sexta-feira, 15 de abril de 2011

Registro 351: Aguardando um filme



Com ansiedade, positiva é certo, por isso não desgastante, eu esperava que o filme Homens e Deuses de Xavier Beauvois estreasse hoje em um dos cinemas de Salvador, mas nada. Os exibidores estão lentos e andam caprichando na programação de filmes sem mérito, ou melhor de pouco mérito, para não desencadear a fúria de muitos. Não acredita, basta olhar o jornal e ver que os lançamentos não ultrapassam a linha mediana do que se espera de uma bom filme. A maioria é de produtos medíocres.E não estou falando de filme "cabeça", expressão hoje em dia usada para qualificar ou desqualificar filmes que exigem um pouco mais de sensibilidade, de atenção, de reflexão por parte do espectador. 

O filme de Xavier Beauvois, biscoito fino, como diria Oswald de Andrade de sua poesia "um dia, a massa comerá do biscoito fino que eu fabrico", não chegou. Esperarei, pois quero vê-lo em tela grande. Homens e Deuses vem precedido de críticas das mais elogiosas. Para muitos, a crítica não é um indicador seguro. Por vezes ela comete exdruxulice, mas as que li até o momento despertaram-me a vontade de apreciar a obra. Resta esperar. Espero não me decepcionar, visto que os programadores das salas optam, em sua maioria, pelo previsível. Ah, desconfio sempre da quantidade de estrelas com que os colunistas dos jornais agraciam alguns filmes. Por hoje é só, como dizia Sílvio Lamenha, "poesia é axial"

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Registro 350: Um seguidor de Grotowski

O americano Thomas Richards, principal seguidor de Jerzy Grotowski (1933-1999) -diretor polonês que revolucionou as artes cênicas com a criação de seu "teatro pobre"-, participa do Encontro Mundial das Artes Cênicas, em Belo Horizonte.

O evento, que começou no dia 10 e vai até 1º de maio, busca refletir sobre o fazer teatral através do compartilhamento de ideias e trabalhos de artistas de diversas nacionalidades.


Richards, grande destaque da programação, apresenta através de workshops os princípios básicos da prática em performance desenvolvidos no centro de pesquisa criado por Grotowski em 1986, hoje chamado Workcenter of Jerzy Grotowski and Thomas Richards.


Richards conversou com a Folha sobre sua experiência com o diretor polonês cujas pesquisas influenciam a criação teatral até hoje. 



Folha - Na sua opinião, qual foi a maior contribuição que Grotowski deu ao teatro? 

Thomas Richards - Grotowski sempre procurava a verdade, algo que ia além de formas e imitações. Sua descoberta relacionada ao impulso como fundamento da ação foi uma inovação notável que ainda hoje pode nos ajudar a tocar acordes escondidos em nós, parte do inconsciente coletivo. 



A devastação da Polônia, dizimada pela invasão nazista, foi testemunhada por Grotowski. Isso se refletiu na criação de seu teatro pobre? 

A experiência certamente o marcou, criando nele a consciência de que a história pode afetar profundamente a vida das pessoas. 



Por que após 1969 Grotowski parou de dirigir? 

Grotowski foi reconhecido como um dos maiores diretores do mundo. O caminho mais provável teria sido se prender a isso. Mas ele deixa isso pra lá e dedica-se exclusivamente às suas pesquisas. 



Por que você acha que foi escolhido por Grotowski para ser seu seguidor?

Não há mistério nisso. Como em qualquer situação profissional, houve uma demanda por competência e dedicação.Tinha acabado de me formar na Universidade de Yale. Estava com 22 anos, insatisfeito, sentindo que algo dentro de mim precisava ser revelado. Ele estava entrando na última fase de sua vida, precisava passar seu conhecimento. 



Qual foi o grande ensinamento que você teve com ele? 

Ele me fez responder uma pergunta que eu tinha, mas não conseguia formular. Quando eu o conheci, minha sensação é de que estava sufocando. Seu trabalho tende para uma espécie de reconexão. Nossas pesquisas para esse tipo de despertar são baseadas num trabalho diário, que dura uma vida. 



Como seu centro de pesquisa faz avançar o pensamento de Grotowski?

Nós nos esforçamos para criar uma contracorrente que impulsiona o ser humano a restabelecer uma ligação humana, mesmo que isso vá contra os nossos desejos de isolamento e proteção. 



Qual será o foco de seu workshop no Brasil?

Artistas brasileiros terão oportunidade de participar da nossa prática pela primeira vez. Vamos investigar elementos essenciais do nosso trabalho, como contato, impulso, intenção, ação, reação, e explorar razões que levam artistas à criação.



Folha de S. Paulo 12 de abril de 2011. Entrevista concedida à jornalista Gabriela Mellão

domingo, 3 de abril de 2011

Registro 349: Flávio Império em vídeo

Registro 348: Flávio Império em vídeo

Registro 347: Num domingo entediante

Tem gente que veio ao mundo para atrasar o processo civilizatório. Pura especulação? Sei disso, mas diante do que presencio e leio cabe especular. A máxima é uma provocação. 


Espanta-me o que é dito, espantam-me atitudes irreprováveis em um mundo que se quer civilizado. Eu, com meu aforismo, posso espantar. O mundo avança, mas os humanos, ou pelo menos alguns humanos, parecem permanecer no ponto zero. São muitos? Penso que sim.  


Cada dia que passa desaba sobre o nosso cotidiano os maiores descalabros e minha sensibilidade educada com tenacidade é agredida. Ainda assim, mantenho minha inabalável capacidade de acreditar na beleza do nosso mundo. E quando a agressão é insuportável cerco-me de boa literatura, cinema, teatro, artes visuais e  música. Assim, eu resisto. 


Recebi o texto de Frei Betto por e-mail. Não havia nenhuma informação sobre a publicação original do texto. Visto que na Internet há muito gato por lebre, espero que o texto seja mesmo do dominicano. Aviso quem não comungo com todas as ideias de Frei Betto nem compartilho com algumas de suas atitudes, mas gostei do texto.



DO MUNDO VIRTUAL AO ESPIRITUAL

Frei Betto


Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos em paz em seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam. Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente.

Aquilo me fez refletir: “Qual dos dois modelos produz felicidade?” Encontrei Daniela, 10 anos, no elevador, às nove da manhã, e perguntei: “Não foi à aula?” Ela respondeu: “Não, tenho aula à tarde”. Comemorei: “Que bom, então de manhã você pode brincar, dormir até mais tarde”. “Não”, retrucou ela, “tenho tanta coisa de manhã...” “Que tanta coisa?”, perguntei. “Aulas de inglês, de balé, de pintura, piscina”, e começou a elencar seu programa de garota robotizada.

