quinta-feira, 13 de junho de 2013
quinta-feira, 23 de maio de 2013
Registro 430: MUST - Fala Baixo Senão Eu Grito
Idealizada e realizada pela Kalik Produções Artísticas, a 3a. Mostra Universitária de Teatro - MUST, acontece na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, contando com 13 espetáculos: Anti-Nelson Rodrigues - UESB, Quê Onde - UFG, Só Não Viu Quem Não Quis - UFRJ, Fala Baixo Senão Eu Grito - UFBA, Um Lugar Para Ficar em Pé - UFC, As Pererecas - Com o Se Tornar Uma Besta - UFMG, A Rampa - UFBA, Lumus - UFBA, Amnésis - UFBA, Propriedade Condenada - UFBA, Trançados de Memória de Uma Atriz-Brincante - UFBA, Estilhaços e Algo Assim, PAP, O Rio, UNESP. A programação incluí a leitura dramática do texto de Diego Pinheiro, O Sol de Dezembro. Atividades formativas completam o quadro deste evento em sua terceira edição.
O valor do acontecimento é inegável, visto que seu objetivo principal é mostrar ao público interessado os espetáculos produzidos no âmbito das universidades brasileiras.
É presente na programação a diversidade de temas e formas. Não foi possível ver os espetáculo na sua totalidade. De qualquer maneira, não posso deixar de registrar as minhas impressões sobre Fala Baixo Senão Eu Grito, espetáculo apresentado na Sala 5 da Escola de Teatro.
O primeiro aspecto que aponto sobre Fala Baixo Senão Eu Grito, primeiro texto da dramaturga paulista Leilah Assumpção, é a sua atualidade. Estreado em 1969, a dramaturgia permanece inteira, tanto na forma quanto no seu tema, as fantasias de Mariazinha Mendonça de Morais, uma funcionária pública solteira e infantilizada, mas poderia ser outra profissional qualquer. O que importa é a sua vida interior.
A personagem vive enclausurada em seu quarto de pensionato e confronta-se com um Homem que se diz ladrão. Este personagem surge não se sabe de onde. No encontro de mundos tão diversos, o da moça de classe média criada dentro dos valores tradicionais e do homem, um ser marginal, provoca momentos de intenso lirismo ao mesmo tempo que preenche a cena de manifesta dramaticidade quando o choque se concretiza.
A personagem vive enclausurada em seu quarto de pensionato e confronta-se com um Homem que se diz ladrão. Este personagem surge não se sabe de onde. No encontro de mundos tão diversos, o da moça de classe média criada dentro dos valores tradicionais e do homem, um ser marginal, provoca momentos de intenso lirismo ao mesmo tempo que preenche a cena de manifesta dramaticidade quando o choque se concretiza.
À medida que a situação se desenrola, percebe-se que, tanto Mariazinha quanto o invasor são seres solitários, vítimas de sua classe e da cidade que os engole. No entanto, o ladrão desencadeia um processo de desconstrução do mundo organizado da mulher, preocupada em trabalhar para pagar as prestações do apartamento A dramaturga tira partido do jogo que se estabelece entre os dois. Das provocações do ladrão emergem o sufocado mundo da protagonista que se desestrutura ao limite da exaustão. Tentando fazer com que Mariazinha compreenda o vazio de sua existência, o Homem provoca-a de maneira assustadoramente invasiva, fazendo com que a personagem se dê conta da solidão em que vive e a partir da constatação de "não caber mais nas coisas" possa tomar as rédeas de sua vida de uma maneira libertadora. É o que se espera
Com seu texto, Leilah Assumpção insere-se no ciclo denominado de Nova Dramaturgia que sinaliza a estreia de jovens autores que passam a escrever para o palco no final da década de sessenta. Em seu texto, pode-se notar rompimentos com a estrutura tradicional da arquitetura do drama para dar conta da dramatização do eu uma questão de difícil solução em term os cênicos e mesmo dramático, mas não irrealizável como demonstra o texto objeto desta apreciação e também de outros que formam o quadro da dramaturgia moderna.
Ainda que as regras de ação, tempo e lugar estejam presentes na estrutura do texto, percebe-se outros recursos utilizados pela autora para dar conta da interioridade da personagem. Interessante é o jogo imaginário que se faz presente no mundo real de Mariazinha. Ao ser instigada pela energia vital do Homem, proponente do jogo-do-faz-conta, a personagem presa às convenções de seu mundo, responde às fantasias, imprimindo um caráter onírico no desenrolar da ação.
Ainda que as regras de ação, tempo e lugar estejam presentes na estrutura do texto, percebe-se outros recursos utilizados pela autora para dar conta da interioridade da personagem. Interessante é o jogo imaginário que se faz presente no mundo real de Mariazinha. Ao ser instigada pela energia vital do Homem, proponente do jogo-do-faz-conta, a personagem presa às convenções de seu mundo, responde às fantasias, imprimindo um caráter onírico no desenrolar da ação.
A encenação creditada ao aluno-diretor Georgenes Isaac oferece ao espectador momentos de intensa poesia, irresistíveis doses de comicidade alternando-se com a dramaticidade que toma conta da cena. Compreendendo muito bem a dramaturgia de Leilah Assumpção, o aluno-diretor prestes a concluir seu curso de Direção Teatral na Escola de Teatro, mostra habilidade na condução dos atores e na maneira como estrutura a relação entre eles. Dinamizando o diálogo, Issac imprime um ritmo que se acelera em função do jogo, da situação e do conflito. Cria marcações precisas para evidenciar este encontro inusitado.
Sabemos que as condições para um espetáculo caracterizado como de pré-formatura não conta com os recursos necessários para o bom acabamento da encenação, ou seja cenografia, figurino, objetos de cena. Fala Baixo Senão Eu Grito padece desta limitação. Mas Georgenes Isaac e sua equipe consegue dar conta do mínimo para fazer com que os elementos que compõem o espaço - quarto de Mariazinha - resulte aceitável, visto que os elementos visuais estão inseridos no universo da encenação. Ainda que simples e sem muita invenção, servem aos propósitos da direção. A utilização de projeção é coerente com a sua concepção, deixando de ser um efeito plástico para tornar-se uma signo em meio a outros. Utilizando-se de uma trilha sonora coerente e criadora da atmosfera - a cena do aparecimento do ladrão, por exemplo - por vezes extrapola no volume, encobrindo o diálogo. Outro elemento necessitando de melhor concepção e realização é a luz. Sanado tais problemas, o espetáculo pode fazer carreira em qualquer teatro de Salvador. Uma pena que a equipe não consiga contatar com a autora para negociar os direitos autorais para que possa se aventurar pela ribaltas além do muro da Escola.
Ponto alto do espetáculo são os dois atores. Patrícia Oliveira e Vinícius Martins dão conta do recado e mostram de maneira intensa o desenho das personagens. Desenho feito com tintas fortes, mas que não deixa de mostrar as nuances exigidas pelos papéis que "vivem". As interpretações cativam os espectadores pela maneira, pois os atores expressam o texto de maneira precisa, todo ele encarnado nos corpos que se deslocam no espaço, cumprindo o desenho proposto pelo encenador de uma maneira orgânica.
É visível o domínio dos recursos expressivos dos dois intérpretes. Domínio do tempo-ritmo, compreensão do sentido de cada frase, expressões faciais reveladoras de uma interpretação interiorizada que se exterioriza nos gestos, nos movimentos de um corpo que se manifesta inteiro no interior da ação dramática. Não lhes falta folego, nem técnica nem emoção e sobretudo, compreensão das personagens, da proposta da autora e principalmente do jovem diretor.
É visível o domínio dos recursos expressivos dos dois intérpretes. Domínio do tempo-ritmo, compreensão do sentido de cada frase, expressões faciais reveladoras de uma interpretação interiorizada que se exterioriza nos gestos, nos movimentos de um corpo que se manifesta inteiro no interior da ação dramática. Não lhes falta folego, nem técnica nem emoção e sobretudo, compreensão das personagens, da proposta da autora e principalmente do jovem diretor.
