sexta-feira, 4 de maio de 2007

Registro 62: Sobre a fidelidade

Cisnes
Júlio Salusse (1878-1948)

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas nem espumas.

Bem cedo quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo...
Quando chegar esse momento incerto,
No lago onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo cheio de saudade
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado d’outro cisne.


SALUSSE, Júlio. Cisnes. In: RABELO, Marques (org.). Antologia Escolar Brasileira. 1 ed. Rio de Janeiro: MEC, 1967.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Registro 61: Um belo e melancólico poema

CREPÚSCULO NO RIO DO RECIFE

Rubem Rocha Filho

I
As águas tecem no frio
Cantigas de pedra e limo,
Assombro de arrimo e nuvem.
Vivos, mortos se consomem.
Os mitos revelam o rio
Areias, redes, aldeias
As vagas noites do homem
Ruas com destino ao mar.

II
Em lama o Capiberibe
Esvaziando cidades
Ramas de seus descaminhos
Tão perdidos, tão sozinhos
Une rastros e saudades.
Que haja amor ou desespero
Escorre como frágil escama
Desta tarde o navegar.

III
Pontes de casas e tempos
Sei que cantam, sei que passam,
Que os barcos têm remos graves,
Velas de silêncios pensos.
Em sonho vão respondendo
Ao desfilar deste ocaso.
Mãos de sargaço desfiam
As contas do meu pesar.
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Rubem Rocha Filho é carioca, reside em Recife desde 1968, ”mas o coração é baiano da década de 60!” afirma ele. Cursou Filosofia, é poeta, dramaturgo, diretor de teatro e escreve livros para crianças. Foi professor de muita gente pelo Brasil.

Rocha Filho é amigo do peito, daqueles guardados no “lado esquerdo”. Sua presença em minha vida foi fundamental para a minha formação.

O poema registrado na Cenadiária foi premiado na 6ª edição do Concurso Banco Real Talentos da Maturidade – 2004. Sobre a sua participação, Rubem assim se expressou: “O concurso levanta a auto-estima. É uma oportunidade maravilhosa. Fico contente com o cuidado do banco Real na divulgação do concurso e na publicação dos vencedores. Acredito que vale mais do que prêmio em dinheiro.”
Conforme os jurados, “o poema reflexivo e intenso, formalmente bem realizado, que utiliza o rio como imagem melancólica da passagem do tempo pessoal e histórico”, motivou a escolha do poeta como um dos vencedores do concurso

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Registro 60: Para não esquecer

VERDADE E MEMÓRIA DO PASSADO

GAGNEBIN, JEANNE Marie. Verdade e memória do passado. In: Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2006, p. 47.

Enquanto Homero escrevia para cantar a glória e o nome dos heróis e Heródoto, para não esquecer os grandes feitos deles, o historiador atual se vê confrontado com uma tarefa também essencial, mas sem glória: ele precisa transmitir o inenarrável, manter viva a memória dos sem-nome, ser fiel aos mortos que não puderam ser enterrados. Sua “narrativa afirma que o inesquecível” (13) mesmo se nós não podemos descrevê-lo. Tarefa altamente política: lutar contra o esquecimento e a denegação é também lutar contra a repetição do horror (que, infelizmente, se reproduz constantemente). Tarefa igualmente ética e, num sentido amplo, especificamente psíquica: as palavras do historiador ajudam a enterrar os mortos do passado e a cavar um túmulo para aqueles que dele foram privados. Trabalho de luto que nos deve ajudar, nós, os vivos, a nos lembramos dos mortos para melhor viver hoje. Assim, a preocupação com a verdade do passado se completa na exigência de um presente que, também possa ser verdadeiro.

(13) Citado por Janine Altounian na sua bela coletânea Ouvrez-moi seulement les chemins d´Arménie, Paris, Lês Belles Lettres, 1990, p. 47
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Cinema e Guerra
O genocídio de Ruanda por Fernando Masini

Dois filmes recentes tratam da matança dos tútsis em 1994, em que mais de 800 mil pessoas foram mortas, sob o olhar indiferente do mundo

“Todos os grandes personagens viraram as costas para nossos massacres. Os boinas-azuis, os belgas, os diretores brancos, os presidentes negros, as pessoas humanitárias e os cinegrafistas internacionais, os bispos e os padres, e finalmente até Deus.” A constatação é de Élie Mizinge, um dos assassinos confessos hútus que participaram do massacre em Ruanda.

O depoimento deste e de outros nove hútus que pegaram em facões e porretes a fim de exterminar a etnia tútsi está no livro “Uma temporada de facões: relatos do genocídio em Ruanda”, do jornalista francês Jean Hatzfeld, lançado no Brasil em 2005. O autor teve longas conversas com os entrevistados na penitenciária de Rilima, onde todos cumprem pena pelos crimes cometidos durante o massacre.

Sete deles eram jovens amigos de colégio, encontravam-se nos cabarés de Kibungo, região pantanosa próxima à capital Kigali e trabalhavam juntos na lavoura. Impressiona a ferocidade e a franqueza dos relatos. “Primeiro, quebrei a cabeça de uma velha mamãe com uma porretada. Mas, como ela já estava deitada no chão, meio agonizante, não senti a morte em meus braços. Voltei para casa de noite sem nem pensar nisso”, revela no livro um dos matadores hútus.

As atrocidades aconteceram há 12 anos -os ataques começaram nos primeiros dias de abril de 1994-, e não houve qualquer tipo de intervenção de órgãos de segurança mundial. As tropas da ONU pouco fizeram e mantiveram postura omissa quanto à possibilidade de salvamento das vítimas.