Fiquei pensando: “Que pena, a Daniela não disse”: “Tenho aula de meditação!”

Estamos construindo super-homens e super-mulheres totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizadosPor isso as empresas consideram agora que, mais importante que o QI, é a IE, a Inteligência Emocional. Não adianta ser um super-executivo se não se consegue se relacionar com as pessoas.

Ora, como seria importante os currículos escolares incluírem aulas de meditação! Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias! Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito. Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: “Como estava o defunto?”. “Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!”

Mas como fica a questão da subjetividade? Da espiritualidade? Da ociosidade amorosa? Antes, falava-se em realidade: análise da realidade, inserir-se na realidade, conhecer a realidade. Hoje, a palavra é virtualidade.

Tudo é virtual. Pode-se fazer sexo virtual pela internet: não se pega aids, não há envolvimento emocional, controla-se no mouse. Trancado em seu quarto, em Brasília, um homem pode ter uma amiga íntima em Tóquio, sem nenhuma preocupação de conhecer o seu vizinho de prédio ou de quadra! Tudo é virtual, entramos na virtualidade de todos os valores, não há compromisso com o real!

É muito grave esse processo de abstração da linguagem, de sentimentos: somos místicos virtuais, religiosos virtuais, cidadãos virtuais. Enquanto isso, a realidade vai por outro lado, pois somos também eticamente virtuais. A cultura começa onde a natureza termina. Cultura é o refinamento do espírito. Televisão, no Brasil - com raras e honrosas exceções -, é um problema: a cada semana que passa, temos a sensação de que ficamos um pouco menos cultos. A palavra hoje é “entretenimento”; domingo, então, é o dia nacional da imbecilização coletiva. Imbecil o apresentador, imbecil quem vai lá e se apresenta no palco, imbecil quem perde a tarde diante da tela.

Como a publicidade não consegue vender felicidade, passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: “Se tomar este refrigerante, vestir este tênis,­ usar esta camisa, comprar este carro, você chega lá!” O problema é que, em geral, não se chega! Quem cede desenvolve de tal maneira o desejo, que acaba precisando de um analista. Ou de remédios. Quem resiste, aumenta a neurose.

 Os psicanalistas tentam descobrir o que fazer com o desejo dos seus pacientes. Colocá-los onde? Eu, que não sou da área, posso me dar o direito de apresentar uma sugestão. Acho que só há uma saída: virar o desejo para dentro. Porque, para fora, ele não tem aonde ir! O grande desafio é virar o desejo para dentro, gostar de si mesmo, começar a ver o quanto é bom ser livre de todo esse condicionamento globalizante, neoliberal, consumista.

Assim, pode-se viver melhor. Aliás, para uma boa saúde mental três requisitos são indispensáveis: amizades, auto-estima, ausência de estresse.

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Se alguém vai à Europa e visita uma pequena cidade onde há uma catedral, deve procurar saber a história daquela cidade - a catedral é o sinal de que ela tem história. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, no Brasil, constrói-se um shopping center. É curioso: a maioria dos shopping centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingos. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas... Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista.

Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas. Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Se deve passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do McDonald's.

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: “Estou apenas fazendo um passeio socrático.” Diante de seus olhares espantados, explico: “Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores, como vocês, o assediavam, ele respondia”:

“Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz.”

sexta-feira, 25 de março de 2011

quinta-feira, 24 de março de 2011

Registro 345: Uma flor para Elizabeth Taylor

Uma cena de Quem Tem Medo de Virgínia Woolf

Inesquecível em Um Lugar ao Sol, Assim Caminha a Humanidade, Gata em Teto de Zinco Quente, De Repente, no Último Verão, Disque Butterfield 8, Quem Tem Medo de Virgínia Woolf, Pecado de Todos Nós. Seus olhos eram piscinas azuis-violetas. Sua presença magnética. Sua vida um melodrama. Uma dama desregrada que enchia a tela de volúpia. Assisti quase todos os seus filmes, mesmo os ruins, mas sua presença diluía a má qualidade de certos filmes. Um ícone do século XX, ela sabia de sua importância no cansado século XXI. Flores para Elizabeth.

quarta-feira, 9 de março de 2011

344: Carnaval em Cachoeira - Bahia


Fugi do caos carnavalesco para Cachoeira. Não senti saudades de Salvador durante os dias que por lá passei. Cachoeira desperta em mim sentimentos contraditórios. Gosto do que vejo, da sua atmosfera... sinto-me bem na cidade. Por outro lado, me angustio ao ver que ela tem potencial que não é explorado. Explorado a partir de um projeto que respeite suas características e sua identidade, seu jeito de ser. Penso sempre em Parati todas as vezes que vou à jóia do Paraguaçu, preguiçosamente posta em sua margem num diálogo com sua cara metade, São Félix.
Tudo é beleza e tudo é ruína. Andar por suas ruas e ver como é lindo aquilo que está cuidado, restaurado, respeitado. É um prazer desfrutar da poesia que emana de seus casarões e das pequenas casas que compõem o cenário de ladeiras, praças e ruas estreitas, e becos que guardam silenciosamente camadas do tempo depositadas em cada janela, porta, telhado. É triste saber que muita coisa podia ser melhor cuidada e não é. Fico a sonhar com Cachoeira inteiramente restaurada, mas não tratada como parque temático ou algo parecido. Restaurada para se manter como uma cidade histórica viva e não morta. Uma cidade que precisa do seu jeito especial para sobreviver. O atrativo é sua arquitetura, sua história, sua vida cultural. Modificá-la é matá-la. E quando afirmo isto, não desejo que ela viva como um museu, mas que se espelhe em Ouro Preto, em Parati e outras tantas cidades brasileiras cujos moradores sabem o que significa morar em lugar que é diferente e diverso da mesmice que torna tudo moderno.
O rio. Fiquei horas olhando suas águas e pensando que o vapor já não navega como antigamente. Olhar São Félix tão longe, tão perto e deixar o espírito voar entre uma margem e outra e depois fazer a travessia pela ponte. Travessia que deve ser feita a pé.
Ver igrejas e capelas, sobrados e casas que de tão baixas se expõem para o visitante que se sente envergonhado e contém a curiosidade para não bisbilhotar a intimidade dos que aí vivem. Na Pousada do Carmo, um monumento com sua Igreja da Ordem Terceira inteiramente restaurada, ganhei horas de silêncio e reflexão, divididas entre leituras e conversas a meia voz. Pensando sempre como teria sido a vida dos que viveram alí nos séculos passados, imaginei ficções.
Na Pousada, o charme é a construção em si, mas muito desleixada como hotel. A sensação que tive é de que tanto faz. Basta o convento. Nas sala, antigo cemitério, uma caixa está jogada dentro de uma das sepulturas, uma mesa de bilhar encostada em um canto torna-se uma objeto inusitado em meio à sala. Procurei por um folheto que contivesse informações sobre o convento. Não há.
Na beira do rio, o antigo Hotel Colombo desmancha-se. Mas nem tudo está perdido. A Irmandade da Boa Morte ocupa dois casarões belissímos, assim como a Fundação Hansen Bahia. Fora uma capela que não consegui identificar, as igrejas estão conservadas. A Igreja da Ajuda é um primor arqutetônico. Muitas residências também merecem a atenção dos seus proprietários e A Heróica segue vencendo o tempo, o descaso e a limitação para se impor majestosa abrigando sua gente negra e mulata de sorriso simpático e voz mansa. Gente reservada, ciente de sua privacidade. 
Não fui abordado por ninguém pedindo ou tentando vender alguma coisa. Para uma cidade turística é uma dado para ser levado em conta.
Vi em algumas galerias quadros de um artista, mas não consegui identificar seu nome. Fotografei um deles, cuja imagem de Santa Luzia repete-se de maneiras variadas. Noutro trabalho, surge a imagem de Glauber Rocha e noutro a de São João Menino, cada qual num releitura muito particular.