O entusiasmo com que a plateia acompanhou o espetáculo e os aplausos calorosos no final é demonstração de sua eficaz capacidade de comunicação. Por conta das reações, pode-se afirmar que o texto permanece com sua potência, não se perdendo na datação que pode lhe afetar. Por mais que o mundo feminino tenha se libertado de muitas amarras e que as mulheres tenham garantido conquistas, a situação de Mariazinha não nos escapa, ela é plauzível. Vista sob a ótica de Leilah Assumpção e de Georgenes Issac, a situação da personagem ainda é atual.
domingo, 12 de maio de 2013
Registro 429: 13 de maio
A minha homenagem aos fizeram a Campanha da Abolição. Sem eles e sem Isabel, a prática da escravidão permaneceria como uma marca indelével. Ainda hoje, as formas de escravismo são visíveis, manifestando-se diariamente sob diversas formas, mas graças a brasileiros humanistas tornamo-nos mais dignos. A data, 13 de maio, não deve ser esquecida, apagada. Caso aconteça, estaremos traindo todos aqueles que lutaram para fazer as leis possibilitadoras da Lei Áurea. Querer diminuir tal acontecimento, reescrevendo a História doutra forma, é enganar-se e aos outros.
É preciso lembrar.. Não esquecer. Uma mulher levada por muitos motivos, não importa quais, assinou um papel e garantiu a liberdade de muitos. Ainda que está liberdade tenha sido mal cumprida, ainda assim, eles, homens, mulheres e crianças deixaram de ser considerados animais para serem humanos.
É certo que vivemos em um país preconceituoso, mas a escravidão hoje se traduz na péssima educação oferecida às crianças do ensino fundamental e aos jovens do ensino médio nas escolas públicas deste imenso território. Sem uma educação de qualidade como mudar as mentalidades?
Esta mulher, certo dia, num baile, ao ver um negro, político e intelectual importante do seu reinado, ter sido recusado por uma senhorita que convidara para valsar, a princesa ofereceu-lhe o braço e dançaram para espanto de muitos.
Não esquecer para lembrar os feitos de muitos. As atrocidades dos vencedores, o sofrimento dos vencidos, a determinação dos que lutaram por escrever uma outra página.
É certo que os libertos, não todos, ficaram desprotegidos. Aqueles que não tinham comprado a alforria e subido na escala social perambularam pelas estradas sem ter o que fazer. Eram milhares. Sem ter o que fazer, mas sabendo que podiam escolher seguiram os caminhos, marcando-os com suas vidas as nossas.
É preciso lembrar.. Não esquecer. Uma mulher levada por muitos motivos, não importa quais, assinou um papel e garantiu a liberdade de muitos. Ainda que está liberdade tenha sido mal cumprida, ainda assim, eles, homens, mulheres e crianças deixaram de ser considerados animais para serem humanos.
É certo que vivemos em um país preconceituoso, mas a escravidão hoje se traduz na péssima educação oferecida às crianças do ensino fundamental e aos jovens do ensino médio nas escolas públicas deste imenso território. Sem uma educação de qualidade como mudar as mentalidades?
Esta mulher, certo dia, num baile, ao ver um negro, político e intelectual importante do seu reinado, ter sido recusado por uma senhorita que convidara para valsar, a princesa ofereceu-lhe o braço e dançaram para espanto de muitos.
Não esquecer para lembrar os feitos de muitos. As atrocidades dos vencedores, o sofrimento dos vencidos, a determinação dos que lutaram por escrever uma outra página.
É certo que os libertos, não todos, ficaram desprotegidos. Aqueles que não tinham comprado a alforria e subido na escala social perambularam pelas estradas sem ter o que fazer. Eram milhares. Sem ter o que fazer, mas sabendo que podiam escolher seguiram os caminhos, marcando-os com suas vidas as nossas.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Registro 428: Mais um absurdo baiano
Pense num absurdo, na Bahia acontece.
A frase de Otávio Mangabeira é conhecida ao extremo, não porque queiramos usá-la exaustivamente tornando-a lugar comum. Mas, a cada dia, na Bahia, nos deparamos com absurdos. No momento, é o descabido projeto do vereador Marcell Moraes do Partido Verde. Ele propõe a proibição de sacrifícios de animais nos cultos religiosos, a saber candomblé e umbanda.
Não sabe o dito vereador que os animais imolados além de ser oferenda, alimenta a comunidade, não só dos adeptos, mas dos convidados. Nas festas, costuma-se servir um prato aos que estão na casa de culto e esta comida alimenta muita gente. Por vezes gente carente.
Além do mais, numa sociedade que se alimenta basicamente de animais abatidos cotidianamente, o projeto torna-se um delírio de quem não tem o que fazer.
Aliás, o Partido Verde deveria cuidar de outros projetos, por exemplo, arborizar a cidade, torná-la mais condizente com clima. Acredito que o vereador deve passar diariamente pela Avenida Sete, trecho da Vitória, e perceber que as árvores tornam o logradouro aprazível. Portanto, aí está uma boa ideia.
Intrometer-se num ritual antigo e de grande força é não ter o que fazer. Ou então é querer aparecer, ter os cinco minutos de fama. Espero que os senhores vereadores não aprovem este projeto inoportuno, descabido e tonto.
Chega de achar que animais tem direito. Não tem. Nós e que temos deveres para com eles. Mas levar ao extremo a proibição do sacrifício é uma ideia fora do lugar.
Diante de tantas atrocidades, ir de encontro a preceitos de uma religião me parece fobia.
Gostaria de saber quais são os hábitos alimentares do vereador.
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Registro 427: Aplausos e lágrimas para Cleyde Yáconis
Marco Antônio Pâmio
Ator e diretor
"Foi para o céu a nossa Cleyde. Ela foi grande! Tristeza e uma saudade que não vai passar." Assim diz o e-mail que Naum Alves de Souza, diretor de "Longa Jornada de Um Dia Noite Adentro", acaba de me enviar.
Foi na montagem de 2002 dirigida por ele que a conheci e tive a honra de viver seu filho em cena. A caminho do Rio de Janeiro, para o primeiro dia de ensaios, o estômago me revirava, pois em pouco tempo estaria diante do "mito Cleyde Yáconis", da "irmã de Cacilda", da "grande dama do teatro nacional".
E deparei com uma das pessoas mais simples, íntegras e autênticas que já conheci na vida.
Cleyde era de uma retidão e de uma coerência admiráveis.
Avessa ao glamour costumeiramente associado à profissão e à cultura de celebridade, Cleyde era obcecada única e exclusivamente por seu ofício. Orgulhosa de seu repertório, construído ao longo de décadas de trabalhos memoráveis, fazia questão de mantê-lo irretocável e ilibado.
A cada noite de apresentação, seu nervosismo antes de entrar em cena era comovente, tamanha a responsabilidade e a importância que dava ao ato de estar no palco.
A boca secava, os lábios tremiam e, muitas vezes, após uma expiração profunda e agoniada, desabafava: "Por que escolhi fazer isso da minha vida, meu Deus?".
Do alto de seus quase 80 anos na época, tinha a adrenalina de uma estreante. Compreendia a função do ofício do ator com lucidez, tenacidade, obstinação e verticalidade cada vez mais raras.
Estudava dia e noite seu texto, preocupava-se com cada detalhe da personagem, não deixava um instante em cena sem ser preenchido com verdade e emoção genuínas, nem uma única sílaba sem ser cristalinamente compreendida pelo público.
Sua Mary Tyrone era tão genial que muitas vezes eu me pegava em cena assistindo a ela, admirando-a.
E, terminado o espetáculo, aquele "monstro sagrado" do nosso teatro saía dirigindo seu carro rodovia Anhanguera adentro, rumo a sua chácara em Jordanésia. Simples assim. Sem pompa, sem glamour, sem vaidade. Lá, finda a extenuante jornada física e emocional com o suor de seu rosto e a exposição de sua alma, reencontrava a natureza.
Naum tem razão: a saudade não vai passar. Cleyde foi mestra, foi norte, foi exemplo para quem pisa no palco.
Foi, e há de continuar sendo, referência indiscutível numa profissão cada vez mais banalizada pela sede de sucesso instantâneo e do consumo imediato.
Que ela esteja agora sendo recebida por todos os deuses, já ao lado de tantos que lhe foram tão queridos. E com a certeza plena de que nunca a esqueceremos.
**********
O texto de Pâmio é admirável por ser ele uma ator e diretor que não pertence à geração da atriz e grande dama do teatro brasileiro Cleyde Yáconis. A percepção que ele tem desta grande intérprete é notável e serve como exemplo para os atores e atrizes em início de carreira. Serve porque é uma lição de como aprender vendo uma atriz experiente lidar com seu ofício. Está experiência vivida ao longo da vida, desde que de costureira do Teatro Brasileiro de Comédia passou para o palco e mostrou suas qualidades de atriz.