Keir Pearson, roteirista do filme “Hotel Ruanda”, declara no material extra do DVD (disponível no Brasil a partir 20 de abril): “Quando comecei a pesquisar o assunto o que me espantou foi que a ONU sabia o que estava acontecendo, foi alertada, mas houve um esforço consciente do Ocidente em ignorar”. No filme, uma cena simboliza bem a impotência das tropas diante da milícia extremista hútu Interahamwe, que comandou a ofensiva contra os tútsis.

Integrantes hútus, amontoados no caminhão e empunhando facões, chegam perto do hotel Mille Collines, onde o protagonista Paul Rusesabagina (Don Cheadle) abriga órfãos e tútsis ameaçados pela matança. Em frente ao portão de entrada, está o coronel Oliver (Nick Nolte) com soldados boinas-azuis da ONU. Os milicianos ficam cara a cara com o coronel e gritam palavras de ordem. Para intimidar, jogam fora do caminhão um capacete azul manchado de sangue com a inscrição “United Nation”. Oliver apenas acompanha de longe a arruaça promovida por eles.

Outra tentativa de voltar os olhos ao massacre ignorado à época é o filme “Shooting dogs”, do diretor escocês Michael Caton-Jones, que estreou recentemente em Londres e já tem contrato fechado com a distribuidora Imagem Filmes para ser lançado no Brasil em agosto deste ano. Assim como “Hotel Ruanda”, a ação desenrola-se em um lugar real que serviu de abrigo aos acossados tútsis: a escola secundária Ecole Technique Officielle, com sede em Kigali.

O padre católico inglês Christopher (interpretado pelo ator John Hurt) e um jovem professor tentam a qualquer custo evitar as matanças na capital Kigali e proteger mais de 2.500 tútsis e hútus moderados que são perseguidos pelas milícias extremistas. Mais uma vez, é realçado o caráter de desamparo das vítimas. Quando chegam as tropas francesas à capital, a ordem é clara: só serão resgatados os estrangeiros brancos. Nas horas seguintes à partida dos soldados, a grande maioria dos abrigados da escola é brutalmente assassinada.

“Eu decidi que, mesmo com dificuldades, nós tínhamos que rodar o filme em Ruanda e filmar na Ecole Technique Officielle. E devíamos também fazer o filme com os sobreviventes do genocídio. Eles precisam contar suas histórias”, disse o diretor Caton-Jones. A equipe viajou ao país e passou cinco meses até terminar as filmagens em Kigali. Muitos ruandeses participaram do projeto, como Maggie Kenyama que serviu como assistente de direção. Ela perdeu a irmã durante o massacre e até hoje procura pelo corpo.

“Shooting dogs” teve sua estréia mundial em Kigali. Mais de 1.500 pessoas, dentre elas alguns sobreviventes do genocídio e participantes da produção, foram ao estádio Amahoro, na capital de Ruanda, assistir à primeira exibição do filme. Apesar de gerar discórdias por reavivar memórias de um episódio ignominioso, o presidente ruandês, Paul Kagame, mostrou-se satisfeito. “Filme como este ficará como parte de nossa memória relacionada ao genocídio, e eu acho que a memória precisa ser guardada”, disse.

Em busca de respostas

A atenção voltada ao massacre de Ruanda, mesmo que tardiamente, pretende resgatar parte da história que havia sido ignorada e também busca questionar a motivação de uma matança sem precedentes na história mundial contemporânea. Os dois filmes em questão, “Hotel Ruanda” e “Shooting dogs”, não encerram o assunto nem estão a serviço de uma tese esclarecedora das ações. No entanto, cumprem o papel de tocar na ferida e açular reflexões.

No começo de “Hotel Ruanda”, o operador de câmera de uma emissora de televisão, Jack Daglish, interpretado por Joaquim Phoenix, puxa conversa no bar com um jornalista renomado de Kigali, interpretado por Mothusi Magano. Ele pergunta “qual a verdadeira diferença entre um hútu e um tútsi”. O jornalista responde que “segundo os colonos belgas, os tútsis são mais altos e elegantes” e, por fim, diz: “Foram os belgas que criaram essa divisão”.

Na tentativa de encontrar no passado alguma resposta que possa elucidar esse conflito entre as etnias, o jornalista francês Jean Hatzfeld, autor do livro “Uma temporada de facões”, alerta para a revolução popular de 1959 que resultou na independência do país em 1962. Foi uma revolta camponesa hútu que derrubou a aristocracia tútsi e aboliu a servidão. Os líderes dessa insurreição aproveitaram a situação para marginalizar a comunidade tútsi, formada por camponeses, funcionários e professores.

Sob o domínio dos hútus, os tútsis passaram a ser apontados como pérfidos e parasitas num país superpovoado. Em 1973, com o golpe do major Juvénal Habyarimana, a autonomia de administração hútu consolidou-se e gerou bastante desconforto à população tútsi. Ficou instituído o confisco de bens, o deslocamento da população, a fim de isolar o inimigo, além de ter sido aprovada uma lei de proibição de casamentos mistos entre as duas etnias.

O estopim que pareceu deflagrar definitivamente o conflito aconteceu em 6 de abril de 1994, quando o presidente hútu de Ruanda, Habyarimana, foi morto após a explosão do seu avião. Imediatamente a autoria do atentado recaiu sobre os tútsis. A matança iniciou-se na mesma noite na capital Kigali. O resultado seria um total de 800 mil pessoas –entre tútsis e hútus moderados– mortas em 12 semanas.

Nos depoimentos dos matadores entrevistados por Hatzfeld no livro, tende-se a pensar numa ação premeditada e anterior à morte do presidente. “Em 1991, nos jornais militares o tútsi era apontado como o inimigo natural do hútu que precisava ser eliminado definitivamente. Estava escrito em letras garrafais na primeira página. Com o tempo, o alvo foi sendo pouco a pouco difundido nas estações de rádio”, disse um dos hútus que participaram da matança.

