quarta-feira, 9 de março de 2011

344: Carnaval em Cachoeira - Bahia


Fugi do caos carnavalesco para Cachoeira. Não senti saudades de Salvador durante os dias que por lá passei. Cachoeira desperta em mim sentimentos contraditórios. Gosto do que vejo, da sua atmosfera... sinto-me bem na cidade. Por outro lado, me angustio ao ver que ela tem potencial que não é explorado. Explorado a partir de um projeto que respeite suas características e sua identidade, seu jeito de ser. Penso sempre em Parati todas as vezes que vou à jóia do Paraguaçu, preguiçosamente posta em sua margem num diálogo com sua cara metade, São Félix.
Tudo é beleza e tudo é ruína. Andar por suas ruas e ver como é lindo aquilo que está cuidado, restaurado, respeitado. É um prazer desfrutar da poesia que emana de seus casarões e das pequenas casas que compõem o cenário de ladeiras, praças e ruas estreitas, e becos que guardam silenciosamente camadas do tempo depositadas em cada janela, porta, telhado. É triste saber que muita coisa podia ser melhor cuidada e não é. Fico a sonhar com Cachoeira inteiramente restaurada, mas não tratada como parque temático ou algo parecido. Restaurada para se manter como uma cidade histórica viva e não morta. Uma cidade que precisa do seu jeito especial para sobreviver. O atrativo é sua arquitetura, sua história, sua vida cultural. Modificá-la é matá-la. E quando afirmo isto, não desejo que ela viva como um museu, mas que se espelhe em Ouro Preto, em Parati e outras tantas cidades brasileiras cujos moradores sabem o que significa morar em lugar que é diferente e diverso da mesmice que torna tudo moderno.
O rio. Fiquei horas olhando suas águas e pensando que o vapor já não navega como antigamente. Olhar São Félix tão longe, tão perto e deixar o espírito voar entre uma margem e outra e depois fazer a travessia pela ponte. Travessia que deve ser feita a pé.
Ver igrejas e capelas, sobrados e casas que de tão baixas se expõem para o visitante que se sente envergonhado e contém a curiosidade para não bisbilhotar a intimidade dos que aí vivem. Na Pousada do Carmo, um monumento com sua Igreja da Ordem Terceira inteiramente restaurada, ganhei horas de silêncio e reflexão, divididas entre leituras e conversas a meia voz. Pensando sempre como teria sido a vida dos que viveram alí nos séculos passados, imaginei ficções.
Na Pousada, o charme é a construção em si, mas muito desleixada como hotel. A sensação que tive é de que tanto faz. Basta o convento. Nas sala, antigo cemitério, uma caixa está jogada dentro de uma das sepulturas, uma mesa de bilhar encostada em um canto torna-se uma objeto inusitado em meio à sala. Procurei por um folheto que contivesse informações sobre o convento. Não há.
Na beira do rio, o antigo Hotel Colombo desmancha-se. Mas nem tudo está perdido. A Irmandade da Boa Morte ocupa dois casarões belissímos, assim como a Fundação Hansen Bahia. Fora uma capela que não consegui identificar, as igrejas estão conservadas. A Igreja da Ajuda é um primor arqutetônico. Muitas residências também merecem a atenção dos seus proprietários e A Heróica segue vencendo o tempo, o descaso e a limitação para se impor majestosa abrigando sua gente negra e mulata de sorriso simpático e voz mansa. Gente reservada, ciente de sua privacidade. 
Não fui abordado por ninguém pedindo ou tentando vender alguma coisa. Para uma cidade turística é uma dado para ser levado em conta.
Vi em algumas galerias quadros de um artista, mas não consegui identificar seu nome. Fotografei um deles, cuja imagem de Santa Luzia repete-se de maneiras variadas. Noutro trabalho, surge a imagem de Glauber Rocha e noutro a de São João Menino, cada qual num releitura muito particular.

Não encontrei artesanato original para comprar. Fui até Coqueiro, um lugarejo à beira do rio, para adquirir a cerâmica de Dona Gadu, uma simpatia.

Fiz muitas fotos e deixo algumas para apreciação dos interessados. Espero que tenham vontade de ir até Cachoeira para ver de perto os seus contrastes. Não é longe de Salvador, a estrada é ótima, conservada e sinalizada.



sexta-feira, 4 de março de 2011

Registro 343: Dona Aracy, O Anjo de Hamburgo

Lá se foi dona Aracy de Carvalho Guimarães Rosa, aos 102 anos, uma benfeitora da humanidade. Conheci dona Aracy já idosa, mas muito lúcida, sempre elegante. Este privilégio devo ao meu amigo, o professor Wellington Vieira de Camargo com quem trabalhei no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem.

Eu conhecia um dos netos de dona Aracy, o saudoso Plínio Tess, mas Wellington me aproximou da família, gente discreta, de carinhosa acolhida. Certa feita, seu filho, Eduardo Tess presenteou-me com uma caixa contendo toda a obra de Guimarães Rosa. Anos mais tarde recebi o livro que traz a correspondência entre o avô Rosa e as netas Vera e Beatriz. O livro, Ooó do Vovô (EDUSP, PUC Minas, Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), é delicioso.

Quando recebi a obra de Guimarães Rosa não contive o ímpeto de solicitar o autógrafo de dona Aracy, mas não querendo incomoda-lá com o meu pedido, pedi ajuda a uma das netas. O meu exemplar de Grande Sertão, Veredas, dedicado a ela pelo escritor, ganhou sua assinatura.

Para os que não sabem, dona Aracy é chamada de O Anjo de Hamburgo por ter salvo muitos judeus, conseguindo  vistos assinados pelo marido, cônsul-adjunto brasileiro na Alemanha, quando Hitler entendeu de exterminar os judeus da face da terra.

O trabalho no consulado facilitou a atividade subversiva de dona Aracy. Subversiva porque vivíamos sob o Estado Novo, a ditadura getulista simpatizante da política do Eixo. Para sorte de muitos, dona Aracy estava no lugar certo e na hora certa. Ela era encarregada do setor de vistos da embaixada e foi assim que atuou, indo de encontro às normas do governo brasileiro quanto a imigração de judeus. E tudo começou quando Hitler iniciou a perseguição com a Noite dos Cristais, ataque de grupos de nazistas as sinagogas e lojas, em 9 de novembro de 1938. Por sua solidariedade, dona Aracy tem seu nome inscrito no Jardim dos Justos entre as Nações do Museu do Holocausto de Israel, honra concedida aos não judeus que arriscaram a vida para salvar judeus do extermínio nazista.

Lembro que, ao frequentar a casa da família, encontrei-me com uma senhora salva por dona Aracy e que se tornou sua amiga, visitando-a constantemente apesar da idade. Soube hoje que Maria Margareth Bertel Levy, a amiga alemã vinda para o Brasil, ajudada por dona Aracy,faleceu no dia 21 de fevereiro aos 102 anos.  


Dona Aracy nasceu na cidade de Rio Negro, Paraná, em 20 de abril de 1908. Sinto orgulho de ter nascido no mesmo dia em que ela. Seu pai era português e sua mãe alemã. Casou-se com Johan Tesse, separando-se dele num tempo em que no Brasil não havia divórcio, uma prova do quão arrojada era está mulher, culta e poliglota, por quem Guimarães Rosa se apaixonou, quando a conheceu trabalhando no consulado em Hamburgo.

Flores para Dona Aracy (1908-2011), e a minha homenagem.


O texto seguinte não é de minha autoria, recebi-o por e-mail, com solicitação para divulgá-lo. Acho oportuno publicá-lo junto a homenagem que presto a dona Aracy


"Irena Sendler, uma senhora de 98 anos, faleceu há pouco tempo. Durante a 2ª Guerra Mundial, Irena conseguiu uma autorização para trabalhar no Gueto de Varsóvia, como especialista de canalizações.  Mas os seus planos iam mais além... Sabia quais eram os planos dos nazistas relativamente aos judeus (sendo alemã)! Irena leva crianças escondidas no fundo da sua caixa de ferramentas e levava um saco de sarapilheira na parte de trás da sua caminhoneta (para crianças de maior tamanho). Também levava na parte de trás da caminhoneta um cão a quem ensinara a ladrar aos soldados nazis quando entrava e saia do Gueto. Claro que os soldados não queriam nada com o cão e o ladrar deste encobria qualquer ruído que os meninos pudessem fazer. Enquanto conseguiu manter este trabalho, conseguiu retirar e salvar cerca de 2500 crianças. Por fim os nazistas apanharam-na e partiram-lhe ambas as pernas, braços e prenderam-na brutalmente.

Irena mantinha um registo com o nome de todas as crianças que conseguiu retirar do Gueto, que guardava num frasco de vidro enterrado debaixo de uma árvore no seu jardim. Depois de terminada a guerra tentou localizar os pais que tivessem sobrevivido e reunir a família. A maioria tinha sido levada para as câmaras de gás. Para aqueles que tinham perdido os pais ajudou a encontrar casas de acolhimento ou pais adotivos.