Vi Yáconis somente uma vez, sob a direção do meu amigo Emílio Di Biasi. Ela era um furação em cena, uma explosão de técnica e emoção o que fazia com que eu não desgrudasse os olhos de sua figura em cena. Os crítico registraram intensas interpretações de Cleyde Yáconis, entre elas a Geni de Toda Nudez Será Castigada e a dilacerante Medéia, entre outros trabalhos.
Vivendo reclusa, atriz não se recusou estar no palco e na televisão e trabalhou até não poder mais. Assim são as grandes intérpretes. Vivem para o teatro e deixam marcas na cena. Estas marcas não serão esquecidas enquanto houver uma único espectador que tenha visto a atriz representar.
PS: Vi Marco Antônio Pâmio estrear como Romeu sob a direção de Antunes Filho em Romeu e Julieta. Ele fazia par com Giulia Gam. Como era lindos e intensos na paixão.
sábado, 13 de abril de 2013
Registro 426: Alexandre Porto Vidal escreveu.
VOCÊ VIU UM HOMOSSEXUAL POR AÍ?[1]
Alexandre Vidal Porto
Ao
longo dos últimos 40 anos, no mundo ocidental, a luta pela igualdade jurídica
dos homossexuais obteve conquistas notáveis. De tema proscrito, passou à
vanguarda do debate sobre direitos humanos. Cuba, que nos anos 60 mantinha
campos de "reeducação" para gays, promove agora políticas de
inclusão.
Nesta
última semana, foi a vez do Uruguai, que aprovou o casamento civil entre
pessoas do mesmo sexo. Ontem, a França também deu um passo importante nessa
direção com a aprovação pelo Senado de um projeto que deve entrar em vigor até
o meio do ano.
No
caso do Brasil houve avanços, mas o que se oferece aos gays em termos de
proteção e respeito social é pouco em comparação ao que fazem países
culturalmente próximos, como Argentina ou Portugal.
Parte
do Congresso brasileiro busca minar a consolidação de direitos das minorias
sexuais com argumentos condenatórios, toscos e obscurantistas, de cunho radical
religioso.
Ajuda
a compor o retrato do homossexual no imaginário popular a repetição incansável
de personagens gays estereotipados em programas de televisão. No final, a
imagem que fica é que os gays ou são patéticos, ou amaldiçoados.
O
fato de que um discurso desqualificador da homossexualidade possa ser explorado
politicamente ou como fonte de humor é lamentável. Mas faz parte de nossas
mazelas. Não é por acidente que o Brasil ocupa o 84º lugar no ranking de
desenvolvimento humano da ONU, com índice inferior à média da América Latina e
do Caribe.
Toda
superação de preconceitos exige ampliação de conhecimentos. No caso específico,
os homossexuais brasileiros devem assumir a liderança desse processo educativo.
A exemplo do que ocorreu em outros países, cabe a eles mostrar à sociedade quem
realmente são.
O
ato mais político que um homossexual pode realizar é assumir-se como tal.
Engajar-se pessoalmente na luta pela mudança de percepção. Dar cara, nome e
profissão à homossexualidade.
Chamar
a atenção para o fato de que o gay ridicularizado pelo apresentador de
televisão ou atacado na rua pode ser o filho que você ama, o irmão que você
admira, o seu melhor amigo de infância ou o médico que salvou a sua vida.
Cada
gay que sai do armário traz amigos e parentes para a sua luta. O apoio público
de pessoas influentes e admiradas, seja um empresário de peso, um político
respeitado ou um artista de renome, dá segurança e respaldo a um ato radical,
mas necessário, de afirmação pessoal, que contribui para uma sociedade mais
democrática e inclusiva.
Foi
essa a lição que Daniela Mercury deu ao Brasil na semana passada. Que não é
preciso ser triste, irresponsável e fracassado para ser gay, que não há nada de
feio ou indigno na expressão de seu amor.
E
que a despeito do que diga o pastor ou o programa humorístico, a
homossexualidade não é ridícula e nada tem a ver com maldição.
Daniela
fez a sua parte. Deixou claro que o Brasil já gosta de homossexuais. Só precisa
saber quem eles são. Cabe a nós apresentá-los.
ALEXANDRE
VIDAL PORTO é escritor e diplomata.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Registro 425: Brasil, meu Brasil brasileiro
A COMISSÃO DOS DIREITOS HUMANOS
VIROU UMA ESCULHAMBAÇÃO.
VIROU UMA ESCULHAMBAÇÃO.
QUE TRISTEZA!
MAS NÃO POR CAUSA DOS
PROTESTOS,
MAS PELA INDECÊNCIA
QUE É SEU PRESIDENTE
MAS NÃO POR CAUSA DOS
PROTESTOS,
MAS PELA INDECÊNCIA
QUE É SEU PRESIDENTE
sexta-feira, 29 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
Registro 423: Pactos
O USO RETO DO CORPO
Contardo Calligaris
Em tese, a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados (CDHM) luta para que cada cidadão e cada grupo de cidadãos possam exercer plenamente sua diferença (claro, à condição de que essa diferença não atrapalhe a liberdade dos outros).
Parece lógico que a comissão seja presidida por um espírito libertário. Isso não exclui pastores, padres, imames e moralistas rigorosos, à condição de que, por cultura, experiência de vida e qualidades morais excepcionais, eles saibam colocar a liberdade dos outros antes de suas próprias convicções.
Esse não parece ser o caso do deputado Marco Feliciano (PSC-SP), pastor evangélico, que acaba de ser eleito presidente da CDHM. Na notável série de suas declarações boçais citadas nestes dias, minhas preferidas são: 1) "Os africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé. Isso é fato."; e 2) "O reto não foi feito para ser penetrado - não sou contra o homossexual, sou contra o ato homossexual."
1) No texto bíblico que eu li, Cam zombou do pai Noé, o qual condenou Cam e sua descendência à servidão. Mais tarde, os defensores da escravatura decidiram que Cam era o antepassado dos africanos e se serviram dessa história para justificar a posse e o comércio de escravos.
Terminar a evocação de um relato bíblico com um "isso é fato" já é ingênuo. Terminar da mesma forma a revisão do relato bíblico proposta pelos defensores da escravatura é para além de ridículo.
Feliciano, formado em teologia, talvez leia a Bíblia no grego da Septuaginta e no hebraico do texto massorético. Eu me viro em grego antigo, mas, por hábito, leio a Bíblia no latim de São Jerônimo ou no inglês do rei James. Será que ele tem acesso a fontes que eu ignoro?
2) Cada deputado recebe uma verba considerável para que possa opinar com conhecimento de causa. Mas Feliciano parece não saber que uma porcentagem substancial de homossexuais não gosta de sexo anal, enquanto, inversamente, o sexo anal faz parte das fantasias e das práticas sexuais de muitos homens e mulheres heterossexuais. Isso, sem entrar no vasto capítulo das penetrações (fantasiadas ou reais, solitárias ou não) com objetos inanimados ou outras partes do corpo.
O deputado Feliciano poderia se corrigir, generalizando: "hétero ou homo, tanto faz: o reto não foi feito para ser penetrado". Eu entenderia melhor.
Mesmo assim, fico curioso. Será que, para o deputado Feliciano, as mãos foram feitas para carícias, solitárias ou não, recíprocas ou não? E como fica a boca? Sem pensar muito longe, será que ela foi feita para ser invadida pela língua do parceiro ou da parceira?
O deputado Feliciano poderia se entrincheirar atrás da ideia de que tudo o que não serve para a reprodução deveria ser banido do sexo. É uma opinião difícil de ser sustentada, pois, justamente, somos os únicos mamíferos cujo desejo sexual não depende nem um pouco da fertilidade da fêmea e, portanto, da reprodução. Mas é uma opinião respeitável e não incompatível com a presidência da CDHM, à condição de ser, para o próprio Feliciano, apenas uma opinião.
Em outras palavras, o deputado Feliciano tem o direito de ser impenetrável, para maior glória divina. Que diga, então, que SEU reto não foi feito para ser penetrado, e ninguém protestará.
Imaginemos que eu faça parte de um culto satânico que só permite atos sexuais que desprezem a finalidade reprodutiva, e isso justamente para contrariar um eventual plano divino. Ou imaginemos que eu pense, simplesmente, que o melhor uso do meu corpo é o prazer e o gozo.
Será que Marco Feliciano, presidente da CDHM, vai defender meus direitos? Se a resposta não for um sim retumbante, a CDHM deve trocar de presidente.
