domingo, 11 de novembro de 2018

terça-feira, 21 de agosto de 2018


"As revoluções não levam a lugar nenhum. A única revolução que a humanidade poderia fazer era conseguir que as pessoas se tornassem mais humanas. Não se pode construir o bem com o mal".

Matéi Visniec (dramaturgo romeno radicado na França. Trecho de sua peça "Nina ou a fragilidade das gaivotas empalhadas)


domingo, 19 de agosto de 2018

HOJE É O DIA DO ATOR.


" QUERIA QUE O PALCO FOSSE UMA CORDA ESTICADA ONDE NENHUM INCOMPETENTE OUSASSE CAMINHAR"

GOETHE

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

domingo, 12 de agosto de 2018

 Comemorando o dia dos pais,  eu, Eliana e nosso pai Roque. Foto feita em Ipirá, Bahia, provavelmente em 1972 ou 73.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

....já não há palavra capaz de comunicar o que não se quer ouvir

                                                                       Bernardo Carvalho

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Registro 465: Lembrando Vinicius de Moraes




Texto publicado no Facebook em 19 de outubro de 2015

Tinha como propósito escrever sobre a decisão da Comissão de Direitos Humanos de proibir a presença de homossexuais em templos evangélicos e católicos. Mais uma insanidade comandada pela tropa nazifundamentalista encastelada na Comissão, por uma conluio entre as forças progressistas (?) e direita mais xiita deste país sem jeito. Um descuido, e a qualquer hora vão obrigar o uso do triângulo rosa na lapela. Assim fica mais fácil apedrejar os indesejados. Mas não vou dar trela a essa gente estúpida que anda com vontade de poder. Vade retro!
Quero falar mesmo é do poeta que faria 100 anos no dia de hoje, o poetinha Vinicius de Moraes, de quem guardo uma lembrança inestimável. O que relato aqui faz parte das minhas memórias, mas contá-lo ele se torna história.
Corria o ano de 1974. Por volta de novembro, fui convidado pelo diretor baiano Álvaro Guimarães para compor o elenco de As Feras, texto de Vinicius de Moraes a ser produzido por sua mulher na época, a atriz Gesse Gessy. Eu acabara de fazer Titus Andronicus, a tragédia de Shakespeare encenada na Escola de Teatro da UFBA sob a direção de José Possi Neto e com planos de residir em São Paulo para fazer carreira como ator. Um sonho acalentado desde criança, quando vi os primeiro filmes no Cine Teatro Cliper em Ipirá, propriedade de meu pai.
Ainda que o papel em As Feras fosse pequeno, eu desejava trabalhar sob a orientação de Álvaro Guimarães e em companhia de um elenco de atores baianos experientes, Jurandir Ferreira, Mário Gadelha, Waldemar Nobre, Fernando Lona, Armindo Bião, entre outros. O elenco feminino contava com Gesse Gessy como protagonista e a competentíssima Sônia dos Humildes. Completavam o elenco, a jovem Hebe Alves, Carlos Nascimento e eu.
A ação de As Feras se passa no Rio de Janeiro num canteiro em construção reunindo operários nordestinos divididos em dois grupos rivais. Por um flashback, o público toma conhecimento dos motivos do desentendimento entre os grupos, causa de desfecho trágico.
Começamos os ensaios, com estreia prevista para meados de janeiro estendendo-se por algumas semanas de fevereiro, num espaço cenográfico criado por Calazans Neto em uma garagem situada à Rua dos Ingleses. Fizemos as primeiras leituras sem que houvesse o ator para o personagem Isaías Grande, o protagonista. O elenco sugeriu nomes, o diretor buscava outros e duas semanas depois, Vinicius de Moraes foi ao ensaio. Ouviu a leitura e ao final, a conversa sobre a falta do ator retornou. Depois de escutar uns e outros, Vinicius surpreende todos nós dizendo que havia um ator para o papel. Fez-se silêncio expectante e ele apontou para mim afirmando que eu faria Isaías Grande.
Se para mim o impacto foi transtornante, para os meus colegas foi como se uma bomba estourasse na sala. Ninguém disse nada, até que eu aleguei não ter a idade para o personagem; que eu era um ator recém-saído da Escola. Usei de outros argumentos, mas não houve jeito. Aceitei a escolha do autor. Terminado o ensaio, tentei convencer Álvaro Guimarães de esquecer tal empreitada. Em vão. Fui para casa. Durante o trajeto, mesmo tempo temeroso, eu me sentia envaidecido. Mas a pergunta fatal rondava. E se eu não desse conta do papel? Conciliar o sono foi uma barra. Ao acordar disse para mim mesmo que agarraria a oportunidade com unhas e dentes.
Na estreia, ao findar o espetáculo, o poeta veio até mim e me abraçou afetivamente elogiando a minha atuação. Soube então que eu dera conta do recado. Ao escrever sobre As Feras, Sostrátes Gentil não poupou elogios ao meu trabalho e aproveitou para comentar o meu desempenho em Titus. Logo depois, passando férias em Salvador, o diretor paulista Emílio Di Biasi comentou meu desempenho para Possi e este revelou que eu estava de viagem marcada para São Paulo com o intuito de fazer teatro. Pronto, ganhei meu passaporte. No final de fevereiro desembarquei em Sampa e tive o maior apoio de Emílio. Ele veio a ser um dos grandes amigos paulistanos.
Sou devedor do poeta. A ele, minha homenagem e gratidão no dia de seu aniversário. Cito Vinicius “Mesmo que as pessoas mudem e suas vidas se reorganizem, os amigos devem ser amigos para sempre, mesmo que não tenham nada em comum, somente compartilhar as mesmas recordações, pois boas lembranças, são marcantes, e o que é marcante nunca se esquece! Uma grande amizade mesmo com o passar do tempo é cultivada assim!’’

