sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Registro 287: Parabéns, Fernanda Montenegro

O texto que transcrevo (Folha de S. Paulo, 16.10.2009), de autoria de Sábato Magaldi é exemplar. Expoente entre os melhores crítico do teatro brasileiro, Magaldi sabe expor com sensibilidade os passos de Fernanda Montenegro sobre o palco. Junto-me ao crítico para homenagear a grande atriz, que tem brindado o público com sensíveis interpretações. Infelizmente, não vi todas as criações de Fernanda Montenegro, mas tive o prazer de vê-la em Seria cômico se não fosse trágico, sob a direção de Celso Nunes; ri muito ao apreciar seu trabalho em É... de Millôr Fernandes. Em Da Gaivota, uma leitura de Daniela Thomas para o clássico de Tchecov, na sessão que vi, a atriz não estava nos seus melhores dias, mesmo assim deixava uma forte impressão ao fazer Arkádina. Nos filmes, A Falecida, Tudo Bem e Central do Brasil, a atriz mostra o que sabe e explora as personagens de forma densa, compreendendo-as por dentro. Na televisão, fez personagens maravilhosos porque soube emprestar o seu talento sem deixar se abater pela mediocridade que às vezes acompanha a produção televisiva.

Vida longa à atriz!

Montenegro é valor absoluto do teatro

Atriz, que completa 80 anos hoje, une talento espontâneo à capacidade de vivenciar plenamente a personagem

SÁBATO MAGALDI

O moderno teatro brasileiro é pródigo em grandes atrizes. Mencioná-las corre o risco de levar a um esquecimento, por certo imperdoável. Razão suficiente para citar apenas Fernanda Montenegro, cujo aniversário se está comemorando. Já há muitas temporadas ela é considerada grande atriz.
Sustenta esse conceito a soma de numerosos atributos: a capacidade de vivenciar plenamente a personagem, o domínio dos meios para alcançar os desejados efeitos, a inteligência a fim de manter a adesão do público, o talento espontâneo para transmitir drama e comédia. Mérito especial vem de que ela não precisou cursar uma escola, a não ser a de aproveitar a companhia da grande atriz Henriette Morineau, outro monstro sagrado que tanto enobreceu o teatro brasileiro.
Certamente, Fernanda soube inspirar-se na talentosa atriz francesa, de técnica admirável, que valorizava o uso da palavra. Cabe lembrar que Fernanda, vinda a São Paulo do Rio de Janeiro, participou do elenco do Teatro Popular de Arte (Companhia Maria Della Costa), de proposta semelhante à do Teatro Brasileiro de Comédia. No palco da rua Paim, ela foi, em 1955, protagonista de "A Moratória", que lançou Jorge Andrade como um dos importantes dramaturgos brasileiros. E, no TBC, ela viveu a personagem principal de "Vestir os Nus", texto de Pirandello.
Fase brilhante da carreira de Fernanda Montenegro foi também quando atuou no Teatro dos Sete. O conjunto encenou em 1959, no Municipal do Rio de Janeiro, "O Mambembe", obra-prima do nosso clássico Artur Azevedo. E, no Ginástico daquela cidade, Fernanda viveu Selminha, da peça "Beijo no Asfalto", escrita por Nelson Rodrigues a pedido dela. Os espectadores se impressionavam, entre outros momentos, com o vigor da cena em que a atriz defendia a virilidade do marido.
Fernanda Montenegro, depois de extinto o Teatro dos Sete, se fez empresária dos próprios espetáculos, realizados por Fernando Torres. Como era natural num sistema de produção do gênero, alternaram-se peças exigentes e textos comerciais. O que acontecia na tradição dos palcos britânico, francês e norte-americano. A qualidade literária pouco importa: o teatro é criação definida pela presença física do ator, e grande ator pode realizar melhor um espetáculo com uma obra medíocre do que um grande texto desempenhado por um ator fraco. Sem o sopro de Fernanda Montenegro, várias peças pouco significariam.
Atriz exemplar de teatro, monstro sagrado, no pleno sentido que tem a expressão, Fernanda Montenegro faz o efêmero do desempenho se igualar à perenidade de qualquer outra arte. Fernanda Montenegro é um dos valores absolutos do nosso palco.


SÁBATO MAGALDI é teórico, crítico e professor de teatro; escreveu "Panorama do Teatro Brasileiro" (1962) e "Moderna Dramaturgia Brasileira" (1998), entre outros

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Registro 286: Depoimento IX

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

Lelo Filho, ator, um dos responsáveis pelo grande sucesso do teatro baiano A Bofetada, espetáculo que completou 21 anos em cartaz (2009) e cativa o público por onde passa.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Admiro muita gente daqui e pelo Brasil afora. O elenco que divide cena comigo em A Bofetada é muito talentoso. Não poderia deixar de citar ainda, Rita Assemany, Yumara Rodrigues, Nanini, Wagner Moura, Chico Anísio, Fernandona, Fernandinha, Marieta e recentemente passei a admirar muito o trabalho e a versatilidade de Andréa Beltrão em cena. E o maior ator de todos os tempos: Paulo Gracindo. É sempre muito bom assisti-lo em imagens.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Jack Lemon é pra sempre. Grande Otelo em Macunaíma e nas comédias da Atlântida é inesquecível. Marília em “Pixote”, Fernandona em “Eles não usam black tie”, Beth Midler em “A Rosa”. Meryl Streep e Daiane Wiest em vários...

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Luiz Marfuz e João Falcão.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
É estranho ver o interesse que a mídia e o jornalismo local passaram a ter pelo trabalho de atores baianos que hoje brilham na telinha e na telona. Não me lembro deles terem sido tão festejados quando atuavam, e já eram bons em nossos palcos.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Assisti Regina Casé em “Nardja Zulpério” e achei que, no máximo, iria ser bacana. Mas me surpreendi e gostei tanto, que acabei voltando pra rever. Era muiiito bom!