No ano passado foi proposta para receber o Prêmio Nobel da Paz... mas não foi selecionada. Quem o recebeu foi Al Gore por uns dispositivos sobre o Aquecimento Global.Não permitamos que alguma vez esta Senhora seja esquecida!! Estou transportando o meu grão de areia, reenviando esta mensagem. Espero que faças o mesmo. Passaram já mais de 60 anos, desde que terminou a 2ª Guerra Mundial na Europa. Este e-mail está a ser reenviado como uma cadeia comemorativa, em memória dos 6 milhões de judeus, 20 milhões de russos, 10 milhões de cristãos e 1.900 sacerdotes católicos que foram assassinados, massacrados, violados, mortos à fome e humilhados com os povos da Alemanha e Rússia olhando para o outro lado. Agora, mais do que nunca, com tantos governos e sociedades e proclamando vergonhosamente que o Holocausto é um mito, é imperativo assegurar que o Mundo nunca esqueça."

quarta-feira, 2 de março de 2011

Registro 342: Diário da província

O calor, o fim das férias, o caos carnavalesco que se abate sobre Salvador, afastaram-me do blog. Mas venço a morrinha e registro algumas anotações...

A cidade está entregue às baratas ou melhor a quem organiza o carnaval. Os órgãos públicos fecham os olhos aos desmandos, quem manda mesmo são os empresários carnavalescos. Tudo está estragulado e pelo que se vê, o pupulacho vai ficar mais espremido, enquanto os bacanas se esbaldam nos supercamarotes. Os bacanas e os deslumbrados com a "bacanice" dos outros.

O bom gosto na decoração dos camarotes passou longe, mais uma breguice no cenário muito brega. Os anúncios divulgando os artistas são medonhos. Direção de arte não existe, bom fotógrafo pra quê? No ano passado eram as caretas horríveis dos políticos asombrando o nosso cotidiano durante a campanha eleitoral, agora são os cantores, uma enxurrada de desconhecidos, horríveis. Os conhecidos, as ditas superestrelas,  agem como se estivessem acima do bem e do mal.

Outro dia vi num anúncio de empreedimento imobiliário uma frase que chamou minha atenção pelo inusitado. A frase, obviamente, vendia as excelências do empreendimento e estava escrita em português informando sobre os itens do mega edifício, mas repentinamente surgia uma palavra em inglês - garden -, como se nossa maltratada língua não contivesse a palavra adequada, jardim para identificar aquele lugar onde se plantam flores, árvores e que tais. O publicitário deve ser uma jóia de superlativa babaquice. Para ele e os empreendedores, o termo em língua estrangeira da visibilidade ao projeto. Coisa mais jeca!

A mania de nomear edifícios em outra línguas, notadamente inglesa e francesa é uma constante por aqui e pelo Brasil. E como a maioria da população não sabe a pronúncia correta, os nomes se tornam engraçados, quando não uma aberração.

Andei indo ao cinema, mas não vi O Cisne Negro nem O Discurso do Rei. Gosto demasiadamente de Inverno na Alma. Como não vi a primeira versão de Bravura Indômita, o filme dos  dos irmãos Coen me satisfaz plenamente. Fico livre de comparações. Aguardo Poesia.

Po falar em cinema, lá se foi Annie Girardot, atriz francesa, inesquecível em Rocco e Seus Irmãos, a obra-prima de Visconti. Girardot fez tantos filmes, mas sua Nádia no filme do italiano é memorável, como persogem muito bem concebido e interpretado com grandeza pela atriz. Foi-se Jane Russell, a morena estonteante que exalava sensualidade pelos poros. Nos deixou também Carminha Brandão, atriz brasileira que a nova geração não sabe quem é.

Fui até o fim de Biutiful, muito mais pelo ator que pelo filme. Iñárritu perdeu a mão. São tantos os temas em seu filme que é uma overdose de problemas do mundo globalizado e pós-moderno. Talvez uma bula para entender tal mundo ou desentendê-lo de vez. O filme não conseguiu estabelecer nenhuma empatia, portanto não me comoveu nem me faz refletir. Um sessão tediosa, um filme hiperbólico. Em seus outros filmes, o diretor já demonstrava tendência ao exagero, mas o seu colaborador, Arriaga, conseguia conter os excessos, assim penso eu.

Tetro vai bem até certo ponto. A partir  da tal cerimônia de entrega do prêmio na Patagônia, desanda e Carmem Maura, uma atriz excelente está um tanto ridícula no personagem. Além do mais aguentar Vicent Gallo durante duas horas, urgh! Não tenho nenhuma simpatia pelo ator. Na verdade, acho que ele é mais uma personalidade excêntrica, que um ator. Coppola ainda me diz muito, mesmo quando escorrega e pesa a mão. Deve-se prestar atenção em Alden Ehrenreich, uma promessa e uma beleza e tanto. 

Não vi a entrega do Oscar, não aguenta mais tal cerimônia. Basta ler os jornais nos dias seguinte e pronto.

Em casa, vi Dois Destinos, o tocante filme de Valerio Zurlini. O filme é de 1962 e continua inteiro. Revi Histórias Extrodinárias  (1968), baseado em contos de terror de Edgard Allan Poe, direção de Vadim, Malle, Fellini. A história de Vadim perdeu a força. Adquiri para rever  Boccaccio 70 (1962), Moniceli, Fellini, Visconti e De Sica e Ontem, Hoje e Amanhã, de Vittorio De Sica
Hoje, terminei um quadro feito a pedido de uma amiga. Gostei do resultado, faz tempo que não pegava nos pincéis. Isso em meio à preguiça de um verão insuportável.

Fugirei do carnaval, sempre! E olha que sou folião desde criança, afinal sou filho de um pai que era Rei Momo. Mas carnaval selvageria não dá. A minha intuição diz que os níveis de violência vão pro alto.

Conclui as dez sessões de Rofling com Celso Nunes, diretor de teatro e também terapeuta. Uma experiência e tanto. A terapia corporal mexeu positivamente comigo.

Agora planejo fazer os ajustes nos meus planos de curso, esperar a edição do livro que escrevi sobre o ator Harildo Déda e torcer para o outono chegar com promessas de temperaturas mais amenas.

Conclui a leitura de O Poder da Arte, de Simon Schama (Companhia das Letras, 2010). Pode-se discordar da argumentação e dos juízos do autor sobre os artistas que escreve. São oito ensaios sobre as genialidades de Caravaggio, Bernini, Rembrandt,David, Turner, Van Gogh, Picasso e Rotko. Sem erudição presunçosa, Schama nos lança para dentro da obra-vida dos artistas escolhidos. Dentendo-se em analisar alguns dos trabalhos dos mestres com linguagem clara e envolvente, ele aproxima os artistas de nós, pobres mortais. Quem se interessa por arte vai gostar de ler suas 501 páginas e apreciar as belas ilustrações. vale a pena.

Presenteei uma amiga judia e comunista com um oratório de Iemanjá. Ela telefonou contente com o presente feito por mim. Hoje, da parte dela, recebi um postal com a figura de Lenin feita a bico de pena. Minha amiga é uma pessoa interessantíssima: estudou em colégio protestante, sua mãe lhe contava histórias de fadas, cuja figura do príncipe confundia-se com a de Luiz Carlos Prestes. Certa vez confidenciou-me que gostava de ver as meninas vestidas de noiva para a Primeira Comunhão e tinha inveja delas. Uma figura e tanto a minha amiga. Invejável espírito aberto ela tem e me anima a ser da mesma forma.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Registro 341: Uma semana em Sampa

Viaduto do Chá, Teatro Municipal ao fundo - São Paulo, 2011. Raimundo Matos de Leão

Em função dos compromissos particulares e profissionais, deixei de viajar por um bom tempo. Tal situação me deixou deslocado, mesmo contando com as mídias que nos enchem de informação. Mas nada como sair da rotina e ver outros lugares. Fui a São Paulo, lugar onde vivi por quase trinta anos, sítio de muitas vivências, de muitas recordações e amarrações. Não voltaria a residir em Sampa: a cidade me deixa exausto, pois tudo é superlativo, as qualidades e os defeitos. Uma semana basta para deixar excitações que se prolongam por muito tempo, até que o cotidiano absorva a carga de energia provocada por uma cidade estimulante, exageradamente absorvente e exigente.

Meu objetivo era rever amigos. Vi poucos, mas muitos queridos. Com Fanny Abramovich, fui ao teatro e passamos muitas horas proseando num restaurante acolhedor e de comida gostosa, depois de termos ido ao Sesc Belémzinho, um lugar dos melhores. O Sesc em São Paulo é dez. Rimos muito de nós e também dos outros.

Teresa me hospedou e revivemos momentos passados, quando moramos juntos numa vila em Pinheiros. Sua gata Bianca, que não foi com minha cara, rejeitava meus carinhos, mas Teresa me disse que a felina é assim mesmo, estranha os estranhos. 

Almocei na casa do Jô, que reuniu Solange, Marilena, Catito e outros amigos, para um encontro que entrou pela tarde e se encerrou porque eu tinha de ir ao teatro para ver Ópera dos Vivos. Sobre o espetáculo não comentarei, visto que dos quatro atos só aguentei o primeiro. Me mandei, Fanny também. Coisa chata, velha, obviedade em cena; esqueceram o humor e a crítica para olhar a cultura brasileira a partir da década de 60. Teoria brechtiana de algibeira, simplória como cartilha. Aliás, o ranço da cartilha é o traço. Nem Marx, nem Prestes, nem Paulo Freire aguentariam tal espetáculo. Penso que nem no acampamento dos Sem Terra faria sucesso.

Visitei minha querida amiga, a atriz e professora Cleide Queiroz, e Maria Eugênia, cuidadora da biblioteca de seu pai, Osmar Rodrigues Cruz.  O acervo com obras raras sobre teatro está muito bem cuidado e merece apoio. Estamos correndo atrás, ela mais do que eu, um vice-presidente (não muito atuante) do Instituto Osmar Rodrigues Cruz. 

