao contrário, acolhe.

Os deuses do candomblé têm ira, inveja e raiva. Xangô é colérico. Oxum é ciumenta e chorosa. Ogum tem o pavio curto.

A religião católica quer que os homens sejam deuses. No candomblé, são os deuses que baixam nos homens.

Não é muito chique ser do candomblé.

Pelo menos na parte do país em que eu vivo. Como toda cultura vinda dos vencidos, é visto como desvio, coisa de gente desajustada ou de artista.

E confesso que isso, ao contrário de me afastar dele, sempre me instigou a caminhar contra o vento.

Toda sexta-feira, vejo, aqui e ali, o olhar jocoso com que algumas pessoas me olham vestido de branco.

Neste momento, sou judeu. Adoro como os judeus se afirmam pelo mundo usando suas barbas, seus quipás e seus casacos longos, onde convêm e onde não convêm.

Aliás, como estudante bissexto de cabala, vejo constantemente as similaridades entre procedimentos do candomblé e do judaísmo. Eles também se preocupam com olho gordo, eles também passam frango no corpo, eles também se banham em sal grosso. Enfim, há muitas similaridades entre o candomblé e a cultura judaica.

O candomblé é, e isso precisa ficar bem claro, o culto do bem. Tantas vezes confundido com feitiço. Ele é magia. As grandes mães-de-santo da Bahia se dedicavam sempre ao bem e à luz.

Se, aqui e ali, alguém usou esses poderes santos para o mal, é descaminho. E contra ele a força deve ter se voltado com certeza. O catolicismo não pode ser julgado a partir de padres pedófilos. E o candomblé não pode ser julgado a partir de pais-de-santo picaretas que ficam se exibindo na TV ou fazendo macumbas perversas.

Tenho certeza de que na hora em que o Santo Padre pisar no Brasil, todas as mães-de-santo do país e seus filhos e filhas estarão rezando e saudando sua Santidade.

Ainda que a igreja não tenha sido nem seja tão generosa com o candomblé. Mas o candomblé não está nem aí. Queira Roma ou não, na Bahia, igrejas e terreiros convivem e se abraçam. E isso é mágico.

E candomblé é magia. Aquela energia que a gente sente na Bahia vem dele. Aquela comida vem dele. Aquela música, aquela batida vem dele. Aquela sensualidade e aquela pimenta vêm dele.

Sua Santidade, por ser padre e por ser alemão, talvez não tenha o mesmo jogo de cintura para assimilar tudo isso.

Mas meus olhos e meu coração não podem negar o bem que mãe Cleusa me fez. O bem que mãe Stella me faz. Coisas inexplicáveis que eu não entendi. Mas presenciei.

E não se pode negar o bem e as coisas mágicas que elas fazem pelos pobres. O candomblé sempre foi e continua pobre.

Não tem catedrais, nem TVs, nem rádios. Não faz coleta de dinheiro. Ao contrário, as grandes mães-de-santo doam. Ao invés de lucrarem, vivem modestissimamente. E vivem consumidas dia e noite por todos aqueles que as procuram por um amor, pelo sossego perdido, pela paz nunca encontrada, pela esperança de cura ou de um amanhã melhor.

Vi mãe Cleusa, minha linda mãe do Gantois, morrer muito cedo, estressada por sua luta e sua dedicação à causa de sua mãe. Causa que hoje mãe Carmem, irmã da falecida, conduz com garbo, doçura e carinho.

Vejo mãe Stella, a maior mãe de santo do Brasil e a mãe de santo que eu escolhi, do alto dos seus 80 anos, consumir seus dias a dar ao povo pobre da Bahia, luz e esperança a setores da sociedade onde geralmente a luz e esperança não chegam.

Mãe Stela vive franciscanamente. Nunca fez voto de pobreza. Porque os pobres não precisam desse voto já que já são pobres.

O candomblé foi perseguido no passado pela polícia. Hoje é perseguido pelas igrejas evangélicas. Que escolheram o candomblé como bode expiatório num marketing infame.

E batem dia e noite no candomblé. Diante do silêncio lamentável de todos nós.

Bisneto de preto, neto de pobres, filho da Bahia, de mãe Cleusa e mãe Stella, teimosamente digo não a essa perseguição implacável. E defendo nosso direito democrático de acreditar na força do trovão, dos mares, do vento e da chuva.

Pode ser primário, mas é lindo. Quer coisa mais bonita do que acreditar que os deuses podem baixar entre os homens em lugares tão pobres onde nem a saúde, a educação e polícia se interessam em ir?