Não à toa as primeiras falas do filme “Hotel Ruanda” são ameaças veiculadas numa estação de rádio. Segundo Hatzfeld, as mensagens transmitidas por rádio tiveram papel fundamental para inflamar os ânimos dos assassinos. “Nos estúdios das rádios populares, como a Rádio Ruanda ou a Rádio Mil Colinas, os tútsis são chamados de ‘baratas’. Apresentadores famosos, como Simon Bikindi e Kantano Habimana, pregam abertamente a destruição dos tútsis”, escreveu o autor.
Até o fim do massacre, por volta de 14 de maio, os hútus, acostumados ao trabalho árduo nos bananais e nos cafezais, haviam trocado as atividades pela rotina de matar diariamente. Como declaram no livro de Hatzfeld, era uma tarefa mais lucrativa, que trazia fartura para dentro de casa, pois não se preocupavam mais com a seca e as colheitas perdidas e acumulavam bens com as pilhagens.

Mesmo os hútus moderados, que não compartilhavam da idéia do genocídio, sofreram ameaças por não colaborarem e alguns foram mortos. Muitos desertores tinham de pagar multas em dinheiro ou eram obrigados a matar como forma de provar sua fidelidade às autoridades policiais. É o que ocorre, em certo momento do filme “Hotel Ruanda”, com o personagem Paul Rusesabagina, cuja esposa era tútsi.

Ele implora a um oficial do exército hútu para não matar sua mulher e outros vizinhos tútsis que estão jogados no chão. O militar oferece-lhe a arma e ordena: “atire neles”. Paul diz que não sabe usar armas e promete retribuir com dinheiro, caso o oficial deixe os amigos em paz. “Quem hesitasse em matar, por causa de sentimentos de tristeza, tinha de disfarçar suas palavras a todo custo e não dizer nada sobre a razão de sua reticência, sob pena de ser acusado de cumplicidade”, disse Pio Mutungirehe em depoimento no livro de Hatzfeld.

Por mais que o autor e jornalista francês tenha se lançado numa obsessão a fim de compreender o genocídio em Ruanda - é seu segundo livro sobre o assunto-, as respostas parecem escorregar entre seus dedos. Um dos entrevistados, Joseph-Désiré Bitero, respondeu-lhe: “A fonte de um genocídio o senhor jamais verá, está enterrada bem fundo nos rancores, sob um acúmulo de desentendimentos dos quais herdamos o último. Chegamos à idade adulta no pior momento da história de Ruanda, fomos educados na obediência absoluta, no ódio, fomos entupidos de fórmulas, somos uma geração sem sorte”.

Fernando Masini
É jornalista.
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Além do filmes citados por Masini, acrescento Abril Sangrento - Sometimes In April.
Ano de Produção: 2005
País de origem: EUA/França
Gênero: Drama
Duração: 140
Direção: Raoul Peck.
Elenco: Idris Elba, Oris Erhuero, Noah Emmerich, Debra Winger, Carole Karemara.
Em abril de 1994, o mundo foi testemunha de uma das maiores atrocidades já registradas: o genocídio em Ruanda, na África. As vidas de dois irmãos da etnia hutu, um militar e outro locutor, nunca mais seriam as mesmas após estes trágicos acontecimentos.

O livro de Jeanne Marie Gagnebin é permeado de ensaios sobre a rememoração. Transitando pelo pesamento de Ricouer, Benjamin, Adorno, indo a Kafka e a Proust, a autora presta uma contribuição sensível aos estudos filosóficos. Envolvendo o leitor em sua reflexão erudita, mas não empolada, Gagnebin oferece a chave para entramos em seus textos de maneira dialogante. A sua escrita não petrifica o pensamento, já que ele nos chega de maneira viva, chamando a atenção para o esquecimento, morte da memória. Sua reflexão caminha no sentido de nos fazer lembrar.

Vale a pena entrar em contato com Lembrar escrever esquecer. Sua leitura nos ajuda a pensar sobre os acontecimentos que assombram o presente, mas que às vezes são relegados como distantes, passados. Sem querer,tal atitude contribui para o inferno da repetição. A cada momento nos defrontamos com acontecimentos que retornam, como se fruto da incapacidade de olharmos as cicatrizes.

A reflexão a partir de Gagnebim nos deixa em estado de alerta para não jogarmos no lixo os "fatos", mesmo que exista a possibilidade deles serem recolhidos pelo catador de detritos, o historiador não positivista. A tarefa de recolher o descartável não deve ser delegada a quem lembra e escreve profissionalmente, mas a todos nós capazes de contar, de narrar.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Registro 59: O cenógrafo do moderno teatro brasileiro

Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. Direção de Ziembinski, Cenário de Santa Rosa

CONTRIBUIÇÃO DA CENOGRAFIA AO TEATRO MODERNO

Pouco podemos saber de decoração de teatro, se seguirmos a nossa tradição, porque em nossa história dramática, o seu lugar foi sempre muito exíguo. Seria admirável podermos encontrar dados do interesse maior de artistas brasileiros, até hoje, pela magia da decoração de teatro, porém, é de poucos anos que data a preocupação de criar a atmosfera cênica, é bastante recente o cuidado de dotar o espetáculo de um dos seus elementos essenciais.

Falo da sua importância, sem exagero, pois um cenógrafo falando de cenografia, parece sempre querer conduzi-la ao eixo da criação dramática.

Na medida em que uma fotografia pode significar o Ser o cenário retrata o Drama, e o ideal seria que depois das três pancadas de Molière, aberto o pano de boca penetrasse o espectador, de imediato, no sentido espiritual do texto dramático através da poderosa sugestão do clima cenográfico.

