sexta-feira, 15 de maio de 2009

Registro 265: Pra Fanny Abramovich

A PROPÓSITO DA COMEMORAÇÃO
Escrever é uma extensão do hábito prazeroso de ler e é, sobretudo, uma maneira de dividir com o leitor uma parte desse prazer.

Tomei gosto pelos livros descobrindo-os na estante de tia Edna, professora em Baixa-Grande, Bahia. Pinóquio foi o primeiro livro a me fascinar. Depois, veio a descoberta de Lobato e seu universo, seus personagens inesquecíveis. Tanto me impressionaram que, aos dezoitos anos, fiz meu pai comprar toda a coleção de um vendedor que bateu a nossa porta. Anos mais tarde, já em São Paulo conheci apaixonados por Monteiro Lobato, entre eles Tatiana Belinki e Fanny Abramovich. Quando Fanny entrou na minha vida eu tinha escrito o meu primeiro texto de teatro para crianças, Brincadeiras. Por essa época, eu não imaginava que pudesse escrever outras peças e contos e romances curtos, mas ao mexer comigo, Fanny provocou. E dessa provocação descobri em mim possibilidades insuspeitadas.

Voltando a Lobato e aos meus dezoito anos: com outros olhos, reli cada livro do escritor, constatando a permanência do encanto original dos tempos de criança, quando eu ouvia histórias contadas por minha avó Rosinha, que de quebra, sempre narrava uma história de santo. Mais tarde fique sabendo chamar-se hagiografia.

À descoberta da leitura, juntou-se a gostosura de ouvir histórias; depois, vieram os livretos de cordel e, por fim, os livros ditos para adultos. Aí foi paixão desmesurada, sem critério, lendo tudo que caía nas mãos. Levei muito tempo para separar o joio do trigo. Isso não quer dizer que hoje em dia eu mantenha um rigor nas escolhas.

Entre a descoberta da leitura e a descoberta das possibilidades de me tornar um escrevinhador, decorreu muito tempo. E afirmo: quem me levou para a literatura foi o teatro. Como disse acima, escrevi Brincadeiras, com ela ganhei um prêmio que, depois vim saber, foi defendido com unhas e dentes por um dos membros da comissão julgadora: Fanny Abramovich. Ela me disse um dia que viu no texto inventividade.

No livro de Fanny, O estranho mundo que se mostra às crianças (Summus), há um capítulo destinado ao teatro infantil. No texto, publicado anteriormente no Jornal da Tarde, em 2 de setembro de 1978, Fanny discorre sobre o teatro para a infância e a juventude e completa seu texto com depoimento dos autores premiados no IV Concurso de Dramaturgia Infantil do Serviço Nacional de Teatro (1977). A partir desta matéria/entrevista, Fanny Abramovich entrou na minha vida de uma maneira provocadoramente lúdico-lúcida

Em 1987, quando dirigia a Coleção Estrela para a Editora Salesianas, Fanny me pediu que retrabalhasse uma história perdida no fundo de uma gaveta. Essa história se tornou o meu primeiro conto publicado: Um muro no meio do caminho. Foi um processo vivenciado com raro prazer. A história de um garoto que deseja um muro no meio do caminho para a escola parecia um despropósito, mas se tornou um exercício de imaginação e rebeldia, tanto para o personagem quanto para mim. Pena que a Editora interrompeu a coleção! Gosto de estar na coleção tendo como companheiros Vivina de Assis Viana (O rei dos cacos), Sylvia Ortoff (A mesa do botequim e seu amigo Joaquim e Dita-cuja, a coruja), João das Neves (A árvore cheia de estrelas) Flávio de Souza (Uma menina e um menino, Papel de carta, papel de embrulho e Filho de artista), Roseana Murray (Um avô e seu neto) e Fanny Abramovich (Deixa isso prá lá, vamos brincar).

Uma coisa puxa a outra e fui parar no Bambalalão, reprisado hoje na TV Rá-Tim-Bum. Escrever para o Bambalalão, programa para crianças produzido pela TV Cultura de São Paulo, me familiarizou com a linguagem do texto para a televisão. Semanalmente, escrevia histórias dramatizadas e pequenos contos para o elenco do programa. Divertia-me depois, vendo os atores improvisando e brincando em cima dos textos.

A entrada no universo da literatura juvenil se deu com o livro Primavera pop! publicado pela Editora Saraiva. Mais uma vez, o dedo de Fanny! Por sua indicação, encaminhei o trabalho para Cláudia Abeling-Szabo, responsável na época pela Coleção Jabuti. Primavera pop conta a história de Ana Maria e da sua amizade com tio Miguel, de quem ela descobre um caderno onde ele narra fatos da sua infância e adolescência. Conta também a relação da garota com a família, os colegas e sobretudo com seu primeiro namorado. As histórias de tio Miguel permeiam a história de Ana Maria com emoção e fantasia. O livro está nas livrarias.

Um segundo livro para jovens, Braçoabraço, é mais um título que tenho na Coleção Jabuti. O personagem central, Tuim, vive aventuras e desventuras quando é abandonado na cidade grande. Ao ser flagrado por um fotógrafo dormindo nos braços de uma estátua, vira primeira página de jornal. A partir daí, sua vida toma novos caminhos.

Outros trabalhos foram sendo produzidos e publicados: Da Costa do Ouro e Quem conta um conto aumenta um ponto (Saraiva), De cara para o futuro (SM), Bacanas e famosos no caderno de autógrafos, Um grilo no pedaço (Paulinas), Sob o signo das Luzes (FTD) Outros estão prontos a espera de editores. Novos projetos tomam corpo, outros são deixados de lado. Continuo o meu exercício diário, criando, recriando, destruindo e construindo, através de uma prática que implica em leitura, observação e exercícios imaginativos para dar vida aos personagens e suas ações num mundo do qual sou criador.

Procuro falar ao imaginário do leitor, acreditando na sua capacidade de desejar uma integração com o texto de tal forma que, ao acabar a leitura, ele possa se sentir motivado a dar continuidade ao exercício de ler e ter prazer, de ler e ser crítico, de ler e estabelecer um diálogo com as idéias... Aposto sempre na possibilidade de que este jogo se torne uma necessidade para sua vida, um contraponto para a mesmice que empobrece nosso cotidiano.

A obra literária torna-se um objeto social, que proporciona ao leitor uma vivência que de outra forma não poderia experienciar no cotidiano. Isso nos torna abertos para compreender a vivência de outras pessoas e de outras culturas. Acreditando nisso, vou tecendo as minhas histórias, como o galo de João Cabral de Melo Neto tece a manhã.

Ao escrever esse texto, aproveito a oportunidade para homenagear a minha amiga e incentivadora, Fanny Abramovich. Ela já vendeu mais de um milhão de livros, e escreve lindamente. No dia 16 de maio a escritora lança três livros, De surpresa em surpresa, Espelho, espelho meu e Três desejos tão desejados, todos pela Saraiva – Atual. Na ocasião Fanny comemora 20 anos de carreira. E que bela carreira: escritora, pedagoga, jornalista, consultora e descobridora de pessoas que iniciam seus caminhos pelas vias da escrevinhação, conduzidos pelos seus risos vibrantes e por sua torcida. Os ilustradores dos livros, Marcio Levman, Vivian Altman e Marcelo Cipis foram alunos de Fanny no Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleicham, espaço educativo onde aprendi de fato a ser professor. Coincidentemente, os ilustres e talentosos ilustradores, já crescidos foram também meus alunos. A vida tece esses encontros, borda a afetividade, nos recheia de lembranças.

Existem pessoas que passam pelo mundo espalhando belezura e Fanny é uma delas. Ela espalha tudo isso nos seus livros, nos postais que me envia e nas conversas por telefone, sempre tarde da noite. Notívaga, a escritora está sempre pronta a prosear enquanto grilos cantam, estrelas piscam e alguns dormem.

Caso você encontre um dos livros – são muitos – de Fanny Abramovich, não deixe de abrir e se deliciar com uma prosa criativa, crítica, brincalhona, cheia de sentimentos, permeada de humanidade. Tenho todos eles autografados carinhosamente. Não posso estar na festa dos 20 anos como estive na festa comemorativa de um milhão de títulos vendidos. Mas estou na torcida, catando parabéns e esperando novos livros, porque Fanny não dorme no ponto. Ela escreve...
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Esse texto, anteriormente publicado em http://www.geocities.com.rmleao/ , endereço desativado, foi reescrito em função da comemoração dos 20 anos de carreira de Fanny Abarmovich.

domingo, 10 de maio de 2009

Registro 264: Depoimento VI

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.
Antônio Marques, nascido em Conceição do Jacuípe, interior da Bahia, Antônio Marques é formado em Direção Teatral pela Universidade Federal da Bahia, em Artes Plásticas pela Universidade Católica do Salvador e Especialista em Fundamentos do Ensino da Arte pela Faculdade de Artes do Paraná. Diretor Artístico da Arte Sintonia Companhia de Teatro desde a sua formação, em 2000, onde dirigiu os espetáculos “Um Cravo na Lapela”, “A Serpente”, “Pedaço de Mim”, “A Lei e o Rei”, “Supernordestinos Contra o Monstro da Mandioca” e “Zona Contaminada”. Em 2008, dirigiu “O Submarino”, comédia de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, com Diogo Lopes Filho e Márcia Andrade. Fez curso de Direção Teatral com Fernando Guerreiro e de Dramaturgia com Aninha Franco. Em julho, sob sua direção, estréia o infanto-juvenil “H2Ópera”, de Luís Sérgio Ramos.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Sou um grande apreciador do teatro baiano, acredito muito no teatro que fazemos aqui, não só pela qualidade que imprimimos em nossos trabalhos, mas também pela garra que temos, onde fazemos espetáculo com ou sem dinheiro, com a mesma entrega. Mas voltando a pergunta, além dos atores da Arte Sintonia – Cia que dirijo – Denise Correia, Lívia França, Leonardo Freitas e Gilson Garcia, muitos atores baianos me impressionam em cena, principalmente as mulheres, dentre elas: Cristiane Mendonça, Andréa Elia e Rita Assemany. Da nova geração, acompanho e gosto muito do trabalho de Simone Brault (com quem já tive o prazer de trabalhar) e Mariana Freire.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Meryl Streep, sem dúvida! Toda as vezes que a vi interpretando fiquei fascinado. Nicole Kidman também faz parte da minha galeria, só acho que ela poderia escolher melhor os roteiros, mas é uma excelente atriz.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Sou fruto da Escola de Teatro da UFBA, então, os meus mestres serão sempre minhas referências, por isso, acompanho de perto o trabalho de Luiz Marfuz, Deolindo Checcucci, Paulo Cunha, entre outros. No entanto, toda vez que assisto a um espetáculo de Fernando Guerreiro, saio maravilhado do teatro, porque por mais que já tenhamos visto suas encenações, ele sempre nos traz frescor, nos faz sair maravilhados, seja nas comédias rasgadas, com uma assinatura que só ele tem, ou em espetáculos densos, como “Calígula” e “Eqqus”.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Pode ser eu? (risos)

