sexta-feira, 6 de março de 2009

Registro 245: Depoimento IV

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

JORGE ALENCAR

Criador em teatro e dança. Diretor artístico do grupo Dimenti (Salvador - Bahia - Brasil) desde 1998. Comunicólogo pela Universidade Católica do Salvador, Licenciado em Dança e Mestre em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Além dos artistas com os quais eu trabalho há quase onze anos no Dimenti, há atores e atrizes baianos que constam em minha bibliografia: Rita Assemany, Cristiane Mendonça, Marcelo Prado, Lúcio Tranchesi, Evelin Buchegger, entre outros que a memória e o espaço injustamente omitiram.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Vamos ao Olimpo nacional: Marília Pêra, Fernanda – mãe e filha, José Dumont, Marcélia Cartaxo...

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Focarei nos que atuaram na Bahia: Harald Weiss, Fernando Guerreiro, Hebe Alves, Carmem Paternostro, José Possi Neto, João Falcão, Luiz Marfuz – são alguns dos que grudaram em mim desde tenra idade quando comecei nos tablados.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
(Risos). Será que eu sou bom? Sei que, mesmo com uma produção ininterrupta há bons anos, nunca recebi uma indicação sequer no prêmio local de teatro. Ai de mim!!

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Lembro de Barba Azul de Márcio Meireles. Mesmo sabendo da competência de Márcio, na época fui desmontado assisti apenas a um espetáculo feito na sala João Augusto (uma sala de ensaio!) com um elenco com muitos jovens atores. A peça tinha soluções bem inteligentes. Houve também uma peça despretensiosa que voltei para assistir: Pelo Telefone com Cristiane Mendonça e Ricardo Castro – leve e agradável como uma brisa da praia da Barra - bairro onde o trabalho era apresentado.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Posso indicar obras dos diretores que citei acima: Ade Até, A Bofetada, O Homem Nu: suas viagens, Merlin ou A Terra Deserta, A Casa de Eros, A Ver Estrelas, O Casamento do Pequeno Burguês.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Da safra recente: Ensaio. Hamlet da Cia. dos Atores. Perturbadora e me fez muito bem.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Não sou corajoso o suficiente para eleger um espetáculo apenas. A lista acima dá pistas.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
De primeira. Estudei sobre comicidade em meu mestrado e produzo peças com humor. É um gênero que sofre muitos preconceitos, já que é quase sempre visto como algo frívolo, pueril e pouco profundo pelas “vozes oficiais” e mal humoradas.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Adoro algumas “peças difíceis”, sobretudo em relação à maneira como produz significados na cena, que solicitam a co-autoria do público. Tenho um pouco de preguiça com peça que se preocupa em passar “uma mensagem”, teatro não é SMS.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
The Flash and Crash Days de Gerald Thomas. Assisti a fragmentos em vídeo.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
Ade Até foi considerada difícil.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Fiquei aflito em criar esse novo cânone!!! Passo.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Nelson Rodrigues merece visitas periódicas.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Não me ocorre. Adoro lidar com os cânones nem que seja para re-configurar suas intenções e lugares de legitimidade.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Passo.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Pago.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Fazer Nijinski no teatro é o fetiche mais próximo.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Que seja passível de ser sempre reformulado, tanto na estrutura da própria encenação como na leitura de quem frui. “Obra definitiva” é cansativa.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
Comodismo, excesso de reverências a certos paradigmas canônicos, falta de estudo e de relações propositivas com as fontes de criação – seja um texto ou um assunto.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Registro 244: Depoimento III

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

DEBORAH MOREIRA
Atriz, mímica e dramaturga. Diplomada em Mímica Corporal Dramática pelos artistas mímicos George Mascarenhas e Nadja Turenko. Bacharel em Interpretação Teatral pela Universidade Federal da Bahia em 2000. Mestranda em Artes Cênicas (Programa de Pós Gradução da UFBA). Atriz em diversos espetáculos teatrais, destacando-se: A Casa de Eros e Ensina-me a Viver (direção de José Possi Neto), Os Dois Manecos e Acrobatas (direção Ewald Hackler), Clarices (direção de Nadja Turenko), O Bloco dos Infames (direção de Filinto Coelho),A Princesa e o Unicórnio (direção de George Mascarenhas). Textos encenados: Clarices (1998), Francisco (1999), Joana D’Arc Quando a cotovia voa – uma fábula libertária, (2001), A Princesa e o Unicórnio (2004), Na Fila (2005). Coordenadora do Grupo de Teatro da Cultura Inglesa (2005 a 2009). Professora de Mímica Corporal Dramática do projeto Retrate Interior desenvolvido pelo SATED – Ba (2008), co-realizadora do Projeto Mimus – Oficinas Gratuitas de Mímica e Teatro Físico (2009).

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Vi muitos trabalhos de Paulo Autran, Marco Nanini e na Bahia, Marcelo Praddo, Iami Rebouças, George Mascarenhas, etc.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Grande Otelo, Marieta Severo, Chaplin, Meryl Streep, Kevin Spacey, Kate Winslet, Ewan Mcgregor e muitos outros.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
José Possi Neto.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Lembro de alguns criadores teatrais muito bons, mas que se encontram em situações difíceis ou bem diferentes do esperavam ou desejam. Não acho, contudo, que isso se deva simplesmente ao fato de terem sido injustiçados mas sim a uma série de fatores, incluindo as escolhas e condutas de cada um como ser humano. Acredito que somos também responsáveis pelo desenvolvimento dos acontecimentos em nossas vidas.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
O Púcaro Búlgaro.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Os espetáculos A Casa de Eros, comemorativo dos 40 anos da Escola de Teatro da UFBA e Ensina-me a Viver, comemorativo dos 45 anos de teatro de Nilda Spencer. Destaco também a encenação de O Menor quer ser Tutor de Peter Handke, com direção de Edwald Hackler, O Casamento do Pequeno Burguês de Brecht, com direção de Luiz Marfuz.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Roberto Zucco (direção de Nehle Frank).

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Recentemente, o espetáculo Ensaio.Hamlet com direção de Henrique Dias.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Comédia é genial e extremamente necessária.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Os Negros, de Jean Genet

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
O Rei da Vela.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
Orpheus Complex, de Steven Wasson com o Théâtre de L’Ange Fou.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Apocalipse 1,11 de Fernando Bonassi

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
O Santo Inquérito, de Dias Gomes.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Quero deixar meus aplausos sempre para Cleise Mendes, embora como membro da Academia Baiana de Letras ela esteja presente nos cânones.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
O Avarento com direção de Felipe Hirsch.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Sinceramente, não me lembro de nenhum.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Nina de A Gaivota, de Tchekov, Branca Dias do Santo Inquérito, de Dias Gomes, e Winnie de Dias Felizes, de Samuel Beckett.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A pesquisa.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
A superficialidade
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segunda-feira, 2 de março de 2009

Registro 243: Livros e crianças

Nasce uma Criança Leitora

Toda vez que nasce uma criança na maternidade de Sinhá Castelo, localizada na cidade de Caxias, no Maranhão, a mamãe recebe um livro de literatura infantil, doado à criança. O ato simbólico do projeto Nasce uma Criança Leitora, que integra o Programa Nacional do Livro e Leitura (PNLL), busca conscientizar os pais da importância do livro para a formação cultural de seus filhos, bem como da leitura no desenvolvimento dos jovens. Assim, ao mesmo tempo em que facilita o acesso às obras literárias, conscientiza a população carente, além de também oferecer oficinas de narração e leitura de histórias para as mães.O projeto é desenvolvido pelo Comitê do Programa Nacional de Incentivo a Leitura (Proler), por meio do departamento de Letras da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), com a colaboração de professores e alunos, coordenados pela professora Joseane Maia Santos Silva.De acordo com a professora, foram entregues 602 livros, de abril de 2008 até agora. "Estamos em plena campanha para darmos continuidade ao projeto, por isso será ótima a divulgação", diz Joseane.
Recebi essa auspiciosa notícia por e-mail. Quem me enviou foi a querida amiga Fanny Abramovich. Tanto ela quanto eu vibramos com essa ação sensível, civilizadora, bacana mesmo. Alguns poderão argumentar que antes de livros deve se dar alimentação, remédio e bom atendimento para as parturientes e seus rebentos. A defesa é inquestionável. Mas não passa pela minha tola consciência que essas ações não estejam sendo priorizadas na maternidade de Sinhá Castelo. É um direito das mães e de seus filhos e um dever do poder público. Se o Estado não faz, estamos perdidos. É isso mesmo, estamos perdidos.
Não acredito naquela posição que defende farinha primeiro e só depois de conseguir o pão pra todos é que devemos pleitear outros direitos, outros quereres. O direito de sonhar, de imaginar. Tal pensamento, sabemos onde nos levou. Por esse motivo é que vejo nos ideais da contracultura um posicionamento verdadeiramente saudável, pra frente mesmo.
Livros nas mãos de recém-nascidos maranhenses podem aumentar o índice de Desenvolvimento - IDH, que é muito baixo no Maranhão. Assim espero. Que esses bebês bebam das letras desde cedo e que elas iluminem seus caminhos.
A notícia remete a uma imagem de João Cabral de Melo Neto em Morte e Vida Severina: cobrindo-se de assim de letras / um dia vai ser doutor. O poeta referia-se ao jornal que era oferecido ao menino que acabara de nascer, o filho de Seu José, mestre carpina. Então, que as crianças de todo esse imenso território, pátria amada Brasil, possam receber livros como as crianças de Caxias, localidade do Maranhão, terra natal dos Azevedos, Artur e Aloísio, de Ferreira Gullar e João do Vale e de Catulo da Paixão Cearense, que apesar do nome é maranhense.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Registro 242: Sobre "MILK"

Vibrei com texto Milk, o preço da liberdade. Prontamente, solicitei do autor a permissão para transcrevê-lo aqui. Vale a pena ler o que diz Contardo Calligaris sobre Milk. O último parágrafo tem um sabor especial para mim. Gostaria de tê-lo incluído em Transas na Cena em Transe, Teatro e Contracultura na Bahia, mas não deu, visto que a tese foi concluída e apresentada publicamente em 2007. Poderia usá-lo como epígrafe no livro em processo de editoração, mas o trabalho está quase pronto e seria um transtorno para a editora. Mas acredito que não faltará oportunidade para citá-lo, já que ele é um pensamento afirmativo sobre a contracultura e seus efeitos. Para aqueles que acham que a contracultura no Brasil é circunstancial, fruto da repressão, o parágrafo tem muito a dizer, não como provocação, mas como estímulo para arejar o pensamento sobre o legado da contracultura histórica, aquela que balançou as estruturas do establishiment nos anos 60 e 70, lançando luzes sobre áreas sombrias da nossa existência e fornecendo pistas para o reencantamento do mundo.

