domingo, 14 de novembro de 2010

Registro 329: Bons argumentos sobre "Caçadas de Pedrinho"

Caçada a Monteiro Lobato

MARCELO COELHO

EXISTE RACISMO na obra de Monteiro Lobato? A resposta, definitivamente, é sim. Leia-se, por exemplo, o que ele escreveu num artigo de jornal, reproduzido em "Ideias de Jeca Tatu" sem mudanças, nas diversas edições que o livro teve ao longo da vida do autor.

"Enquanto colônia, o Brasil era uma espécie de ilha de Sapucaia de Portugal. Despejavam cá quanto elemento antissocial punha-se lá a infringir as Ordenações do Reino. E como o escravo indígena emperrasse no eito, para aqui foi canalizada de África uma pretalhada inextinguível."

Mesmo para os padrões da época (o artigo foi escrito no começo do século 20), não deixa de soar chocante e incomum esse "pretalhada inextinguível".

Certo que portugueses, índios, italianos e alemães não recebem tratamento muito melhor. O afrancesamento das elites, Lobato repetiu o tema várias vezes, era coisa de "macacos".

Mas o "pretalhada inextinguível" não se apaga facilmente da memória, quaisquer que fossem as intenções caricaturais e polêmicas do escritor.

Isso está na obra para adultos de Monteiro Lobato, hoje bem menos levada a sério do que sua literatura infantil.
NEGRA COMO PRONOME Passo às "Caçadas de Pedrinho", que não é o único livro a fazer de Tia Nastácia uma personagem caricatural, insistindo em descrever seus traços africanos.

A todo momento, o leitor é lembrado de que a cozinheira é "preta". Ela arregala os olhos como "duas xícaras de chá"; resmunga, "pendurando o beiço"; apavorada ao ver um rinoceronte, cai desmaiada no chão, e o narrador comenta: "desmaio de negra velha é dos mais rijos".

Mais do que isso, a referência à cor serve o tempo todo como uma espécie de pronome, substituindo "Nastácia", para evitar a repetição do nome próprio: "a negra aproximou-se", "a pobre negra era ainda mais desajeitada do que Rabicó", "a pobre negra se convenceu" etc. etc.

Nenhum livro hoje em dia, para crianças ou para adultos, usaria esse tipo de vocabulário, e por mais que se ironize a ideia do "politicamente correto", há inegável progresso em evitar esse tipo de caracterização.

Discuto mais adiante o teor do famigerado parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) sobre "Caçadas de Pedrinho", que antes de mais nada notou o que é visível a olho nu: um palavreado como o de Lobato não se admite mais atualmente.

Observo apenas, no recenseamento desses termos, que um trecho do livro não é tão racista quanto parece. Nastácia é comparada a uma "macaca de carvão" quando, em desespero, sobe rapidamente num mastro de são Pedro para escapar das feras da floresta. O macaco de carvão, ou mono-carvoeiro (Brachyteles arachnoides), tem pelo claro, quase loiro.

A VELHA, O ALEMÃO Dito isso, o tal uso "pronominal" do termo "negra" para substituir "Nastácia" tem equivalentes em outros personagens do livro. Dona Benta é por vezes chamada de "a velha", e o dono de um circo, o sr. Fritz, recebe imediatamente o tratamento de "o alemão". Por sua vez, Emília, sendo interesseira e boa comerciante, é chamada de "ciganinha".

Um exemplo mais recente, que não é de Lobato. Reportagem policial publicada na Folha em julho de 1969 referia-se à testemunha de um assassinato como "a negra Angelina Maria de Jesus (...) gorda e baixa, de nariz achatado e grande". A reportagem sempre usa o termo "negra" ao referir-se a ela.

Ruim, sem dúvida, que no ano de 1969 ainda se escrevesse assim. O caso talvez nos advirta para ver com mais estranheza, por exemplo, alguma notícia nos dias de hoje que fale de um "coreano" ou um "boliviano" assaltado no centro da cidade, em vez de mencionar apenas sua condição, digamos, de comerciante ou de turista.

Voltando a Tia Nastácia, vale notar que sua cor também acaba introduzindo um certo componente "estrangeiro" ao conjunto dos personagens do "Sítio do Picapau Amarelo".

Enquanto Dona Benta é uma velhota assustada, que acaba propiciando as condições para as aventuras dos netos, Tia Nastácia assume um papel mais rico e contraditório. É ela quem toma distância do mundo fantástico do Sítio; crédula no que diz respeito a sinais da cruz, é bem mais cética do que Dona Benta quanto estão em jogo as invencionices de Emília e as aventuras de Pedrinho.

Para Tia Nastácia, o marquês de Rabicó é, antes de tudo, um leitão. Ela corresponde a um "mundo adulto", mais realista, que Dona Benta encarna apenas imperfeitamente.

Quando Emília propõe a Tia Nastácia que compre o rinoceronte, a cozinheira responde sem paciência nenhuma: "Era só o que faltava (...) Se fosse uma chocolateira eu fazia negócio, porque a minha está vazando".

Por fim, quando todos perdem o medo do rinoceronte e o atrelam a um carrinho para passear, ela é a última a aceitar a novidade. É assim que termina o livro, numa frase "antirracista": "Tenha paciência", diz Nastácia, ou melhor, "a boa criatura", expulsando Dona Benta de seu posto no carrinho. "Agora chegou a minha vez. Negro também é gente, sinhá..."


RACISTA AFINAL? Para resumir. Existiria, para usar o clichê, um "conteúdo racista" em "Caçadas de Pedrinho"? Conteúdo, propriamente, não, porque o livro não diz que os negros seriam uma "raça inferior" etc. etc. Mas há "formas de expressão" racistas ao longo de todo o texto, mesmo quando, no último parágrafo, os direitos de Nastácia à igualdade são reivindicados (e atendidos).

Seria essa incômoda e deseducativa presença de vocabulário racista o suficiente para banir "Caçadas de Pedrinho" das escolas brasileiras?

Certamente não. Mas o recente parecer do Conselho Nacional de Educação nunca propôs isso. O relatório, escrito pela professora Nilma Lino Gomes, merece ser lido na íntegra, e procura resolver com equilíbrio uma situação burocrática e legal das mais complexas.

Trata-se de responder à reclamação de um funcionário da secretaria de Educação do Distrito Federal, que notou a seguinte ambiguidade. Uma edição recente do livro, publicada em 2009, vinha com adaptações às novas normas ortográficas e com uma nota explicando que Lobato, ao fazer Pedrinho matar uma onça, vivia numa época em que os cuidados com o ambiente não eram tão intensos como hoje.

O "ecologicamente correto", até que bastante injusto com Lobato, um dos primeiros a denunciar queimadas no Brasil, impôs notas e advertências na nova edição de "Caçadas de Pedrinho".

NOTAS DEMAIS Por que não colocar o mesmo tipo de coisa no tocante ao vocabulário racista?

É isso o que sugere o relatório do CNE, sem deixar de enfatizar o caráter clássico da obra. Pode-se discordar, talvez, de tantos cuidados pedagógicos com notas e contextualizações, como se professores e alunos fossem incapazes de tocar com as próprias mãos num texto carregado de radioatividade política.

Pode-se imaginar que, no futuro, notas e explicações sobre "ciganinhas", "alemães", "velhas" ou o que quer que seja terminem sobrecarregando o livro com a seriedade do politicamente correto.

Será o momento em que as aventuras de Pedrinho, Narizinho e Emília deixarão, em definitivo, de divertir os seus leitores e tratá-los com inteligência, para tornarem-se apenas uma "maçaroca" e uma "caceteação", como diria Lobato, a serem enfiadas pela goela das crianças.

"A todo momento, o leitor é lembrado de que a cozinheira é "preta". Ela arregala os olhos como "duas xícaras de chá"; resmunga, "pendurando o beiço"; apavorada ao ver um rinoceronte, cai desmaiada no chão, e o narrador comenta: "desmaio de negra velha é dos mais rijos"

"Enquanto Dona Benta é uma velhota assustada, que acaba propiciando as condições para as aventuras dos netos, Tia Nastácia assume um papel mais rico e contraditório. É ela quem toma distância do mundo fantástico do Sítio; crédula no que diz respeito a sinais da cruz, é bem mais cética do que Dona Benta"

"Existiria um "conteúdo racista" em "Caçadas de Pedrinho"? Conteúdo, propriamente, não, porque o livro não diz que os negros seriam uma "raça inferior". Mas há "formas de expressão" racistas ao longo de todo o texto, mesmo quando, no último parágrafo, os direitos de Nastácia à igualdade são reivindicados"

Folha de S. Paulo, Ilustríssima, 14 de outubro de 2010


sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Registro 328: Caça à Pedrinho

Visitando Cenadiária, Fanny Abramovich ficou perplexa por não encontrar nenhum texto de minha autoria sobre a proibição do Conselho Nacional de Educação ao livro Caçadas de Pedrinho, de Monteiro Lobato. Ela reclamou por e-mail e enviou-me um texto de Marisa Lajolo sobre a questão. Concordei com Fanny, uma lobatiana por excelência, uma encarnação de Emília entre nós. Por conta da minha desatenção, registro o que penso sobre o assunto.