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
“Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou!”, com a Mônica Martelli. Não dava nada pela peça, mesmo sabendo de todo o sucesso que já havia feito no eixo Rio/SP. Sai do teatro ligando para os amigos irem assistir.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Nossa, já assisti a tanta coisa boa! “Senhora dos Afogados”, resultado do Curso Livre da UFBA com direção de Paulo Cunha, “Abismo de Rosas” foi um espetáculo fascinante, “Lábaro Estrelado”, a primeira versão de “Cabaré da Raça”, hoje se perdeu, mas quando estreou era maravilhoso.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
“O Sapato do meu Tio”, com direção de João Lima. Saí do teatro com minha vocação reafirmada.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
“Mestre Haroldo e os Meninos”, dirigido por Ewald Hackler. A peça fala de respeito, igualdade, mexe com questões raciais e, sem dúvida, me fez refletir sobre estes assuntos.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Comédia é um gênero de primeira, sem dúvida, quem não gosta de rir? Mas é necessário que tenhamos outros gêneros com casa cheia também.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
“Seu Bonfim”, com Fábio Vidal.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
“A Casa de Eros”, de Possi Neto, em comemoração aos 40 anos da Escola de Teatro da UFBA.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
O ciclo de “Os Sertões”, encenado pela Oficina Uzyna Uzona, no Museu do Ritmo.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
“Abismo de Rosas” de Cláudio Simões e “Alta Noite”, de Elísio Lopes Jr.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
“Eles não usam black-tie”, de Gianfrancesco Guarnieri. Mais do que nunca, é preciso entender que o coletivo vale mais do que o individual.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Flávio Marinho, pela ausência de encenações de seus textos na Bahia.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Caramba, já assisti tanto mau teatro, (risos) vindo do Sul. Recentemente, assisti “O Manifesto”, protagonizado por Eva Wilma, mas lembro também que assisti, há alguns anos, “Gata em teto de zinco quente”, com Vera Fischer. Eu e meus amigos saímos constrangidos do teatro.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Não temos críticos em Salvador.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
“As Primícias” de Dias Gomes; “Coração Brasileiro” de Flávio Marinho e “Gota D’ água” de Chico Buarque.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Disciplina, comprometimento.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Salvador tem uma coisa que me incomoda: aqui, todo mundo pode ser autor, pode ser diretor, pode ser ator. Concordo, acho que todos podem, desde quando estude para isso. O que me irrita é que muita gente diz que não gosta de teatro e, por acaso, vai assistir a uma peça que um amigo fez de um curso qualquer, com um resultado qualquer, e vai sair de lá achando que assistiu a uma peça de teatro e convicto de que teatro é uma merda.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Registro 263: Livro sobre teatro na Bahia

Lançamento
Transas da cena em transe: teatro e contracultura na Bahia
(Edufba, 2009, 400 p., R$ 30,00)
Raimundo Matos de Leão
Dia 06 de maio de 2009, quarta-feira, a partir das 18h30m, na Galeria do Livro
(Espaço Unibanco Glauber Rocha).

Transas na Cena Transe, Teatro e Contracultura na Bahia, uma publicação da Edufba é derivado da tese defendida no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas – UFBA, em 2007. O livro aborda questões relativas ao teatro em meio ao idearia contracultural, investindo sua argumentação contra a afirmação de que a produção teatral que se dá de 1968 a 1974 é destituída de criticidade. Propondo outro ponto de vista, o livro apresenta e analisa a produção teatral para afirmar que não houve um “vazio cultural” durante o período em que o governo civil-militar esteve no poder e utilizou a censura e a repressão para calar os artistas. Tomando como fonte de sua pesquisa os jornais da época, o depoimento dos envolvidos com a produção teatral em Salvador e fontes secundárias, o professor Raimundo Matos de Leão dá continuidade à pesquisa sobre a história do teatro na Bahia a partir dos meados dos anos 1950, tema do seu livro anterior Abertura Para Outra Cena, O Moderno Teatro na Bahia, lançado em 2006, uma publicação da Edufba em conjunto com a Fundação Gregório de Mattos. Nessa obra, o autor cobre o período anterior à criação da Escola de Teatro para afirmar que a vida teatral em Salvador sofreu um impulso modernizador a partir da existência da instituição universitária dirigida por Martim Gonçalves. Transas na Cena em Transe avança pela década de setenta, para mostrar um momento significativo do teatro na Bahia, tema de pesquisa a quem vem se dedicando o autor.

Transas na Cena em Transe concentra-se no período que vai de 1967 a 1974, historicamente reconhecido como o auge da contracultura, do desbunde, da festa, da militância guerrilheira. As ações culturais desse período, conceituadas como imbuídas de romantismo revolucionário, inscrevem0-se como reação ao crescente autoritarismo do regime civil-militar. O teatro obriga-se a encontrar formas para manter-se vivo e nos palco de Salvador surgem encenações que traduzem de modo explícito as transformações por que passa a cena mundial. No livro, o autor apresenta os espetáculos, Uma Obra do Governo, Stopem, Stopem, Macbeth, O Futuro Está nos Ovos, Rito do Amor Amargo, Electra, O Diário de um Louco, A Casa de Bernarda Alba, Titus Andrônicus, revelando para o leitor de que maneira os encenadores conceberam seus trabalhos.

Mais informações no endereço on-line:
http://edufba.blogspot.com/
EDUFBA (71) 32836160
http://www.blogger.com/

Registro 262: Luiz Fernando ramos escreve sobre Boal

MAIS DO QUE PEÇAS, REFLEXÕES E IDEIAS IMORTALIZAM BOAL
Luiz Fernando Ramos
Crítico da Folha
(Folha de S. Paulo, 05.05.2009)

Há um consenso em torno de Augusto Boal. É a personalidade do teatro brasileiro mais conhecida internacionalmente, com livros traduzidos para vários idiomas e seu nome inserido nas principais enciclopédias teatrais. Se esse reconhecimento abrange a sua condição de dramaturgo e encenador, foi principalmente pelas suas ideias e reflexões teóricas que Boal se fez famoso.Sua primeira contribuição teórica relevante foi o "sistema coringa", surgido nos anos 60 no Teatro de Arena. Boal partiu das ideias de Bertolt Brecht, particularmente do efeito de estranhamento, em que se propõe ao ator uma distância de seu personagem, para que possa ver criticamente suas ações e permita ao público partilhar esse olhar crítico.Boal distanciou atores dos personagens por meio do uso coletivo dos papéis, com os atuantes compartilhando a mesma "máscara", ou característica social e psicológica.Essa técnica foi utilizada pela primeira vez em 1965, na encenação de "Arena Conta Zumbi", e aprimorou-se no espetáculo seguinte, "Arena Conta Tiradentes".
A "Poética" de Augusto Boal, como a chamou Anatol Rosenfeld, foi publicada sob o título "Elogio Fúnebre do Teatro Brasileiro Visto da Perspectiva do Arena". Rosenfeld apontou, no ensaio crítico "Heróis e Coringas", a incompreensão por Boal das teses de Brecht ao conceder aos protagonistas a empatia diante do público que recusava ao coro. Segundo Rosenfeld, mesmo reconhecendo a importância "singular" do ensaio de Boal "no pensamento estético brasileiro", essa opção favorecia uma identificação festiva do público com o herói, no caso Tiradentes, e traía as ideias de Brecht.
Com o livro "O Teatro do Oprimido e Outras Políticas Poéticas", de 1975, escrito no exílio na Argentina, Boal produziu sua obra teórica mais influente. Ali, combinou técnicas teatrais por ele criadas, como o teatro invisível, o teatro jornal e o teatro fórum, para mesclar a ação teatral e a ação política contra todas as formas de opressão -econômica, familiar, racial ou religiosa.Boal continuaria produzindo livros que aprofundavam aquela ideia fundamental, de que qualquer ser humano pode atuar em favor da transformação de si e do mundo. Em um de seus últimos ensaios, de 2006, discutiu o teatro do oprimido na perspectiva da sensibilidade dos bebês.O legado de Boal como pensador pode ser avaliado pelos inúmeros grupos, no mundo todo, que partem de seus exercícios e estratégias teatrais na militância política e nas práticas de ensino e de ação cultural. Muito menos que por suas peças e encenações, imortalizou-se pelos seus escritos.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Registro 261: Aderbal escreve sobre Boal