"Milk", o preço da liberdade
CONTARDO CALLIGARIS

Para continuarmos livres, é preciso defender a liberdade do vizinho como se fosse a nossa.

Assistindo a "Milk - A Voz da Igualdade", de Gus Van Sant (extraordinário Sean Penn no papel de Harvey Milk), lembrei-me de um e-mail que recebi em abril de 2008. Era uma circular de www.boxturtlebulletin.com (um site sobre os direitos das minorias sexuais), que "comemorava" os 55 anos de um evento sinistro: em 1953, Dwight Eisenhower, presidente dos EUA, assinou um decreto pelo qual seriam despedidos todos os funcionários federais que fossem culpados de "perversão sexual". Essa lei permaneceu em vigor durante mais de 20 anos: milhares de americanos perderam seus empregos por causa de sua orientação sexual. Fato frequentemente esquecido (um pouco como foi esquecida, durante décadas, a perseguição dos homossexuais pelo nazismo), nos anos 50, no discurso do senador McCarthy, a caça às bruxas "comunistas" se confundia com a caça às bruxas homossexuais. Por exemplo, uma carta do secretário nacional do Partido Republicano (citada na circular) dizia: "Talvez tão perigosos quanto os comunistas propriamente ditos são os pervertidos escusos que infiltraram nosso governo nos últimos anos". Essa não era uma posição extrema: na época, a revista "Time" defendeu o projeto de despedir todos os homossexuais que trabalhassem para o governo federal.

É nesse clima que, nos anos 70, em San Francisco, Milk se tornou o primeiro homossexual assumido a ser eleito para um cargo público.

Poderia escrever sobre as razões que, quase invariavelmente, levam alguém a querer esmagar a liberdade de seus semelhantes. O segredo (de polichinelo) é que muitos preferem odiar nos outros alguma coisa que eles não querem reconhecer e odiar neles mesmos. E poderia contar a história de Roy Cohn, braço direito de McCarthy, que morreu, em 1984, odiando e escondendo sua homossexualidade e gritando ao mundo que a causa de sua morte não era a Aids (ele foi imortalizado por Al Pacino na peça e no filme "Anjos na América", de Tony Kushner).

Mas, depois de assistir a "Milk", estou a fim de festejar o caminho percorrido em apenas meio século: o mundo é, hoje, um lugar mais habitável do que 50 anos atrás. Aconteceu graças a milhares de Harvey Milks e a milhões de outros que não precisaram ser nem homossexuais nem comunistas nem coisa que valesse: eles apenas descobriram que só é possível proteger a liberdade da gente se entendermos que, para isso, é necessário defender a liberdade de nosso vizinho como se fosse a nossa. Nos anos 70, quase decorei a carta aberta que James Baldwin (escritor, negro e homossexual) endereçou a Angela Davis (jovem filósofa, negra e militante), quando ela estava sendo processada por um assassinato que não cometera, e o risco era grande que o processo acabasse em uma condenação "exemplar". Baldwin lembrava as diferenças de história, engajamento e pensamento entre ele e Davis, para concluir: "Devemos lutar pela tua vida como se fosse a nossa - ela é a nossa, aliás - e obstruir com nossos corpos o corredor que leva à câmara de gás. Porque, se eles te pegarem de manhã, voltarão para nós naquela mesma noite".

Os direitos fundamentais não são direitos de grupo, eles valem para cada indivíduo singularmente, um a um. É óbvio que grupos particulares (constituídos por raça, orientação sexual, ideologia, etnia etc.) podem e devem militar coletivamente pelos direitos de seus membros, mas, em uma sociedade de indivíduos, a liberdade de cada um, por "diferente" que ele seja, é condição da liberdade de todos. Por quê?

Simples: se meu vizinho, sem violar as leis básicas da cidade, for impedido de ter a vida concreta que ele quer, então meu jeito de viver poderá ser tolerado ou até permitido, mas ele não será nunca mais propriamente meu direito. "Milk" é um filme sobre um momento crucial na história das liberdades, mas não é um filme "arqueológico". A gente sai do cinema com a sensação renovada de que a militância libertária ainda é a grande exigência do dia. Ótimo assim.

Um amigo me disse recentemente que eu dou uma importância excessiva à contracultura dos anos 60/70. Acho, de fato, que ela foi a única revolução do século 20 que deu certo e, ao dar certo, melhorou a vida concreta de muitos, se não de todos. Acho também que suas conquistas só se mantêm pelo esforço cotidiano de muitos. Afinal (quem viu o filme entenderá), surge uma Anita Bryant a cada dia.
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Publicado originalmente em A Folha de S. Paulo, Ilustrada, em 26 de fevereiro de 2009.

Registro 241: Impressões carnavalescas

  • Não quero ser pessimista, mas alguma coisa estranha acontece com o Carnaval de Salvador. Seu gigantismo vai levando a festa pro brejo e não vejo muita saída para ela. O esgotamento do modelo que aí está é visível. Sabemos que não é o seu fim, a coisa ainda vai longe, mas a autofagia vai contribuir para o fim do modelo vigente. Lamenta-se o esvaziamento do circuito Osmar - Campo Grande. Mas se não me engano, lamentou-se o esvaziamento do Carnaval na Praça Castro Alves. O que o poder público não quer ver é que o tal esvaziamento é produto da comercialização do Carnaval. E não me venham com essa conversa de emprego e renda, quando os cordeiros ganham R$, 27,00, uns quebrados e parco lanche.
  • Já não se tira dinheiro do circuito Osmar, portando não há investimento, já que tudo é transferido para o circuito Dodô - Barra-Ondina, o mega-chic-carnaval dos camarotes, das grandes estrelas e das regras do mercado. É aí que todo mundo quer star, sobretudo a mídia, os globais, os políticos, as personalidades, os emergentes e também aqueles que querem um lugar ao sol. E a força da grana, não tem que segure. Ao mesmo tempo possibilitadora de coisas novas e interessantes, ela traz em si o próprio vírus da destruição, pondo por terra o que ela mesmo concebeu. O cantor popular já falou sobre isso referindo-se à cidade de São Paulo. O Carnaval de Salvador vai na mesma direção.
  • Não sou fã de Ivete Sangalo, como não sou fã das estrelas baianas criadas e desenvolvidas no laboratório da música Axé, termo impróprio, mas já institucionalizado. Mas não posso desconhecer a habilidade, inteligência e carisma de Ivete Sangalo no Carnaval. Ela, talvez seja a única estrela que vai para a avenida sabendo em que lugar está. Durval Lélis também sabe o que é fazer a festa. Nada de conceito pra gerar discurso, nada de show pra intelectual, nada de proposta vanguardista que se torna risível visto que é pobre e mal realizada. O que Ivete Sangalo faz é encarar o Carnaval como uma grande brincadeira. E ela sustenta essa brincadeira com profissionalismo de mega-empresária que sabe fazer tilintar moedinhas no cofre, o que todos fazem na avenida, mas a cantora não perde de vista a brincadeira, o jogo de se saber participante da folia. Veste sua fantasia, nada conceitual, nada extravagante, canta sucessos que fazem o folião pular, diverte-se divertindo os que estão na rua e em casa vendo-a pela televisão. Brilhante essa menina. Muito esperta, cativa o mais sizudo dos mortais. Por vezes sua irreverência descamba para a grosseria deselegante, destoando. Mas se pensarmos que a mola propulsora do Carnaval é a desrepressão e a elevação das partes baixas (os instintos) em detrimento da racionalidade e da metafísica, fazemos vista grossa, mas não deixa de ser grosseiro alguns dos seus comentários. Talvez se falasse menos e cantasse mais, sanaria o problema.
  • Ridículo os shows apresentados por Daniela Mercury. Eles atrasam o desfile e enchem a paciência do folião. Canta-se pouco e fala-se muito. Um discurso de frases feitas que não termina nunca. Além disso, escolheu roupas horríveis para si, e pior para os bailarinos. Aquela roupa dourada sem brilho vestida por ela, mais os figurinos dos dançarinos, era de dar dó. Quem concebeu aquilo não saca nada de folia momesca, não tem humor, não tem sagacidade criativa. Aquelas tocas e saias como se fossem crinolinas nas dançarinas já eram um horror, nos dançarinos, um desastre. E ninguém fala nada e todo mudo engole aquilo como se fosse uma novidade, uma invenção. Ridículo. Uma coisa velha travestida de nova. As coreografias, nem dá pra falar. Qualquer grupo de dança amador faz melhor. Cadê a assessoria? Triste quem acha que mega-estrela ouve assessoria, embora tenha uma monte delas, gente que diz amém, amém, amém.
  • Gerônimo foi um escolha pertinente para Rei Momo, embora continue achando que a escolha deveria passar por outro processo. Ele disse coisas sérias irreverentemente, como cabe a um Rei Momo que se preze. Além disso, por ter feito a bela canção que diz que a cidade é de Oxum, ele merece o aplauso dos soteropolitanos. Só por isso não deve ser esquecido nem ignorado.
  • A campanha do alleitamento materno foi às ruas e rendeu $$$$ matéria televisiva, quase todas na Rede Globo. Que a tal promoção surta efeito positivo para as mamães récem paridas e para o seus filhos.
  • Ação consciente e responsável a distribuição de camisinhas aqui e na Marquês de Sapucaí. Espera-se que a Camisa de Vênus tenha sido usada e de forma correta.
  • No domingo de Carnaval aconteceu mais uma cerimônia de entrega do Oscar. Mudou alguma coisa, mas ainda é demorada demais. Haja paciência pra aguentar. Mas esse ano melhorou. O deslize foi o Oscar para o comediante Jerry Lewis, outorgado por benemerência, como se ele não tivesse dado uma contribuição significativa para a sétima arte. Mas o velho ator, oitenta e tantos anos, foi elegante. Ao agradecer, expressou o seu espanto sobre premiar-se atos de benemêrencia. Saiu por cima O Professor Aloprado, diversão garantida nas matinês das décadas de 50 e 60.
  • Não se justifica a ausência de Leonardo Di Caprio na lista dos indicados para melhor ator. Seu trabalho em Foi Apenas um Sonho é superior ao de Brad Pitt, que tem uma boa atuação em Benjamin Button, mas sem a densidade para entrar na lista dos indicados. Não entendi. A família Ledger, elegante e discreta em sua dor, emocionou a platéia ao agradecer o Oscar póstumo para Heath Ledger. Ainda não vi as interpretações de Sean Penn e de Mickey Rourke, mas os membros da Academia puxaram a orelha de Rourke. A fala de Penn foi direta, sem meias palavras. As câmeras não precisavam apontar o roteirista de Milk durante a fala de ator, afinal de contas ele, o roteirista, já tinha saído do armário. Merecida a premiação de Kate Winslet por sua atuação em O Leitor. Somando-se ao superlativo trabalho em Foi Apenas um Sonho, gosto muito mais, a atriz de qualidades inegáveis demosntra que tem muito a realizar no cinema. Um achado trazer atrizes e atores premiados anteriormente para homenagear os indicados nas categorias em que eles foram premiados. Hugh Jackman mostrou-se competente, dança, canta e encanta com seu charme de homem bonito e sexy, escolha das revistas a qual me rendo. Penélope Cruz, demais! Não vi o filme, mas ela merece. Seu agradecimento simpaticíssimo e tocante
  • A feiúra dos camarotes no circuito Osmar era perceptível para os que tem um pouco de sensibilidade estética. Além de feios, não tinham bom acabamento. O Camarote Salvador, com aquelas colunas e lustres, era risível. Os emergentes deve ter adorado. O Harém era de um mau gosto atroz, principalmente no interior, mas deixa pra lá, não devemos perder tempo com esse assunto. Nada vai mudar mesmo.
  • Ouvir a família Macedo é sempre bom. Mas ouvir falação de cantor em cima de Trio Elétrico é dose! E a babação em frente ao camarote da TV Bandeirante? É de arrepiar. Baba o artista no Trio, baba os apresentadores, com aquela conversa mole, cheia de chavões repetidos a cada ano, como se tudo fosse igual, igual. Talvez seja mesmo, eu é que fico implicando. Mas a secreção escorrega e ninguém reclama. Para-se a animação para a rasgação de seda. Urg!
  • Li contos de Tennesseee Williams, edição da Companhia das Letras. Ainda não terminei. São 49 contos