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Entre o final dos anos 70 e início dos 80, assisti a algumas montagens que muito me ajudaram a decidir pela minha profissão: “Língua de Fogo”, dirigida por Luiz Marfuz, “Macbeth” dirigida por Márcio Meirelles, “Dias felizes” com Yumara e Harildo na Escola de Teatro, dentre muitos outros.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
As interpretações de Fernanda Montenegro em “Lágrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Matheus Nachtergaele em “O livro de Jó” , Jessica Lange no palco como Blanche em “Um bonde chamado desejo”, Walderez de Barros em “Max” e Marília Pêra em “Brincando em cima daquilo” foram arrebatadoras. Montagens e atuações marcantes na minha vida pessoal e artística.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
“O Livro de Jó”, pelas interpretações e pela temática.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Ninguém vive sem humor. Até quem torce o nariz pra comédia. O riso é fundamental, assim como a comédia, em todas as suas vertentes.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
A obra de Nelson Rodrigues é maravilhosa, mas também é complexa. Fui Edmundo em “Album de Família” e acho um dos textos mais difíceis que já li.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
Quis muito ter visto “Os sete afluentes do Rio Ota”. Ouvi maravilhas sobre o espetáculo.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
“O Pai”, de Strindberg e dirigida por Márcio Meirelles.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Espero que “Siricotico”, ainda inédito, venha a merecer! Será a nova montagem da Cia Baiana de Patifaria.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Não assisti, mas tenho a trilha sonora de “Gota D’Água”, com Bibi Ferreira cantando e interpretando alguns textos do espetáculo. Queria muito que fosse remontado.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Vinnicius Morais, co-autor de “Siricotico” e autor de textos divertidíssimos e que são a cara do nosso povo. Com certeza será reconhecido pelo público como um jovem e talentoso autor.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Assistir a mais de uma montagem de Denise Stoklos e Gerald Thomas me deu a sensação de déjà vu. A primeira você não esquece, as outras você sai com a sensação de que já assistiu. As encenações parecem reprise.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Não me recordo.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode citar três.
Um dos personagens de Beckett, especialmente de “Fim de Jogo” e “Esperando Godot”. Gostaria de voltar a fazer um texto de Nelson Rodrigues.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A comunicação. Seja no drama, na comédia ou na tragédia. Não imagino teatro que não se comunique, que dialogue com a platéia, que diga alguma coisa.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Não gosto da pretensão. Principalmente se for de um teatro mal realizado.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Registro 285: Monólogos

Na dramaturgia, seja ela nacional ou internacional, encontram-se belas e inesquecíveis peças, tanto por suas qualidade formais quanto por seu conteúdo que demonstram para nós mesmos o que somos. Penso que conteúdo e forma se completam. Mas esse registro não tem como objetivo entrar em tal discussão. O que pretendo ressaltar aqui são alguns monólogos que me tocam, aqueles que não consigo esquecer. Vez em quando retorno às peças esperando o momento em que o monólogo se apresenta. Outras vezes leio somente o trecho e me dou por satisfeito. Essa leituras desencadeiam em mim uma série de sentimentos e reflexões.

Alguns desses monólogos que passo a transcrever já ouvi na voz de de intérpretes em encenações ótimas, boas e ruins. Mas isso não vem ao caso. Ou melhor, as ruins eu esqueci. No entanto o texto permanece, o texto escrito. Outros monólogos, tomei conhecimento pela leitura da peça. Eles serão publicados sem a preocupação didática. Portanto, não haverá coerência como relação aos genêros nem ao tempo histórico nem a estética que a peça se filia. A escolha é subjetiva; surge pelo avivamento da memória ou porque, repentinamente, o texto se avulta na confusão das estantes e o olho é chamado a vê-lo.

Os monólogos que abrem o registro fazem parte da peça Tio Vania de Anton Tchecov (Editora Veredas, 1994), escrita em 1897. Um é de Astrov, no primeiro ato. O outro é de Sonia no quatro e último ato da peça .

  • VOINITSKII (rindo) Bravo, bravo! Tudo isso é encantador, mas nada convincente, portanto (a Astrov) nos permita, amigo, que continuemos usando madeira para aquecer nossas estufas e construir nossos celeiros.
  • ASTROV Você poderia aquecer a estufa com turfa e construir o celeiro com pedras. Está bem, que seja, você pode cortar a árvore quando precisar... mas para que destruir as florestas? As florestas russas rangem sob os golpes de machado, milhões de árvores são derrubadas, os lares dos animais selvagens e dos pássaros são revirados, os rios se esgotam e secam, desaparecem para sempre as paisagens maravilhosas... somente porque não passa pela cabeça do homem preguiçoso dobrar as pernas e catar a lenha no chão. (A Ielena Andréievna.) Não tenho razão minha senhora? É um bárbaro insensato aquele que queima na estufa a beleza, destrói aquilo que somos incapazes de criar. O homem foi dotado de juízo e força criadora para que multiplicasse aquilo que lhe foi entregue, mas até agora nada criou, apenas destruiu. A cada dia as florestas minguam mais e mais, os rios se esgotam, a vida selvagem se extingue, o clima fica mais adverso e a terra cada vez mais se torna pobre e feia. (A Voinitskii.) Seu olhar é irônico e acha que eu estou falando besteiras... Talvez haja, de fato, algo de excêntrico nisso tudo, mas quando passo pelos bosques dos camponeses que salvei da destruição, ou quando ouço o sussurrar do bosque jovem que plantei com as próprias mãos, então sei que o clima depende um pouco de mim também, e se dentro de mil anos o homem for feliz, então eu também contribuí com uma pequena parcela para isso. Quando planto uma muda de bétula e mais tarde a vejo verdejante, agitando-se ao vento, minha alma se enche de orgulho e eu... (Percebe o criado, que lhe traz um copinho de vodca numa bandeja.) Mas... (Bebe.) Tenho de ir. Afinal de contas, tudo isso não passa de excentricidade. Meus respeitos! (Parte em direção à casa.)
    *******************
  • VOINITSKII (Sonia, afagando-lhe os cabelos com uma das mãos.) Que peso sinto no peito, criança querida! Oh, se soubesse que peso!
  • SONIA O que se pode fazer? Viver é preciso! (Pausa.) E nós viveremos, tio Vania, viveremos a longa, longa sequência de dias e de noites. Suportaremos com paciência os golpes do destino; trabalharemos sem descanso pelos outros, agora e na velhice, e quando chegar a nossa hora morreremos em paz, e lá, além do túmulo, diremos que sofremos, choramos, tivemos muitas tristezas, e Deus então se apiedará de nós, e ambos - você e eu, querido titio - conheceremos uma vida maravilhosa, cheia de luz, a alegria nos invadirá, e olharemos com um sorriso emocionado nossa infelicidade de agora - e descansaremos. Tenho fé nisso, titio, creio ardentemente, apaixonadamente... (Ajoelha-se diante dele e apóia a cabeça em seu braço; com a voz cansada.) Descansaremos. (Teleguin toca o violão suavemente.) Descansaremos! Ouviremos os anjos e contemplaremos o céu cravejado de diamantes e veremos que toda a maldade terrestre, todos os sofrimentos, mergulharão na misericórdia que encherá o universo, e nossa vida será tão tranquila, terna e doce quanto uma carícia. Eu creio nisso, eu creio... (Com o lenço enxuga as lágrimas do tio.) Pobre, pobre tio Vania, você está chorando... (Entre lágrimas.) Você não conheceu a alegria em sua vida, mas espere, tio Vania, espere... Descansaremos... (Abraça-o.) Descansaremos! (O guarda-noturno matraqueia. Teleguin toca suavemente. Maria Vasilievana faz uma anotação na margem do folheto; Marina tricota a meia.) Descansaremos! (A cortina desce lentamente.)