AUGUSTO FOI O NOSSO BRECHT
Aderbal Freire Filho
Diretor de teatro
O TEATRO brasileiro no mundo tem um nome: Augusto Boal. Vá a Amsterdã, entre numa livraria e peça um livro de Boal. Você não vai conseguir ler, a menos que saiba holandês. Boal está traduzido muito além do espanhol, do francês e do inglês. Mas não estou aqui para falar dos livros, quero falar do homem. E começo ouvindo esse homem falando, o ritmo da fala, a música que vai juntando frases harmoniosamente, com um pensamento claro, a cadência das palavras, uma respiração buscada no fundo do peito para uma frase mais e, depois, quando o raciocínio se completa, um volteio e um final em que os temas se fecham, com extraordinária clareza.
Estou ouvindo uma explicação que me deu sobre um seminário seu com atores da Royal Shakespeare Company. Ali, o teatro ainda tem a força dos seus melhores tempos -se você abre o programa de uma peça, vai encontrar duas páginas com os nomes de quem faz aquele teatro existir, começando com os de sua patrona e de seu presidente, Sua Majestade, a Rainha e Sua Alteza Real, o Príncipe de Gales, indo até os contrarregras e o pessoal da maquiagem, passando pelos atores, o centro de tudo. Isto é, ali está a Inglaterra inteira.Pois estava claro para a companhia que seus atores precisavam conhecer mister, dom Augusto Boal, artista capaz de fazer um teatro mais aberto para a sociedade do que qualquer outro, capaz de transformar o espectador em ator. E levaram Boal para conviver com eles, treinaram suas técnicas, sabendo que assim chegariam mais perto ainda do povo, como chegava o cidadão William Shakespeare. E digo cidadão pensando na frase de Boal, dia desses, na Unesco: "Cidadão não é aquele que vive em sociedade, é aquele que a transforma".
O Alcione Araújo me telefona, "não vou esquecer meu diálogo com o Boal para uma revista, à propósito da sua autobiografia". Geraldinho Carneiro me escreve, "as célebres façanhas poéticas e conceituais do Boal, o teatro invisível, o teatro do oprimido". Era preciso muitos fôlegos, por trás da voz mansa, para ter tanta presença no teatro do Brasil, do mundo, do seu tempo, de todos os tempos. Pode-se dizer muito dele. Prefiro escolher nesse abraço a lembrança de uma ação nacional, que talvez não tenha muita valia na sua cotação internacional, mas, céus, como enriqueceu o teatro brasileiro.
Em meados dos anos 50, Boal organiza o seminário de dramaturgia do Teatro de Arena, marco da história da nossa cena, e forma uma das nossas mais brilhantes gerações de autores, em que despontam Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri. Nunca me esqueci da sua Revolução na América do Sul, o teatro brasileiro moderno nascendo, sua geração botando o dendê no caldo que Nelson Rodrigues começara a preparar. E Arena Conta Zumbi, Tiradentes, outros brechts pelo mundo, me lembro de Santiago García, da Colômbia, e ouço Eugenio Barba dizendo "é o Brecht deles", foi nosso Brecht o Boal. Nos encontramos pela última vez na sala de espera do consultório do Flávio, para tratar de nossos corações, era véspera da sua viagem a Paris, onde receberia o título de embaixador mundial do teatro. E me disse, "na volta vamos tomar um vinho lá em casa". Não sabíamos que entre esse encontro e o vinho prometido "ia passar o famoso rio Aqueronte, o insuperável". Mas imagino que, ao lado de Cecília, tua querida e admirável companheira, a única voz que ouço te chamar de Augusto, diante do Arpoador, visto da janela do teu acolhedor apartamento, tomas esse vinho, imortal Augusto Boal.
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O texto de Aderbal foi bublicado no jornal Folha de S. Paulo, edição de 4 de maio de 2009. No registro anterior, indiquei dois textos que falam sobre a ação de Augusto Boal. Indico mais um, o livro de Iná Camargo Costa: A hora do teatro épico no Brasil (Graal,1996) . Vale conferir.

domingo, 3 de maio de 2009

Registro 260: Augusto Boal

Morreu Augusto Boal.
O teatro brasileiro perde uma das suas mais expressivas figuras. Ainda que discorde de alguns encaminhamentos que deu para o teatro depois de sua experiência frutuosa no Teatro de Arena de São Paulo, não me sinto confortável em apontar o que me incomoda no Teatro do Oprimido e seus derivados, Teatro Fórum, Teatro Invisível. Lembro que uma aluna, de quem gosto muito, fez seu trabalho de conclusão de curso tomando Boal e o Teatro do Oprimido como objeto de sua pesquisa. Na ocasião, disse-lhe que estava disposto a colaborar, mas que seria um crítico da tal metodologia. Ela não me ouviu. Depois me entrevistou, incluindo a minha fala no seu texto. A atriz finalizou sua pesquisa exitosamente, saindo-se muito bem, tanto no trabalho escrito quanto na sua apresentação pública. Foi segura na sua exposição e me emocionou.
Durante os meus anos de teatro que se estende de 1968 até agora, só conheci Boal pelos livros que deixou ou por aquilo que se escreveu sobre ele, e não é pouco. Não vi nenhum dos seus trabalhos para o palco, o que lamento.
Para quem se interessar em conhecer o trabalho de Augusto Boal, recomendo o livro de Edelcio Mostaço, Teatro e política: Arena, Oficina e Opinião, uma interpretação de cultura de esquerda (1982). Embora esgotado, pode-se encontrar um exemplar nas boas bibliotecas - se houver - das instituições de ensino do teatro. Outro texto interessante é de José Arrabal, Anos 70: momentos decisivos da arrancada, publicado em uma nova e cuidada edição da Aeroplano (2005). Vale a pena conferir os dois e se deter sobre eles. Existem outros. Mas esses estão sobre a minha mesa de trabalho, já que preparo material para as minhas aulas de História do Teatro Brasileiro II . Aproveito para lembrar que Mostaço nos deve uma reedição de seu livro. Sei que ele vem batalhando por isso. Tanto um autor quanto o outro apresentam Agusto Boal para o leitor e dimensionam seu trabalho, apontando os aspectos positivos de sua trajetória e de suas ideias, sem deixar de lado os aspectos que avaliam como negativo.
Através do cenógrafo Flávio Império, ouvi muitas histórias sobre o Teatro de Arena. Não as revelo, já que são confidências. E como Flávio Império não me autorizou a contá-las, calo-me. São histórias de bastidores. Falar de Augusto Boal é falar do Teatro de Arena, para mim, muito mais que do Teatro do Oprimido. É no Teatro da Teodoro Baima que ele vai dar corpo ao fazer-pensar teatro, marcando a sua passagem pela cena teatral brasileira de maneira muito forte. Toda essa experiência e a posterior estão registradas por ele em seus livros; Boal deixa como um legado de suma importância para quem deseja conhecer um percurso, uma vida dedicada inteiramente ao teatro. Um vida dedicada inteiramente ao teatro. Nos anos sessenta os jornais registram sua passagem por Salvador, participando de um Seminário na Escola de Teatro e de apresentações de espetáculos do Arena entre nós.
Aproveito a ocasião para reproduzir o texto publicado no jornal Folha de S. Paulo (03.05.2009):
Morreu na madrugada de ontem, aos 78 anos, no Rio, o teórico, diretor e dramaturgo Augusto Boal, expoente do teatro de resistência à ditadura no Brasil. Ele teve insuficiência respiratória, complicação decorrente de uma leucemia.Boal estava internado desde terça-feira com infecção nas vias respiratórias, segundo o Hospital Samaritano. Lutava contra a leucemia "havia vários anos", de acordo com seu filho Julian.
O corpo será cremado no fim da tarde de hoje, no Cemitério São Francisco Xavier.O diretor tornou-se mundialmente conhecido pelo teatro do oprimido, metodologia criada por ele em 1972 que conjuga teatro e ação social.Em 25 de março deste ano, em Paris, ele foi nomeado embaixador mundial do teatro pela Unesco. Na ocasião, encerrou seu discurso assim: "Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma!".
Nascido em 1931, no Rio, Boal formou-se químico aos 21 anos, mas, aos 24, decidiu cursar teatro na Universidade Columbia (EUA). Um ano depois, em 1956, estreou como diretor no Teatro de Arena, em São Paulo, com a peça "Ratos e Homens", de John Steinbeck.Em 57, criou seu primeiro texto, a comédia "Marido Magro, Mulher Chata". Dois anos mais tarde, o sucesso de "Chapetuba Futebol Clube", com direção dele, confirmou o acerto da decisão do Arena de investir em dramaturgia nacional.
No começo dos anos 60, Boal foi um dos articuladores de um intercâmbio entre os grupos Arena e Oficina, que gerou espetáculos como "A Engrenagem" e "José, do Parto à Sepultura". Diretor deste último, Antônio Abujamra disse ontem que Boal "era a demonstração de que um diretor de teatro é um bicho social que tem de atuar com uma visão crítica". A partir de 62, ainda no Arena, esteve à frente de um movimento de nacionalização de textos clássicos, que incluiu montagens de "A Mandrágora", de Maquiavel, e "Tartufo", de Molière. Pouco após o golpe de 64, dirigiu no Rio o show "Opinião", que reuniu artistas num gesto de resistência ao regime. A partir daí, assinou musicais que recriavam biografias de personagens históricos, como "Arena Conta Zumbi" e "Arena Conta Tiradentes". Nessa série, criou o chamado "sistema coringa", em que atores se revezavam nos papéis.Entre 68 e 70, excursionou com o Arena por EUA, México e outros países.
Em 1971, foi preso pelo regime militar, pelas ligações com o Partido Comunista do Brasil. Três meses depois, ao ser solto, foi para os EUA e, em seguida, para Argentina e Portugal. Ali, começou a difundir o teatro do oprimido, em suas palavras, "uma metodologia transformadora que propõe o diálogo como meio de refletir e buscar alternativas para conflitos interpessoais e sociais".No exílio, escreveu "Mulheres de Atenas" (adaptação de "Lisístrata", de Aristófanes), com letras de Chico Buarque, que ontem lembrou: "A gente se correspondia muito e disso resultou a canção "Meu Caro Amigo" (1976), parceria com Francis Hime, destinada a ele. Nos últimos tempos [...], deixamos de nos ver, mas a amizade se manteve".Com a anistia, Boal retornou ao Brasil, em 1984. Em 1993, enveredou pela política: foi eleito vereador e usou as técnicas do teatro do oprimido para ouvir as queixas da população e elaborar projetos de lei.
Ficamos mais pobres.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Registro 259: Depoimento V