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Regsitro 240: Revisitando o passado

Da esquerda para a direita: Imprensa Oficial e Biblioteca Pública de Salvador. Fotógrafo desconhecido, reprodução por Lita Cerqueira. O conjunto arquitetônico situava-se na Praça Tomé de Souza ou Praça Municipal e foi destruído no início da década de 70, quando da gestão de Antônio Carlos Magalhães .

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Registro 239: Depoimento II

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se.

NELITO REIS


Bacharel em Artes Cênicas pele Universidade Federal da Bahia, atualmente está em cartaz com o espetáculo Dona Flor e Seus Dois Maridos em turnê pela região sudeste. Entre seus trabalhos recentes, destaque para o musical Raul Seixas, A Metamorfose Ambulante, onde interpretou o falecido músico baiano, trabalho pelo qual foi indicado ao Prêmio Braskem de Teatro como melhor ator em 2005. No cinema fez os filmes de longa-metragem Revoada, de José Umberto Dias; Estranhos, de Paulo Alcântara e Strovengah, de André Sampaio, ainda não lançados.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Me chama atenção o ator criativo que dá à personagem traços que talvez surpreendam até mesmo seu autor. Gosto muito do trabalho de Wagner Moura, como ele constrói as personagens, dando-lhes traços peculiares que os tornam diferentes entre si, falo isso, por entender o quão difícil é se despir totalmente inclusive de si mesmo e conseguir dar à personagem essa imagem nova, quando o público já está habituado a ver o ator em tantos outros papéis. Admiro a força da interpretação de Gideon Rosa e a verdade que ele imprime em suas construções, assim também Luiz Melo, Othon Bastos, Harildo Déda. Estes atores ganham tamanha dimensão no palco muito por conta da simplicidade como interpretam, econômicos em suas partituras, muito precisos, mas que acima de tudo nos situa na verdade daquela personagem que estão dando vida, por vezes até nos mostram novas facetas de personagens clássicos.


2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Maryl Streep, Fernanda Montenegro, Kate Winslet e Irene Papas, esta última há muito sumida das telas, hoje, octogenária, dedica-se apenas ao teatro, e Ruth Gordon, que embora tenha visto em dois ou três outros filmes, admiro pela Maud do Ensina-me a Viver, de 1971. Sean Penn, De Niro, Dustin Hoffman, José Wilker, Matheus Nachtergaele.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Ewald Hackler

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Injustiçado... não sei. Não sei.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Não exatamente que eu não desse nada, não sou tão severo em minhas expectativas, mas sem citar exemplos me recordo da Escola de Teatro, onde vi muitos experimentos de colegas, com resultados muito bons, com resoluções maravilhosas, sobretudo diante da grande dificuldade que era montar trabalhos ali por falta de estrutura às vezes, até mesmo falta de espaço e a criatividade tinha que correr solta e muitas vezes traziam diferenciais inusitados às encenações. Tive a oportunidade de acompanhar isso como público em alguns e como ator em outros, destes processos. Vi peças montadas nos escombros do velho Martim Gonçalves, outras no canteiro de obras de reconstrução do novo, vi encenações nas escadarias do sobrado, do prédio anexo, nos jardins, até mesmo nos banheiros.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
Nada Será Como Antes tem para mim a importância de ter sido o momento em que eu compreendi que queria fazer teatro; Ensina-me a Viver por ser minha única oportunidade de ver Nilda Spencer no palco, vi Nilda muitas vezes em televisão e cinema; Galileu, por ser um texto que me emociona muito (isso com certeza contrariaria Brecht) e pela atuação de Harildo; Recentemente O Que Eu Gostaria de Dizer, com Luiz Melo, quando curiosamente meus acompanhantes saíram comentando que a peça não dizia muito, quando estava eu com a voz embargada, emocionado, com tudo que sentia que a peça me falara diretamente.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
Me fez mal? Acho uma colocação muito pesada, acredito que não passei por essa experiência ainda. Ou talvez possa citar uma experiência de palco e não de platéia. Vejamos, durante quatro anos participei da Paixão de Cristo em Lauro de Freitas (Bahia). Trata-se de espetáculo ao ar livre, apresentado na praça central daquela cidade, com público anual estimado em cerca de cinco mil pessoas. No primeiro ano interpretei o Rei Herodes e nos três seguintes representei Jesus Cristo, quando então era comum ser abordado por pessoas me pedindo que as tocasse, ou tocasse em seus filhos, parentes doentes. Eram três dias de apresentações e, ao fim do primeiro, eu já apresentava sinais de febre e muito cansaço. Ao fim do terceiro dia, amiúde eu baixava hospital. Isso aconteceu somente nos três anos em que fiz Jesus. Todavia, trata-se de um trabalho que me orgulha ter feito, tamanho o envolvimento da comunidade para a realização do evento.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
Graças a Deus foram vários, mas para responder a questão cito Material Fatzer, de Márcio Meireles, montada a partir da obra de Bertolt Brecht. Vale observar a curiosidade de que a cidade de Salvador passara naquele período por uma situação de insegurança sem precedentes por conta de uma greve dos policiais militares.

9 – Comédia é um gênero de segunda?
De forma alguma. Historicamente observamos na Grécia antiga a primazia da tragédia, sobretudo por sua relação com as Dionisíacas, que eram eventos de adoração divina e das quais só muito mais tarde as comédias passaram a fazer parte. Não há gênero de segunda, há trabalhos de segunda, terceira, quinta categoria, infelizmente, e por esse ponto de vista ha também dramas de segunda categoria. Acho que o público hoje em dia tem menos paciência com o drama (será?), mas mesmo esta preferência pela comédia, pelo besteirol muitas vezes fácil nos serve para reflexão, até porque dizem que a impaciência com o drama é pela pouca disposição à reflexão e que nas comédias essa reflexão fica mais diluída, facilmente digerível, não sei se é isso. Curto poder ir a um teatro e rir, loucamente, ver um besteirol bem comercial. Mas me sinto extremamente feliz quando vejo um bom espetáculo, drama ou comédia, que me faz refletir, questionar, discutir depois com alguém ou apenas pensar com meus botões.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
Acho que a dificuldade sugerida seria para fins de montagem, é isso? Acredito que O Menor Quer Ser Tutor, de Peter Handke, me parece um texto delicado, justamente por não ser uma peça falada, embora muito eloqüente (vai com trema mesmo). Nos anos 90 foi montada por Ewald Hackler na Escola de Teatro e recentemente ganhou uma adaptação maravilhosa que foi O Sapato do Meu Tio, com direção de João Lima.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
A Casa de Eros, espetáculo dirigido por José Possi Neto, em 1996, por ocasião dos 40 anos da Escola de Teatro da UFBA. A encenação, que ocupou todo o espaço do velho solar Santo Antônio, sede da escola, bem como o teatro Martim Gonçalves, apresentou um esboço histórico e mítico da relação entre aquela instituição e seu fundador, Eros Martim Gonçalves.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
O Sapato do Meu Tio. Lúcio Tranchesi e Alexandre Casali me emocionaram muito. Uma das maravilhas dessa montagem era sua simplicidade.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
Cito, antes dos textos, três jovens dramaturgos, que pela força das imagens e profundidade de conteúdo que propõem em seus trabalhos já marcaram com certeza a história de nosso teatro: Cláudia Barral, autora de O Cego e o Louco, Cordel do Amor Sem Fim, O Que de Longe Parece Ser um Verso em Branco; Marcos Barbosa, autor de Auto de Angicos, Braseiro e Minha Irmã; Gil Vicente Tavares, autor de Os Javalis, Os Amantes II e Canto Seco.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
Vereda da Salvação, de Jorge Andrade.