Por isso saúdo sua Santidade e peço a Xangô e a Oxum que guiem seus caminhos para que ele possa ser uma grande mãe ao longo de seu papado.

Que, além de encíclicas e regras, ele nos dê colo e carinho, porque o que o mundo mais precisa é de colo e carinho. Que ele seja o carinho da gente, a estrela mais linda. Que ele seja uma espécie de mãe Menininha global.

Porque, ao fazer isso, ele honrará o trono de Pedro e terá cumprido, no fim de seu papado, seu papel no tempo e na história.

Nizan Guanaes, 48, é publicitário e presidente da Africa Propaganda

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O sincretismo é uma das formas mais belas de não-violência. Tolo é aquele que não vê isso. Para melhor cultuar seus orixás, os negros transculturaram da África suas entidades. Para fugir da violência institucionalizada e estabelecida tomaram a via do sincretismo. Sintetizando elementos díspares, encontraram meios conciliatórios, verdadeira lição de convivência. Ainda é tempo de atentarmos para o acontecimento que o passado encerra e que o presente ainda vê, mesmo que as condições para sobrevivência do sincretismo esteja ameaçada pela intolerância de uns e de outros. Não podemos silenciar diante das formas aviltantes de perseguição que se dão no societal, afetando as relações e rompendo laços que o coração uniu e a razão validou como necessária para a convivência. Nenhuma religião tem o direito de se impor pelo anulamento de outras. O texto do publicitário baiano indica caminhos, aberturas...

Raimundo Matos de Leão

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Registro 68: Crítica de arte


Pintores Holandeses no Brasil
Em 1679 Maurício de Nassau presenteou Luís XIV com quarenta pinturas de assuntos brasileiros, declarando na carta de oferecimento ter a seu serviço em Pernambuco seis artistas pintores. Segundo o sr. Joaquim de Souza Leão Filho (The Burlington Magazine for Connoisseur, n. de março de 1942), dois teriam sido certamente Albert Eckhout e Frans Post;há dúvidas quanto aos outros quatro, que talvez fossem Zacarias Wagner, Jorge Marcgraf, Piso e Abraão Willarts. Do primeiro destes quatro se conhece um álbum de aquarelas, de interesses sobretudo etnológico; os outros eram homens de ciência, que sabiam ilustrar com desenhos e aquarelas seus trabalhos, mas não poderiam ser chamados de pintores senão por um encarecimento de Nassau, que, como sugeriu o Sr. Ribeiro Couto (Prefácio do Catálogo da Exposição Frans Post promovida em julho de 1942 pelo serviço do patrimônio Histórico e Artístico), queria.

dar mais relevo às preocupações artísticas do seu governo no norte do Brasil.

Como quer que seja, o único paisagista e o mais notável desses pintores foi Frans Post, a quem devemos, os brasileiros, a s primeiras pinturas em que se fixaram os nossos aspectos naturais, obras tanto mais interessantes, quando nelas a paisagem se enriquece de cenas e tipos da vida brasileira, ali colocados pelo artista, seja para animar a natureza com a nota humana exótica, tão apreciada pelos seus compatriotas, seja para fixar na tela o que a saudade guardara no fundo das retinas. O fato é que, tendo estado no Brasil sete anos apensa, de 1637 a 1664, Frans Post, estabelecendo-se em Harlem, de regresso à Holanda, dedicou-se exclusivamente à composição de paisagens brasileira em mais de quarenta anos de atividade artística. Os poucos quadros que pintou diretamente da observação da natureza do Brasil apresentam um colorido mais fresco e realista. Depois, na Europa, adotará um verde sombrio, que a mistura de betume fez enegrecer bastante com o tempo. Guardam contudo uma poesia penetrante: aquelas paisagens – escapadas de vale enquadradas entre árvores, coqueiros quase sempre, com a luz caindo a méis distância – e as figuras que as animam – escravos, senhores de engenho, sinhás – e as construções – casas-grandes de engenho, senzalas, capelinhas – já estão cheias. Como anotou Ribeiro Couto, do mistério na nossa nacionalidade.

Quanto a Eckhout, conhcecem-se dele vinte e quatro quadros de assuntos brasileiros, legados por Nassau a Frederico III da Dinamarca. Estão no Museu daquele país e representam vários tipos de índios e mestiços do Brasil, os naturezas-mortas, ou ainda estudos de animais.

