sábado, 12 de maio de 2007

Registro 71: Lorca








As seis cordas

Federico Garcia Lorca

A guitarra faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Registro 70: Dobras de Leitura, vale a pena conferir


Edição N. 45 - Ano VIII - Maio de 2007

Dobras de nascimento e de morte, mistérios e estrelas na Vitrine Literária: é Pedro a quatro, África 3 Tempos... E duas DobraVerde's: a última parte do artigo de Susana Irion Dacol sobre a presença de autores da literatura não-infantil nas coletâneas de conto do PNBE 2002 e a palavra da ilustradora Thais Linhares. Mais 1 encontro mãe e filho, nos Alinhavos de Tânia Piacentini.

Essas e outras novidades on-line,
10 de maio, em Dobras da Leitura.
w w w . d o b r a s d a l e i t u r a . c o m

* OBRAS APRESENTADAS NESTA EDIÇÃO

Pedro, de Bartolomeu Campos de Queirós e Sara Ávila (Cia. Editora Nacional), Pedro e o Cruzeiro do Sul, de Cléo Busatto e Renato Alarcão (Edições SM), Pedro e Lua, de Odilon Moraes (Cosac Naify), Os Pedros, de Sandra Pina, il. Jorge Barreto(Salesiana), A história do galo Marquês, de Ganymédes José, il. Avelino Guedes (Moderna), O que tem na panela, Jamela?, de Niki Daly (Edições SM), Os gêmeos do tambor, de Rogério Andrade Barbosa e Ciça Fittipaldi (DCL). * TREVO DE LEITURAS: Diferentes somos todos, de Alina Perlman e Cecília Esteves (SM), Uma maré de desejos, de Georgina Martins, il. Cris Eich (Ática), Amar o mar, de Silvana Pinheiros Taets e Fê (DCL). VITRINE DE ESTUDOS: Literatura infantil: voz de criança, de Maria José Palo e Maria Rosa Duarte Oliveira (Ática).

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Registro 69: Tolerância


Sou católico, apostólico, baiano.

Sou devoto de Santo Antônio e de Nossa Senhora do Carmo. Entrei no candomblé, tardiamente, aos 20 e tantos anos, pelas mãos de Luiza Olivetto e Lícia Fabio, que me pediram para ajudar nas obras de restauração do telhado do Terreiro do Gantois.

Fui consertar o telhado do Gantois e o Gantois consertou minha vida. O candomblé não é uma religião. É um culto. Culto aos antepassados, às forças da natureza.

O candomblé é moderno. Ele já era ecológico antes que a ecologia entrasse em voga. Ele é avançado. Não exclui opções sexuais. Ao contrário, acolhe.

Os deuses do candomblé têm ira, inveja e raiva. Xangô é colérico. Oxum é ciumenta e chorosa. Ogum tem o pavio curto.

A religião católica quer que os homens sejam deuses. No candomblé, são os deuses que baixam nos homens.

Não é muito chique ser do candomblé.

Pelo menos na parte do país em que eu vivo. Como toda cultura vinda dos vencidos, é visto como desvio, coisa de gente desajustada ou de artista.

E confesso que isso, ao contrário de me afastar dele, sempre me instigou a caminhar contra o vento.

Toda sexta-feira, vejo, aqui e ali, o olhar jocoso com que algumas pessoas me olham vestido de branco.

Neste momento, sou judeu. Adoro como os judeus se afirmam pelo mundo usando suas barbas, seus quipás e seus casacos longos, onde convêm e onde não convêm.

Aliás, como estudante bissexto de cabala, vejo constantemente as similaridades entre procedimentos do candomblé e do judaísmo. Eles também se preocupam com olho gordo, eles também passam frango no corpo, eles também se banham em sal grosso. Enfim, há muitas similaridades entre o candomblé e a cultura judaica.

O candomblé é, e isso precisa ficar bem claro, o culto do bem. Tantas vezes confundido com feitiço. Ele é magia. As grandes mães-de-santo da Bahia se dedicavam sempre ao bem e à luz.

Se, aqui e ali, alguém usou esses poderes santos para o mal, é descaminho. E contra ele a força deve ter se voltado com certeza. O catolicismo não pode ser julgado a partir de padres pedófilos. E o candomblé não pode ser julgado a partir de pais-de-santo picaretas que ficam se exibindo na TV ou fazendo macumbas perversas.

Tenho certeza de que na hora em que o Santo Padre pisar no Brasil, todas as mães-de-santo do país e seus filhos e filhas estarão rezando e saudando sua Santidade.

Ainda que a igreja não tenha sido nem seja tão generosa com o candomblé. Mas o candomblé não está nem aí. Queira Roma ou não, na Bahia, igrejas e terreiros convivem e se abraçam. E isso é mágico.

E candomblé é magia. Aquela energia que a gente sente na Bahia vem dele. Aquela comida vem dele. Aquela música, aquela batida vem dele. Aquela sensualidade e aquela pimenta vêm dele.

Sua Santidade, por ser padre e por ser alemão, talvez não tenha o mesmo jogo de cintura para assimilar tudo isso.

Mas meus olhos e meu coração não podem negar o bem que mãe Cleusa me fez. O bem que mãe Stella me faz. Coisas inexplicáveis que eu não entendi. Mas presenciei.

E não se pode negar o bem e as coisas mágicas que elas fazem pelos pobres. O candomblé sempre foi e continua pobre.