Agora, quem colocou o deputado Feliciano na presidência da CDHM? Seis deputados se retiraram assim que Feliciano foi eleito; entre eles, Domingos Dutra (PT), Luiza Erundina (PSB) e Jean Wyllys (PSOL). Mas, apesar do gesto dos seis, quem entregou a comissão ao PSC e a Feliciano foi a base aliada do governo.
A presidente Dilma disse que, nas eleições, "a gente faz o diabo" - ou seja, qualquer aliança vale para ganhar. De fato, nas eleições, a maioria de nossos políticos supostamente laicos e progressistas não fazem o diabo, fazem o santinho. Para conquistar votos fundamentalistas, beijam anéis e frequentam cultos; no fim, eles recompensam, de alguma forma. Por exemplo, com comissões. (Folha de S. Paulo, 14.03.2013)
*****
Se Stálin fez pacto com Hitler, por que o PT não faria alianças, diga-se espúrias, para se manter no poder? A fala da presidente reflete muito bem o que vem ocorrendo no Brasil. E as consequências? É enojante tal atitude. Ela mostra bem a cara desta "esquerda" que aí está. E nós, para onde vamos? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Um partido que se vende ao diabo, ou faz o diabo para ganhar eleição, não pode ser confiável, pois muda ao sabor do vento. É lamentável. O texto de Contardo Calligaris é lúcido na sua argumentação. É pena seu texto ser lido por poucos. Chega de os "fins justificam os meios", até porque os fins tão apregoados pelo partido e sua militância rebanho não estão sendo alcançados. É fácil bancar a vestal quando se é oposição. Depois é chafurdar.
sexta-feira, 8 de março de 2013
Registro 422 Para ser lido com atenção
OS DOIS TEXTOS COPIADOS DA EDIÇÃO DE HOJE, 8 DE MARÇO, DIA INTERNACIONAL DA MULHER, VIVA TODAS ELAS, DO JORNAL FOLHA DE S. PAULO MERECEM A NOSSA ATENÇÃO. ELES FORAM ESCRITOS POR MULHERES E O SEGUNDO É SOBRE UMA MULHER DE FIBRA.
O PRIMEIRO É O RETRATO DO NOSSO ATRASO.
ELES DEVEM SER LIDOS UM APÓS O OUTRO. OS TEXTOS GUARDAM PROXIMIDADE EMOCIONANTE PELA LUCIDEZ, PELA CONTUNDÊNCIA E PELA OPORTUNIDADE DE CONFRONTAR QUESTÕES TÃO CONTRADITÓRIAS NESTE PAÍS QUE AVANÇA DOIS PASSOS E RECUA QUATRO.
FICO PENSANDO NAQUELES QUE QUEREM REGULAR A ATIVIDADE DA IMPRENSA NO BRASIL. NÃO FOSSE A LIBERDADE DE IMPRENSA, NÓS NÃO TERÍAMOS OPORTUNIDADE DE TOMAR CONHECIMENTO DAS BARBARIDADES E DAS GRANDEZAS QUE ACONTECEM COTIDIANAMENTE NO PAÍS
O PRIMEIRO É O RETRATO DO NOSSO ATRASO.
ELES DEVEM SER LIDOS UM APÓS O OUTRO. OS TEXTOS GUARDAM PROXIMIDADE EMOCIONANTE PELA LUCIDEZ, PELA CONTUNDÊNCIA E PELA OPORTUNIDADE DE CONFRONTAR QUESTÕES TÃO CONTRADITÓRIAS NESTE PAÍS QUE AVANÇA DOIS PASSOS E RECUA QUATRO.
FICO PENSANDO NAQUELES QUE QUEREM REGULAR A ATIVIDADE DA IMPRENSA NO BRASIL. NÃO FOSSE A LIBERDADE DE IMPRENSA, NÓS NÃO TERÍAMOS OPORTUNIDADE DE TOMAR CONHECIMENTO DAS BARBARIDADES E DAS GRANDEZAS QUE ACONTECEM COTIDIANAMENTE NO PAÍS
CONTRA AS RAPOSAS, UNI-VOS!
Eliane Cantanhêde
BRASÍLIA - O Congresso ultrapassou todos os limites com a indicação e eleição do deputado federal e pastor Marco Feliciano para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (atenção ao "minorias") da Câmara. A gente acha que já viu tudo, mas...
Essa história tem um enredo. O PT controla tradicionalmente a comissão, até porque o tema tem muito a ver com a história do partido, mas optou dessa vez por três comissões mais retumbantes. Junto com o PMDB, jogou a de Direitos Humanos no colo de aliados. E justamente no do Partido Social Cristão (PSC).
Boa coisa não ia dar, mas, como tudo que é ruim sempre pode piorar (diferentemente da máxima do também deputado Tiririca), a bancada do PSC indicou e a comissão elegeu o pastor Feliciano, que está no primeiro mandato, que se diz formado em teologia, com mestrado em teologia e doutorado em divindade, e que deixou um rastro racista e homofóbico nas redes sociais.
Pelo Twitter, tascou que "africanos descendem de ancestral amaldiçoado por Noé" e que "a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime, à rejeição". Por mais que explique, não justifica.
Pensar e acreditar em coisas assim já é um absurdo inacreditável, além de inaceitável, mas escrever e divulgar isso é um verdadeiro escândalo. Mais absurdo, mais inacreditável, mais inaceitável e mais escandaloso ainda é o sujeito pensar, escrever e acabar presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
Câmara e Senado, aliás, estão virando um zoológico de raposas tomando conta de galinheiros. Processados têm assento nos Conselhos de Ética, produtores rurais presidem as Comissões de Meio Ambiente e condenados pelo Supremo integram as de Constituição e Justiça.
Mas, enfim, depois que um senador renuncia à presidência do Senado, volta e é eleito novamente para o cargo, o que mais se poderia esperar?
*********************************************************************************
TEXTO DE ELEONORA DE LUCENA SOBRE MARGARIDA GENEVOIS
Quando começou a trabalhar na Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, em 1972, Margarida Genevois falou para a família e amigos de casos de tortura e de desaparecidos da ditadura. Encontrou desinformação e desconfiança.
"Eu contava e ninguém acreditava, diziam que era imaginação. Até meu marido acreditava meio desconfiado", relembra às vésperas de fazer 90 anos: "Tomei conhecimento das coisas horríveis que se passavam nas prisões, das barbaridades. Mas a classe média é meio protegida das desgraças da sociedade".
Em seu apartamento em São Paulo, onde mora só, ela recorda que a comissão "era um dos poucos lugares que apoiavam os perseguidos. Eu recebia pessoas que estavam desesperadas, muitas tinham saído de prisões e estavam profundamente marcadas por aquilo tudo. É horrível perder um pai, um irmão que desapareceu feito fumaça no ar".
Da Cúria, as pessoas eram encaminhadas a advogados, médicos, psiquiatras: "Havia médicos que não atendiam. Mas alguns foram formidáveis, arriscaram a carreira. O tempo era duro, mas sempre tinha alguém que dava ajuda por debaixo do pano. Ou auxiliava a pessoa a deixar o país. Muitos não podiam ficar porque seriam mortos".
No início dos anos 1970, a ditadura mostrava sua face mais brutal. Foi quando d. Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, organizou a Comissão de Justiça e Paz, que acolhia opositores do regime, denunciava torturas e buscava por desaparecidos.
Margarida trabalhou com Arns por 25 anos, presidindo a comissão por três vezes. "O bem que d. Paulo fez não é bastante reconhecido. Quem trabalha com ele cresce."
E como ela foi parar na Cúria? "Eu fazia parte da Ação Católica. Dom Paulo formou a comissão e só tinha homem. Mas, pelo estatuto, tinha que ter uma mulher", recorda.
Indicada, ela conta que o trabalho aumentou quando ditaduras se implantaram no Chile, Argentina e Uruguai. Cidadãos desses países pediam ajuda à comissão. "A Cúria ficava cheia de gente. Sabiam que d. Paulo acolhia. Precisávamos arranjar roupa, lugar para dormir, trabalho, apoio moral. Estavam em péssimo estado, muitos só com a roupa do corpo", relata.
Atuando como embaixadora da comissão, todo ano ia à Europa obter dinheiro para o trabalho junto a ONGs ligadas à igreja: "Eu ia à França, Alemanha, Holanda. D. Paulo era muito cotado por lá. Todo mundo sabia que ele era um cardeal aberto, progressista. Viajava com uma carta dele e era bem recebida".
O marido Lucien se preocupava: "Ele vivia com medo, dizia que eu iria ser presa. Mas me dava total liberdade. A maior parte das coisas que eu fazia ele nem sabia".