É isso aí, meu camarada! Em nome do politicamente correto, atitude sustentada na hipocrisia, paraceristas resolveram censurar um dos livros de Monteiro Lobato, Caçadas de Pedrinho. Os tais zelosos censores prestaram um desserviço ao Ministério da Educação, pois o Conselho Nacional de Educação - CNE, acolheu a recomendação de não distribuição do livro para as bibliotecas do Brasil varonil. Alegam os pareceristas, com o aval do Conselho, que o livro tem conteúdo ofensivo aos negros, portanto veicula um conteúdo racista. Além disso, argumentam que os nossos professores não são competentes para lidar com o assunto junto aos seus alunos. Um absurdo atrás do outro e vamos em frente tendo que engolir mais uma do "festival de besteiras" que assola o país.

Lembro-me de ter lindo os livros para criança de Monteiro Lobato indicados e oferecidos por uma tia professora, que embora crítica de Lobato não proibiu que eu descobrisse as maravilhas de sua escrita, o jogo imaginativo e inventivo de suas narrativas, uma fabulação que me fazia preso às páginas de cada aventura. Após leituras tão agradáveis e educativas, sem a chatice, que muitas vezes envolve a educação, eu não me vi menosprezando negros, nem achando que eles são seres de segunda. Longe de mim. Em minha família e em minha casa sempre foram tratados como qualquer outra pessoa. Se eram amigos, recebiam o tratamento que se dispensa a amigos, se trabalhavam para nós, eram reconhecidos como trabalhadores e respeitados, assim como os brancos. Se eram desconhecidos, eram tratados educadamente.  Assim, não fui deformado pela escrita de Lobato nem por outra qualquer. Os livros foram e são aulas de prazer e me disseram da imensidão e do ínfimo que existe em mim, no outro e no mundo. Portanto,sinto-me confortável para dizer que tantos os pareceristas quanto os doutos do Conselho não estão certos ao censurar Caçadas de Pedrinho. Bola fora! Uma constante...

Ao 18 anos, passou pela porta de casa um vendedor de livros oferecendo a colação de Monteiro Lobato, com todos os livros encadernados em vermelho e com as primeiras ilustrações da obra. Para espanto do meu pai, que não entendia como um jovem na idade em  que eu estava tinha interesse por livros destinado às crianças, pedi que ele adquirisse a coleção. Com certa arrogância, natural em jovens que se acham sabedores de tudo, disse-lhe da importância de ter tais livros em casa. Mais ou menos convencido pelo filho que estudava em Salvador, ele comprou a caixa com todas as obras. Que alegria... e reli cada um durante os três meses de férias em Ipirá, sob o calor do verão, espichado em uma rede, ou deitado na esteira. Inesquecíveis  férias. Inesquecível Lobato. Ah, e naquele tempo, eu andava meio aborrecido com ele, por conta da crítica azeda que fez ao trabalho de Anita Malfati. Críticas que a minha professora de Português no Colégio Central não perdoava e destilava suas inteligentes farpas contra o escritor.

Essas são lembranças de um tempo não politicamente correto ou politicamente certo na correção de deixar que o outro pense por si e faça suas escolhas

Parece-me estranho e não me entra pela cabeça os argumentos dos pareceristas. Afirmam eles que Tia Nastácia é chamada de negra, bem como a África é mencionada como uma lugar de origem de animais ferozes. Não vejo aí nenhuma deformação, nem inverdade, nem preconceito. Tia Nastácia, uma grande e valorosa criação de Lobato, é negra. Preconceito seria chamá-la de branca, amarela, vermelha, na tentativa de dizer uma coisa por outra. Quanto à África ser um lugar de bichos ferozes, não vejo motivo para tanto alvoroço. Nas histórias que li passadas no Continente, o que me fascinava também era o fato de ele ter em suas florestas e savanas bichos que eu só conhecia de revista ou no cinema. E não são ferozes seus leões, tigre, panteras?

Na minha mente de criança, nunca associei animais ferozes da África com seus humanos habitantes. Nem chamei negros de urubu, macaco ou outra coisa qualquer. Nem matei passarinho, nem atirei o pau no gato. Não arreliei nem velho nem gordo. E embora sem entender os motivos da loucura nunca fiz pouco dos loucos que andavam pelas ruas da cidade em que passei minha infância. E não conclua pela minha inocência e pureza. Fiz as minhas maldades, tive os meus desejos inconfessos e fui assustado com as advertências e ameaças do fogo do Inferno. Lembro-me bem de ter perdido um carnaval inteirinho, castigado que fui por ter escorraçado Radar, o cachorro de uma tia que apareceu no meu caminho na hora errada. Mereci o castigo. Ele foi educativo, esclarecedor...

Na minha santa ingenuidade, penso que se há gente feroz, elas se encontram em qualquer lugar do planeta, nas Américas, Europa, África e Ásia.  

O patrulhamento dos pareceristas e do Conselho ignora algo elementar: o leitor, seja ele adulto ou criança, tem a capacidade de interpretar e sua interpretação passa por muitos níveis. É o que diz Marisa Lajolo em texto sobre o assunto:

"É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito.  Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação -   manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta  face ao que lêem."

Além disso desacreditam na capacidade do professorado. Se não confiam nos professores é porque a educação no país está abaixo de uma linha aceitável. Os professores frequentaram escolas e se não foram bem formados a culpa recai em quem? Aí, caímos num círculo vicioso. E parece que ninguém no Ministério nem no Conselho está interessado em reverter esse quadro, romper o círculo. Os pequenos avanços não minimizam a questão. Estudantes saem da escola sem ter aprendido nada ou quase nada.E sem nada saber não saberão de Lobato.

Sem essa de censurar o que cada um quer e deve ler. Onde está o direito de escolher? Onde está o direito de a criança entrar em contato com o mundo de Lobato e forma um espírito crítico? A tal vigilância  está dirigida para o lugar errado. Um ideia fora do lugar.

QUERO MAIS E MAIS LIVROS DE LOBATO E VOU COMPRAR ALGUNS EXEMPLARES DE CAÇADAS DE PEDRINHO PARA PRESENTEAR CRIANÇAS. ELAS SÃO MUITO ESPERTAS E SABERÃO APRECIAR AS AVENTURAS E NÃO CONFUNDIR ALHOS COM BUGALHOS.

Segue abaixo o texto de Marisa Lajolo.


Quem paga a música escolhe a dança ?

Marisa Lajolo
Prof. Titular (aposentada) da UNICAMP; Prof. da Universidade Presbiteriana Mackenzie;  Pequisadora Senior do CNPq.; Organizadora ( com João Luís Ceccantini)  do livro  de Monteiro Lobato livro a livro (obra infantil) , obra que recebeu o Prêmio Jabuti 2010 como melhor livro de Não Ficção.


“Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, está em pauta e é bom que esteja, pois é um livro maravilhoso.

Narra as aventuras da turma do sítio de Dona Benta primeiro às voltas com a bicharada da floresta próxima e, depois, com uma comissão do governo encarregada de caçar um rinoceronte fugido de um circo. Nos dois episódios prevalecem o respeito ao leitor, a visão crítica da realidade, o humor fino e inteligente.

Na primeira narrativa, a da caçada da onça, as armas das crianças são improvisadas e na hora agá não funcionam. É apenas graças à esperteza e inventividade dos meninos que eles conseguem matar a onça e arrastá-la até a casa do sítio. A morte da onça provoca revolta nos bichos da floresta e eles planejam vingança numa assembléia muito divertida : felinos ferozes invadem o sítio e –de novo- é apenas graças à inventividade e esperteza das crianças ( particularmente de Emília) que as pessoas escapam de virar comida de onça.

Na segunda narrativa, a fuga de um rinoceronte de um circo e seu refúgio no sítio de dona Benta leva para lá a Comissão que o governo encarregou de lidar com a questão. Os moradores do sítio desmascaram a corrupção e o corpo mole da comissão, aliam-se ao animal cioso da liberdade conquistada e espantam seus proprietários. E, batizado Quindim, o rinoceronte fica para sempre incorporado às aventuras dos picapauzinhos.

Estas histórias constituem o enredo do livro que parecer recente do Conselho Nacional de Educação (CNE), a partir de denúncia recebida, quer proibir de integrar acervos com os quais programas governamentais compram livros para bibliotecas escolares . O CNE acredita que o livro veicula conteúdo racista e preconceituoso e que os professores não têm competência para lidar com tais questões. Os argumentos que fundamentam as acusações de racismo e preconceito são expressões pelas quais Tia Nastácia é referida no livro, bem como a menção à África como lugar de origem de animais ferozes.