Passei par ver Tony em seu belo e antigo apartamento. Com Márcia, Irene, e duas Teresas, fui bebericar na Vila Madalena, um bar atrás do outro. E pensar que a Vila era uma lugar pacato com suas casas simples, morada de estudantes da USP e de artistas, gente que buscava uma alternativa para a caretice paulistana, isso na década de 70.  Agora virou point... de bacana.

No Sesc Pompéia encontrei Roberto Ceni. No belo espaço criado Lina Bardi, apartir da recuperação de uma antiga fábrica vi O Idiota, a versão para o palco do romance  de Fiódor Dostoiévski, sob a direção de Cibele Forjaz. Prometo escrever sobre o espetáculo que me deixou contente por ver teatro de qualidade.

Por fim, o almoço na casa de Agda, família querida. Seus netos cibernéticos estão crescidos e sabidos. 

Por acaso, dei de cara com Ricardo Muniz, com quem trabalhei no Sesc Pompéia na década de oitenta, hoje um animador do teatro com intercâmbios com a Alemanha e o Japão. Não nos víamos desde 1989. O reencontro se deu no belo Centro Cultural Banco do Brasil, onde fui ver a exposição Islã, arte e civilização. Deslumbrante mostra da arte islâmica

Não tornarei públicas as conversas com os amigos, mas registro a quantidade de afeto recebido. Afeto que o tempo e a distância não diminuiram. Os reencontros foram prazerosos e guardo comigo os sorrisos, os gestos, as atenções.

Andar pelo Centro da cidade sempre foi uma mania. E agora que a cidade de São Paulo está bem cuidada, é um passeio e tanto. O paulistano reclama do seu atual prefeito. Imagina se eles morassem em Salvador. Eu gostaria que o prefeito daqui desse um jeito na Cidade da Bahia, mas isso ele não vai dar, porque lhe falta competência. Competência que Salvador só vê quando dos preparativos para o Carnaval. Êta eficiência!! O prefeito, posto em sossego, pensa que iluminação verde esconde a feiúra, a sujeira, a desorganização da Cidade da Bahia. E pensar que a cidade foi um dia tão linda com seus neons, deixando-lhe magicamente bela. O que se vê agora é a destruição das camadas do tempo, dos tempos que estão na memória dos vivos que um dia se acabará, memória que será pó... Falta-nos um Gregório de Matos.

Mas São Paulo, com todos os problemas, está limpa e mostra-se sem a poluição dos anúncios que cobriam tudo, escondendo dos olhos a beleza de sua arquitetura. 

Um dos problemas da cidade é o trânsito. Quem mora lá padece. Como eu estava de férias, não dava bola. Os serviços são eficientes, desde a Rua 25 de março até os Jardins. No Mercado Municipal, o pecado da gula é exercitado sem remorso. Aliás, comida das melhores é que não falta na cidade.  Fui bem atendido em todos os lugares, menos numa loja em Congonhas. O calor é de matar qualquer um. Todos os executivos de terno usam mochila preta nas costas. Os sem terno também. Deve ser moda. A diversidade humana é mais visível, porque acentuada nos jeitos de vestir e se comportar. A elegância discreta já não é tão discreta.

Ah,como é bom tomar café em São Paulo! 

Vi dois filmes: Inverno na Alma (radiografia violenta da América profunda) e O Que Disse Primeiro, uma divertida comédia italiana desancada por Inácio Araújo, crítico da Folha. Não deu para ver Bravura Indômita. Verei aqui, no Unibanco Glauber Rocha, o cinema distinto de Salvador, ou no Circuito Sala de Arte, que tem uma boa programação, mas anda com uma projeção qualquer nota, com o som na maior altura, como se a platéia fosse surda problema . Quando reclamo, o funcionário faz cara de paisagem e tudo continua como está.  Parece que o surdo sou eu.

No MASP, apreciei o acervo em duas exposições temáticas: O Romantismo e O Retrato. Eficientes. A de fotografias de Win Wendres ocupa um dos andares com fotos em grandes dimensões.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Registro 340: Hoje é dia da Rainha do Mar, Iemanjá

Abebê, digital, Raimundo Matos de Leão,1999
ODÔ YA

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Registro 339: "Mar Me Quer". Quero mais esse mar



Belo momento de Eddy Veríssimo.

Dei conta de mais um espetáculo da temporada 2010 ainda em cartaz neste verão de pouca gente indo ao teatro. Mas será o teatro uma atividade para muitos? Talvez na Grécia Antiga. Refiro-me a Mar Me Quer, espetáculo apresentado pela Outra Companhia de Teatro. Embora sem muita convivência com os participantes da Cia, todos eles me são simpáticos, principalmente Eddy Veríssimo e Roquildes Júnior, jovens que tocam o projeto e estão em cena com Luiz Buranga e Manuela Santiago, sob a direção de Luiz Antônio Jr.

Mar Me Quer é inspirado na obra do angolano Mia Couto, sendo o texto em cena derivado do trabalho de Natália Luiza e da dramaturgia de Luiz Antônio Jr. Não sei se o espetáculo foi concebido para o espaço onde é mostrado, o Café do Teatro Vila Velha, local da apresentação vista por mim. Mas vejo que o espaço escolhido proporciona um contato muito próximo do público com os atores e condiz com a concepção da encenação sua atmosfera intimista, viagem aos desvão da memória que cativa o espectador. Falo por mim

Ao rés do chão, uma lona com desenhos e inscrições desbotadas demarca o lugar da ação, cabendo ao público ocupar três lados do grande retângulo. Poucos objetos povoam a cena, entre eles um grande baú, pequenos bancos, alguns instrumentos musicais e mais outros apetrechos que são utilizados no decorrer da representação. No mais, quatro atores assumindo os personagens Zeca, Luarmina e Celestino para contar a história de Zeca em contato com seu avô morto. O que se conta é a vida decorrente da paixão por uma mulher que liga o neto ao avô Celestino, sem que Zeca saiba do acontecido entre o avô falecido e a mulher Luarmina. Outro personagem redivivo é Agualberto.

Narração dirigida ao público (forte presença do épico) e contra-cena são os elementos para que a história seja contada e os intérpretes se encarregam muito bem da ação dramática, pontuada por emoção dosada, que não faz barulho. O tom monocórdio que por vezes se impõe não diminui a atenção do espectador, visto que os atores se entregam aos personagens com muita sinceridade e delicadeza. Aliás, delicadeza cai bem para definir a encenação de Luiz Antônio Jr, que soube trabalhar o material com segurança, ainda que se deixe levar por algumas “teatrices”. Voltarei a elas.

As imagens criadas após nove meses de trabalho atestam a depuração da pesquisa cênica e a dramaturgia flui em um tônus preciso, visto que os atores sabem com que lidam e estão em sintonia com a proposta.  Como não conheço o original, não posso opinar sobre a fidelidade a ele. De qualquer maneira o que está em cena satisfaz, é o que importa. Mergulhamos no terreno da memória através do diálogo entre neto e avô, conversas entremeadas de palavras inventadas, como “atarantontos” junção de atarantado e tonto, tornando o diálogo saboroso.

Um humor sutil perpassa a cena e a paixão por Luarmina surge na evocação do avô e na relação de Zeca Pérpetuo com ela. Como pano de fundo e presença poética, o mar. Elemento que dá sentido as emoções apaixonadas dois homens por uma mulher, o mar, símbolo da dinâmica da vida, é lugar de de nascimento e de transformações. Sua águas em constante movimento nos fazem pensar na transitoriedade. Ambivalente, o mar é ao mesmo tempo a imagem da vida e da morte. O mar é então uma metáfora...

A encenação segue em um ritmo bastante seguro, pontuado pela marcação simples, mas apropriada ao contexto. A iluminação de AC Costa e Marcos Dedé cria atmosfera necessária para a tessitura da encenação, com efeitos sutis variando a cada instante, procurando sempre servir à cena sem perder a sua singularidade em meio ao outros elementos. Os figurinos de tons esmaecidos estão em consonância com o espírito da montagem e ligam-se harmoniosamente ao cenário de Lorena Torres Peixoto.

O elenco tem um desempenho homogêneo. Durante ação, os dois atores e as duas atrizes assumem os três personagens, cada um tirando partido dos personagens que revezam entre si, sem que se perca a unidade. Insisto novamente na elocução necessitando de mais variações e do canto com mais firmeza e trabalho vocal para que a narração se faça mais intensa e o diálogo entre os personagens se faça mais variado como são os signos corporais, muito bem desenvolvidos e expressivos. Estes ajustes ampliarão a qualidade das interpretações, já amadurecidas pelo tempo de ensaio e de espetáculos realizados. Destaco a expressividade de  Eddy Veríssimo e Manuela Santiago, a versatilidade de Roquildes Júnior (quando ele faz Luarmina, em nenhum momento resvala para trejeitos fáceis) e a presença marcante de Luiz Buranga.


Agora, vamos às “teatrices”: pergunto-me o porquê uma maquiagem exagerada com excessivos tons vermelhos? Não vejo sentido no todo da encenação, tornando-se um efeito duvidoso. Da mesma forma, indago sobre o motivo de uma atriz vestir tantas saias em um determinado momento. Da mesma forma questiono a presença de várias lanternas postas em um cabideiro e depois guardadas no baú, sem que se saiba a razão de estarem em cena.