Lucien, francês, foi diretor da Rhodia. Eles se conheceram numa excursão de trem a Minas. Ficaram 35 anos juntos (ele morreu em 1986). Logo após o casamento (1944), foram morar em Campinas.
Lá a multinacional francesa montou uma usina de cana de açúcar. Em plena guerra, ela precisava de álcool que não podia ser transportado por navio do Nordeste por causa do perigo alemão.
Na fazenda moravam 2.500 pessoas. Margarida notou que a mortalidade infantil era alta: "Os colonos eram paupérrimos. O médico dizia: não tem doença, é fome. As mães não sabiam cuidar das crianças. Depois do parto colocavam teias de aranha ou excremento de vaca nos curativos. O tétano vinha em dias".
Para mudar essa situação, ela criou um curso de puericultura, uma pequena creche (os berços eram feitos com caixas de cebola pintadas de azul) e fez um jornal para as mulheres. Ensinou o que aprendera no curso de enfermeira de guerra: "Vi na fazenda que não adianta dar as coisas -tem que educar".
A iniciativa foi um sucesso, reduziu as mortes de crianças. É desse tempo de fazenda, em que viveu 22 anos, que Margarida tem uma das recordações mais emocionantes: "Chegou lá no posto de puericultura um rapaz com um recém-nascido moribundo, olhos fundos, sem respirar direito. Havia uma tempestade e estávamos completamente isolados, a estrada interditada. Nem se podia telefonar. Tratei o bebê do meu jeito, fiz tudo que sabia, dei injeção. No dia seguinte a criança não tinha morrido. Levei-a ao pediatra de minhas filhas e ele me disse: 'A senhora salvou essa criança'. Isso não tem preço. Foi um ponto alto na minha vida".
O marido se aposentou e a família (quatro filhos) veio para São Paulo. Foi quando entrou na Comissão de Justiça e Paz. Na sala, Margarida mostra fotos em passeatas, congressos, visitas ao Carandiru, Araguaia, Serra Pelada.
De uma família de notáveis advogados, Margarida Bulhões Pedreira Genevois nasceu no Rio em 10 de março de 1923: "Minha mãe achava que moça de família não devia ir para a faculdade". Na juventude fez biblioteconomia, estudou literatura francesa. Aos 45 anos foi aluna de Fernando Henrique Cardoso no curso de sociologia e política.
Quem mais sofre com a falta de direitos humanos? "Os pobres têm mais necessidades, estão mais esmagados pela injustiça. Você percebe isso na rua. Alguns quase pisam em cima, têm desprezo pela pessoa. É cada um por si e os outros que se danem. Precisamos mudar essa atitude."
Margarida diz que na classe média há muito "desprezo pelo mais pobre". A relação patroa-empregada é um exemplo. Em algumas partes do país, ainda há o pagamento de trabalho por comida: "Não respeitam o salário mínimo, o horário de trabalho".
Qual é o segredo para estar tão bem aos 90? "Trabalho muito [como voluntária em ONGs de direitos humanos] e faço o que eu gosto. Também me cuido. Faço ginástica, senão os ossos enferrujam."
quarta-feira, 6 de março de 2013
Registro 421: Texto radical
O TEXTO COPIADO E COLADO SAIU NA FOLHA DE S. PAULO, EDIÇÃO DE HOJE, 6 DE MARÇO DE 2013. VISANDO O DESTAQUE QUE O TEXTO MERECE, ALTEREI somente O TIPO DA LETRA.
Não tenho NADA CONTRA o exposto
JEAN WYLLYS
O ASSUNTO É COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS
Cinismo cruel
Tento representar aqueles que sempre receberam mais insultos e porradas que direitos e estima! Saibam que não estão sozinhos! Luta que segue!
Graças ao jogo de interesses entre os partidos da base aliada, é quase certo que o pastor e deputado Marco Feliciano presidirá a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
Esse fato não é escandaloso -e eu não me oponho a ele- pelo simples fato de ele ser pastor. Se o deputado Marco Feliciano fosse um pastor identificado com a garantia dos direitos humanos e da dignidade das minorias estigmatizadas, não haveria problema algum e eu não faria qualquer oposição.
Acontece que o deputado Marco Feliciano é um inimigo público e declarado de minorias estigmatizadas e tem um discurso público que estimula a violação da dignidade humana desses grupos.
Como pode presidir uma comissão de direitos humanos e minorias um deputado que disse que o problema da África negra é "espiritual" porque "os africanos descendem de um ancestral amaldiçoado por Noé", revivendo uma interpretação distorcida e racista da Bíblia, que já foi usada no passado para justificar a escravidão dos negros?
Como pode presidir uma comissão de direitos humanos e minorias um deputado que se referiu à Aids como "o câncer gay"? Um deputado que defende um projeto de lei para obrigar o Conselho Federal de Psicologia a aceitar supostas "terapias de reversão da homossexualidade" anticientíficas e baseadas em preconceitos.
Um deputado que quer criminalizar o povo de terreiro e enviar pais e mães de santo à cadeia por rituais religiosos que estão presentes nos mesmos capítulos da Bíblia que ele usa para injuriar os homossexuais? Ele lê a Bíblia com um olho só. Um deputado que apresentou um projeto para anular diversas (boas) decisões do Supremo Tribunal Federal, entre elas a sentença que reconhece as uniões homoafetivas como entidades familiares.
Na verdade, para ser justo, o acordo realizado para dar a presidência da CDHM ao PSC, com ou sem Marco Feliciano, já era um grave problema. Trata-se de um partido que fez campanha definindo a família de uma maneira que exclui não só gays e lésbicas, como também as famílias monoparentais, as com filhos adotivos e tantas outras. Trata-se de um partido que defende posições fundamentalistas que vão contra os direitos de muitas das minorias que essa comissão deve proteger.
Eu me formei num cristianismo que acolhe os diferentes, respeitando sua dignidade. Eu me apaixonei na juventude por esse cristianismo que deu origem à Teologia da Libertação, que participou da luta contra a ditadura e que nos deu grandes referências.
O PSC, lamentavelmente, não tem nada a ver com isso. E Marco Feliciano menos ainda! Que ele seja o novo presidente da comissão é uma contradição: é como colocar à frente das políticas contra a violência de gênero um cara que bate na mulher.
É isso que milhares de brasileiras e brasileiros estão sentido nesse momento: que a Câmara bateu neles. Em nós -confesso que eu também senti. Às vezes, me pergunto o que estou fazendo aqui. Mas depois vejo a mobilização de milhares de pessoas para impedir essa loucura e penso: é isso que estou fazendo, tentando representar aqueles que, como eu, sempre receberam mais insultos e porradas que direitos e estima! Saibam que não estão sozinhos! Luta que segue!
Não tenho NADA CONTRA o exposto
JEAN WYLLYS
O ASSUNTO É COMISSÃO DE DIREITOS HUMANOS E MINORIAS
Cinismo cruel
Tento representar aqueles que sempre receberam mais insultos e porradas que direitos e estima! Saibam que não estão sozinhos! Luta que segue!
Graças ao jogo de interesses entre os partidos da base aliada, é quase certo que o pastor e deputado Marco Feliciano presidirá a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados.
Esse fato não é escandaloso -e eu não me oponho a ele- pelo simples fato de ele ser pastor. Se o deputado Marco Feliciano fosse um pastor identificado com a garantia dos direitos humanos e da dignidade das minorias estigmatizadas, não haveria problema algum e eu não faria qualquer oposição.
Acontece que o deputado Marco Feliciano é um inimigo público e declarado de minorias estigmatizadas e tem um discurso público que estimula a violação da dignidade humana desses grupos.
Como pode presidir uma comissão de direitos humanos e minorias um deputado que disse que o problema da África negra é "espiritual" porque "os africanos descendem de um ancestral amaldiçoado por Noé", revivendo uma interpretação distorcida e racista da Bíblia, que já foi usada no passado para justificar a escravidão dos negros?
Como pode presidir uma comissão de direitos humanos e minorias um deputado que se referiu à Aids como "o câncer gay"? Um deputado que defende um projeto de lei para obrigar o Conselho Federal de Psicologia a aceitar supostas "terapias de reversão da homossexualidade" anticientíficas e baseadas em preconceitos.
Um deputado que quer criminalizar o povo de terreiro e enviar pais e mães de santo à cadeia por rituais religiosos que estão presentes nos mesmos capítulos da Bíblia que ele usa para injuriar os homossexuais? Ele lê a Bíblia com um olho só. Um deputado que apresentou um projeto para anular diversas (boas) decisões do Supremo Tribunal Federal, entre elas a sentença que reconhece as uniões homoafetivas como entidades familiares.