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Regsitro 284: O Canto de La Negra

Embora tenha ouvido e muito Mercedes Sosa, da qual tenho um único e deslumbrante disco, Mujeres Argentinas, ouvido pela primeira vez em casa de amigos, lá pelos idos de 70 em São Paulo, não me entusiasmava muito por sua performance. Hoje, depois de sua morte, ouvindo e muito o tal disco, agora CD, antes um bolachão preto de vinil, descubro onde se localizava a minha implicância com suas canções de protesto. Na verdade, o que me irritava não era a cantora e o canto, mas o culto praticado por uma esquerda hipócrita, mas fundamentalista no discurso, que colocava no altar os dogmas entoando as canções de La Negra.
Para essa gente beata, Mercedes Sosa era o máximo, acima do bem e do mal. Não se podia discordar. Devia-se gostar e aplaudir seu canto, ainda que cantasse coisas chatas de se ouvir. Criticá-la era quase um ato reacionário, ofensivo. E embotados, íamos ver os shows, aceitando o que se passava no palco sem questioná-lo. Era assim também com outros artistas, os da MPB. Aconteceia o mesmo com os espetáculos teatrais engajados. Bastava um discurso inflamado avalizava-se a cena como sendo de qualidade...
Repentinamente, tudo se fez claro e só posso dizer que Mercedes Sosa embalou meus dias cantando Gracias a la vida também gravada também por Elis Regina em Falso Brilhante disco derivado do show de mesmo nome. como não conheço a versão da canção por Isabel Parra, que faz arrepiar Luiz Carlos Merten - ver seu blog -, fico com as duas versões das finadas. tanto uma como a outra conseguem tocar fundo as cordas ainda sensíveis de uma coração não tão brejeiro.
Quem ouviu Alfonsina y el mar (Ariel Ramirez e Felix Luna - autores) , faixa número 5 do CD Mujeres Argentinas não esquecerá da voz imensa que ecoou pela América Latina no momento em que o continente era arrasado pelas ditaduras de direita. Espero que esse fantasma desapareça do nosso destino e fique como registro na história e na memória . E espero que o continente não se inflame com as promessas e ensaios de ditaduras de esquerda, cuja versão mais próxima é ânsia bolivarina-populista de se espalhar, como se fosse a solução para as nossa mazelas.
No horizonte descortinado pela voz poderosa da cantora, dando voz aos anseios de liberdade e contribuindo para a construção de uma identidade latino americana, penso que estão inscritos nos seus cantos a afirmação dos direitos do homem acima de qualquer ideologia. Pois que a ideologia, na forma como grande parte da direita e da esquerda pensa, vem carregada de tintas fundamentalistas, tal qual a ação dos religiosos na pós-modernidade. De certos religiosos, para não colocar no mesmo saco aqueles que não fazem da religião uma prisão nem da ideologia um álibi para justificar os meios.
Mercedes Sosa, dizíamos, era a cantora da geração "poncho e conga", canta oito mulheres - Griga Chaquena, Juana Azuardy, Rosarita Vera, Dorotea Bazan, Alfonsina Storni, Manuela Pedraz, Guadalupe Cuenca e Mariquita Sánchez de Thompson - e seu canto emociona porque a voz expressa sentimentos que não se perdem com o tempo nem com a mudança dos ventos. É como ouvir ainda Nara Leão cantando Opinião. Ao escrever esse registro e relembrar o show Falso Brilhante bateu saudades de Miriam Muniz, grande atriz e diretora que virou Elis Regina do avesso e fez surgir uma outra personalidade artística.
A lembrança de uma mulher puxa a lembrança de outras que brilham agora nas minhas recordações, nas fotos, nos vídeos, nos discos e nos livros que registraram a passagem de cada uma sobre a terra. Elas que nos deram tanto, continuam a doar a cada momento que retornamos ao legado deixado de herança.
Aplausos para Mercedes Sosa!

sábado, 12 de setembro de 2009

Registro 283: Lembrança do tempo em que eu era ator

SEU QUEQUÉ

Teleromance dirigido por Edson Braga

TV Cultura - São Paulo - 1982

Raimundo Matos (Seu Quimquim)

e

Regina Dourado (Dona Santinha)


As imagens foram enviadas pelo colega Henrique Lisboa (Taubaté)
que fazia parte do elenco.

sábado, 5 de setembro de 2009

Registro 282: Coisa séria

Gosto da forma como pensa e escreve Clóviss Rossi. Por esse motivo copiei e colei sem pedir autorização.

MAUS COMPANHEIROS

Clóvis Rossi

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que gosta tanto de ditados tidos como populares, bem que poderia prestar atenção ao "diga-me com quem andas e te direi quem és". Se prestasse, teria dito à sua candidata Dilma Rousseff quais ilações podem surgir do fato de ela rezar ao lado do apóstolo Estevam Hernandes e da mulher dele, a bispa Sônia Hernandes, da Igreja Apostólica Renascer em Cristo, que foram presos nos EUA.
Não levavam dólares na cueca, mas escondidos em bolsa, em porta-CD e até numa Bíblia. Se prestasse ainda mais atenção, tomaria cuidado ao receber em dezembro o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. Primeiro, porque, ao contrário do que disse Lula logo após a vitória eleitoral de Ahmadinejad, o que houve em seguida não foi uma batalha entre torcidas de futebol, mas a velha repressão pura e dura à oposição.
Até uma agência semioficial de notícias anunciou que um jovem, filho de um clérigo respeitado, morreu na prisão devido a maus tratos (leia-se: tortura). Autoridades não podem ser levianas em comentários sobre questões internacionais.
Ainda mais que o Parlamento iraniano ratificou a indicação de Ahmad Vahidi para ministro da Defesa. Ele é acusado de ser o cérebro por trás do atentado que matou 85 pessoas em uma entidade beneficente judaica de Buenos Aires, em 1994. Vahidi declarou, após a aprovação: "Minha nomeação é uma bofetada decisiva em Israel". Bofetada também na Argentina, cuja presidente, Cristina Fernández de Kirchner, já disse sobre a indicação de Vahidi: "É uma afronta às vítimas". Se é tão grave a Colômbia bombardear um acampamento das Farc em território do Equador -e é muito grave-, por que é menos grave bombardear um centro beneficente em território argentino?

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Clóvissi Rossi escreveu de Londres, publicado em Folha de S. Paulo, 05 de setembro de 2009.

domingo, 23 de agosto de 2009

Registro 281: Impressões

A semana foi de ver arte, a do cinema (Tempos de Paz, direção de Daniel Filho e o delicado Horas de Verão de Olivier Assays) e a do teatro (A Canoa, direção Jacyan Castilho, com o ator Claudio Machado, Uma Vez, Nada Mais, direção Hebe Alves, com as atrizes Maria Menezes e Aicha Marques e Pluft, Fantasminha, direção Susan Kalik, no elenco: Anderson Dy Souza, Angela Reis, Caio Muniz, Francisco Xavier, Hayaldo Copque, Luiz Guimarães, Sérgio Telle, Sunny Mello).
Como faz bem ver objetos de arte tão significativos! Não quero dizer sem defeitos. Todas eles tem os seus problemas, mas no resultado final são belos objetos, obras de arte. O leitor pode fazer objeções: dizer que obra de arte é aquela que em sua totalidade não apresenta nenhuma fissura nem no tema e nem na forma. Os elementos semânticos e sintáticos se organizam, sem que se dê a sobreposição de um sobre o outro. Não discordo. Mas diante do que vi, e tomado pela força que emana desses objetos, deixo de lado os conceitos para me deixar levar por aquilo que cada uma delas fez em mim.