Sabe-se hoje que diferentes leitores interpretam um mesmo texto de maneiras diferentes. Uns podem morrer de medo de uma cena que outros acham engraçada. Alguns podem sentir-se profundamente tocados por passagens que deixam outros impassíveis. Para ficar num exemplo brasileiro já clássico, uns acham que Capitu ( D. Casmurro, Machado de Assis, 1900) traiu mesmo o marido, e outros acham que não traiu, que o adultério foi fruto da mente de Bentinho. Outros ainda acham que Bentinho é que namorou Escobar .. !

É um grande avanço nos estudos literários esta noção mais aberta do que se passa na cabeça do leitor quando seus olhos estão num livro. Ela se fundamenta no pressuposto segundo o qual, dependendo da vida que teve e que tem, daquilo em que acredita ou desacredita, da situação na qual lê o que lê, cada um entende uma história de um jeito. Mas essa liberdade do leitor vive sofrendo atropelamentos. De vez em quando, educadores de todas as instâncias – da sala de aula ao Ministério de Educação- manifestam desconfiança da capacidade de os leitores se posicionarem de forma correta face ao que lêem .

Infelizmente, estamos vivendo um desses momentos.

Como os antigos diziam que quem paga a música escolhe a dança, talvez se acredite hoje ser correto que quem paga o livro escolha a leitura que dele se vai fazer. A situação atual tem sua (triste) caricatura no lobo de Chapeuzinho Vermelho que não é mais abatido pelos caçadores, e pela dona Chica-ca que não mais atira um pau no gato-to. Muda-se o final da história e re-escreve-se a letra da música porque se acredita que leitores e ouvintes sairão dos livros e das canções abatendo lobos e caindo de pau em bichanos . Trata-se de uma idéia pobre, precária e incorreta que além de considerar as crianças como tontas, desconsidera a função simbólica da cultura. Para ficar em um exemplo clássico, a psicanálise e os estudos literários ensinam que a madrasta malvada de contos de fada não desenvolve hostilidade conta a nova mulher do papai, mas – ao contrário- pode ajudar a criança a não se sentir muito culpada nos momentos em que odeia a mamãe, verdadeira ou adotiva...

Não deixa de ser curioso notar que esta pasteurização pretendida para os livros infantis e juvenis coincide com o lamento geral – de novo, da sala de aula ao Ministério da Educação—pela precariedade da leitura praticada na sociedade brasileira. Mas, como quem tem caneta de assinar cheques e de encaminhar leis tem o poder de veto, ao invés de refletir e discutir, a autoridade veta . E veta porque, no melhor dos casos e muitas vezes com a melhor das intenções, estende suas reações a certos livros a um numeroso e anônimo universo de leitores . .

No caso deste veto a “Caçadas de Pedrinho” , a Conselheira Relatora Nilma Lino Gomes acolhe denúncia de Antonio Gomes da Costa Neto que entende como manifestação de preconceito e intolerância de maneira mais específica a personagem feminina e negra Tia Anastácia e as referências aos personagens animais tais como urubu, macaco e feras africanas ; (...) aponta menção revestida de estereotipia ao negro e ao universo africano , que se repete em vários trechos do livro analisado e exige da editora responsável pela publicação a inserção no texto de apresentação de uma nota explicativa e de esclarecimentos ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura.

Independentemente do imenso equívoco em que, de meu ponto de vista, incorrem o denunciante e o CNE que aprova por unanimidade o parecer da relatora, o episódio torna-se assustador pelo que endossa, anuncia e recomenda de patrulhamento da leitura na escola brasileira. A nota exigida transforma livros em produtos de botica, que devem circular acompanhados de bula com instruções de uso.

O que a nota exigida deve explicar ? o que significa esclarecer ao leitor sobre os estudos atuais e críticos que discutam a presença de estereótipos na literatura ? A quem deve a editora encomendar a nota explicativa ? Qual seria o conteúdo da nota solicitada ? A nota deve fazer uma auto-crítica ( autoral, editorial ? ) , assumindo que o livro contém estereótipos ? a nota deve informar ao leitor que “Caçadas de Pedrinho” é um livro racista ? Quem decidirá se a nota explicativa cumpre efetivamente o esclarecimento exigido pelo MEC ?

As questões poderiam se multiplicar. Mas não vale a pena. O panorama que a multiplicação das questões delineia é por demais sinistro . Como fecho destas melancólicas maltraçadas aponte-se que qualquer nota no sentido solicitado – independente da denominação que venha a receber, do estilo em que seja redigida, e da autoria que assumir- será um desastre. Dará sinal verde para uma literatura autoritariamente auto-amordaçada. E este modelito da mordaça de agora talvez seja mais pernicioso do que a ostensiva queima de livros em praça pública, número medonho mas que de vez em quando entra em cartaz na história desta nossa Pátria amada idolatrada salve salve. E salve-se quem puder ... pois desta vez a censura não quer determinar apenas o que se pode ou não se pode ler, mas é mais sutil, determinando como se deve ler o que se lê !

sábado, 30 de outubro de 2010

Registro 327: Delicadeza

A dramaturga e professora Cleise Furtado Mendes, relançou em noite de autógrafos, adiada de 2009 para 2010, por motivos alheios ao seu querer, o livro O Cruel Aprendiz.

O livro se encontra em minha mesa de cabeceira e li uma boa parte de seu conteúdo, mistérios que a autora nos revela a cada página. Das páginas que visitei pedindo licença, porque livro é como casa, a gente pede licença antes de invadi-los, escolhi poesias levado pelo calor da hora. 

Visitante, sorrateiramente penetrei no universo da autora e me deixei seduzir por Marinha, Sagração, Plaudite, Maria, Busca, entre outros que me tocaram pelos ritmos com que as palavras anunciam pensamentos e sentimentos que chegam em mim e repentinamente me prendem à página, lugar do "palavrar". 


Ao longo de o Cruel Aprendiz, encontro poesias que desvelam o mundo do teatro, universo por onde a autora transita e também se apresenta ao mundo. Tais escritos dizem coisas para mim também: Persona, Nilda Spencer aos 80, A Palavra e o Teatro, Tema de Téspis, o ator, Biografia de Um Ator. Outro do meu interesse é o belo Bahia 1798.

Não sou crítico literário, por isso me abstenho a um juízo. .Mas que importância teria essa minha avaliação? Ainda que considere a crítica literária, deixo-a aos doutos. O que importa é que a poesia de Cleise Furtado Mendes me encanta, aí está um dos seus valores. As palavras dosadas, arrumadas, postas em sossego em cada folha de papel ganham vida e me desassossegam, tiram-me da passividade do cotidiano, da mesma forma que o Pano listrado, "tecido de aturdimento e danação", verdadeira arlequinada para minha alma às vezes tão apática.

Dias depois da noite de autógrafos, 26/10/2010, recebi por e-mail mais uma produção de Cleise Mendes. Coisa recente, enviada como brinde. Uma delicadeza que reproduzo aqui neste diário. Diário que a preguiça e os atropelos da vida impedem registros constantes.


Passagem de Gabriel


Cleise Furtado Mendes


Pedacinhos de papel
estrelejando
o chão da sala,
manchas em constelação
pelas paredes brancas.
Dá pra ver que por aqui
passou um anjo.


Por aqui passou um anjo
combatendo
a imobilidade das coisas.

Com sua espada flamejante
- comprada em oferta
com a máscara de Batman -
foi transmutando em cacos e farelos
tudo que vive triste
de não ser tocado.


Aqui passou o anjo Gabriel
com seus três anos de sabedoria
e nada ficou no lugar
ao sopro desse vento
teimoso como a vida.

28/10/10

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Registro 326: Estupidez

O texto que se segue é de autoria de Eliane Trindade e Daniel Bergamasco, Folha de S. Paulo, 27 de outubro de 2010. É o relata de um acontecimento inimaginável, pensave eu, até que a coisa se deu no âmbito de uma atividade reunindo universitários. Fui universitário, hoje sou professor de universitários, vi e tenho visto coisas absurdas, mas esta que se deu em Araraquara - SP passou dos limites. Fere o bom senso. O pior de tudo é que os organizadores, candidamente, disseram ser uma brincadeira. Somente crianças perversas, sem limite, sem educação, concebem uma brincadeira de tal monta, penso eu. E olha que não são crianças, os moços da Universidade Estadual Paulista. Somando-se ao pior, o vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras, veja bem, promete apurar, aplicar medidas disciplinares e conclui: "mas não queremos estabelecer um processo inquisitório". Ninguém em sã consciência quer processos inquisitoriais. Vivemos noutro mundo e com outro padrão de justiça.  O que se quer então? È que a autoridade da instituição educacional tome com determinação a atitude necessária para restabelecer a saúde do lugar que administra. Ao finalizar sua fala da forma como finalizou, dá margem para que tudo termine sem grandes consequências para os estúpidos estudantes que fizeram de suas colegas "vacas" de uma rodeio. A que ponto nós chegamos!!

"Um grupo de alunos da Universidade Estadual Paulista, uma das mais importantes do país, organizou uma "competição", batizada de "Rodeio das Gordas", cujo objetivo era agarrar suas colegas, de preferências as obesas, e tentar simular um rodeio -ficando o maior tempo possível sobre a presa.