Não encontrei artesanato original para comprar. Fui até Coqueiro, um lugarejo à beira do rio, para adquirir a cerâmica de Dona Gadu, uma simpatia.

Fiz muitas fotos e deixo algumas para apreciação dos interessados. Espero que tenham vontade de ir até Cachoeira para ver de perto os seus contrastes. Não é longe de Salvador, a estrada é ótima, conservada e sinalizada.



sexta-feira, 4 de março de 2011

Registro 343: Dona Aracy, O Anjo de Hamburgo

Lá se foi dona Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, aos 102 anos, uma benfeitora da humanidade. Conheci dona Aracy já idosa, mas muito lúcida, sempre elegante. Este privilégio devo ao meu amigo, o professor Wellington Vieira de Camargo com quem trabalhei no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem.

Eu conhecia um dos netos de dona Aracy, o saudoso Plínio Tess, mas Wellington me aproximou da família, gente discreta, de carinhosa acolhida. Certa feita, seu filho, Eduardo Tess presenteou-me com uma caixa contendo toda a obra de Guimarães Rosa. Anos mais tarde recebi o livro que traz a correspondência entre o avô Rosa e as netas Vera e Beatriz. O livro, Ooó do Vovô (EDUSP, PUC Minas, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), é delicioso.

Quando recebi a obra de Guimarães Rosa não contive o ímpeto de solicitar o autógrafo de dona Aracy, mas não querendo incomoda-lá com o meu pedido, pedi ajuda a uma das netas. O meu exemplar de Grande Sertão, Veredas, dedicado a ela pelo escritor, ganhou sua assinatura.

Para os que não sabem, dona Aracy é chamada de O Anjo de Hamburgo por ter salvo muitos judeus, conseguindo  vistos assinados pelo marido, cônsul-adjunto brasileiro na Alemanha, quando Hitler entendeu de exterminar os judeus da face da terra.

O trabalho no consulado facilitou a atividade subversiva de dona Aracy. Subversiva porque vivíamos sob o Estado Novo, a ditadura getulista simpatizante da política do Eixo. Para sorte de muitos, dona Aracy estava no lugar certo e na hora certa. Ela era encarregada do setor de vistos da embaixada e foi assim que atuou, indo de encontro às normas do governo brasileiro quanto a imigração de judeus. E tudo começou quando Hitler iniciou a perseguição com a Noite dos Cristais, ataque de grupos de nazistas as sinagogas e lojas, em 9 de novembro de 1938. Por sua solidariedade, dona Aracy tem seu nome inscrito no Jardim dos Justos entre as Nações do Museu do Holocausto de Israel, honra concedida aos não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus do extermínio nazista.

Lembro que, ao frequentar a casa da família, encontrei-me com uma senhora salva por dona Aracy e que se tornou sua amiga, visitando-a constantemente apesar da idade. Soube hoje que Maria Margareth Bertel Levy, a amiga alemã vinda para o Brasil, ajudada por dona Aracy,faleceu no dia 21 de fevereiro aos 102 anos.  


Dona Aracy nasceu na cidade de Rio Negro, Paraná, em 20 de abril de 1908. Sinto orgulho de ter nascido no mesmo dia em que ela. Seu pai era português e sua mãe alemã. Casou-se com Johan Tesse, separando-se dele num tempo em que no Brasil não havia divórcio, uma prova do quão arrojada era está mulher, culta e poliglota, por quem Guimarães Rosa se apaixonou, quando a conheceu trabalhando no consulado em Hamburgo.

Flores para Dona Aracy (1908-2011), e a minha homenagem.


O texto seguinte não é de minha autoria, recebi-o por e-mail, com solicitação para divulgá-lo. Acho oportuno publicá-lo junto a homenagem que presto a dona Aracy


"Irena Sendler, uma senhora de 98 anos, faleceu há pouco tempo. Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações.  Mas os seus planos iam mais além... Sabia quais eram os planos dos nazistas relativamente aos judeus (sendo alemã)! Irena leva crianças escondidas no fundo da sua caixa de ferramentas e levava um saco de sarapilheira na parte de trás da sua caminhoneta (para crianças de maior tamanho). Também levava na parte de trás da caminhoneta um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto. Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar deste encobria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer. Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças. Por fim os nazistas apanharam-na e partiram-lhe ambas as pernas, braços e prenderam-na brutalmente.

Irena mantinha um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma árvore no seu jardim. Depois de terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir a família. A maioria tinha sido levada para as câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adotivos.

No ano passado foi proposta para receber o Prêmio Nobel da Paz... mas não foi selecionada. Quem o recebeu foi Al Gore por uns dispositivos sobre o Aquecimento Global.Não permitamos que alguma vez esta Senhora seja esquecida!! Estou transportando o meu grão de areia, reenviando esta mensagem. Espero que faças o mesmo. Passaram já mais de 60 anos, desde que terminou a 2ª Guerra Mundial na Europa. Este e-mail está a ser reenviado como uma cadeia comemorativa, em memória dos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos e 1.900 sacerdotes católicos que foram assassinados, massacrados, violados, mortos à fome e humilhados com os povos da Alemanha e Rússia olhando para o outro lado. Agora, mais do que nunca, com tantos governos e sociedades e proclamando vergonhosamente que o Holocausto é um mito, é imperativo assegurar que o Mundo nunca esqueça."

quarta-feira, 2 de março de 2011

Registro 342: Diário da província

O calor, o fim das férias, o caos carnavalesco que se abate sobre Salvador, afastaram-me do blog. Mas venço a morrinha e registro algumas anotações...