Isso é possível, será possível atingir, de tal modo o cenário está vinculado ao mais íntimo da concepção do dramaturgo. Ainda no limbo da criação, quando a ação dos personagens começa a esboçar-se e procura estender a trama de sua aventura, num espaço real ou arbitrário, toda a seqüência desses movimentos determinados pela ação contida nos diálogos, vai ao mesmo tempo criando as dimensões e a cor do cenário.

E ele é tão importante na sua ligação orgânica com o drama que mesmo em sua ausência material quando não está representado por pintura ou construção que o identifique, ele existe. É como o suporte da realização dramática. Uma parede lisa, uma cortina, a caixa vazia do teatro, podem tornar-se cenários expressivos.

ROSA, Santa. Teatro realidade mágica. Rio de Janeiro: Ministério da educação e Saúde, Serviço de Documentação, s.d.

segunda-feira, 30 de abril de 2007

Registro 58: Interculturalidade

Meu avô era baiano,
O outro, alemão.
Meu padrinho era mulato,
Minha tia, loira de olhos azuis.
E os dois formavam o par
Mais lindo da minha infância.

Ivone Mendes Richter
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Epígrafe do primeiro capítulo do livro Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais. O texto é fundamental para os estudantes de arte, arte-educadores e outros profissionais da educação. Vale a pena passear pelas páginas da autora e ver como ela pensa o esnino das artes visuais na perspectiva da interculturalidade, com foco na estética feminina do cotidiano, tomando como base a escola e o contexto onde ela se encontra.
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RICHTER, Ivone Mendes. Interculturalidade e estética do cotidiano no ensino das artes visuais.
Campinas, SP: Mercado de Letras, 2003.

domingo, 29 de abril de 2007

Registro 57: Contribuição de Teresa Bilotta


Hora Extrema

Mario Le Sénéchal

À Carmen

Quando chegarmos ao fim desta jornada,
Cansados pela longa caminhada,
Vergados pelos anos e fadigas...
Trocaremos o beijo derradeiro,
Lembrando aquele – o primeiro –
Que fez nossas almas amigas.

Eu hei de ficar mudo nesse instante,
Fitando, comovido, o teu semblante,
Lembrando-te mocinha e venturosa,
O idílio feliz, o casamento,
Os sonhos que se foram com o vento,
Tua alegria de mulher ditosa!

Depois perguntarei com a voz sumida,
Como se fora um náufrago da vida:
– Dize-me, meu amor, amas-me ainda ?
E tu, embranquecida e cortejada,
Verás no meu semblante iluminada
A promessa de amor que não se finda!

Mario Le Sénéchal foi bancário. Aposentou-se como funcionário do antigo Banco do Estado de Minas Gerais, atual Real. Foi violinista e poeta amador.
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Fonte: Teresa Bilotta, sobrinha-neta do autor.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Registro 56: Dois poemas

As respigadeiras, Millet
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Fernando Pessoa (Lisboa, 13/6/1888 – 30/11/1935)


Ela canta, pobre ceifeira (1914) – Cancioneiro

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,

Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p’ra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente ’stá pensando.
Derrama no meu coração
A tua incerta voz ondeando!

Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro!
Tornai Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!


Pessoa, Fernando. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, 1 v.

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A CEIFEIRA SOLITÁRIA

(William Wordsworth)

No campo, vede-a, tão sozinha;
ceifa e canta só para si –
das terras altas a mocinha!
Quem vem ou vai, que pare aqui!
Corta, sozinha, e empilha o grão,
e canta uma triste canção.
Oh, ouvi! que sobre o fundo vale
seu belo cântico se exale.

Jamais cantou um rouxinol
notas mais doces aos viajantes
da Arábia, que fugindo ao sol
buscam as sombras refrescantes:
com mais doçura ou amavio
não canta o cuco num estio,
rompendo a plácida quietude
do oceano ao longe e da amplitude.

Quem me dirá o que ela canta?
Talvez que falem essas notas
de velha coisa, que quebranta,
e antigas pugnas e derrotas:
ou será só o humilde cantar
de algum assunto familiar?
De alguma perda, algum sentir
que já se foi, ou pode vir?

Fosse o que fosse, ela cantava
uma cantiga prolongada,
e em seu trabalho eu a escutava,
sobre uma foice recurvada;
eu a escutava, imóvel, quieto;
e por longo tempo, enquanto ia,
levei o canto no meu peito,
depois que já não mais o ouvia.

(Tradução de Renato Suttana)

Registro 55: Cenas de cinema


Deus e o Diabo na Terra do Sol, Othon Bastos






Central do Brasil, Vinícius de Oliveira e Fernanda Montenegro













Rocco e Seus Irmãos, Renato Salvatore e Alain Delon













O Pagador de Promessas, Leonardo Vilar


Macunaíma, Grande Otelo

O Leopardo, Claudia Cardinale,Paolo Stoppa e Alain Delon


Butch Cassidy, Robert Redford e Paul Newmann













quinta-feira, 26 de abril de 2007

Registro 54: Comédie-Française


O interior do Comédie-Française em Paris, onde se pode ver o palco, os camarote, galerias e fosso da orquestra, a partir de uma aquarela do século XVIII.

quarta-feira, 25 de abril de 2007

Registro 53: Desenho de criança















Menina
Sônia Szmid, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)



















João Minhoca
Dora Zinger, 5 anos
E.I.B. Scholem Aleichem
(SP)








Jacaré
José Guilherne G. Guerra, 4 anos
Jardim de Infância do C. A. Paulistano (SP)




Os postais com desenhos de crianças são presentes que recebi de Fanny Abramovich e foram feitos pela Giroflé, uma editora voltada somente para literatura infantil em São Paulo nos idos de 1964 / 1965.