A agressão ocorreu no InterUnesp 2010, jogos universitários realizados em Araraquara, de 10 a 13 de outubro.

Anunciado como o maior do país, o evento esportivo e cultural, que reuniu 15 mil universitários de 23 campi da Unesp, virou palco de agressão para alunas obesas.

Roberto Negrini, estudante do campus de Assis, um dos organizadores do "rodeio das gordas" e criador da comunidade do Orkut sobre o tema, diz que a prática era "só uma brincadeira".

Segundo ele, mais de 50 rapazes de diversos campi participavam. Conta que, primeiro, o jovem se aproximava da menina, jogando conversa fora -"onde você estuda?", entre outras perguntas típicas de paquera.

Em seguida, começava a agressão. "O rodeio consistia em pegar as garotas mais gordas que circulavam nas festas e agarrá-las como fazem os peões nas arenas", relata Mayara Curcio, 20, aluna do quarto ano de psicologia, que participa do grupo de 60 estudantes que se mobilizaram contra o bullying.

No Orkut, os participantes estipulavam regras para futuras competições, entre elas cronometrar as performances dos "peões" e premiar quem ficasse mais tempo em cima das garotas com um abadá e uma caneca. Há relatos de gritos de incentivo: "Pula, gorda bandida".

Com a repercussão, a página do site de relacionamento foi excluída. Cópias dos posts espalharam-se pelo campus em Assis.

Em murais aparecem frases como "Unesp = Uniban", referência ao caso a Geisy Arruda, que foi xingada por usar um vestido curto.

As vítimas não querem falar. "Uma das meninas está tão abalada que não teve condições de voltar à faculdade. Teme ficar conhecida como "a gorda do rodeio'", afirma a advogada Fernanda Nigro, que acompanhou, na última terça-feira, uma manifestação de repúdio.

O grupo foi recebido pelo vice-diretor da Faculdade de Ciências e Letras, do Campus de Assis, Ivan Esperança. "Vamos ouvir os envolvidos e estudar as medidas disciplinares, mas não queremos estabelecer um processo inquisitório",

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Registro 325: "Brincadeiras " no Festival de Teatro da Amazônia



É sempre bom ver o nosso trabalho tomando outra forma. Falo da encenação de meu texto Brincadeiras (1977) que recebe mais uma leitura cênica, agora feita por Socorro Andrade para a Companhia Metamorfose de Manaus. O espetáculo foi apresentado no Festival de Teatro da Amazônia entre os dias 8 a 17 de outubro.

Conforme notícias recebidas, o Teatro Amazonas estava cheio na estreia de Brincadeiras e recebeu o Prêmio de Melhor Espetáculo e uma viagem para Recife. Além disso, a montagem  recebeu as seguintes indicações: Melhor Texto, Melhor Atriz (duas atrizes foram indicadas), Melhor Direção, Melhor Ator, Melhor Figurino e Melhor Cenário.
A diretora enviou-me fotos do espetáculo. É gratificante saber como o texto ganha no palco abordagens múltiplas, ainda que traga em sim um potencial para a cena. Desde sua estreia em São Paulo em 1978, sob a direção de Mário Mazetti, Brincadeiras vem recebendo diversas montagens, uma demonstração de que o texto não perdeu a sua força comunicativa, permitindo outros inventos sobre ele.
Ao ver as fotos da Cia. Metamorfose, percebo a criação de Socorro Andrade. Imagino que ela soube captar a essência do texto, não se prendendo a ele, mas jogando com a minha proposta. Bacana!!

Registro 324: Como Esquecer


O filme de Malu de Martino, Como Esquecer, em cartaz na Sala de Arte - Cinema da UFBA é uma grata surpresa. Não há ali esforço pretensioso de transformar a linguagem cinematográfica através de um exercício de pirotecnia. A diretora conta com um bom roteiro para contar um momento da vida da professora Júlia (Ana Paulo Arósio) na luta para reconstruir seu viver esfacelado, após uma intensa relação amorosa com Antônia. Filme intenso, construído com belas imagens Como Esquecer é tocante ao retratar essa descida ao fundo do poço e expor com muita verdade a personagem em sua ego-trip dolorosa. Acompanhada de perto por seu amigo (Murilo Rosa) que também sofre as dores da perda, seu namorado faleceu, e por uma amiga (Natália Lage) abandonada pelo namorado ao sabê-la grávida, Júlia recebe o apoio necessário para retornar à vida, já que se encontra deliberadamente fora dela. Não há grandes lances, tudo acontece de maneira verossímil, o que torna a dor da perda ainda maior. Os pequenos gestos dolorosos, alegres e afetivos vão se somando ao longo do filme. Belo filme.

Cabe ao elenco, muito bem escolhido e adequado aos personagens, levar em frente essa história. O trio central cumpre com talento exemplar as nuances dos seus personagens, sem estereotipia, sem exageros. Destaque para Ana Paula Arósio que se mostra densa ao expor as dores causadas pelo fim do amor difícil de esquecer.

Sobre a personagem, sua construção, na visão da diretora e dos roteiristas, reclamo um pouco, visto sua insistência em se negar para a vida, quando a vida apresenta possibilidades transformadoras. Mas isso não diminui as qualidades do filme. É somente um ponto de vista

domingo, 17 de outubro de 2010

Registro 323: Há sempre um copo de mar para o homem navegar

O texto é longo, mas vale a pena alguns minutos para tomar conhecimento do seu teor. É de autoria de Nuno Ramos, "a besta fera" da hora. O "bode expiatório" da hipocrisia nacional.Não vi a obra de Nuno Ramos, mas acompanho a polêmica sobre os urubus. Sobre a obra, o silêncio total. Mais importou o escândalo dos ofendidos, mas nada sobre os significados do trabalho, uma leitura, um olhar para ver o que há ali, sua "estrutura de sentimento" e o que mais houver. E há. Bandeira Branca não está ali para escandalizar burguês, pichador, ou defensores dos direitos dos animais, esses aí adoram passear nos Jardins Zoológicos e ter bichinhos de estimação na coleira. O texto de Nuno é esclarecedor. Foi publicado no caderno Ilustríssima do jornal Folha de S. Paulo em 17 de outubro (a data nos anima a pensar nos caminhos do mundo de ontem e de hoje. A data também nos assombra). No mesmo caderno Lorenzo Mammì escreve um belo artigo em defesa da arte. A arte se defenda por si mesma. Gosto do texto de Mammì.Taí a dica. E seguimos navegando. Até quando? 

Bandeira branca, amor

NUNO RAMOS

PROCUREI INTENCIONALMENTE matar três urubus de fome e de sede no prédio da Bienal de São Paulo. Pus ali imensas latas cheias de tinta escura, para que se afogassem, além de espelhos, para que batessem a cabeça durante o voo. Construí túneis de areia preta, para que entrassem sem conseguir sair, morrendo ali dentro. E, para forçá-los a voar, costumo lançar rojões em sua direção.

ACUSAÇÕES Como nos pesadelos ou nos linchamentos, não é possível responder a acusações desta ordem, que circularam pela internet e no boca a boca com força insaciável nas últimas três semanas, criando um caldo de cultura próximo à violência e à intimidação. Como resultado disso, em plena Bienal, entre faixas pedindo que eu fosse preso, meu trabalho foi atacado por um pichador, que driblou a segurança, rasgou a tela de proteção aos bichos e danificou uma das esculturas de areia.

Fomos cercados, eu e minha mulher, por militantes ecologistas, que nos xingavam e gritavam do outro lado do vidro do carro, a boca em câmera lenta, "a-li-men-ta-e-les!" -o que, claro, já havia sido feito naquele mesmo dia. Barbara Gancia, colunista da Folha, chegou a pedir, utilizando um imaginário de repressão militar ou de milícia fascista, que eu fosse colocado de cuecas contra um muro e submetido a uma ducha com as mangueiras para incêndio do corpo de bombeiros.

Ingrid E. Newkirk, presidente da organização não governamental Peta [pessoas pelo tratamento ético de animais, na sigla em inglês], num artigo feroz, publicado na Folha em 8/10, encontra apenas o que pressupõe desde o início: que eu quero aparecer (ela, não? alguém duvida que um dos temas da polêmica é justamente a disputa pelo espaço na mídia?); que sou (os termos são dela) cruel, "bad boy", sem compaixão e produtor de arte de má qualidade. Como não há argumentos e o raciocínio é circular, tudo retorna à ilibada consciência da articulista.

A notícia atravessou fronteiras raras para questões envolvendo arte (horários insuspeitos em todos os canais de TV, cadernos de jornal pouco afeitos à cultura e nas mais diversas regiões do país), passando a assunto de bar e padaria. Os urubus, definitivamente, haviam conseguido escapar e, para usar os versos de Augusto dos Anjos, pousaram na minha sorte.

TOM Frequento uma área da cultura afastada dessa luz radioativa, e não quero errar o tom. Começo este texto, portanto, fazendo a minha lição de casa: o que quer que tenha acontecido, aconteceu por meio das instituições. A licença do Ibama de Sergipe, que permitiu o transporte e a exposição dos animais, era legítima e dentro de parâmetros absolutamente legais, bem como sua cassação pelo Ibama de Brasília.