É certo que o diretor pode explicar tais efeitos, mas durante a encenação me parecem ruídos desviando a atenção daquilo que é importante. Em cena, sabemos, as coisas precisam fazer sentido para o espectador e gerar um significado. Confesso não captar as intenções do encenador.

Por outro lado, ressalto a opção por uma sonoplastia feita em cena pelos atores e utilização de objetos inusuais. Retira-se deles uma sonoridade mágica que nos conduz para o interior da cena. Mais um achado da direção é fazer com que o morto fale através de um aparelho emissor de rádio portátil. O texto é reproduzido por outro aparelho encaixado no chapéu usado por Zeca. Bela mediação entre morto e vivo. Ainda mais um detalhe, não aproveitado a contento. Quando o público entra, recebe um barquinho de papel, mais tarde, os espectadores são solicitados a desmontar o brinquedo e ler o texto impresso na folha de papel, enquanto um ator diz o texto de maneira não muito segura. Penso no que seria a cena, caso o público fosse envolvido e interagisse, ocorrendo a leitura coletiva. O baú que é transformado em barco é um achado muito eficiente; num dado momento o neto conduz avô e este depois leva o barco sozinho até desaparecer nas sombra. A imagem do morto conduzindo o barco me lembrou a barca de Caronte.

Tais observações não diminuem a qualidade da encenação. Da mesma forma como agradou no recente Festival Nacional de Teatro do Recife, sei por fonte confiável, Mar Me Quer é uma realização artística de uma Companhia que vem realizando um trabalho sério e constante. Residentes no Teatro Vila Velha, diga-se um fator importante para a sobrevivência do grupo e da qualidade estética de suas criações, A Outra Companhia de Teatro nos dá um espetáculo cujos senões são pequenos diante do que apreciamos.

Longa vida é o que desejamos ao grupo que em fevereiro retorna a cartaz com Mar Me Quer, um mar querido de se ver.


sábado, 15 de janeiro de 2011

Registro 338: Dois espetáculos: "Retábulo" e "Pólvora e Poesia"



Cena de ensaio de Retábulo
Dois espetáculos ocuparam a minha semana, Retábulo, do Piollin Grupo de Teatro originário da Paraíba e Pólvora e Poesia, montagem soteropolitana. O Piollin tem em seu currículo o superlativo Val de Sarrapalha do mesmo diretor de Retábulo, Luiz Carlos Vasconcelos. Pólvora e Poesia tem como atrativos a autoria de Alcides Nogueira, dramaturgo paulista de comprovada eficiência criativa, e o trabalho do diretor Fernando Guerreiro, aclamado pela crítica e com um recheado currículo de ótimas realizações como encenador.

Sobre Retábulo, adaptação cênica da narrativa Retábulo de Santa Joana Carolina de Osman Lins, o que tenho a dizer de imediato é que o espetáculo não funciona nos seus propósitos muito bem pontuados pelo diretor no texto inserido no programa distribuído ao público. A primeira questão que nos afigura como problemática é o próprio autor, de reconhecida qualidade literária, mas com uma prosa difícil, tanto para o leitor que sua debruça sobre sua obra quanto para o espectador desacostumado com a sua elaborada linguagem não funcional no palco. Mesmo quando escreve para o teatro, a dramaturgia de Osman Lins não alcança aquele ponto que lhe dá consistência cênica. A tarefa a que se impôs o Piollin e seus dramaturgos-adaptadores, Luiz Carlos Vasconcelos e Márcio Marciano, não se configura como uma realização teatral acabada, ainda que traga elementos estéticos expressivos de qualidade. No entanto, tais elementos se perdem no todo e o espetáculo não consegue atingir a platéia. Toda a encenação é construída pela narrativa sem que se atinja aquele ponto ideal preconizado pelo épico. A opção pela narração fragmentada, uma peste que tomou conta do teatro contemporâneo ou pelo menos do brasileiro, obscurece os conflitos ou os possíveis conflitos existentes. A trama se esgarça e não se estabelece aquele elo necessário para que a experiência estética se dê. E a experiência estética em Retábulo é diminuta por conta das opções da dramaturgia e mais ainda da encenação. O encenador não deixa de construir algumas sequências cuja teatralidade é prova de uma prática criativa e domínio da linguagem, mas no todo elas se repetem instaurando uma monotonia, fazendo o espetáculo parecer mais longo do que ele é. 

Em um dos parágrafos do texto do programa, Vasconcelos diz: “Entendo que esta questão, sobre a maneira de narrar, é a questão fundamental da cena atual. Como construir, para o público de hoje, NARRATIVAS cênicas que possam realmente, instaurar no teatro o não convencional?” Penso que os homens e mulheres de teatro em todos os tempos, pelo menos do teatro de qualidade, estiveram preocupados com a forma de narrar e a cena anual o faz comprometendo-se com a vitalidade da arte teatral, visando a sua permanente transformação e eficácia. O problema está nessa busca quase obsessiva pelo não convencional. Daí o que se vê em cena é o não convencional que às vezes nada desperta no espectador, só enfado. Ocorre em Retábulo o medo da fabulação, o fantasma aristotélico. Daí surgem artífícios para fugir do linear e criam-se confusões. Portanto, tudo deve ser explicado por uma bula, como se o espetáculo necessitasse de um explicação externa a ele, para assim compreendermos o seu universo ficcional ou seja a própria teatralidade. 

Outro ponto preocupante de Retábulo é elocução. O texto é dito muitas vezes sem que se compreenda o que os atores dizem. Uma dicção falha compromete a comunicação. Como o espetáculo está em processo, esperamos que ele encontre o equilíbrio necessário para que se torne uma obra de arte cujos postulados estejam claros e evidenciados em cena. Mesmo que se leve em consideração a premissa do "trabalho em processo", Retábulo está sendo visto como um espetáculo com todo o aparato necessário para dar-lhe este sentido e por este motivo é que as observações são feitas a partir do que foi mostrado e não do que será.

Caio Rodrigo e Talis Castro
em
Pólvora e Poesia

Serei redundante: Pólvora e Poesia, é um espetáculo feito de elementos explosivos. Os elementos explosivos estão na vida dos dois personagens de que trata o texto, os poetas Paul Verlaine e Arthur Rimbaud, um e outro emitindo centelhas fulgurantes, tanto na poesia quanto na relação apaixonadamente passional, outra redundância, que leva ao desfecho superlativamente teatral, muito bem explorado pelo dramaturgo Alcides Nogueira.

Tomando o material do dramaturgo e declarando-se um crente no “teatro do texto e do ator”, Fernando Guerreiro não nega sua declaração registrada no programa da peça. Assim, constrói o espetáculo dando suporte cênico para que os dois atores, Talis Castro (Rimbaud) e Caio Rodrigo (Verlaine), realizem aquilo que se espera de dois intérpretes que escolhem estar em cena com um texto tão explosivo quanto Pólvora e Poesia. Explosivo não somente por se tratar da história de uma relação homossexual que termina infernal para os dois amantes, mas, sobretudo pela densidade humana que se desprende do encontro dos dois homens, tradutores em si do apolíneo e do dionisíaco. Contenção e desregramento vão se mesclando e o que se vê é a descida ao mais profundo da alma humana. Espírito que quer se ver livre das amarras que a vida e que arte por vezes impõem. Transfiguração é o que se vê em cena. E Guerreiro sabe explorar os contornos da relação e expandindo-lhes os limites para nos dizer aquilo que o texto tem de melhor: amar é uma viagem transformadora para quem quer enfrentar de fato os caminhos de Eros.

No belo espaço da igreja da Barroquinha, um lugar ainda não explorado com a dignidade que merece, Rodrigo Frota cria uma sólida mesa que se desmorona logo após o início do espetáculo, dando-nos uma pista para entrarmos no mundo socialmente seguro do cidadão e artista Verlaine. Mundo que se desequilibra e rui ao contato com o mundo selvagem de Rimbaud, infante terrível. O módulo cenográfico com seus significado é completo por duas cadeiras e alguns poucos e necessários objetos que não desviam a atenção do conflito que se estabelece e cresce em cena. Nem mesmo a potente trilha sonora, um longo solo de guitarra executada ao vivo pelo seu criador Juracy Do Amor (belo nome), retiram o interesse do que acontece. Creio que tudo se dá pelo fato de que a organicidade dos elementos está posta a serviço de um todo que se amplia nas atuações de Rodrigo e Castro.

O vigor da encenação é visível no embate emocional e físico, este mais forte que o primeiro. Tal observação não diminui a qualidade dos dois intérpretes, mas vejo como um pequeno ruído em encenação tão eficaz. Por vezes, a intensidade emocional se mostra pelo grito, principalmente no trabalho de Caio Rodrigo, um ator mais experiente. Gritasse menos, sua interpretação ganharia mais densidade. Talis Castro mostra-se seguro, mas ainda não domina os rigores do ofício. Assim, resolve parte do seu trabalho cênico também no grito. Tanto um como o outro se dão melhor quando contidos expressam a tormentosa gama de sentimentos que caracterizam os personagens e sua problemática. Um maior aprofundamento emocional faria do trabalho dos atores um momento iluminador, como é o trabalho físico (ao separá-los, não considero um e outro apartado; as ações físicas são decorrentes das emoções). A intensidade do jogo corporal remet palco para o ringue. O embate é forte e impactante fazendo com que os corpos desenhem belas imagens no espaço, impregnando a cena de energia, suor, mas nenhuma lágrima. A cena da trepada, um ato de amor e volúpia selvagens, condizente com tema, completa a poesia derramada na cena pelo encenador.