sábado, 7 de novembro de 2015

Registro 464: Um pássaro na mão e muitos voando




O pássaro adentrou a sala num voo claudicante. Pensei estar muito assustado. Por fim, ele pousa na moldura de um quadro incorporando-se a paisagem pintada e ficou ali olhando a parede. Achei estranho, tanto a posição quanto a sua quietude. Passado um tempo, deixei a sala sem perturbá-lo, na esperança de que a ave encontrasse a saída.

O tempo passou...

Retornando para a sala, não encontrei o pássaro no lugar onde o havia deixado, mas prestando mais atenção ouvi um barulho de asas. Um barulho aflito. Ainda mais atento, percebi que a ave estava atrás da cortina e presa entre o vidro e a grade pantográfica. Aproximei-me cautelosamente e cuidadosamente retirei-o daquela prisão. Ao entrar em contato com a minha mão e depois de ter alisado a sua cabeça, o pássaro acalmou-se. Fiz a foto e soltei-a pela janela por onde tinha entrara.

Em vez de voar como eu esperava, momentaneamente, ela ficou parada na palma da minha mão, com o se não soubesse o que fazer. Em seguida voou. Pelo bater das asas vi que estava machucada. Insegura, a ave pousou num carro estacionado no outro lado da rua. Fiquei olhando-a preocupado com seu destino. Está é a história do pássaro em minha mão.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Registro 463: Sobre "Hereges" de Leonardo Padura


"Para ele, vendo sua obra (de Rembrandt), uma coisa ficou evidente: a arte é poder. Só isto, ou especialmente isto: poder. Não para dominar países e transformar a sociedade, para provocar revoluções ou oprimir os outros. É poder para tocar a alma dos homens e, ainda, deixar nela as sementes de seu aprimoramento e felicidade".

O texto foi transcrito de "Hereges", romance do cubano Leonardo Padura. Ao encontrar o parágrafo dentre os muito que gostaria de transcrever, escolhi este por sua dimensão e porque diz aquilo que penso sobre o papel da arte, ontem e hoje.


O livro de Padura é essencialmente sobre a liberdade, o livre arbítrio em qualquer circunstância. Esta proposição, vinda de uma cubano contemporâneo torna-se imensa no que ela tem de real ou diz sobre o real. Três personagens (um judeu, uma garota cubana que é "emo" e um judeu sefardi discípulo do pintor holandês Rembrandt, portanto vivendo no século XVII) lutam pelo direito de escolha independente de mestre, seja ele político, religioso, etc. São 503 páginas lidas com vontade sôfrega, maneira que temos de controlar para saborear o texto, sem que se perca a beleza da escrita e a envolvente ação. 