Tentamos, eu e a Fundação Bienal, que me apoiou de todos os modos possíveis em defesa do meu trabalho, uma liminar na Justiça e perdemos. Acatamos e tiramos, no mesmo dia em que a decisão liminar saiu, as três aves. Sinto-me coibido, injustiçado e chocado com tudo isso, mas não posso dizer que fui censurado. E por entender que a forma que destruiu meu trabalho ao tirar as três aves é legítima, quero divergir completamente dela.

Como quase nenhuma informação sensata circulou, tenho primeiro que dizer o óbvio:

1) As aves que utilizei em meu trabalho são aves nascidas em cativeiro, e não sequestradas ao habitat natural; é para este cativeiro que voltaram (e onde estão neste momento), quando foram "soltas" do meu trabalho;

2) Pertencem ao Parque dos Falcões (criadouro conservacionista que funciona com autorização do Ibama, realizando atividades educacionais e pedagógicas, pelo Brasil inteiro, com aves de rapina), que as mantêm em exposição para o público, como num zoológico;

3) Estas mesmas três aves participaram em 2008 de uma versão bastante similar deste trabalho, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, durante dois meses, adaptando-se perfeitamente ao espaço e sem nada sofrer, com plano de manejo aprovado pelo mesmo Ibama;

4) As aves foram adaptadas ao espaço da Bienal antes do início da mostra, com a presença do veterinário responsável por elas e de um tratador;

5) Esse tratador, o mesmo que cuida delas em Sergipe, ficou permanentemente com elas durante todo o tempo de exibição das aves ao público, literalmente abrindo e fechando a mostra:

6) Eram alimentadas por ele todas as manhãs, em quantidade e frequência estipuladas pelo plano de manejo;

7) O volume das caixas de som foi controlado, sendo mantido numa altura bastante inferior ao do murmúrio do público, para evitar estresse aos bichos;

8) O plano de manejo das aves, aceito pelo Ibama de Sergipe, foi revogado, já no meio da polêmica, pelo Ibama de São Paulo -mas sem recomendação de cassação. O que o laudo técnico, sério e sisudo do Ibama de São Paulo solicitava eram ajustes -basicamente, que desligássemos uma das caixas de som e que instituíssemos banhos de luz ultravioleta todas as manhãs, para suprir a falta de luz solar direta sobre os bichos (embora a luz do dia banhasse o espaço). Oferecia, ainda, uma licença de 15 dias, a ser prorrogada de acordo com a avaliação periódica sobre o bem-estar dos animais. O Ibama de Brasília, que, sob pressão política e midiática, determinou arbitrariamente a saída das aves, em desacordo com o laudo do Ibama de São Paulo, travou o que parecia ser um processo rico de colaboração entre técnicos sérios, com conhecimento sobre os animais, e um trabalho de arte;

9) Obtivemos laudo favorável do Departamento de Parques e Áreas Verdes da Prefeitura de São Paulo;

10) Técnicos do setor de aves do Zoológico de São Paulo, em vistoria ao trabalho, não manifestaram qualquer crítica específica ao manejo das aves -fiquei sabendo nesta visita, inclusive, que a jaula dos urubus era bem maior que qualquer jaula do zoológico, inclusive a do condor.

EXPIAÇÃO Por que, então, tanta confusão? Que é que está sendo expiado aqui?

Para começo de conversa, e como aproximação ao problema, quero lembrar que "Bandeira Branca" não é um trabalho de ecologia, nem eu sou especialista em aves de rapina, assim como "Guernica" de Picasso não é apenas um trabalho sobre a Guerra Civil Espanhola, nem Picasso um historiador. Por isso utilizei os serviços de uma entidade ecológica, o Parque dos Falcões, e obtive, tanto na montagem em Brasília, em 2008, quanto em São Paulo, autorização do órgão legal em meu país para esses assuntos.

Ou a lei não vale para todos? Tratar meu trabalho como crime e a mim como criminoso é fazer o que fazia a direita franquista, ao chamar "Guernica" de quadro comunista, ou a aristocracia francesa da segunda metade do século 19, quando ameaçava retalhar a "Olympia", de Manet, em nome dos bons costumes.

O que me foi negado com a criminalização do meu trabalho foi a possibilidade de um sentido -o sequestro, digamos, de qualquer sentido que ele pudesse propor. E é contra isso, mais do que contra a boataria e a calúnia, que escrevo hoje.

VALORES Arte não cabe nos bons nem nos maus valores, por mais confiança que se tenha neles. Dela emana um signo aberto, para isso foi inventada, para que fanatismos como os que ouvi nessas últimas semanas não circunscrevam completamente o possível da vida. Claro que ninguém está acima da lei, e, repito, cumprimos, artista e instituição, rigorosamente a legislação ambiental brasileira -mas é a possibilidade de pensar diferente que está sendo criminalizada aqui.

Artistas extraordinários como Joseph Beuys (por sinal, fundador do Partido Verde na Alemanha), Jannis Kounellis, Hélio Oiticica, Nelson Felix, Tunga, Cildo Meireles, utilizaram animais em suas instalações. Provavelmente o trabalho de Beuys que inclui um coiote ("I Love America and America Loves Me") seja, sem nenhum favor, uma das mais importantes obras de arte do século 20.

"Tropicália", de Hélio Oiticica, que tem araras vivas em seu interior (curiosamente, exposta há poucos meses, com as aves, no prédio do Itaú Cultural de São Paulo, na avenida Paulista, sem despertar qualquer polêmica), é um trabalho fundamental para a compreensão do que somos e do que queremos ser. Negar o que estes artistas conseguiram com seus trabalhos -uma oxigenação radical de nosso imaginário- tratando-os como criminosos certamente seria regredir a épocas de triste memória.

Posso entender quem seja contra bichos em cativeiro. Seria interessante exigir um pouco de coerência dessa posição -ou seja, vegetarianismo radical, já que a quase totalidade da carne que comemos vem de animais em cativeiro, fechamento de todos os zoológicos, jóqueis-clubes, fazendas com animais para monta e, ainda, requalificação geral de nossas relações com bichos domésticos. Mas, mais do que coerentes, gostaria que fossem suficientemente democratas para aceitar que nem todos pensem como eles, nem todos se deem o lugar de xamãs, em contato íntimo com os desejos e sensações dos animais, e que dentro das regras públicas legais de cada país o acesso a esses animais possa se dar sem histeria nem calúnias.

BANDEIRA BRANCA Como nada ou quase nada se falou sobre o trabalho, peço licença para interpretar o que eu próprio fiz, partindo de uma breve descrição. "Bandeira Branca" (este título, no meio de um bombardeio desses, é dessas coisas que só a arte explica) foi montado pela primeira vez há dois anos, no CCBB de Brasília, e agora, ampliado e modificado, recebeu uma segunda versão, especialmente para a 29ª Bienal.

O trabalho consiste em três enormes esculturas de areia preta pilada, foscas e frágeis, a partir de cujo topo, feito de mármore, três caixas de som emitem, em intervalos discrepantes, as canções "Bandeira Branca" (de Max Nunes e Laércio Alves, interpretada por Arnaldo Antunes), "Boi da Cara Preta" (do folclore, por Dona Inah) e "Carcará" (de João do Vale e José Candido, por Mariana Aydar). Três urubus vivem na instalação durante toda a duração do trabalho.

O resultado é uma cena solene, entre a litania e a canção de ninar, que me parece ter cavado, em sua montagem em São Paulo, uma espécie de buraco negro no prédio da Bienal. Acho que o vão do prédio, uma das obras mais felizes de Niemeyer, com sua velocidade e otimismo, ganhou com meu trabalho um contraponto ambivalente, noturno e encantado, triste mas também próximo do mundo dos contos de fada.

Há uma espécie de espiral ascendente no trabalho, que se desmaterializa conforme o espectador sobe a rampa do prédio e as pesadas colunas de areia se transformam na geometria de quem vê as esculturas de cima. Feito primeiro de areia, depois de mármore, depois de vidro, depois de som, depois de voo, o trabalho faz em seu percurso o mesmo que as aves, num ciclo que a chuva de fezes brancas, caindo sobre as peças e sobre o chão, inicia novamente.

ANTIPENETRÁVEL Mas o ponto crucial, acho eu, é que, apesar da monumentalidade do trabalho e da textura inacabada da areia, que solicitam o corpo do espectador, o público é mantido fora da obra, numa espécie de antipenetrável. A obra de certa forma já foi ocupada, já tem dono e por isso não podemos nos aproximar. A noite, as canções e os urubus são seus donos, e ao público resta assistir de fora a alguma coisa viva, que não precisa dele.

As canções e os bichos, forças ascensionais contra a inércia e o peso das esculturas, já tomaram conta da obra e a tela de proteção, que materializa o desenho do vão do prédio, marca essa passagem entre um exterior institucional e um interior ativo, fechado em si, mistura de cultura (canções), natureza (os urubus) e arquitetura.