BANDEIRA, Manuel. Artes plásticas no Brasil. In: Poesia completa e prosa. Rio Janeiro: Nova Aguilar, 1985, p.645-646

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Registro 67: Das águas

Espelho D'Água
Raimundo Matos de Leão
2000

terça-feira, 8 de maio de 2007

Registro 66: Ganhei de presente para o meu acervo















Wayne vai
Arte digital
2007

Pedro Carmo



















O homem anfibolito
Arte digital
2007
Pedro Carmo

Registro 65: Esse seu olhar...


Moça com brinco de pérola
Johannes Vermer (1632-1675)

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Registro 64: Um livro para jovens


De Cara Para o Futuro
Raimundo Matos de Leão
Ilustração de Vicenzo Scarpellin
São Paulo: Editora SM
2006, 153 p.

sábado, 5 de maio de 2007

Registro 63: Lucidez artaudiana

O Teatro Alquímico

Entre o princípio do teatro e o da alquimia há uma misteriosa identidade de essência. É que o teatro, assim como a alquimia, quando considerado em seu princípio e subterraneamente, está vinculado a um certo número de bases, que são as mesmas para todas as artes q que visam, no domínio espiritual e imaginário, uma eficácia análoga àquela que, no domínio físico, permite realmente a produção de ouro. Mas entre o teatro e a alquimia há ainda uma semelhança maior e que metafisicamente leva muito mais longe. É que tanto a alquimia quanto o teatro são artes por assim dizer virtuais e que carregam em si tanto sua finalidade quanto sua realidade.

Enquanto a alquimia, através de seus símbolos, é como um Duplo espiritual de uma operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser considerado como o Duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada, mas de uma outra realidade perigosa e típica, em, e, que os Princípios, como golfinhos, assim que mostram a cabeça, apressam-se a voltar à escuridão das águas.

Ora, essa realidade não é humana mas inumana, e nela o homem, com seus costumes ou com seu caráter, conta muito pouco, é preciso que se diga. E é como se do homem pudesse restar apenas a cabeça, uma espécie de cabeça absolutamente desnuda, maleável e orgânica, em que os princípios pudessem aí desenvolver suas conseqüências de uma maneira sensível e acabada.
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ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.49-50

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Registro 62: Sobre a fidelidade

Cisnes
Júlio Salusse (1878-1948)

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas nem espumas.

Bem cedo quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo...
Quando chegar esse momento incerto,
No lago onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo cheio de saudade
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado d’outro cisne.


SALUSSE, Júlio. Cisnes. In: RABELO, Marques (org.). Antologia Escolar Brasileira. 1 ed. Rio de Janeiro: MEC, 1967.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Registro 61: Um belo e melancólico poema

CREPÚSCULO NO RIO DO RECIFE

Rubem Rocha Filho

I
As águas tecem no frio
Cantigas de pedra e limo,
Assombro de arrimo e nuvem.
Vivos, mortos se consomem.
Os mitos revelam o rio
Areias, redes, aldeias
As vagas noites do homem
Ruas com destino ao mar.

II
Em lama o Capiberibe
Esvaziando cidades
Ramas de seus descaminhos
Tão perdidos, tão sozinhos
Une rastros e saudades.
Que haja amor ou desespero
Escorre como frágil escama
Desta tarde o navegar.

III
Pontes de casas e tempos
Sei que cantam, sei que passam,
Que os barcos têm remos graves,
Velas de silêncios pensos.
Em sonho vão respondendo
Ao desfilar deste ocaso.
Mãos de sargaço desfiam
As contas do meu pesar.
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Rubem Rocha Filho é carioca, reside em Recife desde 1968, ”mas o coração é baiano da década de 60!” afirma ele. Cursou Filosofia, é poeta, dramaturgo, diretor de teatro e escreve livros para crianças. Foi professor de muita gente pelo Brasil.

Rocha Filho é amigo do peito, daqueles guardados no “lado esquerdo”. Sua presença em minha vida foi fundamental para a minha formação.

O poema registrado na Cenadiária foi premiado na 6ª edição do Concurso Banco Real Talentos da Maturidade – 2004. Sobre a sua participação, Rubem assim se expressou: “O concurso levanta a auto-estima. É uma oportunidade maravilhosa. Fico contente com o cuidado do banco Real na divulgação do concurso e na publicação dos vencedores. Acredito que vale mais do que prêmio em dinheiro.”
Conforme os jurados, “o poema reflexivo e intenso, formalmente bem realizado, que utiliza o rio como imagem melancólica da passagem do tempo pessoal e histórico”, motivou a escolha do poeta como um dos vencedores do concurso

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Registro 60: Para não esquecer

VERDADE E MEMÓRIA DO PASSADO

GAGNEBIN, JEANNE Marie. Verdade e memória do passado. In: Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006, p. 47.