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.
Jacyan Castilho, atriz formada em Interpretação pela UniRio em 1986. Ms. em Teatro também pela UniRio em 2000, Dra. pela UFBa em 2008. Portanto, atriz e professora (da Escola de Teatro da UFBa). Bailarina formada pelo Curso Técnico Profissionalizante da Escola Angel Vianna, no RJ. Portanto, também bailarina. E diretora, coreógrafa, preparadora corporal, etc, em dúzias de trabalho, no RJ, RS, SP, BA.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Os meus preferidos: Marco Nanini, Denise Stoklos. Porém, morando longe do eixo Rio/SP, tem estado mais difícil acompanhá-los. Aqui na Bahia eu sigo de perto o Fabio Vidal. E espero ainda acompanhar por muito tempo a Mariana Freire, jovem atriz muito, muito talentosa.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Um cara das antigas, chamado Dick Bogart, de Morte em Veneza. Por incrível que pareça, adoro o Jim Carey. Atualmente, a Penélope Cruz. E gosto muito de uma galera jovem e nacional: Fernanda Torres, Débora Block, Andréa Beltrão, Matheus Nachtergale, Lázaro Ramos, Wagner Moura.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Denise Stoklos. Me fez retornar, ou retomar, o teatro todas as vezes em que eu já o havia abandonado.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Huuuummmm.... eu?

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Vau da Sarapalha, do Grupo Piolim, da Paraíba. Quando eu assisti, ainda não era cult, fui ver só por curiosidade. E era o máximo. E o Romeu e Julieta, do Galpão, que também ainda não era tudo isso. Os amigos recomendaram: “É fofo!”. Mas era muito mais que isso.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Infelizmente, moro aqui só há seis anos, portanto não acompanho há tanto tempo o cenário artístico baiano, para citar momentos marcantes.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Rapaz... nenhuma. Elas me fazem mal quando são ruins.
8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Um fax para Cristóvão Colombo, da Denise Stoklos. Essa era perturbadora, mas só me fez bem.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
De segunda a domingo. Se for de primeira, melhor ainda.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Acho que as de Beckett. Algumas são tão difíceis que eu até hoje não entendo nada (risos). Mas são um marco, né.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
Hoje é dia de rock, do Teatro Ipanema, Rio. Eu não tenho idade pra ter visto.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
Macunaíma, do Antunes. Inesquecível e deliciosa. Assisti quando comecei a me interessar por teatro, com uns quatorze, quinze anos. A gente se perguntava: como pode durar umas quatro horas e eu nem sentir?

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Xi... Não sei responder.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Os mesmos que são (exaustivamente) remontados: Nelson, Plínio, Suassuna... Mas acho que Machado de Assis ainda não foi “dramatizado” o suficiente.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Silveira Sampaio.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Ah.... são tantos, que eu nem sei dizer. Acho que meu gosto pessoal deve ser de Marte, de tão diferente do gosto do senso comum que ele é. Bem, é incômodo apontar alguém, mas nunca entendi porque Moacyr Góes, do Rio, foi sempre tão festejado.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Críticos? Que críticos?

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Vale sonhar? Medeia, Mãe Coragem e as sobrettes, isto é, as empregadinhas engraçadas, do teatro de gabinete do início do séc. XX. Ah, quatro, vá: adoro a Shirley Valentine, da peça de mesmo nome.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Rigor. Inteligência e rigor.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Pode parecer elitista, mas eu gosto do teatro feito por quem entende, por quem gosta, por quem estuda e quem é talentoso. Então o que me incomoda é a sensação de que qualquer um, mas qualquer um mesmo, podia ter feito aquela porcaria.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Registro 258: Scotty Wagner

"We hope for better things; it will rise from the ashes. Detroit #1"
Sheepskin (pele do carneiro), Rope (corda), Sticks (varas)
Eis que de repente me chega uma mensagem eletrônica vinda dos Estados Unidos. O autor escrevia em português e pedia desculpas pelos erros, já que não dominava o nosso idioma. Com todos os problemas, entendi muito bem o que ele queria e passamos a conversar por essa via surpreendente que é a Info-via, uma estrada de muitos atalhos, rápida e sem muita burocracia. Ela nos coloca em contato com pessoas do mundo inteiro. É certo que nesses contatos muita coisa indesejável chega até nós. Não é o caso da mensagem de Scotty Wagner, artista plástico, desejoso de conhecer a Bahia e quem sabe estudar por aqui.
Scotty estuda na Universidade de Michigan e seu interesse em manter contato com o ambiente das artes visuais de Salvador fez com ele me escolhesse como interlocutor. Não sei os motivos nem como me encontrou para solicitar informações sobre o assunto que lhe interessa, mas a aproximação se deu. A partir daí, o diálogo se fez. Logo na primeira mensagem, ele anexou a imagem de um dos seus trabalhos. Não consegui abrir o documento, talvez por imperícia, já que não domino muito bem essa ferramenta. O computador para mim é uma máquina de escrever metida besta. Além disso, como não aprendi datilografia, meto os dedos onde não devia e provoco desastres.
Mas voltemos ao assunto desse registro. Pedi a Scotty enviasse novamente o imagem e agora ela é publicada em Cenadiária.
O trabalho de Scotty Wagner, pelo menos esse, me impressionou bastante. Primeiro por unir materiais orgânicos tão díspares num contraste que denota força e convívio entre esses elementos contrastantes, pele de carneiro, corda, varas ou gravetos, ocupando o campo/espaço e o campo da nossa percepção e consciência. Retirados da natureza, processados pelo vigor criativo, o trabalho traz para o interior do espaço onde se mostra as forças vitais contidas na matéria tão próximas de nós, transpostas de um lugar para outro.
Ao olhar We hope for better things; it will rise from the ashes. Detroit #1 a memória do sertão se faz tão presente. Mas não procuro uma narrativa. A pintura, a escultura já não precisam narrar, mas ser tocado pelo trabalho de Scotty Wagner um reboliço de abelhas, pios de pássaros, estalar de madeira e balidos ecom em mim. Ecoam também os cheiros agrestes e o surdo barulho do porrete abatendo carneiros e bodes.
Espero que Scotty venha até a Bahia e amplie seus contatos com os da terra. É sempre bom lembrar que o diálogo alimenta. Ao olhar a escultura ou o objeto, como queiram, minha memória leva-me também a Joseph Beuys (1921-1986). Penso que a escultura de Scotty conversa com obras do alemão. E se porventura existe em Scotty a "angústia da influência", não alimentemos tal sentimento. O que vemos são passagens, conexões e o que fica é a sua criação

quarta-feira, 15 de abril de 2009

registro 257: Convites... Dê as caras, ficarei contente

UM GRILO NO PEDAÇO
Dia 23 de abril, às 15:00
9a Bienal do Livro da Bahia
Centro de Convenções
Estande da Editora Paulinas

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Registro 256: Mais um livro na praça


No dia 23 de abril, às 15:00 h, na Bienal do Livro da Bahia, lanço o livro de literatura juvenil Um Grilo no Pedaço, no estande da Editora Paulinas. No dia 24, às 10:30 h, retorno para uma manhã de autógrafos. O livro conta a rixa entre os Grilos e os Cometas, duas turmas que vivem criando a maior confusão no bairro e desejando, cada uma, um lugar para se reunir e ficar na sua. Os Grilos, que não admitem meninas na turma, encontram um terreno baldio e pela força querem se impor, gerando tensão e receio entre os Cometas. Até que um dia, Rafa, dos Grilos, encontra Lili Astral, dos Cometas e resolvem mudar a situação.
A ação se passa numa grande cidade e os conflitos são decorrentes da falta de entendimento causado pelo não reconhecimento da diferença, gerando desamor e ódio entre as duas tribos. Adolescentes, os personagens trazem as marcas do seu tempo, do aqui e agora.
Ilustrações de Alberto de Stefano.

terça-feira, 31 de março de 2009

Registro 255: Insensibilidade

Transcrevo a notícia tal qual está na Folha de S.Paulo edição de 31 de março de 2009, motivado pelo fato de não encontrar resposta para tanta estupidez. Não há explicação que consiga dar conta da miséria humana. Ao acabar de ler o relato fui tomado por uma forte tremor emotivo. Você leitor poderá perguntar os motivos dessa reação, se tantos crimes estúpidos acontecem diariamente. Isso é certo, mas não tenho explicação para lhe dar. Só quero registrar o fato e pensar na doença que cada um carrega dentro de si. Com isso não quero justificar o ato como fruto da insanidade. Não. É fácil encontrar a resposta ao dizer: - É um louco. Isso não basta. Eu queria compreender, somente isso. O que passou pela cabeça desse humano-monstro? O que levou-o a levantar a arma depois de ter consumado o assalto? Em que ferida Karla Reis tocou, para fazer o rapaz gritar? Pois o gesto dele só pode ser um grito... Eu queria sentir comoção por ele da mesma forma como senti essa jovem que não conheço, abatida assim sem mais. Meu coração é demasiadamente humano e por isso endurecido em algum lugar que desconheço. Ou melhor que não admito, já que choro diante da desdita da moça...

Conversando com um amigo sobre o acontecido, ele falou do estado de barbárie em que vivemos. Eu continuo perplexo diante do caso.