Noção de tempo e ritmo é o que não falta da encenação transcorrida sem tempos mortos, mas com pausas necessárias que dão repouso a ação, logo intensificada pela trama que corre pulsante como a relação entre os personagens. 

Pólvora e Poesia é uma realização e tanto. Luz bem concebida, figurino quase perfeito (descartando o horrível sapato de Verlaine) e preparação corporal e coreográfica comprovam a capacidade dos profissionais em realizar as demandas estéticas do encenador.

O espetáculo merece ser visto. Que o público não desanime com a localização do teatro. Sei que o Centro de Salvador depois da 18:00h é assustador, mas ali, nas proximidades do Cine Glauber Rocha - Unibanco, a barra é menos pesada. Há sempre uma dupla de policiais e os seguranças do cinema dão suporte, suponho. Pela lateral do Cine, o acesso a igreja da Barroquinha é tranquilo.

Ainda que Verlaine tenha dito uma dia a propósito de Rimbaud que era a "vida inimitável", Pólvora e Poesia com suas qualidades estéticas potencializa a vida, aquela que é teatral e por isso nos entontece como um bom vinho, sem que percamos a capacidade de apreciá-lo. Assim é como o bom teatro.


Um grito de liberdade para Jafar Panahi, cineasta iraniano, autor de O Globo Azul e O Círculo.
O cineasta foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar, escrever roteiros, dar entrevistas a meios de comunicação sejam eles locais ou estrangeiros por 20 anos.
É a morte de um artista!
E tudo porque discordou

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Registro 337: Joseph Beuys, uma exposição meia boca

O Museu de Arte Moderna, situado no belo conjunto arquitetônico Solar do Unhão, abriga a exposição Jospeh Beuys - A Revolução Somos Nós. Beuys é uma artista superlativo, ainda que muitos não gostem do que ele faz. Suas experimentações são provocativas. Para o artista, qualquer objeto é uma obra de arte, desde que ele assim o deseje. Essa compreensão faz de Beuys um elo conectado a Duchamp.

Mas não estou aqui para discorrer sobre a monumental e ao mesmo tempo minimalista obra do artista alemão. Tenho um amigo que diz ser ele um charlatão. Não concordo, mas respeito a opinião dele. O que me leva a escrever este registro é a exposição vendida pela diretoria do MAM como se fosse algo inusitado e de grande importância para a vida cultural da provinciana Salvador. Par mim, a exposição é decepcionante, visto que exibe uma quantidade enorme de cartazes sobre as exposições realizadas por Beuys durante sua vida, fotos, muitos vídeos e pouquíssimas obras. Além do reduzido número de trabalhos, o que se vê não representa minimamente o artista revolucionário que ele foi. Portanto a exposíção é uma amostragem pífia.

Qual o interesse em ver cartazes de exposições, ainda que eles sejam interessantes em suas propostas gráficas? Montar uma exposição sustentada em cima de cartazes e vídeos deve interessar a quem?

Numa cidade sem crítica e sem caderno cultural nos jornais, qualidade e quantidade passam batidas. Os jornais reproduzem o que as assessorias de imprensa escrevem nos releases. E tudo passa batido, sem que se faça uma exame mais acurado sobre os acontecimentos artístico-culturais Portanto não há crítica. Caso houvesse, o embuste seria comentado, esclarecendo-se o público sobre o que está sendo exposto. Não radicalizo, achando que estão empurrando gato por lebre, mas a exposição no MAM é menor para um artista enorme. Conforme registra os roteiros dos jornais, "o maior artista alemão do século XX". A mostra não reflete tal afirmativa.

Melhor ficar em casa lendo/apreciando Joseph Beuys, de Alain Borer, publicado pela Cosac Naify (São Paulo, 2001). O livro diz muito mais sobre Beuys. A exposição que fica em cartaz até 13 de fevereiro diz pouco

Por falar em exposição, o Museu de Arte da Bahia exibe Genaro de Carvalho, de Memória - Uma Retrospectiva. Não há nenhuma insinuação de minha parte em estabelecer comparação entre os artistas. São opostos e de outra natureza as suas opções artísticas. Mas na retrospectiva se vê a obra do baiano, as diversas fases, os momentos felizes e aqueles em que seu trabalho se dilui e perde força. Mas a exposição é bem montada e dá uma medida do artista que andava esquecido.

Um grito de liberdade para Jafar Panahi, cineasta iraniano, autor de O Globo Azul e O Círculo.  O cineasta foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar, escrever roteiros, dar entrevistas a meios de comunicação sejam eles locais ou estrangeiros por 20 anos.
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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Registro 336: Balanço 2010

2011 é de Oxum

Fui aprovado no concurso para professor da Escola de Teatro da UFBA em 3 de fevereiro e tomei posse no dia 21 de julho.

Em junho, encerramos as atividade do Curso de Artes Cênicas da Faculdade Social. Aproveito para agradecer aos colegas que estiveram desde o começo e os que permaneceram até o final. Nós acreditamos que seria possível e não desistimos. Desistiram por nós. Uma pena... Fizemos coisas legais e formamos alguns atores e professores de teatro. Todos os professores que passaram pelo curso prestaram concurso nas Universidades Federais e foram aprovados.

Recebi a notícia que meu primeiro livro para criança, Um muro no meio do caminho?? será reeditado pela Saraiva/Atual. Escrevi dois trabalhos que aguardam editores

Fiquei dez dias internado com dengue hemorrágica. Como é bom ter amigo e amigos. Todos solidários, prestativos, interessados. Não desejo para ninguém o tal mosquito e sua picada.

Não deu para ver a programação do FIAC, mas eu vi A Cela, Partiste, SiricoticoBenção, Torre de Babel, A Gente Canta Padilha, Dias de Folia, Monstro, Théâtre des Vampires (surpreendente, instigante, corajoso, principalmente para os atores e lógico para nós). Pouca coisa, mas dá pra perceber como anda a cena baiana. Faltou Sebastião, uma falha,  As Velhas e Pólvora e Poesia.

Os filmes que eu vi: Vincere de Marco Bellocchio (deslumbrante exercício cinematográfico), Diz Croquettes, Uma Noite em 67, As Melhores Coisas do Mundo, O Pequeno Nicolau, O Segredo dos Seus Olhos, Cabo do MedoMoscou, A Fita Branca, InvictusA Bela Junie . Vi muitos filmes, muitos que agora não dou conta de lembrar. Foram tantos. Sou viciado em cinema. Detestei A Origem.

Assis Valente (Coleção Folha - Raízes da MPB) tocou bastante no meu aparelho de som. Ainda não aderi ao MP3, mas fui obrigado a aderir ao celular. Ando agora com meu "Celulari" no bolso. Que praga! Ouvi bastante Michael Bublé (Crazy love e Call me irresponsible), Peter Gabriel (Stratch my back), Bryan Ferry (Olympia) e muitos dos meu velhos e estimados cd's, companheiros de todas as horas. Nelson Freire tocando Chopin (The nocturnes) foi uma constante, assim como Bach. Meus ouvidos não cansam de ouvir a Ária na Corda Sol da Suíte Número 3.

Os livros, Ah, os livros. Dei-me de presente tantos e não dei conta de ler todos. Já disse que compro livro como compro comida. Mas não posso deixar de lembrar de todos os Philip Roth, os novos e os antigos que eu não conhecia. Vão-se os dias e eu fico, as memórias de Edson Nery da Fonseca procurado desde que soube de seu lançamento e só conseguido depois que a Livraria Cultura se instalou naquela lonjura. Uma pena. O teatro e eu, de Sérgio Brito foi lido de um só fôlego. Depoimento corajoso do ator. Ganhei de Celso Nunes, que reencontrei na morando em Salvador, o seu livro escrito por Eliana Rocha, Celso Nunes sem amarras, coleção Aplauso. Da mesma coleção, Emílio di Biasi,  o tempo e a vida de um aprendiz. Foi, é, gratificante saber das histórias dos encenadores. Fui dirigido pelos dois e convivi mais próximo a Di Biasi, agora na Bahia, vou convivendo com Celso, a quem convidei para uma conversa na Escola de Teatro. O encontro foi realizado e agradou a quem esteve presente.

Lei O outono da idade média de Johan Huizinga, O poder da arte de Simon Schama e A Tragédia shakespeariana de A.C. Bradley. Intercalo a leitura pra ver se dou conta da pilha que se levanta na mesa de cabeceira. De Antonio Tabucchi, li O tempo envelhece depressa. Ganhei muitos livros presenteados por Fanny Abramovich, o último e ainda não lido é de Virgínia Woolf, O quarto de Jacob. A poesia de Cleise Mendes em O cruel aprendiz foi motivo de um texto no blog Cenadiária.

Escrevi artigos, alguns publicados. Um recusado. A recusa é parte da vida acadêmica. O problema é assumi-la.

O meu primeiro semestre na Escola de Teatro, eu vou esquecendo depois de retirar dele muitas lições. Não foi fácil. Um projeto, no qual investi energia e vi possibilidades para os atores, foi abortado. Se não consegui levar Carícia de Sergi Belbel para a cena, escrevi um artigo sobre a peça em fase de revisão. Por outro lado, dei aulas de História do Teatro para uma pequena turma do Bacharelado Interdisciplinar e avalio como superpositiva a convivência e o aprendizado dos estudantes.