Enquanto Homero escrevia para cantar a glória e o nome dos heróis e Heródoto, para não esquecer os grandes feitos deles, o historiador atual se vê confrontado com uma tarefa também essencial, mas sem glória: ele precisa transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados. Sua “narrativa afirma que o inesquecível” (13) mesmo se nós não podemos descrevê-lo. Tarefa altamente política: lutar contra o esquecimento e a denegação é também lutar contra a repetição do horror (que, infelizmente, se reproduz constantemente). Tarefa igualmente ética e, num sentido amplo, especificamente psíquica: as palavras do historiador ajudam a enterrar os mortos do passado e a cavar um túmulo para aqueles que dele foram privados. Trabalho de luto que nos deve ajudar, nós, os vivos, a nos lembramos dos mortos para melhor viver hoje. Assim, a preocupação com a verdade do passado se completa na exigência de um presente que, também possa ser verdadeiro.

(13) Citado por Janine Altounian na sua bela coletânea Ouvrez-moi seulement les chemins d´Arménie, Paris, Lês Belles Lettres, 1990, p. 47
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Cinema e Guerra
O genocídio de Ruanda por Fernando Masini

Dois filmes recentes tratam da matança dos tútsis em 1994, em que mais de 800 mil pessoas foram mortas, sob o olhar indiferente do mundo

“Todos os grandes personagens viraram as costas para nossos massacres. Os boinas-azuis, os belgas, os diretores brancos, os presidentes negros, as pessoas humanitárias e os cinegrafistas internacionais, os bispos e os padres, e finalmente até Deus.” A constatação é de Élie Mizinge, um dos assassinos confessos hútus que participaram do massacre em Ruanda.

O depoimento deste e de outros nove hútus que pegaram em facões e porretes a fim de exterminar a etnia tútsi está no livro “Uma temporada de facões: relatos do genocídio em Ruanda”, do jornalista francês Jean Hatzfeld, lançado no Brasil em 2005. O autor teve longas conversas com os entrevistados na penitenciária de Rilima, onde todos cumprem pena pelos crimes cometidos durante o massacre.

Sete deles eram jovens amigos de colégio, encontravam-se nos cabarés de Kibungo, região pantanosa próxima à capital Kigali e trabalhavam juntos na lavoura. Impressiona a ferocidade e a franqueza dos relatos. “Primeiro, quebrei a cabeça de uma velha mamãe com uma porretada. Mas, como ela já estava deitada no chão, meio agonizante, não senti a morte em meus braços. Voltei para casa de noite sem nem pensar nisso”, revela no livro um dos matadores hútus.

As atrocidades aconteceram há 12 anos -os ataques começaram nos primeiros dias de abril de 1994-, e não houve qualquer tipo de intervenção de órgãos de segurança mundial. As tropas da ONU pouco fizeram e mantiveram postura omissa quanto à possibilidade de salvamento das vítimas.

Keir Pearson, roteirista do filme “Hotel Ruanda”, declara no material extra do DVD (disponível no Brasil a partir 20 de abril): “Quando comecei a pesquisar o assunto o que me espantou foi que a ONU sabia o que estava acontecendo, foi alertada, mas houve um esforço consciente do Ocidente em ignorar”. No filme, uma cena simboliza bem a impotência das tropas diante da milícia extremista hútu Interahamwe, que comandou a ofensiva contra os tútsis.

Integrantes hútus, amontoados no caminhão e empunhando facões, chegam perto do hotel Mille Collines, onde o protagonista Paul Rusesabagina (Don Cheadle) abriga órfãos e tútsis ameaçados pela matança. Em frente ao portão de entrada, está o coronel Oliver (Nick Nolte) com soldados boinas-azuis da ONU. Os milicianos ficam cara a cara com o coronel e gritam palavras de ordem. Para intimidar, jogam fora do caminhão um capacete azul manchado de sangue com a inscrição “United Nation”. Oliver apenas acompanha de longe a arruaça promovida por eles.

Outra tentativa de voltar os olhos ao massacre ignorado à época é o filme “Shooting dogs”, do diretor escocês Michael Caton-Jones, que estreou recentemente em Londres e já tem contrato fechado com a distribuidora Imagem Filmes para ser lançado no Brasil em agosto deste ano. Assim como “Hotel Ruanda”, a ação desenrola-se em um lugar real que serviu de abrigo aos acossados tútsis: a escola secundária Ecole Technique Officielle, com sede em Kigali.