Jovem é morta após pedir que ladrão devolvesse Bíblia

A estudante Karla Reis, 25, foi assassinada com um tiro na nuca diante dos pais, no Rio. Filha única, a moça voltava de um culto da Assembleia de Deus com os pais quando ocorreu o assalto; família afirma que ela não reagiu
ITALO NOGUEIRA, ANDRÉ ZAHARDA
A estudante Karla Leal dos Reis sairia ontem com os pais para comprar o presente de seu 25º aniversário, completados no sábado. Mas um assalto na noite de domingo interrompeu os planos e, em vez de comemorar mais um ano de vida da filha única, o porteiro Carlos Antônio dos Reis e a vendedora Iolete Fátima dos Reis tiveram que enterrá-la no cemitério do Catumbi, no centro do Rio.A jovem foi morta diante dos pais, a poucos metros da sede da Prefeitura do Rio, por um homem que acabara de roubar sua bolsa. A família voltava de um culto da igreja Assembleia de Deus quando, por volta das 20h, foi abordada por três homens -um deles armado.De acordo com o depoimento dos pais, a família tinha descido de um ônibus. Após serem abordados pelos assaltantes, Karla entregou a bolsa, mas pediu a um deles que devolvesse a Bíblia e seu crachá da Caixa Econômica Federal, onde estagiava no setor de análise de contratos habitacionais desde julho de 2008.O assaltante devolveu a Bíblia e a jovem e os pais se viraram para sair do local. Sem motivo aparente, segundo os pais, o ladrão atirou na nuca de Karla. Ele jogou a bolsa no chão alguns metros adiante. Mesmo abalada, Iolete incluiu em uma prece, durante o enterro, o assassino da filha."Fico feliz porque ela agora está nos seus braços, mas, Deus, me dê forças e consolo. Eu não merecia uma filha tão maravilhosa, com uma passagem tão bonita pela vida. Acalme o Rio de Janeiro e o rapaz que fez isso, este coração aflito", afirmou ela a cerca de 80 pessoas que foram ao cemitério do Catumbi acompanhar o funeral."O que mais nos choca é o requinte de crueldade do bandido. Ele já havia praticado o assalto e atirou. Ele não tinha motivo nenhum, nem mesmo o assalto, porque ninguém reagiu", disse o pastor Fábio Borges, amigo da família. Karla é descrita como uma jovem reservada e dedicada.Falava pouco e saía de casa apenas para a igreja, faculdade ou estágio. Durante a infância, morou na Vila Cruzeiro, uma das favelas mais violentas do Rio. Segundo um primo dela, Davi Reis, ela se formaria em administração em julho.Considerada um "ponto de equilíbrio" na família, foi a responsável por converter os pais à religião. No velório, o pai segurava a Bíblia que Karla havia lhe dado. A jovem ajudava a família a pagar as contas com o que ganhava no estágio. "Ela estava sempre sorridente, gostava de ajudar os outros. É triste ver uma covardia dessas e não ter como agir", disse Davi.De acordo com o pastor, ela nasceu prematura e "batalhou para sobreviver". "Ela era uma menina ótima, exemplar. Nasceu com complicações terríveis e batalhou para sobreviver. Venceu ao nascer e venceu na vida", afirmou ele.
Suspeitos. Ainda na noite de anteontem, a polícia deteve dois rapazes suspeitos de envolvimento no crime. Os pais de Karla afirmaram que não tinham certeza se eles participaram da ação. A polícia suspeita que os criminosos sejam do morro São Carlos, próximo ao local. Os latrocínios -roubos seguidos de morte- aumentaram 22% de 2007 para 2008 (subiram de 192 casos para 235), segundo o Instituto de Segurança Pública. Para especialistas, o aumento se deve ao acesso fácil de ladrões a armas.
Colaborou FÁBIO GRELLET.

Registro 254: Lakshmi

Dai-nos abundância, prosperidade e fortuna!
Que a chuva regue a terra
Que o leite e o mel não nos falte
e que seja para um e para todos.

domingo, 29 de março de 2009

Registro 253: Anotações atrasadas

Maria não mora mais aqui, pintura, 2008
Marlene Chicora Stamm
"A parede e o prego simulam um espaço que acolhe e rompe. É uma aus~encia tão presente que se afirma como uma imagem capaz de martelar por entre buracos" (texto do catálogo).
Estou com três catálogos de exposições no emaranhado de papéis sobre a mesa de trabalho. Pretendia comentá-las em Cenadiária logo após as visitas que fiz ao Solar do Unhão, aquele belo espaço banhado pelas águas do Atlântico, marco da história da Bahia, marco de uma projeto bem sucedido de restauro, obra de Dona Lina Bardi, realizado lá pelos fins da década de cinquenta, quando tudo prometia...

A primeira exposição, 15. Salão da Bahia mostrou trabalhos entre 19 de dezembro a 1 de março e reuniu artistas selecionados de diversos estados brasileiros. A primeira impressão dessa mostra foi o equilibrio entre as diferentes manifestações das artes visuais, embora predomine a fotografia e a vídeo-instalação. Nada contra, mas um viés tendencioso, fruto de uma orientação unidimensional. Essa tendência revela um olhar que ser quer marcadamente contemporâneo, como se o desenho, a pintura, o objeto tridimensional não pudesse manifestar-se como formas expressivas na pós-modernidade. Isso demanda uma discussão que pode começar pela indagação do que é o suporte hoje, mas na verdade não estou muito interessado nela, pelo menos aqui e agora. Para mim, as configurações da arte podem se revelar nos diversos suportes e por isso não vejo desenho, a pintura e a escultura (termo considerado datado) como limitadores. De qualquer maneira, o Salão da Bahia, em sua última versão, trouxe obras que despertaram a minha atenção e levaram-me a ficar diante delas um bom tempo, o necessário para que a obra se instalassem em mim, fazendo com que a apreciação se desse de maneira satisfatória.

Chamou a atenção a preocupação com as ações educativas, cujo projeto Inter-Mediações proporcionou "mesas redondas, ciclo de palestras, oficinas e encontro com artistas", conforme texto do catálogo. Participei do programa e espero que ele continuem e envolva não só profissionais da Arte e da Educação, mas tenha uma efetiva rede de atividades para crianças, jovens e adultos, tendo como objetivo a educação estética.

Por mais que tenhamos alguns caminhos para decifrar os "códigos" da arte, uma apreciação vem carregada de subjetividade. Portanto, destaco aquilo que me tocou de fato, aquilo que antes de tudo me deslumbrou, me inquietou, me lançou no espaço da indagação e por fim me trouxe emoções; emoções provocadas pelo estético, pelos elementos contidos em cada trabalho.

Tomando como guia o catálogo, destaco as manifestações de Ana Elisa Egreja (SP), Natureza morta com três patos sobre tartan verde, André Hauck (BH) Sem títuo I, II, e II, fotografia que incendeia os olhos. Da fotógrafa Angella Conte (SP), aponto Parede sobre parede. Invólucro, I II e II de Fábio Magalhães (BA) provoca reflexões visto que embaralha a nossa percepção. Fernanda Eva (SP), com o trabalho de vídeo e pintura Por que o artista contemporâneo ainda pinta? outras indagações.

Marlene Chiora Stamm (SP) traz para sua obra a questão da memória contida nos espaços vazios, ou melhor nos deixados para trás. Com seus pregos e buracos na parede da obra Maria não mora mais aqui, ela capta o olhar e desperta sensações e sentimentos. Sutil e delicado trabalho, minimalista, mas denso. Pequenas chagas na pele-parede. Essas marcas que deixamos nos imóveis que habitamos dizem muito de nós de uma forma não explícita. As marcas criadas por Marlene Chiora Stamm despertam lembranças e seu trabalho dialoga com o de Angella Conte.

O vídeo de Roberto Bellini (BH), Jardim Invisível discute o tempo. É poesia visual latente. Zé da Rocha (BA), com Risco nos mostra as possibilidades do desenho.


Outra exposição. Essa é mais recente; abriu no dia 16 de março e estende-se até 12 de abril. Geometria Impura reúne sete artistas mineiros. Vale uma olhada atenta. Mostra concisa, traduz os seus conceitos ordenadores de forma clara e objetiva, sem perder a qualidade. Coerente, potencializa a individualidade de cada artista e a coesão na heterogeneidade. Belo momento.

Por fim, a intervenção de Mário Cravo Neto, Bo No MAM 1959_1964, que ele denomina de site specific. Utilizando-se de fotos do baiano Voltaire Fraga (1912-2006), que documentam o estado em que se encontrava o Solar do Unhão quando Dona Lina começou a recuperação do espaço, a intervenção do artista é fortemente impressionante nas suas constituintes. Embora uma plotagem, suas dimensões e recortes, recolocam as fotos de Fraga noutro patamar: um olhar visto por outro olhar. Da mesma forma que na inesquecível Somewhere Over the Rainbow que ele mostrou em 2005 na Mostra Pan-Africana de Arte Contemporânea, Bo No MAM é prova de que os recursos técnicos ampliam e sustentam a inquietação do artista. Surpreendentes trabalhos, como são surpreendentes os encontros e as coisas da vida e da natureza.

terça-feira, 24 de março de 2009

Registro 252: Pequenas Porandubas (Notícias)

Fui ver Gran Torino, mais um filme de Clint Eastwood e cada vez gosto mais do jeitão dele filmar. Se o cinema também é uma arte de contar histórias isso se mostra grande no ator-cineasta. Habilmente ele conta sobre um homem cheio de certezas, endurecido pela vida e pelos recalques, ranzinza e preconceituoso. Trancando em si mesmo e em sua casa de viúvo recente. o personagem amarga a solidão sem dar o braço a torcer. Habitante de um bairro de Detroit, cuja população em sua maioria é de imigrantes asiáticos e negros, Walt Kowalski destila sua rejeição manifestando abertamente contra eles e também contra os judeus, sem levar em conta que ele também é filho de imigrantes, visto que seu nome revela tal origem. Americano médio, aposentado da Ford, o personagem defende os valores da "valorosa" América que para ele anda conspurcada pela presença de gente que para ele é indesejável. O filme começa com o funeral de sua mulher e desenrola-se no ambiente do bairro e sua adjacências, centrando sua trama na relação que vai se estabelecendo entre Kowalski e os vizinhos vietnamitas os adolescentes Sue Loar e seu irmão mais jovem Thao Vanhg Loar.