Os donos, conforme Fanny eram três portugueses incríveis: Fernando Santos Costa que mora em Portugal e é responsável pelo site Vidas Lusófonas, Fernando Lemos, artista plástico e gráfico e o falecido poeta Sidonio Muralha.

Fanny Abramovich foi assessora pedagógica da Giroflé, editora responsável pelo lançamento de apenas cinco títulos, entre eles Ou Isto ou Aquilo, de Cecília Meireles. Coube a Fernando Lemos inventar e organizar três séries de cartões com desenhos de crianças.

Não lembro mais como chegaram ou como pegamos, mas ajudei a selecionar centenas de milhares... Os envelopes, o projeto gráfico era todo dele [Fernando]... Quem envelopou, pasme, foi o Luís Carlos Lamego, que virou boy da Editora... (!!! as coisas que consigo...). Se mostrar pra ele, acho que vai orgasmar,

informa Fanny na mensagem que me enviou em 20 de abril de 2007. Generosamente, a presenteadora se manifesta da seguinte maneira: “Só tinha esta última coleção guardada, mas como você coleciona e eu não, te presenteio com prova do meu passado... viu o que é querer bem???”



Sei bem o que é ser querido! Ainda mais pela Fanny, admirável!

Os postais estão guardados carinhosamente. Da série que ganhei, reproduzo quatro imagens, embora esteja grafado no verso dos postais: "reprodução proibida". Penso que os ex-donos da Giroflé e os autores dos desenhos não vão questionar a lembrança-homenagem. Publicá-las na Cenadiária é divulgar um trabalho importante e reafirmar a necessidade do desenho no espaço educativo. As imagens foram produzidas por crianças de diversas escolas paulistanas na década de sessenta. Elas são iluminações de um tempo tão sombrio...

Para completar esse registro, transcrevo um trecho do livro O espaço do desenho: a educação do educador, de Ana Angélica Albano Moreira (2002, p. 15):

Toda criança desenha.

Tendo um instrumento que deixe uma marca: a varinha na areia, a pedra na terra, o caco de tijolo no cimento, o carvão nos muros e calçadas, o lápis, o pincel com tinta no papel, a criança brincando vai deixando sua marca, criando jogos, contando histórias.

Desenhando, cria em torno de si um espaço de jogo, silencioso e concentrado ou ruidoso seguido de comentários e canções, mas sempre um espaço de criação. Lúdico. A criança desenha para brincar.

Desenhar é bom para tirar as idéias da cabeça. Porque sempre que a gente tem uma idéia, a gente quer ter ela, brincar com ela, aí a gente desenha ela”. Observou Eduardo (8 anos).

O desenho como possibilidade de lançar-se para frente, projetar-se.



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MOREIRA, Ana Angélica Albano. O espaço do desenho: a educação do educador. São Paulo: Loyola, 2002.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Registro 52: O Judeu

ANTÔNIO JOSÉ DA SILVA: ENTRE DOIS MUNDOS
Nosso [teatro]
É filho dos rituais das bacantes
Do coro das tragédias gregas
Das religiões afro-negras
Das procissões portuguesas católicas
E não tem igual

Caetano Veloso


A figura ímpar de Antônio José da Silva é vista como aquele que preenche o “vazio” da cena teatral brasileira após o ato inaugural do teatro anchietano, sob a égide da catequese. Para enfocá-lo na distância do tempo, revolvo as fontes secundárias para retirar delas os fragmentos necessários para compor esse artigo evocativo sobre o autor brasileiro, significativa presença na cena teatral portuguesa e brasileira.

No horizonte da narração, está presente a visão benjaminiana[1] sobre o tempo histórico como explosão de um instante monádico, nos quais os grandes e os pequenos acontecimentos são vistos no “tempo de agora”. Na rememoração, procuramos retirar do apagamento da memória as construções, os atos, os sofrimentos e as alegrias dos antecessores, não para perpetuar o legado dos vencedores, mas sim olhar compreensivamente para os esquecidos.

Nessa constelação irregular que é o tempo histórico, levantam-se as ações humanas decorrentes que são dos fenômenos econômicos, sociais, políticos e mentais. O tempo histórico, formado por diferentes durações, reúne passado e presente. Portanto, o presente segundo Homi K. Bhabha (2005: 23), leitor de Walter Benjamin,

(...) não pode mais ser encarado simplesmente como uma ruptura ou um vínculo com o passado e o futuro, não mais uma presença sincrônica: nossa autopresença mais imediata, nossa imagem pública, vem a ser revelada por suas descontinuidades, suas desigualdades, suas minorias. Diferentemente da mão morta da história que conta as contas do tempo seqüencial como um rosário, buscando estabelecer conexões seriais, causais (...).

Ao mapear no presente a figura de Antônio José da Silva, consideramos os desencadeamentos do tempo histórico. Aproveitamos a “oportunidade para extrair uma época determinada do curso homogêneo da história” (BENJAMIN, 1994: 231) e ressaltar a vida do dramaturgo, desvinculada da acumulação, mas encenada em “suas descontinuidades, suas desigualdades”.

Este texto persegue os passos dos estudos anteriores, já que não estamos trabalhando sobre fontes primárias. Procuramos animar o leitor com informações colhidas nos escritos de Décio de Almeida Prado, Edwaldo Cafezeiro, J. Galante de Souza, Francisco Maciel Silveira e Sábato Magaldi, entre outros autores, que abordam temas e tópicos do teatro no Brasil, procurando dar conta do fenômeno entre nós. Para tanto, estes escritores tomam como referência as diversas fontes que registram a presença da atividade teatral entre nós desde que chegaram os primeiros colonizadores: os relatos dos viajantes, as cartas dos padres da Companhia de Jesus e os documentos oficiais.