A cidade está entregue às baratas ou melhor a quem organiza o carnaval. Os órgãos públicos fecham os olhos aos desmandos, quem manda mesmo são os empresários carnavalescos. Tudo está estragulado e pelo que se vê, o pupulacho vai ficar mais espremido, enquanto os bacanas se esbaldam nos supercamarotes. Os bacanas e os deslumbrados com a "bacanice" dos outros.

O bom gosto na decoração dos camarotes passou longe, mais uma breguice no cenário muito brega. Os anúncios divulgando os artistas são medonhos. Direção de arte não existe, bom fotógrafo pra quê? No ano passado eram as caretas horríveis dos políticos asombrando o nosso cotidiano durante a campanha eleitoral, agora são os cantores, uma enxurrada de desconhecidos, horríveis. Os conhecidos, as ditas superestrelas,  agem como se estivessem acima do bem e do mal.

Outro dia vi num anúncio de empreedimento imobiliário uma frase que chamou minha atenção pelo inusitado. A frase, obviamente, vendia as excelências do empreendimento e estava escrita em português informando sobre os itens do mega edifício, mas repentinamente surgia uma palavra em inglês - garden -, como se nossa maltratada língua não contivesse a palavra adequada, jardim para identificar aquele lugar onde se plantam flores, árvores e que tais. O publicitário deve ser uma jóia de superlativa babaquice. Para ele e os empreendedores, o termo em língua estrangeira da visibilidade ao projeto. Coisa mais jeca!

A mania de nomear edifícios em outra línguas, notadamente inglesa e francesa é uma constante por aqui e pelo Brasil. E como a maioria da população não sabe a pronúncia correta, os nomes se tornam engraçados, quando não uma aberração.

Andei indo ao cinema, mas não vi O Cisne Negro nem O Discurso do Rei. Gosto demasiadamente de Inverno na Alma. Como não vi a primeira versão de Bravura Indômita, o filme dos  dos irmãos Coen me satisfaz plenamente. Fico livre de comparações. Aguardo Poesia.

Po falar em cinema, lá se foi Annie Girardot, atriz francesa, inesquecível em Rocco e Seus Irmãos, a obra-prima de Visconti. Girardot fez tantos filmes, mas sua Nádia no filme do italiano é memorável, como persogem muito bem concebido e interpretado com grandeza pela atriz. Foi-se Jane Russell, a morena estonteante que exalava sensualidade pelos poros. Nos deixou também Carminha Brandão, atriz brasileira que a nova geração não sabe quem é.

Fui até o fim de Biutiful, muito mais pelo ator que pelo filme. Iñárritu perdeu a mão. São tantos os temas em seu filme que é uma overdose de problemas do mundo globalizado e pós-moderno. Talvez uma bula para entender tal mundo ou desentendê-lo de vez. O filme não conseguiu estabelecer nenhuma empatia, portanto não me comoveu nem me faz refletir. Um sessão tediosa, um filme hiperbólico. Em seus outros filmes, o diretor já demonstrava tendência ao exagero, mas o seu colaborador, Arriaga, conseguia conter os excessos, assim penso eu.

Tetro vai bem até certo ponto. A partir  da tal cerimônia de entrega do prêmio na Patagônia, desanda e Carmem Maura, uma atriz excelente está um tanto ridícula no personagem. Além do mais aguentar Vicent Gallo durante duas horas, urgh! Não tenho nenhuma simpatia pelo ator. Na verdade, acho que ele é mais uma personalidade excêntrica, que um ator. Coppola ainda me diz muito, mesmo quando escorrega e pesa a mão. Deve-se prestar atenção em Alden Ehrenreich, uma promessa e uma beleza e tanto. 

Não vi a entrega do Oscar, não aguenta mais tal cerimônia. Basta ler os jornais nos dias seguinte e pronto.

Em casa, vi Dois Destinos, o tocante filme de Valerio Zurlini. O filme é de 1962 e continua inteiro. Revi Histórias Extrodinárias  (1968), baseado em contos de terror de Edgard Allan Poe, direção de Vadim, Malle, Fellini. A história de Vadim perdeu a força. Adquiri para rever  Boccaccio 70 (1962), Moniceli, Fellini, Visconti e De Sica e Ontem, Hoje e Amanhã, de Vittorio De Sica
Hoje, terminei um quadro feito a pedido de uma amiga. Gostei do resultado, faz tempo que não pegava nos pincéis. Isso em meio à preguiça de um verão insuportável.

Fugirei do carnaval, sempre! E olha que sou folião desde criança, afinal sou filho de um pai que era Rei Momo. Mas carnaval selvageria não dá. A minha intuição diz que os níveis de violência vão pro alto.

Conclui as dez sessões de Rofling com Celso Nunes, diretor de teatro e também terapeuta. Uma experiência e tanto. A terapia corporal mexeu positivamente comigo.

Agora planejo fazer os ajustes nos meus planos de curso, esperar a edição do livro que escrevi sobre o ator Harildo Déda e torcer para o outono chegar com promessas de temperaturas mais amenas.

Conclui a leitura de O Poder da Arte, de Simon Schama (Companhia das Letras, 2010). Pode-se discordar da argumentação e dos juízos do autor sobre os artistas que escreve. São oito ensaios sobre as genialidades de Caravaggio, Bernini, Rembrandt,David, Turner, Van Gogh, Picasso e Rotko. Sem erudição presunçosa, Schama nos lança para dentro da obra-vida dos artistas escolhidos. Dentendo-se em analisar alguns dos trabalhos dos mestres com linguagem clara e envolvente, ele aproxima os artistas de nós, pobres mortais. Quem se interessa por arte vai gostar de ler suas 501 páginas e apreciar as belas ilustrações. vale a pena.