Não tem catedrais, nem TVs, nem rádios. Não faz coleta de dinheiro. Ao contrário, as grandes mães-de-santo doam. Ao invés de lucrarem, vivem modestissimamente. E vivem consumidas dia e noite por todos aqueles que as procuram por um amor, pelo sossego perdido, pela paz nunca encontrada, pela esperança de cura ou de um amanhã melhor.

Vi mãe Cleusa, minha linda mãe do Gantois, morrer muito cedo, estressada por sua luta e sua dedicação à causa de sua mãe. Causa que hoje mãe Carmem, irmã da falecida, conduz com garbo, doçura e carinho.

Vejo mãe Stella, a maior mãe de santo do Brasil e a mãe de santo que eu escolhi, do alto dos seus 80 anos, consumir seus dias a dar ao povo pobre da Bahia, luz e esperança a setores da sociedade onde geralmente a luz e esperança não chegam.

Mãe Stela vive franciscanamente. Nunca fez voto de pobreza. Porque os pobres não precisam desse voto já que já são pobres.

O candomblé foi perseguido no passado pela polícia. Hoje é perseguido pelas igrejas evangélicas. Que escolheram o candomblé como bode expiatório num marketing infame.

E batem dia e noite no candomblé. Diante do silêncio lamentável de todos nós.

Bisneto de preto, neto de pobres, filho da Bahia, de mãe Cleusa e mãe Stella, teimosamente digo não a essa perseguição implacável. E defendo nosso direito democrático de acreditar na força do trovão, dos mares, do vento e da chuva.

Pode ser primário, mas é lindo. Quer coisa mais bonita do que acreditar que os deuses podem baixar entre os homens em lugares tão pobres onde nem a saúde, a educação e polícia se interessam em ir?

Por isso saúdo sua Santidade e peço a Xangô e a Oxum que guiem seus caminhos para que ele possa ser uma grande mãe ao longo de seu papado.

Que, além de encíclicas e regras, ele nos dê colo e carinho, porque o que o mundo mais precisa é de colo e carinho. Que ele seja o carinho da gente, a estrela mais linda. Que ele seja uma espécie de mãe Menininha global.

Porque, ao fazer isso, ele honrará o trono de Pedro e terá cumprido, no fim de seu papado, seu papel no tempo e na história.

Nizan Guanaes, 48, é publicitário e presidente da Africa Propaganda

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O sincretismo é uma das formas mais belas de não-violência. Tolo é aquele que não vê isso. Para melhor cultuar seus orixás, os negros transculturaram da África suas entidades. Para fugir da violência institucionalizada e estabelecida tomaram a via do sincretismo. Sintetizando elementos díspares, encontraram meios conciliatórios, verdadeira lição de convivência. Ainda é tempo de atentarmos para o acontecimento que o passado encerra e que o presente ainda vê, mesmo que as condições para sobrevivência do sincretismo esteja ameaçada pela intolerância de uns e de outros. Não podemos silenciar diante das formas aviltantes de perseguição que se dão no societal, afetando as relações e rompendo laços que o coração uniu e a razão validou como necessária para a convivência. Nenhuma religião tem o direito de se impor pelo anulamento de outras. O texto do publicitário baiano indica caminhos, aberturas...

Raimundo Matos de Leão

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Registro 68: Crítica de arte


Pintores Holandeses no Brasil
Em 1679 Maurício de Nassau presenteou Luís XIV com quarenta pinturas de assuntos brasileiros, declarando na carta de oferecimento ter a seu serviço em Pernambuco seis artistas pintores. Segundo o sr. Joaquim de Souza Leão Filho (The Burlington Magazine for Connoisseur, n. de março de 1942), dois teriam sido certamente Albert Eckhout e Frans Post;há dúvidas quanto aos outros quatro, que talvez fossem Zacarias Wagner, Jorge Marcgraf, Piso e Abraão Willarts. Do primeiro destes quatro se conhece um álbum de aquarelas, de interesses sobretudo etnológico; os outros eram homens de ciência, que sabiam ilustrar com desenhos e aquarelas seus trabalhos, mas não poderiam ser chamados de pintores senão por um encarecimento de Nassau, que, como sugeriu o Sr. Ribeiro Couto (Prefácio do Catálogo da Exposição Frans Post promovida em julho de 1942 pelo serviço do patrimônio Histórico e Artístico), queria.

dar mais relevo às preocupações artísticas do seu governo no norte do Brasil.

Como quer que seja, o único paisagista e o mais notável desses pintores foi Frans Post, a quem devemos, os brasileiros, a s primeiras pinturas em que se fixaram os nossos aspectos naturais, obras tanto mais interessantes, quando nelas a paisagem se enriquece de cenas e tipos da vida brasileira, ali colocados pelo artista, seja para animar a natureza com a nota humana exótica, tão apreciada pelos seus compatriotas, seja para fixar na tela o que a saudade guardara no fundo das retinas. O fato é que, tendo estado no Brasil sete anos apensa, de 1637 a 1664, Frans Post, estabelecendo-se em Harlem, de regresso à Holanda, dedicou-se exclusivamente à composição de paisagens brasileira em mais de quarenta anos de atividade artística. Os poucos quadros que pintou diretamente da observação da natureza do Brasil apresentam um colorido mais fresco e realista. Depois, na Europa, adotará um verde sombrio, que a mistura de betume fez enegrecer bastante com o tempo. Guardam contudo uma poesia penetrante: aquelas paisagens – escapadas de vale enquadradas entre árvores, coqueiros quase sempre, com a luz caindo a méis distância – e as figuras que as animam – escravos, senhores de engenho, sinhás – e as construções – casas-grandes de engenho, senzalas, capelinhas – já estão cheias. Como anotou Ribeiro Couto, do mistério na nossa nacionalidade.