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Não saberia dizer, não costumo observar tais cânones.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Não me recordo de nenhuma. Certamente não gostei de algumas coisas, mas não me lembro de haver críticas em contrário.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
Li uma crítica negativa à montagem de A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de André Paes Leme, em cartaz no Teatro SESC Ginástico, Rio de Janeiro em 2007, condenando a opção do diretor em transportar para o universo nordestino a linguagem e o universo mineiro, próprio de Guimarães Rosa, autor da obra. Ora, ainda que não fossem regiões tão semelhantes e até geograficamente próximas, não vejo gravidade em desconstruir textos, mesmo clássicos, aliás, quão interessante é justamente desconstruir principalmente o clássico, não é? Adaptá-las em outras culturas, dar-lhe frescor. A encenação em questão era irretocável em qualidade cênica, as contracenas, cenário e iluminação primorosos, números musicais emocionantes.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode escolher três.
Jamie Tyrone, de Longa Jornada de Uma Noite Adentro, de Eugene O’Neill
Robespierre, de A Morte de Danton, de Georg Büchner
Joaquim, de Vereda da Salvação, de Jorge Andrade

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
A verdade cênica.

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
A superficialidade da contracena, muitas vezes fruto de indisciplina do(s) ator(es) ou ausência de direção
.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Registro 238: Tem Rosas No Canteiro

Tem rosas nesse canteiro.
Há também silêncios e pausas,
evocações do sertão.
Há música em repouso
Música calada...
se é que pode existir
o som sem sonoridade.
Há personas que se desdobram
em personagens
e cantos que se esparramam
pelo espaço

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Registro 237: Evoé Baco

Viva Zé Pereira
Viva quem gostar
Viva Zé Pereira
No dia do Carnaval!

Carnaval traz boas recordações...
Desde a mais tenra infância, gostei muito da festança, pois em casa o meu pai comemorava a folia com tudo que tinha direito. No interior da Bahia, a partir da metade do anos 50, esperávamos, eu e meus irmãos, os três dias, desde o fim de janeiro. Aprendíamos as marchinhas ouvidas pelo rádio ou então pelo serviço de auto-falante. Esperávamos o Carnaval como desejávamos o São João e o Natal, sabendo o significado de cada uma das festas e suas particularidades. Essas festas eram comemoradas pela família e cabia a meu pai dar o tom, o pique, a alegria.
No Carnaval...
Lembro-me do meu pai com o grupo de amigos, todos vestidos de mulher, a dançar pela rua junto com o bando de mascarados e bloco de sujos. Essa imagem de desregramento e de comportamento fora da ordem fascinava-me. Ao mesmo tempo deixava em nós, seus filhos, um sensação de estranhamento. Era como se perdêssemos o pai. E perdíamos.
Durante os desfiles dos cordões e batucadas, quando o sol amenizava e a brisa cortava a avenida principal, as famílias colocavam cadeiras em frente às suas casas e viam o movimento da calçada, o subir e descer dos cordões, a batucada e Corró evoluindo montado na mulinha. E lá íamos nós, irmãos, primos, amigos, cada um com seu saco de confetes e rolos de serpentina, que eu não conseguia jogar. E lança-perfume Rhodo Metálico. Quanta inocência!
Apesar dos objetos desejados e curtidos delirantemente, nunca estávamos fantasiados. Bastava uma máscara de nome Dominó e pronto. Então, seguíamos a orquestra, cantando a plenos pulmões, indo e rindo no ritmo brincante, esperar o Rei Momo. E ele chegava todo paramentado, calças bufantes de cetim vermelho, túnica dourada de mangas também bufantes e gola de filó enfeitada com guizos. Peruca, rosto empoado, coroa de areia prateada, a purpurina da época, e cetro encimado por balões coloridos. Esse rei fanfarrão era meu pai, mas nem eu nem meus irmãos tínhamos acesso a ele, porque ele era da multidão dançante em torno dele.
A partir dos sete anos, frequentei um dos bailes da cidade. Por conta da rivalidade político-partidária separando as famílias, os partidos organizavam cada um o seu baile. Quando as tensões não eram tão fortes, a rígida divisão não se sustentava. Mas houve Carnaval em que não pude seguir meus amigos por conta de brigas eleitorais. Como eu não aceitava essa divisão estúpida, logo tratei de romper com tal esquema, tornando-me mal visto por um dos lados ou pelos dois, já que eu instaurava um ruído ao me relacionar com meninos e meninas dos dois partidos. Às vezes, tive que controlar a minha rebeldia e aceitar a imposição familiar, fato que não impedia a minha alegria, finda apenas ao receber as cinzas na quarta-feira e ao ver meu pai sem a sua fantasia e assumido ar de seriedade.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Registro 236: Resenha

  • O semestre letivo começou e perdi o pé. São tantas coisas para providenciar que deixei de lado os registros em Cenadiária, embora tenha lançado uma seção denominada Depoimentos. Aguardo resposta dos convites que fiz aos artistas para que possa alimentar a divisão com novos depoimentos.
  • Como não recebo comentários no blog, imagino que são poucos os leitores. Ou os Registros não despertam interesse ou... Não sei. Isso não impede que expresse. Seguimos em frente. Divirto-me. Gostaria de escrever mais, mas tenho compromissos urgentes: dar conta da publicação de Transas na Cena em Transe, Teatro e Contracultura na Bahia e de Um Grilo no Pedaço, livro para o leitor jovem. A editoração está na fase final e quem cuida do primeiro é a Edufba. O outro está sob a responsabilidade das Paulinas. Ah, e terminar o livro, ainda sem título, que venho escrevendo, preparar aulas, cuidar da casa, das leituras, das caminhadas em meio à praça de guerra em processo de montagem na orla, da ida ao dentista, etc. e tal. Ufa! Mas escrever é compulsão e termino sempre encontrando um tempo para deixar registrado as ruminações.
  • Embora os críticos tenham dado três estrelas para Revolutonary Road, o filme de Sam Mendes, cujo título no Brasil - Foi Apenas Um Sonho - reduz o que há de significados no título em inglês, gostei muito, principalmente pela atuação deslumbrante dos protagonistas e coadjuvantes. Pode parecer exagero, mas para mim, as interpretações fazem lembrar aquela geração de intérpretes formados pelo "Método", a versão americanizada da proposta stanislavskiana de preparação do ator. Kate Winslet e Leonardo de Caprio dominam os personagens. Ela mais sutil, ele mais evidente, mas não menos interiorizado. Tanto um quanto outro constroem seus personagens a partir de dentro e vão revelando sentimentos que afloram no decorrer da ação, conduzida com segurança habilidade e sensibilidade pelo diretor. Dele, gostei de Beleza Americana e Estrada da Perdição. Não vi o filme sobre a guerra do Iraque. Dou **** para Revolutionary Road.
  • Completo a postagem feita ontem. Mais um filme inquietante, bem realizado, sem nenhum viés escapista e os críticos... Ah, os críticos e suas escolhas. Carimbaram três estrelas para O Leitor e deram quatro para O Curioso Caso de Benjamin Button outra realização de peso, mas que não supera nem Revolutionary Road nem O Leitor, mas está acima de A Troca, que não é um filme desprezível, como querem nos fazer crer as resenhas sobre ele. Stephen Daldry conduz com segurança um filme em que os personagens (Michel Berg) carregam sua culpa, escondem segredo (Hanna Schmitz) e se debatem diante de uma situação que não diz respeito somente a eles, mas a uma nação, no caso a Alemanha. A memória tece o filme, visto que é por ela que Michael adulto (o ator Ralph Fiennes) relembra o amor juvenil por uma mulher mais velha. Ainda jovem, quando estudante de Direito, ele se depara com seu julgamento de Hanna, acusada de crimes contra os judeus durante a barbárie hitlerista, que alguns tentam de todas as formas negar. Vejam o caso do bispo recetemente reabilitado por Bento XVI. Continuo mais tarde....

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Registro 235: Depoimento I

O jornal O Estado de S. Paulo em seu Caderno 2 - Cultura - sempre aos domingos - apresenta um espaço denominado Antologia Pessoal, no qual profissionais das artes dão o seu depoimento sobre assuntos de sua área. As perguntas não variam, são sempre as mesmas. Ao apropriar-me da idéia, acrescentei uma pergunta e reformulei algumas; basicamente são as mesmas do jornal.

Assim, convido artistas baianos ou residentes em Salvador para deixar o seu depoimento no blog Cenadiária. Cada participante indicará um artista para que se forme uma rede de registros e opiniões. Semanalmente, a Cenadiária vai trazer uma personalidade do teatro baiano para o deleito do leitor. Divirta-se

INAUGURANDO A SEÇÃO,

CELSO JÚNIOR

Nasci há 40 anos uma cidade fria, feia e longe, no interior do Rio Grande do Sul. De lá, peregrinei com meus pais pelo Brasil, até chegar à Bahia, no carnaval de 1980. Em Salvador, conheci muita coisa, estudei arquitetura e teatro. Sou ator e diretor de espetáculos. Aos poucos virei professor.

1 – Que atores ou atrizes cujo trabalho em teatro você acompanha?
Nunca perco uma oportunidade de assistir Andréa Beltrão em cena. É sempre um alento. Aqui em Salvador, tá complicado, não tem mais teatro direito... Mas quando uma peça traz Marcelo Prado, eu vou assistir sempre. Me interessa saber o que ele tem a dizer, e como.

2 – Que atores ou atrizes de cinema compõem a sua galeria de favoritos?
Edward Norton, Kevin Spacey, Fanny Ardant, Kate Winslet. São muitos.

3 – Qual diretor de teatro cujo trabalho faz você retornar ao teatro?
Ewald Hackler, na Bahia. Gerald Thomas, no Brasil.

4 – Dê exemplo de um criador teatral muito bom, mas injustiçado.
Não sei responder a esta pergunta. Acho que a atriz Yumara Rodrigues não teve o destaque que o talento dela merecia. Mas tem um problema de ego ali. Não sei.

5 – Cite uma criação teatral surpreendente e pela qual você não dava nada.
Ano passado eu fui assistir a uma peça em São Paulo, me fiando apenas no título, que eu tinha achado bonito e poético: “O céu 5 minutos antes da tempestade”. No fim das contas, era um espetáculo realmente surpreendente. Uma das atrizes, inclusive, está indicada ao prêmio Shell.