Presenteei uma amiga judia e comunista com um oratório de Iemanjá. Ela telefonou contente com o presente feito por mim. Hoje, da parte dela, recebi um postal com a figura de Lenin feita a bico de pena. Minha amiga é uma pessoa interessantíssima: estudou em colégio protestante, sua mãe lhe contava histórias de fadas, cuja figura do príncipe confundia-se com a de Luiz Carlos Prestes. Certa vez confidenciou-me que gostava de ver as meninas vestidas de noiva para a Primeira Comunhão e tinha inveja delas. Uma figura e tanto a minha amiga. Invejável espírito aberto ela tem e me anima a ser da mesma forma.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Registro 341: Uma semana em Sampa

Viaduto do Chá, Teatro Municipal ao fundo - São Paulo, 2011. Raimundo Matos de Leão

Em função dos compromissos particulares e profissionais, deixei de viajar por um bom tempo. Tal situação me deixou deslocado, mesmo contando com as mídias que nos enchem de informação. Mas nada como sair da rotina e ver outros lugares. Fui a São Paulo, lugar onde vivi por quase trinta anos, sítio de muitas vivências, de muitas recordações e amarrações. Não voltaria a residir em Sampa: a cidade me deixa exausto, pois tudo é superlativo, as qualidades e os defeitos. Uma semana basta para deixar excitações que se prolongam por muito tempo, até que o cotidiano absorva a carga de energia provocada por uma cidade estimulante, exageradamente absorvente e exigente.

Meu objetivo era rever amigos. Vi poucos, mas muitos queridos. Com Fanny Abramovich, fui ao teatro e passamos muitas horas proseando num restaurante acolhedor e de comida gostosa, depois de termos ido ao Sesc Belémzinho, um lugar dos melhores. O Sesc em São Paulo é dez. Rimos muito de nós e também dos outros.

Teresa me hospedou e revivemos momentos passados, quando moramos juntos numa vila em Pinheiros. Sua gata Bianca, que não foi com minha cara, rejeitava meus carinhos, mas Teresa me disse que a felina é assim mesmo, estranha os estranhos. 

Almocei na casa do Jô, que reuniu Solange, Marilena, Catito e outros amigos, para um encontro que entrou pela tarde e se encerrou porque eu tinha de ir ao teatro para ver Ópera dos Vivos. Sobre o espetáculo não comentarei, visto que dos quatro atos só aguentei o primeiro. Me mandei, Fanny também. Coisa chata, velha, obviedade em cena; esqueceram o humor e a crítica para olhar a cultura brasileira a partir da década de 60. Teoria brechtiana de algibeira, simplória como cartilha. Aliás, o ranço da cartilha é o traço. Nem Marx, nem Prestes, nem Paulo Freire aguentariam tal espetáculo. Penso que nem no acampamento dos Sem Terra faria sucesso.

Visitei minha querida amiga, a atriz e professora Cleide Queiroz, e Maria Eugênia, cuidadora da biblioteca de seu pai, Osmar Rodrigues Cruz.  O acervo com obras raras sobre teatro está muito bem cuidado e merece apoio. Estamos correndo atrás, ela mais do que eu, um vice-presidente (não muito atuante) do Instituto Osmar Rodrigues Cruz. 

Passei par ver Tony em seu belo e antigo apartamento. Com Márcia, Irene, e duas Teresas, fui bebericar na Vila Madalena, um bar atrás do outro. E pensar que a Vila era uma lugar pacato com suas casas simples, morada de estudantes da USP e de artistas, gente que buscava uma alternativa para a caretice paulistana, isso na década de 70.  Agora virou point... de bacana.

No Sesc Pompéia encontrei Roberto Ceni. No belo espaço criado Lina Bardi, apartir da recuperação de uma antiga fábrica vi O Idiota, a versão para o palco do romance  de Fiódor Dostoiévski, sob a direção de Cibele Forjaz. Prometo escrever sobre o espetáculo que me deixou contente por ver teatro de qualidade.

Por fim, o almoço na casa de Agda, família querida. Seus netos cibernéticos estão crescidos e sabidos. 

Por acaso, dei de cara com Ricardo Muniz, com quem trabalhei no Sesc Pompéia na década de oitenta, hoje um animador do teatro com intercâmbios com a Alemanha e o Japão. Não nos víamos desde 1989. O reencontro se deu no belo Centro Cultural Banco do Brasil, onde fui ver a exposição Islã, arte e civilização. Deslumbrante mostra da arte islâmica

Não tornarei públicas as conversas com os amigos, mas registro a quantidade de afeto recebido. Afeto que o tempo e a distância não diminuiram. Os reencontros foram prazerosos e guardo comigo os sorrisos, os gestos, as atenções.

Andar pelo Centro da cidade sempre foi uma mania. E agora que a cidade de São Paulo está bem cuidada, é um passeio e tanto. O paulistano reclama do seu atual prefeito. Imagina se eles morassem em Salvador. Eu gostaria que o prefeito daqui desse um jeito na Cidade da Bahia, mas isso ele não vai dar, porque lhe falta competência. Competência que Salvador só vê quando dos preparativos para o Carnaval. Êta eficiência!! O prefeito, posto em sossego, pensa que iluminação verde esconde a feiúra, a sujeira, a desorganização da Cidade da Bahia. E pensar que a cidade foi um dia tão linda com seus neons, deixando-lhe magicamente bela. O que se vê agora é a destruição das camadas do tempo, dos tempos que estão na memória dos vivos que um dia se acabará, memória que será pó... Falta-nos um Gregório de Matos.

Mas São Paulo, com todos os problemas, está limpa e mostra-se sem a poluição dos anúncios que cobriam tudo, escondendo dos olhos a beleza de sua arquitetura. 

Um dos problemas da cidade é o trânsito. Quem mora lá padece. Como eu estava de férias, não dava bola. Os serviços são eficientes, desde a Rua 25 de março até os Jardins. No Mercado Municipal, o pecado da gula é exercitado sem remorso. Aliás, comida das melhores é que não falta na cidade.  Fui bem atendido em todos os lugares, menos numa loja em Congonhas. O calor é de matar qualquer um. Todos os executivos de terno usam mochila preta nas costas. Os sem terno também. Deve ser moda. A diversidade humana é mais visível, porque acentuada nos jeitos de vestir e se comportar. A elegância discreta já não é tão discreta.

Ah,como é bom tomar café em São Paulo! 

Vi dois filmes: Inverno na Alma (radiografia violenta da América profunda) e O Que Disse Primeiro, uma divertida comédia italiana desancada por Inácio Araújo, crítico da Folha. Não deu para ver Bravura Indômita. Verei aqui, no Unibanco Glauber Rocha, o cinema distinto de Salvador, ou no Circuito Sala de Arte, que tem uma boa programação, mas anda com uma projeção qualquer nota, com o som na maior altura, como se a platéia fosse surda problema . Quando reclamo, o funcionário faz cara de paisagem e tudo continua como está.  Parece que o surdo sou eu.