Quanto a Eckhout, conhcecem-se dele vinte e quatro quadros de assuntos brasileiros, legados por Nassau a Frederico III da Dinamarca. Estão no Museu daquele país e representam vários tipos de índios e mestiços do Brasil, os naturezas-mortas, ou ainda estudos de animais.

BANDEIRA, Manuel. Artes plásticas no Brasil. In: Poesia completa e prosa. Rio Janeiro: Nova Aguilar, 1985, p.645-646

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Registro 67: Das águas

Espelho D'Água
Raimundo Matos de Leão
2000

terça-feira, 8 de maio de 2007

Registro 66: Ganhei de presente para o meu acervo















Wayne vai
Arte digital
2007

Pedro Carmo



















O homem anfibolito
Arte digital
2007
Pedro Carmo

Registro 65: Esse seu olhar...


Moça com brinco de pérola
Johannes Vermer (1632-1675)

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Registro 64: Um livro para jovens


De Cara Para o Futuro
Raimundo Matos de Leão
Ilustração de Vicenzo Scarpellin
São Paulo: Editora SM
2006, 153 p.

sábado, 5 de maio de 2007

Registro 63: Lucidez artaudiana

O Teatro Alquímico

Entre o princípio do teatro e o da alquimia há uma misteriosa identidade de essência. É que o teatro, assim como a alquimia, quando considerado em seu princípio e subterraneamente, está vinculado a um certo número de bases, que são as mesmas para todas as artes q que visam, no domínio espiritual e imaginário, uma eficácia análoga àquela que, no domínio físico, permite realmente a produção de ouro. Mas entre o teatro e a alquimia há ainda uma semelhança maior e que metafisicamente leva muito mais longe. É que tanto a alquimia quanto o teatro são artes por assim dizer virtuais e que carregam em si tanto sua finalidade quanto sua realidade.

Enquanto a alquimia, através de seus símbolos, é como um Duplo espiritual de uma operação que só tem eficácia no plano da matéria real, também o teatro deve ser considerado como o Duplo não dessa realidade cotidiana e direta da qual ele aos poucos se reduziu a ser apenas uma cópia inerte, tão inútil quanto edulcorada, mas de uma outra realidade perigosa e típica, em, e, que os Princípios, como golfinhos, assim que mostram a cabeça, apressam-se a voltar à escuridão das águas.

Ora, essa realidade não é humana mas inumana, e nela o homem, com seus costumes ou com seu caráter, conta muito pouco, é preciso que se diga. E é como se do homem pudesse restar apenas a cabeça, uma espécie de cabeça absolutamente desnuda, maleável e orgânica, em que os princípios pudessem aí desenvolver suas conseqüências de uma maneira sensível e acabada.
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ARTAUD, Antonin. O teatro e seu duplo. São Paulo: Martins Fontes, 2006, p.49-50

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Registro 62: Sobre a fidelidade

Cisnes
Júlio Salusse (1878-1948)

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas nem espumas.

Bem cedo quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo...
Quando chegar esse momento incerto,
No lago onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo cheio de saudade
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado d’outro cisne.


SALUSSE, Júlio. Cisnes. In: RABELO, Marques (org.). Antologia Escolar Brasileira. 1 ed. Rio de Janeiro: MEC, 1967.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Registro 61: Um belo e melancólico poema

CREPÚSCULO NO RIO DO RECIFE

Rubem Rocha Filho

I
As águas tecem no frio
Cantigas de pedra e limo,
Assombro de arrimo e nuvem.
Vivos, mortos se consomem.
Os mitos revelam o rio
Areias, redes, aldeias
As vagas noites do homem
Ruas com destino ao mar.

II
Em lama o Capiberibe
Esvaziando cidades
Ramas de seus descaminhos
Tão perdidos, tão sozinhos
Une rastros e saudades.
Que haja amor ou desespero
Escorre como frágil escama
Desta tarde o navegar.

III
Pontes de casas e tempos
Sei que cantam, sei que passam,
Que os barcos têm remos graves,
Velas de silêncios pensos.
Em sonho vão respondendo
Ao desfilar deste ocaso.
Mãos de sargaço desfiam
As contas do meu pesar.
___________
Rubem Rocha Filho é carioca, reside em Recife desde 1968, ”mas o coração é baiano da década de 60!” afirma ele. Cursou Filosofia, é poeta, dramaturgo, diretor de teatro e escreve livros para crianças. Foi professor de muita gente pelo Brasil.

Rocha Filho é amigo do peito, daqueles guardados no “lado esquerdo”. Sua presença em minha vida foi fundamental para a minha formação.

O poema registrado na Cenadiária foi premiado na 6ª edição do Concurso Banco Real Talentos da Maturidade – 2004. Sobre a sua participação, Rubem assim se expressou: “O concurso levanta a auto-estima. É uma oportunidade maravilhosa. Fico contente com o cuidado do banco Real na divulgação do concurso e na publicação dos vencedores. Acredito que vale mais do que prêmio em dinheiro.”
Conforme os jurados, “o poema reflexivo e intenso, formalmente bem realizado, que utiliza o rio como imagem melancólica da passagem do tempo pessoal e histórico”, motivou a escolha do poeta como um dos vencedores do concurso

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Registro 60: Para não esquecer

VERDADE E MEMÓRIA DO PASSADO

GAGNEBIN, JEANNE Marie. Verdade e memória do passado. In: Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006, p. 47.