Na verdade, para ser justo, o acordo realizado para dar a presidência da CDHM ao PSC, com ou sem Marco Feliciano, já era um grave problema. Trata-se de um partido que fez campanha definindo a família de uma maneira que exclui não só gays e lésbicas, como também as famílias monoparentais, as com filhos adotivos e tantas outras. Trata-se de um partido que defende posições fundamentalistas que vão contra os direitos de muitas das minorias que essa comissão deve proteger.
Eu me formei num cristianismo que acolhe os diferentes, respeitando sua dignidade. Eu me apaixonei na juventude por esse cristianismo que deu origem à Teologia da Libertação, que participou da luta contra a ditadura e que nos deu grandes referências.
O PSC, lamentavelmente, não tem nada a ver com isso. E Marco Feliciano menos ainda! Que ele seja o novo presidente da comissão é uma contradição: é como colocar à frente das políticas contra a violência de gênero um cara que bate na mulher.
É isso que milhares de brasileiras e brasileiros estão sentido nesse momento: que a Câmara bateu neles. Em nós -confesso que eu também senti. Às vezes, me pergunto o que estou fazendo aqui. Mas depois vejo a mobilização de milhares de pessoas para impedir essa loucura e penso: é isso que estou fazendo, tentando representar aqueles que, como eu, sempre receberam mais insultos e porradas que direitos e estima! Saibam que não estão sozinhos! Luta que segue!
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013
Registro 420: Ciclo de Leituras Dramáticas
UNIVERSIDADE
FEDERAL DA BAHIA
ESCOLA DE TEATRO
GRUPO DE PESQUISA DRAMATIS
ESCOLA DE TEATRO
GRUPO DE PESQUISA DRAMATIS
APRESENTAM
CICLO DE LEITURAS DRAMÁTICAS DA UFBA
NOVA DRAMATURGIA – BARRA 69
Por
volta de 1968 aparece na cena brasileira, principalmente em São Paulo e no Rio
de Janeiro, mas não se restringindo a estes lugares, uma geração de dramaturgos
inaugurando uma tendência inovadora: José Vicente, Leilah Assumpção, Antônio
Bivar, Consuelo de Castro e Isabel Câmara, os autores mais representativos.
Uma
das características imediatamente visíveis nos textos é o viés autobiográfico,
apresentado por meio da linguagem despojada das regras literárias articuladoras
da dramaturgia que se fazia até então. O forte acento confessional singulariza
a produção dos textos, tornando-os bem diversos da produção dramatúrgica posta
em movimento pelos Seminários de Dramaturgia do Teatro de Arena de São Paulo
iniciado em 1958, de forte acento político e social.
Antônio
Bivar, Consuelo de Castro, Isabel Câmara, Leilah Assumpção, Isabel Câmara e Zé
Vicente afastam-se dos temas e das formas trabalhadas pelos autores que
produziram uma dramaturgia engajada, voltada para a discussão dos problemas
sociais. Tomando outro rumo, os jovens autores optam pelo confessionalismo,
instaurando o poético e o político por outro viés. Estão em cena, não mais os
personagens como o favelado, o vaqueiro, o retirante, o operário, entre outros,
mas aqueles oriundos da classe média urbana que perde o rumo diante dos
acontecimentos nacionais e internacionais.
É
sabido que a finalização da década de sessenta é plena de reviravoltas:
questionam-se hábitos, costumes, posicionamentos políticos e estéticos. Em meio
ao ambiente contracultural, o Brasil vive o auge repressivo do governo
civil-militar. Assim, os personagens criados pelos novos autores espelham a
situação daquele momento.
Ao
longo do tempo, boa parte da dramaturgia deste Ciclo de Leituras Dramáticas da
UFBA foi esquecida. Ainda que Zé Vicente receba a atenção dos encenadores no
presente, Leilah Assumpção e Consuelo de Castro continuem produzindo para o
palco, Antônio Bivar, um dos participantes mais transgressores do grupo, já não
escreve para o teatro. Isabel Câmara completa o quadro que comporta também Carlos
Alberto Soffredini, Mário Prata e o baiano Ariovaldo Matos.
Seis
textos compõem o Ciclo de Leituras Dramáticas – Nova Dramaturgia Barra 69: O Assalto, de Zé Vicente (Direção
Harildo Déda), Fala Baixo Senão Eu Grito,
de Leilah Assumpção (Direção Ewald Hackler), O Desembestado de Ariovaldo Matos (Direção Sérgio Nunes Melo), As Moças, de Isabel Câmara, (Direção
Elisa Mendes), À Flor da Pele, de Consuelo de Castro (Direção Eliene
Benício), Cordélia Brasil, de Antônio
Bivar (Direção Celso Nunes).
A
escolha dos textos baseia-se na importância que tiveram quando levados ao palco
e por conterem elementos que dialogam com o presente. Ao serem revelados, os
autores receberam a atenção da crítica e do público, atraídos que foram pelas
abordagens existenciais levadas à cena de maneira violenta, cruzando-se
aspectos autobiográficos e os ficcionais, figuradores dos impasses de uma
geração cerceada pela situação política brasileira. São textos cuja potência
não diminuiu e são merecedores de novas leituras.
Não haverá cobrança de ingresso. Para os espectadores que assistirem três leituras do Ciclo será fornecido um certificado.
***************
**************
CORDÉLIA BRASIL
Antonio Bivar
DIREÇÃO
Celso Nunes
ELENCO
Jacyan Castilho, Marcelo Praddo, Saulus Castro
Antonio Fábio
TEATRO MARTIM GONÇALVES
13 de março, 18:30
****
PROGRAMAÇÃO
O ASSALTO
Zé Vicente
DIREÇÃO
Harildo Déda
ELENCO
Nando Zâmbia, Vinícius Martins,
Patrícia Oliveira
Patrícia Oliveira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
26 de fevereiro, 18:30
**************
FALA BAIXO SENÃO EU GRITO
Leilah Assumpção
DIREÇÃO
Ewald Hackler
ELENCO
Joana Schnitman, Osvaldo Baraúna,
Evana Jeyssan
Evana Jeyssan
TEATRO MARTIM GONÇALVES
27 de fevereiro, 18:30
**************
O DESEMBESTADO
Ariovaldo Matos
DIREÇÃO
Sérgio Nunes Melo
ELENCO
Newton Olivieri, Ana Tereza, Thiago Carvalho
Larissa Raton
TEATRO MARTIM GONÇALVES
05 de março, 18:30
Ariovaldo Matos
DIREÇÃO
Sérgio Nunes Melo
ELENCO
Newton Olivieri, Ana Tereza, Thiago Carvalho
Larissa Raton
TEATRO MARTIM GONÇALVES
05 de março, 18:30
***************
AS MOÇAS
Isabel Câmara
DIREÇÃO
Elisa Mendes
ELENCOMárcia Andrade
Laura Sarpa;
Amauri Oliveira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
06 de março, 18:30
***********
À FLOR DA PELE
Consuelo de Castro
DIREÇÃO
Eliene Benício
ELENCO
Eveline Ferraz, Raimundo Matos de Leão
Marcos Moreira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
12 de março, 18:30
Isabel Câmara
DIREÇÃO
Elisa Mendes
ELENCOMárcia Andrade
Laura Sarpa;
Amauri Oliveira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
06 de março, 18:30
***********
À FLOR DA PELE
Consuelo de Castro
DIREÇÃO
Eliene Benício
ELENCO
Eveline Ferraz, Raimundo Matos de Leão
Marcos Moreira
TEATRO MARTIM GONÇALVES
12 de março, 18:30
**************
CORDÉLIA BRASIL
Antonio Bivar
DIREÇÃO
Celso Nunes
ELENCO
Jacyan Castilho, Marcelo Praddo, Saulus Castro
Antonio Fábio
TEATRO MARTIM GONÇALVES
13 de março, 18:30
****
Coordenação do Ciclo de Leituras
Raimundo Matos de Leão
Joana Schnitman
Raimundo Matos de Leão
Joana Schnitman
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013
Registro 419: Mais uma vez Cachoeira
Mais
um dia cachoeirano. Sábado (09.02,2013) de andanças pela cidade, suas ruas
estreitas, ladeiras íngremes, casarões, os mais belos, alguns cuidadosamente
conservados, outros nem tanto. Que belo seria se a população como um todo
tivesse condições de preservar seu patrimônio. Ainda assim, é notável o cuidado
com que muitos moradores tratam suas moradas. Fomos visitar outra benzedeira,
ou rezadeira, como queira o leitor. Dona Odete mora numa casa humilde na
lateral da Igreja do Rosarinho, perto do cemitério destinado aos negros, sítio
restaurado na gestão de Gilberto Gil no Ministério da Cultura. Perto também do
cemitério dos alemães. Na última vez que estivemos (2012) aqui, o cemitério
estava completamente abandonado, mas soube que havia um projeto de resaturo que
se arrastava pelas confusas redes burocráticas. Soube também que não havia
tanto interesse por ser um sítio destinado a enterrar brancos, uma atitude
maléfica desencadeada por esta política equivocada que tenta impor um padrão
norte-americano entre nós, ou seja, dividir uma nação miscigenada em brancos de
um lado e negros do outro. Reafirmo aqui que sou totalmente contra a tal
política. Reafirmo também o meu posicionamento contra ao preconceito e contra a
falta de oportunidades para os pobres desta terra Brasilis. É certo que vivemos numa sociedade extremamente
preconceituosa, mas não apartada.