No MASP, apreciei o acervo em duas exposições temáticas: O Romantismo e O Retrato. Eficientes. A de fotografias de Win Wendres ocupa um dos andares com fotos em grandes dimensões.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Registro 340: Hoje é dia da Rainha do Mar, Iemanjá

Abebê, digital, Raimundo Matos de Leão,1999
ODÔ YA

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Registro 339: "Mar Me Quer". Quero mais esse mar



Belo momento de Eddy Veríssimo.

Dei conta de mais um espetáculo da temporada 2010 ainda em cartaz neste verão de pouca gente indo ao teatro. Mas será o teatro uma atividade para muitos? Talvez na Grécia Antiga. Refiro-me a Mar Me Quer, espetáculo apresentado pela Outra Companhia de Teatro. Embora sem muita convivência com os participantes da Cia, todos eles me são simpáticos, principalmente Eddy Veríssimo e Roquildes Júnior, jovens que tocam o projeto e estão em cena com Luiz Buranga e Manuela Santiago, sob a direção de Luiz Antônio Jr.

Mar Me Quer é inspirado na obra do angolano Mia Couto, sendo o texto em cena derivado do trabalho de Natália Luiza e da dramaturgia de Luiz Antônio Jr. Não sei se o espetáculo foi concebido para o espaço onde é mostrado, o Café do Teatro Vila Velha, local da apresentação vista por mim. Mas vejo que o espaço escolhido proporciona um contato muito próximo do público com os atores e condiz com a concepção da encenação sua atmosfera intimista, viagem aos desvão da memória que cativa o espectador. Falo por mim

Ao rés do chão, uma lona com desenhos e inscrições desbotadas demarca o lugar da ação, cabendo ao público ocupar três lados do grande retângulo. Poucos objetos povoam a cena, entre eles um grande baú, pequenos bancos, alguns instrumentos musicais e mais outros apetrechos que são utilizados no decorrer da representação. No mais, quatro atores assumindo os personagens Zeca, Luarmina e Celestino para contar a história de Zeca em contato com seu avô morto. O que se conta é a vida decorrente da paixão por uma mulher que liga o neto ao avô Celestino, sem que Zeca saiba do acontecido entre o avô falecido e a mulher Luarmina. Outro personagem redivivo é Agualberto.

Narração dirigida ao público (forte presença do épico) e contra-cena são os elementos para que a história seja contada e os intérpretes se encarregam muito bem da ação dramática, pontuada por emoção dosada, que não faz barulho. O tom monocórdio que por vezes se impõe não diminui a atenção do espectador, visto que os atores se entregam aos personagens com muita sinceridade e delicadeza. Aliás, delicadeza cai bem para definir a encenação de Luiz Antônio Jr, que soube trabalhar o material com segurança, ainda que se deixe levar por algumas “teatrices”. Voltarei a elas.

As imagens criadas após nove meses de trabalho atestam a depuração da pesquisa cênica e a dramaturgia flui em um tônus preciso, visto que os atores sabem com que lidam e estão em sintonia com a proposta.  Como não conheço o original, não posso opinar sobre a fidelidade a ele. De qualquer maneira o que está em cena satisfaz, é o que importa. Mergulhamos no terreno da memória através do diálogo entre neto e avô, conversas entremeadas de palavras inventadas, como “atarantontos” junção de atarantado e tonto, tornando o diálogo saboroso.

Um humor sutil perpassa a cena e a paixão por Luarmina surge na evocação do avô e na relação de Zeca Pérpetuo com ela. Como pano de fundo e presença poética, o mar. Elemento que dá sentido as emoções apaixonadas dois homens por uma mulher, o mar, símbolo da dinâmica da vida, é lugar de de nascimento e de transformações. Sua águas em constante movimento nos fazem pensar na transitoriedade. Ambivalente, o mar é ao mesmo tempo a imagem da vida e da morte. O mar é então uma metáfora...

A encenação segue em um ritmo bastante seguro, pontuado pela marcação simples, mas apropriada ao contexto. A iluminação de AC Costa e Marcos Dedé cria atmosfera necessária para a tessitura da encenação, com efeitos sutis variando a cada instante, procurando sempre servir à cena sem perder a sua singularidade em meio ao outros elementos. Os figurinos de tons esmaecidos estão em consonância com o espírito da montagem e ligam-se harmoniosamente ao cenário de Lorena Torres Peixoto.

O elenco tem um desempenho homogêneo. Durante ação, os dois atores e as duas atrizes assumem os três personagens, cada um tirando partido dos personagens que revezam entre si, sem que se perca a unidade. Insisto novamente na elocução necessitando de mais variações e do canto com mais firmeza e trabalho vocal para que a narração se faça mais intensa e o diálogo entre os personagens se faça mais variado como são os signos corporais, muito bem desenvolvidos e expressivos. Estes ajustes ampliarão a qualidade das interpretações, já amadurecidas pelo tempo de ensaio e de espetáculos realizados. Destaco a expressividade de  Eddy Veríssimo e Manuela Santiago, a versatilidade de Roquildes Júnior (quando ele faz Luarmina, em nenhum momento resvala para trejeitos fáceis) e a presença marcante de Luiz Buranga.


Agora, vamos às “teatrices”: pergunto-me o porquê uma maquiagem exagerada com excessivos tons vermelhos? Não vejo sentido no todo da encenação, tornando-se um efeito duvidoso. Da mesma forma, indago sobre o motivo de uma atriz vestir tantas saias em um determinado momento. Da mesma forma questiono a presença de várias lanternas postas em um cabideiro e depois guardadas no baú, sem que se saiba a razão de estarem em cena.

É certo que o diretor pode explicar tais efeitos, mas durante a encenação me parecem ruídos desviando a atenção daquilo que é importante. Em cena, sabemos, as coisas precisam fazer sentido para o espectador e gerar um significado. Confesso não captar as intenções do encenador.

Por outro lado, ressalto a opção por uma sonoplastia feita em cena pelos atores e utilização de objetos inusuais. Retira-se deles uma sonoridade mágica que nos conduz para o interior da cena. Mais um achado da direção é fazer com que o morto fale através de um aparelho emissor de rádio portátil. O texto é reproduzido por outro aparelho encaixado no chapéu usado por Zeca. Bela mediação entre morto e vivo. Ainda mais um detalhe, não aproveitado a contento. Quando o público entra, recebe um barquinho de papel, mais tarde, os espectadores são solicitados a desmontar o brinquedo e ler o texto impresso na folha de papel, enquanto um ator diz o texto de maneira não muito segura. Penso no que seria a cena, caso o público fosse envolvido e interagisse, ocorrendo a leitura coletiva. O baú que é transformado em barco é um achado muito eficiente; num dado momento o neto conduz avô e este depois leva o barco sozinho até desaparecer nas sombra. A imagem do morto conduzindo o barco me lembrou a barca de Caronte.