As aves e as canções dão ao trabalho o seu agora, uma duração voltada para algo indiferente ao mundo lá fora. Daí que muita gente tenha me dito que se sentia observado pelas aves e não observador, dentro da grade e não fora dela. E que no meio de tanto tumulto, com certeza as três aves pareciam as únicas tranquilas.

Esta atividade interna autossuficiente está no coração deste trabalho e me acompanhou ao longo da balbúrdia destes dias difíceis. Fico feliz de perceber que de certa forma o trabalho já pressupunha isso, falava disso e defendia-se exatamente disso -queria estar consigo e não conosco, longe da barulheira que no entanto causava.

AUTOSSUFICIÊNCIA Em vez da atividade do espectador, própria de tantas das melhores obras modernas, e que encontrou entre nós uma formulação extrema na ideia dos "Penetráveis" de Hélio Oiticica, a arte contemporânea parece estar se voltando para dentro, numa autossuficiência renitente.

Não é o lugar para desenvolver isto, mas, para dar dois exemplos memoráveis, acho que as "Elipses", de Richard Serra, apoiadas em si mesmas e não mais nas paredes das instituições, ou "O Ciclo Creamaster", de Matthew Barney, com suas infinitas dobras e relações internas, partilham esta característica. Meu trabalho acompanha de certa forma essa direção.

A institucionalização crescente da arte trouxe para junto dela uma pletora de discursos institucionais, todos perfeitamente centrados, seguros de si e disputando espaço na mídia e nas oportunidades orçamentárias. Isso vem, talvez, do estilhaçamento das grandes noções universais que acompanharam a formação do mundo moderno: política, religião, burguesia, proletariado, luta de classes, direita, esquerda etc.

Com a quebra dessas noções universais, os particulares (ecologia, minorias étnicas, minorias sexuais etc.) firmaram-se, cheios de si, pontudos, zelosos de suas verdades. A arte talvez seja a última experiência universalizante, ou ao menos não simétrica à discursividade do mundo, e acho que tende a ser cada vez mais atacada, toda vez que discrepar, como soberba e como arbítrio. Mas penso que é isso mesmo que ela deve manter: sua soberba e seu arbítrio, para que possa continuar criando.

DESFAÇATEZ Pois isso para mim foi o mais impressionante de tudo: a absoluta incapacidade, digamos, interpretativa de quem me atacou, a recusa de ver outra coisa, de relacionar o sentimento de adesão ou de repulsa que meu trabalho tenha causado com qualquer coisa proposta por ele, em suma, a desfaçatez com que foi usado como trampolim para um discurso já pronto, anterior a ele, que via nele apenas uma possibilidade de irradiação.

Para isso, é claro, o principal ingrediente é que fosse tomado de modo absolutamente opaco e literal, espécie de cadáver sem significação. Para que possa ser veículo estrito de discursos e de grupos, sem que utilize seus recursos, digamos, naturais (sedução, desejo, ambivalência), o trabalho de arte tem de estar, de fato, desde o início definitivamente morto. Daí, creio, a ferocidade com que fui atacado -uma espécie de operação higiênica preventiva, para impedir que qualquer germe de espanto, ambiguidade, beleza, estupor, pudesse aparecer, desqualificando o desejado consenso.

No fundo, acho que a frase famosa de Frank Stella, que jogou uma pá de cal nas ilusões subjetivas de começos dos anos 60 e inaugurou as poéticas minimalistas que duram até hoje, "What you see is what you see" ("O que você está vendo é o que você está vendo"), parece ter migrado da arte para o mundo. A literalidade das obras de um Carl Andre ou de um Donald Judd transferiu-se inteira para as instituições e para o público.

Por isso talvez caiba hoje à arte a tarefa bastante simples, mas tão difícil, de dizer exatamente o contrário: "O que você está vendo NÃO é o que você está vendo". Ou seja, sonhar. Ou, como diz a letra da canção, "Bandeira branca, amor".

Registro 322: Soterrados


O FUNDO DO POÇO


 Filipe Leão

Pôs-se fim o drama envolvendo trinta e três operários soterrados pelo desmoronamento de terra da mina San Jose localizada no deserto do Atacama, ao Norte do Chile. Presos há mais de dois meses num poço de 622 metros de profundidade, o resgate dos trabalhadores foi comemorado em todas as partes do mundo.

Aos cidadãos-expectadores ‘de fora’ do poço restou o reconhecimento de coragem e determinação dos que lutaram pela sobrevivência. Ficou evidente que nem mesmo as situações extremas de temperatura, pressão, luminosidade, espaço e comida reduzidos foram fortes o suficiente para remover a esperança de viver cultivada no semblante de cada um dos mineiros.

O povo Chileno, por seu turno, em júbilo, revigorou o sentimento de nação e de pertencimento. Salvar cada homem tornou-se questão de honra para todos.

A comunidade internacional, felizmente, não permaneceu imóvel. Equipamentos foram deslocados dos Estados Unidos. Engenheiros do Afeganistão. E tantos outros desconhecidos estiveram presentes. Sim, um sopro de humanidade percorreu o mundo, unificando diferenças e fazendo crer na capacidade do homem em ser de fato mais humano.

E mesmo que o final deste acontecimento tenha sido capitalizado politicamente pelo presidente chileno e pela grande imprensa internacional – que lucrou muito com o ocorrido, ao que parece, aquele cenário não será apagado das lembranças, como mais um novo reality show a ser esquecido da memória. Seria pessimista demais acreditar na incapacidade da humanidade em (re)cultivar sua solidariedade e sua fraternidade pela dor alheia.

E, por isto, ainda nos restam outros tantos milhares de homens, mulheres, crianças e idosos que embora vivendo livremente, estão soterrados pelas intempéries vividas pelos mineiros de San Jose do Atacama. Estão aqui e ali, em qualquer lugar, em poços de fome, de sede, sem lar ou terra e de violência. Aí estão um contingente que clama por ajuda e que tem um grito inaudível para muitos que estão ao lado ou ‘de fora’: "Salvem-nos. Salvem-nos. Sem nós, não há que se falar em salvação!"

A operação realizada em San Jose deveria ser o necessário e imprescindível início do resgate da humanidade.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Registro 321: Música no ar


Ouço Virgínia Rodrigues.
Nós.
É bonita a negra voz.
Ao ouvir Virgínia cantar canções negras
o coração mergulha na sonoridade
da noite escura 
do Brasil.
Lamentos
Doces
Lamentos

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Registro 320: Fisiologismo e autoritarismo do PSDB

Eles nos passam a rasteira. De bom mocismo o inferno está cheio. Leia e se dê conta do métodos. Eles dizem, os fins justificam os meios. É nojento.

Zé Mané & Beto Richa

Fernando de Barros e Siva
(Folha de S. Paulo, 1 de outubro de 2010)

O fotógrafo Moacyr Lopes Junior e a repórter Catia Seabra fizeram aquilo de que o presidente Lula não gosta: bom jornalismo. Flagraram o momento em que José Serra pediu a ligação e falou ao celular com Gilmar Mendes, no início da tarde de anteontem.

Poucas horas depois, o ex-presidente do Supremo faria um exótico pedido de vista, interrompendo o julgamento do recurso do PT contra a exigência de apresentação de dois documentos para votar. O placar já era então de 7 a 0 pela desnecessidade da dupla documentação.

Retomado ontem o julgamento, a exigência caiu por 8 votos a 2, mas Mendes, mesmo derrotado, aproveitou a sessão para marcar posição e mandar seus recados.

Sintomático, no entanto, foi seu comentário na véspera, antes de saber que o telefonema de Serra viria a público: "Daqui a pouco, apenas um desenho a lápis será necessário para provar que o Zé Mané é o Zé Mané". O caso está resolvido, mas será preciso muito mais do que uma nova frase de efeito para desfazer a evidência de que um outro Zé, que nada tem de Mané, buscava no ministro, a quem chamou de "meu presidente", um aliado para reverter a tendência do julgamento.

Do episódio, fica reforçada a sensação de que os tucanos contavam com esse excesso legal para afastar uma parte dos mais pobres e menos instruídos das urnas.

E, por falar em Mané, o candidato tucano ao governo do Paraná, Beto Richa, vem contando com a mão da Justiça do Estado para barrar a divulgação de pesquisas eleitorais, entre elas duas feitas pelo Datafolha. O nome disso é censura.

Não se sabe se Richa será eleito. Mas, no decorrer da campanha, ele chegou a ser saudado como uma liderança emergente no país. De que tipo de líder estamos falando?

Com sua atitude obscurantista, o filho de José Richa está se revelando um político de província, uma figura tacanha e de pendores autoritários. Se o futuro do PSDB for esse, coitado do PSDB.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Registro 319: Eu não quero essa casa muito menos essa mãe

A Casa da Mãe Rousseff

Fernando de Barros Silva
(Folha de S. Paulo, 17 de setembro de 2010) 


A queda de Erenice Guerra é a primeira baixa do governo Dilma Rousseff. Parece estranho, mas isso é verdade em pelo menos dois sentidos. Primeiro, há indícios de que a artilharia contra a ministra foi estimulada por aliados da candidatura petista, em busca de espaço na futura administração.