Ah, dei conta de gratificante tarefa: escrevi Harildo Déda, nas dobras do tempo. O livro aguarda publicação. Os nossos encontros  foram momentos partilhados com emoção e alegria. Viagem no tempo, dele e minha.

Cultivei os poucos amigos, me aproximei de muitos companheiros, conheci pessoas, convivi com familiares. Mas continuo um solitário. Entreguei aos deuses os desafetos.

Fui visitado por Cid Pimentel, Fanny Abramovich, Tony Chou e Valéria, Luís e filhos, só faltou o meu afilhado Arthur. Gente que veio de longe

Acompanhei com assiduidade o ciclo de rituais no Terreiro do Gantois. Um descoberta, da mesma forma como foi tomar o chá no Centro Espiritual Estrela de Salomão, que é uma outra história, já que conhecia a bebida noutro lugar (São Paulo) e de um outro jeito.

Andei muito pela Cidade do Salvador e constatei o seu abandono. Abandono mesmo! Em agosto, fez 11 anos que retornei e fixei residência por aqui. Eu nunca vi a cidade tão suja, descuidada, entregue a incompetência dos atuais administradores e à nossa secular maleducação

Pra encerrar o balanço meio desbalançado - pois como dar conta dos trabalhos e dos dias, se a memória é seletiva - embora eu ache que não, faço duas citações: a primeira é de Simon Schama (O poder da arte, 2010, p. 10) e a segunda é de Mário Quintana, sem referência.

A grande arte tem péssimos modos. A silenciosa reverência da galeria [do teatro] pode levar você a acreditar, enganosamente, que as obras-primas são delicadas, acalmam, encantam, distraem - mas na verdade elas são truculentas. Impiedosas e astutas, as maiores pinturas [peças/encenações] lhe aplicam uma chave de cabeça, acabam com sua compostura e, ato contínuo, põem-se a reorganizar seu senso da realidade.

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Que o ano novo venha novinho em folha, para que possamos viver a beleza da vida no que ela tem de esplendor e graça...

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Registro 335: Edward Albee, velho dramaturga continua com a mente afiada


Edward Albee
Vale a pena ler a entrevista do dramaturgo Edward Albee, publicada na Folha de S. Paulo (30.12.2010). Coube ao jornalista Lucas Neves entrevistar o autor de memoráveis textos, ainda inquietantes e de grande força no palco. Os grifos são de minha autoria.

Folha - A morte é uma presença marcante e até assume forma humana em peças de sua autoria, como "Três Mulheres Altas" e "A Senhora de Dubuque". Por que o senhor acredita que ela seja um mote tão forte para o teatro?

Edward Albee - Só há duas coisas que realmente importam. Os dois grandes eventos na vida de qualquer pessoa são seu nascimento e sua morte. E então você escreve sobre esse parêntese, sobre tudo o que acontece nesse intervalo. Você não pode escrever sobre seu nascimento porque não se lembra dele. Mas pode escrever sobre a morte, porque obviamente não tem memórias dela, mas espera por isso. Há vários tipos de morte. Muitas das minhas peças são sobre pessoas que estão vivas, mas morreram emocional e intelectualmente muito tempo atrás. Você pode estar morto no íntimo e ainda vivo.

As notícias que nos chegam sobre a cena americana incluem a estreia de uma adaptação musical de "Homem-Aranha" orçada em US$ 65 milhões (R$ 109,8 mi) e um número crescente de estrelas hollywoodianas buscando na Broadway legitimação. Que margem esse quadro deixa para provocação e tomada de riscos?

A maioria das pessoas quer um entretenimento seguro e amigável. Não desejam que seja um ato de agressão. E quase toda arte, em seu melhor, é um ato de agressão contra o status quo. Ou seja: está ali para levantar questões, não para fornecer respostas fáceis, simples.Mas se você faz perguntas difíceis, irrita muita gente. Essa é a função da arte, entretanto. Se ela não lhe saca do conforto, não é arte. O problema é que boa parte das pessoas tem preguiça intelectual.

De que maneira a arte pode ser a um só tempo agressiva e divertida?

Atraente é uma palavra perigosa, significa que as pessoas vão gostar. O que a arte precisa é ser mobilizadora de nossa mente e de nossas emoções. Ela não tem de nos deixar felizes, mas sim mais conscientes de nossos valores. E deve nos levar a interrogar se estamos dando conta ou não de nossas responsabilidades. Não entendo como alguém pode querer ir ao teatro só para ver atores voando suspensos por fios [referência a "Homem-Aranha"]. Vá ao circo, então! O teatro deve mobilizar o intelecto e o olhar.

Como o sr. vê o jogo de forças entre o teatro que chama de comercial e o de vocação mais experimental, hoje, nos Estados Unidos?

Grande parte das obras que são produzidas com um olhar no lucro que voltará para o investidor tende a ser uma perda de tempo. Por outro lado, grande parte dos trabalhos feitos só de amor ao teatro, ainda que não seja rentável, costuma ter mais valor. Esses são feitos em teatros pequenos, não comerciais, geralmente com temporadas mais curtas do que a porcaria comercial.

E por que isso acontece?

Porque as pessoas não querem ser incomodadas quando vão ao teatro. Anseiam por ter seus valores reafirmados -se é que se chega a discutir valores em cena. Não esperam vê-los questionados. Não estão ali para ser perturbadas. Querem perder tempo e estão dispostas a gastar muito dinheiro para isso.

O sr. é, então, pessimista em relação ao futuro do teatro?

O único problema da democracia é que você tem o que quer, em vez daquilo que você deveria querer. Numa democracia, se você é bem educado, pode tentar alcançar aquilo que deveria querer. Mas tem de ser instruído para fazer a democracia funcionar e para querer um teatro que faça algo útil. Quando eu ia à escola, tinha uma classe de formação cívica, em que aprendia como o governo trabalhava e o que significava um ato político. Não se ensina mais isso na América. Também tive aulas de música, literatura e artes visuais. Hoje, elas não são consideradas importantes. As preferências das plateias são ditadas pelo pouco que aprendem. Se o cardápio ensinado fosse mais amplo, a gama de interesses seria mais diversificada.

Diante desse quadro, por que insiste em abordar temas tabu, como bestialismo (em "A Cabra"), mastectomia voluntária e circuncisão reversa (ambas em "Homelife")?

Porque isso representa o que sou, o que me interessa. É sobre isso que acredito que as pessoas deveriam refletir. Mas esses temas ainda são capazes de ruborizar a plateia, tirá-la da zona de conforto? As pessoas prestam atenção de um jeito diferente quando estão diante de algo que é vendido como arte.

Já foi sugerido que o sr. se vale fartamente de sua biografia para criar peças. As mães de seu teatro seriam variações da figura de sua mãe adotiva, com quem o sr. mantinha uma relação difícil. Como equilibra realidade e ficção?

Estou limitado pelas fronteiras da minha imaginação. Escrevo o que consigo imaginar. Mas não limito a minha escrita a fatos que tenham acontecido comigo, porque não penso ser um objeto teatral tão interessante assim. Me considero uma pessoa interessante, mas não um tema próprio para uma peça.

Qual a diferença entre ser uma coisa e a outra?

Para que a história de alguém se preste ao teatro, suas ações têm de fazer sentido em termos dramáticos, não apenas intelectuais. Senão você transforma uma vida chata numa peça idem. Não consigo imaginar uma peça muito boa sobre [o filósofo alemão] Immanuel Kant, por exemplo.

Em suas peças, surge com frequência um elemento "intruso", alguém que vem de fora do cenário principal para (às vezes à própria revelia) derrubar máscaras sociais, revelar hipocrisias. Como o jovem casal convidado pelos protagonistas de "Virginia Woolf", ou o par e a filha visitantes de "Um Equilíbrio Delicado". O inferno são os outros?

Dramaturgia se apoia em conflitos emocionais, físicos, psicológicos ou políticos. E se você tem um grupo de pessoas que se conhece bem, está muito feliz e não tem sobre o que falar, não há conflito. O que você tem em mãos nesse caso é televisão.

Mas não dizem que a televisão americana vive uma nova era de ouro, com enredos provocativos, personagens bem construídos?

Por "era de ouro", querem dizer um período muito rentável. Só vejo programas informativos, que possam me ensinar algo. Gosto daqueles que tratam de animais, ciência, o cérebro. A minha leitura também segue essa mesma inclinação.
E peças, o sr. lê?

Leio porque quero saber o que está acontecendo naquela história. Se vejo uma montagem sem antes ter lido o texto, não tenho a certeza de estar assistindo à peça que o dramaturgo imaginou.Há uma hierarquia que deve ser respeitada, que determina que o texto venha antes, e a sua interpretação, depois. Essa deve apenas reforçar o que o autor concebeu. Em duas ocasiões, senti que isso não estava acontecendo, e o resultado foi horrível. Mas não quero falar sobre isso. Você tem de ser forte para garantir que a sua visão é o que a plateia vai receber, porque às vezes tentam abrandá-la, facilitá-la, torná-la menos perturbadora, mais digestiva. Diretores às vezes fazem isso, seguindo comandos de quem está colocando dinheiro na produção.

O sr. dá aulas na Universidade de Houston. Como é o contato com grupos de jovens dramaturgos?