sexta-feira, 8 de maio de 2015

domingo, 26 de outubro de 2014

Registro 461:Bom teatro para se ver




Faz tempo que não vejo um espetáculo tão inventivo e bem realizado como "E se elas fossem para Moscou", direção de Christiane Jatahy, baseado em "As três Irmãs" de Anton Tchekhov, uma dos acontecimentos do Festival Internacional de Artes Cênicas - Bahia. A mecânica da encenação se dá de maneira orgânica e todas as opções da direção nos levam para o interior da montagem. Não há sobras nos efeitos cênicos construtores de uma teatralidade fortemente marcada por rupturas. Esgarçamentos que se integram de maneira que possamos acompanhar atentamente a ação desencadeada pelas três maravilhosas intérpretes coadjuvadas por atores/técnicos. Tanto eles quanto elas são encarregados juntamente pelos deslocamentos do cenários, dos objetos e da filmagem, bem como da trilha sonora. Ao mesmo tempo em que a cena acontece em tempo real, noutro espaço, outro grupo de espectadores acompanha aquilo que vai sendo registrados pela câmeras. Estes lugares e a interação entre duas linguagens traduzem as preocupações da encenadora, a revelação dos não lugares interiores e dos exteriores. Como no texto "As três irmãs", o desejo de mudança se configura sem que se realize. Moscou, o sonho de uma nova vida, o salto no abismo, se apresenta como uma possibilidade, mas a sua não concretização desencadeia a angústia das personagens dissecadas a cada instante. Ao dizer sobre a angústia não afirmamos ser o espetáculo um mergulho no drama. Como em Tchekhov, a vida se arrata entre grandes e pequenos gestos, ora tensos, ora cômicos. Entre os felizes achados da encenadora ressalto a envolvente festa de aniversário momento em que o público deixa de ser espectador para fazer parte do drama, como convidados da festa da aniversariante Maria (Macha na versão russa) remetendo a princípios do realismo histórico relido sob as lentes da contemporaneidade reveladora de signos que se movem todos na mesma direção. Vale conferir "E se elas fossem para Moscou" um teatro filho do tempo e da história, uma leitura originalíssima de "As três irmãs", demonstração da atualidade do autor, ele que nos legou textos profundamente humanos. "Para Moscou, para Moscou" a fala final do original, ainda que não seja dita em cena, fica ressoando em nossas mentes, E nós que desejamos as nossas idas para Moscou somos empurrados pelo passado e assustados diante da vertigem do futuro...Pra Moscou 

domingo, 31 de agosto de 2014

Registro 460: Um bom programa


CINE-TEATRO ESCOLA
Escola de Teatro - UFBA

http://cineteatroufba.blogspot.com.br/

Abertura, 8 de setembro às 18h
Teatro Martim Gonçalves

sábado, 19 de julho de 2014

Registro 458: Legado de João Ubaldo



Não escreverei sobre João Ubaldo. Seus amigos disseram tudo o que tinham para dizer sobre este escritor que nos deu "Viva o povo brasileiro". Eu quero agradecer ao João. É assim que vou tratá-lo de agora em diante. Valho-me da condição de baiano para tomar tais intimidades com alguém do porte dele. Mas João não era homem de pabulagens (para quem não conhece o vocábulo, segue o que diz o Houaiss: confiança excessiva em si mesmo; fatuidade, presunção,atitude de quem conta bravatas; fanfarrice). Por este motivo tomo confiança.


Mas eu disse inicialmente que não escreveria sobre este autor que vindo de Itaparica, o amor que fica, nos deixou um texto profundamente coerente e crítico sobre as maluquices que rondam a nossa vida aqui na pátria amada, idolatrada, salve, salve.


Em "O correto uso do papel higiênico" (A Tarde, 19.07.2014), ele coloca o dedo na pretensão que setores da sociedade civil, mancomunados com o poder federal em suas diversas instâncias, insistem e, às vezes conseguem, em normatizar a vida com sua leis. E o escritor enumera as que estão em vigor, como a tal leia da palmada, a proibição de venda de doces e outras guloseimas ajuntadas com brindes, entre outras.

Se assim continuarmos, diz o João Ubaldo: "Não parece estar longe o dia em que a maioria das piadas será clandestina e quem contar piadas vai virar um espécie de conspirador, reunido com amigos pelos cantos e suspeitando de estranhos."

E ele segue de maneira humorada apontando os possíveis hábitos, comportamentos e etc. que podem ser regulamentados por lei. Por fim, João conclui:

"Por enquanto, não baixaram normas para os relacionamentos sexuais, mas é prudente verificar se o que vocês andam aprontando está correto e não resultará na cassação de seus direitos de cama, precatem-se".