Enquanto Homero escrevia para cantar a glória e o nome dos heróis e Heródoto, para não esquecer os grandes feitos deles, o historiador atual se vê confrontado com uma tarefa também essencial, mas sem glória: ele precisa transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados. Sua “narrativa afirma que o inesquecível” (13) mesmo se nós não podemos descrevê-lo. Tarefa altamente política: lutar contra o esquecimento e a denegação é também lutar contra a repetição do horror (que, infelizmente, se reproduz constantemente). Tarefa igualmente ética e, num sentido amplo, especificamente psíquica: as palavras do historiador ajudam a enterrar os mortos do passado e a cavar um túmulo para aqueles que dele foram privados. Trabalho de luto que nos deve ajudar, nós, os vivos, a nos lembramos dos mortos para melhor viver hoje. Assim, a preocupação com a verdade do passado se completa na exigência de um presente que, também possa ser verdadeiro.

(13) Citado por Janine Altounian na sua bela coletânea Ouvrez-moi seulement les chemins d´Arménie, Paris, Lês Belles Lettres, 1990, p. 47
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Cinema e Guerra
O genocídio de Ruanda por Fernando Masini

Dois filmes recentes tratam da matança dos tútsis em 1994, em que mais de 800 mil pessoas foram mortas, sob o olhar indiferente do mundo

“Todos os grandes personagens viraram as costas para nossos massacres. Os boinas-azuis, os belgas, os diretores brancos, os presidentes negros, as pessoas humanitárias e os cinegrafistas internacionais, os bispos e os padres, e finalmente até Deus.” A constatação é de Élie Mizinge, um dos assassinos confessos hútus que participaram do massacre em Ruanda.

O depoimento deste e de outros nove hútus que pegaram em facões e porretes a fim de exterminar a etnia tútsi está no livro “Uma temporada de facões: relatos do genocídio em Ruanda”, do jornalista francês Jean Hatzfeld, lançado no Brasil em 2005. O autor teve longas conversas com os entrevistados na penitenciária de Rilima, onde todos cumprem pena pelos crimes cometidos durante o massacre.

Sete deles eram jovens amigos de colégio, encontravam-se nos cabarés de Kibungo, região pantanosa próxima à capital Kigali e trabalhavam juntos na lavoura. Impressiona a ferocidade e a franqueza dos relatos. “Primeiro, quebrei a cabeça de uma velha mamãe com uma porretada. Mas, como ela já estava deitada no chão, meio agonizante, não senti a morte em meus braços. Voltei para casa de noite sem nem pensar nisso”, revela no livro um dos matadores hútus.

As atrocidades aconteceram há 12 anos -os ataques começaram nos primeiros dias de abril de 1994-, e não houve qualquer tipo de intervenção de órgãos de segurança mundial. As tropas da ONU pouco fizeram e mantiveram postura omissa quanto à possibilidade de salvamento das vítimas.

Keir Pearson, roteirista do filme “Hotel Ruanda”, declara no material extra do DVD (disponível no Brasil a partir 20 de abril): “Quando comecei a pesquisar o assunto o que me espantou foi que a ONU sabia o que estava acontecendo, foi alertada, mas houve um esforço consciente do Ocidente em ignorar”. No filme, uma cena simboliza bem a impotência das tropas diante da milícia extremista hútu Interahamwe, que comandou a ofensiva contra os tútsis.

Integrantes hútus, amontoados no caminhão e empunhando facões, chegam perto do hotel Mille Collines, onde o protagonista Paul Rusesabagina (Don Cheadle) abriga órfãos e tútsis ameaçados pela matança. Em frente ao portão de entrada, está o coronel Oliver (Nick Nolte) com soldados boinas-azuis da ONU. Os milicianos ficam cara a cara com o coronel e gritam palavras de ordem. Para intimidar, jogam fora do caminhão um capacete azul manchado de sangue com a inscrição “United Nation”. Oliver apenas acompanha de longe a arruaça promovida por eles.

Outra tentativa de voltar os olhos ao massacre ignorado à época é o filme “Shooting dogs”, do diretor escocês Michael Caton-Jones, que estreou recentemente em Londres e já tem contrato fechado com a distribuidora Imagem Filmes para ser lançado no Brasil em agosto deste ano. Assim como “Hotel Ruanda”, a ação desenrola-se em um lugar real que serviu de abrigo aos acossados tútsis: a escola secundária Ecole Technique Officielle, com sede em Kigali.

O padre católico inglês Christopher (interpretado pelo ator John Hurt) e um jovem professor tentam a qualquer custo evitar as matanças na capital Kigali e proteger mais de 2.500 tútsis e hútus moderados que são perseguidos pelas milícias extremistas. Mais uma vez, é realçado o caráter de desamparo das vítimas. Quando chegam as tropas francesas à capital, a ordem é clara: só serão resgatados os estrangeiros brancos. Nas horas seguintes à partida dos soldados, a grande maioria dos abrigados da escola é brutalmente assassinada.

“Eu decidi que, mesmo com dificuldades, nós tínhamos que rodar o filme em Ruanda e filmar na Ecole Technique Officielle. E devíamos também fazer o filme com os sobreviventes do genocídio. Eles precisam contar suas histórias”, disse o diretor Caton-Jones. A equipe viajou ao país e passou cinco meses até terminar as filmagens em Kigali. Muitos ruandeses participaram do projeto, como Maggie Kenyama que serviu como assistente de direção. Ela perdeu a irmã durante o massacre e até hoje procura pelo corpo.