O fato é a arte anima a gente, nos conforta, às vezes nos tira o equilíbrio desassossegando-nos. Falo por mim; a generalização fica por conta do desejo de que todos, homens e mulheres, fossem tocados pelo universo da arte.
Diante da sujeira que rola noutras áreas, o que vai pela arte desse meu Brasil brasileiro diz muito do que esse país poderia ser e não é. Com essa afirmação, não quero dizer que a arte nos redime, purifica, salva. Coitado de quem acredita nisso. No entanto, penso que ela é um forte antídoto contra a barbárie. Nesse sentido, ela produz efeitos. Não faço aqui a defesa acrítica dos artistas. Alguns agem também como os políticos. Alguns são até políticos...
Penso na carta que recebi por e-mail assinada pelo ator Marcelo Prado. De tudo que li e ouvi sobre a política cultural do governo Jacques Wagner foi a que mais me tocou. Some-se a ela, os textos do ator e jornalista Gideon Rosa. Solidarizo-me com os artistas meus companheiros...
Não tenho a mínima vontade de usar o vocábulo, mas ele diz muito e independentemente do jargão que identifica partidários. Eu não sou um homem de partido, mas de um tempo partido, como disse o poeta.
Não me deterei em analisar o que vi. O certo é que saí das sessões carregando uma onda de sentimentos e pensamentos. Mas cabe um pequeno registro sobre cada trabalho que vi:
Tempos de Paz: o cinema quer ser teatro, mas é cinema e dos bons. Dois atores em momento luminoso. Para quem um dia deixou o palco como eu, o filme me coloca diante de dilemas. Alguns resolvidos, outros empurrados para debaixo do tapete.
Horas de Verão: a vida passada a limpo sem melodrama. As emoções pulsam na medida certa.
A Canoa: inventivo exercício de direção, um ator com bastante recursos expressivos necessitando mergulhar mais fundo nas sutilezas das emoções que a partitura corporal lhe exige e que o tema reclama.
Uma Vez, Nada Mais: duas atrizes em plena forma, exercendo o jogo fascinante do teatro e encantando. Uma direção segura e a serviço das intérpretes.
Pluf, Fantasminha: no programa da peça tem uma frase do ator Harildo Déda que diz assim: "O que me impressiona em Maria Clara, é o poder que ela tem de transformar poesia em dramaturgia". A frase diz tanto de maneira tão sintética. O espetáculo tem seus excessos, mas não apela para as facilidades que muitas vezes rondam o teatro para criança.
Se a arte não salva, quem nos salvará de Brasília?

sábado, 8 de agosto de 2009

Registro 280: Uma manhã com os estudantes do Colégio Salesiano

Quando sou convidado para conversar sobre meus livros nas escolas, não me faço de rogado. Peço apenas que os alunos tenham lido um dos meus livros e que alguém venha buscar-me em casa. Vou com prazer e muita das vezes retorno do encontro meio decepcionado. Principalmente quando noto que os estudantes leram por obrigação, ouvem você desinteressadamente e no final pedem um autógrafo, mais em caderno que no livro. Mesmo assim não deixo de aceitar o convite.
Além de escrever literatura para crianças e jovens sou professor. Mas não é só isso que me mobiliza, ainda que os dois fatores sejam muito fortes. O que me estimula a conversar é querer contar a minha experiência com a leitura. Desejo encantar o outro como fui encantado desde a infância pelas histórias ouvidas e lidas. Espero sempre tocar os outros naquele lugar sensível, que tenho certeza todos têm, e daí fazer aquele que comigo dialoga desperte em si o gosto pela leitura.
Confesso ser um leitor compulsivo. E ler para mim é como comer. No meu restrito universo, o ato de ler tem o mesmo peso que o ato de comer. Como os momentos das refeições são considerados profanamente sagrados, os momentos de leitura se constituem instante de elevação. Entrego-me ao livro em comunhão e daí retiro o necessário para me manter vivo. Dito assim parece que tenho uma relação utilitarista com o livro e com a leitura. Mas não é isso. O ato de comer e ler é, sobretudo, um momento de prazer.
Compro livro como compro comida.
Toda essa explicação é para contar sobre a minha ida ao Colégio Salesiano do Salvador, no dia 7 de agosto, para participar do Café Literário do Ensino Fundamental II. Fui levado por Zé Maria da FTD e ao chegar naquela imensa e antiga construção fui recebido afetuosamente pela Supervisora Pedagógica, pelo Coordenador Geral, pelo Diretor e por professoras e todos os envolvidas com o evento. Gente calorosa.
A minha percepção deu sinais inequívocos de que a manhã não seria como imaginara: eu sentado diante de um auditório a deitar falação sobre o livro, leitura e outros assuntos derivados do tema central. Risível engano.
Conduziram-me para um pátio coberto com várias mesas preparadas para um lauto café. Em torno das mesas alunos e pais esperavam-me e passei por todas elas ouvindo os estudantes sobre o meu livro Sob o Signo das Luzes, ficção histórica que tem como assunto a Revolta dos Alfaiates, um acontecimento de grande importância para história da Bahia e do Brasil. Surpreso e embevecido tomei conhecimento de um processo trabalhado com muita propriedade pelos educadores do Colégio Salesiano. Garotos e garotas falavam sobre a história e seus personagens com tal propriedade que rendi-me a eles, os narradores do meu livro. A atidude da garotada era uma demonstração de que a atividade derivava de um planejamento pedagógico, mas não caía na rotina desgastante da obrigatoriedade da leitura. Projeto interdisciplinar desenvolvido nas disciplinas Língua Portuguesa e História, penso ter sido conduzido com muita clareza por parte dos professores.
Havia envolvimento, percepção do todo e das partes, entendimento das ideias discutidas, clareza com relação aos personagens e a situação histórica. Chamava a minha atenção a forma com que eles fizeram a leitura do que era ficcional e do que era resultado da pesquisa que tratava do aconteciemnto histórico. Esse cruzamento entre Literatura e História, muitas vezes depreciado, foi apontado pelos leitores como um atrativo.
Ouvi muito; para quem estava preparado para monologar falei pouco ou na medida. Não deixei de responder às perguntas que me fizeram. Procurei não ser chato, visto que os estudantes estavam interagindo comigo de maneira curiosamente viva, como Eleutério, o adolescente personagem do livro. Uma integração prazerosa, demonstrativa de que estávamos sintonizados uns nos outros. Estávamos de fato interessados, pois tínhamos como centro do nosso interesse o outro.
Passei uma manhã das mais gratificantes. Retornei preenchido para o meu recanto trazendo comigo as palavras que ouvi e que ecoarão por muito tempo em mim. Sou grato aos educandos e aos seus educadores pelo evento, já que o Café Literário foi organizado em minha homenagem pela obra Sob o signo das Luzes. Mais agradecido ainda pela onda de carinho que me banhou na manhã azulada de uma sexta-feira de agosto. Manhã em que os jornais traziam as maracutaias no Senado Federal, os crimes estúpidos e a violência contra mulheres, a iminência de uma greve de policiais e muitas páginas destinadas a assunto que não interessam a maioria dos mortais...Bobas escolhas que só interessam a editores e jornalistas que gravitam em torno do seu próprio umbigo.
Cansado pelo sempre igual, sinto-me revigorado pela manhã que educandos e educadores proporcionaram-me. Há sempre um substrato de humanidade que ultrapassa a violência, a bossalidade, a falta de ética, o jeitinho, a falta de educação em qualquer lugar e principalmente no trânsito, a arrogância de quem se acha superior...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Registro 279: Depoimento VIII