6 – A cena baiano-brasileira tem alguns momentos teatrais antológicos. Cite algumas que marcaram sua vida.
No início dos anos 80, quando eu era adolescente e comecei a assistir as peças da Escola de Teatro, houve um momento antológico, numa mesma temporada, eu assisti “Em alto mar”, “A noite das tríbades”, “A caverna” e “Dias felizes”. Essa experiência modificou minha visão de mundo. Naquele momento, eu percebi que o teatro poderia ser um veículo para as coisas que eu pensava. Foi uma experiência ao mesmo tempo devastadora e epifânica. Destruiu muito do que eu acreditava e construiu novas coisas.

7 – Que encenação lhe fez mal, de tão perturbadora?
“O livro de Jó”, de Antônio Araujo. Passei mal, chorei, sofri junto. Só um tempo depois, é que eu percebi que havia sido tragado por aquela manipulação emocional. É um espetáculo quase pornográfico, no sentido em que não permite ao espectador nenhum hiato de subjetividade. Tudo está explícito o tempo todo. Mas, naquele momento, eu caí feito um patinho.

8 – Que espetáculo teatral mais o fez pensar?
“Entropia”, de Rodrigo Nogueira e direção de Marcelo Mello, que eu assisti no Rio. Perdi a noite, pensando sobre o espetáculo, depois de assistir. Saí do teatro com uma sensação de alívio: “Nossa, o teatro carioca não morreu!”

9 – Comédia é um gênero de segunda?
Eu comecei em teatro na Cia. Baiana de Patifaria, que fez um gênero muito especial de comédia, no final dos anos 80 e redefiniu a história do teatro em Salvador. A comédia é um gênero de primeira necessidade. Tanto fazer quanto assistir. Sem hierarquias. Tudo tem seu lugar.

10 – Cite uma peça difícil, mas significativa.
“Fim de partida”, de Samuel Beckett. Todas as vezes que eu li – devo ter lido umas quatro vezes, integralmente – foi uma leitura difícil. Mas é muito boa, apesar de tudo.

11 – Cite uma encenação que imagina ter sido memorável e você não viu.
“A vida de Eduardo II”, de Christopher Marlowe, com direção de Harildo Déda. Não consigo entender por que eu não assisti a esta montagem, nos anos 80. Eu já era frequentador dos espetáculos da Escola de Teatro, não sei por que não fui. Pelas fotos e pelo que as pessoas dizem, foi uma montagem monumental.

12 – Uma encenação difícil, mas inesquecível.
“Viva o povo brasileiro”, baseado na obra de João Ubaldo, sob direção de Wagner Salazar. O diretor veio a Salvador montar essa adaptação. Ele estava num momento muito especial da vida dele (ele tinha AIDS e morreu pouco depois da estréia) e conseguiu tingir a peça com esse momento dele. Foi um soco no estômago. Sem aviso, sem dó, na covardia. Saí do teatro devastado por aquilo tudo.

13 – Que texto(s) escrito(s) nos últimos dez anos merecia um lugar na história do teatro brasileiro?
“Nada será como antes”, de Claudio Simões, escrito há exatos 10 anos.
“Entropia”, de Rodrigo Nogueira, escrito já no século 21.

14 – Qual o texto dramático clássico brasileiro, de qualquer tempo, você recomendaria encenações constantes?
“O beijo no asfalto”, de Nelson Rodrigues. Essa peça deveria ser reencenada a cada – sei lá – 10 anos. Sempre encontro ali, cada vez que releio, novos caminhos a serem trilhados, novas possibilidades. É isso que faz de um clássico um clássico, não?

15 – Cite um(a) autor(a) sempre ausente dos cânones que merece seu aplauso?
Acho (e tenho esperanças) que Harvey Fierstein ainda será descoberto como um grande autor de peças. Atualmente, ele é visto apenas como um autor de comédias gays. Mas a visão de mundo dele – presente em suas peças – é de uma beleza e de uma poesia imensas.

18 – Que montagem (ou ator, autor, diretor, cenógrafo, figurinista, iluminador) festejado pela crítica você detestou?
Gabriel Vilella. Nunca gostei muito das peças dele. E ele é incensado, festejado, premiado, endeusado. Acho o trabalho dele pretensioso, maquiado e sem tridimensionalidade.

19 – E que montagem (ou ator, diretor, autor) demolida por críticos você gostou?
“Cartas abertas”, de Marcio Meirelles, uma pequena obra-prima delicada que foi – mais do que demolida – ignorada pela crítica, pelas premiações. Só não foi ignorada pelo público.

20 – Qual peça e personagem gostaria de fazer? Você pode citar três.
Gostaria de fazer um dos personagens de “Esperando Godot”, de Beckett, qualquer um.
Gostaria de interpretar Vânia ou Astrov, de “Tio Vânia”, de Tchékhov.
Gostaria de interpretar Henrique de Bolingbroke, da peça “Ricardo II”, de Shakespeare.

21 – Que virtude você mais preza no teatro de qualidade?
Síntese e clareza. “Menos é mais.”

22 – O que mais incomoda você no mau teatro?
O excesso de signos desperdiçados e dispersos. O tempo perdido ali.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Registro 234: Uma frase

A luz de Deus ou nos ilumina ou nos cega.
Não sei quem é o autor da frase. Ela termina o filme de Alexandre Inárritu sobre o ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. O curta faz parte do longa metragem sobre o ataque as Torres Gêmeas, reunindo trabalhos dos diretores Samira Makhamalbaf (Irã), Claude Lelouch (França), Youssef Chahine (Egito), Danis Tanovic (Bósnia), Idrissa Ouedraogo (Burkina Faso), Ken Loach (Reino Unido), Alejandro González Iñárritu (México), Amos Gitai (Israel), Mira Nair (Índia), Sean Penn (EUA) e Shohei Imamura (Japão).

sábado, 24 de janeiro de 2009

Registro 233: Alinhavos sobre o cotidiano cultural

Tomou posse o novo diretor da Fundação Gregório de Mattos, prometendo “descentralização e deselitização da cultura”. O chavão me dá arrepios. Ao que parece, vamos ter mais uma onda populista na área cultural. Embora o governo municipal esteja em rota de colisão com o estadual, parece que o discurso se afina quando a questão é a Cultura. Identidade preocupante.

Mas vamos lá: uma das ideias do diretor é construir o Teatro Municipal na Praça Castro Alves. Em uma cidade com poucos teatros, a iniciativa é oportuna. Espera-se que o futuro Teatro Municipal não sirva apenas para ser palco de eventos que veem de fora, mas dê espaço para as produções teatrais, coreográficas e musicais geradas aqui na soterópolis. Ah, e que saia do papel.

Um teatro nas imediações da Ladeira Montanha pode contribuir para a revitalização do logradouro, mas isso por si só não garante a mudança da relação que a população tem com o local. Para que a área passe a ser aceita como um local vivo e atraente é necessário muito mais que boas intenções. Cabe ao poder público planejar e executar ações que facilitem o acesso dos interessados ao bens culturais; para isso é preciso de transporte público fácil, rápido, constante e cobrindo horários mais avançados, já que as atividades artísticas muitas vezes terminam mais tarde que o horário de funcionamento do transporte coletivo. Depois disso, pensar e efetivamente em tornar o lugar seguro, o que atualmente não é. Em determinados horários, caso não se tenha transporte particular, ir ao Espaço Unibanco Glauber Rocha é uma temeridade. Depois das 18:00 h, o centro da cidade fica despovoado. Uma cidade fantasma com seus velhos e belos edifícios, ruas sombrias, nenhum restaurante, bar ou lanchonete decente. Além disso, o fedor de urina e fezes impregnado nas calçadas causa mal estar. Uma tristeza!

Mas antes do Teatro Municipal, por que não inaugurar efetivamente o Centro Cultural da Barroquinha? A obra encontra-se em processo de deterioração, depois do eleitoreiro e falso ato inaugural, quando da campanha para reeleição do péssimo prefeito que aí está. Como não entendo dos jogos políticos partidários,que favoreceram a reeleição, deixo de emitir opinião. Mas sinto que algo não cheira bem nessa esfera de alianças e jogadas. É certo que alguns eleitores foram conduzidos às urnas animados com a maquiagem das calçadas da Barra, já em processo de desgaste, visto que a execução foi apressada e de segunda. E não falo isso por conta da montagem das arquibancadas e postes de iluminação para o carnaval, a tal infraestrutura. Muito antes, constatavam-se fissuras enormes no cimento e nos recortes decorativos da sem-graça calçada. Pode-se imaginar como o local vai ficar depois do carnaval. Mas não vamos ser alarmistas.

O Centro Cultural da Barroquinha precisa de um projeto desenvolvido por uma equipe de gestores culturais que entendam do riscado e não fiquem por aí arrotando um discurso que não se efetiva de fato. Acreditamos que esse projeto exista e corresponda não somente ao espaço, mas se abra para as manifestações que dialoguem com tradição e a contemporaneidade nas artes, sem tanta ideologização, como vem acontecendo nos diversos setores da vida artístico-cultural. Esse Centro Cultural deve se abrir para a diversidade e não privilegiar apenas um segmento.

Entre os projetos do recém empossado diretor está a construção da Pinacoteca Municipal. Outra ideia louvável, mas equivocada por conta do lugar escolhido para sua instalação, o Teatro Gregório de Mattos. O belo espaço projetado por Lina Bo Bardi foi deixado às favas e nos últimos anos não cumpriu com sua função. No seu interior instalou-se um boteco de segunda categoria, as exposições não tinham sequer uma curadoria e o espaço estava sendo tratado de qualquer jeito, afastando de lá os espetáculos e os espectadores. Hoje fechado, pretende-se então transformá-lo numa Pinacoteca; um equívoco. Pelo seu tamanho, o edifício não comporta uma pinacoteca, que requer não só espaços para exposição do seu acervo, como locais para exposições temporárias, além de reserva técnica, centro de restauração, setor educativo, biblioteca e salas para abrigar os técnicos, a diretoria e tudo mais que esse tipo de instituição precisa para funcionar de fato e de direito. Ou não existe acervo suficiente para espaço mais adequado ou o que vemos é mais um jogo de cena. Palavras ao vento.