“Shooting dogs” teve sua estréia mundial em Kigali. Mais de 1.500 pessoas, dentre elas alguns sobreviventes do genocídio e participantes da produção, foram ao estádio Amahoro, na capital de Ruanda, assistir à primeira exibição do filme. Apesar de gerar discórdias por reavivar memórias de um episódio ignominioso, o presidente ruandês, Paul Kagame, mostrou-se satisfeito. “Filme como este ficará como parte de nossa memória relacionada ao genocídio, e eu acho que a memória precisa ser guardada”, disse.

Em busca de respostas

A atenção voltada ao massacre de Ruanda, mesmo que tardiamente, pretende resgatar parte da história que havia sido ignorada e também busca questionar a motivação de uma matança sem precedentes na história mundial contemporânea. Os dois filmes em questão, “Hotel Ruanda” e “Shooting dogs”, não encerram o assunto nem estão a serviço de uma tese esclarecedora das ações. No entanto, cumprem o papel de tocar na ferida e açular reflexões.

No começo de “Hotel Ruanda”, o operador de câmera de uma emissora de televisão, Jack Daglish, interpretado por Joaquim Phoenix, puxa conversa no bar com um jornalista renomado de Kigali, interpretado por Mothusi Magano. Ele pergunta “qual a verdadeira diferença entre um hútu e um tútsi”. O jornalista responde que “segundo os colonos belgas, os tútsis são mais altos e elegantes” e, por fim, diz: “Foram os belgas que criaram essa divisão”.

Na tentativa de encontrar no passado alguma resposta que possa elucidar esse conflito entre as etnias, o jornalista francês Jean Hatzfeld, autor do livro “Uma temporada de facões”, alerta para a revolução popular de 1959 que resultou na independência do país em 1962. Foi uma revolta camponesa hútu que derrubou a aristocracia tútsi e aboliu a servidão. Os líderes dessa insurreição aproveitaram a situação para marginalizar a comunidade tútsi, formada por camponeses, funcionários e professores.

Sob o domínio dos hútus, os tútsis passaram a ser apontados como pérfidos e parasitas num país superpovoado. Em 1973, com o golpe do major Juvénal Habyarimana, a autonomia de administração hútu consolidou-se e gerou bastante desconforto à população tútsi. Ficou instituído o confisco de bens, o deslocamento da população, a fim de isolar o inimigo, além de ter sido aprovada uma lei de proibição de casamentos mistos entre as duas etnias.

O estopim que pareceu deflagrar definitivamente o conflito aconteceu em 6 de abril de 1994, quando o presidente hútu de Ruanda, Habyarimana, foi morto após a explosão do seu avião. Imediatamente a autoria do atentado recaiu sobre os tútsis. A matança iniciou-se na mesma noite na capital Kigali. O resultado seria um total de 800 mil pessoas –entre tútsis e hútus moderados– mortas em 12 semanas.

Nos depoimentos dos matadores entrevistados por Hatzfeld no livro, tende-se a pensar numa ação premeditada e anterior à morte do presidente. “Em 1991, nos jornais militares o tútsi era apontado como o inimigo natural do hútu que precisava ser eliminado definitivamente. Estava escrito em letras garrafais na primeira página. Com o tempo, o alvo foi sendo pouco a pouco difundido nas estações de rádio”, disse um dos hútus que participaram da matança.

Não à toa as primeiras falas do filme “Hotel Ruanda” são ameaças veiculadas numa estação de rádio. Segundo Hatzfeld, as mensagens transmitidas por rádio tiveram papel fundamental para inflamar os ânimos dos assassinos. “Nos estúdios das rádios populares, como a Rádio Ruanda ou a Rádio Mil Colinas, os tútsis são chamados de ‘baratas’. Apresentadores famosos, como Simon Bikindi e Kantano Habimana, pregam abertamente a destruição dos tútsis”, escreveu o autor.
Até o fim do massacre, por volta de 14 de maio, os hútus, acostumados ao trabalho árduo nos bananais e nos cafezais, haviam trocado as atividades pela rotina de matar diariamente. Como declaram no livro de Hatzfeld, era uma tarefa mais lucrativa, que trazia fartura para dentro de casa, pois não se preocupavam mais com a seca e as colheitas perdidas e acumulavam bens com as pilhagens.

Mesmo os hútus moderados, que não compartilhavam da idéia do genocídio, sofreram ameaças por não colaborarem e alguns foram mortos. Muitos desertores tinham de pagar multas em dinheiro ou eram obrigados a matar como forma de provar sua fidelidade às autoridades policiais. É o que ocorre, em certo momento do filme “Hotel Ruanda”, com o personagem Paul Rusesabagina, cuja esposa era tútsi.

Ele implora a um oficial do exército hútu para não matar sua mulher e outros vizinhos tútsis que estão jogados no chão. O militar oferece-lhe a arma e ordena: “atire neles”. Paul diz que não sabe usar armas e promete retribuir com dinheiro, caso o oficial deixe os amigos em paz. “Quem hesitasse em matar, por causa de sentimentos de tristeza, tinha de disfarçar suas palavras a todo custo e não dizer nada sobre a razão de sua reticência, sob pena de ser acusado de cumplicidade”, disse Pio Mutungirehe em depoimento no livro de Hatzfeld.

Por mais que o autor e jornalista francês tenha se lançado numa obsessão a fim de compreender o genocídio em Ruanda - é seu segundo livro sobre o assunto-, as respostas parecem escorregar entre seus dedos. Um dos entrevistados, Joseph-Désiré Bitero, respondeu-lhe: “A fonte de um genocídio o senhor jamais verá, está enterrada bem fundo nos rancores, sob um acúmulo de desentendimentos dos quais herdamos o último. Chegamos à idade adulta no pior momento da história de Ruanda, fomos educados na obediência absoluta, no ódio, fomos entupidos de fórmulas, somos uma geração sem sorte”.