Considerando a existência dos baianos Gonçalo Ravasco Cavalcanti de Albuquerque, José Borges de Barros, Manuel Botelho de Oliveira (principalmente)[2], do carioca Salvador de Mesquita e do poeta mineiro Cláudio Manoel da Costa, literatos que escreveram para o palco e apresentaram obras sem muita consistência e originalidade, é importante nomear que a atividade dramatúrgica entre nós sofreu o revés da distância e da dependência dos cânones europeus, da inexistência da Imprensa e da própria circunstância do teatro que se fez nos trópicos nos primórdios de sua existência.

Além desses nomes, registre-se a presença de Luís Alves Pinto, cujo texto Amor Mal Correspondido, sobe à cena na Casa de Ópera, de Recife em 1780. Para Galante de Souza (1960: 125), a comédia representada vem a ser a primeira peça de um dramaturgo brasileiro aqui encenada. Ao tomarmos Galante com referência, vemos, no entanto que a primazia é do carioca Antônio José da Silva, mesmo que se façam restrições a “o Judeu”, visto que sua obra é considerada muito mais portuguesa que brasileira. Essa questão vem sendo tratada pelos estudiosos da literatura e do teatro brasileiro, oferecendo argumentações que problematizam ser ou não brasileira a dramaturgia de Antônio José da Silva, autor que para nós vive entre dois mundos: o tropical e o europeu, o barroco imaginativo e o iluminista racionalista, o católico e o judeu, marcas refletidas nas tramas e nas tessituras de sua obra dramatúrgica.

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[1] Cf. notadamente Sobre o conceito de História, in Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história. São Paulo: Brasiliense, 1994.
[2] Botelho de Oliveira, baiano que viveu de 1636 a 1711, é considerado o primeiro autor brasileiro a ter suas obras publicadas. Poeta, deixou como herança duas peças: Hay Amigo Para Amigo e Enganos y Celos, comédias nunca representadas em palcos brasileiros. Fortemente influenciado pelo teatro espanhol, sua comédia Hay Amigo Para Amigo é nada menos que uma réplica do texto de Francisco de Roja Zorilla No Hay Amigo Para Amigo. Ao abraçar tema, língua e técnica espanholas, o autor afasta-se da sua nacionalidade. Sua não obra não aborda os temas sobre a realidade do Brasil.
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LEÃO, Raimundo Matos de. Antônio José da Silva: entre dois mundos. In: Diálogos Possíveis, ano 5 n. 01, jan. jun. Salvador: Faculdade Social da Bahia, 2006

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Registro 51: Brasileirinho










Padroeiro do Brasil

Ary Monteiro e Irany de Oliveira

Em toda casa tem um quadro de São Jorge
em toda casa onde o santo é protetor
num barracão, num bangalô de gente nobre
há sempre um quadro desse santo salvador
quem é devoto é só fazer uma oração
que o guerreiro sempre atende
dando a sua proteção

Por isso mesmo não devemos esquecer
a grande data dia 23 de abril
vamos cantar com alegria e prazer
porque São Jorge é o padroeiro do Brasil




Caso queira ouvir Maria Bethânia cantar Padroeiro do Brasil, procure Brasileirinho, CD da Biscoito Fino, 2003

domingo, 22 de abril de 2007

Registro 50: Art Nouveau

CASA TASSEL - VÍCTOR HORTA


El primer edificio que refleja el código-estilo del Art Nouveau fue esta casa unifamiliar construida en Bruselas por Víctor Horta entre los años 1892-93. Se inserta en un solar estrecho y profundo, entre medianeras ciegas, de manera que recibe luces sólo por los lados más cortos. Para iluminar los ambientes interiores estaba previsto un pequeño recinto de igual forma y dimensiones que el vacío que alberga la escalera principal, iluminada por un gran lucernario y que da lugar a un segundo patio de luces. La estructura es de esqueleto metálico, totalmente visible en el interior, mientras que en la fachada se pone de manifiesto solamente en la parte central acristalada.

La distribución de la casa se realiza en dos sectores:

1.-el servido por la escalera principal, que relaciona el vestíbulo con los dos grandes ambientes superiores con vistas sobre la calle.

2.-el lado del jardín, servido por una escalera secundaria.

El salón, perteneciente a este segundo sector del edificio, tiene una cota superior a la del vestíbulo de entrada, de forma que se obtiene una dinámica del espacio interno que contrasta con la superficie estrecha de la parcela.

El alzado principal repite, como elemento dominante, el bow-window de las casas contiguas. Sin embargo se diferencia sensiblemente de los otros por su desarrollo curvilíneo que, en dos de los tres pisos de la casa, enlaza con los paños laterales del alzado. Este cuerpo central presenta en el primer piso una serie de ventanas separadas por pequeñas columnas de piedra y, en el segundo, balcones altos de forjado a forjado, ligeramente retranqueados y protegidos con una barandilla de hierro. En el tercer piso el bow-window se convierte en una terraza, continuando las tres aberturas, pero ahora en el plano de la pared. Están presentes en la fachada muchos elementos poco corrientes, como las superficies onduladas, las platabandas metálicas vistas, el curioso diseño de la balaustrada, etc. Sin embargo, se han empleado con tal medida que el papel dominante del edificio corre todavía a cargo de los tradicionales sillares de piedra. En el interior se manifiesta más claramente la afirmación de la nueva tendencia figurativa. Un nuevo sentido unitario liga los elementos estructurales a los visuales, en particular, en la escalera principal, que presenta completamente a la vista todo su armazón metálico. De ella se desgajan molduras curvilíneas de hierro para formar barandillas y motivos decorativos; a estos elementos, que determinan con su desarrollo sinuoso una definición muy particular del espacio, corresponden formas análogas trazadas sobre los planos, como el diseño de las vidrieras y de los mosaicos de los pavimentos. Así pues, la articulación cóncavo-convexa propia del gusto del Art Nouveau está presente tanto en el volumen de la escalera y, por tanto, en el vacío del espacio, como en las líneas que la estructuran y también en los puntos del serpenteante mosaico del suelo.