Por que não reformar o Teatro Gregório de Mattos, equipá-lo e colocar à sua frente alguém que entenda de administração de espaços culturais, como um teatro? O edifício está ali a espera de revitalização, para ser oferecido como mais um espaço para abrigar os espetáculos que precisam de pequenos teatros. O modulável projeto de Lina Bo Bardi não pode ser o que não é. Com tantos edifícios desocupados e com perfil mais apropriado para uma Pinacoteca, escolhe-se o Teatro Gregório de Mattos para o seu destino. Tem alguma coisa errada nisso tudo ou não tem? Deixo que o leitor responda.

Outra coisa questionável é somente pensar em Oscar Niemeyer como o arquiteto para o projeto do Teatro Municipal. Nada contra o nosso grande e criativo e superlativo Niemeyer. Ele já nos deu inúmeras provas de sua sensibilidade e competência, ainda que tenha cometido seus pecadilhos. Mas como o assunto aqui é outro, não cabe levantar alguns equívocos do querido arquiteto, reconhecido internacionalmente por sua competência. Ele certamente fará um belo projeto. Ainda assim, deveria se dar oportunidade aos novos e competentes arquitetos, para que eles possam mostrar suas propostas. Arquitetos que saibam fazer teatro, que conheçam o que é um palco e suas áreas necessárias para a montagem de espetáculos e circulação de artistas e técnicos. A maioria dos teatros construídos no país apresentam falhas devido o desconhecimento por parte dos responsáveis do que seja um palco.

Ficamos livres do Museu Guggenheim, lembra-se, caro leitor? Agora teremos uma obra faraônica na encosta.

Já que estou comentando sobre planos, projetos e que tais do governo municipal, aproveito para indagar aos administradores estaduais: por que o Passeio Público encontra-se tão abandonado? E a reforma do Palácio da Aclamação, ficou pela metade?

Outro dia fui ao Teatro Vila Velha para ensaiar. Como cheguei pouco antes do horário marcado, aproveitei para andar pelo Passeio Público, um dos belos espaços que esta cidade tem, mas relegado ao abandono: calçadas, canteiros, estátuas e fonte, destruídas; árvores apodrecendo sem que se tome uma providência, fios cruzando de um poste a outro de qualquer jeito, gramado seco, descuidado. Uma pena. Se olharmos as pinturas e as fotos antigas que retrataram o lugar desde sua fundação, veremos que o Passeio Público foi relegado ao descaso por parte da administração estadual, fato que não se dá na gestão atual. Ali também se encontra uma construção, cuja parede da frente traz escrito “Teatro Popular”, imagino ser a sede de algum grupo ou mesmo um Teatro. Mas olhando pelas vidraças quebradas vemos uma platéia e um pequeno palco, ambos empoeirados, prova de que o lugar não oferece condições mínimas para que se façam atividades. Ao deparar-me com o local, perguntei-me sobre o motivo do abandono. A construção poderia cumprir seu papel, desde que fosse adaptada para as atividades teatrais. Um espaço desperdiçado a espera de alguém com vontade de transformá-lo em um teatro pequeno e bem equipado.

Olhei as ruínas e segui em frente, mas não indiferente ao que via. Aquele espaço no fundo do Palácio da Aclamação está pleno de possibilidades. Andei guiado pela vontade de vê-lo transformado. Fiz planos. Imaginei. A mente tem espaço para esse exercício de criação. Se não me engano, o poeta Manuel de Barros disse: o que eu imagino é o que existe. Tomo as palavras do poeta para dizer que aquilo que imaginei para o Passeio Público e para o tal Teatro Popular existe como uma imagem fortemente viva porque nela acredito.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Registro 232: Outro olhar sobre "A TROCA"

A PRESENÇA DO PASSADO
JORGE COLI
A história é clara, mas o pensamento tão complexo. Nada de conceito teórico, mas uma reflexão intrincada brotando, intuitiva, dentro do filme. A expressão perfeitamente controlada engendra uma força que não se refreia. "A Troca" retoma obsessões que se tecem a partir de tudo que Clint Eastwood filmou. Alguns críticos tentaram, sem sucesso, enquadrá-lo em um único gênero: film noir, melodrama, policial, filme social, filme político. Ele contém tudo isso para formar outra coisa: uma convicção ética que exclui o maniqueísmo.Nos anos de 1970, Eastwood fazia vingadores se levantarem contra a ordem social, comandada por poderosos sempre corrompidos até o cerne. O vingador vingava, não para restabelecer uma ordem justa, mas para destruí-la naquilo que estava ao seu alcance. Encontrava refúgio em comunidades de "outsiders", em meio à gente desprezada, mas leal, sincera, verdadeira: basta ver "O Estranho Sem Nome" ou "Josey Wales - O Fora da Lei"."A Troca" expõe, ela também, a luta individual capaz de enfrentar o complô dos interesses sujos e das mentiras infames. O sonho da comunidade permanece, embora mais tênue e transformado, não mais na antiga utopia comunitária, mas em certas afinidades, algumas éticas, outras mais difíceis de explicar.A palavra afinidade é uma chave no cinema de Clint Eastwood: significa laços invisíveis, muito poderosos, e para além das convenções. Quem viu não se esquece da cena unindo dois mortos que se amaram e se odiaram, em "Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal". Há esse estranho filme, "Dívida de Sangue", em que dois personagens se ligam por razões nada racionais. O assassino abjeto de "A Troca" descobre uma surpreendente sintonia com a heroína, Angelina Jolie. Carrascos Os desmandos policiais expostos em "A Troca" são terríveis. O momento no qual, verdadeiro filme dentro do filme, surgem expostas as cumplicidades entre polícia e psiquiatria para abaterem-se com crueldade abjeta sobre as mulheres, é digno do mais alto Foucault. Dirty Harry, personagem do tira durão, machista, matador, que Eastwood interpretou em vários filmes, o primeiro deles dirigido por Don Siegel, ficou bem longe."A Troca" mostra suspeitos sendo baleados como num fuzilamento por razões torvas. A cena, que lembra os abates nos campos de concentração nazistas, remete para realidades como os esquadrões da morte, o Bope, e discursos delirantes do atual governador de Mato Grosso do Sul, que manda a polícia esquecer os direitos humanos. Sinistro Em "A Troca", Eastwood acusa, mas avança, e ultrapassa a denúncia militante graças ao personagem do serial killer. Ele encarnaria o mal absoluto, se o diretor não lhe tivesse concedido dimensão humana.Uma cena de execução judicial por enforcamento, descritiva, detalhada, expõe a barbárie da pena de morte como mais um crime cruel e perverso. O prisioneiro, cantando "Noite Feliz", mostra-se, ele próprio, habitado por uma inconsciência infantil. É um formidável momento de cinema. "A Troca" faz pensar no Kieslowski de "Não Matarás", no Chabrol de "O Açougueiro" e, sobretudo, em "M, o Vampiro de Düsseldorf", de Fritz Lang.Como neste último, a justiça é incapaz de compreender e, sobretudo, de resolver a questão do mal. Luz "Sobre Meninos e Lobos", o filme mais pessimista de Eastwood, centra-se, como "A Troca", na violência sobre crianças. Agora, porém, a última palavra é esperança.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Registro 231

Quando li o artigo de Daniel Finkelstein fiquei assustado com as suas colocações. Procurei entendê-las, mas não encontrei argumentos que sustentassem sua perspectiva. Ao ler a Folha de S. Paulo, edição de 14 de janeiro, encontrei o elucidador texto de Marcelo Coelho, articulista que sempre leio, pois seus textos sempre trazem um ponto de vista com o qual, na maioria das vezes concordo. Por esse motivo, ainda que não tenha lhe pedido permissão, transcrevo-o, pois acho que seu texto é merecedor de um lugar no modesto Cenadiária.

Caso você discorde ou concorde pode deixar comentário, procurando ler também o texto anterior que trata da questão em pauta, as ações tenebrosas em Gaza. Esse lugar na Terra Prometida vem se tornando a imagem de um campo de extermínio. Esclareço mais uma vez que não faço a defesa do terrorismo nem de ações que colocam em risco a vida de tanta gente sofrida. O texto de Marcelo Coelho abre a nossa percepção e é uma resposta ao texto de Daniel Finkelstein. Uma resposta lúcida, não sectária nem tendenciosa. Gostaria de ter escrito o texto

SOMOS TODOS JUDEUS
Marcelo Coelho

É MUITO EXALTADO e revelador o artigo de Daniel Finkelstein, colunista do "Times" londrino, que o suplemento "Mais!" reproduziu neste domingo. Um trecho:"A origem do Estado de Israel não está na religião ou no nacionalismo:está na experiência da opressão e do assassinato, no medo da aniquilação total e na conclusão amarga de que não foi possível confiar na opinião mundial para proteger judeus. Israel foi ideia de um jornalista.

Theodor Herzl era o correspondente em Paris da "Neue Freie Press" quando testemunhou manifestações antissemitas violentas contra o capitão Alfred Dreyfus, judeu (...).

Essa experiência levou Herzl a perder sua fé na assimilação. Ele se convenceu de que os judeus só poderiam viver em segurança se tivessem seu próprio país. Muitos judeus resistiram a sua conclusão durante muitos anos. (...) Mas a experiência de judeus de todo o mundo na primeira metade do século 20 (...) acabou confirmando a visão de Herzl.

Assim, quando se pede a Israel que respeite a opinião mundial e confie na comunidade internacional, não se está compreendendo o ponto fundamental. A própria ideia de Israel é uma rejeição dessa opção. Israel só existe porque os judeus não se sentem tutelados da opinião mundial".

Não será uma loucura todo esse raciocínio de Finkelstein? A odiosa perseguição antissemita ao capitão Dreyfus terminou em vitória contra o preconceito. A Segunda Guerra Mundial terminou em vitória contra Hitler. A insegurança dos judeus, no mundo ocidental, diminuiu a quase zero no Pós-Guerra.

A criação de um Estado judeu no Oriente Médio tem sido o único fator a reverter esse processo.

A opinião pública mundial sempre esteve disposta a defender os judeus. Não mais, quando para reagir ao fundamentalismo cego do Hamas e do Hizbollah se matam as irmãs árabes de Anne Frank.

É justamente nesse momento que o articulista do "Times" se sente liberado para dizer que a opinião pública mundial não deve tutelar os judeus. "Opinião pública mundial" termina virando sinônimo, na verdade, do bom senso e da moralidade básica de qualquer ser humano.