Fernando Masini
É jornalista.
_________________________
Além do filmes citados por Masini, acrescento Abril Sangrento - Sometimes In April.
Ano de Produção: 2005
País de origem: EUA/França
Gênero: Drama
Duração: 140
Direção: Raoul Peck.
Elenco: Idris Elba, Oris Erhuero, Noah Emmerich, Debra Winger, Carole Karemara.
Em abril de 1994, o mundo foi testemunha de uma das maiores atrocidades já registradas: o genocídio em Ruanda, na África. As vidas de dois irmãos da etnia hutu, um militar e outro locutor, nunca mais seriam as mesmas após estes trágicos acontecimentos.

O livro de Jeanne Marie Gagnebin é permeado de ensaios sobre a rememoração. Transitando pelo pesamento de Ricouer, Benjamin, Adorno, indo a Kafka e a Proust, a autora presta uma contribuição sensível aos estudos filosóficos. Envolvendo o leitor em sua reflexão erudita, mas não empolada, Gagnebin oferece a chave para entramos em seus textos de maneira dialogante. A sua escrita não petrifica o pensamento, já que ele nos chega de maneira viva, chamando a atenção para o esquecimento, morte da memória. Sua reflexão caminha no sentido de nos fazer lembrar.

Vale a pena entrar em contato com Lembrar escrever esquecer. Sua leitura nos ajuda a pensar sobre os acontecimentos que assombram o presente, mas que às vezes são relegados como distantes, passados. Sem querer,tal atitude contribui para o inferno da repetição. A cada momento nos defrontamos com acontecimentos que retornam, como se fruto da incapacidade de olharmos as cicatrizes.

A reflexão a partir de Gagnebim nos deixa em estado de alerta para não jogarmos no lixo os "fatos", mesmo que exista a possibilidade deles serem recolhidos pelo catador de detritos, o historiador não positivista. A tarefa de recolher o descartável não deve ser delegada a quem lembra e escreve profissionalmente, mas a todos nós capazes de contar, de narrar.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Registro 59: O cenógrafo do moderno teatro brasileiro

Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Direção de Ziembinski, Cenário de Santa Rosa

CONTRIBUIÇÃO DA CENOGRAFIA AO TEATRO MODERNO

Pouco podemos saber de decoração de teatro, se seguirmos a nossa tradição, porque em nossa história dramática, o seu lugar foi sempre muito exíguo. Seria admirável podermos encontrar dados do interesse maior de artistas brasileiros, até hoje, pela magia da decoração de teatro, porém, é de poucos anos que data a preocupação de criar a atmosfera cênica, é bastante recente o cuidado de dotar o espetáculo de um dos seus elementos essenciais.

Falo da sua importância, sem exagero, pois um cenógrafo falando de cenografia, parece sempre querer conduzi-la ao eixo da criação dramática.

Na medida em que uma fotografia pode significar o Ser o cenário retrata o Drama, e o ideal seria que depois das três pancadas de Molière, aberto o pano de boca penetrasse o espectador, de imediato, no sentido espiritual do texto dramático através da poderosa sugestão do clima cenográfico.

Isso é possível, será possível atingir, de tal modo o cenário está vinculado ao mais íntimo da concepção do dramaturgo. Ainda no limbo da criação, quando a ação dos personagens começa a esboçar-se e procura estender a trama de sua aventura, num espaço real ou arbitrário, toda a seqüência desses movimentos determinados pela ação contida nos diálogos, vai ao mesmo tempo criando as dimensões e a cor do cenário.

E ele é tão importante na sua ligação orgânica com o drama que mesmo em sua ausência material quando não está representado por pintura ou construção que o identifique, ele existe. É como o suporte da realização dramática. Uma parede lisa, uma cortina, a caixa vazia do teatro, podem tornar-se cenários expressivos.

ROSA, Santa. Teatro realidade mágica. Rio de Janeiro: Ministério da educação e Saúde, Serviço de Documentação, s.d.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Registro 58: Interculturalidade

Meu avô era baiano,
O outro, alemão.
Meu padrinho era mulato,
Minha tia, loira de olhos azuis.
E os dois formavam o par
Mais lindo da minha infância.

Ivone Mendes Richter
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Epígrafe do primeiro capítulo do livro Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais. O texto é fundamental para os estudantes de arte, arte-educadores e outros profissionais da educação. Vale a pena passear pelas páginas da autora e ver como ela pensa o esnino das artes visuais na perspectiva da interculturalidade, com foco na estética feminina do cotidiano, tomando como base a escola e o contexto onde ela se encontra.
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RICHTER, Ivone Mendes. Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais.
Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003.

domingo, 29 de abril de 2007

Registro 57: Contribuição de Teresa Bilotta


Hora Extrema

Mario Le Sénéchal

À Carmen

Quando chegarmos ao fim desta jornada,
Cansados pela longa caminhada,
Vergados pelos anos e fadigas...
Trocaremos o beijo derradeiro,
Lembrando aquele – o primeiro –
Que fez nossas almas amigas.

Eu hei de ficar mudo nesse instante,
Fitando, comovido, o teu semblante,
Lembrando-te mocinha e venturosa,
O idílio feliz, o casamento,
Os sonhos que se foram com o vento,
Tua alegria de mulher ditosa!