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

Andréa Elia
Atriz, diretora tetral e professora do Curso ATO de Teatro. Atuante há vinte anos na cena cultural baiana, foi dirigida por grande parte dos diretores teatrais baianos e entre as atuações de destaque estão: Boca de Ouro, Um Bonde Chamado Desejo, O Beijo no Asfalto e Carne Fraca – Fernando Guerreiro, A Prostituta Respeitosa – Márcio Meirelles, Divinas Palavras – Nehle Franke (com apresentações nos Festivais de Curitiba, Londrina, SESC São Paulo, Recife. Kaô – Paulo Atto (com apresentações em Moscou, Espanha e Portugal), Não Vamos Falar Nisso Agora – Celso Jr. e A Morte de Quincas Berro d'Água – Paulo Dourado. Foi vencedora do Concurso Melhor de 3 do Faustão, valendo um contrato com a Rede Globo em 1995. Como diretora teatral do Grupo Os Bumburistas, foi vencedora do Prêmio Braskem , na categoria melhor espetáculo pelo júri popular nos anos de 2006 e 2007. No dia 16 de agosto (2009) estréia o espetáculo com o mesmo grupo, o infanto juvenil Alice no Sertão das Maravilhas, em temporada no Teatro Módulo e em novembro estréia como atriz o espetáculo Um Caso Sério com texto e direção de Cláudio Simões, dividindo a cena com o ator Celso Jr. Andréa Elia a frente do Curso ATO tem contribuído para formação de novos atores e para inserção da linguagem teatral em empresas e instituições.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Frank Menezes, Wagner Moura e João Miguel

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Julianne Moore, Al Pacino, Marília Pera.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Fernando Guerreiro, Antunes Filho, Antônio Araújo (Teatro da Vertigem)

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Plínio Marcos.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Abafabanca

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
1. A estréia de R$ 1,99 no Teatro XVIII. 2. Boca de Ouro – Um Nelson Rodrigues em pleno vagão de trem no subúrbio baiano. A meninada saindo de casa para falar com meu personagem durante a peça e o público achando que fazia parte do texto. Um espectador disse ao diretor da peça Fernando Guerreiro: “Nossa! A cena das crianças está muito bem marcada, parece que tá acontecendo na hora!” E realmente estava! 3. A montagem de Hamlet de José Celso Martinez Correa, quando durante uma cena o teto do teatro Oficina se abria e víamos o céu de São Paulo.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Apocalipse de Antônio Araújo do Teatro da Vertigem. A peça acontecia num presídio abandonado em São Paulo, durante uma cena o público ficava num corredor escuro e os atores corriam pelados gritando. Senti um certo pânico, mesmo sabendo que era teatro, tive uma sensação real de início de claustrofobia e pensei em sair.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Divinas Palavras, de Ramón Del Valle Inclan com direção de Nehle Franke.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Gosto de considerar “Gênero de primeira”, o espetáculo de qualidade. Comédia mal feita é gênero de segunda assim como o drama mal feito.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
A Comédia do Fim de Becket com direção de Luís Marfuz.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
Paraíso, Zona Norte – Antunes Filho

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
Dias Felizes com Fernanda Montenegro, vi no Teatro Castro Alves e não era o teatro apropriado para um monólogo de Beckett.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
A adaptação atual de Hamlet de Wagner Moura, Apocalipse e O Livro de Jó do Teatro da Vertigem.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Nelson Rodrigues – toda a sua obra desde peças, crônicas e contos.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Na verdade penso na atriz Denise Stoklos, pois seus textos são muito bons, mas por desenvolver um teatro autoral, seus textos não são muito lembrados. Tenho todos e leio sempre que posso.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Geral Thomas, não as suas primeiras montagens, mas a fórmula depois que ficou um pouco engessada.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Teve uma montagem de Um Fax de Denise Stoklos para Cristovão Colombo no Rio de Janeiro que sofreu uma crítica de Macksen Luís no Jornal do Brasil, dizendo que o discurso de Denise estava ultrapassado. Era a primeira vez que eu via aquela atriz em cena. Eu e Ana Paula Bouzas, atriz e amiga, vimos a peça juntas, e nos marcou muito. Quando lemos a crítica, ficamos indignadas e enviamos uma carta ao jornal e a carta foi publicada na coluna Opinião do Leitor. Anos depois conheci pessoalmente a atriz e ela havia guardado a nossa carta e lembrava bem do fato.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Blanche Dubois – Um Bonde Chamado Desejo, Geni – Toda Nudez Será Castigada e Marta – Quem Tem Medo de Virgínia Wolf?

21 – Você é um intérprete, autor, cenógrafo, iluminador, diretor, dramático ou pós-dramático?
Uma diretora pós-dramática e uma ATRIZ DRAMÁTICA AO EXTREMO!!!!!!!!!!!

22 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Comunicação com o público.

23 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Subestimar a capacidade do público.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Registro 278: Iniciando a semana