Nada mais sábio nos deixa o João, amigo de Glauber e de Luiz Carlos Maciel quando este vivia na pensão de Dona Lúcia.

Eu estou com João e também com Jô Soares quando diz:

"Politicamente correto é a coisa mais careta, mais reacionária que tem."

Coitado do povo brasileiro! Também, sem educação, cai em cima dele a coerção. Haja lei!

quinta-feira, 27 de março de 2014

Registro 454: O DIA DO TEATRO

Não é o dia do ator, mas o dia do teatro, 27 de março. Um dia que vai findando, mas nesta hora em que muitos artistas estão no palco, cabe ainda homenagear do Dia do Teatro com o poema de Brecht.


VOCÊS VIERAM FAZER TEATRO?PRA QUE??

Brecht

Vocês vieram fazer teatro. Uma pergunta: para que?
Vocês vieram mostrar ao público o seu talento, então vocês se apresentam como fenômenos…
 Do público, vocês esperam que ele aplauda vigorosamente, arrebatado de seu mundo para vasto universo, provando com vocês a vertigem das grandes alturas e as paixões em seu paroxismo.
 Mas agora uma pergunta: Pra que?
 Lá embaixo, na plateia, uma questão explode:
 obstinadamente  alguns exigem
 que vocês não se limitem  a se exibir
 mas lhe mostrem o mundo.
 De que nos servem, dizem eles,
 Ver sempre como fulano sabe ficar triste
 e beltrano cruel,.
 ou o rei perverso que cicrano interpreta?
 Qual o objetivo dessa eterna exposição de
trejeitos  e convulsões de alguns indivíduos?
 Você, ator, deve,  antes, de qualquer um,
 dominar a arte de observar (…)
E seu aprendizado deve começar entre os homens.
 Que sua primeira escola seja seu lugar de
 trabalho, sua casa, seu quarteirão.
 E a rua, o subúrbio, as lojas.
 E ai observe cada um.
O estranho como se ele fosse conhecido
 e  o conhecido como se fosse estranho (…)
 E observa mal quem de suas observações
 não  sabe o que fazer.
 E ninguém consegue uma visão precisa do homem
 Se ignorar que o homem é o destino do homem (…)
 Assim, vocês podem, atores
 aprendendo e ensinando, por seu trabalho criador,
 intervir em todas as lutas dos homens do seu tempo.
 E também, pela seriedade do estudo e serenidade do conhecimento,
 ajudar, a fazer da experiência

 da luta pelo bem de todos e da justiça, uma paixão

sábado, 8 de março de 2014

453: Sobre o carnaval em SalvaDOR

Comentar o carnaval em Salvador é chover no molhado. Há os que gostam incondicionalmente e não estão nem aí para os desmandos das empresas que visam somente o lucro, cometendo abusos como impedir foliões de beberem a marca da sua cerveja preferida. E tudo isso com o aval do poder público avalizador dos desmandos.

Em nome da rentabilidade da festa, passam por cima de tudo e tudo permanece como "dantes no castelo de Abrantes". A cidade foi alaranjada sobre pressão, uma versão do capitalismo mais selvagem. E a pérola da "sabedoria" ficou por conta do cantor do Pisirico, ao dizer que sua música era uma resposta ao capitalismo. É capaz de virar tese de sociologia. Só rindo! Ah, os antropólogos do lugar também podem orientar teses sobre músicas e comportamentos carnavalescos.

Ninguém precisa ser um estrategista para ver que o circuito Barra-Ondina já não suporta a avalanche de camarotes, postos policiais, banheiros, barracas e outras parafernálias de prejudicam os moradores da região, a maioria ilhada durante mais de uma semana. Famílias, algumas com seus idosos e enfermos, muitas sem condições de sair da cidade são obrigadas a aguentar o mau cheiro, os decibéis dos trios, que de trios-elétricos não nem mais nada. 

As música que fazem sucesso são de uma baixaria atroz. Letras preconceituosas, rebaixam a mulher à condição de objeto. O pior é que muitas não conseguem perceber o teor machista e violento das letras. Não tenho nada contra a festa da carne, carnaval é isso mesmo. Mas ultrapassamos o limite da civilidade. Tudo é de uma grossura extremada. Somente um cérebro de ostra, desejoso do sucesso a qualquer preço faz uma coisa chamada Lepo lepo.