Depois perguntarei com a voz sumida,
Como se fora um náufrago da vida:
– Dize-me, meu amor, amas-me ainda ?
E tu, embranquecida e cortejada,
Verás no meu semblante iluminada
A promessa de amor que não se finda!

Mario Le Sénéchal foi bancário. Aposentou-se como funcionário do antigo Banco do Estado de Minas Gerais, atual Real. Foi violinista e poeta amador.
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Fonte: Teresa Bilotta, sobrinha-neta do autor.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Registro 56: Dois poemas

As respigadeiras, Millet
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Fernando Pessoa (Lisboa, 13/6/1888 – 30/11/1935)


Ela canta, pobre ceifeira (1914) – Cancioneiro

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ’stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!


Pessoa, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, 1 v.

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A CEIFEIRA SOLITÁRIA

(William Wordsworth)

No campo, vede-a, tão sozinha;
ceifa e canta só para si –
das terras altas a mocinha!
Quem vem ou vai, que pare aqui!
Corta, sozinha, e empilha o grão,
e canta uma triste canção.
Oh, ouvi! que sobre o fundo vale
seu belo cântico se exale.

Jamais cantou um rouxinol
notas mais doces aos viajantes
da Arábia, que fugindo ao sol
buscam as sombras refrescantes:
com mais doçura ou amavio
não canta o cuco num estio,
rompendo a plácida quietude
do oceano ao longe e da amplitude.

Quem me dirá o que ela canta?
Talvez que falem essas notas
de velha coisa, que quebranta,
e antigas pugnas e derrotas:
ou será só o humilde cantar
de algum assunto familiar?
De alguma perda, algum sentir
que já se foi, ou pode vir?

Fosse o que fosse, ela cantava
uma cantiga prolongada,
e em seu trabalho eu a escutava,
sobre uma foice recurvada;
eu a escutava, imóvel, quieto;
e por longo tempo, enquanto ia,
levei o canto no meu peito,
depois que já não mais o ouvia.

(Tradução de Renato Suttana)

Registro 55: Cenas de cinema


Deus e o Diabo na Terra do Sol, Othon Bastos






Central do Brasil, Vinícius de Oliveira e Fernanda Montenegro













Rocco e Seus Irmãos, Renato Salvatore e Alain Delon













O Pagador de Promessas, Leonardo Vilar


Macunaíma, Grande Otelo

O Leopardo, Claudia Cardinale,Paolo Stoppa e Alain Delon


Butch Cassidy, Robert Redford e Paul Newmann













quinta-feira, 26 de abril de 2007

Registro 54: Comédie-Française


O interior do Comédie-Française em Paris, onde se pode ver o palco, os camarote, galerias e fosso da orquestra, a partir de uma aquarela do século XVIII.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Registro 53: Desenho de criança















Menina
Sônia Szmid, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)



















João Minhoca
Dora Zinger, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)








Jacaré
José Guilherne G. Guerra, 4 anos
Jardim de Infância do C. A. Paulistano (SP)




Os postais com desenhos de crianças são presentes que recebi de Fanny Abramovich e foram feitos pela Giroflé, uma editora voltada somente para literatura infantil em São Paulo nos idos de 1964 / 1965.

Os donos, conforme Fanny eram três portugueses incríveis: Fernando Santos Costa que mora em Portugal e é responsável pelo site Vidas Lusófonas, Fernando Lemos, artista plástico e gráfico e o falecido poeta Sidonio Muralha.

Fanny Abramovich foi assessora pedagógica da Giroflé, editora responsável pelo lançamento de apenas cinco títulos, entre eles Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles. Coube a Fernando Lemos inventar e organizar três séries de cartões com desenhos de crianças.

Não lembro mais como chegaram ou como pegamos, mas ajudei a selecionar centenas de milhares... Os envelopes, o projeto gráfico era todo dele [Fernando]... Quem envelopou, pasme, foi o Luís Carlos Lamego, que virou boy da Editora... (!!! as coisas que consigo...). Se mostrar pra ele, acho que vai orgasmar,

informa Fanny na mensagem que me enviou em 20 de abril de 2007. Generosamente, a presenteadora se manifesta da seguinte maneira: “Só tinha esta última coleção guardada, mas como você coleciona e eu não, te presenteio com prova do meu passado... viu o que é querer bem???”



Sei bem o que é ser querido! Ainda mais pela Fanny, admirável!

Os postais estão guardados carinhosamente. Da série que ganhei, reproduzo quatro imagens, embora esteja grafado no verso dos postais: "reprodução proibida". Penso que os ex-donos da Giroflé e os autores dos desenhos não vão questionar a lembrança-homenagem. Publicá-las na Cenadiária é divulgar um trabalho importante e reafirmar a necessidade do desenho no espaço educativo. As imagens foram produzidas por crianças de diversas escolas paulistanas na década de sessenta. Elas são iluminações de um tempo tão sombrio...

Para completar esse registro, transcrevo um trecho do livro O espaço do desenho: a educação do educador, de Ana Angélica Albano Moreira (2002, p. 15):

Toda criança desenha.

Tendo um instrumento que deixe uma marca: a varinha na areia, a pedra na terra, o caco de tijolo no cimento, o carvão nos muros e calçadas, o lápis, o pincel com tinta no papel, a criança brincando vai deixando sua marca, criando jogos, contando histórias.

Desenhando, cria em torno de si um espaço de jogo, silencioso e concentrado ou ruidoso seguido de comentários e canções, mas sempre um espaço de criação. Lúdico. A criança desenha para brincar.