 
Segundo, e mais importante, porque Erenice Guerra deve sua vida política nos últimos oito anos e o cargo que ocupou até ontem exclusivamente a Dilma Rousseff.



Lula relutou antes de confirmar Erenice como ministra quando Dilma se lançou candidata. Acabou cedendo ao apelo, mas fez de Miriam Belchior, a quem preferia no cargo, a coordenadora do PAC.



Não é plausível que Lula ignorasse a parentela pendurada no Estado que a titular da Casa Civil trazia a tiracolo. Onde estava o serviço de inteligência do Planalto? Ocupado com dossiês a respeito de quem? Até para um leigo parece óbvio que os negócios da família Guerra não resistiriam a um raio-x elementar.



Só o sentimento de onipotência e a convicção da impunidade explicam que tamanha lambança tenha sido praticada no interior do Planalto, tão perto da Presidência.



Não há, neste episódio, nenhum ministro do PMDB, nenhum deputado fisiológico da base aliada, nenhum braço periférico do aparelho estatal. O cenário é a Casa Civil e os personagens são crias de Dilma. E até o enredo, é bom lembrar, há muito deixou de ser estranho ao PT.

Quando o escândalo estourou, Dilma logo correu para separar sua campanha do governo: "Não vou aceitar que se julgue a minha pessoa baseado no que aconteceu com o filho de uma ex-assessora".

A primeira reação de Erenice, por sua vez, foi confundir governo e campanha, atribuindo as denúncias a manobras "em favor de um candidato aético e já derrotado".

São declarações contraditórias, mas movidas pela mesma conveniência. No momento em que se separam, Dilma e Erenice parecem se confundir numa única farsa.


Longe de mim essa casa. Eu que tive uma mãe bondosa, compreensiva e que me deixou livre para crescer, mas sem deixar de cumprir com suas obrigações de mãe, não quero essa mãe imposta, enigmática e que pode um dia querer cortar as minhas asas. Eu nasci pra voar, portanto para ser livre e por esse motivo fico assombrado com essa vontade de alguém querer ser mãe do povo. Tenho pavor do pai controlador e de uma mãe de cara dura e de sorriso de ocasião. Eu que um dia perdi noites defendendo princípios fundadores de uma partido que se queria amplo e libertário, vejo-me enganado. Eu me pergunto, em nome do quê? E a resposta que não cala grita:  - Eu quero o poder. E em nome do poder justifico tudo. O que nos aguarda, não sei. Que os analistas políticos façam as suas apostas. Eu só quero que não me tirem aquilo que eu mais preso, a minha liberdade de escolher. De escolher onde ir, com que andar, o que ler e ver. A minha liberdade de decidir e sonhar.

Jânio Ferreira (A Tarde, 17 de semtembro de 2010) escreveu dizendo o que espera de uma presidente:

"Que não permita que os ladrões invadam meu quintal e reubem minhas mangas e galinhas; que me guarde dos censores travestidos de democratas que salivam ávidos com a possibibilidade de voltar a controlar o que os meus olhos veem e minha mente anseia; que, em hipótese alguma, admita a violação dos meus segredos, sejam eles fiscais ou sentimentais [...]; e, caso isto aconteça, que ele jamais se comporte como um militante partidário, mas sim, como alguém que jurou me proteger contra as mazelas da ditadura."

Até quando, Catilina, abusarás de nossa paciência?
 
As ruas da cidade estão cheias de caras e frases prometendo o paraíso na Terra. Dá pra acreditar?
 
A flor e a náusea

Carlos Drummond de Andrade  (1902-1987)

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. [...]
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
[...]

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Registro 318: Gosto de quem tem coragem

O texto que se segue é de Rubem Alves e recebi por e-mail sem mais informações. Gostei e registro aqui para que outros possam ler e pensar sobre o que ele diz. Eu também acredito que o povo que eu quero é uma esperança e não uma realidade.

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo.

Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice.

Como estou velho, ganhei coragem.Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.

Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo. Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.

A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro.Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.

E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante e amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.Até que ela o abandonou. Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu?Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre.". Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus. Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras.As mentiras são doces; a verdade é amarga.

Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos.

Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis.Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival.

Indivíduos são seres morais.Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia. Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos rabalham.

Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.

O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.

O povo, unido, jamais será vencido!

Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.

De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção." Isso é tarefa para os artistas e educadores.

O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Registro 317: Os caminhos ou descaminhos do teatro

"Uma tarde no Guggenheim com a ala Mapplethorpe encerrada ao público (Deus existe!) e recordo uma conversa antiga com Anthony O'Hear, filósofo inglês que me dizia, com inteira razão, que a principal diferença entre a grande arte e a esmagadora maioria das brincadeiras conceituais dos nossos dias estava na noção de "inexaustibilidade".

A grande arte é aquela que existe e persiste em nós: uma experiência estética que somos humanamente incapazes de esgotar. Vemos Turner uma vez, duas, dez, cem e é como se fosse sempre a primeira vez.

Exatamente o contrário do que sucede com as brincadeiras conceituais: elas podem ser provocadoras, inovadoras, inteligentes. Interessam uma vez. Não interessam nenhuma outra vez."


O fragmento em letras grandes foi retirado da coluna que João Pereira Coutinho mantém no jornal a Folha de S. Paulo, sempre às terças-feiras. Seu texto vem a calhar. Hoje, com meus alunos de Interpretação na Escola de Teatro da UFBA, conversamos sobre  uma matéria publicada no mesmo jornal, em 24 de julho, sobre a exibição de uma "coisa" no Festival de Teatro de São José do Rio Preto. Chamo a coisa de "coisa" por conta do meu estranhamento a respeito do fato, uma peça de teatro sem atores. Achei pertinente discutir o inusitado acontecimento com os estudantes que estão prestes a concluir o Bacharelado em Interpretação Teatral.

O diretor desse "objeto não identificado" diz que sua versão em 3D da peça Os Cegos de Maurice Maeterlinck, portanto sem palco e sem atores é teatro. E Denis Marleu, o diretor, diz textualmente: "O ator não está em cena, mas a sua ausência instala a questão sobre a sua presença".  Só muito relativismo para entrar nesse jogo. Não sou contra a nenhuma experimentação, até porque o teatro, ao longo do tempo, absorveu as modificações ocorridas no tempo histórico, mas ainda assim manteve a sua essência, ou seja o ator ao vivo sem nenhuma mediação, somente aquelas  próprias da linguagem teatral. Mesmo no teatro com bonecos ou com sombras a presença do manipulador, na maioria das vezes, é vista pelo espectador.

O acontecimento em São José do Rio Preto pode ser o início de um fim? Não sei, mas penso que os estudantes de teatro deviam se debruçar sobre tal coisa. Exagerando, disse-lhes que o que me encanta no ato teatral é que ele é feito por atores de carne e osso, que podem esquecer o texto, pode enloquecer diante de todos ou mesmo morrer.

O fragmento de João Pereira Coutinho amplia a discussão... Quem se interessar que entre na corrente e participe da conversa.

domingo, 1 de agosto de 2010

Registro 316: Conversa com estudantes e uma café delicioso

Nos dias 29 e 30 de julho, estive novamente no Colégio Salesianos, no bairro Nazaré, para participar do Café Literário, evento organizado pelos professores de História com o apoio da coordenação e de outros setores da instituição. Ano passado fui homenageado pelos educandos e da mesma forma acolhido como agora.

O que me levou até eles foi o livro Sob o signo das Luzes que lancei em 2008. O romance histórico tem como pano de fundo a Revolta dos Alfaites também conhecida como Revolta dos Búzios, movimento baiano acontecido em Salvador nos finais do século XVIII. Tendo como objetivos principais separar Brasil de Portugal, findar o sistema escravista e instaurar a República, com base no ideario Iluminista, os conjurados de 1798, reuniram participantes de diversas classes sociais, o que torna o movimento grandioso.

A narrativa trata do antecedentes e da revolta abortada e do cumprimento das sentença, com seus líderes principais enforcados na  Praça da Piedade. Conto a história a partir do envolvimento de Eleutério, adolescente filho de uma negra alforriada. Aprendiz na alfaiataria de João de Deus, o garoto toma conhecimento da conjuração. Personagem ficcional, ele estabelece uma ligação com o leitor jovem, um dos objetivos que tinha em mente ao escrever Sob o signo as Luzes. Comprovei minha escolha por diversos depoimentos dos educandos que comigo conversaram durante toda a manhã.

Sentei-me de mesa em mesa, todas elas repletas de iguarias para um café da manhã, cercado de garotas e garotos, além de pais e convidados. Ouvi muito e falei o necessário. Embora fosse o homenageado, a festa era deles e a palavra também. Dei muitos autógrafos e pude perceber o quanto o livro contribuiu para que o conteúdo da disciplina fosse apreendido de forma prazerosa. Meu livro não é didático e tive a preocupação de não fazer dele uma aula de História, mas entrelaçar ficção e acontecimento histórico numa aventura vivida por Eleutério nas ruas e casa da Cidade da Bahia novecentista.