O padre católico inglês Christopher (interpretado pelo ator John Hurt) e um jovem professor tentam a qualquer custo evitar as matanças na capital Kigali e proteger mais de 2.500 tútsis e hútus moderados que são perseguidos pelas milícias extremistas. Mais uma vez, é realçado o caráter de desamparo das vítimas. Quando chegam as tropas francesas à capital, a ordem é clara: só serão resgatados os estrangeiros brancos. Nas horas seguintes à partida dos soldados, a grande maioria dos abrigados da escola é brutalmente assassinada.

“Eu decidi que, mesmo com dificuldades, nós tínhamos que rodar o filme em Ruanda e filmar na Ecole Technique Officielle. E devíamos também fazer o filme com os sobreviventes do genocídio. Eles precisam contar suas histórias”, disse o diretor Caton-Jones. A equipe viajou ao país e passou cinco meses até terminar as filmagens em Kigali. Muitos ruandeses participaram do projeto, como Maggie Kenyama que serviu como assistente de direção. Ela perdeu a irmã durante o massacre e até hoje procura pelo corpo.

“Shooting dogs” teve sua estréia mundial em Kigali. Mais de 1.500 pessoas, dentre elas alguns sobreviventes do genocídio e participantes da produção, foram ao estádio Amahoro, na capital de Ruanda, assistir à primeira exibição do filme. Apesar de gerar discórdias por reavivar memórias de um episódio ignominioso, o presidente ruandês, Paul Kagame, mostrou-se satisfeito. “Filme como este ficará como parte de nossa memória relacionada ao genocídio, e eu acho que a memória precisa ser guardada”, disse.

Em busca de respostas

A atenção voltada ao massacre de Ruanda, mesmo que tardiamente, pretende resgatar parte da história que havia sido ignorada e também busca questionar a motivação de uma matança sem precedentes na história mundial contemporânea. Os dois filmes em questão, “Hotel Ruanda” e “Shooting dogs”, não encerram o assunto nem estão a serviço de uma tese esclarecedora das ações. No entanto, cumprem o papel de tocar na ferida e açular reflexões.

No começo de “Hotel Ruanda”, o operador de câmera de uma emissora de televisão, Jack Daglish, interpretado por Joaquim Phoenix, puxa conversa no bar com um jornalista renomado de Kigali, interpretado por Mothusi Magano. Ele pergunta “qual a verdadeira diferença entre um hútu e um tútsi”. O jornalista responde que “segundo os colonos belgas, os tútsis são mais altos e elegantes” e, por fim, diz: “Foram os belgas que criaram essa divisão”.

Na tentativa de encontrar no passado alguma resposta que possa elucidar esse conflito entre as etnias, o jornalista francês Jean Hatzfeld, autor do livro “Uma temporada de facões”, alerta para a revolução popular de 1959 que resultou na independência do país em 1962. Foi uma revolta camponesa hútu que derrubou a aristocracia tútsi e aboliu a servidão. Os líderes dessa insurreição aproveitaram a situação para marginalizar a comunidade tútsi, formada por camponeses, funcionários e professores.

Sob o domínio dos hútus, os tútsis passaram a ser apontados como pérfidos e parasitas num país superpovoado. Em 1973, com o golpe do major Juvénal Habyarimana, a autonomia de administração hútu consolidou-se e gerou bastante desconforto à população tútsi. Ficou instituído o confisco de bens, o deslocamento da população, a fim de isolar o inimigo, além de ter sido aprovada uma lei de proibição de casamentos mistos entre as duas etnias.

O estopim que pareceu deflagrar definitivamente o conflito aconteceu em 6 de abril de 1994, quando o presidente hútu de Ruanda, Habyarimana, foi morto após a explosão do seu avião. Imediatamente a autoria do atentado recaiu sobre os tútsis. A matança iniciou-se na mesma noite na capital Kigali. O resultado seria um total de 800 mil pessoas –entre tútsis e hútus moderados– mortas em 12 semanas.

Nos depoimentos dos matadores entrevistados por Hatzfeld no livro, tende-se a pensar numa ação premeditada e anterior à morte do presidente. “Em 1991, nos jornais militares o tútsi era apontado como o inimigo natural do hútu que precisava ser eliminado definitivamente. Estava escrito em letras garrafais na primeira página. Com o tempo, o alvo foi sendo pouco a pouco difundido nas estações de rádio”, disse um dos hútus que participaram da matança.