Ensino porque aprendo ao fazê-lo. Sou muito egoísta. Se não existisse essa via de mão dupla, não funcionaria para mim. Sempre digo aos alunos: "Escrevam a primeira peça de todos os tempos. Inventem a forma, a estrutura, a ideia". Toda arte é reinvenção, não repetição. Arte ruim é repetição. É simples assim.

Um grito de liberdade contra a bárbarie.Grito por Jafar Panahi, o cineasta condenado pelo governo do Irã.
Seu crime: discordar.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Registro 334; Veja que deslumbramento

ACESSE!
VEJA QUANTO É DESLUMBRANTE O BARROCO
DA IGREJA DE SÃO FRANCISCO
SALVADOR - BAHIA

Viva a tecnologia quando a serviço da beleza!

http://www.onzeonze.com.br/blog360/toursaofrancisco/index.html

Um grito de liberdade contra a bárbarie.
Grito por Jafar Panahi, o cineasta condenado pelo governo do Irã. Seu crime: discordar.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Registro 333: Tempo de Natal e de outros eventos


Vivemos o Natal no Ocidente cristão.
Mas o Natal mercadoria é comemorado por todos no Ocidente capitalista.

O espírito natalino se espraia...

Eu me lembro dos Natais da minha infância quando meu pai preparava uma performance com Corró, um negro baixinho, vestido de Papai Noel e umas meninas amigas de minhas irmãs fantasiadas com trajes carnavalescos. Ao som daquela tristíssima canção de Assis Valente, Boas Festas, as meninas dançavam em torno de Papai Noel. O número era apresentado no palco do Cine Teatro Cliper, de propriedade de meu pai, antes da matinê.

Corró era festeiro. No carnaval, ele comandava uma batucada,  e desfilava montado numa burrinha feita de papelão e chitão toda enfeita de fitas coloridas, um objeto muito usado nos festejos populares do Nordeste. Mas no Natal, empenhava-se em representar Noel. Se Al Johnson pintado de preto fez o Cantor de Jazz, por que Corró não podia representar o bom velhinho sem precisar disfarçar sua pele negra?

Pensando bem era um anti-Natal. Mas nós, crianças de Ipirá, não víamos nada de anormal na performance, com seus elementos críticos. Talvez meu pai não imaginasse efeito tão insólito quando imaginou a cena. Havia ali naquele palco, cuja ribalta era iluminada com luzes verdes, vermelhas, azuis e amarelas, a junção de elementos tão díspares, mas integrados numa comunhão bem típica da nossa formação enquanto nação...

Lembro-me também do Natal em que meu pai armou um enorme presépio no salão do Grupo Escola Góis Calmon. Na época, já adolescente bem taludo e com veleidades artísticas, fui convocado para pintar montanhas cenográficas para compor um horizonte, cujo azul celeste indicava mais dia que noite.

Semanas antes de abrir o presépio aos visitantes, eu acompanhei meu pai pelas ruas da periferia distribuindo uma senha para as crianças e outra para os idosos. Tais senhas davam direito a um brinquedo, naturalmente para as crianças, e um cobertor Dorme-bem para os idosos. Dia marcado, ele recebia no salão do Grupo Escolar todos aqueles que tinham a senha. Lá estava eu servindo de ajudante.

Anos depois, o presépio era armado em casa. Depois de sua morte em janeiro de 1975, o presépio ficou como herança de minha irmã, que ao se tornar evangélica passou as imagens para outra pessoa. Não sei qual o fim do presépio.

Certa feita, meu pai cobriu uma árvore seca com algodão enfeitando-a com bolas enormes e luzes coloridas, mas não dessas luzes made in China. Eu, já rapaz, ingressando na universidade, achei um despropósito a tal árvore nevada. Essa árvore, penso agora, simbolizava para meu pai um sertão aguado, irrigado, próspero.

Tendo como suporte um tonel pintado de vermelho, a imensa árvore foi colocada na avenida principal da cidade. Mas na noite de 31 de dezembro, por conta de uma briga, botaram abaixo a Árvore de Natal. Os fofoqueiros se encarregaram de espalhar que o vandalismo era decorrente das inimizades político-partidária que meu pai amealhou durante parte de sua vida.

Embora crítico, eu gostava de ver a natalina árvore iluminada.

Para rememorar os festejos de meu pai, este ano armei um pequeno presépio. Fosse vivo, ele estaria comemorando 92 anos. Morreu meu pai aos 57, mas deixou um legado imaterial que sedimentou a minha vida e orientou as minhas escolhas.
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Teatro - Indicações para o Prêmio Braskem

Aproveito para parabenizar a atriz Margarida Laporte por ter sido indicada como Revelação por sua interpretação em Partiste, texto e encenação de Paulo Henrique Alcântara. A peça encerrou as atividades do curso de Artes Cênicas da Faculdade Social em junho passado. A delicada e tocante criação de Margarida infundia ternura e graça na cena. Inesquecível no personagem da Mãe. Além de atriz, Margarida é dona, com seu companheiro, da melhor sorveteria de Salvador, a Glacie Laporte.

Meus parabéns para Jacyan Castilho indicada para Melhor Atriz. Caso leve o prêmio é merecedora. Seu trabalho em A Cela é uma criação poderosa. Yumara Rodrigues também foi indicada, merece um prêmio especial por sua carreira. Não posso falar das outras atrizes indicadas (Andrea Elia, Claudia di Moura, Evelyn Buchegger), pois não vi suas atuações. São talentosas, tanto quanto Jacyan e Yumara.

Jarbas Olivier merece o prêmio de Melhor Ator.

Lamento não ter visto as encenações de As Velhas (direção de Luiz Marfuz) e de Pólvora e Poesia (direção de Fernando Guerreiro).

Livro

Soube pelo editor (Saraiva) que meu primeiro livro para criança Um Muro no Meio do Caminho?? será reeditado em 2011. O livro sai pela Atual, um selo da Saraiva. Na primeira edição, década de 80, o livro fazia parte de uma coleção organizada por Fanny Abramovich. Por conta do Plano Collor, a primeira edição, por outra editora, não mereceu a devida atenção. Mas quem podia prestar atenção em alguma coisa naquele momento, quando sofríamos o confisco do nosso dinheiro, ou melhor o roubo. Tristes tempos aqueles


Um grito de liberdade contra a bárbarie

Grito por Jafar Panahi, o cineasta condenado pelo governo do Irã. Seu crime: discordar.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Registro 333: Meninos, eu vi situação parecida por aqui.

Um grito de liberdade para Jafar Panahi, cineasta iraniano, autor de O Globo Azul e O Círculo.

O cineasta foi condenado a seis anos de prisão e proibido de filmar, escrever roteiros, dar entrevistas a meios de comunicação sejam eles locais ou estrangeiros por 20 anos.

É a morte de um artista!

E tudo isto porque discordou.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Registro 332: Dzi Croquettes - Libertários


Acabo de retornar da Sala de Arte Cinema da UFBA onde vi o documentária de Tatiana Issa e Raphael Alvarez, Diz Croquettes. Imperdível, principalmente para quem acha que faz vanguarda no tempo de agora e muda comportamentos e quebra paradigmas na cena.

Ao ver o filme, as emoções voltaram com a mesma força de outrora, quando eu vi pela primeira vez o grupo de rapazes, seu show, suas vidas. Lembro-me bem. Em 1974, recém chegado a São Paulo, estive na plateia do Teatro Maria Della Costa para ver duas, três, quatro vezes os Dzi Croquettes. Eu era um jovem ator, fazendo o meu primeiro espetáculo sob a direção de Márcio Aurélio também estreante. Nas folgas, íamos ver os Dzi, uma ilha libertária em meio à caretice reinante naquele momento, fim do terrível governo Médici. Seguíamos em bando aquele grupo alegre e sempre purpurinado nas festa, nos restaurantes, nos bares e boates. A purpurina era uma marca registrada do grupo, e os  tietes e  desbundados aderiram ao enfeite e a descompostura, botando os velhos hábitos e o bom comportamento de pernas para o ar, tanto na vida quanto na arte. Arte e vida misturavam-se sem nenhum pudor, artaudianamente. Grotesco e lirismo sem pudor, deboche desregrado, vitalidade cênica exercida com talento, com técnica. A qualidade dos atores era visível e a técnica rigorosa e disciplinada de Lennei Dale aparecia na performance de cada um. A cena sob o som de Assim Falou Zaratustra era impactante. Nada era improvisado, embora houvesse improviso. O ritmo da cena contagiava e não havia buraco nas duas horas do espetáculo. Valorosos rapazes. Os sobreviventes, são hoje senhores, alguns com visual menos Croquette, mas ainda brilha em cada um o fulgor de quem se sabe dono da história, a individual e a coletiva. A rapaziada era da pesada, mas de alma bailarina.

Era tanta purpurina que se a polícia quisesse encontrar alguém, bastava seguir o brilho colorido que se espalhava do palco para a plateia e impregnava roupa e corpo.

Em cena, Wagner, Cláudio, Ciro, Reginaldo, Leni, Carlinhos, Elói, Bayard, Benedito e outros que não me lembro agora, depertavam as mentes e os corpos adormecidos e passavam aquela energia desreprimida. Apontavam caminhos, negando o discurso da direita e desconfiando das palavras de ordem da esquerda. Riam de tudo e, sobretudo deles mesmos.