Tais observações não diminuem a qualidade da encenação. Da mesma forma como agradou no recente Festival Nacional de Teatro do Recife, sei por fonte confiável, Mar Me Quer é uma realização artística de uma Companhia que vem realizando um trabalho sério e constante. Residentes no Teatro Vila Velha, diga-se um fator importante para a sobrevivência do grupo e da qualidade estética de suas criações, A Outra Companhia de Teatro nos dá um espetáculo cujos senões são pequenos diante do que apreciamos.

Longa vida é o que desejamos ao grupo que em fevereiro retorna a cartaz com Mar Me Quer, um mar querido de se ver.


sábado, 15 de janeiro de 2011

Registro 338: Dois espetáculos: "Retábulo" e "Pólvora e Poesia"



Cena de ensaio de Retábulo
Dois espetáculos ocuparam a minha semana, Retábulo, do Piollin Grupo de Teatro originário da Paraíba e Pólvora e Poesia, montagem soteropolitana. O Piollin tem em seu currículo o superlativo Val de Sarrapalha do mesmo diretor de Retábulo, Luiz Carlos Vasconcelos. Pólvora e Poesia tem como atrativos a autoria de Alcides Nogueira, dramaturgo paulista de comprovada eficiência criativa, e o trabalho do diretor Fernando Guerreiro, aclamado pela crítica e com um recheado currículo de ótimas realizações como encenador.

Sobre Retábulo, adaptação cênica da narrativa Retábulo de Santa Joana Carolina de Osman Lins, o que tenho a dizer de imediato é que o espetáculo não funciona nos seus propósitos muito bem pontuados pelo diretor no texto inserido no programa distribuído ao público. A primeira questão que nos afigura como problemática é o próprio autor, de reconhecida qualidade literária, mas com uma prosa difícil, tanto para o leitor que sua debruça sobre sua obra quanto para o espectador desacostumado com a sua elaborada linguagem não funcional no palco. Mesmo quando escreve para o teatro, a dramaturgia de Osman Lins não alcança aquele ponto que lhe dá consistência cênica. A tarefa a que se impôs o Piollin e seus dramaturgos-adaptadores, Luiz Carlos Vasconcelos e Márcio Marciano, não se configura como uma realização teatral acabada, ainda que traga elementos estéticos expressivos de qualidade. No entanto, tais elementos se perdem no todo e o espetáculo não consegue atingir a platéia. Toda a encenação é construída pela narrativa sem que se atinja aquele ponto ideal preconizado pelo épico. A opção pela narração fragmentada, uma peste que tomou conta do teatro contemporâneo ou pelo menos do brasileiro, obscurece os conflitos ou os possíveis conflitos existentes. A trama se esgarça e não se estabelece aquele elo necessário para que a experiência estética se dê. E a experiência estética em Retábulo é diminuta por conta das opções da dramaturgia e mais ainda da encenação. O encenador não deixa de construir algumas sequências cuja teatralidade é prova de uma prática criativa e domínio da linguagem, mas no todo elas se repetem instaurando uma monotonia, fazendo o espetáculo parecer mais longo do que ele é. 

Em um dos parágrafos do texto do programa, Vasconcelos diz: “Entendo que esta questão, sobre a maneira de narrar, é a questão fundamental da cena atual. Como construir, para o público de hoje, NARRATIVAS cênicas que possam realmente, instaurar no teatro o não convencional?” Penso que os homens e mulheres de teatro em todos os tempos, pelo menos do teatro de qualidade, estiveram preocupados com a forma de narrar e a cena anual o faz comprometendo-se com a vitalidade da arte teatral, visando a sua permanente transformação e eficácia. O problema está nessa busca quase obsessiva pelo não convencional. Daí o que se vê em cena é o não convencional que às vezes nada desperta no espectador, só enfado. Ocorre em Retábulo o medo da fabulação, o fantasma aristotélico. Daí surgem artífícios para fugir do linear e criam-se confusões. Portanto, tudo deve ser explicado por uma bula, como se o espetáculo necessitasse de um explicação externa a ele, para assim compreendermos o seu universo ficcional ou seja a própria teatralidade. 

Outro ponto preocupante de Retábulo é elocução. O texto é dito muitas vezes sem que se compreenda o que os atores dizem. Uma dicção falha compromete a comunicação. Como o espetáculo está em processo, esperamos que ele encontre o equilíbrio necessário para que se torne uma obra de arte cujos postulados estejam claros e evidenciados em cena. Mesmo que se leve em consideração a premissa do "trabalho em processo", Retábulo está sendo visto como um espetáculo com todo o aparato necessário para dar-lhe este sentido e por este motivo é que as observações são feitas a partir do que foi mostrado e não do que será.

Caio Rodrigo e Talis Castro
em
Pólvora e Poesia

Serei redundante: Pólvora e Poesia, é um espetáculo feito de elementos explosivos. Os elementos explosivos estão na vida dos dois personagens de que trata o texto, os poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, um e outro emitindo centelhas fulgurantes, tanto na poesia quanto na relação apaixonadamente passional, outra redundância, que leva ao desfecho superlativamente teatral, muito bem explorado pelo dramaturgo Alcides Nogueira.

Tomando o material do dramaturgo e declarando-se um crente no “teatro do texto e do ator”, Fernando Guerreiro não nega sua declaração registrada no programa da peça. Assim, constrói o espetáculo dando suporte cênico para que os dois atores, Talis Castro (Rimbaud) e Caio Rodrigo (Verlaine), realizem aquilo que se espera de dois intérpretes que escolhem estar em cena com um texto tão explosivo quanto Pólvora e Poesia. Explosivo não somente por se tratar da história de uma relação homossexual que termina infernal para os dois amantes, mas, sobretudo pela densidade humana que se desprende do encontro dos dois homens, tradutores em si do apolíneo e do dionisíaco. Contenção e desregramento vão se mesclando e o que se vê é a descida ao mais profundo da alma humana. Espírito que quer se ver livre das amarras que a vida e que arte por vezes impõem. Transfiguração é o que se vê em cena. E Guerreiro sabe explorar os contornos da relação e expandindo-lhes os limites para nos dizer aquilo que o texto tem de melhor: amar é uma viagem transformadora para quem quer enfrentar de fato os caminhos de Eros.