Não à toa as primeiras falas do filme “Hotel Ruanda” são ameaças veiculadas numa estação de rádio. Segundo Hatzfeld, as mensagens transmitidas por rádio tiveram papel fundamental para inflamar os ânimos dos assassinos. “Nos estúdios das rádios populares, como a Rádio Ruanda ou a Rádio Mil Colinas, os tútsis são chamados de ‘baratas’. Apresentadores famosos, como Simon Bikindi e Kantano Habimana, pregam abertamente a destruição dos tútsis”, escreveu o autor.
Até o fim do massacre, por volta de 14 de maio, os hútus, acostumados ao trabalho árduo nos bananais e nos cafezais, haviam trocado as atividades pela rotina de matar diariamente. Como declaram no livro de Hatzfeld, era uma tarefa mais lucrativa, que trazia fartura para dentro de casa, pois não se preocupavam mais com a seca e as colheitas perdidas e acumulavam bens com as pilhagens.

Mesmo os hútus moderados, que não compartilhavam da idéia do genocídio, sofreram ameaças por não colaborarem e alguns foram mortos. Muitos desertores tinham de pagar multas em dinheiro ou eram obrigados a matar como forma de provar sua fidelidade às autoridades policiais. É o que ocorre, em certo momento do filme “Hotel Ruanda”, com o personagem Paul Rusesabagina, cuja esposa era tútsi.

Ele implora a um oficial do exército hútu para não matar sua mulher e outros vizinhos tútsis que estão jogados no chão. O militar oferece-lhe a arma e ordena: “atire neles”. Paul diz que não sabe usar armas e promete retribuir com dinheiro, caso o oficial deixe os amigos em paz. “Quem hesitasse em matar, por causa de sentimentos de tristeza, tinha de disfarçar suas palavras a todo custo e não dizer nada sobre a razão de sua reticência, sob pena de ser acusado de cumplicidade”, disse Pio Mutungirehe em depoimento no livro de Hatzfeld.

Por mais que o autor e jornalista francês tenha se lançado numa obsessão a fim de compreender o genocídio em Ruanda - é seu segundo livro sobre o assunto-, as respostas parecem escorregar entre seus dedos. Um dos entrevistados, Joseph-Désiré Bitero, respondeu-lhe: “A fonte de um genocídio o senhor jamais verá, está enterrada bem fundo nos rancores, sob um acúmulo de desentendimentos dos quais herdamos o último. Chegamos à idade adulta no pior momento da história de Ruanda, fomos educados na obediência absoluta, no ódio, fomos entupidos de fórmulas, somos uma geração sem sorte”.

Fernando Masini
É jornalista.
_________________________
Além do filmes citados por Masini, acrescento Abril Sangrento - Sometimes In April.
Ano de Produção: 2005
País de origem: EUA/França
Gênero: Drama
Duração: 140
Direção: Raoul Peck.
Elenco: Idris Elba, Oris Erhuero, Noah Emmerich, Debra Winger, Carole Karemara.
Em abril de 1994, o mundo foi testemunha de uma das maiores atrocidades já registradas: o genocídio em Ruanda, na África. As vidas de dois irmãos da etnia hutu, um militar e outro locutor, nunca mais seriam as mesmas após estes trágicos acontecimentos.

O livro de Jeanne Marie Gagnebin é permeado de ensaios sobre a rememoração. Transitando pelo pesamento de Ricouer, Benjamin, Adorno, indo a Kafka e a Proust, a autora presta uma contribuição sensível aos estudos filosóficos. Envolvendo o leitor em sua reflexão erudita, mas não empolada, Gagnebin oferece a chave para entramos em seus textos de maneira dialogante. A sua escrita não petrifica o pensamento, já que ele nos chega de maneira viva, chamando a atenção para o esquecimento, morte da memória. Sua reflexão caminha no sentido de nos fazer lembrar.

Vale a pena entrar em contato com Lembrar escrever esquecer. Sua leitura nos ajuda a pensar sobre os acontecimentos que assombram o presente, mas que às vezes são relegados como distantes, passados. Sem querer,tal atitude contribui para o inferno da repetição. A cada momento nos defrontamos com acontecimentos que retornam, como se fruto da incapacidade de olharmos as cicatrizes.