La casa Tassel se considera como la primera obra moderna completamente libre de derivaciones historicistas; como la primera realización arquitectónica donde adquieren un significado expresivo las exigencias constructivas de la nueva técnica del hierro, y como el primer edificio que inspirándose en el código-estilo del Art Nouveau fue un gran promotor de “mensajes”.

Con la Casa Tassel, Horta introdujo el hierro en la vivienda, empleándolo como material de construcción y simultáneamente, para los ornamentos lineales y flexibles; el gran jardín de invierno del piso bajo es sostenido por un esqueleto metálico visto, montantes elegantes soportan la escalera y son típicamente decorativas las barandillas de escalera y bacón.

En esta construcción se comprueban por primera vez en una vivienda, las posibilidades del hierro como material constructivo (el jardín de invierno en la planta baja descansa en una estructura metálica vista y la escalera en una columna de hierro) y ornamental (las barandillas de escaleras y balcones tienen elementos decorativos de líneas cimbreantes). La casa ofrece un inagotable surtido de formas bidimensionales resultado de un estudio minucioso de plantas y flores; suelos, paredes y techos se cubren de “líneas látigo”, también llamadas “líneas Horta”, serpentean, se entrelazan, ondean y ascienden por los montantes del acristalamiento, rodean las patas de los muebles y retornan sobre si; su presencia a veces excesiva, desborda todos los requisitos de la construcción.

Ha de mencionarse, en fin, una característica de esta obra ya subrayada por la crítica de la época: su perfecta adaptación al propietario, el señor Tassel, profesor de geometría descriptiva en la Universidad de Bruselas y colaborador del estudio de la firma Solvay (Hotel construido en Bruselas durante los años 1895-1900). Refiriéndose a esta casa se ha escrito que albergaba del modo más perfecto imaginable al hombre para el que fue construida, de la misma forma en que “la concha del mejillón alberga al mejillón”. Como puede verse, la cultura de gusto figurativo del Einfühlung se convierte también en razón de ser funcional.

sábado, 21 de abril de 2007

Registro 49: Filosofando

A tese de Ivan Karamazov
Antonio Cícero

Longe de ser o fundamento da ética, a fé em Deus é a condição de relativizar a ética. Volta e meia alguém traz novamente à tona a famosa tese de Ivan Karamazov, personagem de Dostoiévski: "Se Deus não existe, tudo é permitido". Acho que muita gente acredita piamente nela e atribui à irreligiosidade da população a constante e inquietante alta dos índices de criminalidade. Será talvez com a intenção de baixar esses índices que os donos ou editores das revistas brasileiras de circulação nacional raramente deixam passar uma semana sem que, ao menos numa das suas revistas, façam propaganda, numa reportagem de capa, da fé e da religiosidade dos brasileiros.Ora, a tese do personagem de Ivan não resiste a um simples experimento de pensamento. Suponha que me apareça Deus e me ordene matar o meu filho (ou mãe, ou pai, ou irmão, ou amante, ou amigo). Que faria eu? Ponha-se o leitor na minha pele. Não tenho dúvida de que a minha primeira reação - a primeira reação de qualquer pessoa que não tivesse perdido o juízo - seria duvidar do que parecia estar vendo e ouvindo. Eu me beliscaria, para saber se não estava sonhando; suspeitaria estar tendo um surto de loucura, um delírio etc. Aquilo simplesmente não poderia estar acontecendo. E não poderia estar acontecendo por duas razões: primeiro, porque Deus não costuma aparecer, pelo menos hoje em dia. Quando alguém diz que conversou com Deus - ainda que quem o diga seja o presidente dos Estados Unidos -, suspeita-se imediatamente da sua sanidade mental. De todo modo, eu não obedeceria.

Mas a segunda razão é ainda mais séria. É que, se isso estivesse realmente acontecendo, então Deus me estaria mandando fazer uma coisa má: uma coisa inteiramente, indiscutivelmente, inapelavelmente errada. Ora, não posso contemplar tal hipótese. Logo, isso não poderia estar acontecendo. Eu pensaria antes que, ou não havia ninguém ali, e eu estava simplesmente a delirar, ou havia alguém de fato ali, mas se tratava de um impostor - talvez até de um demônio -, mas não de Deus, pois seria impensável que Deus me mandasse fazer uma coisa errada: e que coisa poderia ser mais errada do que aquela? Em suma, eu não obedeceria. Mas levemos a coisa ainda mais longe. Suponhamos que, por alguma razão inconcebível, fosse incontornável a evidência de que ali se encontrava Deus. Ouso dizer que, ainda assim, eu não mataria meu filho ou amigo: eu não mataria sequer um estranho. Por quê? Porque seria errado. E seria errado, não por causa dos mandamentos que o próprio Deus decretara, uma vez que, naquele instante, Ele mesmo os estaria revogando, mas simplesmente porque, independentemente de qualquer mandamento, é errado matar uma pessoa. É, portanto, errado matar uma pessoa, ainda que Deus não exista. Logo, ao contrário do que afirma a tese do personagem de Dostoiévski, nem tudo é permitido, ainda que Deus não exista.

O leitor terá sem dúvida lembrado que, na Bíblia (Gn 22), Abraão se encontrou na situação em que me imaginei no experimento de pensamento. Com efeito, Deus pôs Abraão à prova, ordenando-lhe que matasse o seu filho primogênito. Ao contrário de mim (e do leitor que se pôs na minha pele), Abraão se dispôs a obedecer e, quando já havia pegado a faca para sacrificar seu filho, foi impedido por um anjo, enviado por Deus.