No belo espaço da igreja da Barroquinha, um lugar ainda não explorado com a dignidade que merece, Rodrigo Frota cria uma sólida mesa que se desmorona logo após o início do espetáculo, dando-nos uma pista para entrarmos no mundo socialmente seguro do cidadão e artista Verlaine. Mundo que se desequilibra e rui ao contato com o mundo selvagem de Rimbaud, infante terrível. O módulo cenográfico com seus significado é completo por duas cadeiras e alguns poucos e necessários objetos que não desviam a atenção do conflito que se estabelece e cresce em cena. Nem mesmo a potente trilha sonora, um longo solo de guitarra executada ao vivo pelo seu criador Juracy Do Amor (belo nome), retiram o interesse do que acontece. Creio que tudo se dá pelo fato de que a organicidade dos elementos está posta a serviço de um todo que se amplia nas atuações de Rodrigo e Castro.

O vigor da encenação é visível no embate emocional e físico, este mais forte que o primeiro. Tal observação não diminui a qualidade dos dois intérpretes, mas vejo como um pequeno ruído em encenação tão eficaz. Por vezes, a intensidade emocional se mostra pelo grito, principalmente no trabalho de Caio Rodrigo, um ator mais experiente. Gritasse menos, sua interpretação ganharia mais densidade. Talis Castro mostra-se seguro, mas ainda não domina os rigores do ofício. Assim, resolve parte do seu trabalho cênico também no grito. Tanto um como o outro se dão melhor quando contidos expressam a tormentosa gama de sentimentos que caracterizam os personagens e sua problemática. Um maior aprofundamento emocional faria do trabalho dos atores um momento iluminador, como é o trabalho físico (ao separá-los, não considero um e outro apartado; as ações físicas são decorrentes das emoções). A intensidade do jogo corporal remet palco para o ringue. O embate é forte e impactante fazendo com que os corpos desenhem belas imagens no espaço, impregnando a cena de energia, suor, mas nenhuma lágrima. A cena da trepada, um ato de amor e volúpia selvagens, condizente com tema, completa a poesia derramada na cena pelo encenador.

Noção de tempo e ritmo é o que não falta da encenação transcorrida sem tempos mortos, mas com pausas necessárias que dão repouso a ação, logo intensificada pela trama que corre pulsante como a relação entre os personagens. 

Pólvora e Poesia é uma realização e tanto. Luz bem concebida, figurino quase perfeito (descartando o horrível sapato de Verlaine) e preparação corporal e coreográfica comprovam a capacidade dos profissionais em realizar as demandas estéticas do encenador.

O espetáculo merece ser visto. Que o público não desanime com a localização do teatro. Sei que o Centro de Salvador depois da 18:00h é assustador, mas ali, nas proximidades do Cine Glauber Rocha - Unibanco, a barra é menos pesada. Há sempre uma dupla de policiais e os seguranças do cinema dão suporte, suponho. Pela lateral do Cine, o acesso a igreja da Barroquinha é tranquilo.

Ainda que Verlaine tenha dito uma dia a propósito de Rimbaud que era a "vida inimitável", Pólvora e Poesia com suas qualidades estéticas potencializa a vida, aquela que é teatral e por isso nos entontece como um bom vinho, sem que percamos a capacidade de apreciá-lo. Assim é como o bom teatro.


Um grito de liberdade para Jafar Panahi, cineasta iraniano, autor de O Globo Azul e O Círculo.
O cineasta foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar, escrever roteiros, dar entrevistas a meios de comunicação sejam eles locais ou estrangeiros por 20 anos.
É a morte de um artista!
E tudo porque discordou

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Registro 337: Joseph Beuys, uma exposição meia boca

O Museu de Arte Moderna, situado no belo conjunto arquitetônico Solar do Unhão, abriga a exposição Jospeh Beuys - A Revolução Somos Nós. Beuys é uma artista superlativo, ainda que muitos não gostem do que ele faz. Suas experimentações são provocativas. Para o artista, qualquer objeto é uma obra de arte, desde que ele assim o deseje. Essa compreensão faz de Beuys um elo conectado a Duchamp.

Mas não estou aqui para discorrer sobre a monumental e ao mesmo tempo minimalista obra do artista alemão. Tenho um amigo que diz ser ele um charlatão. Não concordo, mas respeito a opinião dele. O que me leva a escrever este registro é a exposição vendida pela diretoria do MAM como se fosse algo inusitado e de grande importância para a vida cultural da provinciana Salvador. Par mim, a exposição é decepcionante, visto que exibe uma quantidade enorme de cartazes sobre as exposições realizadas por Beuys durante sua vida, fotos, muitos vídeos e pouquíssimas obras. Além do reduzido número de trabalhos, o que se vê não representa minimamente o artista revolucionário que ele foi. Portanto a exposíção é uma amostragem pífia.

Qual o interesse em ver cartazes de exposições, ainda que eles sejam interessantes em suas propostas gráficas? Montar uma exposição sustentada em cima de cartazes e vídeos deve interessar a quem?

Numa cidade sem crítica e sem caderno cultural nos jornais, qualidade e quantidade passam batidas. Os jornais reproduzem o que as assessorias de imprensa escrevem nos releases. E tudo passa batido, sem que se faça uma exame mais acurado sobre os acontecimentos artístico-culturais Portanto não há crítica. Caso houvesse, o embuste seria comentado, esclarecendo-se o público sobre o que está sendo exposto. Não radicalizo, achando que estão empurrando gato por lebre, mas a exposição no MAM é menor para um artista enorme. Conforme registra os roteiros dos jornais, "o maior artista alemão do século XX". A mostra não reflete tal afirmativa.

Melhor ficar em casa lendo/apreciando Joseph Beuys, de Alain Borer, publicado pela Cosac Naify (São Paulo, 2001). O livro diz muito mais sobre Beuys. A exposição que fica em cartaz até 13 de fevereiro diz pouco

Por falar em exposição, o Museu de Arte da Bahia exibe Genaro de Carvalho, de Memória - Uma Retrospectiva. Não há nenhuma insinuação de minha parte em estabelecer comparação entre os artistas. São opostos e de outra natureza as suas opções artísticas. Mas na retrospectiva se vê a obra do baiano, as diversas fases, os momentos felizes e aqueles em que seu trabalho se dilui e perde força. Mas a exposição é bem montada e dá uma medida do artista que andava esquecido.

Um grito de liberdade para Jafar Panahi, cineasta iraniano, autor de O Globo Azul e O Círculo.  O cineasta foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar, escrever roteiros, dar entrevistas a meios de comunicação sejam eles locais ou estrangeiros por 20 anos.
É a morte de um artista! E tudo porque discordou