Mas
voltemos ao foco do registro, a visita que fizemos a Dona Odete, simplicidade
visível no viver. Atitude acolhedora se mostra imediatamente e se amplia à
medida que se quebram as barreiras proporcionadas pelo desconhecimento, tanto
de um lado quanto do outro. Ela nos benzeu e disse ao meu amigo que ela estava
muito carregado, puro mau olhado. Não comentou nada a meu respeito, mas
rezou-me com a sabedoria dos antigos, conhecedora que é da bondades e das maldades
deste mundo. A visita se encerrou com abraços.
Em
seguida fomos a São Félix em busca de uma senhora fazedora de bonecas de pano,
uma indicação da funcionária da Pousada. Rodamos sem encontrar o destino, até
que alguém nos indicou a casa da irmã de Dona Noêmia. Gentilmente, a irmã no
levou até a bonequeira, artesã de primeira. Para nossa surpresa de habitantes
de cidade grande, a receptividade da senhora revelava uma outra maneira de ver
o mundo, de conviver. Ainda que soubesse da violência do mundo distante e
também do próximo, ela nos recebeu em sua casa, uma típica construção do começo
do século XX, com seu longo corredor que dá acesso às salas. Por elas passamos
para a varanda ladeada pelo estreito quintal com plantas exuberantes. Dona
Noêmia nos mostrou algumas das suas bonecas, mas não tinha exemplar para venda.
Retornamos
a Cachoeira em busca de outra senhora que nos indicaram como artesã de bonecas,
mas não encontramos sua casa. Deixamos então para o domingo de carnaval. Fomos
convidados para ir até Maragojipe para ver os blocos de mascarados, no meu
tempo de menino chamados de caretas. Declinamos, pois tínhamos outros planos:
descansar refrigerados pelo ar condicionado.
No
domingo, conseguimos chegar até a casa de Dona Anita, mas ela não estava.
Passamos mais uma vez no atelier de Mimo e adquirimos mais uma peça.
Antes
de dormir, uma olhada no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Um
horror. Estúpidos enredos, megalomania dos carnavalescos, tecnologia em vez de
criatividade. Uma pena.
Segunda
pela manhã, retornamos para tentar encontrar Dona Anita. Ela nos recebeu
atenciosamente e saímos de lá com duas bonecas de pano, bonecas de feitio
tradicional, tal qual as que eram vendidas na feira livre de Ipirá. As minhas
irmãs brincaram com bonecas de pano que vão perdendo lugar para as de plástico
feitas em série e sem muitas surpresas. Passamos mais uma vez pela praça e encontramos
Davi, o pintor e Seu Zé, o fotógrafo. Um dedo de prosa na manhã ensolarada de
céu azul bordado por nuvens brancas.
Lendo a Folha de de S. Paulo, edição de hoje, segunda-feira, li a entrevista de João Jorge Rodrigues, do Olodum sobre o carnaval soteropolitano. Embora discorde de alguns pontos, a sua fala é lúcida e coerente. Recortei o seguinte trecho:
Lendo a Folha de de S. Paulo, edição de hoje, segunda-feira, li a entrevista de João Jorge Rodrigues, do Olodum sobre o carnaval soteropolitano. Embora discorde de alguns pontos, a sua fala é lúcida e coerente. Recortei o seguinte trecho:
"Folha de S. Paulo: - O chamado 'Afródromo' ajuda ou atrapalha o cenário? [a iniciativa de Carlinhos Brown e outras seis entidades de criar um novo circuito, exclusivo para os blocos afro, estrearia neste ano, mas foi adiada pela nova gestão na prefeitura]
João Jorge - O Olodum tem brigado muito para sair mais cedo e poder ser visto pela televisão. Para que empresas patrocinem de forma equitativa os blocos afros.
Ao mesmo tempo, eles resolveram fazer algo separado. O que a sociedade mais quer é que os negros escolham um gueto para ir e se afastem da disputa com eles. É como se soubéssemos o lugar em que deveríamos ficar, em vez de aparecermos na Barra, no Campo Grande.
Mais ainda: obriga o poder público a ter gastos com outro circuito, quando os recursos poderiam ser distribuídos de uma forma melhor".
Não sei se é o que quer a sociedade. Generalizar é radicalizar. Não concordo com a ideia de se criar o tal circuito já denominado de "Afródromo". Mais um absurdo nos absurdos baianos. Sou do tempo que o carnaval era a atração e as personalidades, os famosos, brincavam na rua junto com os foliões. Era reconhecidos, às vezes aporrinhados por fãs afoitos, mas estavam na rua, ali na Praça Castro Alves, na famosa escadaria, dançando e se divertindo. A mesmice tomou conta do circuito Barra-Ondina, tudo igual, repetitivo e chato. É certo que o carnaval passaria por transformações, mas elas aconteceram de cima para baixo. O poder público em conluio com o poder privado, incluindo os artistas, impuseram o modelo que está aí. Só quero ver quando a coisa não funcionar mais? Qual será a proposta urdida nos gabinetes. Mataram o carnaval no Centro, confinaram parte da festa no Centro Histórico. Fazem o mesmo com o circuito do Campo Grande que perde o interesse para as redes de televisão. Tudo se volta para o circuito "nobre", Barra-Ondina. Até quando? A força da grana determina tudo e o povão vai na onda.
sábado, 9 de fevereiro de 2013
Registro 418: Diário de Cachoeira, mais um dia...
Pela
janela da antiga cela, hoje um dos bons apartamentos da Pousada do Convento do
Carmo, vimos uma construção, mas não das antigas. De qualquer maneira, o
interesse por ela fez com que saíssemos sem destino, mas com vontade de ver de
perto o imóvel. Depois de íngreme ladeira, a rua terminava no topo do morro e
não havia com seguir de carro. Estacionamos em frente a uma casa pintada de
azul, muito simples, mas bem cuidada. Da casa saiu um dos seus moradores.
Reconheci o moço que pintava a Pousada no dia da nossa chegada. Ele também nos
reconheceu e nos levou para conhecer o imóvel, um antigo hospital para crianças,
atualmente uma creche.
Do
alto do morro, a vista da cidade é memorável. Fotografamos e entabulamos
conversa com Caetano, o moço que nos recebeu. Ele mostrou a construção que está
fazendo no terreno que lhe pertence. Interessamo-nos por plantas e ervas do
terreno e ele foi identificando cada uma delas com sabedoria adquirida pela
vivência: aroeira, vassourinha, mastruz, velame, jurubeba, entre outras. Uma serigueleira
carregada de frutos ainda verdes chamava a atenção. Agradecidos pela gentileza,
descemos a ladeira e seguimos o passeio para os lados da Santa Casa de
Misericórdia.
Antes
do almoço, fomos mais uma vez dar uma volta na praça em frente ao Paraguaçu. Em
torno do monumento que homenageia as lutas pela Independência da Bahia, movimento
resistente começado em Cachoeira, havia uma exposição de fotos de Seu Zé e de
pinturas de Davi Rodrigues. Adquirimos duas pinturas em papel e uma foto e logo
nos entrosamos. O cidadão cachoeirano é receptivo e conta orgulhosamente sobre
a cidade, sua vida cultural e artística. Davi Rodrigues foi premiado na Bienal
do Recôncavo, agraciado como artista da região. Sua pintura de temática
fortemente marcada pela religiosidade sincrética de Cachoeira, se expressa
formalmente por uma variedade cromática rica em detalhes obsessivamente
trabalhados, remetendo ao pontilhismo. Ex-aluno de Hansen Bahia, o pintor iniciou
seu trabalho como gravador, mas enveredou para a pintura, visto que os quadros
despertavam mais interesse.