A reflexão a partir de Gagnebim nos deixa em estado de alerta para não jogarmos no lixo os "fatos", mesmo que exista a possibilidade deles serem recolhidos pelo catador de detritos, o historiador não positivista. A tarefa de recolher o descartável não deve ser delegada a quem lembra e escreve profissionalmente, mas a todos nós capazes de contar, de narrar.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Registro 59: O cenógrafo do moderno teatro brasileiro

Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Direção de Ziembinski, Cenário de Santa Rosa

CONTRIBUIÇÃO DA CENOGRAFIA AO TEATRO MODERNO

Pouco podemos saber de decoração de teatro, se seguirmos a nossa tradição, porque em nossa história dramática, o seu lugar foi sempre muito exíguo. Seria admirável podermos encontrar dados do interesse maior de artistas brasileiros, até hoje, pela magia da decoração de teatro, porém, é de poucos anos que data a preocupação de criar a atmosfera cênica, é bastante recente o cuidado de dotar o espetáculo de um dos seus elementos essenciais.

Falo da sua importância, sem exagero, pois um cenógrafo falando de cenografia, parece sempre querer conduzi-la ao eixo da criação dramática.

Na medida em que uma fotografia pode significar o Ser o cenário retrata o Drama, e o ideal seria que depois das três pancadas de Molière, aberto o pano de boca penetrasse o espectador, de imediato, no sentido espiritual do texto dramático através da poderosa sugestão do clima cenográfico.

Isso é possível, será possível atingir, de tal modo o cenário está vinculado ao mais íntimo da concepção do dramaturgo. Ainda no limbo da criação, quando a ação dos personagens começa a esboçar-se e procura estender a trama de sua aventura, num espaço real ou arbitrário, toda a seqüência desses movimentos determinados pela ação contida nos diálogos, vai ao mesmo tempo criando as dimensões e a cor do cenário.

E ele é tão importante na sua ligação orgânica com o drama que mesmo em sua ausência material quando não está representado por pintura ou construção que o identifique, ele existe. É como o suporte da realização dramática. Uma parede lisa, uma cortina, a caixa vazia do teatro, podem tornar-se cenários expressivos.

ROSA, Santa. Teatro realidade mágica. Rio de Janeiro: Ministério da educação e Saúde, Serviço de Documentação, s.d.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Registro 58: Interculturalidade

Meu avô era baiano,
O outro, alemão.
Meu padrinho era mulato,
Minha tia, loira de olhos azuis.
E os dois formavam o par
Mais lindo da minha infância.

Ivone Mendes Richter
*******
Epígrafe do primeiro capítulo do livro Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais. O texto é fundamental para os estudantes de arte, arte-educadores e outros profissionais da educação. Vale a pena passear pelas páginas da autora e ver como ela pensa o esnino das artes visuais na perspectiva da interculturalidade, com foco na estética feminina do cotidiano, tomando como base a escola e o contexto onde ela se encontra.
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RICHTER, Ivone Mendes. Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais.
Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003.

domingo, 29 de abril de 2007

Registro 57: Contribuição de Teresa Bilotta


Hora Extrema

Mario Le Sénéchal

À Carmen

Quando chegarmos ao fim desta jornada,
Cansados pela longa caminhada,
Vergados pelos anos e fadigas...
Trocaremos o beijo derradeiro,
Lembrando aquele – o primeiro –
Que fez nossas almas amigas.

Eu hei de ficar mudo nesse instante,
Fitando, comovido, o teu semblante,
Lembrando-te mocinha e venturosa,
O idílio feliz, o casamento,
Os sonhos que se foram com o vento,
Tua alegria de mulher ditosa!

Depois perguntarei com a voz sumida,
Como se fora um náufrago da vida:
– Dize-me, meu amor, amas-me ainda ?
E tu, embranquecida e cortejada,
Verás no meu semblante iluminada
A promessa de amor que não se finda!

Mario Le Sénéchal foi bancário. Aposentou-se como funcionário do antigo Banco do Estado de Minas Gerais, atual Real. Foi violinista e poeta amador.
________________________________
Fonte: Teresa Bilotta, sobrinha-neta do autor.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Registro 56: Dois poemas

As respigadeiras, Millet
**************
Fernando Pessoa (Lisboa, 13/6/1888 – 30/11/1935)


Ela canta, pobre ceifeira (1914) – Cancioneiro

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ’stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!


Pessoa, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, 1 v.

___________________
A CEIFEIRA SOLITÁRIA

(William Wordsworth)

No campo, vede-a, tão sozinha;
ceifa e canta só para si –
das terras altas a mocinha!
Quem vem ou vai, que pare aqui!
Corta, sozinha, e empilha o grão,
e canta uma triste canção.
Oh, ouvi! que sobre o fundo vale
seu belo cântico se exale.

Jamais cantou um rouxinol
notas mais doces aos viajantes
da Arábia, que fugindo ao sol
buscam as sombras refrescantes:
com mais doçura ou amavio
não canta o cuco num estio,
rompendo a plácida quietude
do oceano ao longe e da amplitude.