Filme de culpa e redenção.

Filme onde o diretor descontrói o mito criado por ele, personagens durões que encarnou durante parte de sua vida, homens que tomam para si a tarefa de fazer justiça com as próprias mãos. Filme de auto-conhecimento e de auto-avaliação, que nos pega de surpresa, visto que a solução que o personagem dá para si e para a situação em que se encontra e os outros personagens, nos deixa sem fôlego, embora concordemos com ele.
Vale a pena dar um pulo no cinema para ver bom cinema. E Gran Torino, que também é o carro ícone que Kolwaski tem na garagem, é imenso nas sua proposições. Diante delas nos rendemos. Saímos do cinema confortados e emocionados não só por tudo que vimos, mas também pelo achado final, quando ouve-se a canção cantada pela voz rouca de Clint Eastwood-Kolwaski.

Depois fui ver O Visitante. Nas suas diversidades, os filmes parecem encontrar um ponto de convergência. Que ator deslumbrante é Richard Jenkins; que economia de gestos, de expressões revelando os desvãos da alma. Que atriz deslumbrante é Haaz Sleiaman. Os dois dão um banho de interpretação. E tudo isso com a delicadeza de quem sabe o que faz e sabe que faz bem. Filme de atores. Ganhei meu fim de semana.
Álbum de Família de Nelson Rodrigues, inspirada encenação de Paulo Henrique Alcântara com os alunos da terceira turma de concluintes do curso de Artes Cênicas da Faculdade Social foi ao Fringe (Festival de Teatro de Curitiba) e voltou com ótimas críticas. Quando de sua estréia em Salvador escrevi um comentário apreciativo. tenho certeza de que acertei no meu julgamento. Beth Néspoli que faz crítica teatral no jornal O Estado de S. Paulo escreveu em seu blog:

"Também ontem, à tarde, vi no Fringe uma montagem de Álbum de Família, de Nelson Rodrigues, do grupo Minotauro, de Salvador, dirigida por Paulo Henrique Alcântara. Destaca-se da média dos espetáculos dessa mostra não por um resultado excepcional, mas por ser uma realização de quem claramente domina a linguagem teatral, a construção de uma poética cênica. Não é um mero levantamento do texto. Há um pensamento por trás, um motivo para fazer, um desejo de sublinhar aspectos. Nelson dizia, não lembro exatamente com que palavras, que basta um sopro para o homem cair de quatro. Essa é a ideia sobre a qual a encenação se baseia, dessa família que vive na fronteira entre selva e civilização. Pode parecer óbvio, é a primeira leitura, mas foi compreendida e recriada cenicamente. O cenário não é mera decoração, baús e paredes que remetem a ossários 'guardam' memórias familiares, e ancestrais. Assim como os figurinos buscam significar e não apenas vestir. Mas qualidade e problema vêm juntos, na ênfase excessiva, na falta de sutileza. A relação incestuosa - comum na natureza, interdita pela civilização - é reforçada in extremis. Nonô, nu, nessa encenação é o que Nelson chamaria do selvagem absoluto, sujo, cabelos longos e desgrenhados, urrando como animal durante um tempo excessivo. A favor do espetáculo não estar impregnado do amadorismo, no sentido da precariedade, que aparece em tantas, tantas e tantas peças do Fringe.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Registro 251: Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia

Ontem foi o lançamento da Revista, com a reedição de artigos de Manuel Querino, acompanhados de textos comentando a produção do santamarense, escritor, jornalista, historiador, pintor, desenhista, um dos primeiros pesquisadores dos estudos sobre a contribuição africana para formação da sociedade baiano-brasileira. Como um dos articulista, estive presente e faço o registro para marcar a importância do trabalho de Querino. Em meu texto, comento o artigo do autor Theatros da Bahia, publicado por volta de 1910. A iniciativa do professor Jaime Nascimento comemora o 86 anos da morte de Querino, escritor, historiador, jornalista, desenhista, pintor, nascido a 28 de julho de 1851 e falecido em 14 de fevereiro de 1923.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Registro 250: Duas ou três coisas sobre Lispector

Clarice Lispector e seu cachorro Ulisses, s.d., sem crédito autoral
Não sou um conhecedor da obra de Clarice Lispcetor. Fiz leituras dispersas de alguns de seus livros, mas fui irremediavelmente tocado por A Hora da Estrela. Dizem os doutos ser o livro mais fácil da escritora. Paciência. Eu gosto muito de A Hora da Estrela. Fiz até uma adaptação para o teatro, lida por Fauzi Arap, amigo da escritora e amante de seus escritos. A adaptação se perdeu. Deve ter caído do caminhão de mudança e se espalhado pelas ruas que nem cachorro que ninguém quer. Fiz tantas mudanças e nem sei quando perdi os papéis amarelados cujo texto datilografado já estava desaparecendo.
Fauzi levou para o palco Perto do Coração Selvagem (1965), e adaptou A Paixão Segundo G.H. encenada por Henrique Diaz (2002) e incluiu trechos de Clarice Lispector nos shows que dirigiu para Maria Bethânia, fã confessa da escritora nascida na Ucrânia, mas tão pernambucana quanto Bandeira, Suassuna, Cabral de Melo Neto e outros tantos de boa cepa recifense.
Acompanhei de perto a montagem de Um Sopro de Vida (1979), a bela encenação que José Possi Neto fez para Marilena Ansaldi. Logo depois fui convidado pelos dois para fazer Geni. Por essa época conheci Olga Borelli, amiga de Clarice Lispector, companheira nos seus últimos momentos entre nós. A fota que ilustra esse registro foi um presente que recebi dela.
Hoje, encontrei-me com Meran Vargens que retoma a sua encenação de A Hora da Estrela, um espetáculo que vi em Salvador em 2003. Encenação inventiva, com um achado cenográfico encantador. Por aqui vi também Clarices de Deborah Moreira, reunião de textos claricianos. Coincidentemente, leio Clarice em Cena: as relações entre Clarice Lispector e o teatro, de André Luís Gomes (Unb - Finatec, 2007), resultado da pesquisa que fez sobre a escritora e o teatro.
Clarice Lispector traduziu textos teatrais . Gomes apresenta quase todos eles, tece comentários sobre cada um e estabelece relações entre o conteúdo das obras e alguns livros de Lispector. Entre os textos traduzidos encontra-se Sotoba Komachi de Yukio Mishima, encenado por Herbert Machiz, diretor norte-americano (com ou sem hífen?) , com passagem pela Escola de Teatro da então Universidade da Bahia, em 1961. O espetáculo, cujo título Três Peças Modernas Japonesas, reunia além de Sotoba Komachi, O Tambor de Damasco outro texto de Mishima e o Crime de Han de Shiga Naoya, ambas traduzidas do inglês por Clarice Lispector. Coube a Martim Gonçalves criar os figurinos, seu último trabalho em Salvador antes de deixar a direção da Escola de Teatro, espaço criado por ele sob os auspícios do reitor Edgard Santos.
Pra encerrar: participo de uma pequena cena no filme de Suzana Amaral, A Hora da Estrela (1986)... Marcélia Cartaxo, inesquecível e dolorida Macabéa.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Registro 249: Acordo e levo um susto

Acordo e levo um susto. A matéria de capa dos jornais: "Chávez ocupa portos e ameaça dois governadores". Em nome da segurança nacional. Já vi esse filme, aqui bem perto, no nosso quintal. É certo que cada povo tem o governo que merece. Eles estão aí nos assombrando. Os venezuelanos que se cuidem. Não dá pra ficar sem refletir sobre o que vai acontecendo para lá das nossas fronteiras no momento em que a América do Sul parece querer ditaduras travestidas em democracias. É certo que os governantes foram eleitos pelo voto, mas até aí morreu Neves. No caso do vocábulo ditadura não ser apropriado para caracterizar o que ronda a América Latina, visto sua radicalidade, podemos ver por aí uma certa tendência para o autoritarismo. Eufemismo! Por certo...
Não dá pra avalizar ditaduras, sejam elas de direita, de esquerda ou amparada em fundamentos religiosos.
Espero que o leitor não não intreprete de forma errada o texto. Não estou aqui me filiando àqueles que pensam que ditaduras são "ditabrandas". Repudio totalmente essa visão. Sofri na pele os horrores da ditadura civil-militar brasileira. Sei muito bem o que é viver trinta dias confinado em uma cela do DEOPS - SP, debaixo de ameaças constantes.
As feridas estão curadas, mas as lembranças são vivas. Por isso mesmo, não quero viver sob nenhuma ditadura.
No sábado fui ver Entre os Muros da Escola, filme de Laurent Cantet, baseado no livro do professor François Bégaudeau, que protagoniza ele mesmo. O título em francês, Entre Les Murs, é melhor que a nossa tradução. Alías, as traduções de títulos para o português tem sido um desastre. É melhor porque diz muito mais, amplia a questão ou as questões discutidas pelo cineastas e pelo professor, embora tudo se passe no interior escolar. tento não cai no pessimismo, mas ao ver o filme reafirma em mim a visão de que a escola faliu e que as teorias não dão conta de explicar nem de resolver o que a realidade nos apresenta. Sou também professor e sai do filme com uma sensação estranha, pensando na realidade da escola francesa e mais ainda sobre as nossas escolas. Longe daqui aqui mesmo. O filme deve ser visto por todos os professores e alunos. Por falar nisso, Vamos à Folha de S. Paulo, coluna de Mônica Bérgamo (Ilustrada, 15.03.09):
Professores da rede pública que trabalham em escolas de risco no Rio contam alguns de seus conflitos diários que vão além do giz, como tirar revólver de aluno e ter a bolsa furtada dentro da classe"Professora, tem dois alunos armados e um diz que vai matar o outro no recreio." Foi assim que começou mais um dos centenas de dias de trabalho da professora de artes Vera Cruz, 66. "Tremi toda. Não sabia o que fazer. Respirei fundo e entrei no meio da briga. Era uma discussão por racismo. Um negro, outro branco. O alemão dizia que o negro não prestava, trocaram ofensas e colocaram a família no meio. Daí sentei com os dois, conversei e consegui fazê-los me entregar as armas: uma lâmina de sapateiro e uma adaga." Eles tinham dez anos.