Na
frente da exposição, ou seja, do monumento uma manifestação religiosa
acontecia. Um terreiro de umbanda realizava culto em praça pública homenageando Oxum ou Iemanjá. Certamente Oxum,visto que o rio de águas doces banha a cidade. É possível que a cerimônia era para a Rainha das Águas. Um balaio com flores aguardava o momento de ser levado até o rio.
Atraídos pelo evento aproximamo-nos respeitosamente e acompanhamos com palmas os
pontos cantados pelos filhos e filhas do terreiro, muito deles em transe.
Depois
do almoço visitamos o atelier de Mimo, escultor. Adquirimos quatro peças entalhadas
na madeira, quatro pequenos Orixás.
Amanhã
tem mais...
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Registro 417: Diário de Cachoeira - Bahia
Há
três anos, fugimos do Carnaval soteropolitano para o descanso em Cachoeira, uma
das cidades mais lindas da Bahia. Aqui me sinto bem. O tempo escorre com suas
ladeiras e ruas num traçado original, com seus casarões centenários, seus
cantos e seu rio. Cachoeira é uma cidade potencialmente rica para o turismo.
Mas espero que não seja um turismo predatório. Chegamos na quarta-feira
(06.02.2013) depois de viagem tranquila. Passamos por Santo Amaro percorrendo
as suas ruas principais. Logo depois, seguindo as curvas da estrada, descemos
até a Heroica como todos os cachoeiranos a conhecem. Mais uma vez, desfrutamos
do conforto da Pousada do Convento do Carmo. Os padres sabiam morar. A bela
construção, necessitando de mais cuidado, é imponente. Para quem quer descansar
um ótimo lugar. Imagino com teria sido a vida por aqui quando o lugar era
habitado pelos Carmelitas. Não entrarei no mérito da ação destes frades na
região. O que importa para mim é o patrimônio, deixado, retrato de um passado, cujo
tempo e a ação do homem, nem sempre responsável, não destruíram, embora haja
muita ruína em Cachoeira. O passado se apresenta a todo instante em “seus
milhões de instantes já vividos e que permanecem presentes enquanto deles
persistir uma lembrança ou um efeito”, como nos diz Marguerite Yourcenar em seu
livro A Volta da Prisão (1992, p. 4).
Andando
pelas ruas, ficamos sabendo que seria realizada a Quarta dos Tambores, evento
em praça pública. Às vinte horas estávamos na praça em frente ao rio, o
Paraguaçu. A programação foi aberta com um grupo de ogans. Eles tocaram e
cantaram cantigas em louvor aos Orixás da nação dominante em Cachoeira, a Jêje.
Uma senhora vestida de branco também cantou e dançou no meio da grande roda. Um
bom público foi se formando. Em seguida apresentaram-se grupos de
samba-de-roda. O primeiro deles, Esmola Cantada revelava as confluências entre
o sagrado e o profano. Segui-se a apresentação dos Filhos do Caquende e dança
esquentou ainda mais. Os espectadores, homens e mulheres, dançavam divinamente,
com elegância, ginga, sensualidade e domínio do passo e do espaço.
Impressionante a habilidade dos pares e de todos que arriscavam expressar o
samba no pé. Samba no pé e nas vozes que desfiavam os mais lindos e
tradicionais sambas, alguns conhecidos outros não. Uma noite inesquecível. Não
arrisquei uns passos, para não passar vergonha. Tenho o quadril sem molejo, condição
necessária para a execução da dança.
Na
quinta, fomos a uma rezadeira que com galhos de aroeira nos rezou. Seguindo a
tradição iniciada por seu pai, um famoso beato de Cachoeira. Deixei na folhas
as mazelas e saí da casa da rezadeira sentindo-me leve. Lembrei-me da infância
quando Davina, rezadeira das boas em Ipirá, rezava os filhos de Dona Ester e de
seu Roque.
Um
incidente na manhã calorenta. Da última vez que estivemos na cidade, a matriz
estava em processo de restauro e por isso mesmo fechada. Agora, com as obras
concluídas, a Igreja do Rosário encontrava-se aberta aos seus fiéis e
visitantes. Resolvemos entrar para apreciar o templo. Pretendíamos assistir à
missa e em seguida fotografar o belo espaço. As fotos deveriam compor o blog
Igrejas da Bahia, hoje contendo imagens de cinquenta igrejas de Salvador,
incluindo a Igreja da Ordem Terceira do Carmo de Cachoeira, cuja decoração nos deixa
extasiado. Pois bem, fomos proibidos de fotografar a Igreja do Rosário com a
alegação de que o templo tinha sido roubado várias vezes. Sentimo-nos
ofendidos, visto que fomos, de certa forma, acusados de sermos ladrões de
igreja. O mais estranho é que tal medida tenha sido tomada depois que levaram a
grande maioria das imagens. Presumo que as mesmas devam ser lindas e devem
estar decorando alguma residência brasileira ou estrangeira. Feita a proibição
nos retiramos. Antes, porém, nós protestamos.
Um templo deve ser cuidado por
seus responsáveis, mas não se pode proibir de fotografá-lo, desde que a máquina
esteja adequada para tal função, sem flash,
e não agrida os elementos decorativos nem as cerimônias religiosas e seus
fiéis. Quanto a isto, estamos de acordo. Depois do sucedido, pensando cá com
meus botões, dei-me conta de que a Arquidiocese e as Ordens Religiosas não
botam um prego no seu patrimônio. Alegam determinações do Instituto do
Patrimônio. Não botam prego, ou seja, não dão à mínima. Basta ver como ficou,
por exemplo, o conjunto arquitetônico de São Francisco do Iguape, região perto
de Cachoeira. É certo que o Instituto deve cuidar para que se mantenha o estilo
de cada igreja, suas imagens, seus elementos decorativos, para que tudo isto
não seja modificado aleatoriamente por pessoas que desconhecem a história da
arte, ou sem a mínima sensibilidade para olhar o espaço e ver que não se pode
inserir coisas conflitantes com a estética impressa pelos construtores das
belas igrejas da Bahia e o Brasil. O mais sério de tudo é que este belíssimo
patrimônio, independente da religião e da fé, é restaurado com verbas públicas.
Portanto, somos nós, crentes e ateus, que destinamos o dinheiro recolhido pelos
impostos para o restauro e a conservação dos edifícios, sejam eles igrejas,
museus e outros.
Não
incorrendo em acusações, o certo é que os responsáveis pelas igrejas, ou seja,
os padres, não estão nem aí. Não quero generalizar, mas é sabido que muitos
deles dilapidam o patrimônio. Todos nós sabemos que tal acervo é cobiçado por
colecionadores ávidos de botarem a mão nas ricas obras. Ladrões são muitos e de
várias procedências... Não é o nosso caso. Podemos ser acusados de capturar os bens através das fotos, uma apropriação, mas que não causa dano ao patrimônio. Deixo aqui o meu protesto. Ah, além do mais, num época
propícia ao turismo - a Pousada não me deixa mentir, visto seu bom número de
hóspedes brasileiros e estrangeiros -, as igrejas de Cachoeira estão toda
fechadas. E não somente elas. Tudo que pertence ao poder público também. Assim
fica difícil manter viva está acolhedora e bela cidade que é Cachoeira, um
poema entre morros, banhada pelo grande rio Paraguaçu, onde já não navega o vapor.
A
sexta-feira amanheceu ensolarada. Depois do mergulho na piscina da pousada,
fomos para São Félix, a vizinha cidade do outro lado do Paraguaçu. Queríamos
ver a Bienal do Recôncavo em sua décima primeira edição, uma realização do
Centro Cultural Dannemann. Gostei do
Centro e da Bienal. Não vou me deter nos trabalhos da mostra, são muitos; Mas não posso
deixar de citar o de Flora Rebollo, os desenhos da Série Cortina Vermelha: Chapéu Mosquiteiro e Interior de Chapéu. A artista recebeu
merecidamente, o grande prêmio. Da montagem, o único reparo é a cor dos
painéis. As cores berrantes concorrem com muitas das obras. O Centro Cultural abriga
uma sala onde um grupo de mulheres muito bem acomodadas em mesas enrolam
charutos. Dannemann é uma fábrica de charutos. O resto do dia foi de passeio,
fotos e depois muita preguiça.
Assinar:
Postagens (Atom)