Quem me dirá o que ela canta?
Talvez que falem essas notas
de velha coisa, que quebranta,
e antigas pugnas e derrotas:
ou será só o humilde cantar
de algum assunto familiar?
De alguma perda, algum sentir
que já se foi, ou pode vir?

Fosse o que fosse, ela cantava
uma cantiga prolongada,
e em seu trabalho eu a escutava,
sobre uma foice recurvada;
eu a escutava, imóvel, quieto;
e por longo tempo, enquanto ia,
levei o canto no meu peito,
depois que já não mais o ouvia.

(Tradução de Renato Suttana)

Registro 55: Cenas de cinema


Deus e o Diabo na Terra do Sol, Othon Bastos






Central do Brasil, Vinícius de Oliveira e Fernanda Montenegro













Rocco e Seus Irmãos, Renato Salvatore e Alain Delon













O Pagador de Promessas, Leonardo Vilar


Macunaíma, Grande Otelo

O Leopardo, Claudia Cardinale,Paolo Stoppa e Alain Delon


Butch Cassidy, Robert Redford e Paul Newmann













quinta-feira, 26 de abril de 2007

Registro 54: Comédie-Française


O interior do Comédie-Française em Paris, onde se pode ver o palco, os camarote, galerias e fosso da orquestra, a partir de uma aquarela do século XVIII.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Registro 53: Desenho de criança















Menina
Sônia Szmid, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)



















João Minhoca
Dora Zinger, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)








Jacaré
José Guilherne G. Guerra, 4 anos
Jardim de Infância do C. A. Paulistano (SP)




Os postais com desenhos de crianças são presentes que recebi de Fanny Abramovich e foram feitos pela Giroflé, uma editora voltada somente para literatura infantil em São Paulo nos idos de 1964 / 1965.

Os donos, conforme Fanny eram três portugueses incríveis: Fernando Santos Costa que mora em Portugal e é responsável pelo site Vidas Lusófonas, Fernando Lemos, artista plástico e gráfico e o falecido poeta Sidonio Muralha.

Fanny Abramovich foi assessora pedagógica da Giroflé, editora responsável pelo lançamento de apenas cinco títulos, entre eles Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles. Coube a Fernando Lemos inventar e organizar três séries de cartões com desenhos de crianças.

Não lembro mais como chegaram ou como pegamos, mas ajudei a selecionar centenas de milhares... Os envelopes, o projeto gráfico era todo dele [Fernando]... Quem envelopou, pasme, foi o Luís Carlos Lamego, que virou boy da Editora... (!!! as coisas que consigo...). Se mostrar pra ele, acho que vai orgasmar,

informa Fanny na mensagem que me enviou em 20 de abril de 2007. Generosamente, a presenteadora se manifesta da seguinte maneira: “Só tinha esta última coleção guardada, mas como você coleciona e eu não, te presenteio com prova do meu passado... viu o que é querer bem???”



Sei bem o que é ser querido! Ainda mais pela Fanny, admirável!

Os postais estão guardados carinhosamente. Da série que ganhei, reproduzo quatro imagens, embora esteja grafado no verso dos postais: "reprodução proibida". Penso que os ex-donos da Giroflé e os autores dos desenhos não vão questionar a lembrança-homenagem. Publicá-las na Cenadiária é divulgar um trabalho importante e reafirmar a necessidade do desenho no espaço educativo. As imagens foram produzidas por crianças de diversas escolas paulistanas na década de sessenta. Elas são iluminações de um tempo tão sombrio...

Para completar esse registro, transcrevo um trecho do livro O espaço do desenho: a educação do educador, de Ana Angélica Albano Moreira (2002, p. 15):

Toda criança desenha.

Tendo um instrumento que deixe uma marca: a varinha na areia, a pedra na terra, o caco de tijolo no cimento, o carvão nos muros e calçadas, o lápis, o pincel com tinta no papel, a criança brincando vai deixando sua marca, criando jogos, contando histórias.

Desenhando, cria em torno de si um espaço de jogo, silencioso e concentrado ou ruidoso seguido de comentários e canções, mas sempre um espaço de criação. Lúdico. A criança desenha para brincar.

Desenhar é bom para tirar as idéias da cabeça. Porque sempre que a gente tem uma idéia, a gente quer ter ela, brincar com ela, aí a gente desenha ela”. Observou Eduardo (8 anos).

O desenho como possibilidade de lançar-se para frente, projetar-se.



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MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyola, 2002.