Nada entendo de táticas de guerra, mas imagino que o Exército israelense, capaz de brilhantes operações como as de Entebbe e da Guerra dos Seis Dias, poderia conceber meios melhores para debelar os assassinos do Hamas do que mísseis que matam crianças e civis.

Israel dissemina o terror numa população que nem sequer tem condições de fugir. O terror, a fome e a miséria criarão novos militantes que nada têm a perder.Quantas fotos, ao lado daquelas das crianças mortas, não mostram também crianças protestando e jogando pedras contra os judeus? O ódio é incutido desde cedo; semeia-se com bombas de última geração a insegurança de Israel nos próximos 20 anos.Certamente, atos de violência e bombardeios localizados nem sempre são ineficazes. Mísseis caíram sobre o palácio do ditador líbio Muammar Gadafi e isso ajudou a torná-lo minimamente razoável.

Não sei se o mesmo acontecerá depois de Israel destruir tudo o que existe em Gaza. Mas sei que cada criança morta ali é também um atestado da morte moral do Estado judeu.Quiseram construí-lo para segurança dos judeus? A interpretação é pobre, mas vá lá: o fato é que essa segurança pouco existe. Existe mais nas democracias ocidentais, de que o sionismo desconfiava tanto.

Quiseram construí-lo, numa interpretação melhor, em nome da moralidade e da inocência de um povo injustamente atacado e perseguido? Seria melhor cumprir então o que está atrás dessa ideia, e ser antes vítima que perseguidor, antes inocente que assassino.

Para mim, a sorte do judaísmo simboliza a sorte da humanidade toda, na exata medida em que não há Estado a defendê-la. O lar dos judeus, o verdadeiro lar, é um mundo em que todos sejam iguais. É este o lar que quero para mim, que me sinto judeu. Pois são judeus todos aqueles submetidos à perseguição, ao preconceito e ao racismo. Judia é aquela criança carregada pelos pais, morta pelos mísseis de Israel.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Registro 230: Palestina - PAZ - Israel

Como ficar indiferente ao conflito israelense-palestino que irrompeu no alvorecer de 2009, desencadeando ataques mortíferos que resultam na morte de tantos civis? Como ficar passivo diante da morte de tantas crianças? Como se comportar diante de tantas informações e tomar uma posição?

Moralmente, humanitariamente, coloco-me contra a violência da guerra, principalmente quando ela varre da terra vidas humanas, muitas delas contrárias ao conflito. Penso que em meio aos israelenses e entre os palestinos muitos se colocam frontalmente contra o ódio que vem sendo cultivado ao longo dos anos.

Tanto os palestinos quanto os judeus acreditam que a Terra Prometida lhes pertence. Essa terra se estende do Mediterrâneo até o rio Jordão. Terra que povoa o real e o imaginário de todos nós. Nessa estreita faixa de terra, vivem cerca de cinco milhões de judeus e cerca de quatro milhões e meio de árabes, povos tão semelhantes e tão diversos, mas muito próximos. Para os judeus, essa terra tem o nome de Israel, para os árabes é a Palestina. Ambos os povos têm razões para acreditar que a terra lhes pertence.

Vejamos as razões dos judeus: historicamente a região foi um reino judeu; após a revolta contra a dominação romana, de 70 a 135 D.C., a Judéia recebeu o nome de Palestina, denominação dada pelos romanos. Por essa época, os judeus se dispersaram, mas muitos permaneceram vivendo na região.

A cada ano, desde que se destruiu do templo de Jerusalém, os judeus oram para retornar a essa terra. Ao se encerra os festejos da Páscoa, festa que rememora a saída do Egito, o judeus proferem a seguinte frase: “No próximo ano em Jerusalém”. Nas três orações diárias a comunidade judaica, pelo menos os religiosos, volta-se para a direção onde está a cidade de Jerusalém que é sua cidade mais sagrada, como é sagrada também para os árabes, ainda que Meca seja o lugar de peregrinação mais importante. Jerusalém é também uma cidade sagrada para os cristãos do mundo inteiro, embora Roma exerça um papel de suma importância.

Na história do povo judeu registram-se inúmeros momentos de perseguição. Após séculos de trágicas Cruzadas que também causaram danos aos árabes, depois dos progroms e por fim depois da Shoah, a maior parte dos judeus, mas nem todos, acreditam que apenas estarão a salvo de perseguições se existir um Estado de Israel independente, fato que se concretizou em 1948.

Vejamos as razões para que os árabes acreditem que essa terra lhe pertence: os povos árabes que habitam essa terra estão nela desde muitos séculos e suas esperanças aumentaram significativamente após a conquista mulçumana no século VII. A vida e as tradições dos que habitam a região revelam uma forte ligação com os lugares onde seus ancestrais viveram de geração a geração. A cidade de Jerusalém é um centro cultural, social e religioso para os árabes.

Como fazer para que esses povos vivam em paz e construam sua história abolindo as agressões bilaterais? Muitas são as repostas, os argumentos, as perspectivas. Caso sigamos os argumentos de um povo ou de outro podemos fazer uma escolha irrelevante, visto que ambos os povos têm direitos a essa terra. Esses direitos são amplamente reconhecidos pela comunidade das nações. Além disso, devemos considerar que nenhum dos dois povos simplesmente desaparecerá, hoje, amanhã ou depois. Eles estão aí. São muitos, são importantes, são povos com uma história, uma identidade. E a pergunta surge: o que fazer a respeito.

A saída pode estar em quatro soluções possíveis para acabar com o conflito.

1 – Os árabes ficam com toda a terra
2 – Os judeus ficam com toda a terra
A solução 1 e 2 envolveria a eliminação do outro lado pela força. O uso da força extrema geraria ações de deportação em massa e o genocídio. Para isso, árabes e judeus lutariam entre si até a destruição mútua.

3 – Um Estado binacional para judeus e árabes
A solução de um estado binacional pode soar atrativa teoricamente, mas é impossível colocá-la em prática tendo em vista o estado de tensão permanente e os ódios entre os povos. Além disso, esse tipo de solução contraria o desejo de autonomia e autodeterminação de cada um dos povos.

4 – Dois Estados para os dois povos.
A única solução viável de paz duradoura seria através da existência de dois estados independentes, vivendo lado-a-lado, com fronteiras seguras e mutuamente reconhecidas. Essa ideia foi a que uniu os dirigentes dos palestinos e dos judeus em Oslo. Mas o Processo de Oslo falhou, falhou não por ter sido baseado em premissas erradas. Elas estavam corretas na defesa de dois estados para os dois povos, única maneira de se chegar à paz na região O processo fracassou porque cada lado costuma culpar o outro.

Para os palestinos, os argumentos vão nessa direção: a visita de Sharon ao monte do templo, o assentamento de Israel na Cisjordânia e Gaza e os bloqueios israelenses e as punições coletivas. Para os israelenses os argumentos são: recusa de Arafat às propostas de Barak em Camp David, os atentados terroristas e o incitamento dos palestinos à violência e ódio pela educação. Diante desses argumentos podemos julgar quais atos consideramos mais imorais e injustos, ou quem tem razão. Cada lado faz um contagem diferente de sangue e culpas. Cada lado costuma escolher diferentes fatos divulgar ou omitir. É importante levar em conta que boa parte de ambos os lados perdeu a confiança e a crença no comportamento do outro, com a solução de dois estados frustrados com o processo de Oslo.

Para que os povos, palestinos e israelenses, encontrem a medida justa é necessário combater a intolerância, já que existe nos dois lados pessoas que se recusam aceitar os direitos humanos e nacionais do outro. Portanto, esses grupos precisam ser combatidos no interior de sua cultura, cada um arcando com essa responsabilidade. Combater esses grupos é uma solução necessária. Palestinos e israelenses devem dizer não aos seus membros intolerantes e às suas formas violentas. É preciso acabar com o medo do outro. Enquanto houver medo cultivado a insegurança dissemina-se e os dois lados partem para o confronto.

Dei aulas em uma instituição judaica, o Ginásio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem. Ali, conviviam brasileiros. Em meio a esse ambiente laico e progressista longe do dogmatismo e afastado do sionismo,
aprendi muito e reafirmei a minha vontade de permanecer do lado daqueles que acreditam nas possibilidades de uma convivência pacífica entre pessoas e culturas diferentes. Tal afirmação não aceita a totalidade dos comportaemntos individuais e cuturais. As teses do multiculturalismo precisam ser olhadas cuidadosamente para que se aponte as vias deformantes e os descalrbos perpretados em nome de uma totalidade que não deve ser aceita plenamente.

Trabalhei com judeus e árabes em diversos elencos e partilhei com eles convivência pacífica, civilizadora, fraterna, que não impedia a divergência.

Hoje, quando vemos grassar entre nós o fundamentalismo político, religioso e étnico, eu me lembro dos meus alunos, dos meus colegas professores, dos meus companheiros de teatro, dos meus amigos árabes e judeus e tenho esperança.
Faz muitos anos, li um artigo de Umberto Eco onde ele dizia que a tolerância tinha um limite. E que era preciso atentar para não abaixarmos a cabeça diante das ações desumanas, com receio do nos tornarmos intolerantes. Faço a defesa daqueles que cobatem a intolerância por saber os caminhos que eles trilham. Esse caminho nega o ódio e o medo.