Alguns textos foram escritos sobre a festa. O do jornalista Chico Castro Jr. é muito bom, publicado na edição de 02 de março.. Cito o último parágrafo:

"Mas como um exemplo, deixo uma reflexãozinha rápida e certeira sobre Raiz de Todo Bem, hit de Saulo Fernandes. nada contra o rapaz. Até aprecio sua vibração caymminiana-hipster-telúrica. Mas é que é estranho tanta gente bem informada deslumbrada com a música, como se fosse um prodígio de criatividade. Gente, olha só: em coisa de um minuto, o rapaz consegue rimar "África-iô-iô" (hein?) com "Salvador" e "meu amor". "Fé" com "candomblé". E "Nordeste" com "caba da peste". Precisa mesmo dizer mais?"

E o que dizer da canção  "essa mulher quer montar em cima do meu cavalinho, mas quem dá palmadinha sou eu"? 

Hoje,  8 de maio, o jornal A Tarde publicou três textos sobre o carnaval. Luiz Mott. Walter Queiroz Jr. e Dimitri Ganzelevitch escrevem sobre o carnaval. São visões diferenciadas, cabendo ao leitor apreciá-las criticamente.

O circuito do Campo Grande até a Praça Castro Alves vai sendo morto a cada ano. O circuito já não dá tanta grana.

Chega! Em junho tem mais carnaval. Mas junho não se faz os festejos joaninos? Tolice. Todas as medidas são tomadas nos gabinetes e implantadas de maneira autoritária, não importa o partido no poder. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Registro 452: Pensamento lúcido e esclarecedor

BRASIL EMBRUTECIDO[1]

Jânio de Freitas

           Um homem espera, sozinho, o ônibus que o levará para casa. Dois carros param diante dele. Os homens que descem o massacram furiosamente com barras de ferro. Até reduzi-lo a um monturo de sangue e carne sem vida. Entram nos carros e vão embora.
           A fúria assassina desses agressores está abaixo da mais primitiva desumanidade. Mais uma briga de torcida, como disse a notícia? "Torcedores do São Paulo agrediram um torcedor do Santos, que morreu." Nem como hipótese.
           Estamos, no Brasil, em um agravamento da brutalidade que não cabe mais nos largos limites do classificável como violência urbana. E não basta dizer que nada é feito contra tal processo. O que se passa, de fato, é que nem sequer o notamos. Convive-se com o agravamento como uma contingência incômoda, em seus momentos mais gritantes, mas natural, meras desordens da desigualdade social.
           Nada a ver com a perversa desigualdade social. O homem massacrado por vestir a camisa do Santos era portador da desigualdade como o são os monstros que vestiam a camisa do São Paulo. Os bandos criminosos que voltaram a digladiar-se em algumas favelas do Rio formaram-se e vivem nas mesmas misérias da desigualdade social.
           O agravamento da brutalidade no Brasil é um processo em si mesmo. E não está só nos territórios da pobreza. A própria incapacidade de percebê-lo é um sintoma do embrutecimento sem distinções sociais, econômicas e culturais. Outros sintomas poderiam ser notados – na deseducação, no rebaixamento individual e coletivo dos costumes, em muito do que os meios de comunicação tomam como modernidade, na política. Até onde a elevação do trato entre suas excelências parecia inexaurível – no Supremo.
           Um homem espera um ônibus que o levará para casa. Onde nunca mais chegará. E onde o esperavam um filho de meses e a mulher. Mais uma banal tragédia para duas pessoas, às vezes são quatro, podem ser sete nas casas dos Amarildos? Sem interesse político para explorá-lo, será só isso mesmo, "mais uma briga de torcida que acaba em morte". É, no entanto, um gigantesco questionamento ao país e à sua perdição cega e surda, embalada pela degeneração de suas "elites", todas elas.
         Briga de torcida? Bandos de criminosos estão agora atacando a polícia, no que assim representa a segunda fase --a da reação-- do programa de UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora cuja instalação em cidadelas do crime restaurou muito do Rio. No país todo, qualquer incidente, inclusive se provocado por bandos criminosos em disputa, leva à interrupção de ruas e estradas, incêndios de ônibus e carros, já também de moradias destinadas à própria pobreza. A internet convoca sem cerimônia e sem restrição para violências, não lhe bastando os brasileiros, também contra os estrangeiros que venham à Copa e até contra times.
           À espera do ônibus ou dentro do carro, branco, negro, pobre, rico: o Brasil se embrutece. E o Brasil nem sequer se nota.



[1] Folha de S. Paulo, 26 de fevereiro de 2014.