O texto em destaque é de autoria de Marina da Silva, a combativa ambientalista que foi defenestrada do Ministério do Meio Ambiente pelo governo sindicalista-populista do qual ela faz parte. Publicado na edição de hoje (3.08.2009) no jornal Folha de S. Paulo, serviu de estímulo para que eu deixasse a preguiça de lado e retomasse meus registros em Cenadiária. A preguiça é uma desculpa que arranjei para o meu estupor diante do que vejo, leio e ouço. E confuso diante das ocorrências do cotidiano, mergulho em mim, tranco-me, cultivando um defeito de personalidade que é a total incapacidade para os excessos da vida social, ou melhor da vida em sociedade, essa obrigação que me cansa. Opto então pelo silêncio, pelo recolhimento, mas não pela alienação.
Não vou repisar os assuntos para não cansar o leitor que por aqui passar. Estamos todos (?) informados do que acontece no Brasil brasileiro. A imprensa, fonte comprometida é certo, não deixa de apontar os absurdos que por aí pululam. Para não ficar apenas com um ponto de vista, procuro sempre ler dois jornais de tendências diferentes para daí, com meus botões, formar aquilo que é minha opinião. Opinião que fica comigo, já que não me interessa sair por aí espalhando-a, embora alguns amigos íntimos não sejam poupados. Coitados dos que me ouvem quando dos meus destemperados vomitórios. Peço-lhes desculpas.
O texto de Marina da Silva é sobre o Rei Lear e vale a pena conferir. Objetivo e sintético, ele nos dá a dimensão da tragédia.
Aproveito o momento para indicar dois filmes que vi e me senti gratificado e feliz por isso. De Christophé Honoré, A Bela Junie (La Belle Personne) e de Heitor Dhalia, À Deriva. Tanto o francês quanto o brasileiro transitam pelo universo da adolescência e sensíveis ao tema nos dão ótimos filmes. Sem firulas, mas não de forma rasteira, apresentam suas personagens em situação peculiar, marcando o ritmo da existência de quem sabe já não ser mais criança, mas ainda não se estruturou como adulto.
Depois da sesta, li a entrevista de Edgard Morin concedida ao jornalista Antonio Gonçalves Filho (Estado de S. Paulo, 2.08.2009). Antes de comentar rapidamente as palavras do encantador filósofo de 88 anos, declaro que gosto muito das coisas que o jornalista do Estado de S. Paulo escreve e da forma como conduz suas entrevistas. Conheço Gonçalves Filho como frequentador esporádico do Lótus, restaurante natural que tive em São Paulo em meados do anos 90, empreendimento que me levou à falência. A labuta não permitia que a conversa entre nós se alongasse, mas era sempre um prazer tê-lo como cliente. Sobre Morin, chamo a atenção para o seu otimismo. Cito um pequeno trecho da entrevista: "Não acredito em religiões de revelação, como o cristianismo e o islamismo, mas, além delas e das arcaicas, existe ainda uma terceira religião, que eu classificaria de laica, ou a religião da fraternidade humana. estamos perdidos num pequeno planeta dentro de uma sistema e, justamente por estarmos perdidos, precisamos ajudar uns aos outros." (Grifo meu).
Com a palavras do filósofo, encerro esse registro. No mais, poesia é axial.
DURANTE CURSO de especialização na Universidade de Brasília, estudei a obra "Rei Lear", de Shakespeare. Talvez a tragédia possa nos ajudar a entender um pouco a política brasileira.Ao sentir-se velho, Lear decide abdicar da sua condição de rei, do enfadonho encargo de governar.

Chama as filhas - Goneril, Regana e Cordélia- para dividir seus bens e poder, anunciando que seria mais agraciada aquela que lhe fizesse a maior declaração de amor. E impõe outra condição: enquanto vivesse, o rei deveria ter assegurado respeito, prestígio, cuidado e, quem sabe, até mesmo o amor de suas filhas e súditos. Quer deixar de ser rei sem perder a majestade.

Cordélia, a mais jovem, com quem o rei mais se identificava, e que muito o amava, não soube dizer o que sentia. As outras não sentiam amor pelo pai, mas eram hábeis na verve.O que torna sua jornada trágica e dolorosa é que Lear se recusa a retornar ao que um dia foi, um simples homem, rei de si mesmo. Não quer morrer, tornar-se passado. Quer ser sucessivo como é a vida, reviver a fase do prazer de poder. Quer ter séquito e até mesmo um bobo para ninar seu desamparo.

Mas ninguém pode impunemente regredir sem ser atormentado pelo fantasma da repetição. No seu obsessivo desejo de ser amado, Lear agarra-se às palavras de Goneril e Regana. E rejeita amargamente a rebeldia de Cordélia, que só sabia sentir e não se sujeita a ter que fazer uma declaração de amor ao pai, obrigando-o a perceber esse amor no único lugar onde deveria estar: no resultado afetivo de suas relações pessoais.Não por acaso desmorona o mundo de Lear. O que antes era tão bem definido, passa a ser ambivalente. Certeza e dúvida, coragem e medo, segurança e desamparo. A loucura de não mais saber quem é.

O alto preço por ter almejado e transformado em "ato" o desejo de retornar ao lugar onde um dia esteve e querer assumir a forma do que um dia foi. Ele só existe no mundo daqueles que o aceitam e o amam tal como é. E mesmo estes, incluindo Cordélia, não têm mais como aceitar seu governo senil. Até porque foi ele próprio quem decidiu abdicar de ser quem era para tornar-se quem não mais podia ser. Tornou-se merecedor da reprimenda feita por meio das palavras do bobo: "Tu não deverias ter ficado velho antes de ter ficado sábio".

Genial Shakespeare, trágico rei, frágil humanidade de sempre, que não quer passar. Que infringe a ordem dos acontecimentos, sem o árduo trabalho de elaborá-los. Que desiste de ressignificar-se, e quer tão somente repetir o prazer da sensação vivida nas ilusões de majestade.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Registro 277: Resenha