Muitas das ideias contidas nesse texto foram retiradas de um documento eletrônico, apócrifo, que recebi. Como não tenho conhecimento da autoria, reservo- me o direito de avisar que nem tudo que está escrito aqui é meu. Mas elas se tornam minhas ideias porque nelas acredito.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Registro 229: "A TROCA"

  1. Os críticos especializados em cinema se especializam tanto que viram uns chatos. Não conseguem relaxar e assisti a um filme que não seja "especializado" ou seja filme "cabeça". Falo isso por conta de A Troca, novo filme de Clint Eastwood. A maioria dos críticos especializados torceram o nariz e deram duas ou três estrelas. Eu dou quatro. Não se espante... Vou dar um desconto, visto que sou fã de melodramas e é isso que o filme do "detetive durão" é. E ele faz seu filme com sensibilidade e mexe com emoções e sensações na medida certa, carregando a mão somente na sequência do enforcamento. De resto, o filme é belíssimo, com interpretações boas, uma necessidade para que o melodrama nos arrebate. Angelina Jolie mostra sua capacidade de atriz muitas vezes diminuídas por personagens e ou filmes equivocados. Seus companheiros de elenco se encarregam de ampliar o leque de boas interpretações. O ator que faz o delegado é muito bom, assim como John Malkovih, sempre bem.
  2. O visual do filme, a cidade de Los Angeles no final da década de 20 e começo do anos 30, é preciso. E essa visualidade é sóbria. O diretor alterna o filme com cenas amenas e calmas com cenas tensas e nos empurra para dentro da sua história que não sabemos onde vai dar. Mas como todo bom melodrama, tudo acaba bem. Ou pelo menos nos alivia da tensão. No caso de A Troca, torcemos esperançosamente com a personagem da mãe. Porém, antes que isso aconteça, ficamos atentos e com os nervos à flor da pele à media em vemos o drama da heroína, a mãe que tem seu filho desaparecido e recebe outro no lugar dele. Baseado em fatos reais, o que torna o filme mais denso e conquista nossa simpatia desde o início, o filme A Troca coloca os bons e os maus em confronto, e no final vai ao encontro do humanismo, esse ideario tão ridicularizado, mas que reforça em nós a sua defesa. O melodrama é construído dessa forma - bons de um lado maus do outro - e o confronto dessas forças. Por isso os personagens parecem chapados, o que não são. Clint Eastwood arma o filme seguindo três unidades e através delas vemos os personagens delineando-se e no final, depois das perseguições sofridas, a mãe encontra a redenção. A justiça é feita. E há esperança no ar.
  3. Belo filme.
  • A Troca (Changeling, 2008, EUA) direção: Clint Eastwood; com: Angelina Jolie, Gattlin Griffith, John Malkovich, Colm Feore, Devon Conti, Jeffrey Donovan, Jason Butler Harner, Eddie Alderson; roteiro: J. Michael Straczynski; produção: Clint Eastwood, Brian Grazer, Ron Howard, Robert Lorenz; fotografia: Tom Stern; montagem: Joel Cox, Gary Roach; música: Clint Eastwood; estúdio: Imagine Entertainment, Malpaso Productions, Relativity Media; distribuição: Universal Pictures. 141 min

sábado, 3 de janeiro de 2009

Registro 228: Estamos em 2009


T E M P O

Carlos Drummond de Andrade

Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui para adiante vai ser diferente...
...Para você,
Desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
A esperança renovada.
Para você,
Desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.
Para você neste novo ano,
Desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
Que sua família esteja mais unida,
Que sua vida seja mais bem vivida.
Gostaria de lhe desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente...
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada minuto,
ao rumo da sua FELICIDADE!!!


Finalmente, 2009. Ainda estou ao sabor da marola dos dias festivos, que para mim foram mais de recolhimento que de embalo. Na passagem do ano, eu convivi com pessoas queridas e não saí de casa. O jantar frugal, seguido de conversas sobre o tempo, a vida, as acontecências, foi digerido com tranquilidade, já que não houve banquete pantagruélico. Embora saboroso, o jantar compunha-se de três pratos. Depois da meia-noite, cama e sono reparador, já que passar o dia providenciando comida, mesmo que simples, cansa. E com esse calor deselegante, só o banho de mar pra me deixar confortável. E foi o que fiz ao cair da tarde do dia 31. Praia vazia, ainda limpa, e lá estava eu apreciando o sol despencando dentro das águas de Ondina, praia gostosa, que não é melhor por conta das barracas, todas ao mesmo tempo com som no mais alto volume, cruzando pagodes, cada um pior que o outro. Haja sociologia da compreensão para dar conta do gosto popular. Mas fazer o quê? Cada um sente e se expressa como quer . No entanto, não vejo qualidade nesse tipo de música, pessimamente tocada, com arranjos repetitivos e simplórios, o infalível cavaquinho sem nenhum invenção. Os cantores, um tenta imitar o outro. Não sabemos qual o pior. Na terra de grandes sambista como Cartola, Batatinha, Ismael Silva, a Velha Guarda da Mangueira e da Portela, Paulinho da Viola, o que se ouve é lixo em vez de boa música.

Dia primeiro do ano. Fui, como sempre faço, caminhar na orla. Não fosse a sujeira deixada pela horda festeira, tudo estaria em conformidade com a manhã de céu azul. Era tamanha a quantidade de garrafas de vidro e de plástico espalhadas por todos os cantos que o lugar parecia um lixão. Não consigo entender os motivos de não conseguirmos manter os espaço públicos limpos. Deixamos nossos rastros como prova de nossa insensibilidade, de falta de educação, de desatenção. E não me venha com a justificativa de que era festa. Além do lixo, fezes e urina. Fossemos como os gatos, não deixaríamos os dejetos expostos.

Hoje, ao caminhar novamente pela orla, vi que a empresa encarregada de montar e desmontar a festa no Clube Espanhol (Réveillon Enchanté) pregou nos coqueiros grossos pinos de metal para sustentar as placas que protegia a entrada do público. Um ação fora do lugar. Enfiar metal no caule do coqueiro já é um absurdo, deixá-lo ali enferrujando é condenar a palmeira. Reclamar pra quem? Um amigo vem me dizendo que ando muito reclamão, um chato, mas como ele é jovem não acrescentou ao vocábulo, a expressão "de galocha". Chato de galocha. Tentei revidar, mas aceitei a reclamação dele, já que as minhas não encontram eco. E como não sou de sair por aí fazendo comício e passeata, recolho-me. Em 2009 tentarei não me queixar.

Fui ao cinema ver Gomorra. Um chute no estômago. Saí da sala completamente estressado. O Unibanco Glauber Rocha é um espaço deslumbrante. Depois do filme percorri seu interior até o terraço, mirante sobre a Praça Castro Alves. Um privilégio ver a praça com o poeta estendendo a mão tendo ao fundo a deslumbrante Baía de Todos os Santos pontilhada de luzes dos inúmeros navios ancorados. O espaço do cinema é de arquitetura moderna, limpa, elegante. Uma livraria atrai quem gosta de livros, mas seu acervo é muito restrito. O café muito gostoso, mas de preço proibitivo. Um café expresso com leite custar três reais me parece um despropósito. Ah, vende-se pipoca, outra ideia fora de lugar. Pensei que estaria numa sala diferenciada, longe do modelo Multiplex. Apreciar um filme com alguém ao seu lado mastigando pipoca é um horror, ainda mais com aquele cheiro de manteiga de segunda, que mais parece de sebo que de outra coisa. Falei com um rapaz muito atencioso, presumo ser o administrador do espaço, que escreveria uma carta para o jornal. Desisti, não vale a pena. Talvez o jornal nem publicasse. Mas penso que o Unibanco Glauber Rocha não combina com pipoca!

Acho que a promessa de não reclamar foi por terra!

Para aqueles que não aguentam a realidade, não recomendo Gomorra, tal a secura com que o cineasta Matteo Garrone expõe o submundo da Camorra. Quem está acostumado com a glamour dos filmes sobre a Máfia produzidos pelo cinema americano, caia fora. Em Gamorra, não há estetização da violência, nem justificativas para os crimes, há somente selvageria, bestialidade, beco sem saída e tudo isso atraindo crianças e jovens. E tudo pelo vil metal. Um círculo vicioso do mais alto grau de banditismo, crime organizado infiltrando-se em todas as esferas do social. Barra, não muito distante da nossa. O cenário, um cortiço, onde se passa maior parte da ação é de arrepiar. Quem idealiza a Europa e em particular a Itália, sofrerá um choque. Mas o choque serve para nos tirar da passividade, mesma a reflexiva.

Em 2008, mais precisamente no dia 29 de dezembro, Luiz Felipe Pondé escreveu um belíssimo texto na Folha de S.Paulo; Deus, é o título. Transcrevo o último parágrafo: " A teologia feminista diz que 'a Deusa' existe para punir o patriarcalismo. A teologia bicha (Queer Theology) se pergunta: por que Jesus viveu entre rapazes, hein? Alguns latino-americanos vêem Nele um primeiro Che, hippies viam um primeiro Lennon, outros, um consultor de sucesso financeiro. Ufólogos espíritas dizem ser Ele um extraterrestre carinhoso.Prefiro o cristianismo antigo (prefiro sempre as religiões velhas). Um Deus que sente dor e morre por amor a quem não merece é um maravilhoso escândalo ético. O Cristo antigo é um clássico. Melhor do que essas invenções da indústria teológica de vanguarda, feitas para o consumo moderno".

No artigo que escreveu para A Tarde (03.01.2009, p. A3), Fernando Conceição afirma que tivemos um Barack Obama na figura expressiva do professor Milton Santos. Tivemos, mas o enxotamos quando de seu exílio pelo governo civil-militar. Penso como Conceição que o geógrafo seria um bom político, mas o professor Milton Santos, em sua sabedoria extraordinário, sabia que essa função não lhe cabia. Para ser político perde-se a medida e navega-se ao sabor das imposições e interesses do partido. Por mais que seja um homem de fibra, intelectual e moral, ao ingressar na política o cidadão termina contaminado por esses jogos que vemos a cada dia serem jogados pela classe política brasileira. As exeções desaparecem no mar de lama. Depois, não nos interessa as exceções. Gostaríamos que a regra fosse a da transparência, da firmeza diante dos problemas que afligem a nação, da hombridade... Et Cetera. O professor Milton Santos sabia e muito de Política, mas a falta de entusiasmo para a política advinha do conhecimento que tinha dessa função e desse lugar. O seu ceticismo e desconfiança, como indica Fernando Conceição, são provas de alto saber, são provas de alguém que sabia ver mais longe e por isso permaneceu atuando onde atuou. Lucramos nós. Um professor, não um "ator político", esse era Milton Santos. Aproveito para questionar esse modismo de qualificar qualquer personalidade como ator. Esclareça-se: ator é o profissional que no palco ou na tela do cinema e da televisão encarrega-se de interpretar personagens. Os sociólogos de plantão resolveram qualificar os sujeitos, os indivíduos, os homens e as mulheres como atores sociais, retirando com isso a especificidade do vocábulo. Não me parece que Milton Santos interpretava personagens. Ele era um professor, bacharel em direito, geógrafo, um homem que não quis ser político. Um sábio.

Por enquanto é só!