Desenhar é bom para tirar as idéias da cabeça. Porque sempre que a gente tem uma idéia, a gente quer ter ela, brincar com ela, aí a gente desenha ela”. Observou Eduardo (8 anos).

O desenho como possibilidade de lançar-se para frente, projetar-se.



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MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyola, 2002.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Registro 52: O Judeu

ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA: ENTRE DOIS MUNDOS
Nosso [teatro]
É filho dos rituais das bacantes
Do coro das tragédias gregas
Das religiões afro-negras
Das procissões portuguesas católicas
E não tem igual

Caetano Veloso


A figura ímpar de Antônio José da Silva é vista como aquele que preenche o “vazio” da cena teatral brasileira após o ato inaugural do teatro anchietano, sob a égide da catequese. Para enfocá-lo na distância do tempo, revolvo as fontes secundárias para retirar delas os fragmentos necessários para compor esse artigo evocativo sobre o autor brasileiro, significativa presença na cena teatral portuguesa e brasileira.

No horizonte da narração, está presente a visão benjaminiana[1] sobre o tempo histórico como explosão de um instante monádico, nos quais os grandes e os pequenos acontecimentos são vistos no “tempo de agora”. Na rememoração, procuramos retirar do apagamento da memória as construções, os atos, os sofrimentos e as alegrias dos antecessores, não para perpetuar o legado dos vencedores, mas sim olhar compreensivamente para os esquecidos.

Nessa constelação irregular que é o tempo histórico, levantam-se as ações humanas decorrentes que são dos fenômenos econômicos, sociais, políticos e mentais. O tempo histórico, formado por diferentes durações, reúne passado e presente. Portanto, o presente segundo Homi K. Bhabha (2005: 23), leitor de Walter Benjamin,

(...) não pode mais ser encarado simplesmente como uma ruptura ou um vínculo com o passado e o futuro, não mais uma presença sincrônica: nossa autopresença mais imediata, nossa imagem pública, vem a ser revelada por suas descontinuidades, suas desigualdades, suas minorias. Diferentemente da mão morta da história que conta as contas do tempo seqüencial como um rosário, buscando estabelecer conexões seriais, causais (...).

Ao mapear no presente a figura de Antônio José da Silva, consideramos os desencadeamentos do tempo histórico. Aproveitamos a “oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história” (BENJAMIN, 1994: 231) e ressaltar a vida do dramaturgo, desvinculada da acumulação, mas encenada em “suas descontinuidades, suas desigualdades”.

Este texto persegue os passos dos estudos anteriores, já que não estamos trabalhando sobre fontes primárias. Procuramos animar o leitor com informações colhidas nos escritos de Décio de Almeida Prado, Edwaldo Cafezeiro, J. Galante de Souza, Francisco Maciel Silveira e Sábato Magaldi, entre outros autores, que abordam temas e tópicos do teatro no Brasil, procurando dar conta do fenômeno entre nós. Para tanto, estes escritores tomam como referência as diversas fontes que registram a presença da atividade teatral entre nós desde que chegaram os primeiros colonizadores: os relatos dos viajantes, as cartas dos padres da Companhia de Jesus e os documentos oficiais.

Considerando a existência dos baianos Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, José Borges de Barros, Manuel Botelho de Oliveira (principalmente)[2], do carioca Salvador de Mesquita e do poeta mineiro Cláudio Manoel da Costa, literatos que escreveram para o palco e apresentaram obras sem muita consistência e originalidade, é importante nomear que a atividade dramatúrgica entre nós sofreu o revés da distância e da dependência dos cânones europeus, da inexistência da Imprensa e da própria circunstância do teatro que se fez nos trópicos nos primórdios de sua existência.

Além desses nomes, registre-se a presença de Luís Alves Pinto, cujo texto Amor Mal Correspondido, sobe à cena na Casa de Ópera, de Recife em 1780. Para Galante de Souza (1960: 125), a comédia representada vem a ser a primeira peça de um dramaturgo brasileiro aqui encenada. Ao tomarmos Galante com referência, vemos, no entanto que a primazia é do carioca Antônio José da Silva, mesmo que se façam restrições a “o Judeu”, visto que sua obra é considerada muito mais portuguesa que brasileira. Essa questão vem sendo tratada pelos estudiosos da literatura e do teatro brasileiro, oferecendo argumentações que problematizam ser ou não brasileira a dramaturgia de Antônio José da Silva, autor que para nós vive entre dois mundos: o tropical e o europeu, o barroco imaginativo e o iluminista racionalista, o católico e o judeu, marcas refletidas nas tramas e nas tessituras de sua obra dramatúrgica.

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[1] Cf. notadamente Sobre o conceito de História, in Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história. São Paulo: Brasiliense, 1994.
[2] Botelho de Oliveira, baiano que viveu de 1636 a 1711, é considerado o primeiro autor brasileiro a ter suas obras publicadas. Poeta, deixou como herança duas peças: Hay Amigo Para Amigo e Enganos y Celos, comédias nunca representadas em palcos brasileiros. Fortemente influenciado pelo teatro espanhol, sua comédia Hay Amigo Para Amigo é nada menos que uma réplica do texto de Francisco de Roja Zorilla No Hay Amigo Para Amigo. Ao abraçar tema, língua e técnica espanholas, o autor afasta-se da sua nacionalidade. Sua não obra não aborda os temas sobre a realidade do Brasil.
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LEÃO, Raimundo Matos de. Antônio José da Silva: entre dois mundos. In: Diálogos Possíveis, ano 5 n. 01, jan. jun. Salvador: Faculdade Social da Bahia, 2006