CORDEL DA VIDA
O TEATRO E A PALAVRA DE ARMINDO BIÃO
Raimundo Matos de Leão
Em seu texto Experiência e Pobreza (1933), Walter Benjamin fala-nos do rebaixamento da ação da experiência e toma como referência os soldados que retornavam das trincheiras de 1914-1918, “mais pobres em experiência comunicáveis, e não mais ricos”. Na pós-modernidade, os assombros nos deixam perplexos, quase mudos. Diante dos acontecimentos que se avolumam ao nosso redor, tendemos a interromper a narrativa. Mas a situação paralisante que por vezes nos acomete não impede a transmissão da experiência. Ainda que concordemos com o pensador judeu-alemão, vislumbramos na opacidade do tempo a capacidade do indivíduo em deixar seus rastros, legando-nos relatos sobre si, sobre o outro e sobre o mundo. “Entre os grandes criadores sempre existiram homens implacáveis que operaram a partir da uma tábula rasa. Queriam uma prancheta: foram construtores. A essa estirpe de construtores pertenceu Descartes, que baseou sua filosofia numa única certeza – penso, logo existo – e dela partiu”, conforme Benjamin. Dessa maneira podemos ventilar a possibilidade de salvação quando o legado da vida do espírito é posto em circulação pela ação dos que não se deixam tomar pela nostalgia paralisadora e com isso afirmam a força da experiência. Nesse sentido, podemos dizer que salvar a experiência é transmiti-la.
Nesse sentido, entra em pauta o trabalho que Armindo Jorge de Carvalho Bião acaba de nos legar, com o lançamento dos livros Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos e Teatro de cordel para a cena: textos reunidos, ambos sob a chancela da P&A Gráfica e Editora. As obras se complementam, visto que os assuntos tratados pelo ator-professor cruzam-se nas páginas dos dois livros. Entretanto, podem ser abordados separadamente pelos alunos, o que é, na verdade, desejo manifesto do autor, ao afirmar sua preocupação com a “escassez e dificuldade” com o texto didático. Por outro lado, o leitor que não se situa no âmbito universitário pode encontrar prazer ao garimpar entre os textos que compõem os dois títulos aqueles que mais lhe interessar por afinidade.
Em Etnocenologia e a cena baiana, Armindo Bião divide seu livro em quatro seções, cujo foco central é a leitura da teatralidade e da espetacularidade pelo viés etnocenológico, uma disciplina nova, datada de 1995, tempo relativamente curto para que se estabeleça como uma área do conhecimento. No entanto, o que se pode aquilatar do rico acervo de textos é que a disciplina vem abrindo portas para compreendermos fenômenos espetaculares, não só afeitos ao universo da linguagem do teatro e suas diversas matrizes estéticas, mas que se expandem pelo societal (Maffessoli) e aparecem como manifestações marcadas pela diversidade. Assim são as brincadeiras, o jogo, a festa, a função espetacular “conforme quem vive e faz, denomina aquilo o que faz e vive”, no dizer de Bião, ou seja, os comportamentos humanos espetaculares organizados. Esse universo de temas e os instrumentos que a nova disciplina oferece para as suas análises conferem um lugar preciso para a etnocenologia no âmbito das pesquisas.
Precedidos pelo prefácio do professor Michel Maffessoli, os textos se organizam coerentemente em quatro blocos: Da Etnocenologia, Da teatralidade, Da cena baiana e, por fim, Miscelânea do mesmo. Seguindo esse percurso, o leitor situa-se no interior do trabalho de forma que, num primeiro momento, tome contato com a nova disciplina. São dez textos onde o autor explicita com clareza e força argumentativa os pressupostos da etnocenologia. Aborda também de que maneira o pesquisador maneja os aspectos epistemológicos e metodológicos para compreender o que se dá no contexto cultural para qual dirige o seu olhar, ou para qual é chamado, visto que a força dos acontecimentos atrai o curioso-desejante de ouvir sereias e desvendar os seus mistérios. Em seguida, encontra-se a reunião de escritos para dar conta da teatralidade, quatro deles em francês. Aqui, destaco o domínio do idioma pelo autor; como baiano da gema, Bião domina o francês, tornando-a sua segunda língua. Tal fato remete-nos ao tempo em que o francês era ensinado nos bancos do antigo ginásio, levando os estudantes ao cultivo da língua, como um traço característico dos nossos intelectuais.
Retornando ao foco de interesse, é na terceira seção, que o autor se debruça sobre temas que pinça da “encruzilhada chamada Bahia” para refletir sobre a cultura, o seu patrimônio imaterial: o teatro que se faz por essas plagas e as matrizes estéticas que marcam o espetáculo da baianidade, baianidade que Bião busca compreender e definir. Acompanhando o enfático elogio que a obra publicada requer, segue o aviso ao autor que Álvaro Guimarães há de lhe puxar o pé numa noite qualquer cobrando-lhe por creditar a Orlando Sena a estréia de Maria Bethânia como cantora na montagem de O Boca de Ouro. É certo e sabido que a intérprete estreou sob a direção de Álvaro Guimarães na referida encenação do texto de Nelson Rodrigues.
Feita a observação, volto-me para a reunião de textos enfeixados sob o título de Miscelânea. Entre um e outro escrito percebe-se o interesse do pesquisador sobre assuntos variados, mas todos eles voltados para suas áreas de atuação. Digo no plural porque Armindo Bião transita de forma interdisciplinar por diversas áreas. Por elas constrói um pensar que se afirma pelo saber distribuído nos diversos artigos, comunicações e ensaios que dão corpo a esse documento que é Etnocenologia e a cena baiana: textos reunidos. Em suas páginas, constata-se erudição, mas não aquela empolada e dura. Armindo Bião sabe-se educador, e por essa via faz o seu discurso chegar ao outro. Configura-se então o diálogo, esse intercâmbio necessário para a troca da experiência. Recheado de referências, os textos são a prova de que Bião soube, ao longo de sua carreira, esmiuçar, esmiuçando-se. Subjetividade e objetividade se entrecruzam, “o curto-circuito”, uma postura necessária para que os objetos apareçam luzindo aos olhos do leitor, sem que tirem a graça, a perspicácia e a leveza que por vezes desaparecem de certas produções acadêmicas. Não é o caso dos trabalhos aqui resenhados. O rigor das análises e as citações que sustentam a argumentação nos levam a percorrer as páginas prazerosamente, apreendendo o conteúdo exposto claramente. As maneiras como Bião aborda os temas que elege trazem a marca da compreensão e, ao vê-los por essa lupa, afasta-se da visão única; olha os objetos por diversos ângulos, “para mostrar o miolo de sombra” (Drummond de Andrade).
No segundo livro, Teatro de cordel e formação para cena: textos reunidos, prefaciado por Jean-Marie Pradier, professor da Universidade de Paris, estão coligidos, tal qual no anterior, textos esparsos produzidos entre 1982 e 2008. A coletânea divide-se em três partes. Na primeira, Armindo Bião apresenta alentado material sobre a pesquisa em andamento em torno do cordel, tema que remete à sua infância, quando demonstra interesse por essa manifestação literária que o palco da Bahia acolheu com bastante eficácia estética. O saber resultante desse interesse impregna os textos e confere um sabor especial ao material resultante dos estudos em torno da figura de Doña Maria de Padilla, a espanhola amante de um rei de Castela, que nos giros do mundo veio dar com os costados na terra dos batuques, aparentada do mito de Maria Padilha. Sem afirmar tal coisa, o pesquisador deixa em aberto essa possibilidade, tomando como referência os estudos de Marlyse Meyer, a quem homenageia em Itinerário de Maria Padilla, um dos escritos que nos coloca diante dessa mulher, sob todos os aspectos fascinantes. Suponho que o fascínio enfeitiçou o pesquisador, mas que, enleado, não se perde, visto que os aspectos metodológicos são cordas seguras para que ele abra o pano de boca e mostre a persona e o personagem.
Além da aludida persona histórica, a seleta abraça personagens como o Diabo, a Mulher e Lampião, vistos nos folhetos de cordel sob os diversos ângulos e encenados com os alunos da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, lugar de docência e de expansão de Armindo Bião. A importância dada ao cordel é prova inconteste de suas possibilidades, haja vista a contribuição que o “livreto” tem dado a dramaturgos como Ariano Suassuna e Francisco Pereira da Silva e a encenadores como Martim Gonçalves e João Augusto; e isso para ficar nos reduzidos, mas expressivos, exemplos. Armindo Bião insere-se nessa linhagem não como um especialista em literatura de cordel, como esclarece na introdução de “Mulher é o Diabo!”, mas como um conhecedor-fazedor da arte (manhas) do palco, assunto do todo dessa “vida na obra, a obra na vida”, título do prefácio de Pradier.
Nas seções Da formação para a cena e Miscelânea do mesmo, chama a atenção uma série de documentos sobre a Escola de Teatro, seu Programa de Pós-Graduação, os grupos de pesquisa e também sobre a Associação Brasileira de Artes Cênicas – ABRACE. As informações contidas cobrem aspectos qualitativos e quantitativos de uma produção que, por vezes, não se conhece. Além de apresentar para seus pares o que se faz no espaço acadêmico, o autor informa para o conjunto da sociedade o resultado de um trabalho significativo no campo das artes cênicas.
Transitando pelo teatro, literatura, antropologia, história, invadindo e aproximando fronteiras, Armindo Jorge de Carvalho Bião, ator-professor-pesquisador, tece seu pensamento e sua ação correlatamente, rompendo com a imobilidade do “conhecimento no pensamento particular de cada ciência”, como nos lembra Tereza de Castro Callado em Walter Benjamin: a experiência da origem (2006). A reunião de textos esparsos forma um mosaico onde figuram subjetividade e objetividade, particular e universal, pluralidade e singularidade, numa reveladora cumplicidade orgiástica para a contemplação do mundo, daí a pertinência do trabalho. Conclamo o leitor a partilhar dessa experiência.
Se por ventura a discordância se instalar, e ela torna-se salutar quando é propícia ao diálogo, ainda assim sairá menos pobre ao concluir a leitura desses livros gêmeos, mas não idênticos. Bião sabe que palavras o vento leva, mas quando escritas, permanecem motivando outras palavras para se pensar o mundo contemporâneo para além dos seus limites.
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Publicado originalmente no suplemento Cultural, jornal A Tarde (Salvador - Bahia), edição de 11 de julho de 2009.