Atitude contracultural, marcadamente libertária, o posicionamente dos rapazes, nem macho nem fêmea, mas andrôgino, fazia balançar as certezas de muita gente. Para os artistas que se deixaram contaminar pela coragem, deboche e técnica (os Croquettes dançavam à bessa, cantavam bem e eram ótimos intérpretes), a energia que rolava no palco serviu como um indicador para romper com o fechamento da cena. Cena que tinha medo de ser alegre, pois comprometida em denunciar as mazelas decorrentes da ditadura militar. Encontrando uma forma desviante do discurso engajado, os Diz Croquettes estampavam a necessária liberdade e noutro tom figuravam o poético e o político noutra vertente.

Quem aspirou o ar soprado do palco Dzi, não foi mais o mesmo. E se alguém duvida, basta ver o documentário. Lá estão os depoimentos de muita gente, há também emoção verdadeira, sem pieguice, mesmo quando Tatiana  Issa lembra dos que morreram como seu pai, iluminador do espetáculo.

A maioria não sabe da existência do grupo. Ele ficou restrito ao eixo Rio-São Paulo e fez muito sucesso na França. Sucesso de verdade. Estiveram na Bahia, mas aqui o grupo se desfez. A separação, ainda que temporária, deixou marcas na família Croquette, Lennie Dale se afastou. Mas em seguida, eles conseguiram fazer dois espetáculos, Romance, de pouca repercussão e outro visto somente em Paris.

Vi Romance no Teatro Ruth Escobar, no elenco o meu amigo Vicente Di Franco, paulista que morou em Salvador e esteve no elenco de Marylin Miranda, espetáculo de José Possi Neto, que tinham muito da estética dos Croquettes.

Se você está pensando em show de travesti. Esqueça! Nada contra, mas os Croquettes passavam ao largo de tal manifestação. Artisticamente a coisa era bem diversa. Muita coisa do que se vê na cena de hoje, ainda que seus realizadores não saibam, é fruto da criatividade transgressora de um grupo que se lança e se firma num cenário hostil.

É certo que o ideário contracultural em curso dava margem e sustentava tal acontecimento e o grupo, intuitivamente, percebeu a hora e a partir daí organizou-se. Pelas brechas, como dizia o poeta Torquato Neto, encontraram uma maneira de furar o estabelecido na cena teatral, criando um espaço vital para sua expressão. Reiventaram a família sem a caretice da instituição, num momento em que viver comunitariamente era um desejo realizado por muitos. E muitos saíram de casa para viver em comunidade, um jeito diferente de encarar o mundo. Alternativas foram criadas e o mundo tornava-se outro, ainda que as condições fossem de amargar.

O texto abaixo foi retirado da página da Enciclopéia Itáu Cultural - Teatro e completa as falhas da minha memória.

Grupo carioca irreverente, alinhado à contracultura, à criação coletiva e ao teatro vivencial, que faz do homossexualismo uma bandeira de afirmação de direitos.


O conjunto cria, em 1972, o espetáculo Gente Computada Igual a Você, que se origina de um show de boate, posteriormente levado para São Paulo, na casa noturna TonTon. A realização transferida para o Teatro 13 de maio, faz enorme sucesso. Na equipe criadora do espetáculo constam os nomes do coreógrafo Lennie Dale, do autor Wagner Ribeiro de Souza, e dos bailarinos Cláudio Gaya, Cláudio Tovar, Ciro Barcelos, Reginaldo de Poli, Bayard Tonelli, Rogério de Poli, Paulo Bacellar, Benedictus Lacerda, Carlinhos Machado e Eloy Simões.

Gente Computada apresenta números cantados, dublados e dançados, entremeados por monólogos que equacionam as experiências de vida dos integrantes. Tais textos de interligação, de autoria de Wagner Ribeiro, primam pela ironia, duplo sentido e tom farsesco. A montagem recicla práticas da antiga revista musical, do show de cabaré e da tradição norte-americana do entertainment. As coreografias de Tinindo Trincando, com música dos Novos Baianos, e Assim Falou Zaratustra, em versão dance e technopop, constituem momentos altos do espetáculo. Figurinos ousados, maquiagem pesada e o contraste dos corpos masculinos em trajes femininos imprimem ao espetáculo tons de grotesco, de deboche e espírito ferino. Um árduo trabalho de interpretação e de dança é empreendido pelo bailarino Lennie Dale, para transformar o grupo numa trupe artística, elogiada pela crítica.

Em Paris, os Dzi Croquettes conhecem a consagração internacional. Em 1973 e 1974, fazem longas temporadas no Le Palace e, entre outras atividades, participam do filme Le Chat et la Souris, de Claude Lelouch. Uma parte da equipe cria um novo espetáculo, Romance, de Cláudio Tovar e Wagner Mello, 1976, que não alcança a mesma projeção do anterior. Posteriormente um elenco feminino vem agregar-se ao núcleo fundador, mas essa alternativa não amplia as propostas iniciais e, pouco tempo depois, o grupo se dissolve.

Inspirado no conjunto norte-americano The Coquettes e no movimento gay atuante na off-Broadway, a equipe utiliza equacionar conteúdos brasileiros para falar de nossa realidade, desde a repressão sexual até a censura e a ditadura. O grupo está na origem de uma corrente que veio a se desenvolver algum tempo depois, vinculada ao travestismo, ao deboche, à exploração do virtuosismo dos membros do elenco, à caricatura, à farsa e à comédia de costumes. [...].

sábado, 4 de dezembro de 2010

Registro 331: Argumentos contra a estupidez

Violência contra homossexuais

Drauzio Varella

A HOMOSSEXUALIDADE é uma ilha cercada de ignorância por todos os lados. Nesse sentido, não existe aspecto do comportamento humano que se lhe compare.

Não há descrição de civilização alguma, de qualquer época, que não faça referência a mulheres e a homens homossexuais. Apesar de tal constatação, esse comportamento ainda é chamado de antinatural.

Os que assim o julgam partem do princípio de que a natureza (leia-se Deus) criou os órgãos sexuais para a procriação; portanto, qualquer relacionamento que não envolva pênis e vagina vai contra ela (ou Ele).

Se partirmos de princípio tão frágil, como justificar a prática de sexo anal entre heterossexuais? E o sexo oral? E o beijo na boca? Deus não teria criado a boca para comer e a língua para articular palavras?

Se a homossexualidade fosse apenas uma perversão humana, não seria encontrada em outros animais. Desde o início do século 20, no entanto, ela tem sido descrita em grande variedade de invertebrados e em vertebrados, como répteis, pássaros e mamíferos.

Em alguma fase da vida de virtualmente todas as espécies de pássaros, ocorrem interações homossexuais que, pelo menos entre os machos, ocasionalmente terminam em orgasmo e ejaculação.

Comportamento homossexual foi documentado em fêmeas e machos de ao menos 71 espécies de mamíferos, incluindo ratos, camundongos, hamsters, cobaias, coelhos, porcos-espinhos, cães, gatos, cabritos, gado, porcos, antílopes, carneiros, macacos e até leões, os reis da selva.

A homossexualidade entre primatas não humanos está fartamente documentada na literatura científica. Já em 1914, Hamilton publicou no "Journal of Animal Behaviour" um estudo sobre as tendências sexuais em macacos e babuínos, no qual descreveu intercursos com contato vaginal entre as fêmeas e penetração anal entre os machos dessas espécies. Em 1917, Kempf relatou observações semelhantes.

Masturbação mútua e penetração anal estão no repertório sexual de todos os primatas já estudados, inclusive bonobos e chimpanzés, nossos parentes mais próximos.

Considerar contra a natureza as práticas homossexuais da espécie humana é ignorar todo o conhecimento adquirido pelos etologistas em mais de um século de pesquisas.

Os que se sentem pessoalmente ofendidos pela existência de homossexuais talvez imaginem que eles escolheram pertencer a essa minoria por mero capricho. Quer dizer, num belo dia, pensaram: eu poderia ser heterossexual, mas, como sou sem-vergonha, prefiro me relacionar com pessoas do mesmo sexo.

Não sejamos ridículos; quem escolheria a homossexualidade se pudesse ser como a maioria dominante? Se a vida já é dura para os heterossexuais, imagine para os outros.

A sexualidade não admite opções, simplesmente se impõe. Podemos controlar nosso comportamento; o desejo, jamais. O desejo brota da alma humana, indomável como a água que despenca da cachoeira.

Mais antiga do que a roda, a homossexualidade é tão legítima e inevitável quanto a heterossexualidade. Reprimi-la é ato de violência que deve ser punido de forma exemplar, como alguns países o fazem com o racismo.

Os que se sentem ultrajados pela presença de homossexuais que procurem no âmago das próprias inclinações sexuais as razões para justificar o ultraje. Ao contrário dos conturbados e inseguros, mulheres e homens em paz com a sexualidade pessoal aceitam a alheia com respeito e naturalidade.

Negar a pessoas do mesmo sexo permissão para viverem em uniões estáveis com os mesmos direitos das uniões heterossexuais é uma imposição abusiva que vai contra os princípios mais elementares de justiça social.

Os pastores de almas que se opõem ao casamento entre homossexuais têm o direito de recomendar a seus rebanhos que não o façam, mas não podem ser nazistas a ponto de pretender impor sua vontade aos mais esclarecidos.

Afinal, caro leitor, a menos que suas noites sejam atormentadas por fantasias sexuais inconfessáveis, que diferença faz se a colega de escritório é apaixonada por uma mulher? Se o vizinho dorme com outro homem? Se, ao morrer, o apartamento dele será herdado por um sobrinho ou pelo companheiro com quem viveu por 30 anos?

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Folha de S. Paulo, 4 de dezembro de 2010