Como se sabe, foi sobre esse episódio que Kierkegaard escreveu as páginas impressionantes de "Temor e Tremor". Nelas, ele mostra que, do ponto de vista puramente ético, não se justificaria a prontidão de Abraão. Só a fé - superior, segundo Kierkegaard, à ética, por constituir uma relação individual e absoluta com Deus - justifica a atitude de Abraão. Desse modo, graças à religião, a esfera da ética é relativizada pela da fé.

Sendo assim, devemos inverter a tese de Ivan Karamazov: não só não é verdade que, se Deus não existe, tudo é permitido - já que, como vimos, não é permitido matar -, mas, ao contrário, é se Deus existir que tudo é permitido. Longe de ser o fundamento da ética, a fé em Deus é a condição de relativizar e, no limite, negar a ética. Isso lembra as palavras do físico norte-americano Steven Weinberg, detentor do Prêmio Nobel de Física: "Com ou sem religião, as pessoas bem-intencionadas farão o bem e as pessoas mal-intencionadas farão o mal; mas, para que as pessoas bem-intencionadas façam o mal, é preciso religião".
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Ilustrada, Folha de S. Paulo, 21 de abril de 2007


Registro 48: Fragmento


A MULHER QUE MATOU OS PEIXES

Clarice Lispector

Agora vou falar sobre bichos convidados, igual ao meu convite para vocês. Às vezes não basta convidar: tem-se que comprar.

Por exemplo, convidei dois coelhos para morar com a gente e paguei um dinheiro ao dono deles. Coelho tem uma história muito secreta, quero dizer, com muitos segredos.

Eu até já contei a história de um coelho num livro para gente pequena e para gente grande. Meu livro sobre coelhos se chama assim: “O mistério do coelho pensante”. Gosto muito de escrever histórias para crianças e gente grande. Fico muito contente quando os grandes e os pequenos gostam do que escrevi.

Se vocês gostam de escrever ou desenhar ou dançar ou cantar, façam porque é ótimo: enquanto a gente brinca assim, não se sente mais sozinha, e fica de coração quente.

Voltando aos coelhos, tem gente que come coelho. Eu não tenho coragem porque é como se eu comesse um amigo. Os dois coelhos que tivemos em casa eram meus amigos.

Também tivemos aqui em casa dois patos comprados que andavam o dia inteiro atrás da gente com aquele modo engraçado de andar, e pensando que a gente é mãe deles. Quando eu encontrar vocês, vou imitar o modo de andar dos patos.

Outro bicho que pensa que a gente é a mãe deles é qualquer pinto. Nesse ponto o pinto é igual a gente: fica com saudade do calor da galinha-mãe. O que a gente pode fazer de bom para um pinto que fica piando e chorando de saudade é segurá-lo na mão e esquentar o corpo dele. Quando a gente pega neles a gente sente o seu minúsculo coração batendo dentro do pequeno corpo fofo e morno deles. Embaixo das penas macias sentem-se os ossos bem finos das costelas deles. Pinto é sempre magrinho. E, longe da galinha, morre à toa.



LISPECTOR, Clarice. A mulher que matou os peixes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1983, pp. 19, 20.

sexta-feira, 20 de abril de 2007

Registro 47: "Sentir tudo de todas as maneiras"

ANIVERSÁRIO

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos

No Tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há século,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião
qualquer.

No Tempo em que festejavam o dia do meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui e suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através
das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica a carnal,
Como uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos
dentes!

Vejo tudo outra vez com a nitidez que me cega para o que há
aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra
Debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se os dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...


O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...


PESSOA, Fernando. Aniversário. In: Obra completa: ficções do interlúdio, poesia de Álvaro de Campos. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003, p.379-380.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Registro 46: Belo cartaz

Registro 45: Pinturas, 1999

Nanã

É Fogo

Bananbandeira

Retalhos


As imagens foram produzidas por mim, Raimundo Matos de Leão e podem ser reproduzidas, desde que se faça o registro da autoria. Nanã e Retalhos são desenhos digitais. É Fogo e Bananbandeira são trabalhos produzidos com caneta hidrocor. Eles fazem parte de uma série destinada a estamparia de camisetas, mas o projeto não se realizou. Os trabalhos pertecem ao acervo pessoal do autor, agora disponíveis na Internet, com registro reconhecido.

quarta-feira, 18 de abril de 2007

Registro 44: Pintura digital

Pra Oxum
Raimundo Matos de Leão
Digital, 1999

terça-feira, 17 de abril de 2007

Registro 43: Em cena...


Um Beijo, Um Abraço, Um Aperto de Mão
Peça de Naum Alves de Souza
Versão masculina
Estréia em 1984 no Teatro Maria Della Costa, São Paulo.
Elenco:
J.C Violla: Moço
Hugo Della Santa: Irmão
Raimundo Matos: Pai, Coveiro
Maria Luísa Jorge: Cunhada, Morte
Teresa Freitas: Mãe, Aluna/Esposa
Cristina Mutarelli: Irmã morta, Tia velha
Volnei Bukvar: Namorado da irmã
Equipe Técnica
Direção e Cenografia: Naum Alves de Souza
Figurinos: Leda Senise
Trilha sonora e Preparação vocal: Samuel Kerr
Iluminação: Abel Kopanski
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Para conhecimento do texto, conferir: SOUZA, Naum Alves de. Um beijo, um abraço, um aperto de mão. In: Naum Alves de Souza: teatro. Coimbra, Portugal: Cena Lusófona, 2005.