Além da leitura do livro, os educandos pesquisaram sobre os países africanos e sobre o preconceito que ainda vive entre nós, com relação aos negros brasileiros. Procurei ler nas falas dos educandos o que eles pensam a respeito dessa questão e percebi o quanto estão conscientes do problema, verbalizando que o preconceito e a desigualdade existem, mas que não vivemos numa sociedade apartada, dividida em negros de um lado e brancos do outro.

Parece-me que essa questão está sendo posta nas entrelinhas do Estatuto da Igualdade Racial, um corpo estranho em nossa legislação, já que  o artigo de número 5 da Constituição Brasileira diz e garante que somos todos iguais perante a lei sem distinção de nenhuma natureza. O Estatuto foi sancionado pelo Sr. Presidente, e se levado a ferro e a fogo como querem alguns, não há lugar para  Inácio Lula da Silva em nossa sociedade dividida, visto que nem branco nem negro ele é, mas sim branco-mestiço, ou moreno, ou mulato, como queiram os que se preocupam com a cor da pele e baseiam suas vidas tomando como princípio o conceito de raça. Conceito que nenhuma ciência avaliza nem cientista sério defende.

Visto apressadamente, o Estatuto parece um avanço. Talvez em alguns pontos ele avance, mas o princípio é equivocado pois defende um Brasil sem mestiços, traço que nos identifica e que não deixo de ressaltar em meu livro, ainda que de maneira menos acentuada como gostaria. Eu que sou branco mestiço, que trago gostas de sangue português, índio e negro, que estou mais para branco "encardido", não defendo nenhum feudo. Penso e quero igualdade para todos e não me sinto confortável com essa ideologia importada que nos enfiam guela abaixo. Também não sou ibero-descendente, como não sou afro-descendente ou ameríndio-descendente. Sou brasileiro, essa gente morena. Sou brasileiro sem ódio e sem rancor...

Pra quem não conhece e queira um posicionamento aberto e iluminador sobre o tema, eu indico o livro de Antonio Risério A utopia brasileira e os movimetos negros. Vale a pena ler sem preconceito o que ele tem a dizer.

Voltando ao assunto incial, o Café Literário no Colégio Salesianos, tenho certeza que os estudantes que lá encontrei, negros, brancos, mulatos, morenos, amarelos, saberão manter essa mestiçagem que nos engrandece como nação e que nos protege do pensamento único e desse absurdo gerado sem que a população brasileira tenha sido ouvida.

Os professores estão de parabéns pela iniciativa. Fico contente quando posso dialogar com o leitor, eu que na solidão escrevo. Agradeço a oportunidade de conversar com os estudantes. Eles me disseram coisas importantes que levarei em conta quando principiar outro livro.  

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Registro 315: Preste atenção

O texto reproduzido é do jornalista Fernando de Barros e Silva (Folha de S. Paulo, 12 de julho de 2010). É por essa e outras que eu não simpatizo com o PSDB. Quanto ao PT, seu gosto pelo poder e a simpatia por ditadores, me arrepia. No PV, nem pensar...


Pedágio na Cultura


SÃO PAULO - Começou mal, muito mal, a gestão de João Sayad à frente da TV Cultura de São Paulo.

Na quarta-feira da última semana, confeccionava-se, para o jornal noturno da emissora, uma reportagem sobre os pedágios paulistas, aos quais o próprio candidato tucano ao governo, Geraldo Alckmin, havia feito reparos. No início da noite, o diretor de jornalismo da TV Cultura, Gabriel Priolli, foi chamado à sala de Fernando Vieira de Mello, vice-presidente de conteúdo.

Ali ouviu a bronca: a TV não poderia se ocupar de assunto tão delicado sem o seu conhecimento prévio. Vieira de Mello ecoava um protesto que tinha origem em algum escaninho da burocracia tucana.

A reportagem não foi ao ar naquela noite. E Priolli foi afastado de suas funções na tarde de quinta-feira. Durou uma semana no cargo.

Consta que a reportagem sobre os pedágios foi exibida na noite de sexta, feriadão de 9 de julho. E alega-se que foi derrubada na antevéspera porque estava "mal feita". Ninguém deve ter visto o resultado final. Como quase ninguém teria visto se fosse exibida na quarta.

A verdade é que a Cultura é uma TV mais lida do que assistida. Os próprios conselheiros da Fundação Padre Anchieta acompanham a emissora pela imprensa.

A saída de Heródoto Barbeiro do "Roda Viva" nada tem a ver com a pergunta que ele fez no programa a José Serra uma semana antes -justamente sobre pedágios. A sua substituição por Marília Gabriela já estava acertada pela direção. Mas, ao enviar Priolli para a Sibéria, os tucanos conseguiram transformar uma mentira em algo verossímil.

O episódio escancara a ingerência política do tucanato na TV pública de São Paulo. Quando uma reportagem sobre pedágios vira questão de Estado, então é melhor fechar o departamento de jornalismo e exibir "Cocoricó", onde ao menos as crianças são levadas a sério.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Registro 314: Pataquadas baianas

Não sou chegado ao excessivo civismo, mas gosto de festas que movimentavam o cidadão e a cidade. Salvador está em festa, é 2 Julho, dia em que o sol brilha mais que no primeiro. Não é o caso, pois hoje amanheceu cinzento e chuvoso. Mas com chuva e vento o baiano vai para as ruas antigas pra ver e reverenciar o casal de Caboclos, símbolos nativistas da revolta dos brasileiros contra os portugueses que não aceitaram o Grito do Ipiranga. Aqui permanecendo sem arredar o pé do governo, tentavam manter sob seus domínios a rica região do Recôncavo e a capital com seu Porto na larga e bela Baía de Todos os Santos. 

A festa é centenária. Nela, os políticos de plantão usam o cortejo como vitrine. Quem acredita ainda em político e em partido, sai pra defender o seus credos! Essa é a parte mais desinteressante do desfile. O que gosto de ver e fotografar são as imagens que meus olhos não esquecem: as casas enfeitadas, as figuras históricas representadas por figurantes com suas roupas toscas, as bandas dos colégios, com suas balizas femininas tendo que ceder espaço para o rapazes, alguns não tão másculos, demonstrando suas evoluções ao longo do trajeto.  Quiseram proibir alguns rapazes de brindar o público com seus trejeitos. Uma pataquada baiana e homofóbica.

A segunda pataquada é a mudança do horário do cortejo por conta do jogo Brasil x Holanda. Tenho minhas dúvidas se essa é a melhor solução. O cortejo é centenário, anual e poderia seguir em meio ao jogo. Um onda de civismo.

A outra pataquada é a esdrúxula ideia do ocupante do Palácio de Ondina em dar o nome do estádio que surgirá das cinzas do conjunto esportivo da Fonte Nova, cujo estádio tem o nome de Otávio Mangabeira. Não esquecendo que havia também o ginásio coberto com o nome de Antônio Balbino, mais conhecido como Balbininho. Foi aí que vi os shows dos artistas da Jovem Guarda, vi Marta Vasconcelos ser eleita Miss Bahia e soube da solenidade de formatura de todos os cursos da Universidade Federal da Bahia, com estudantes protestando contra a ditadura.

No campo de futebol, eu assisti aos desfiles de abertura da Olimpíada Baiana da Primavera. Como aluno do Ginásio Edgard Santos desfilei certo ano. O tema mostrado pelo Ginásio era A Olimpíada na Grécia. E lá fui no pelotão dos atletas gregos, vestindo um ridículo saiote, sandália trançada nas pernas e peito nu. Na época, ninguém estranhava ver os estudantes baianos pelas ruas trajando roupas alusivas aos temas do desfile. Foi assim que cheguei ao estádio para encontrar colegas e professores na azáfama para fazer o Ginásio brilhar e ser classificado. Bela festa, com seu hino empolgante cujo verso ainda lembro "Canta a primavera em nossas vozes juvenis, circula a  primavera em nossa veias varonis...." No mesmo estádio, em um domingo de Bahia x Vitória, estive no campo para fazer algumas tomadas do filme Anjo Negro de José Umberto. Meu personagem, um juiz de futebol, marcava uma partida fictícia antes da verdadeira. O estádio lotado de torcedores... Ao me ver correndo e gesticulando, eles não vacilaram, deram-me uma vai monumental. Acho que nenhum ator jamais foi vaiado por tanta gente.

Eis que de repente,  vem o governador, que pouco governa, com a pataquada de querer nomear o novo estádio, uma obra discutível, de Lulão. Já não basta a mudança do nome do aeroporto? Mais uma aberração que temos de aguentar. E nada fazemos para deter tanto absurdo. A atitude do alcaide de plantão é oportunista, populista e explicitadamente puxa-saco.

Só me resta lembrar e dar viva a Cid Texeira, meu professor inesquecível.

É, os holandeses invadiram o Brasil!