A exposição à violência relatada por Vera foi o tema do filme "Verônica", sobre uma professora que dá aulas em uma escola que fica na favela, vivida por Andréa Beltrão. Depois de uma sessão do longa, no Rio, Vera, a atriz e mais uma dezena de outros professores da rede pública se reuniram para uma conversa com a coluna.

A psicóloga Simone de Carvalho, 45, trabalhou com uma sala de supletivo na região da praça Mauá, frequentada por prostitutas. Ela conta um episódio envolvendo um jovem de 20 anos. "Um dia, no meio da aula, me falaram que tinha um aluno com revólver dentro da classe. Fui até ele e expliquei que não poderia ficar com uma arma lá dentro, que poderia acabar machucando alguém. E ele me respondeu: "Professora, eu sei disso, mas eu tô jurado de morte, tenho que me defender"." Simone diz que viveu um "intenso conflito". "Eu deveria tirar a arma dele? E se o menino morresse, o que eu faria? Fiz um pacto de confiança para que ele não usasse aquela arma dentro da escola de modo algum." Ninguém saiu ferido.

As histórias se sucedem. Os docentes conseguem surpreender um ao outro, mesmo já tendo vivido tantas situações-limite. Há uma comoção, por exemplo, quando a professora primária Izabel Nobuko da Costa, 41, conta que foi furtada dentro da sala de aula. "Levaram minha carteira com meus cheques e cartões. Na bagunça entre as crianças, nem vi quando tiraram as coisas de dentro da minha bolsa." Andréa Beltrão interrompe: "Alunos de qual série?". "Da quarta, tinham mais ou menos uns dez anos", responde a professora.
A atriz surpreende os presentes quando revela uma atitude rara entre famílias de classe média: "Meus três filhos estudam em escola pública [o colégio Pedro 2º]". Ela diz confiar no padrão de ensino. Sua mãe foi diretora do estabelecimento. "A convivência plural faz muito bem para eles", diz ela.
Pluralismo que Luiz Elesbão Maciel, 43, professor de educação física e de filosofia, conhece bem. Ele já deu aulas em mais de 40 colégios e é o único do grupo que trabalhou em escolas dentro de presídios. "No meu primeiro dia, já teve confusão entre os presos. Um alarme tocou e eu só pedia para sair. "Sou professor, pelo amor de Deus, me deixa sair daqui!"Eu tentando sair e os guardas de preto, com balas de borracha, entrando com aqueles escudos, sabe?" Com o tempo, Elesbão diz que se acostumou e que aprendeu as regras: cuidado para não levar nem trazer recados para presos; evitar assuntos que inflamem o ânimo dos alunos. Exemplo: "Jamais tocar em discussões de direitos e deveres básicos de cidadania, porque eles deveriam, por exemplo, receber a visita de defensores públicos, mas ninguém ia. Eu ficava revoltado".

Há alguns anos, em uma escola estadual na Tijuca, uma aluna grávida pediu socorro. ""Me ajuda, pelo amor de Deus, professora, me ajuda!" A menina estava desesperada porque o namorado queria espancá-la dentro da escola, conta Viviane Grace Costa, 38, professora de história. "Entrei na frente dele e disse: "Aqui dentro você não bate nela". E ele me perguntou: "Quer morrer?"." Viviane chamou a polícia, mas "os policiais não eram treinados para tratar dos direitos da mulher e falaram que não iam se meter. Assumi o risco sozinha."

Hoje, Viviane leciona na Rocinha. "Minha mãe morre de medo, mas há uma inversão de valores. Trabalho para o supletivo e são, na grande maioria, trabalhadores, que nos respeitam mais do que muito aluno de colégio particular."

Vera Cruz concorda. "Numa escola de alto padrão de Botafogo, os alunos jogavam papel, sentavam em cima das carteiras, gritavam, faziam de tudo para me agredir. Um dia foi tanta agressão que me deu na telha um novo método. Fui para o fundo da sala -aquilo era um horror!- e comecei a gritar igualzinho a eles."Aaaaaaahhhh!!!" Aí eles se olhavam: "Nossa, o que houve que a professora tá gritando?" E assim foram se aquietando.Quando estava todo mundo quieto, parei de gritar. Fui para o quadro e comecei a aula."

Além do mau comportamento dos alunos, a discussão entre os professores engrena para "o nível e a qualidade do ensino", que, segundo Simone, "está caindo! Gente, a minha empregada doméstica tem diploma de professora. Uma vez, voltei da Europa e ela me perguntou: "Dona Simone, a França fica perto dos EUA?". Os professores no cinema riem com tristeza. E Simone engata uma história sobre rejeição.

"Foi com um aluno de 15 anos, negro, bem mais alto do que eu. Fui dar aula depois de ter tomado uma vacina bem doída. Daí ele chegou para falar comigo e botou a mão bem em cima do lugar dolorido. Eu dei um grito e o empurrei. Ele me olhou e disse: "Eu pensei que a senhora fosse diferente dos outros". Ele achou que minha reação tinha sido porque ele havia tocado em mim. E não adiantava eu me explicar. Ele me olhou com uma decepção, uma tristeza. Mais uma vez se sentiu rejeitado." O encontro termina em lágrimas.

O verde colorindo o texto é intencional.

Para completar, segue a entrevista da atriz Andréa Beltrão (Folha de S. Paulo (16.03.09). Beleza!

A atriz Andréa Beltrão diz que a imagem de escola pública em sua vida está associada à qualidade de ensino.


FOLHA - O que a levou a matricular seus filhos na rede pública?

ANDRÉA BELTRÃO - A vida inteira fui aluna de escola pública, e isso está associado para mim a uma coisa boa. Estudei no Pedro 2º e minha mãe foi professora lá por muitos anos. Tenho uma situação financeira confortável e poderia matriculá-los num colégio caro, mas queria uma escola de qualidade onde o critério de entrada não fosse o dinheiro. Meus filhos estudam com filhos de médico, de porteiro, de servente. Todos vestem o mesmo uniforme. Isso não é bravata ou bandeira. Fui criada dessa maneira.


FOLHA - Há quem possa olhar e dizer que você está roubando a vaga de um aluno pobre.

ANDRÉA - É uma visão reacionária. Meus filhos conseguiram a vaga porque são netos de funcionário, e eu me beneficio disso sem nenhum pudor porque pago meus impostos e penso que a escola pública de qualidade é um direito de todos. Mas procuro também ajudar bastante a escola, e fico muito feliz ao perceber que vários pais fazem o mesmo, de acordo com suas possibilidades.


FOLHA - O fato de seus filhos poderem ter um nível de consumo maior que o dos colegas não dificulta a convivência?

ANDRÉA - De jeito nenhum. Aliás, rola um constrangimento maravilhoso se um aluno quiser ostentar dentro da escola. É um mico fazer isso num lugar onde a filosofia é: "Não risque o seu caderno porque no ano que vem outras crianças vão usar". Isso muda o comportamento em relação ao ter.Eles, por exemplo, ganharam Ipod [tocador de MP3 da Apple] logo que foi lançado, mas só passaram a levar para a escola quando os demais colegas começaram a ter esses aparelhos de MP3. Lá, se destaca quem tirar notas mais altas, e não quem tem mais para ostentar.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Registro 248: Um filme mal lançado

Mãe e avó, Juno (Catherine Deneuve), casada com um homem mais velho descobre que está com uma doença degenerativa e precisa de transplante de medula. Os filhos e um dos netos submetem-se aos testes para possíveis doação. A ação se passa em Paris antes e durante o Natal. Esse filme deslumbrantemente sensível, irônico, mordaz e direto, fala sobre afetos, ressentimentos e compreensão entre pais e filhos, entre irmãos. Nada que lembre a melosidade e o bom mocismo quando se trata da maioria dos filmes sobre a família. Exceções existem.

Presumo que o filme de Arnaud Desplechin foi visto por poucos. Logo saiu de cartaz, mesmo estando no circuito Sala de Arte em Salvador, um lugar onde se respira e se bebe do bom cinema. O título Um Conto de Natal pode ter afastado os desavisados. Lamentável.

Essa família que se reúne para as festas de fim de ano deve se enfrentar. E esse enfrentamento se dá através de pequenos gestos, das tensões provocadas pelo não resolvido. Entre os filhos, destaca-se aquele que é o "filho ruin", Henri (Mathieu Amalric). Ele vem a ser o doador. Ele, o rejeitado pela mãe e pela irmã, Elizabeth (Ane Consigny). O filme começa com cenas rememorativas da infância de cada filho e de suas relações com a morte de um irmão. Em seu blog Luiz Carlos Merten informa que o diretor inspirou-se no texto do filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson. No livro, o filósofo conta de que forma superou a tristeza e buscou um sentimento positivo para enterrar o filho.