domingo, 5 de julho de 2009

Registro 276: Barroco Popular

A exposição virtual Barroco Popular é resultado das minhas vivências e inquietações diante da cultura, fonte de onde retiro o material necessário para poetizar o que sinto. Os quadros apresentados traduzem ideias e sentimentos, retomando um trabalho interrompido desde a mostra coletiva Similitudes, no Centro Cultural Maria Antônia – São Paulo, em 1997, quando expôs trabalhos juntamente com Cláudio Barros, Mônica Colucci e Stela Maris Sanmartin. Os quadros da exposição Barroco Popular estiveram expostos no portal Diário, desativado recentemente, sem que recebesse aviso da Geocities.
Ao revisitar o barroco, evocando-o através da conjugação dos elementos que remetem a esse estilo tão presente no cotidiano brasileiro, busco expressar a capacidade de olhar e decompor em formas as mínimas porções que retenho dessa exuberância extravagante que povoa tetos e paredes de igrejas, solares e palácios em nossas mais antigas cidades, numa leitura sumamente particular.
Essas informações visuais aparecem conjugadas aos elementos florais do chitão, tecido popular no Brasil, utilizado com parcimônia na indumentária, mas de grande emprego na decoração. A opulência de formas e cores contidas nos tecidos remete também ao profuso das formas do barroco português, que aqui chegou para se tornar um traço da nossa identidade artístico-cultural.
Nos trabalhos apresentados, faço a releitura desse momento, instante em que se dá o encontro da criatividade européia com a inventividade dos primeiros artesãos encarregados de decorar as construções públicas e privados da colônia. Ao inserir os elementos da natureza tropical – flora e fauna – esses artistas imprimem uma marca nacional ao barroco. Sobre esse acontecimento carregado de intencionalidade, Ana Mae Barbosa esclarece ter sido o barroco o “primeiro produto cultural do país”, e que, embora fortemente marcado pelo modelo estrangeiro, foi “transformado pela força popular e pela criatividade nativa, conquistando características próprias”. Barroco Popular procura retomar esse instante, não como ele de fato se deu, mas como construção no presente.
Ao organizar, conjugar e sobrepor os elementos visuais para compor a escritura pictórica, utilizo-me da técnica mista sobre tela e mostro trabalhos, via Internet. Ao escolher a net. para veicular trabalho, vou ao encontro dos que pensam as relações entre arte e tecnologia, experimentando as possibilidades. Sobre a inserção na rede e o uso da tecnologia digital no trabalho artístico, Dulcimira Capisani enfatiza a necessidade do artista não se tornar “um mero fornecedor de conteúdos no universo altamente especializado das novas tecnologias”, mas fazer dessa ferramenta um lugar de experimentação como no domínio da prática artística. Quando a exposição no portal Diário, eu apresentava os originais com interferência produzida a partir de ferramentas do computador. Por esse motivo a exposição intitulava-se Barroco Popular - Verso e Reverso, visto que as interferências alteravam as cores originais. Deixei de lado essa opção para concentrar-me nos quadros como eles foram concebidos.
Na perspectiva benjaminiana, a disseminação pela rede impulsiona a reprodutibilidade e a circulação do trabalho, criando um elo "comunicacional" em grande escala.

Azulejos e flores I, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60. Acervo do artista

Fragmento, 2006, Mista sobre tela. 70 x 70. Acervo do artista

Celeste, 2006. Mista sobre tela, 60 x 60. Acervo do artista

Altar floral I, 205. Mista sobre tela, 60 x 70cm. Acervo particular

Azul, 2005. Mista sobre tela 70x70cm. Acervo particular

Êxtase, 2007. Mista sobre tela, 80 x 80 cm. Acervo do artista

Sem título III, Mista sobre tela, 2005, 60 x 60. Acervo particular

Azulejos e flores, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60 cm. Acervo particular

Altar floral, 2005. Mista sobre tela, 60 x 60cm. Acervo do artista

Sem título I, 2005. Mista sobre tela, 50 x 80. Acervo particular

Jardim II, 2004, díptico. Mista sobre tela, 50 x 110cm. Acervo particular

Jardim I, 2006. Mista sobre tela, 40 x 88cm. Acervo particular

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Registro 275: Revista MIMUS

Para ter acesso ao primeiro e futuros números da Mimus, revista on-line de mímica corporal dramática, de acesso gratuito, basta clicar no endereço abaixo:



Registro 274; Entrevista

Em 6 de maio fui entrevistado por Oscar D'Ambrósio; caso tenha interesse em ouvir o bate-papo, basta clicar no endereço abaixo. A minha entrevista é a de número 106. Na conversa, conto um pouco sobre o meu envolvimento com a literatura, com o teatro e com a vida. Outros entrevistados constam da expressiva relação, certamente você encontrará alguns de sua preferência.

domingo, 14 de junho de 2009

Registro 273: Cacilda, * 1921 + 1969


Cacilda Becker em Maria Stuart

Quando da morte de Cacilda Becker em 14 de junho de 1969, distante de nós quarenta anos, o poeta primeiro escreveu o belo poema transcrito aqui, uma homenagem que presto a esse mito do teatro brasileiro. Não vi Cacilda Becker em cena, conheço apenas Floradas na Serra o filme que vez com Jardel Filho, mas convivi com espectadores de seu trabalho. A opinião de todos era unânime: Cacilda iluminava a cena em qualquer peça, em qualquer personagem e mesmo quando não se saía bem era inesquecível. Recomendo a leitura de dois livros fundamentais para compreender esse "monstro de teatro", Uma Atriz: Cacilda Becker, de Nanci Fernandes e Maria Thereza Vargas (São Paulo: Perspectiva, 1984) e Cacilda Becker: fúria santa, de Luís André do Prado (São Paulo: Geração Editorial, 2002)


ATRIZ
A morte emendou a gramática.

Morreram Cacilda Becker.
Não era uma só. Era tantas.
professorinha pobre de Piraçununga
Cleópatra e Antígona
Maria Stuart
Mary Tyrone
Marta de Albee
Margarida Gautiher e Alma Winemiller
Hannah Jelkes a solteirona
a velha senhora Clara Zahanassian
adorável Júlia
outras muitas, modernas e futuras
irreveladas.
Era também um garoto descarinhado e astuto: Pinga-Fogo
e um mendigo esperando infinitamente Godot.
Era principalmente a voz de martelo sensível
martelando e doendo e descascando
a casca podre da vida
para mostrar o miolo de sombra
a verdade de cada um nos mitos cênicos.
Era uma pessoa e era um teatro.
Morreram mil Cacildas em Cacilda.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 11 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

quinta-feira, 4 de junho de 2009