Os personagens de Desplechin não escondem o que sentem. Não falam meias palavras. Dizem o que pensam e durante a festa, tempo do filme, eles se repelem e se atraem e nós entramos no jogo despido de pieguismo. Nenhuma sombra maniqueísta perpassa o filme. Diante da situação, os personagens devem tomar decisões e isso implica em ajustes, em encarar de frente as marcas do passado. Não se faz drama, mas o drama perpassa o filme. para nós, acostumados ao derramamentos, que gritamos, choramos e nos descabelamos diante das vicissitudes da vida, tanto as pequenas quanto as grandes, a relação entre os familiares diante dos problemas de cda um parece dura. Se olharmos por esse prisma deixamos de perceber as camadas de afeto entre eles.
O final é uma epifania, compreendida como a manifestação ou percepção da natureza ou do significado essencial de uma coisa.

Uma pena ter ficado ofuscado pela ressaca do carnaval, pelo lançamentos dos filmes indicados para o Oscar ou por uma programa inoportuna. Na sessão em que vi o filme, estavam na sala seis gatos pingados. Gatos privilegiados.


Ficha Técnica Título Original: Un Conte de Noël Gênero: Drama. Tempo de Duração: 150 minutos. Ano de Lançamento (França): 2008Site Oficial: http://www.bacfilms.com/site/conte/ Estúdio: Why Not Productions Distribuição: IFC Films / Imovision Direção: Arnaud Desplechin. Roteiro: Emmanuel Bourdieu e Arnaud Desplechin. Produção: Pascal Caucheteux. Música: Grégoire Hetzel. Fotografia: Eric Gautier. Desenho de Produção: Dan Bevan. Edição: Laurence Briaud
Elenco
Catherine Deneuve (Junon), Jean-Paul Roussillon (Abel), Anne Consigny (Elizabeth), Mathieu Amalric (Henri), Melvil Poupaud (Ivan), Hippolyte Girardot (Claude), Emmanuelle Devos (Faunia), Chiara Mastroianni (Sylvia), Laurent Capelluto (Simon), Emile Berling (Paul), Thomas Obled (Basile), Clément Obled (Baptiste), Françoise Bertin (Rosaimée), Samir Guesmi (Spatafora), Azize Kabouche (Dr. Zraïdi).

quarta-feira, 11 de março de 2009

Registro 247: Instantâneos

Fotografia informal, batida sem tripé e com um tempo de abertura do diafragma extremamente breve; snapshot (Houaiss).
Os instantâneos foram batidos durante caminhadas pela ruas da cidade, num dia qualquer de um verão o qualquer
Hotel São Bento - Largo de São Bento - Salvador

Fonte - Praça da Piedade - Salvador

Grade - Praça Dois de Julho - Salvador

Tronco - Museu de Arte Moderna - MAM - Bahia

domingo, 8 de março de 2009

Registro 246: Lucidez contra o fanatismo

Não pedi permissão para Eliana Cantanhêde autora do texto Em Nome do Pai (Folha de S. Paulo, 08.03.09), mas resolvi publicá-lo por sua coerência e lucidez. Não podemos aceitar que atitudes como a do arcebispo de Olinda - que falta Dom Hélder faz - torne-se uma conduta aceita como algo natural. Aliás, no Brasil de hoje, atitudes absurdas tem sido aceitas, tanto na esfera privada quanto na pública.

Aberração como essa só comparada com as aberrações em Catanduva e outras paragens que são notícias todos os dias.

Condenando-se a mãe e os médicos e aceita-se o ação do estuprador. Basta.

Faço um reparo, o problema não é o deslocamento de católicos para outros credos, como se neles não houvesse fanatismo e atitudes irracionais. Entre evangélicos, espíritas, umbandistas e membros de outras religiões, existem fanáticos que não vacilariam em avalizar a condenação em nome da vida. Hipocrisia. Entre ateus é possível, até, que exista também alguém concordando. Não esqueçamos: vivemos num sociedade machista.

O humano é tão espantoso!

Leia o texto e pense. Quem sabe você tome uma atitude, pequena que seja, contra pais e padrastos que violentam filhas e contra um líder religioso que não compreende o humano pois está agarrado fanaticamente ao dogma. Quando falo em atitude não estou aqui pregando a violência. Longe de mim. Não acho que a violência é a saída.
Para mim, o texto é uma homenagem as mulheres.
EM NOME DO PAI
Eliane Cantanhêde

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, quero fazer um agradecimento público ao arcebispo de Olinda e Recife, dom José Cardoso Sobrinho.Ele calou sobre o crime hediondo de um padrasto que estuprava a enteada desde os 6 anos de idade e a engravidou de gêmeos aos 9. Mas excomungou a mãe da menina e a equipe médica pelo aborto que tenta salvar sua vida, sua essência de criança, sua capacidade de ser feliz. Essa inversão produziu excelentes resultados, no melhor momento: mobilizou a imprensa local e nacional e indignou milhões de pessoas na semana que antecedeu o Dia da Mulher, expondo o quanto o fundamentalismo religioso pode ser não apenas retrógrado mas cruel, desumano e, em certa dose, também ridículo, em casos que envolvem de fato vida e futuro. Os assim, particulares. Ou os coletivos, como a pesquisa de células tronco.Foi uma verdadeira aula, contra o arcebispo, a favor da menina, para mulheres, homens, jovens, velhos, todos os que olharam para a grande vítima horrorizados, chocados, com uma piedade que faltou justamente ao "homem de Deus".Até a CNBB teve dificuldade para respaldar sua atitude. Numa nota visivelmente constrangida, condena antes o estuprador (que dom José nem sequer citara), reitera a posição contrária ao aborto e não faz uma só defesa da excomunhão.Para dom José, estuprar crianças é pecado, mas não muito. O que não pode é tentar corrigir as sequelas do estupro, acolher aquela menina, salvar-lhe o corpo, talvez a mente, garantir-lhe o futuro. Para ele, portanto, aborto é mais grave do que estupro. Os médicos que o realizaram são piores do que o suspeito de pedofilia em Catanduva (SP).Trata-se do típico caso em que a igreja anda para um lado, enquanto o mundo e as pessoas, para o outro, em sentido contrário. É assim que seus pastores perdem seus rebanhos para as evangélicas, as espíritas, as umbandistas. Ou para o ateísmo, puro e simples.
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Na mesma edição do jornal, Clóvis Rossi escreve sobre o assunto, trazendo-nos um fato que se deu na Mauritânia, no interior de uma família de fé islâmica. Longe daqui, aqui mesmo.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Registro 245: Depoimento IV

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

JORGE ALENCAR

Criador em teatro e dança. Diretor artístico do grupo Dimenti (Salvador - Bahia - Brasil) desde 1998. Comunicólogo pela Universidade Católica do Salvador, Licenciado em Dança e Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Além dos artistas com os quais eu trabalho há quase onze anos no Dimenti, há atores e atrizes baianos que constam em minha bibliografia: Rita Assemany, Cristiane Mendonça, Marcelo Prado, Lúcio Tranchesi, Evelin Buchegger, entre outros que a memória e o espaço injustamente omitiram.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Vamos ao Olimpo nacional: Marília Pêra, Fernanda – mãe e filha, José Dumont, Marcélia Cartaxo...

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Focarei nos que atuaram na Bahia: Harald Weiss, Fernando Guerreiro, Hebe Alves, Carmem Paternostro, José Possi Neto, João Falcão, Luiz Marfuz – são alguns dos que grudaram em mim desde tenra idade quando comecei nos tablados.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
(Risos). Será que eu sou bom? Sei que, mesmo com uma produção ininterrupta há bons anos, nunca recebi uma indicação sequer no prêmio local de teatro. Ai de mim!!

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Lembro de Barba Azul de Márcio Meireles. Mesmo sabendo da competência de Márcio, na época fui desmontado assisti apenas a um espetáculo feito na sala João Augusto (uma sala de ensaio!) com um elenco com muitos jovens atores. A peça tinha soluções bem inteligentes. Houve também uma peça despretensiosa que voltei para assistir: Pelo Telefone com Cristiane Mendonça e Ricardo Castro – leve e agradável como uma brisa da praia da Barra - bairro onde o trabalho era apresentado.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Posso indicar obras dos diretores que citei acima: Ade Até, A Bofetada, O Homem Nu: suas viagens, Merlin ou A Terra Deserta, A Casa de Eros, A Ver Estrelas, O Casamento do Pequeno Burguês.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Da safra recente: Ensaio. Hamlet da Cia. dos Atores. Perturbadora e me fez muito bem.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Não sou corajoso o suficiente para eleger um espetáculo apenas. A lista acima dá pistas.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
De primeira. Estudei sobre comicidade em meu mestrado e produzo peças com humor. É um gênero que sofre muitos preconceitos, já que é quase sempre visto como algo frívolo, pueril e pouco profundo pelas “vozes oficiais” e mal humoradas.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Adoro algumas “peças difíceis”, sobretudo em relação à maneira como produz significados na cena, que solicitam a co-autoria do público. Tenho um pouco de preguiça com peça que se preocupa em passar “uma mensagem”, teatro não é SMS.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
The Flash and Crash Days de Gerald Thomas. Assisti a fragmentos em vídeo.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
Ade Até foi considerada difícil.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Fiquei aflito em criar esse novo cânone!!! Passo.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Nelson Rodrigues merece visitas periódicas.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Não me ocorre. Adoro lidar com os cânones nem que seja para re-configurar suas intenções e lugares de legitimidade.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Passo.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Pago.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Fazer Nijinski no teatro é o fetiche mais próximo.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Que seja passível de ser sempre reformulado, tanto na estrutura da própria encenação como na leitura de quem frui. “Obra definitiva” é cansativa.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Comodismo, excesso de reverências a certos paradigmas canônicos, falta de estudo e de relações propositivas com as fontes de criação – seja um texto ou um assunto.